segunda-feira, 30 de maio de 2011

Capítulo 108 - É só um até já... (Parte II)




A comemoração do nosso primeiro ano juntos, culminou numa noite de entrega e puro amor, tal como eu havia desejado, mas no entanto havia algo que me estava reservado. Algo que mexia e baralhava de forma drástica os meus planos para os meses seguintes. A época começava a aproximar-se do fim e a pressão estava sob os rapazes, que mantinham o domínio do campeonato. Estávamos no fim do mês de Fevereiro e o Benfica jogava em casa contra o FC Porto. O David deixou bem claro que não me queria presente, pois era um jogo muito perigoso, mas como era óbvio eu fazia mais do que tenções de ir e sem ele saber, acabei por cumprir o meu desejo.

- Boa noite, meninas! – sorri a todas: Paulinha, Bianca, Catarina, Inês, Brenda e Andreia, mas depois de dar um beijinho a cada uma, reparei numa cara nova

- Bem, Adriana… Para quem não sabe, que é o teu caso, esta é a Margarida, mais conhecida por Még! – apresentou a Paulinha, super social como sempre

- Olá, prazer! – esbocei um sorriso doce e educado, à bela moça

- Prazer é meu! Deves ser a tão famosa Adriana… - ela arrastou a voz, mas sempre sorrindo

- Famosa? Onde é que isso já vai… - brinquei um pouco com a situação, pois o facto de ser namorada de David começava a fazer-me ganhar terreno nas revistas e não pelos frutos do meu trabalho

- Bem, vamos subir, meninas? – sugeriu Catarina, que como sempre estava delirante por ver o seu Aimar jogar

- Vamos, claro! – rimo-nos todas

Eu segui mais atrás com Paulinha, mantendo um tom de conversa animada, que se tornou hábito entre nós.

- Mas diz-me lá uma coisa… Cadê a Elena? Não a vejo por estes lados há séculos! – brinquei, completamente absorta ao que me rodeava

- Mas tu não sabes…?

- Não sei o quê?

- O Javi e a Elena acabaram… - ela diminuiu o tom de voz, como se falasse de um segredo proibido – E esta Margarida, é a nova namorada dele!

- ACABARAM?! – o meu tom de voz surpreendido saiu mais elevado que o esperado e algumas pessoas olharam para mim, mas depressa disfarcei – Acabaram…? Como é que é isso? Eles iam casar!

- Pois, iam, dizes bem… Eu não te sei explicar muito bem, mas sei que o Javi conheceu a Margarida numa entrevista, ela é jornalista, e as coisas com a Elena já não estavam bem, daí até ficarem juntos, foram dois meses!

- Oh meu Deus! Mas onde raio andei eu, que perdi isto tudo?

- Perdida, no teu Brasileirinho! – ambos nos rimos, mas o caso não era de todo para isso, Margarida era muito simpática, mas Elena era nossa amiga e não devia estar nada bem com o fim da relação, nós sabíamos bem como ela gostava de Javi

- Falaste com a Elena?

- Não, amor… Ela foi embora, voltou para Espanha! Quer seguir com a vida dela, e o Javi está a tentar começar de novo e ainda mantém tudo no anonimato!

- Sim, senhora… Como a vida dá voltas!

- Acredita, amor… Nós nunca imaginamos as voltas que dá! – ela suspirou e um arrepio percorreu-me a espinha

- Garotas, venham! – a Brenda chamou por nós, com um sorriso super animado

O jogo começou, David estava super concentrado e queria dar tudo por tudo, mas estava difícil travar Hulk, e devido ao seu enorme estado de nervosismo, essa tarefa tornou-se impossível nos primeiros 45 minutos de jogo. O Benfica saiu da primeira parte a perder por uma bola a zero. Quando ele saiu para o intervalo, senti que algo o incomodava e não era só a fraca prestação, havia mais qualquer coisa ali. Resolvi mandar-lhe SMS, fingindo que não estava no estádio.

“Oi, meu amor! Estou a ver o jogo na TV e estou preocupada… Algo se passa, não é, meu anjo?”

A resposta dele demorou alguns minutos, talvez o suficiente até ouvirem Jorge Jesus e ele puder alcançar o telemóvel.

“Oi amô! Cê me conhece bem demais… Tô me sentindo muito frustrado, não consigo parar ele e sei que consigo fazer melhor!”

“Amor, se tu sabes que consegues fazer melhor, concentra-te! Esquece que é um jogo importante, que está a contar para o campeonato e esquece que ele é o Hulk e a equipa em campo o FC Porto! Concentra-te naquilo que és, naquilo que sabes fazer, e juro-te… Vai tudo correr bem! :)
Mas sei que não é só isso, meu amor…”

“Cê tem razão, brigado, mulher da minha vida! :)
Não é só isso, não… Mas não sei porquê, tô com um aperto estranho no peito, tô preocupado com você! Cê tá bem?!”

“Estou muito bem, meu amor! :)
Bolas, estou a ver o homem da minha vida a jogar que nem um guerreiro, estou melhor do que bem! Só quero que entres em campo com a garra e alegria de sempre, meu zagueiro! Aquilo é teu, só tens de arrasar com eles!”

“Cê é meu anjo da guarda, meu amô… Se cuida! Vou regressar ao jogo, mil beijos! Te amo!♥”

“Boa sorte, também te amo! ♥”

“Obrigado! ♥”

Retomei à normalidade na cadeira dos camarotes e concentrei-me somente no jogo, mais especialmente no David.

- Que se passa com ele? – sussurrou Paula, perto do meu ouvido

- Ele está frustrado… Alguma coisa não está bem! – revelei entre dentes e com o coração bem comprimido no lado esquerdo do meu peito

- Falaste com ele?

- Sim, ele diz que não consegue parar o Hulk, mas que sabe fazer melhor que isto. Disse-lhe que descontraísse esquece-se a carga formal do jogo e se limitasse a ser o guerreiro e brincalhão da Luz, e que tudo ia correr bem…

Nesse exacto momento, David desarmou Hulk, passou a bola a Javi e meteu-se numa jogada com Aimar, que acabou por cabecear para o fundo das redes da baliza adversária.

- GOLOOOOOOOOOOOOOOO! – gritei agarrada a Paula e ignorando completamente o facto de estar nos camarotes

Todo o estádio se ergueu, os cânticos entoaram, o chão estremeceu e ao abrir-se o campeão passou na direcção do sucesso. Depois desse golo, outros dois seguiram-se o que permitiu ao Benfica ganhar por três a zero, a um dos seus eternos rivais.
Esperei o David na sala de jogadores, e apesar de ele não saber da minha presença, esperei que a sua reacção fosse a melhor possível, mas como sempre eles demoraram montes de tempo e eu entretive-me à conversa com as meninas, mas esta foi interrompida pelo meu telemóvel.

- Estou sim? – perguntei num tom formal

- Boa noite, fala o Jorge, o teu agente…

- Ah… Desculpa, mas não reconheci o número!

- Desculpa estar a ligar-te a estas horas e a um Domingo, mas tenho um assunto urgente para tratar contigo…

- Então, problemas?

- Não… Mas acabei de ser contactado da parte do P. Diddy e ele quer-te dentro de dois dias em Nova Iorque para começares a tratar do teu CD!

- Hum! Estás a gozar! – perguntei completamente em êxtase

- Não, estou a falar muito a sério! É apanhares o primeiro avião que conseguires para lá, assinares o contrato e mãos à obra!

- Mas e então a minha faculdade?

- Calma, está tudo tratado… Pedimos a equivalência às cadeiras que estás a fazer durante o tempo que ficarás lá e quando regressares estará tudo na mesma!

- Ai isso é óptimo! E quanto tempo é que eu vou lá ficar?

- Dois meses… O teu regresso está previsto para fins de Abril, princípios de Maio.

- Mas… Isso não pode ser! – intervim logo, ciente de que David fazia anos em Abril

- Claro que pode! É uma oportunidade única Adriana! Pensa bem, não vais ter muitas como esta… É a tua oportunidade de lançares a tua carreira definitivamente no mercado internacional! Depois disso a escada para o sucesso é rápida e imediata!

- Eu aceito! Eu aceito… - dei uma resposta imediata, tratava-se de um sonho meu e quanto ao aniversário de David eu arranjaria uma solução

- Óptimo, vou comunicar então a tua decisão e tratar das passagens…

- Sim, muito obrigada, Jorge!

- De nada, miúda! Esta é a tua oportunidade! Aproveita-a!

