quarta-feira, 13 de julho de 2011

Capítulo 110 – Amar a 628 Km de distância também é amar (Parte VI)



A pequena Sofia acabou por regressar para o meu colo e foi aí que tomou lugar para darmos início à refeição. Como entradas a Brenda preparou um rodízio de todo o tipo de marisco, o que noutra altura me teria deixado radiante, naquele momento pouco me importou. A vontade que tinha de comer era nula e apenas o fazia por questões de sobrevivência e por grande insistência de Paula.

- Mad’inha, estás tão t’iste, é po’que o Caracole não está cá?

- Não, amor… A madrinha só está cansada, só isso… - a minha mão delineou uma carícia na bochechinha dela

- O Caracole! – exclamou num tom de voz aberto e sorrindo

- Não, amor… É mesmo só cansaço!

- Não é isho, mad’inha… O Caracole, está cá! – ela deu um pulo do meu colo e desatou numa correria frenética pelo jardim

Bastou-me segui-la com o olhar e o meu coração perdeu o ritmo, pois ali, bem perto, prostrava-se David. Este segurou-a no colo, com todo o carinho do mundo, como já era hábito seu.

- Oioi, garotinha! – os lábios dele, deram um ligeiro toque na face direita dela

- Oioi, mulecão! – a menina cumprimentou-o e ambos se riram com as palavras dela, pois sempre fora o jeito deles se saudarem 

- Como cê tá?

- Bem e tu? – ela passou as suas mãos pequeninas pelo rosto nele e tenho de admitir que senti inveja de não o puder fazer mais

- Tô bem… - vi-o forçar um sorriso e ainda nem se tinha apercebido da minha presença, pois aí as coisas iriam piorar

- Os teus olhos… - a pequenina parou para o encarar – Não brilham mais, estão tristes… - um beicinho sereno delineou os delicados lábios de Sofia

- É a vida, moçinha… - ele deu-lhe um beijinho na testa e avançou na direcção da mesa, mantendo a menina no seu colo - Alô gente, boa tarde! – a voz dele inundou todo o espaço circundante e apesar de ele não me ter visto logo, todo o meu corpo gelou

O meu olhar prendeu-se rapidamente no de Paula, pois ela garantira-me que ele não iria estar ali. Senti um nó enorme formar-se no meu estômago e por uma questão de segundos, o meu coração perdeu a vida.

- E aí, mano? Sempre vieste… - Ruben deu-lhe um aperto de mão e sorriu

- Sim, sempre é melhor que ficar fechado em casa, né?

- Sim, é isso mesmo! Estavas a precisar de sair…

- Se senta, Davi’! Ainda vem a tempo do almoço! – a Brenda esboçou um enorme sorriso enquanto colocava na mesa mais um prato para ele

Finalmente o olhar dele cruzou o meu, um fogo ardeu dentro de mim e quase me queimou de tanta dor. Acho que nunca havia sentido nada assim… Um laivo de tristeza, com toda a certeza, pintou os meus olhos e estes fixaram-se na mesa, quando se tornou impossível encará-lo mais. Porém ele nem se moveu, ficou ali a olhar-me, enquanto todos os outros o faziam. Olhavam-nos esperando qualquer reacção, provavelmente uma discussão, mas essa nunca chegou a acontecer… Ele sorriu cordialmente a Brenda, como que agradecendo o lugar posto na mesa e com a pequena Sofia no colo, ocupou-o, sem me olhar mais ou proferir qualquer palavra.

- Davi’, quer sumo de laranja ou cerveja? – questionou Luisão

- Cerveja, por favor…

Aquela resposta provocou-me alguma estranheza, pois ele raramente bebia álcool, muito menos num almoço de amigos e tão pouco cerveja. Apesar de toda a admiração que o pedido dele me possa ter causado, não ousei sequer olhá-lo, nem por um segundo que fosse… Todos naquela mesa sabiam do sucedido e como me senti muito envergonha por o ter deixado, baixei a cabeça e assim permaneci durante toda a refeição.

- Olha lá, David… Porque é que não trouxeste os teus pais? – o Ruben nunca se conseguia manter calado, apesar de serem horas de comer e não de conversar

- Meus pais foram almoçar na casa de uns amigos…

- Que amigos, mano?

- O Sr. Francisco e a Dona Isabel… - quando ouvi o nome dos meus pais, e apesar de ter os olhos presos ao prato na minha frente, estes esbugalharam-se em sinal de admiração

- Foram almoçar juntos? – questionou o Ruben, tão surpreso quanto eu

- Sim, foram… Na casa deles! Queriam estar juntos antes da gente ir embora pra semana…

- Hum, tá bem… - o Ruben e eu trocámos um olhar surpreso, mas porém discreto

- Mad’inha… - a voz da Sofiazinha despertou-me

- Diz, meu amor… - fiz-lhe um carinho nas faces e esta saltou para o meu colo

- Não go’to de te velhe ashim t’iste…

- A madrinha não está triste, isto já passa, sim? – dei-lhe um pequeno toque de lábios na testa e ela aninhou-se no meu corpo

- Vocês não estão mais juntos, num é? – a menina falou baixinho e olhou-me

- É, meu amor… É isso…

- A mamã disse que ele vai embolha…

- Vai, meu anjo… Ele vai embora…

- É por isho, que vocês acabalham?

