A comemoração do nosso primeiro ano juntos, culminou numa noite de entrega e puro amor, tal como eu havia desejado, mas no entanto havia algo que me estava reservado. Algo que mexia e baralhava de forma drástica os meus planos para os meses seguintes. A época começava a aproximar-se do fim e a pressão estava sob os rapazes, que mantinham o domínio do campeonato. Estávamos no fim do mês de Fevereiro e o Benfica jogava em casa contra o FC Porto. O David deixou bem claro que não me queria presente, pois era um jogo muito perigoso, mas como era óbvio eu fazia mais do que tenções de ir e sem ele saber, acabei por cumprir o meu desejo.
- Boa noite, meninas! – sorri a todas: Paulinha, Bianca, Catarina, Inês, Brenda e Andreia, mas depois de dar um beijinho a cada uma, reparei numa cara nova
- Bem, Adriana… Para quem não sabe, que é o teu caso, esta é a Margarida, mais conhecida por Még! – apresentou a Paulinha, super social como sempre
- Olá, prazer! – esbocei um sorriso doce e educado, à bela moça
- Prazer é meu! Deves ser a tão famosa Adriana… - ela arrastou a voz, mas sempre sorrindo
- Famosa? Onde é que isso já vai… - brinquei um pouco com a situação, pois o facto de ser namorada de David começava a fazer-me ganhar terreno nas revistas e não pelos frutos do meu trabalho
- Bem, vamos subir, meninas? – sugeriu Catarina, que como sempre estava delirante por ver o seu Aimar jogar
- Vamos, claro! – rimo-nos todas
Eu segui mais atrás com Paulinha, mantendo um tom de conversa animada, que se tornou hábito entre nós.
- Mas diz-me lá uma coisa… Cadê a Elena? Não a vejo por estes lados há séculos! – brinquei, completamente absorta ao que me rodeava
- Mas tu não sabes…?
- Não sei o quê?
- O Javi e a Elena acabaram… - ela diminuiu o tom de voz, como se falasse de um segredo proibido – E esta Margarida, é a nova namorada dele!
- ACABARAM?! – o meu tom de voz surpreendido saiu mais elevado que o esperado e algumas pessoas olharam para mim, mas depressa disfarcei – Acabaram…? Como é que é isso? Eles iam casar!
- Pois, iam, dizes bem… Eu não te sei explicar muito bem, mas sei que o Javi conheceu a Margarida numa entrevista, ela é jornalista, e as coisas com a Elena já não estavam bem, daí até ficarem juntos, foram dois meses!
- Oh meu Deus! Mas onde raio andei eu, que perdi isto tudo?
- Perdida, no teu Brasileirinho! – ambos nos rimos, mas o caso não era de todo para isso, Margarida era muito simpática, mas Elena era nossa amiga e não devia estar nada bem com o fim da relação, nós sabíamos bem como ela gostava de Javi
- Falaste com a Elena?
- Não, amor… Ela foi embora, voltou para Espanha! Quer seguir com a vida dela, e o Javi está a tentar começar de novo e ainda mantém tudo no anonimato!
- Sim, senhora… Como a vida dá voltas!
- Acredita, amor… Nós nunca imaginamos as voltas que dá! – ela suspirou e um arrepio percorreu-me a espinha
- Garotas, venham! – a Brenda chamou por nós, com um sorriso super animado
O jogo começou, David estava super concentrado e queria dar tudo por tudo, mas estava difícil travar Hulk, e devido ao seu enorme estado de nervosismo, essa tarefa tornou-se impossível nos primeiros 45 minutos de jogo. O Benfica saiu da primeira parte a perder por uma bola a zero. Quando ele saiu para o intervalo, senti que algo o incomodava e não era só a fraca prestação, havia mais qualquer coisa ali. Resolvi mandar-lhe SMS, fingindo que não estava no estádio.
“Oi, meu amor! Estou a ver o jogo na TV e estou preocupada… Algo se passa, não é, meu anjo?”
A resposta dele demorou alguns minutos, talvez o suficiente até ouvirem Jorge Jesus e ele puder alcançar o telemóvel.
“Oi amô! Cê me conhece bem demais… Tô me sentindo muito frustrado, não consigo parar ele e sei que consigo fazer melhor!”