- Obrigada! Beijo! – sorri de forma educada e depois de o ouvir uma última vez desliguei a chamada

- Adriana?! – a voz de David surgiu nas minhas costas e quando o encarei, tive medo da sua reacção

- Olá, amor…

- Pensei que cê tava em casa… Vendo o jogo na TV! – a voz dele soou-me ligeiramente irritada, mas como julguei ser somente impressão minha respondi-lhe

- Oh amor, eu queria muito vir… Estar cá e apoiar-te! – confessei com um sorriso tímido, mas sincero

- Cê tá louca? É perigoso, eu avisei pra você! – ele colou o seu corpo ao meu e gritou em surdina, mas as pessoas mais chegadas aperceberam-se do clima de tensão entre nós

- Desculpa então! Desculpa se te quis apoiar, mesmo que isso significasse correr riscos… Desculpa-me então por isso! – os meus olhos encheram-se de lágrimas perante a ingratidão dele

Coloquei a minha mala a tira colo, guardei o telemóvel e saí na direcção das garagens, não queria falar mais com ele sobre aquilo, a ida àquele jogo era para esquecer de todo.

- Adriana! Amô, espera! – ouvi a voz dele proclamar o meu nome, quando já estava a abrir a porta do meu carro, mas nem assim parei, somente quando senti a mão dele no meu braço – Amô… - a voz dele soou mais meiga

- Deixa-me estar, David… Já pedi desculpa, senão queres aceitar problema teu, mas lembra-te de uma coisa, o estádio que eu saiba, é livre!

- Calma, amô… Eu fui precipitado, mas fiquei louco de preocupação, me perdoa… - ela acariciou-me delicadamente na bochecha direita

- Ok, já percebi. Agora já me podes largar para eu ir embora?

- Pô, não fica assim… Já disse que errei, que fui precipitado! Desculpa então, eu se me preocupo demais com você!

- Estás desculpado, agora vai descansar que o jogo foi duro… - sorri levemente, pois estava magoada com a atitude dele

- Podia vir dormir comigo essa noite… - sugeriu-me com um sorriso apaixonado

- Quero ir para a minha casa…

- Então eu podia ir dormir com você, não me importo! É-me igual, desde que estejamos juntos!

- David, não estás a perceber! Eu quero dormir na minha casa… Sozinha!

- Pô, errei assim tanto? Até parece que cê nunca fez borrada!

- Fiz, fiz muita borrada! Mas sempre que tenho problemas, que me sinto exausta, só existe um sítio para onde quero correr, somente uns braços, e quando te quis dar os meus, gritaste comigo…

- ME PERDOA, CARACA! – ele elevou novamente o tom de voz e esta entoou pela garagem toda, onde os rapazes e as namoradas entravam e acabaram por estancar ficando a assistir a tudo

Não pronunciei uma única palavra, mas os meus olhos encheram-se de lágrimas novamente. Baixei o olhar, abri a porta do carro, entrei trancando-a e liguei o carro, fazendo a manobra de saída.

- Adriana, espera! Vamo’ conversar! – ele bateu-me ainda umas quantas vezes no vidro e outras tantas no capô, mas eu não estava disposta a parar e assim sendo, segui rumo à minha casa


***

Acabei por vestir o pijama e deitar-me na cama, com uma vontade enorme de gritar e chorar. Ainda por cima, estava sozinha em casa, visto que Bianca ultimamente passava mais tempo a dormir em casa de Salvio do que lá em casa. O silêncio era aterrador e a Quimera era a minha única companhia. O relógio marcava as sete da manhã, eu ainda não havia pregado olho, mas a campainha de casa tocou. Fiquei imediatamente rabugenta, mas ainda assim levantei-me e fui ver quem era.

- Bom dia… - cumprimentou David receoso, mal eu abri a porta

- Bom dia! – respondi de forma mais seca – Precisas de alguma coisa daqui?

- Preciso… - ele fez um compasso de espera, até retirar de trás das costas um ramo de túlipas brancas – Da minha muleca…

- Isto é o quê?

- São pra você! – ele fez um trejeito, como que indicando-me para que eu as pegasse

- Obrigada! – agradeci e tomei-as nas mãos

- Tem um cartãozinho… - ele subiu levemente o canto esquerdo da boca, como que escondendo um sorrisinho dócil

Eu fiz-lhe a vontade, procurei-o e quando o encontrei, li-o para o meu íntimo.

“Por vezes são os gestos mais loucos e mais perigosos, que nos fazem compreender o quanto alguém ama a gente. Perdoa se te magoei, mas quem ama cuida, e eu só queria proteger você! Te amo muito, minha garota! ♥”

- Obrigada, Dê… - não consegui evitar um leve sorrisinho perante aquele gesto amoroso dele

- Isso quer dizer que eu tô perdoado? – a sobrancelha dele ergueu-se, questionando-se a si próprio em relação aos significados das minhas expressões

- Sim, amor! Quer dizer que estás perdoado! – rendi-me por fim sorrindo, e agarrando-o pelo pescoço, beijei-o de forma calma

- Graça’Deus! Não dormi nada essa noite, sabendo que tinha feito borrada, mas já conhecia você e ontem ‘tava de cabeça quente e não me ia querer ouvir…

- Já me conheces bem demais… - sussurrei entre beijos repenicados, naquela boca linda e à qual já reconhecia muito bem o sabor

- E tenho o mó orgulho nisso! – ambos sorrimos e puxei-o carinhosamente para dentro de casa

- Vou pôr as flores na água… - anunciei e desapareci durante breves momentos para a cozinha, quando regressei já estás estavam dentro de uma jarra que coloquei na mesa da sala

- Gostou?

- Amei, já sabes que são as minhas preferidas…

- Pois sei, como eu falei, meu amô! Eu te conheço muito bem! – ele acariciou-me de forma terna e eu envergonhadamente baixei o olhar – Obrigada por ter ido no jogo e por aquelas palavras de reconforto…

- Só fiz a minha obrigação!

- Não, é mais que a sua obrigação!

- Shiu, quem ama cuida, certo? Não foi o que tu disseste?

As nossas bocas manifestaram-se na mesma forma, fazendo o nosso sorriso transparecer num brilho feliz e docilmente sereno. Daí aos nossos lábios unirem-se, foi simples. Simples e super natural…

- Amor… - chamei-o quando quebrámos o beijo

- Fala, meu amô! – ele esboçou um sorrisão maravilhoso e desviou a franja do meu rosto, prendendo-a atrás da orelha

- Eu ontem, depois do jogo recebi um telefonema do meu agente, dizendo que tenho uma proposta para gravar o meu CD!

- Sério, meu amô? Isso é óptimo, meu Deus! – ele segurou o meu rosto entre as suas mãos e beijou-me inúmeras vezes, felicíssimo – Então e que produtora vai fazer isso?

- A do P. Diddy…

- Mas pensei que ele não tinha nenhum estúdio em Portugal… - disse muito confuso, mas sempre sorrindo e segurando o meu rosto entre as suas mãos

- E não tem… - revelei completamente dominada pelo medo – É nos Estados Unidos…

Rapidamente as mãos dele largaram o meu rosto e a sua expressão se desvaneceu.

- Estados Unidos? Eu ouvi bem? – ele gaguejou, era evidente o seu estado de nervosismo

- Ouviste… - mordi o lábio receosa pela reacção dele

- Quando, amô?

- Dois meses… Tenho de partir daqui a dois dias!

- Mas isso… Isso… - ele gaguejou de forma mais aflitiva e os seus olhos inundaram-se de uma profunda desilusão – Cê assim não vai estar cá no meu aniversário…

- Desculpa… - foi a única coisa que consegui dizer, antes de prender o olhar no chão

- Cê aceitou? – perguntou ele imediatamente, meio atónico

- Sim… Precisavam de uma resposta na hora, parto amanhã…

- Cê vai assim embora para os Estados Unidos, para o outro lado do oceano e me avisa no dia antes? Pô… Não vou nem conseguir matar minhas saudades…

- Vai passar num instante, nós já aguentámos distâncias!

- Nunca de tanto tempo, pô! Dois meses é muito tempo… Ainda por cima vai faltar meu aniversário!

- Desculpa, amor… Eu queria muito cá estar e vou fazer de tudo para conseguir, mas isto é o meu sonho, entendes?

- Eu entendo, mas vou ter muita saudadji! – ele uniu as nossas bocas de forma carinhosa, num beijo já saudosista

- Olha, eu juro-te que vai passar a correr… Quando deres por isso estou de novo do teu lado!

- Promete? – ele fez uma espécie de beicinho, mas não tão evidente

- Prometo, meu amor! – beijei-o, passando-lhe toda a minha confiança

No dia seguinte deixei a Quimera aos cuidados de David, embarquei e foi ele a levar-me ao aeroporto. Não quis que ele ficasse até o avião partir pois iria ser bem pior, mas ainda assim vi-o deixar-me de lágrimas nos olhos e o que chorou depois disso, só ele saberá no mais íntimo de si. Eram apenas dois meses… Mas eu tinha a certeza, que aquele avanço na minha carreira, ainda me podia sair muito caro… Uma coisa era certa, estava com ele, e mesmo que alguma coisa ousasse separar-nos, eu iria lutar até ao fim, para nos unir.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Capítulo 108 - É só um até já... (Parte I)


A vida consegue ser louca… Surpreende-nos a cada dia, a cada percalço que coloca no nosso caminho, a cada sorriso que nos permite, a cada lágrima que nos faz verter, mas é célere… Muito célere! Desde que começara a namorar com David, já um ano se tinha passado, completávamos no dia 23 de Fevereiro, um ano de namoro. Apesar de nos termos conhecido muito antes disso, foi apenas nesse dia que me consegui despir de medos e receios e correr atrás do homem, que agora podia considerar como o da minha vida. Íamos fazer uma comemoração muito simples, algo privado, só nosso…

- Bom dia, meu amor… - cumprimentei alegremente quando ele me atendeu o telemóvel

- Bom dia, anjo da minha vida! – a voz dele soou tão animada quanto minha

- Como estás? Dormiste bem?

