domingo, 30 de outubro de 2011

Capítulo 113 - Coração desarrumado (Parte IV)


O tempo voou… Desde aquela tarde no jardim da casa do Ruben, já quase dois meses se haviam passado.
Sobre David e a sua nova namorada mais nada soubera, porque me obrigara a mim mesma a não ler mais qualquer tipo de revista ou artigo que falasse sobre a sua vida pessoal, ou até mesmo aqueles que inventavam maledicências sobre mim e me faziam vacilar no meu frágil autocontrolo… Talvez fosse melhor assim. “Olhos que não vêm, coração que não sente!”, sempre me dissera a minha avó, dona de toda a sabedoria de mais de sessenta anos de idade.
Mas o tempo passara e era um facto, que estava então a exactamente uma semana do casamento de Ruben e isso só quereria dizer uma coisa… Chegara a hora de enfrentar a pessoa que durante meses tinha procurado esquecer.
Naqueles sessenta dias, ocupei o meu pensamento com a faculdade, que ia de vento em pompa; com chamadas cruzadas para o outro lado do oceano, compartilhando amarguras, alegrias e dissabores com aquele que aprendera a ser o meu novo confidente, Diogo; e ajudando Inês com os últimos preparativos para o tão aguardado enlace.
Aquela semana seria passada ao abrigo da vivenda Amorim. Aquela enorme casa, situada perto da que pertencia à minha família, e que tomava cerco no Baleal, uma das cidades mais belas que alguma vez conhecera e onde outrora descobrira a minha paz.
O Campeonato português sofria então uma breve pausa, devido aos jogos de apuramento para o Mundial. Ruben, infelizmente ficara de fora da lista de convocados e segundo o que lera, David estava fora das opções de Mano Menezes, devido a uma pequena lesão no joelho esquerdo. Outros membros do plantel haviam sido chamados para representar o seu país, mas aqueles que essencialmente inteiravam o nosso antigo grupo de amigos, haviam-se tornado cartas fora do baralho para os seus seleccionadores.
Seria provavelmente a semana mais assustadora da minha vida, mas aquela que eu esperava ver passar mais depressa, para regressar ao conforto de Lisboa e da minha casa.
Conduzi calmamente durante uma hora. Não tinha pressa em chegar, apesar do meu coração teimar em manter um ritmo estupidamente parvo do lado esquerdo do meu peito. Posso até jurar que batia com tal intensidade que por momentos achei que me fosse sair boca fora, projectando-se sem sentido ou rumo algum.
Quando estacionei o meu Audi Q7 na frente da casa dos pais de Ruben, senti a sensação robusta de excentricidade percorrer-me o corpo. Teria definitivamente de ficar ali… Não conseguia regressar à vivenda da minha família após a morte do meu avô, mas Ruben também não aceitava o meu desejo de me instalar no hotel mais próximo e eu sabia que se o fizesse, ele nunca me iria perdoar.
Saí do carro e os meus ouvidos foram preenchidos por um burburinho ruidoso composto por um turbilhão de vozes e sotaques misturados no ar, que provinham do lado interior dos jardins da casa.
Não hesitei em abrir a porta e sair imediatamente do carro. Destranquei a de trás, abrindo espaço para a Quimera saltar para o chão e esta manteve-se próxima de mim rodando em torno das minhas pernas, em círculos modestamente confusos, mas enérgicos.
Avancei na direcção do portão, que como já era hábito estava fechado, mas não trancado... A minha mão delicada escapuliu-se por entre uma brecha entre os ferros e com um simples premir do gatilho, este abriu-se.
O início do meu percurso foi trémulo, pois sentia as pernas tiritantes, mas a presença de Quimera deu-me surpreendentemente um aconchego que eu não esperava conseguir sentir naquele momento de confrontos.
A primeira pessoa que vi foi Ruben, o meu eterno e dócil melhor amigo, com quem finalmente acertara as pontas soltas de uma guerra que não deveria ser travada entre nós. Ele largou tudo o que estava a fazer e correu na minha direcção, obrigando-me a reflectir um sorriso que ainda me esforcei por conter. Que saudades daquele miúdo… Dos momentos que vivêramos naquela casa há alguns anos, mas que ainda se sucediam em flashes na minha dissipada memória de menina. Assim que me alcançou, e apenas com um dos seus braços fortes, agarrou em mim e ergueu-me no ar. Apertámos-mos tão fortemente um contra o outro, enquanto os braços dele envolviam a minha cintura e os meus o seu pescoço, onde mantinha a cabeça enterrada, que me senti de novo no passado… Naquele que desejava recuperar. Onde ser criança não custava, e o segredo não estava em viver, mas sim em saber fazê-lo.