“Amor, se tu sabes que consegues fazer melhor, concentra-te! Esquece que é um jogo importante, que está a contar para o campeonato e esquece que ele é o Hulk e a equipa em campo o FC Porto! Concentra-te naquilo que és, naquilo que sabes fazer, e juro-te… Vai tudo correr bem! :)
Mas sei que não é só isso, meu amor…”
“Cê tem razão, brigado, mulher da minha vida! :)
Não é só isso, não… Mas não sei porquê, tô com um aperto estranho no peito, tô preocupado com você! Cê tá bem?!”
“Estou muito bem, meu amor! :)
Bolas, estou a ver o homem da minha vida a jogar que nem um guerreiro, estou melhor do que bem! Só quero que entres em campo com a garra e alegria de sempre, meu zagueiro! Aquilo é teu, só tens de arrasar com eles!”
“Cê é meu anjo da guarda, meu amô… Se cuida! Vou regressar ao jogo, mil beijos! Te amo!♥”
“Boa sorte, também te amo! ♥”
“Obrigado! ♥”
Retomei à normalidade na cadeira dos camarotes e concentrei-me somente no jogo, mais especialmente no David.
- Que se passa com ele? – sussurrou Paula, perto do meu ouvido
- Ele está frustrado… Alguma coisa não está bem! – revelei entre dentes e com o coração bem comprimido no lado esquerdo do meu peito
- Falaste com ele?
- Sim, ele diz que não consegue parar o Hulk, mas que sabe fazer melhor que isto. Disse-lhe que descontraísse esquece-se a carga formal do jogo e se limitasse a ser o guerreiro e brincalhão da Luz, e que tudo ia correr bem…
Nesse exacto momento, David desarmou Hulk, passou a bola a Javi e meteu-se numa jogada com Aimar, que acabou por cabecear para o fundo das redes da baliza adversária.
- GOLOOOOOOOOOOOOOOO! – gritei agarrada a Paula e ignorando completamente o facto de estar nos camarotes
Todo o estádio se ergueu, os cânticos entoaram, o chão estremeceu e ao abrir-se o campeão passou na direcção do sucesso. Depois desse golo, outros dois seguiram-se o que permitiu ao Benfica ganhar por três a zero, a um dos seus eternos rivais.
Esperei o David na sala de jogadores, e apesar de ele não saber da minha presença, esperei que a sua reacção fosse a melhor possível, mas como sempre eles demoraram montes de tempo e eu entretive-me à conversa com as meninas, mas esta foi interrompida pelo meu telemóvel.
- Estou sim? – perguntei num tom formal
- Boa noite, fala o Jorge, o teu agente…
- Ah… Desculpa, mas não reconheci o número!
- Desculpa estar a ligar-te a estas horas e a um Domingo, mas tenho um assunto urgente para tratar contigo…
- Então, problemas?
- Não… Mas acabei de ser contactado da parte do P. Diddy e ele quer-te dentro de dois dias em Nova Iorque para começares a tratar do teu CD!
- Hum! Estás a gozar! – perguntei completamente em êxtase
- Não, estou a falar muito a sério! É apanhares o primeiro avião que conseguires para lá, assinares o contrato e mãos à obra!
- Mas e então a minha faculdade?
- Calma, está tudo tratado… Pedimos a equivalência às cadeiras que estás a fazer durante o tempo que ficarás lá e quando regressares estará tudo na mesma!
- Ai isso é óptimo! E quanto tempo é que eu vou lá ficar?
- Dois meses… O teu regresso está previsto para fins de Abril, princípios de Maio.
- Mas… Isso não pode ser! – intervim logo, ciente de que David fazia anos em Abril
- Claro que pode! É uma oportunidade única Adriana! Pensa bem, não vais ter muitas como esta… É a tua oportunidade de lançares a tua carreira definitivamente no mercado internacional! Depois disso a escada para o sucesso é rápida e imediata!
- Eu aceito! Eu aceito… - dei uma resposta imediata, tratava-se de um sonho meu e quanto ao aniversário de David eu arranjaria uma solução
- Óptimo, vou comunicar então a tua decisão e tratar das passagens…
- Sim, muito obrigada, Jorge!
- De nada, miúda! Esta é a tua oportunidade! Aproveita-a!