- Estou bem, amô, mas tinha dormido melhor se você tivesse dormido aqui comigo… - de repente a voz dele contorceu-se de um cariz envergonhado

- Oh, não posso dormir sempre, amor… Além disso daqui a umas horinhas estamos juntos!

- Vai parecer uma eternidade!

- Vai passar depressa prometo!

- Tô louco pra te dar logo um beijão! – ele riu-se do outro lado do telefone

- És tonto, amor… Quando estivermos juntos logo dás, sim?

- Pois, que remédio, meu doce… Ainda tá deitada?

- Estou amor… Deitadinha na minha caminha! – ri-se levemente e aconcheguei-me nos lençóis

- Tá usando o quê no corpo, amô? – a voz dele soou safada e brincalhona como já era hábito

- David! – repreendi-o, rindo-me também

- Que é? Só fiz uma pergunta…

- Estou a usar uns calções e um top… - sorri de forma terna

- Aqueles que eu gosto de ver em você?

- Esse mesmo...!

- Ai, amô… Acho que vou voar pr’aí só pra te ver desse jeito…

- Deixa de ser totó! Hoje acordaste de uma maneira, meu Deus…

- Cê gosta bem! Adora que eu brinque com você!

- Adoro, amor! Adoro! Olha encontro-me contigo em tua casa…

- Se preferir eu posso ir te buscar…

- Não, amor… Eu vou ter contigo! Espera-me que eu vou chegar a horas!

- Prontinho! Cê que sabe, meu amô…

- Então até logo, amor…

- Já, amô? Fala mais um pouquinho comigo… - mesmo estando longe dele, podia adivinhar-lhe um beicinho nos lábios

- Tenho de me ir vestir, tenho aulas, amorzinho…

- Pô, que droga…!

- Ei, David!

- Desculpa, mas tô morrendo de saudade… Só queria estar com você!

- Vais estar logo, agora tenho de ir senão chego atrasada à faculdade e depois quem atura os veteranos sou eu!

- Pronto, amô… Vai lá… - incentivou tristemente

- Sorrisão nesses lábios! Amo-te, namorado! – falei num tom completamente meloso

- Eu também te amo, minha namorada! – o tom de voz dele foi tão ou ainda mais meloso do que o meu, o que me fez sorrir que nem uma louca

- Amor, vais levar-me onde, mesmo?

- É surpresa, amô!

- Oh, diz lá…

- Adeus! Boas aulas! Beijão! – ele despediu rindo-se

- David…!

- Fui, amô! – ele desligou a chamada e eu fiquei a rir-me sozinha, quando queríamos éramos autênticos miúdos

Levantei-me da cama, tomei um duche e vesti uma roupa simples e ocasional, para mais um dia de aulas na faculdade. Como estava com o horário da manhã, e fora de época de trabalhos, conseguia estar sempre livre a partir das duas da tarde, o que era óptimo para passear ou fazer os meus deveres.


Na sala já ouvia barulhos, o que me denunciava que Bianca já estava de pé, como já era hábito ela acordava muito antes de mim.

- Bom dia! – cumprimentei sorridente entrando na cozinha

- Bom dia, giraça! – ela deu-me um beijinho no rosto e continuou a preparar o pequeno-almoço

- Acordada há muito tempo?

- Há algum… Vou agora sair, porque ainda vou ter com o Salvio antes de ir para a faculdade! – ela informou-me com um sorriso super babado na cara e eu acompanhei-a, estar apaixonada sabia bem, muito bem…

- Fazes bem, aproveita!

Ela acabou de tomar o pequeno-almoço muito rapidamente e eu fui lavar os dentes, mas quando regressei ela já tinha saído. Dirigi-me à cozinha para beber um copo de água, mas senti as patas da Quimera nas minhas pernas.

- Bom dia, grandalhona! – baixei-me imediatamente para a encher de mimos e ela deitou-se de barriga para cima, esperando recebê-los – Ai, a minha cadela é tão mimada… Tão mimada! – bati-lhe na lombar e ela correu até à taça da ração completamente vazia – Isso é tudo fome?

Não consegui evitar rir-me, mas ainda assim agarrei na tigela e enchi-a de ração, que ela fez o favor de devorar em menos de cinco minutos. Restou-me passar um pouco de perfume, agarrar nas minhas coisas e conduzir até à faculdade. Estacionei o carro no parque de estacionamento em frente ao IADE e fui ao cafezinho habitual tomar o café-da-manhã. Um croissant com fiambre e um café forte, o mesmo de sempre. A senhora já me conhecia e adorava-me, pois desde que soubera que namorava com David, pediu-me uma camisola e logo depois do Ano Novo, eu trouxera-lha, o que a levou ao delírio, tanto que a emoldurou e pendurou numa das paredes do seu escritório, tinha-me mostrado fotografias e tudo. Depois de lhes desejar um resto de bom dia, segui caminho para cumprir com as actividades lectivas da minha agenda. Ser caloira não era nada fácil, mas o ambiente era sempre super agradável. Dessa forma, o tempo de aulas voou e quando dei por isso estava na hora de almoço, o que encurtava então o tempo que o meu relógio marcava até encontrar David. Conduzi até casa e cozinhei ravioli de espinafres e ricota, com molho de tomate. Soube-me magnificamente bem e depois de ter usado a minha tarde para molengar no sofá resolvi arranjar-me e finalmente ir ter com David, que àquelas horas já estava despachado do treino.

***

Depois de eu ter tocado à campainha, ele ainda demorou algum tempo para abrir a porta, mas eu conseguia ouvir barulho vindo de casa e por isso concluí que ele lá estava.

- Ei, finalmente! – exclamei assim que ele abriu a porta, ainda meio desalinhado

- Uau, amô! Que gata! – ele ficou embasbacado a olhar para mim, como se estivesse a ver uma espécie de aberração ou coisa assim


- Oh… - fiquei ligeiramente sem jeito
- Nossa, cê tá… Meu Deus! Cê tá linda… - ela fez um sorriso completamente despojado de vergonhas, mas que me relembrou do seu jeitinho doce de menino

- Obrigada, amor… Tu também estás… - olhei-o de cima abaixo procurando palavras para o caracterizar, mas era difícil, porque ele estava de calças de fato, ténis e uma camisa linda, mas todo desfraldado - … muito charmoso!

- Nossa, cê mente mal, amô! – ambos nos rimos – Vem cá, quero matar saudades desses lábios…

Os meus lábios rasgaram-se e o meu sorriso brilhou, assim que o senti puxar-me para o interior da sua casa. Ouvi a fechadura estalar e rapidamente os lábios dele colaram-se aos meus, para rapidamente as nossas línguas acompanharem o movimento. Sentia-me completa assim, com um simples acto de um beijo, por mais simples e curto que fosse, mas era sinal de amor, e isso era tudo aquilo que eu precisava…

***

Depois do David se arranjar devidamente seguimos para um destino incerto, pelo menos para mim e fomos dar a um restaurante lindíssimo à beira rio. A vista estendia-se por todas as portadas de vidro do espaço elegantemente arquitectónico e o ambiente era leve e super romântico. Fomos encaminhados até um cantinho exterior, onde numa esplanada coberta uma mesa perfeitamente decorada aguardava por nós. Uma toalha de linho branco vestia a mesa, em cima dela a mesa perfeitamente posta e todo o branco tingindo pelo vermelho de pétalas de rosas. Haviam velas de cheiro, de baunilha, percebi eu pelo cheiro, espalhadas por todo o lado e uma maior bem no centro da mesa. Confesso, que não dava para controlar um sorriso, quando o motivo era de tanta alegria. O empregado retirou-se e fiquei a sós com David.

- Amor, está lindo! – afirmei amarrando-me mais ao corpo dele, mas mantendo os olhos postos no cenário

- Ainda não viu nada… Fecha os olhos, amô! – obedeci-lhe e senti um perfume bastante familiar junto da minha cara – Pode abrir!

Assim que arregalei os olhos, vi um lindíssimo ramo de túlipas brancas e lágrimas de mãe, as minhas duas flores preferidas desde sempre.

- Amor, são lindas! – na minha face um sorriso aberto pintou-se e tive de me colocar em biquinhos de pés, para lhe roubar um beijinho

- Gostou, amô?