- É Sofia linda, é por isso… - mantivemos o tom de voz baixo, para mais ninguém ouvir a nossa conversa

- Ele vai para onde?

- Para Madrid, meu amor… Para Madrid… - respondi num sorriso triste e por minutos a menina ficou em silêncio digerindo tudo

- Mamã, Madrid fica muito longe? – questionou Sofia, olhando Brenda e todos na mesa pararam para a observar

- Um pouco, meu anjo…

- Quão longe, mamã?

- 628 km, meu anjo! – ela sorriu e continuou a comer a sobremesa

Um silêncio arrebatador dominou todos os presentes e um sofrimento delineou os rostos de que era mais próximo a mim e a David, o que era o caso de Paula e Roberto. Admirei Sofia alguns segundos e fui-lhe fazendo pequenas festas nas faces rosadas pela tenra idade, mas foi quando ela se desprendeu do silêncio, que proferiu algumas das palavras mais sábias que alguma vez ouvira na minha vida, e vindas somente de uma menina de 3 anos…

- Shabes, Ad’iana… Amar a 628 km de distância, também é amar… - proferiu num tom perfeitamente audível a qualquer dos presentes

Mesmo que lhe quisesse ter respondido, o que não era de todo o caso, a televisão do pequeno alpendre anunciou uma série de notícias do Benfica e assim que a imagem do presidente surgiu todos se silenciara o volume subiu.

“ – Sr. Luís Filipe Vieira, quando é que o Benfica irá fechar o negócio com o Real Madrid por David Luiz?

- O Benfica não fechou, nem irá fechar negócio com o Real Madrid por David Luiz…

- Mas membros da equipa madrilena afirmam que há negócio em vista e o jogador declarou disponibilidade para sair…

- O David é e continuará a ser jogador do Sport Lisboa e Benfica, durante esta época… Ele tem um contrato firmado por mais 3 anos e tudo implica que irá cumpri-lo!

- O Real Madrid não atingiu o valor pretendido pela SAD encarnada?

- Não é uma questão de valores… O David Luiz simplesmente não está à venda por esta época! O treinador precisa do jogador e este solicitou-me a sua permanência no clube!

- Mas David Luiz afirma querer sair do clube…

- O David não afirmou nada, tudo o que vi até agora foram rumores em páginas dos jornais, eu conversei com ele e o assunto está resolvido…

- Conversaram sobre o quê?

- O David pediu-me para ficar no clube…

- A permanência foi negociada através de um melhoramento de ordenado?

- Lamento, mas o teor da conversa só interessa ao clube… Apenas posso dizer que o David Luiz irá ficar na Luz esta época e que o único negócio com o Real Madrid é o de Di Maria, que hoje viaja para a capital espanhola… Não tenho mais nada a dizer, com licença… “

A notícia teve fim e o repórter seguiu com o noticiário, dando conta de outros acontecimentos banais e próprios de um país pequenino como Portugal. E que sentido tinha aquilo? Que sentido tinha eu ter deixado David, para depois estar a ver aquilo na televisão? O David continuou a comer sem pronunciar uma palavra e o olhar de Paula e Ruben tocou o meu numa típica expressão de “Eu bem te avisei…”
Sim, eles tinham-me avisado, mas naquele momento já era tarde mais para qualquer acção, que não de arrependimento…

- Vais ficar, Caracol? – os olhinhos de Sofia brilharam e ela correu para os braços dele

- Vou garotinha, vou… - ele sentou-a no seu colo e não demorou menos de nada até ela o abraçar fortemente

- Ai, adoro-te, caracol… Adoro-te… - todos sorriram com aquele acto de carinho

- Eu também adoro você, garotinha… - ele sorriu meigamente e deu-lhe um beijinho na testa

Acho que ninguém na mesa se importou em como eu me estava a sentir, apesar de puderem ter pensado no assunto. A única pessoa que esboçou qualquer preocupação foi Paula, que ao sentir que não encarava ninguém, me deu um leve toque com o pé debaixo da mesa.

“Então, amor?” – gesticulou com os lábios

Limitei-me a assentir positivamente com a cabeça, num sinal de que estava tudo bem e montei o melhor sorriso que consegui. O meu telemóvel tocou e no ecrã vi o nome da minha mãe, o que me serenou o coração naquele momento.

- Com licença… - pedi e levantei-me caminhando para uma zona mais afastada do jardim – Olá, mãe linda…

- Olá, meu anjo, como estás?

- Bem e a mãe?

- Bem também… Estás num almoço em casa do Luisão?

- Estou, como sabe?

- Não sabia, mas estou com os pais do David e quando eles me disseram que o David tinha ido, pensei que também o podias ter feito e fiquei preocupada… Por isso é que te liguei!