- Nunca mais fico tanto tempo sem te ver, pequenina! – consegui adivinhar-lhe um ar rezingão na face ao falar e acabei por o confirmar quando ergui o meu rosto do seu pescoço e o encarei, precavendo as saudades de dois meses em que somente faláramos por telefone
- Que saudades… Até da tua refilice! – por aquela altura já todos os presentes nos olhavam e apesar de ainda não ter visto quem mais ansiava e isso me ter feito suspirar em modos de pesar, não me coibí de beijar a face ao carinhoso Ruben
- Então e a viagem, foi calma? – inquiriu, pousando-me no chão e abrindo com os nossos pés um percurso feito sob o calor do seu terno abraço de irmão
- Sim, fez-se bem… Já me habituei a muitas horas de carro! – sorri levemente, pendendo o olhar no relvado verdejante que enquadrava perfeitamente as pontinhas dos meus sapatos
Foi nesse momento que a Quimera saiu a correr que nem uma louca. Afastou-se de mim e acelerou numa corrida desenfreada rumo a uma pessoa que acabara de enveredar pelo jardim.
O meu coração tremeu ao vê-la lançar-se à cintura de David, constatando que apesar de vários meses de ausência ela ainda o reconhecia e a loucura que sempre sentira em relação ao seu dono e às brincadeiras compartilhadas por ambos, ainda permanecia.
O meu olhar observou tudo… Quimera circundava o corpo dele num estado de frenética felicidade, latindo arduamente e agitando no ar a pequena cauda, que revelava toda o seu contentamento em reencontrá-lo. E o mesmo já não poderia eu dizer, mas ainda assim não consegui esconder um sorriso que me adornou os lábios, mas rapidamente o meu olhar tomou consciência de que na minha frente se encontrava o homem mais perfeito do mundo e por consequente os meus pés colaram-se ao chão, incapacitando-me de dar mais um passo que fosse.

- Quimi! Que linda, garota! – David revelou a mesma alegria que a nossa cadela e afavelmente distribuiu no focinho dela uma enxurrada de carinho e cumplicidade
E foi dessa mesma forma que Quimera acabou por se render… Jogou-se nos pés daquele que fora um dia o meu homem e com a zona lombar virada para cima, aguardou que as carícias se alastrassem por todo o corpo como já era hábito.
- Oh garota, que saudade! – ele limitou-se a cumprir o desejo dela e  agachando-se junto do seu corpo combalido fez-lhe festas morosas, recebendo como compensação uma ou duas lambidelas brincalhonas na face
Quando a Quimera se levantou, também ele se ergueu e olhou na minha direcção… Aquele era o nosso primeiro confronto depois daquilo que acontecera em Paris, mas ainda assim eu não consegui evitar a estranguladora vontade que senti de me perder nos seus braços e roubar-lhe um beijo, que eu sentiria com todo o meu coração, mas pelas razões óbvias fui obrigada a suprimir o meu desejo a leves quimeras suspensas no pensamento do meu íntimo.
A primeira pessoa a aproximar-se de mim foi Paulinha, que me beijou carinhosamente a testa, mas quando eu pretendia retribuir o carinho imposto pela nossa amizade, detive-me na imagem contundentemente infeliz que inundou o jardim…
Uma bela rapariga, que eu nunca tinha visto, mas que fosse quem fosse fez todos os olhares presentes centrarem-se em mim e só em mim.
Ela era de facto uma mulher lindíssima. Os cabelos lisos castanhos aclarados pendiam-lhe sobre os ombros, enquadrando-lhe preciosamente o rosto onde dois olhos castanhos escuros sobressaíam, embelezando ainda mais o corpo bem-feito e atraente de que era dona.