- Se eu gostei? Eu amei, amorzão! – apoiei os meus braços em redor do seu pescoço e segurando numa das mãos os ramo

- Só quero fazer você tão ou mais feliz do que penso ter feito esse ano que passou…

- Acredita que fizeste muito, amor! Muito! Foi o melhor ano de sempre! – beijei-o calmamente, sem qualquer pressa, aquela noite, era toda nossa

- Vou fazer muito mais… Muito, meu amô! – ambos sorrimos – Tenho outra coisa para você!

- Outra? Combinámos não trocar prendas, amor… - relembrei torcendo o nariz

- Não é uma prenda… É uma lembrança… Pega! – ele deu-me uma pequenina caixinha para a mão, daquelas que relembram as dos anéis de noivado e tremi de cima abaixo

- Calma, amô… Não se preocupa que não vou pedir você em casamento! Pra isso eu ainda vou esperar e ganhar coragem! – ambos nos rimos, e eu bem mais aliviada – Vá, abre!

Muito curiosa acabei por relevar rapidamente o recheio da caixa e deparei-me com um porta-chaves com todas as chaves de casa de David, desde a da porta do prédio, à da porta de casa e à da caixinha do correio. Fiquei a olhá-lo meio confusa.

- Para cê usar sempre que precisar… Aquela casa agora também é sua e pouquinho a pouquinho, vamos unir um nitinho de nada mais, as nossas vidas… - fiquei completamente deliciada com o seu gesto e abraçei-o fortemente para mim

Aquele era o nosso mundinho, sim(!), podia ser pequeno, podia ser limitado e intermutável, mas era nosso… E quando se ama de verdade esse mundo torna-se a nossa única realidade.

***

David fez de tudo para me agradar, desde as entradas até à sobremesa, tudo era do meu máximo agrado e tinha alguns dos meus elementos preferidos. O ambiente ainda estava mais romântico, pois ele tinha mandado colocar uma musiquinha de fundo completamente deliciosa e mandado correr a porta de acesso à esplanada, para que tivéssemos o máximo de privacidade.

- Isto estava tudo óptimo, meu amor! – elogiei muito feliz, por ter alguém assim do meu lado

- Cê gostou, meu anjo? – ele afagou delicadamente a minha mão pousada sobre a mesa

- Eu gostei muito… Adorei, amor! Estava tudo do meu gostinho! – fiz um sorriso leve, mas muito sincero

- Quero fazer todos os possíveis para te agradar nesse dia!

- Amor, já fizeste isso 365 dias do ano, não precisas de o fazer mais… Já sou tua, até me quereres! – afirmei envergonhadíssima

Ele sorriu-me num jeito louco, ergueu-se da cadeira e deu-me a mão, onde me apoiei para me levantar.

- Depois desses 365 dias, muitos mais virão, meu amô… Te juro! – ele beijou-me de forma intensa, como há muito não beijava e fez-me recordar um dos nossos primeiros beijos

- Anda, amor… - puxei-o levemente até ao gradeamento da varanda e encostei a linha abaixo do meu peito no parapeito, disposta a vislumbrar aquela belíssima vista

- Me sinto tão feliz assim, amô… - os braços de David envolveram-me por trás, tendo as suas mãos relaxado no fundo da minha barriga e a voz dele soado num sussurro junto da minha orelha direita

- Ainda bem que também te posso fazer feliz… Só por isso a minha vida já vale um bocadinho a pena! – sorri-lhe de forma honesta e entrelacei os meus dedos nos dele, pousando as nossas mãos no parapeito das grades

- Sua vida vale a pena, só pelo simples facto de eu já te puder amar… Tudo o resto, meu bem, não importa, não… Somos só eu e você, para sempre! – ele beijou-me e nuca

Senti naquela promessa dele, uma leve oscilação dentro do meu peito e tive necessidade de lhe inquirir acerca de algo, mas aquilo trancou na minha garganta, quase que me sufocando.

- Amor… É mesmo para sempre? – perguntei finalmente, meio a medo e mantendo-me de costas para ele

- É, meu amô… Te garanto que é para sempre! Do nosso jeito, vai sempre haver um para sempre…

Os braços dele apertaram-me para si com uma enorme segurança, como se aquilo que a sua boca proferira, fosse totalmente verdade e o único elemento verdadeiro na vida e no coração dele. Amor, era o sentimento-rei, na nossa relação.

- Sempre… Sempre… Sempre… Sempre… - fiquei a ouvi-lo sussurrar esta palavra, muito baixinho, junto do meu ouvido

Vi uma estrela cadente, desejei que aquela fosse a minha verdade de ali em diante, desejei que como em muitas das outras noites, aquela acabasse com um momento de entrega, mas um enorme arrepio percorreu-me a espinha e tive a certeza… Ali naquele momento, que o nosso “sempre”, estava bem perto do fim…




Obrigada a todos aqueles que lêm o que escrevo e que gostam.
Quero pedir desculpa pela minha demora em postar, mas estou em época de testes e trabalhos finais, e os exames estão mesmo à porta o que dificulta um pouco o meu tempo livre para a fic.
Espero que compreendam!
Não se esqueçam de comentar, é importante saber a vossa opinião! :)
Não se esqueçam de passar na fic http://halfofmyheartfic.blogspot.com/ em parceria com a minha Paulinha de http://meandyoujustustoo.blogspot.com/ e deixar também o vosso feedback!
 Beijinhos
Drii


quarta-feira, 18 de maio de 2011

Capítulo 107 – Have yourself a merry little Christmas (Parte V)


- Amor, precisas descansar bocadinho… - recomendei ao mesmo tempo que abria a mala dele em cima da cama para a desfazer

- Amô, eu descansei muito essa manhã! – ele abraçou-me por trás e deu-me um beijo na nuca

- Estás com um arzinho cansado, amor… - torci o nariz, pois ele tinha um ar ligeiramente abatido

- Tou precisando de férias e esses dias vieram cair direitinho, amô! – ele apertou-me mais para si, colocando as mãos no fundo da minha barriga

- Então aproveita, porque depois estás de novo à carga nos treinos! – tirei umas quantas camisolas dele e coloquei em cima da cama junto das outras

- É isso mesmo que eu vou fazer… Aproveitar minha namorada lindona! – ele virou-me para si, pousando as mãos nos meus quadris e fazendo-me girar sobre mim mesma

- Tu vais é ficar ali quietinho que eu tenho que arrumar as tuas coisas… - fugi-lhe, quando ele pretendia unir os nossos lábios

- Oh amô, não tô com você faz uma semana… Me deixa dar assim uns beijinhos em você… - ele fez um beicinho ternurento e extremamente doce, mas que nem assim me convenceu

- Nem beijinhos, nem meio beijinhos! Tenho que desfazer a tua mala, David…

- Pô, que é que custa? Parece até que nem sentiu a minha falta… - a sua expressão afável rapidamente foi dominada por uma enorme tristeza

- Claro que senti, amor! É que nem é isso que está em questão! Mas há coisas para fazer… Daqui a nada temos de nos arranjar para o jantar, é véspera de Natal, David!

- Por isso mesmo… Vamos aproveitar para namorar! Tô morrendo de saudades desses lábios, meu anjo… - os dedos dele percorreram um trilho leve e calmo nos meus lábios

- Só dos lábios? – fiz um sorriso traquina e aproximei-me, fingindo que o ia beijar, mas recuei no último segundo

- Não me provoca, garota… - a voz dele arrastou-se e quando o olhei, este estava de olhos fechados e ansioso para que unisse as duas bocas

- Pensei que tinhas saudades… - eu ri-me baixinho e juntinho dos lábios dele

- E tenho, meu Deus… Tantas, tantas… - a voz dele molengou completamente e um sopro de ar, que correu pelo pouco espaço entre os seus lábios, embateu nos meus, o que me fez estremecer

- Muitas, amor? – sem dar conta os meus olhos encheram-se de um enorme brilho cintilante e profundo

- Muitas, meu amô… Cê nem imagina! – ele segurou-me pela nuca e uniu as nossas bocas

Juro que nunca me havia sentido assim nos seus braços, e se por ventura alguma vez sentira, já não me recordava devido a uma semana de separação. A minha língua envolveu-se na dele muito calmamente e senti as suas mãos viajarem debaixo da minha camisola.

- Amor… - murmurei por entre a união das nossas bocas

- Por favô, tenho tanta saudade… - fitei os seus olhos esverdeados e senti um friozinho no estômago só com essa sensação

- Temos de nos arranjar para o jantar, amor…

- Por favô, não tô aguentado… Tô morrendo de tanta saudade, desses lábios, desse corpo, de você… De te sentir por perto, meu amô!

- Mas… - tentei contra-argumentar, perfeitamente ciente de que tínhamos coisas a fazer

- Shiu… - ele deu-me um novo beijo louco e fugaz

Estremeci completamente, pois fui apanhada de surpresa. As mãos quentes dele viajaram por todo o meu corpo, na calmaria do sentimento que nutríamos um pelo outro.