- Não fique, mãe… Eu estou bem, pelo menos o melhor que é possível, tendo em conta a tortuosa presença dele…

- Viste o noticiário? O presidente falou aos jornalistas…

- Sim, eu vi… Quer dizer, todos nós vimos agora mesmo… - levemente solucei, ficando com os olhos rasos de lágrimas, mas nenhuma caiu devido ao meu orgulho

- Ele vai ficar, filha… Se calhar foste precipitada…

- Sim, agora vejo que fui, mas é tarde para voltar atrás, mãe…

- Mas não é tarde para falares com ele, pedir desculpa…

- Eu conheço o David, ele nunca me irá perdoar, mãe…

- Claro que vai, meu amor… Quem ama, acaba sempre por perdoar de alguma forma…

- Não me parece, mãe… Aquele David ali dentro é diferente daquele que um dia conheci, parece mais amargurado… - deixei de ouvir a minha mãe e o telemóvel deu sinal que a chamada tinha caído – Que treta! – refilei comigo mesma e com o pequeno aparelho electrónico

- Nisso cê tem razão… - a voz dele surgiu nas minhas costas e estanquei completamente – Esse Davi’ não é mais o mesmo…

- Não sabia que estavas aí… - disse muito calmamente, virando-me de frente para si e desposta a finalmente encarar o problema

- Estava, vim só ver você se contorcendo de culpa por me ter deixado, por me ter humilhado daquele jeito! – ele falou num tom de deboche, que eu lhe desconhecia totalmente

- Eu sei que errei, eu pedi desculpa na carta e não sabes como me custou fazer aquilo… - argumentei a meu favor

- Ah é? Pô, tô cheio de pena de você… O largado fui eu, a humilhação em frente dos meus pais foi minha, mas cê é que a pobre coitadinha, tem razão!

- David, não me fales assim! – os meus olhos ficaram rasos de lágrimas e o meu coração apertadinho, pois nunca havia visto David daquele jeito – Não sou nenhum animal, tenho sentimentos, bolas!

- Porque é que eu me hei-de importar com seus sentimentos se você está nem aí pros meus?

- Pára com isso, tenta compreender-me… - as primeiras lágrimas rolaram-me pela face e morreram nos meus lábios cerrados de tanta amargura na voz dele

- Não me pede pra te compreender, porque sinceramente é isso que eu tenho tentado fazer esses dias e quer saber? Não consigo… Não tem compreensão possível! Cê brincou com meus sentimentos, cê me machucou… Cê falou que ia ficar comigo e na primeira oportunidade me deixou… Com uma carta! – acusou num tom de voz mais exaltado e com os olhos vermelhos de tanta raiva

- Só usei a carta, porque não era capaz de acabar contigo cara a cara, sabendo que te ia magoar do jeito que magoei…

- Cê pode ter muito defeito, mas cobarde eu não sabia que cê era… - falou com algum sarcasmo

- Não é cobarde, é humana! – gritei e ficámos ambos em silêncio durante alguns segundos olhando-nos, enquanto as lágrimas persistiam em percorrer as minhas bochechas – Bolas, David… Eu sei que errei, acredita que tive a plena noção disso, antes mesmo de ter escrito aquela maldita carta, mas se o fiz, foi porque te amo… Porque te amo e não ia aceitar que dissesses adeus a um sonho de menino, para ficar comigo em Portugal!

- Então nisso cê pode ficar sossegada, não fiquei por sua causa… Fiquei por mim!

- Pronto, ficaste por ti, por mim eu nunca aceitaria! Só queria que fosses feliz…

- E eu era feliz, antes de cê ter acabado comigo… Aí eu era muito feliz!

- Já pedi desculpa… Será que não podes aceitá-las e seguir em frente com isto?

- Cê tá achando o quê? Que agora como eu não vou mais embora, eu jogo aquela carta no lixo, esqueço o que aconteceu e contínuo do seu lado?

- Não é isso que vai acontecer? – questionei, quando senti o órgão vital que me mantém viva mirrar no lado esquerdo do meu peito

- Óbvio que não… Não consigo perdoar você! – gritou com as primeiras lágrimas a correrem pelo rosto

- Mas nós podemos tentar, eu amo-te e tu amas-me…! – supliquei desesperada, segurando-o pela gola da t-shirt

- Não… Eu um dia amei você! Amei a Adriana corajosa, destemida, que ficava do meu lado pra tudo, que dava tudo por mim, agora essa Adriana sumiu…

- Não, não! Ela continua aqui, eu estou aqui, David! – bati levemente no meu peito, mas voltei a segurá-lo para perto de mim recorrendo à sua gola

- Não, não dá mais… Um dia o Davi’ amou você, mas também não foi esse Davi’ daqui… Esse é um Davi’ novo, um Davi’ muito machucado, um Davi’ que não consegue mais amar você… Que não consegue, nem quer! – ele retirou as minhas mãos de cima do seu corpo e afastou-me com uma enorme indiferença em cada movimento seu

- Não, por favor… Por favor… - eu entrei em total desespero, não me queria humilhar, mas também não o queria perder – Não faças isso, eu amo-te, David! O nosso amor não pode acabar assim… Sempre fomos loucos um pelo outro, super apaixonados…

- Disse bem… Fomos! Eu não sou mais…

- Como não? O que é que queres dizer com isso?