Sem qualquer razão aparente o meu coração comprimiu-se num punho cerrado do lado esquerdo do meu peito, como se antevisse a cena que se seguiu. Era ela… A rapariga de quem todas as revistas falavam e apontavam como sendo a nova namorada do David! Os meus olhos clarificaram-se e desmistificaram aqueles traços, comparando-os com os da fotografia que vira deles os dois na revista cor-de-rosa de há dois meses atrás, mas tive essa certeza quando a vi roubar dos lábios de David um beijo rápido… Dos lábios que um dia haviam sido meus, que um dia só eu tinha beijado.
Apesar do orgulho dominante os meus olhos ficaram rasos de lágrimas, que felizmente não traçaram direcções no meu rosto de feições marcadas pela dor.
Como que por instinto a Quimera começou a ladrar-lhe, agachada em posição de ataque e mostrando todo o corpo - especialmente as patas – numa contracção tensa, que não era habitual naquele ser tão dócil, mas talvez estranhasse ver do lado de David, beijando-o, outra pessoa que não eu.
- Calma, Quimi, é só a Joana… Não vai fazer nada p’ra você! – ele tentou acalmá-la, passando-lhe a mão no topo da cabeça e no lombar, mas as carícias que há segundos atrás a haviam deliciado não foram capazes de pôr fim à inércia daquele descontentamento
- David, acalma esse bicho! – pela primeira vez ela pronunciou-se com uma camada de desdém, repugnância e repulsa, revelando uma voz igualmente bonita à sua figura, mas algo no seu jeito de se impor frente à minha companheira de longas horas, molestou-me, contudo ainda equacionei a hipótese de ser dona de um medo que eu própria já havia perdido há algum tempo… de cães.
Fiz questão de engolir uma por uma todas as lágrimas que impensadamente se haviam formado por detrás das minhas pálpebras e fincando o pé direito no chão, encaminhei dois dedos à boca e soprei, emitindo um forte assobio de chamamento para Quimera. David olhou-me, assim como a cadela, que circundou entusiasticamente o corpo de David, dando-lhe sinal para que se aproximasse de mim como tantas outras vezes o fizera, mas como já era previsível ele não se moveu. Talvez um pouco enfadada com a reacção anómala do seu dono e naquele jeito tão típico de cadela traquinas, retomou os latinos ofensivos à rapariga que permanecia escondida nas costas do meu antigo David.
- David, não deixes que me faça mal! – implorou, não conseguindo esconder o desprezo que foi perceptível a todos os presentes, mas especialmente a mim, que não demorei em manifestar-me
- Quimi, anda! – ordenei, repetindo o assobio de há pouco, mas desta vez ela nem sequer se deu ao trabalho de olhar na minha direcção, pois estava demasiado entretida a gozar do seu prazer deleitosamente delicioso em assustar a pobre rapariga
Não me restou nenhuma outra opção para além daquela de me aproximar. Decidida, finquei as pontas dos pés no chão e delineei um caminho recto e célere até chegar junto da minha cadela, de David e da sua nova companheira de vida. Tirei do bolso do meu casaco a trela e acerquei-me o suficiente para a conseguir prender na coleira de Quimera, sem ter de olhar David ou a sua companhia, olhos nos olhos, pois disso seria inequivocamente incapaz.  
- Quimi, anda…! – implorei, fazendo-lhe festas no topo da cabeça e algum esforço para a conseguir arrastar os primeiros centímetros, enquanto a sentia oferecer resistência, deixando a marca das suas patas distintas no relvado, esburacando-o
Mas ela manteve-se intransigente, reforçando latidos violentos à nova namorado do David e oferecendo-me uma dose extra de defesa que me impedia de a continuar a arrojar pelo jardim fora.
- Quimi, bolas! Já chamei… Já! – nesse exacto momento a minha mão repeliu um movimento forte e conciso na trela, repercutindo-se num puxão que deixou Quimera sem qualquer hipótese de resistência e ela acabou por me seguir a muito custo, ainda tentando tomar o sentindo oposto, mas sendo-lhe impossibilitado
- Aquele cão tem graves problemas comportamentais! – escutei aquela voz sonantemente irritante de pujança, pertencente à tal rapariga que acompanhava o meu ex-namorado, mas não olhei para trás, resolvendo ignorar e seguir o meu caminho
A pobre Quimi ainda olhou para trás, ganindo fortemente, implorando a David que a seguisse… Que nos seguisse! Mas o caminho que tomei foi somente trilhado por nós duas e com as primeiras lágrimas a correrem-me pelas faces. Apenas Paula e Ruben conseguiram vê-las, pois eram os únicos naquele espaço que tinham uma visão frontal do meu rosto e por consequência do meu sofrimento.