- Te quero tanto, meu amô… - segurando o meu rosto e nuca, ele enterrou a cabeça no meu pescoço, que percorreu de beijos e leves mordidelas

- Eu também… - respondi de forma inconsciente unindo novamente as duas bocas

O meu corpo caiu sobre a cama, e o dele cobriu-me. Completamente abafada no peso quente do seu corpo, senti o meu peito bombear fortemente o sangue e a adrenalina correr-me nas veias como se estivesse a correr uma maratona. As minhas mãos meio trémulas percorreram a fileira de botões da sua camisa e foram desapertando-os um por um, muito calmamente. Senti as calças deixarem de fazer pressão na minhas cintura e quando ergui levemente a cabeça vi que David mas desapertara. Elevei os braços, para lhe facilitar a tarefa de me despir a camisola e ele entendeu perfeitamente o sinal, pois fê-lo sem qualquer pressa e enchendo a minha barriga e o meu peito de beijos. Queria conseguir dizer, que havia momentos em que me sentia mais amada, em que me sentia mais desejada, e que não dependia daqueles, para me sentir assim. Mas por muito que eu tentasse, por muitas palavras que procurasse, por muitos momentos que vivesse, em nenhum deles me iria sentir assim, como me senti naquela tarde, quando lentamente, depois de nos livrarmos das restantes roupas, me entreguei a ele, pela milionésima vez. E a cada vez que o fazia, mais perfeito me parecia, e mais e mais queria, e mais e mais precisava. Depois de trancarmos a porta do quarto, e num movimento rápido, ele uniu os nossos corpos e as nossas almas tocaram-se. Foi ele que ditou um ritmo muito sereno, entrando e saindo dentro de mim. E estar daquela forma com o David não era apenas uma questão de mero prazer, mas sim de amor, de um forte e inabalável amor.

- Te amo… - ele sussurrou baixinho, mas a sua voz vacilou devido a uma breve gemido

- Eu também… - fechei os olhos, esbocei um sorrisinho lindo e sentiu-o beijar-me

Não demorou muito até o culminar de tudo chegar, havíamos sido um do outro mais uma vez, e nada, nada batia a sensação de me sentir assim… Completa! Como me sentia do lado dele…

- Nossa, meu amô! Saudade danada essa! – ele riu-se, ao mesmo tempo que me aninhei nos braços dele

- Foi uma semana, amor…

- Foi uma eternidade! – ele rematou sem sequer me deixar acabar de falar

- Agora vamos estar sempre juntos, podes ficar descansadinho, amor! – beijei-o no peito e sorrimos os dois

- Acho que não quero descer, não… Ficamos já assim! Grudados um no outro, a noite inteira! – ele apertou-me mais para si e por momentos o ar faltou-me

- Oh amor, não pode ser… É Natal!

- Oh bolas, pro Natal! – ambos nos desmanchámos a rir à gargalhada

- Tem de ser… Pensa que pelo menos logo à noite vamos dormir os dois bem agarradinhos! – fiz um sorriso motivador e fechei os olhos quando senti os lábios dele dominarem os meus – Vá, vamos vestir-nos, amor…

- Hum, mais cinco minutinhos… - implorou-me rebolando mais na cama

- Oh amor tem de ser… Eu vou na frente, tomo banho e quando sair para me vestir vais tu! E quando eu tiver arranjadinha, tu também terás de estar!

- Oh… Que é isso, muleca? Banho sem você? Tá louca, é? Pirou de vez? – o jeito aflito com que ele proferiu aquelas palavras, deram em mim, uma vontade loucamente inexplicável de me rir

- Não me digas que precisas que te lavem as costas…

- Se for isso o necessário pra tomar banho grudado em você, então sim! Preciso que me lavem as costas… - ambos nos rimos e eu levantei-me da cama enrolada no lençol

- Não vais precisar chegar a esse ponto… Anda lá, vá! – estendi-lhe a minha mão serena e ele não demorou quase nada a tomá-la

Foi por entre caricias e beijos doces, e muito, muito saudosos que tomámos o nosso banho e nos arranjámos para a noite de véspera de Natal.

- Pô, que gatona, amô! – elogiou o David ainda ajeitando o pólo que usava sobre a camisa

- Obrigada, amor… - sorriu-lhe harmoniosamente e uni pela última vez as nossas bocas antes de descermos

O jantar foi tido completamente em família e tenho de confessar que me entretive a observar a convivência pacífica e sincera entre os meus pais e a minha restante, com os pais de David e ele. Nada me deixava mais feliz, nada me preenchia mais o coração e nada, mas nada me fazia sentir mais completa, mais mulher.

- Filha, não comes?

Recordo-me da minha mãe interromper por algumas vezes a sua conversa com a Dona Regina, porque eu estava tão embrenhada naquela minha realidade, que nem tocava na comida que tinha no prato.

- Estou a comer, mãe… Com calma! – era o que lhe respondia sempre, disposta a absorver com toda a calma do mundo, cada segundo daquele momento e guardá-lo eternamente na minha memória

E foi assim até à sobremesa, tradicionalmente portuguesa, como toda a restante doçaria que se montou na mesa seguinte, e que nos iria acompanhar noite fora.

- Que é isso, amô? – perguntou David agarrando num coscorão

- É um coscorão, amor… - ri-me levemente sentada no colo dele

- Isso é bom? – ele torceu o nariz, como se nunca tivesse comido daquilo na vida

- É, amor… Pelo menos eu gosto! É doce! – sorri e dei uma pequena dentada

- Vou provar! – anunciou e deu a primeira dentada

Olhei para ele, parecia-me imensamente estranho que um rapaz de 23 anos, nunca tivesse experimentado um coscorão, mas se eu tivesse em conta a sua nacionalidade, talvez nem tanto. Olhei-o calmamente, acabando de mastigar o que deglutira, e tentando adivinhar a sua expressão. Assim que teve tempo de perceber e assimilar o sabor, os olhos dele abriram-se em sinal de espanto.

- Nossa, esse troço é bom! – disse ainda de boca cheia

- Amor, olha aí… - ela riu-se

- Desculpa, amô! – ele ficou meio envergonhado e quando engoliu, uni apenas os nossos lábios

- Madinha, quando abimos as pendas? – perguntou-me o meu afilhado já de olhos mortiços do sono

- Oh amor, ainda falta um bocadinho…

- E poque é que tás no colinho do David? És munto gande pa isso, inha! – todos na sala se riram e não era para menos, aquele menino quando queria era uma autêntica peste

- Porque o David é meu namorado, a tua mamã também se senta ao colinho do papá!

- Mas a mamã só se senta ao colinho do papá pala ele dale miminhos no mano na barriga delha! – ele fez
uma breve pausa como se tivesse a proceder a um raciocínio – Vocês também estão à espelha de um bebé?

O meu pai mudou de cor e engasgou-se com o trago de whisky que tinha na boca, a minha mãe teve uma enorme vontade de se rir e acabou por o fazer com a ajuda da Dona Regina.

- Não, amor… - eu ri-me também baixinho e olhei rapidamente para David – Eu e o David não estamos à
espera de nenhum bebé… Ele está simplesmente a aquecer-me!

- Não pechebo nada! Se tens frio, vete um casaco, inha!

- Oh amor, o David é mais quentinho! – ri-me e David juntou-se a mim

- Oh, Oh, Oh! – um dos meus tios entrou na sala vestido de Pai Natal, para animar a criançada que rapidamente entrou em alvoroço

Foram os primeiros a receber as prendas e o meu piolho delirou com o carro que lhe ofereci para puder andar pelo jardim a passear. Os meus restantes priminhos deliciaram-se com todos os outros brinquedos, filmes e livros.

- Ahhh! O Pai Natalhe, não touxe pendas pa vocês! – o meu menino abriu a boca muito admirado quando viu o saco vazio

- Ele deixou as prendas com antecedência, amores… Não se preocupem e vão brincar! – eu ri-me e assim que anunciei a brincadeira, todos eles desapareceram para um canto da sala e usufruíram das novas prendas

- Bem, vamos lá a isto então! – foi o meu pai que ditou a distribuição de prendas entre adultos – Filha… - ele agitou um embrulho vermelho no ar rindo-se

- Hum, quero ver o que vai sair daí… - abri a caixinha e ia tendo um colapso quando vi a prenda dele – Ai pai, que feioooo! – queixei-me e ergui a camisola do Sporting a dizer “Adriana” com o número 9

- Oh filha, a esperança é a última a morrer! – ele esboçou um sorriso

- Acredita, esta já morreu! – ri-me e coloquei a camisola dentro da caixa

- Agora a minha! – anunciou a minha mãe e entregou-me um embrulho

Abri-o calmamente e os meus olhos espantaram-se assim que a abri.