- Obrigada! Beijo! – sorri de forma educada e depois de o ouvir uma última vez desliguei a chamada
- Adriana?! – a voz de David surgiu nas minhas costas e quando o encarei, tive medo da sua reacção
- Olá, amor…
- Pensei que cê tava em casa… Vendo o jogo na TV! – a voz dele soou-me ligeiramente irritada, mas como julguei ser somente impressão minha respondi-lhe
- Oh amor, eu queria muito vir… Estar cá e apoiar-te! – confessei com um sorriso tímido, mas sincero
- Cê tá louca? É perigoso, eu avisei pra você! – ele colou o seu corpo ao meu e gritou em surdina, mas as pessoas mais chegadas aperceberam-se do clima de tensão entre nós
- Desculpa então! Desculpa se te quis apoiar, mesmo que isso significasse correr riscos… Desculpa-me então por isso! – os meus olhos encheram-se de lágrimas perante a ingratidão dele
Coloquei a minha mala a tira colo, guardei o telemóvel e saí na direcção das garagens, não queria falar mais com ele sobre aquilo, a ida àquele jogo era para esquecer de todo.
- Adriana! Amô, espera! – ouvi a voz dele proclamar o meu nome, quando já estava a abrir a porta do meu carro, mas nem assim parei, somente quando senti a mão dele no meu braço – Amô… - a voz dele soou mais meiga
- Deixa-me estar, David… Já pedi desculpa, senão queres aceitar problema teu, mas lembra-te de uma coisa, o estádio que eu saiba, é livre!
- Calma, amô… Eu fui precipitado, mas fiquei louco de preocupação, me perdoa… - ela acariciou-me delicadamente na bochecha direita
- Ok, já percebi. Agora já me podes largar para eu ir embora?
- Pô, não fica assim… Já disse que errei, que fui precipitado! Desculpa então, eu se me preocupo demais com você!
- Estás desculpado, agora vai descansar que o jogo foi duro… - sorri levemente, pois estava magoada com a atitude dele
- Podia vir dormir comigo essa noite… - sugeriu-me com um sorriso apaixonado
- Quero ir para a minha casa…
- Então eu podia ir dormir com você, não me importo! É-me igual, desde que estejamos juntos!
- David, não estás a perceber! Eu quero dormir na minha casa… Sozinha!
- Pô, errei assim tanto? Até parece que cê nunca fez borrada!
- Fiz, fiz muita borrada! Mas sempre que tenho problemas, que me sinto exausta, só existe um sítio para onde quero correr, somente uns braços, e quando te quis dar os meus, gritaste comigo…
- ME PERDOA, CARACA! – ele elevou novamente o tom de voz e esta entoou pela garagem toda, onde os rapazes e as namoradas entravam e acabaram por estancar ficando a assistir a tudo
Não pronunciei uma única palavra, mas os meus olhos encheram-se de lágrimas novamente. Baixei o olhar, abri a porta do carro, entrei trancando-a e liguei o carro, fazendo a manobra de saída.
- Adriana, espera! Vamo’ conversar! – ele bateu-me ainda umas quantas vezes no vidro e outras tantas no capô, mas eu não estava disposta a parar e assim sendo, segui rumo à minha casa
***
Acabei por vestir o pijama e deitar-me na cama, com uma vontade enorme de gritar e chorar. Ainda por cima, estava sozinha em casa, visto que Bianca ultimamente passava mais tempo a dormir em casa de Salvio do que lá em casa. O silêncio era aterrador e a Quimera era a minha única companhia. O relógio marcava as sete da manhã, eu ainda não havia pregado olho, mas a campainha de casa tocou. Fiquei imediatamente rabugenta, mas ainda assim levantei-me e fui ver quem era.
- Bom dia… - cumprimentou David receoso, mal eu abri a porta
- Bom dia! – respondi de forma mais seca – Precisas de alguma coisa daqui?
- Preciso… - ele fez um compasso de espera, até retirar de trás das costas um ramo de túlipas brancas – Da minha muleca…
- Isto é o quê?
- São pra você! – ele fez um trejeito, como que indicando-me para que eu as pegasse
- Obrigada! – agradeci e tomei-as nas mãos
- Tem um cartãozinho… - ele subiu levemente o canto esquerdo da boca, como que escondendo um sorrisinho dócil
Eu fiz-lhe a vontade, procurei-o e quando o encontrei, li-o para o meu íntimo.