- Acabou, Adriana… Acabou!

- Não, não, por favor! – os gritos desesperados que soltei ouviram-se por todo o jardim, pois o burburinho animado que provinha do alpendre deixou de se ouvir

- Adriana, não arma barraco… Aceita que acabou e segue sua vida!

- Eu amo-te, nós estamos muito apaixonados, David… Não digas que não me amas mais! – implorei sentindo todas as partes de mim morrerem

- Mete uma coisa na sua cabecinha: a paixão acabou!

Aquelas palavras embateram de frente contra mim, fazendo-me despistar do meu caminho. Daquela vez não perdi o controlo, não gritei, não implorei…
A seriedade que ele usou para falar, fez-me perceber que falava muito a sério e como ele mesmo solicitara, eu não ia fazer nenhum barraco. Limitei-me a olhá-lo, ainda com as lágrimas a correrem-me pelas faces. Ajeitei as minhas roupas, passei os dedos trémulos nas maças do rosto e encarei-o cheia de força. Era altura de me despedir e para isso limitei-me a usar um curto olhar. Curto, mas sentido… E não correspondido. Virei-lhe costas e preparei-me para regressar à mesa, mas algo me fez parar antes.

- David, só mais uma coisa… - chamei-o, virando-me novamente de frente para ele

- Fala… - disse friamente, pois devia estar à espera que eu implorasse novamente pelo seu perdão

– Se me esqueceres, esquece-me bem devagarinho… - disse calmamente e retomei o meu caminho na direcção da mesa

Fiz aquele pedido porque sabia que o sentimento que ele negava sentir ia acabar por consumi-lo de tanta dor e sofrimento, assim como me estava a consumir naquele mesmo momento. Ele olhou-me um pouco surpreendido, mas mais do que isso, magoado, muito magoado, pelo menos bem mais do que eu esperava.
Aproximei-me da mesa, segurei a minha mala e forcei um sorriso, que era largamente denunciado pelos meus olhos vermelhos de lacrimejar.

- Obrigada pelo almoço Brenda, mas tenho de ir… - lamentei-me educadamente

- Mas já? – questionou um pouco desiludida

- Sim, desculpa… - olhei Paula, que expectante assistia à conversa – Mas acabou… - disse indirectamente referindo-me a David e assim acabei por responder ao que Paulinha tanto queria saber – Boa tarde a todos!

Atravessei o jardim, indo na direcção do portão e à medida que me ia aproximando dele, as minhas passadas iam ficando mais largas e mais desesperadas, na procura de um porto seguro, onde pudesse extravasar tudo aquilo que estava a sentir. Assim que me encontrei na rua, encostei-me a um poste e chorei desalmadamente. Não sei precisar quantos minutos ali fiquei, mas quando as lágrimas secaram, ergui a cabeça.
Não adiantava mais chorar por uma pessoa que não ia voltar, não adiantava mais lamentar-me por ter feito o que fiz ou desejar não tê-lo feito. Era hora de virar a página, ensaiar o sorriso mais bonito, recompor o coração e ensiná-lo a bater novamente.

***

(David)

Naqueles dias me reuni com o presidente do clube e somente expressei a minha vontade, que agora nada tinha a ver com Adriana, mas somente com minhas decisões profissionais. Meus pais me deram o maior apoio e não me deixaram sozinho nem um minuto, mas tiveram de sair para ir almoçar em casa dos pais de Adriana, apesar de tudo eles eram amigos e assim devia continuar sendo apesar do fim do nosso relacionamento.
Acabei indo na casa do Lu e da Bre, num almoço com a galera toda, me tinham garantido que ela não ia estar lá, mas ainda que tivesse, alguma hora a gente ia ter que se enfrentar e infelizmente essa hora chegou mais cedo… O almoço foi estranho para todos e quando ela se afastou para atender um telefonema, segui ela.

- David, vais onde? – perguntou a Paula segurando meu braço

- Acertar umas pontas soltas, não se preocupa, vai ficar tudo bem…

Ela me soltou e eu fui pra junto de Adriana. A conversa não podia ter sido pior, tive de me montar de forte e indiferente, mas por dentro estava morrendo por a estar magoando daquele jeito… Mas depois da dor que ela me havia feito sentir, aquilo não era nem de perto suficiente e ataquei num ponto que apesar de ser mentira, ia abalar de vez com ela… “A paixão acabou…”, relembro que foram exactamente essas as palavras que fizeram ela me olhar e desistir, me deixou ali sozinho, mas não sem antes fazer um último pedido.

- David, só uma coisa… - me chamou, se virando novamente de frente para mim

- Fala… - disse friamente, pois estava à espera que ela implorasse novamente pelo meu perdão

– Se me esqueceres, esquece-me bem devagarinho… - disse calmamente e retomou o meu caminho na direcção da mesa

Fiquei num pranto desesperado, era tudo o que eu menos queria, mas que sabia que ia acontecer… Esquecê-la bem devagarinho, na pior das hipóteses, nunca a esquecer! Fechei meus olhos e as lágrimas correram a fio, tinha dito aquilo somente para a magoar, mas infelizmente aquilo me estava machucando também.