- Mãe…?! – fiz um olhar inquisitivo olhando o recheio do embrulho

- Que é? – ela espreitou e ficou sem jeito – Ai, essa não é a tua! – uma pilha de lingeries espalhafatosas e que saiam completamente fora do meu estilo, preenchiam o conteúdo

- Bem me pareceu! – ri-me a plenos pulmões e a minha mãe repôs-me a prenda correcta que calmamente abri

- Ai, adoro mãe! Que lindo! – dentro da caixa correcta estava o meu traje académico, que iria usar em Maio no enterro do caloiro

Uma enorme sensação de orgulho e de que estava a passos de me tornar uma mulher, apoderou-se de mim e as lágrimas fluíram-me pela face. Limitei-me a abraçar os meus pais e a agradecer-lhes por tudo o que tinham feito por mim e por me terem transformado naquilo que era. Ao meu pai ofereci uma camisola do Sporting autografada por todos os jogadores e que me foi fácil de arranjar devido a uns conhecimentos de Ruben, já à minha mãe ofereci uma agenda electrónica pois ela era das mulheres mais atarefadas e organizadas que conhecia.
Seguiu-se então a Dona Regina e o Senhor Ladislau. A ela ofereci-lhe uma máquina fotográfica pois sabia bem como ela adorava passear e ter muitas recordações dos sítios que visitara, e a ele ofereci uns ténis da Nike, uma vez que o gosto dele era bastante semelhante ao de David.

- Olha minha filha, a gente não sabia muito bem o que oferecer para você… - a Dona Regina agarrou num embrulho da árvore e passou-mo

- Oh, não era preciso! – reclamei imediatamente pousando-o no meu colo

- A gente espera que cê goste, é meramente simbólico, mas é do coração… - ambos sorriram e eu comecei a abrir a prenda

Mal vi na minha frente o meu presente foi-me completamente inevitável conter as lágrimas. Vi uma fotografia que tirara com a família de David, aquando das nossas férias no Brasil, um porta-chaves apenas com uma chave, muito semelhante e diria até igual a uma que David tinha no seu e um bilhete.

“Minha filha,

As palavras para agradecer tudo o que fez e continua fazendo pelo nosso Davi’ não são mais suficientes. O coração do nosso filho cê já tem, agora tome seu lugar na nossa casa e naquela que será a partir de agora a sua família.

Feliz Natal!
Rê e Lau”

Não consegui conter-me e as lágrimas, que até há segundos atrás apenas inundavam os meus olhos, caíram-me vertiginosamente pelas faces e aterraram nas minhas mãos. Tapei a cara com as minhas palmas e deixei-me chorar completamente sensibilizada pelo gesto deles. Por muito que soubesse que eles gostavam de mim, aquele gesto abria-me completamente a porta da sua casa, a porta das suas vidas e dava-me livre acesso para pertencer àquela família. Senti uns braços envolverem-me e apenas David estava do meu lado, por isso reconheci-lhe facilmente o toque.

- Não chora, amô… - pelo tom da sua voz, pude adivinhar-lhe um sorriso lindo no rosto

Solucei mais umas quantas vezes e senti o meu coração pequenino, como se aquele sentimento que nutria por ele e pela sua família me fosse minar por completo.

- Minha filha… - ouvi a voz doce da Dona Regina e ergui a cabeça

Na minha frente vi um sorriso meigo e atrás dele vi uma sucessão de tantos outros.

- Obrigada, muito obrigada… - levantei-me do lugar com a chave e o bilhete na mão e agachei-me junto do sofá onde eles estavam para os abraçar

- Nós que agradecemos, por fazer a razão do nosso viver tão feliz… - eles olharam carinhosamente para David – A partir de agora a porta da nossa casa é sua… De livre acesso! Nossa família é sua também…

- Obrigada… Nem sei como agradecer! – os meus olhos inundaram-se novamente de lágrimas

- Faça nosso filho feliz e isso será o bastante! – o Senhor Lau era sempre mais reservado que a esposa, mas nesse dia surpreendeu

- Vou fazer, podem ter a certeza! – jurei num sorriso e depois de distribuir um beijinho na face de cada um sentei-me do lado de David para o abraçar

- Não chora, amor… - ele afagou-me os cabelos assim que sentiu o meu peito soluçar de emoção

- Obrigada, pelos pais fantásticos que tens… - sussurrei apertando-o mais para mim

- Shiu, não agradece por isso… Eles amam você!

Um sorriso invadiu os meus lábios e seguiu-se a troca de prendas entre David e os meus pais. Ao meu pai, ele ofereceu um cartão de livre acesso aos camarotes de Alvalade o que o deixou claramente radiante, à minha mãe um perfume que eu ajudei a escolher e sabia ser o seu preferido. A ele, a minha mãe e o meu pai ofereceram umas chuteiras personalizadas com o seu nome e número, e que ele andava a namorar à uma série de tempos e eu ajudara a comprar.

- Bem, agora faltam vocês! – anunciou a minha mãe olhando para nós enquanto um casal

- Começo eu! – anunciei passando-lhe o meu embrulho – Não é nada de importante, não é nada caro, não é nada de marca, e não, não é nada milionário! Mas é do coração… - esbocei um sorrisinho

- Oh amô, tudo o que venha de você é importante! – ele roubou-me um beijo e abriu a prenda – Ai, amô! Que lindo!

Era um álbum com todas as nossas fotografias organizadas cronologicamente e contando a nossa história. Tinham encomendado aquilo a uma empresa especializada em álbuns digitais e impressão e o trabalho estava irrepreensível.

- Amei, meu amô! Foi a melhor prenda de sempre! – ele uniu os nossos lábios rapidamente, pois toda a família estava de olhos postos em nós – Agora é a sua, meu amô!

- Ui, o que é que vem para aí… - reparei que David trocou um olhar cúmplice com a minha mãe

- Vou pegar! Dois minutos! – ele saiu e regressou com uma caixa enorme e um laço vermelho

- Credo, que é isto?

- Abre e vê! – ele sentou-se no meu lado, logo depois de ter pousado a caixa no chão junto aos meus pés



Abri o embrulho muito calmamente e quando me vi livre do papel reparei nuns buraquinhos no topo da caixa, mas nem liguei. Só quando abri a caixa tudo fez sentido. Um cão completamente adorável estava no seu interior e tudo teria sido perfeito se eu não tivesse pânico de cães. Mandei um salto do sofá e coloquei-me atrás do outro disposta a não sair dali enquanto aquele cão não fosse embora.

- Amor, tu estás maluquinho?! – perguntei a tremelicar de pânico

- Não gostou? – ele riu-se baixinho

- Amor, eu tenho medo de cães, sabes disso?

- Sei, por isso mesmo… Tem de perder o medo e nada melhor do que ter um para perder o medo! – ele agarrou no cão e colocou-o no seu colo

- Amor, esquece! Não vai acontecer… Não quero esse bicho! Fica tu com ele…

- Ué, vai recusar o meu presente? – perguntou erguendo-o junto do rosto

- Vou, amor… É um cão, por amor de Deus! – ela falou, como se todos os outros fossem incapazes de ver que ser era aquele

- Um cão! Cão! – o meu afilhado correu para mexer e voltar a remexer no cão, o que não me surpreendeu porque ele era doido por animais

- Isso! Fica com ele, amor! – anunciei respirando fundo

- Posho, inha?

- Podes, amor! Podes!

- Oh amô, que é isso? Não pode nada, garoto! Essa cachorra é da sua madrinha! Vem cá fazé um carinho nela, amô…

- Eu não toco nisso, David! – todos na sala gargalhavam da situação o que aumentava ainda mais o meu estado de pânico

- Tocas, madinha! Olha, que meiguinha! – o meu afilhado afagou a pobre cadela por todo o lado

- Não, obrigada! Eu dispenso!

O meu afilhado colocou a cadela no chão e esta sem eu saber muito bem porquê, mas porque provavelmente persentiu o meu medo, correu para mim. Desatei a correr à frente dela, e era ridículo! Uma matulona de 18 anos a correr à frente de uma cadelinha minúscula, mas só parei quando me sentei no sofá, com as pernas fora do chão.

- Amô, ela não faz mal! – o David apanhou-a do chão e aproximou-a de mim

- David, tira isso daqui! – repugnei a bichinha para longe

- Larga de bobagem! Faz ao menos um carinho nela…

Quando olhei, vi aqueles dois olhinhos melosos de carinho e uma expressão adorável e ficou irresistível não lhe tocar. Meio a medo e com a mão a tremer, passei rapidamente no topo da sua cabeça. Repeti o gesto mais umas quantas vezes até ganhar mais à vontade e fazê-lo mais naturalmente.

- Pega nela, amô… Não vai fazer mal pra você te garanto!

- Amor, isso não… - torci o nariz ainda receosa

- Olha, amô… - ele passou a mão na boca da cadela e ela não o mordeu, era de facto muito calma – Não faz mal!

- Tá bem…

Meio a medo, recebi-a no meu colo e mantive alguma distância, que com o tempo se foi dissipando e conquistando o meu medo.

- Gosta dela, amô? – a mão de David parou carinhosamente na minha perna

- Sim… É bonita…

- Perdeu o medo?

- Quer dizer, David… Não abusemos, vá! – todos nos rimos

- Mas vai ficar com ela, certo?

- Tem mesmo de ser não é?