Os rostos de ambos contorceram-se de dor ao ver-me assim, porém não desarmei a postura forte que havia adoptado e enxuguei as lágrimas que me afagavam os traços do rosto. Foram os braços da Paula os primeiros a envolverem-me num abraço forte, até eu finalmente me sentir em porto seguro.
- Não fiques assim… - pediu-me ela num sussurro discreto, mas que bastou para intensificar o meu choro silencioso
- Nunca pensei, Paula… Nunca pensei que ele fosse seguir em frente tão depressa! – consegui dizer por fim, controlando a respiração descompassada ordenada pelo choro, que me esforcei por manter tão discreto quanto possível
- Calma, tem calma, amor… - pediu-me, enquanto afagava carinhosamente os meus fios de cabelos docilmente embalados pela brisa fresca outonal que já quebrava as folhas das árvores
Libertei-me dos seus braços e quando encarei o meu melhor amigo, este delineou um sorriso nos seus lábios, enquanto me enxugava discretamente as lágrimas singelas, que ainda pereciam no meu rosto.
- Ele pediu-me, Adriana… Eu não lhe podia dizer que não! – Ruben apressou-se a emitir um pedido de desculpas, justificando na mesma frase o porquê da presença passiva da nova namorada do David naquela casa
- Eu compreendo, Ruben… A sério que sim, além disso a casa é tua! – clarifiquei, acariciando-lhe o rosto num afago amenamente adorável
- Não te quero ver assim… Se for preciso, falo com ele e peço-lhe que a mande embora!
- Ei, nem penses… Nada disso! Se alguém está aqui a mais, esse alguém sou eu… Logo, eu vou embora! – os meus lábios delinearam um sorriso forçado, mas compreensivo pela posição desconfortável em que Ruben se encontrava, e segui caminho até ao meu carro, que permanecia estacionado na frente da casa, do lado transposto do portão encostado
- Nada disso, não faz sentido nenhum ela ficar e tu ires embora!
- Ruben, eu fico num hotel aqui perto… Quero causar o mínimo desconforto possível a todos! – esclareci, empurrando num só movimento o portão pesado de ferro forjado
- Estou-me a borrifar para os outros, quem me importa és tu, Adriana! – contrapôs intempestivamente, desassociando a amizade que nutria por David ao desejo que sentia em ter a sua melhor amiga por perto numa jornada tão importante e inesquecível na sua vida – Eu quero-te é aqui, comigo!
- Ruben, por favor… - a minha tentativa de contra-argumentar a favor da segurança do meu ser fragilizado, foi imediatamente refutada pela persistência vagarosa daquele amigo, que ocupava quase um espaço de irmão dentro do meu coração
- Adriana… - a segurança transposta no olhar e na voz, fez-me compreender que não podia, não devia e não queria desiludi-lo ao ponto de lhe provocar tal desgosto com a minha tenebrosa ausência
- Tudo bem… Ganhaste! – afirmei num tom derrotado, enquanto premia o botão digital que encabeçava a chaves electrónicas do meu carro perfeitamente estacionado na dianteira da moradia, de forma a trancá-lo, deixando de parte a ideia clara de aportar aquela semana, que ainda se adivinhava demasiado longa
- Obrigada, Adriana… Tu sabes que eu não te pedia, senão fosse importante pra mim! – relembrou a sua escolha evidente entre mim – a ex-namorada do seu melhor amigo – e a nova mulher que ocupava então o lugar que em tempos de glória havia sido unicamente meu
- Eu sei disso, Ruben… Eu sei! – um suspiro vagaroso ancorou em meus lábios, dissipando o sussurrar vagarosamente adunado de saudade que me plenificava interiormente
- Oh amor… Não gosto nada de te ver assim! – desabafou a minha Paulinha, passando sobre os meus ombros o seu terno braço longo
- Eu estou bem, amor… Eu já estava preparada para ter de o ver nos braços de outra pessoa, só não achei que fosse ser tão cedo… - mantive a minha postura rígida e adunada pela robustez da falsa serenidade que envergava no rosto - …só isso!