- Dê… - a voz de Paula trepidou pelo ar e me obrigou a abrir os olhos, mostrando pra ela o meu estado – Oh meu amigo…

- Paulinha… - tentei chamar por ela, mas minha voz vacilou e acabei chorando

- Vem cá, Dê… - ela abriu os braços e me aninhou junto do seu corpo e confortando

- Ai, acabou… Acabou… - sussurrei, desejando no mais íntimo de mim estar vivendo um pesadelo

- Eu sei, eu sei… Tem calma… - ela passou suas mãos nos meus cabelos, sem nunca me soltar do seu abraço tranquilizante

Tinha perdido ela, em parte por escolha própria, mas não dava mais pra seguir amando, ou pelo menos, eu é que não tinha mais forças para isso… Pelo menos não com ela!



Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem!
Não se esqueçam de comentar, pois é muito importante saber o vosso feedback! :)
Beijinhos
Drii
 
 
P.S - Para quem perguntou nos comentários do capítulo anterior, a música chama-se "Set Fire to the rain - Adele" :)

terça-feira, 12 de julho de 2011

Capítulo 110 – Amar a 628 Km de distância também é amar (Parte V)


(David)
As chaves de casa que eu tinha dado para ela estavam pousadas em cima de um envelope branco. Fiquei confuso, mas segurei ele e abri, mas mal comecei lendo, as lágrimas se precipitaram pelo meu rosto.

“Meu amor,
Grandes pessoas, têm grandes sonhos.
Grandes pessoas, seres humildes, maravilhosos… Grandes pessoas como tu!
Nasceste com um propósito, uma razão… Para seres campeão, fazeres felizes as pessoas que te vêm jogar e mais do que um clube, representares uma nação. Para saíres do pequeno clube na tua cidade natal e fazeres voos mais altos…
O Benfica acolheu-te no seio de uma grande família e levou-te alto, meu pequeno grande campeão nacional! Mas agora que deste mais um passo é tempo de crescer, voar mais alto e obter maior projecção profissional. E acredita que ninguém merece tanto isso como tu, David… E há quem diga que jogadores como tu há muitos, eu digo: jogadores há muitos, como tu não há nenhum!
Nunca deixaste que o sucesso e a fama apagassem a tua humildade e simplicidade que tão bem herdaste dos dois seres maravilhosos que Deus te deu como pais.
Até agora ainda não deves ter percebido nada, mas dá-me tempo… Só mais algumas linhas! Só para eu me puder explicar correctamente, sem te magoar a ti nem a mim, mas principalmente a ti…
As especulações sobre a tua venda têm aumentado e eu fico muito feliz por ti, muito orgulhosa do meu mulecão! Mas como disse, grandes pessoas têm grandes sonhos e precisam de grandes pessoas do seu lado para os concretizar… E eu apercebi-me que talvez não seja uma pessoa grande o suficiente para o teu sonho. É como o teu pai disse uma vez: a mulher certa para ti tem de estar disposta a trilhar o caminho contigo, e talvez eu não esteja… Não desta maneira… E tu mereces a mulher certa e não podes, nem deves, contentar-te com menos que isso!
Sei que vais achar que sou egoísta, mas a verdade é que eu também tenho sonhos, grandes sonhos… E não sei se estou disposta a trocá-los pelos teus.
Agora deves estar a achar que não te amo porque não sou capaz de me sacrificar a mim e aos meus sonhos, mas a verdade é que te amo muito, às vezes até mais do que aquilo que eu julgava possível para uma pessoa só… Mas os meus sonhos estão aqui, a minha vida é aqui. E eu não te posso pedir que fiques, nem o irei fazer pois é injusto. Sei que estás a considerar ficar e até falaste com o presidente expressando essa vontade, mas não vou deixar que o faças, pelo menos não por mim… Oportunidades como esta só surgem uma vez na vida e tu tens de a aproveitar! Arrisca e atira-te de cabeça, amor!
Eu acredito que vais conseguir… Consegues sempre…
Isto é só mais um desafio e tu és o meu furacão, a minha força da natureza!
Sei o que isto significa para ti… É a concretização de mais um sonho de menino e não acho correcto desistir ou adiá-lo por mim. Prefiro privar-me do teu amor, do que privar-te da tua oportunidade de ser feliz.
É por te amar tanto que tomo esta decisão…
Antes que sejas vendido e fiques a odiar-me por não ir contigo, antes que a distância atire a nossa relação para a rotina, antes de nos odiarmos e apagarmos a nossa história e o nosso amor… Antes de tudo isso eu tomo esta decisão e afasto-me…
Liberto-te assim para viveres os teus sonhos, mas preservo o nosso sentimento, ainda que não possa ser vivido.
Por isso não me odeies, não me procures ou venhas atrás de mim para dificultar uma decisão que por si só já se tornou difícil…
Vai simplesmente atrás do teu sonho e guarda sempre aí, num cantinho especial do teu coração, todas as memórias de nós…
Lamento que as coisas acabem assim porque noutras circunstâncias teríamos sido perfeitos um para o outro.
Não imaginas como me custa escrever esta carta sabendo que em breve vais deixar de ser meu… Já tenho saudades e ainda nem te foste embora!
Espero que algum dia me possas perdoar por ter acabado as coisas assim, pois eu jamais serei capaz de me perdoar a mim mesma por o ter feito, especialmente por o estar a fazer desta maneira, por carta… Mas a tua voz ter-me-ia feito mudar de ideias e mais tarde ou mais cedo chegaríamos na mesma a um fim… Ao nosso fim! Ambos magoados, ambos a odiarmo-nos… E já que tem de chegar a um fim, ao menos que acabe da melhor forma possível, com as melhores recordações, as mais felizes…
O meu coração irá sempre pertencer-te e eu serei para sempre só tua… Mesmo que não estejamos juntos!