- Não tem de ser, mas se você pode perder o medo, melhor pra você! E cachorro faz sempre companhia!

- Pronto, então eu fico com ela! – sorri, não apenas porque sabia que o estava a fazer feliz, mas porque me estava a sentir também assim – Já tem nome?

- Não… Deixei isso pra você escolher! – ele sorriu-me delicadamente

- Não pensaste em nenhum?

- Sei lá, amô… Nome de cachorra normal! Laika, Lassie, essas coisas…

- Hum, isso não é muito normal!

- Quimera! – gritou o meu afilhado de forma atrapalhada

- Quimera?! – perguntei primeiramente com estranheza e analisando a cadela nas minhas mãos – Gostas?! Bem, Quimera! É giro… - sorri olhando todos

- Nunca na vida pensaria ver a minha filha, que tem fobia de cães, dona de um e com ele no colo! – o meu pai riu-se e a minha mãe também, pois sabiam bem o quão grave era a minha fobia

- Até é fofa! – disse aproximando-a da minha cara e acabei por levar uma lambidela, que foi motivo de risota para todos – Ahhhh! Que nojo! – passei imediatamente a cadela para os braços de David e a sala ficou rendida em gargalhadas


***

Depois de dias de extrema felicidade e união a viragem do Ano Novo chegou e seria passada entre amigos e familiares. Aos meus familiares mais próximos, como os meus pais e avó, juntaram-se os pais de David e os de Ruben, assim como o resto do grupo de amigos habitual. A festa foi feita na casa da família Amorim.

- 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1… Feliz Ano Novo! – gritaram todos com as garrafas de champanhe na mão

- Feliz Ano Novo, amor! – beijei David imediatamente

- Feliz Ano Novo, meu anjo! – ele prolongou a troca de carinhos entre mais uns beijos e por fim abriu a garrafa de champanhe para brindarmos

O fogo-de-artifício cruzou os céus e começou a inundá-lo de cor e magia. Entre ritmos de tonalidades intensas, o céu pintou-se para receber mais um ano e o meu corpo preparou-se para receber novamente David. Os seus braços envolveram-me por trás, pousando a cabeça no meu ombro.

Fechei os olhos e pedi um desejo: “Quero ficar para sempre com o David, para sempre…”

- Vamo’ ser muito felizes esse ano, meu amô! – anunciou sussurrando no meu ouvido

- Tenho a certeza, amor… Tenho a certeza… - sorri e deixei o meu corpo tombar completamente no dele

Uma cana rebentou com mais força no céu e eu estremeci, mas senti os lábios de David cortarem os tremores indo de encontro à pele do meu pescoço, para logo depois subirem para a orelha.

- Casa comigo… - a voz dele soou bem baixinho junto do meu ouvido, mas o barulho era tanto que até hoje não tenho a certeza se ele o disse, ou se foi somente um murmúrio inconsciente da minha alma

Mas aquele ano adivinhava-se em grande, eu tinha grandes sonhos e projectos, mas o que eu não sabia é que estava longe, mas bem longe de realizar muitos deles, dentro o qual, aquele que eu mais queria e no entanto o que mais rapidamente me escaparia…

sábado, 7 de maio de 2011

Capítulo 107 – Have Yourself a Merry Little Christmas (Parte IV)



- Vá, deixa-me abrir a porta e tapar-te os olhos! – pedi com um sorriso traquina

- Bem, já não ‘tou gostando disso, amô! – ele refilou fazendo um beicinho de criança

- Amor, acredita que depois vais gostar… - sorri, dei-lhe um beijinho no pescoço e com muito esforço coloquei-me em biquinhos de pés para lhe tapar os olhos com as mãos

Fui empurrando-o na minha frente, até atravessarmos a porta já aberta, a Dona Regina e o Sr. Ladislau estavam sozinhos na sala e eu via a cabecinha de quase todos da minha família, a espreitarem pela porta da cozinha.

- Amô, ainda demora muito? – o David já estava impaciente e por norma ele não gostava de surpresas, mas estava na esperança de que aquela fosse excepção

- Calma, eu vou já mostrar… - ri-me em surdina, devido ao desespero dele, que se contorcia devido à inclinação que fazia com o seu corpo para trás, para que eu lhe alcançasse os olhos

Fiz sinal com a cabeça aos pais dele de que o iria soltar, eles sorriram e a Dona Regina levantou os polegares positivamente, dando-me alvará para o fazer.

- Estás pronto, amor? – sussurrei juntinho do ouvido dele, e senti-o estremecer quando a minha respiração embateu contra a pele da sua orelha

- Estou, mais que pronto, amô! – ele esboçou um sorrisinho lindo que consegui alcançar com o olhar, espreitando por cima do seu ombro

- Então vou destapar… Um… Dois… Três! – contei vagarosamente, destapei-lhe rapidamente os olhos e tomei o lugar do seu lado, para puder ver bem de perto a sua reacção

Ele ficou hirto, olhando os pais, de queixo caído e de olhos brilhantes, completamente rasos de lágrimas.


***

(David)

Não via a minha mulequinha há uma semana, tava louco de saudade, mas os meus treinos e os trabalhos dela, não tinham permitido que fosse de outro jeito, para grande tristeza de ambos. Eu andei matutando um tempão o que eu ia oferecer para ela no Natal, sim, porque eu estava determinadíssimo em passar o Natal junto dela, mesmo que isso, infelizmente, significasse ficar longe dos meus pais. Ao fim de alguns dias pensado, recolhendo opiniões junto dos rapazes, que sugeriram desde jóias, a roupas, mas eu sabia que ela não ligava muito para essas coisas, apesar de andar sempre super arranjada e linda. Me decidi então por um presente ousado e muito arriscado tendo em conta um dos seus maiores medos, mas que eu podia imaginar uma fácil adaptação. Encomendei e apenas o iria buscar na manhã da véspera de Natal. Tentei ir junto com ela para a Quinta da sua família, mas ela não deixou, disse que tinha um negócio para resolver e eu até agradeci, pois assim fiquei mais à vontade para ir buscar o presente dela bem cedo. Quando lá cheguei a recepção feita por ela, não podia ter sido melhor. Me encheu de beijos, saciando parte do desejo que tinha dos seus lábios e do seu sabor, que eu conhecia tão bem e que já considerava meu. Mas depois disse que tinha uma surpresa para mim, eu detestava surpresas, mas confiei. Deixei então que ela me guiasse até dentro de casa e quando me deparei com meus pais bem na minha frente, fiquei muito emocionado.

- Tô sonhando! – meus olhos estavam cheios de lágrimas de felicidade, mas ainda assim meus lábios mostraram um pequeno sorrisinho

- Não está não, meu filho… - a voz doce da minha mãe, ali tão perto, me fez compreender que não ‘tava sonhando, mas vivendo a mais bela quimera de amor

- Mãe? Pai? Que cês tão fazendo aqui? – enxuguei as lágrimas que caíam do meu rosto e meu sorriso se intensificou

- Você vai querer essa resposta antes ou depois de nos dar um abraço? – ambos me abriram os braços, esperando que me aninhasse neles e foi exactamente isso que fiz

- Ai que saudade, mãe… Oh pai… - fiquei emocionado e entre o calor dos braços dos meus pais, chorei discretamente

- A gente já tá aqui meu filho, a saudade vai passar rapidinho… - minha mãe me mexeu nos cabelos e sua voz soou doce e meiga como sempre

- Como cês tão aqui? Como vieram? Porque não me disseram nada? – naquele momento, explodi todas as perguntas que me estavam deixando curioso

- Calma, meu filho… A resposta para todas essas perguntas é a Adriana! Ela que nos fez chegar até aqui, meu anjo! – minha mãe me esclareceu imediatamente e meu coração derreteu

Olhei para ela, meu mundo fixou naquele ser lindo, que de olhos húmidos me olhava, emocionada, por aquele momento lindo, e que havia sido proporcionado por ela. Naquele momento defini um monte de ideias, que até aquele momento, eu sentia, mas não tinha nem a mínima noção. Só ela era capaz de me dar a coragem que eu precisava. Só ela era capaz de me dar o amor que eu precisava. Só ela era capaz de me fazer sorrir apenas com um sorriso. Só ela era capaz de despertar o que havia de mais belo em mim… Porque o que havia de mais belo em mim, era ela! E eu não era feliz só porque estava com ela, eu era feliz porque ela me completava, me fazia sentir um homem de verdade, como nunca antes havia experimentado. E eu era feliz desse jeito, tendo ela do meu lado, todos os dias, me dando, mais e mais provas de amor. Era feliz porque a amava, era feliz porque ela me amava, era feliz porque ela me fazia sorrir e me fazia chorar. Era feliz porque toda a hora tinha uns braços para onde correr se algo desse errado, era feliz porque ela me amava, mas por vezes era fria… Era feliz, era feliz por tudo e por nada, por todos os motivos e por nenhuns… Era feliz e nem sabia bem explicar porquê! E ser feliz sem motivo específico é a mais autêntica forma de felicidade. Naquele momento ela me disse as suas mais belas palavras de amor: suas lágrimas de felicidade, ao me ver feliz. Elas provocaram um insano estado de alegria e uma sensação esmagadora dentro de mim.