- Vamos então fingir que a tua boca diz o mesmo que os teus olhos e estamos conversadas… - ambas sorrimos, num estado consciente da forte cumplicidade que nos unia
- Bem, então é melhor ir prender a Quimera… É uma cadela “com graves problemas comportamentais!” – não evitei na minha voz a imitação evidente da arrogância e prepotência usada por aquela rapariga para se referir à minha adorada cadela
- Também te irrita aquela vozinha? – inquiriu Ruben, passando pela polpa dos seus cabelos, os dedos castiços que lhe encimavam as mãos grosseiras
- “David, isto! David, aquilo!” e… “Um cão com graves problemas comportamentais!” – a minha doce Paula, não hesitou em juntar-se à brincadeira e assomou na sua frágil figura de mulher a imitação perfeita da rude petulância da companheira de David
- Parece que engoliu uma vassoura o raio da miúda! – queixou-se Ruben, caminhando na minha frente e de Paula rumo ao interior no enorme jardim, que havíamos abandonando há apenas uns minutos
- Ela é sempre assim? – questionei, abafando na palma da minha mão, uma gargalhadazinha discreta, mas que não passou despercebida aos meus dois amigos
- Assim? – a breve pausa que suspendeu no ar, abriu espaço a uma expressão de comicidade típica do meu melhor amigo – Nahhhh!
- É pior! – rematou Paula, quebrando em solenes gargalhadas, que somente foram acompanhadas por Ruben, pois eu remeti-me ao silêncio auspicioso de uma reflexão futura acerca daquela semana
Quando alcançámos novamente, o alpendre junto da piscina, onde todos se encontravam antes da nossa saída, vimo-lo completamente vazio, acompanhado pelo silêncio do silvar das folhas na copa dos carvalhos circundantes.
- Vais deixar aí a Quimera? – perguntou Ruben, vendo-me prendê-la no tronco do enorme plátano, que se encontrava no lado oposto à piscina
- Sim, é melhor… Para evitar problemas! – esclareci, forçando um sorriso tremido pela dor que me causava o abandono à minha doce companhia das horas melancólicas, sabendo que pelo menos ali estava abrigada e longe dos comentários daquela rapariga – Até já, Quimi… Até já! – despedi-me, fazendo-lhe um último afago no focinho carinhosamente húmido pelas brincadeiras que depreendia com a relva


***


No interior da casa tudo continuava igual. O mélico aroma a lavanda preenchia o hall de entrada, a jarra em cima do móvel circular estava cheia de orquídeas, tal como acontecia em todas as outras visitas que ali fizera, e a mescla de barulhos que geralmente provinha da sala, era enrubescida por uma parafernália de sotaques que a mim, me eram muito familiares.
A primeira pessoa que o meu olhar alcançou, vinda da porta da cozinha, foi a tia Bela, a mãe do meu adorado melhor amigo, Ruben. Assim que esta também me viu, um sorriso rasgou nossos lábios em simultâneo e os meus braços depreenderam-se do meu corpo para a abraçar ternamente.

- Tia Bela! – exclamei, no mesmo instante em que nossos corpos se uniram, entrelaçados pelos nossos braços saudosos
- Oh minha querida… Há quanto tempo! – a mãe de Ruben observou cada detalhe do meu rosto, movimentando os seus delicados dedos nas pontas dos meus cabelos e seguidamente afagando-me as faces – Estás cada vez mais bonita, Adriana! Mais magrita…Mas linda!