Sê feliz, meu anjo!

Até sempre,
Adriana“


Nesse instante minhas pernas perderam a força, meu coração parou de bater e meus olhos ficaram vermelhos de tanta raiva que estava sentindo.
Fui correndo no quarto, abri o armário e as coisas dela tinham sumido. Suas roupas não estava mais lá, a camisola que deixava sempre no fundo da cama tinha desaparecido, sua escova de dentes não ocupava mais espaço no copo do banheiro…

- Não, não, não… - fui dizendo enquanto verificava que ela não tinha deixado nada

Nada! Nada que me pudesse provar que ela tinha sido real na minha vida… Nada que me pudesse provar o quanto havia sido feliz em seus braços… Regressei à sala e me sentei no sofá, esfregando freneticamente meus cabelos, não acreditava que aquilo estava mesmo acontecendo.

- Meu filho, que é isso? Tá bem? – minha mãe me tocou no rosto levemente

- Odeio ela, odeio ela, odeio ela… - ciciei para mim próprio e me ergui do sofá num laivo de raiva enorme

- Calma, meu filho… Que tá acontecendo? – minha mãe procurou me acalmar e entender a razão de tanta revolta

- TERMINOU COMIGO! ELA TERMINOU COMIGO! – gritei fortemente enquanto as lágrimas caíam por minhas faces

- Se acalma, Davi, por favor… - pediu o meu pai, completamente transtornado por me ver daquele jeito

- ODEIO ELA, ODEIOOO! – num impulso, derrubei tudo o que havia sob o móvel aparador junto da parede da sala e meus pais estremeceram com o barulho

Me encostei na parede e fiquei olhando tudo o que estava jogado no chão. Ela tinha acabado comigo, porque havia a possibilidade de eu abandonar o clube, hipótese essa que eu tinha excluído faz tempo para puder ficar com ela em Portugal. Me senti lixo, senti que não valia nada e que o que havíamos vivido era somente um sonho, que agora se tornara pesadelo…

- David, fala para a gente, meu filho… - minha mãe se aproximou calmamente, meio a medo, como se eu fosse algum monstro

- Acabou, mamãe… Acabou… Ela terminou comigo! – joguei a carta nas mãos da minha mãe, provando aquilo que eu acabara de falar

Meu pai se aproximou dela e, meio a custo, leu juntamente com minha mãe cada palavra que Adriana escrevera naquela maldita carta. Ao fim de alguns minutos, durante os quais chorei silenciosamente contendo a minha revolta, eles me olharam, com um enorme sofrimento.

- Oh, meu filho… - minha mãe largou a carta e me abraçou, tal e qual como eu precisava de ser abraçado num momento como aquele – Não chora não, meu amô… Não chora…

- Me deixou, mãe… Eu amo ela e ela me deixou… - desatei chorando como se fosse um menino pequeno e minha mãe me arrastou nos seus braços, até ficarmos os dois sentados no sofá

Chorei… Chorei muito durante algumas horas e sempre no conforto dos braços de uma das mulheres que eu mais amava no mundo. Eu tinha a certeza que podia amar Adriana, até mesmo por toda a vida, mas naquele momento, a estava odiando com todas as minhas forças…



***


(Adriana)

Acordei numa cama vazia, do meu lado esquerdo um bilhete dele dizendo que iria comprar pão para o pequeno-almoço. Rapidamente me levantei e de sangue frio, consegui arrumar tudo aquilo que era meu e se encontrava espalhado pela casa. Na minha cabeça estava muito certa de uma coisa: eu não ia ser impedimento para o sonho de David.
Depois de guardar tudo numa mala, prendi a Quimera pela trela e levei-a até à sala. Foi aí, que em frente a uma folha de papel e uma caneta, sentada na mesa, iniciei a despedida mais dolorosa da minha vida.
Assim que comecei a escrever, senti as lágrimas molharem-me a face e imediatamente um nó formar-se no meu coração, imaginando-o a ler aquilo. À medida que caminhava para as últimas palavras, o choro foi progredindo levando-me ao desespero, que culminou quando duas lágrimas fartas, embateram contra o papel, borrando a tinta da minha assinatura.
Não havia mais nada a fazer, nem outra decisão a tomar… Coloquei a carta dentro de um envelope, pousei-a em cima da mesinha do telefone e sobre ela, as chaves de casa dele que me tinha dado.
Segurei a Quimera pela trela, agarrei na minha mala e saí.
Eu sabia que por muito que aquilo doesse, era a decisão certa a ser tomada e somente o fazia pelo bem dele, porque o amava mais do que à minha própria vida e sabia como ele queria ver aquele sonho realizado. Demorei muito tempo a chegar até ali, até alcançar o topo… A conquistar David, a admitir o que sentia por ele, a aceitar que ele me amasse… Demorei tempo até me entregar de novo e aprender a amar ainda de coração magoado, mas naquele momento tudo se destruiu e se Deus criou o mundo em sete dias, eu em sete minutos destruí o meu…