- Foi você que trouxe eles, amô? – perguntei com um sorrisinho meio nervoso nos lábios

- Fui… Espero que não fiques chateado… - ela torceu os seus labiozinhos e nariz

Pô, eu nunca gostei de surpresas, mas como não gostar daquela? Como não gostar que a mulher da minha vida, que eu tanto amava, se tivesse preocupado comigo, com o meu bem-estar e tivesse trazido para junto de mim as pessoas que faziam meu mundo girar e meu coração bater?

- Chateado, amô? Chateado? – avancei na direcção dela, que coitadinha me olhava com uma cara de desespero e a abracei, com todas as minhas forças – Eu tô é mó feliz, amô! – escondi meu sorriso nos
cabelos dela e os afaguei com carinho

- Gostaste, amor? – ela se libertou de meus braços e colocou nossos rostos frente a frente, olhos nos olhos

- Eu amei! Foi a melhor coisa que podia ter feito para mim! – acariciei seu rosto ao de leve, com carinho e delicadeza

- Só queria que pudesses passar o Natal comigo, mas teres do teu lado a tua família como eu tenho a minha… - ela esboçou um sorriso lindo, verdadeiro, que desde que me apaixonara, se tornara a única razão de eu querer viver cada dia, mais intensamente do lado daquela mulher

- Cê não existe, garota! Eu nem te mereço! – desabafei o que por vezes cruzava minha cabeça

Acho que nunca tinha conhecido menina tão doce, tão madura e tão altruísta como ela… E se o que me fez admirar ela no início foi isso, a sua preocupação comigo, foi o que rematou tudo e me fez apaixonar.

- Shiu… Não digas isso! – ela me silenciou passando seu indicador sobre meus lábios meio gretados pelo frio do Inverno português

- Digo a verdade, cê é boa demais para mim…

- Shiu! Somos perfeitos um para o outro, na medida certa! – ela sorriu mais uma vez e meu coração acelerou que nem um louco e logo depois se acalmou

- Te amo… - sussurrei pertinho dos seus lábios quase pronto para a beijar

- Eu também… - ela respondeu quase num sopro, porque eu uni nossas bocas rapidamente para matar minha saudade e para agradecer por me fazer tão feliz

- Como cê fez isso tudo sozinha, amô?

- Fácil, liguei à Dona Regina, fiz-lhe o convite e do resto tratei eu! Arranjei duas passagens, mandei-as para lá e hoje só tive de ir buscá-los! – ela me sorriu de forma astuta, não passava nada àquela cabecinha mesmo

- Cês tavam feitos com ela, é? – eu me ri, passando minha mão na cintura dela e alcançando meus pais com o olhar

- Teve que ser, meu filho… Tudo por você! - o meu pai me piscou o olho, eu sorri para ele e recordei a conversa que havíamos tido os dois quando no Verão levei ela no Brasil para todo o mundo a conhecer

Minha opinião se mantinha a mesma, e eu acho que nunca iria mudar… Ela foi, era e sempre seria a mulher da minha vida. E eu já podia imaginar a gente se casando, tendo nenéns, meu quadro de felicidade tava esboçado, só faltava a ajuda dela para passar a tinta.

- Tô vendo que se uniram todos contra mim! – os três se riram e eu me juntei neles

- Foi por uma boa causa, amor… - ela rodeou minha cintura com seus braços e passou a mão na minha barriga

- Foi sim… A melhor causa de todas, meu amor! – dei um beijo no topo da cabeça dela, que era o mais próximo devido à nossa diferença de alturas

- Bem, os teus pais já estão instalados, vamos tratar de ti?

- Vamo’, amô! Tô morto de cansaço!

- Cansaço? Mas não dormiste de manhã, amor? – perguntou erguendo a sobrancelha e eu quase que fui apanhado

- E cê ainda me há-de dizer, desde quando é que eu não tenho sono, muleca! – meus pais se riram e eu também

- Caracole! – a vozinha do afilhado dela se fez ouvir

- Oh mocinho! – me baixei, abri os braços e aconcheguei o menino nele – Caraca, cê tá muito grande, garoto!

- Tu que tás gande! Quando é que palas de crescer? – o menino inclinou a cabeça e me olhou de um jeitinho confuso, foi inevitável não nos rirmos

- Ué, eu já parei de crescer, molequinho! – passei minhas mãos nos cabelos dele

- Palaste? Não palece! Estás cada vez maiole, ou isso ou eu tou a ficale mais pequenininho… - ele encolheu os ombros revelando a sua completa ignorância e inocência perante o assunto

- Nada disso, garoto! Não se preocupa que qualquer dia desses cê vai ser grandão que nem eu! - sorri para ele tentando tranquiliza-lo

- Vou sele maiole que tu! – o menino agitou a cabeça e saltou dos meus braços

- Vais, amor… Vais ser enorme, agora vai ter com a mamã que o David precisa descansar… - o meu amô, descartou o menino para que eu pudesse subir e repousar um pouco

- Não! O David é meu, madinha! Deixa de sele ciumenta! – o garoto saltou para o meu pescoço e meu encheu o rosto de beijinhos

- Olha, é teu onde ó meia leca? – ela olhou para o menino, colocando a mão na cintura

- Meia lheca? Meia lheca és tu, madinha! – o menino respondeu direitinho para ele e eu quebrei na risada

- Estás a rir-te é? – ela me deu um safanão nos cabelos e eu me ri ainda mais – Isso, riam-se! Riam-se os dois… Á pala dessa, hoje dormes sozinho, David Marinho! – ela anunciou isso de um jeito sério e eu fiquei olhando

- Caraca, nem brinca, amô! – revirei os olhos e torci o lábio

- Gostas tanto aí do pinchavelho que podes ficar com ele… - ela revirou os olhos como eu e vi seu jeitinho de menina, que teimava aprisionar um sorrisinho

- Amô, gosto mais de você! – coloquei minha mão na perna dela, pois agachado no chão junto do menino era o mais próximo que conseguia alcançar

- Assim a conversa é outra! – ela sorriu e se inclinou para me dar um beijo nos lábios

- Nada de beijinhos, que o tio Francisco não quer dessas coisas na casa delhe! – o menino interrompeu, e podia ser pequeno, mas sabia bem as regras do pai da Adriana o que claro, provocou risada em todo o mundo

- O que é que eu não quero na minha casa, ó pequenote? – o pai dela surgiu e segurou o menino nos braços

- Beijinhos, tio! O David e a Madrinha iam dar um beijinho! – o pequeno dos entregou de bandeja para uma das figuras que mais me intimidava naquela casa

- Olá, David! – agente se cumprimentou com um aperto de mão leve e firme

- Oi, Sr. Francisco! – respondi tão formal e educado como consegui

- Como estás, rapaz? Como vai esse Benfica?

- Oh pai, nem venha… Todos aqui sabemos que lagarto como é está é desejoso que o David lhe revele os segredos dos campeões! – o Sr. Francisco se riu e a minha muleca também

- Oh filha, tu não dás tréguas! Nem em tempo de Natal…

- Oh pai, aí é quando dou menos tréguas! Já sei como fica furioso de ver tudo coberto de encarnado! Tipo estádio da luz, está a ver…? – novamente toda a sala se encheu de gargalhadas

- Pronto, lá estás tu a provocar-me!

- Oh amô… Deixa seu pai! Eu tou bem e o Benfica vai muito bem, Sr. Francisco! E o senhor como tem passado? – sorri para aquele que eu podia um dia chamar de meu sogro, pois seria sinal que do meu lado ia ter ela e só ela

- Bem obrigada… - ele me sorriu de forma tranquila, havia qualquer coisa nele diferente.

Parecia estar menos na ofensiva e somente preocupado com a felicidade da filha e a união da família, o que de certa forma me deixou feliz, pois parecia que tinha encontrado a carta-branca para seguir do lado de Adriana para sempre.

-David! – a mãe dela surgiu na porta da cozinha e me abraçou

A relação que mantínhamos era muito cúmplice, quase de filho e mãe e era assim que ela me pretendia tratar desde sempre, para a felicidade da filha e porque parecia gostar mesmo de mim.

- Oh Dona Isabel! Como a senhora está? – perguntei educado e tomando o lugar perto da minha Adriana

- Estou bem, obrigada… E tu, meu filho?

- Tou bem também! Depois da surpresa da sua filha, muito melhor, né?

- Bem, amor, agora que já viste toda a gente, vamos para cima que precisas de te instalar, descansar um bocadinho e preparares-te para o jantar! – ela me apertou para junto do seu corpo e eu passei meus braços
sem seus ombros

Pedindo a devida permissão, subimos até ao primeiro andar e entrámos no quarto que pertencia à minha muleca, mas que naqueles dias, ela iria dividir comigo…