- Pronto, a convivência com a minha mãe fez da tua mãe, Ruben, uma tia-galinha! – constatei, passando o meu braço direito em torno dos ombros dela e ilustrando a passagem de anos… e essa não perdoava, eu tinha efectivamente crescido a olhos vistos em comparação com a tia Bela, que me tinha mudado muitas fraldas em bebé
- Oh minha querida, eu já sou quase como tua mãe… Logo preocupo-me contigo como uma filha! – perante tal confissão, tão carinhosa, não hesitei em beijar-lhe a bochecha esquerda, repuxando depois para trás da minha orelha a madeixa de cabelo, que pendia no meu rosto
- Mira chica, los demás no tienen derecho a un beso? – a voz grossa e monocórdica de Javi fez-me despertar do momento de carinho que compartilhava com Bela e focar, pela primeira vez desde que ali tinha entrado, o olhar na restante sala, preenchida por inúmeras caras conhecidas
- Javi! Még! – indaguei, avançado na direcção deles para os abraçar, afagando a saudade que me corrompia o peito
- Nunca mais te vimos, pequenina! – reclamou Margarida, quando já me tinha nos seus braços suprimindo-me num abraço suficientemente forte para recordar os tempos em que ainda era peça pertencente daquele animado grupo de amigos
- Sabem como é… Tenho andando ocupada! – desculpei-me prontamente, expressando com o meu rosto um torcer de nariz pesaroso ao constatar o facto da minha ausência
- O que ela quer dizer, é que agora que é famosa não liga mais a ninguém… - o tom de picardia exprimido por Brenda, fez-me dar um pulo no meu próprio lugar e observá-la – Tá esperando o quê pra me dar um abraço?
- Ai, Brenda, Brenda… Tu não mudas! – afirmei, agitando certeiramente a minha cabeça e apropriando-me do calor do seu abraço meigo – Que saudades, minha zuca!
- Que saudades, digo eu, portuga, ué! – exclamou no seu jeito engraçado de falar, fazendo a maioria dos presentes rirem-se de uma só vez
- Cadê o teu carecão, Brenda? – inquiri, olhando em redor e dando pela falta evidente de um personagem que se salientava do grupo de amigos, tanto pela sua figura agigantada, como pela boa disposição constante – Selecção?
- Claro! Representando as cores do nosso Brasil!
- E a minha bonequinha? – perguntei, recordando o rosto perfeitamente angelical da minha afilhada, Sofia
- Está dormindo… Cê sabe como ela é preguiçosa! – ambas quebrámos a nossa conversa com suaves gargalhadas de tom feminino
- Andreia, Andreia… Que linda que estás! – afirmei, apertando para mim a mulher de Fábio Coentrão, que envergava uma barriguinha perfeita de cerca de trinta semanas de gravidez
- Tu é que continuas lindíssima, miúda… - sorri-lhe em jeito de agradecimento e olhei a pessoa que se seguia na fila com o sorriso mais falso que consegui montar – Olá, tu és…?
- Eu sou a Joana! A namorada do David… Prazer! – estendendo a mão direita no ar, junto da separação dos nossos corpos, ela presenteou-me com um sorriso perfeitamente alinhado e polido
Cada palavra que ela proferiu, surtiu em mim efeitos inexplicáveis! O meu peito foi alvo de uma dúzia de impiedosas facadas… Eu sabia que ela estava com ele, eu sabia que eles se amavam, eu sabia que o meu lugar já havia sido preenchido, mas ouvi-lo da boca da pessoa que o havia tomado, doeu mais do que eu poderia imaginar, talvez porque não estivesse preparada para aquele confronto… mas também me questionava: será que algum dia estaria verdadeiramente preparada?
- Eu sou a Adriana… Prazer! – as nossas mãos colidiram prudentemente, agitando-se ritmadamente durante apenas alguns segundos, pois eu fiz questão de não prolongar algo que se avizinhava tão doloroso
Quando o meu olhar já se fixava em David – a próxima pessoa alinhada do lado de Joana – escutei um voz melancolicamente doce, que me aqueceu o coração e me fez sentir mais segura, pois sabia então que tinha por perto uma das pessoas que mais me queria bem e mais desejava ver-me feliz
- Bela, cadê aquela panela que eu arrum… - a voz da Dona Regina invadiu a sala, surgindo nas minhas costas
Libertei a mão de Joana da minha e a minha cabeça rodou na direcção da voz, deixando que o meu corpo a seguisse. Dona Regina interrompeu o discurso assim que me viu e os nossos lábios delinearam um sorriso sincero, enquanto os meus olhos se vidraram de uma superfície cristalina e as minhas mãos se quedaram trémulas.