“Por vezes são os gestos mais loucos e mais perigosos, que nos fazem compreender o quanto alguém ama a gente. Perdoa se te magoei, mas quem ama cuida, e eu só queria proteger você! Te amo muito, minha garota! ♥”
- Obrigada, Dê… - não consegui evitar um leve sorrisinho perante aquele gesto amoroso dele
- Isso quer dizer que eu tô perdoado? – a sobrancelha dele ergueu-se, questionando-se a si próprio em relação aos significados das minhas expressões
- Sim, amor! Quer dizer que estás perdoado! – rendi-me por fim sorrindo, e agarrando-o pelo pescoço, beijei-o de forma calma
- Graça’Deus! Não dormi nada essa noite, sabendo que tinha feito borrada, mas já conhecia você e ontem ‘tava de cabeça quente e não me ia querer ouvir…
- Já me conheces bem demais… - sussurrei entre beijos repenicados, naquela boca linda e à qual já reconhecia muito bem o sabor
- E tenho o mó orgulho nisso! – ambos sorrimos e puxei-o carinhosamente para dentro de casa
- Vou pôr as flores na água… - anunciei e desapareci durante breves momentos para a cozinha, quando regressei já estás estavam dentro de uma jarra que coloquei na mesa da sala
- Gostou?
- Amei, já sabes que são as minhas preferidas…
- Pois sei, como eu falei, meu amô! Eu te conheço muito bem! – ele acariciou-me de forma terna e eu envergonhadamente baixei o olhar – Obrigada por ter ido no jogo e por aquelas palavras de reconforto…
- Só fiz a minha obrigação!
- Não, é mais que a sua obrigação!
- Shiu, quem ama cuida, certo? Não foi o que tu disseste?
As nossas bocas manifestaram-se na mesma forma, fazendo o nosso sorriso transparecer num brilho feliz e docilmente sereno. Daí aos nossos lábios unirem-se, foi simples. Simples e super natural…
- Amor… - chamei-o quando quebrámos o beijo
- Fala, meu amô! – ele esboçou um sorrisão maravilhoso e desviou a franja do meu rosto, prendendo-a atrás da orelha
- Eu ontem, depois do jogo recebi um telefonema do meu agente, dizendo que tenho uma proposta para gravar o meu CD!
- Sério, meu amô? Isso é óptimo, meu Deus! – ele segurou o meu rosto entre as suas mãos e beijou-me inúmeras vezes, felicíssimo – Então e que produtora vai fazer isso?
- A do P. Diddy…
- Mas pensei que ele não tinha nenhum estúdio em Portugal… - disse muito confuso, mas sempre sorrindo e segurando o meu rosto entre as suas mãos
- E não tem… - revelei completamente dominada pelo medo – É nos Estados Unidos…
Rapidamente as mãos dele largaram o meu rosto e a sua expressão se desvaneceu.
- Estados Unidos? Eu ouvi bem? – ele gaguejou, era evidente o seu estado de nervosismo
- Ouviste… - mordi o lábio receosa pela reacção dele
- Quando, amô?
- Dois meses… Tenho de partir daqui a dois dias!
- Mas isso… Isso… - ele gaguejou de forma mais aflitiva e os seus olhos inundaram-se de uma profunda desilusão – Cê assim não vai estar cá no meu aniversário…
- Desculpa… - foi a única coisa que consegui dizer, antes de prender o olhar no chão
- Cê aceitou? – perguntou ele imediatamente, meio atónico
- Sim… Precisavam de uma resposta na hora, parto amanhã…
- Cê vai assim embora para os Estados Unidos, para o outro lado do oceano e me avisa no dia antes? Pô… Não vou nem conseguir matar minhas saudades…
- Vai passar num instante, nós já aguentámos distâncias!
- Nunca de tanto tempo, pô! Dois meses é muito tempo… Ainda por cima vai faltar meu aniversário!
- Desculpa, amor… Eu queria muito cá estar e vou fazer de tudo para conseguir, mas isto é o meu sonho, entendes?
- Eu entendo, mas vou ter muita saudadji! – ele uniu as nossas bocas de forma carinhosa, num beijo já saudosista
- Olha, eu juro-te que vai passar a correr… Quando deres por isso estou de novo do teu lado!
- Promete? – ele fez uma espécie de beicinho, mas não tão evidente
- Prometo, meu amor! – beijei-o, passando-lhe toda a minha confiança
No dia seguinte deixei a Quimera aos cuidados de David, embarquei e foi ele a levar-me ao aeroporto. Não quis que ele ficasse até o avião partir pois iria ser bem pior, mas ainda assim vi-o deixar-me de lágrimas nos olhos e o que chorou depois disso, só ele saberá no mais íntimo de si. Eram apenas dois meses… Mas eu tinha a certeza, que aquele avanço na minha carreira, ainda me podia sair muito caro… Uma coisa era certa, estava com ele, e mesmo que alguma coisa ousasse separar-nos, eu iria lutar até ao fim, para nos unir.