***


Naquele dia, não recebi nenhuma notícia de David, o que já era de esperar, pois ele devia estar muito magoado comigo. Tinha a sua razão, mas eu tinha a minha… Apenas o fizera, para o puder libertar para o seu maior sonho, e só esperava não ter errado… Só esperava não ter feito nenhum disparate.
Passei a manhã do dia seguinte deitada na cama, e como na noite anterior tinha chorado tanto, já não me restavam nem forças, nem lágrimas para chorar mais o que fosse.
Olhei para a mesa-de-cabeceira e vi uma moldura com uma foto minha e dele. Segurei-a e atirei-a para dentro da gaveta superior, pois ser confrontada a toda a hora com aquelas memórias, estava a matar-me por dentro.
Os meus mais profundos pensamentos foram interrompidos pelo barulho da campainha a tocar incessantemente e de forma descontrolada. Tive de me levantar e ir abrir, pois Bianca não estava, tinha passado mais uma noite em casa de Salvio.

- JÁ VAI, JÁ VAI! – gritei tentando acalmar, quem do lado de fora continuava a tocar sem parar

Espreitei pelo óculo da porta e vi a Paulinha, sempre muito bem arranjada, com um vestidinho leve e fresco, típico do Verão e com os longos cabelos amarrados. Com um sorriso abri a porta na esperança de encontrar conforto nos braços de uma amiga, uma das mais importantes e especiais, mas a reacção foi bem diferente do que estava à espera.

- Bom dia, amor! – cumprimentei com um sorriso rasgado nos lábios

- O que raio te passou pela cabeça? – ela entrou pela casa a dentro disparada e falando num tom alterado

- Ei, ei! Calma… Que raio se está a passar? – fechei a porta e segui-a até à minha sala de estar

- O que é que se está a passar? Eu não sei, mas enquanto estás aqui no teu mundinho perfeito, lá fora há uma pessoa de rastos, porque foi deixado!

- Estás a falar de quem?

- Do David, Adriana! Quem mais havia de ser? Deixá-lo e ainda por cima com uma carta? Não conseguias ser mais cobarde que isso? – gritou-me em forma de censura

- Não fales assim comigo, Paula… Ninguém tem o direito de me julgar, muito menos tu!

- Eu tenho! Eu tenho, porque vim agora de casa do David e vi o estado em que ele está! Diz-me só onde é que estavas com a cabeça!

- Ele ia ficar por minha causa, amor! Eu não podia deixar… - falei de forma compreensiva, rezando para que ela compreende-se

- Desculpa lá, Adriana, mas não consigo compreender… Ainda por cima, uma carta? O David não merecia mais do que isso? Tens a noção do que ele sofreu quando chegou a casa e encontrou a carta? Quando procurou as tuas coisas e não encontrou nada? E ainda por cima a vergonha que passou porque os pais estavam com ele? Imaginas a dor que ele sente por se sentir abandonado? Imaginas como ele se sente mal, por te amar tanto, mas ao mesmo tempo odiar-te? – cada palavra que proferiu, fê-lo com o intuito de me magoar, para me chamar à razão, pois já me conhecia bem demais e sabia que aquela era a única maneira

- Desculpa… Desculpa… - os meus olhos ficara rasos de lágrimas e um desespero enorme apoderou-se de mim – Eu só queria que ele seguisse o sonho dele…

- O sonho dele neste momento eras tu, por isso é que ele ia ficar, Adriana… Não imaginas como ele está a sofrer! Eu vi e não acredito que aquele é o David que todos conhecemos!

- Amor, eu não o queria magoar… A sério que não, mas eu não ia conseguir fazê-lo cara a cara com ele, foi a única maneira que arranjei! Achas que queria deixá-lo? Achas que queria acabar com a nossa relação? Claro que não! Se estou arrependida? Muito! Se queres saber estou muito arrependida, mas sei que não posso voltar atrás, ele tem de seguir o caminho dele…

- Adriana, eu não duvido que estejas a sofrer, mas a decisão foi tua… De alguma forma estavas mentalizada, agora ele foi apanhado de surpresa… Ele achava que estava tudo bem, sai de casa, deixa-te a dormir, quando regressa encontra uma carta tua e nem sinal de ti…

- Eu sei que errei, eu sei… Mas fi-lo para bem dele, tenho plena consciência disso!

- Sabes que ele não te vai perdoar isto…

- Sei, eu sei… - o meu coração migou e as lágrimas rolaram pelas maças do meu rosto

- Vem cá… - ela abriu os braços e eu não hesitei, deixando-me abraçar – Não fiques assim, agora o mal já está feito, vamos encontrar uma solução…

- Não há solução… Está na hora dele seguir com a vida dele… - solucei brevemente, mas enchei o peito de ar para acabar de falar - … sem mim!

Naquele dia, ela ficou comigo até ser noite e me deixar a dormir na minha cama, um pouco mais calma e conformada com as circunstâncias, mas se o arrependimento já dominava, isso estava prestes a agravar-se…


***


No dia seguinte o Luisão deu um almoço na casa dele para os amigos mais próximos. A Paulinha garantiu-me que o David não iria lá estar e acabou por me convencer a ir, pois estar com a minha afilhada, a pequena Sofia, iria fazer-me bem. Estava um calor infernal, mas como andava sem grande pachorra para me arranjar, pelos motivos óbvios, resolvi vestir uma coisa simples e nem sequer me maquilhei.



Fiz o percurso no meu carro, ou melhor, naquele que David me tinha oferecido no aniversário, e como combinado, encontrei-me com Paulinha e Roberto junto do portão da casa de Brenda e Luisão.

- Então, amor? Vieste a pé? – a Paulinha aproximou-se imediatamente de mim, afagando-me o rosto

- Não, mas como não havia lugares tive de deixar o carro estacionado na rua detrás…

- Oh, podias ter mandado mensagem que eu tinha-te ido lá buscar, escusavas de ter vindo este bocadinho a pé e sozinha…

- Fez-me bem, sempre deu para passear um bocadinho! – sorri levemente, era o máximo que o meu coração fragilizado permitia

- Que carinha é essa, amor? – questionou quando já nos encaminhávamos na direcção da casa de Luisão

- É a minha, Paulinha… A única que eu tenho! – um forte suspirou quebrou a minha respiração regular e limitei-me a segui-la
- Mad’inha! – a pequena Sofia correu para os meus braços assim que me viu e ficou colada a mim que nem uma pequena lapa

- Como estás coisa linda da madrinha? – enchi-a de beijinhos por todo o rosto e esta correspondeu rindo-se muito, talvez porque lhe estivesse a fazer cócegas

- Agora que chegaste, muito bem, mad’inha! – a pequena menina esboçou um sorriso angelical e aqueles pequeninos olhos definiram o meu mundo numa questão de segundos

- Então e conta-me lá como vai a tua vidinha, pequerrucha?

- Vai munto bem, A’iana, mas tu e o caroleta estão a dever-me um dia de farra… - a pequenina relembrou-me a promessa que David lhe fizera na festa surpresa que eu lhe tinha organizado meses antes

- Pois, sabes, isso vais ter de falar com ele…

- Oh, mas tu namolhas com ele, quase vivem juntos, logo podes falhalhe tu!

- Sabes, amor… - eu ia iniciar um discurso sem saber muito bem como e tentar explicar à menina que eu e David não estávamos mais juntos, mas isso ia acabar por confundi-la a ela e magoar-me a mim

- Olha, a mamã está a chamar-te, Sofiazinha… - a Paula interrompeu a conversa, pois percebeu que eu ia entrar em solo instável

- Eu vou lhá, mad’inha, mas volto já! – ela arregalou aqueles dois pequenos olhos ligeiramente esverdeados e sorriu-me, deixando-me com aquela imagem antes de desaparecer, correndo jardim fora

- Estás bem, amor? – a Paulinha passou-me a mão delicadamente no rosto, provavelmente porque reparou nas lágrimas que me turvavam os olhos, mas que eu fazia um enorme esforço para conter

- Estou, está tudo bem… - menti o melhor que pude, mas para uma pessoa que me conhecia tão bem como ela, isso não era de todo suficiente

- Eu conheço-te, bocharro… - ela fez-me rir durante breves instantes e as lágrimas acabaram por percorrer tenebrosos caminhos nas minhas faces - Oh amor…

- Esquece, Paulinha… Eu estou bem! – montei o sorriso mais fingido e sofrido que alguma vez consegui e foi assim que permaneci para encarar todos os outros

Juntámo-nos aos restantes jogadores e ao grupo das nossas meninas, que já se encontravam lá, e por sinal bem animadas. Senti os olhos de todos os rapazes prenderem em mim, num certo ar de censura, menos os de Ruben. Ele conhecia-me, sabia que estava a sofrer e que naquele momento não queria falar mais sobre o assunto. Senti-me encurralada entre o olhar dele e o de Paulinha, duas das pessoas que já me conheciam melhor do que ninguém…
Contudo ela não pressionou mais, não forçou mais qualquer tema de conversa ou tocou no assunto proibido, pois percebeu que era por esses motivos que eu estava naquele estado. Já estava um pouco mais conformada com a ideia, mas sabia que mais tarde ou mais cedo ia acabar por ter de enfrentar David e esse seria o derradeiro confronto, do tudo ou nada, e infelizmente, estava bem mais perto do que eu esperava…



Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem!
Não se esqueçam de comentar, pois é muito importante saber o vosso feedback! :)
Beijinhos
Drii