- Oh Adriana… - o timbre carinhoso da mãe de David proclamando o meu nome, provocou um clarão de luz naquele meu dia, que até então se encontrava nublado
- Dona Rê…  - os nossos corpos caminharam na mesma direcção, anulando num abraço forte, toda a distância que nos separava há já alguns meses
A mãe dele, havia-se tornado também para mim uma segunda mãe, durante todo o tempo de namoro com David, mas mais – e muito mais – do que isso, uma amiga, uma confidente, que poderia procurar nas horas de maior aperto. E era essa amizade, uma das poucas coisas que eu sabia, que iria sobreviver ao fim da relação que compartilhara com David… aquela amizade e sentido de cumplicidade, expressos no embalo possante que os seus braços exerciam em torno do meu corpo num instinto protector. As minhas lágrimas dissiparam-se assim como todos os meus medos… Permanecemos abraçadas durante largos e prazerosos segundos, durante os quais não me contive e olhei David, que nos contemplava com um sorriso completamente vidrado no rosto, que eu não soube explicar o porquê, mas que me deleitou ver.
- Que saudade, minha filha… - murmurou, afagando-me o topo da cabeça, para logo de seguida desenlaçarmos o abraço, mas deixando os nossos braços e mãos unidos e em contacto
- Podes crer que sim… Há quanto tempo não nos víamos! – suspirei, assim que a vi observar discretamente, pelo canto do olho, o meu querido David
- Mas me diga, moça… Como cê tá? – apesar de ter colocado uma questão, não me deu tempo suficiente para responder, pois logo após me analisar de cima a baixo proletarizou um novo discurso – Tá mais magrinha, minha filha… Aposto que não se tem alimentado nadica de nada! – todos os presentes se riram, recordando o mesmo elóquio proferido pela tia Bela
- Eu estou bem, Dona Regina… Vai-se indo, devagar, devagarinho, mas a vida é mesmo assim! – sorri-lhe, tentando camuflar a dor expressa no meu olhar e que ela não teria qualquer dificuldade em deslindar – A senhora continua linda como sempre!
- Engano seu, meu anjo… Cê que é atenciosa! – os seus dedos trespassaram calmamente as maçãs do meu rosto cálido – Mas me conta… Como vai sua vida, sua carreira? Tenho visto todas as notícias sobre você!
- Vai tudo bem… Tenho tido trabalho, um ou dois concertos agendados e dá sempre para conciliar com a faculdade… E a vida vai bem! Vai-se levando como Deus quer!
- E Deus te há-de querer muito bem, minha filha! – ambas sorrimos, compartilhando um olhar cúmplice, que apenas nós soubemos ler
- Oh Adriana… - desta feita, foi uma voz masculina a irromper pelo ar, uma que também me era bastante familiar
- Senhor Lau! – o meu corpo repercutiu um pequeno pulo, precipitando-se na direcção daquela figura paternal que erguia os braços abertos no ar, esperando receber-me no calor de um abraço  
- Como cê tá, minha querida? – inquiriu, depois de nos termos cumprimentado apropriadamente com um abraço e dois beijinhos
- Estou bem e o senhor? – perguntei, sempre com um sorriso simpático e atencioso
- Bem, também! Já vi que para além de linda, continua simpática e atenciosa como sempre! – elogiou-me sorrindo, trocando um olhar ininteligível com o seu filho, David
- Obrigada, Sr. Lau! – sorri-lhe, tentando ignorar a tensão que se havia instalado entre pai e filho, com um simples toque de olhares – Então e como vai o Brasil? – perguntei, aproximando-me novamente da minha querida Dona Regina
- Oh, minha filha… Lindo, lindo, lindo! Cê não tem noção do barzinho e do calçadão que construíram lá na praia da frente da gente…
O meu olhar tocou o dela, pois ambas sabíamos que eu tinha estado no Brasil recentemente, mas ainda assim ela esforçou-se da melhor forma por disfarçar algo que só ela e Belle sabiam, mas que não tinham contado a David, pelo menos assim deram a entender.
- Nossa, tá mara mesmo! Tem que ir lá ver, minha filha… - rematou o Senhor Ladislau, confirmando a minha teoria acerca de quem detinha – ou não – o conhecimento da minha estadia veranil no Brasil
- A gente vai ter maior prazer em receber você! – afirmou a mãe de David, pousando no fundo das minhas costas a sua mão escaldante e em seus lábios um sorriso modesto 
- Vou pensar nisso… Quem sabe no Verão que vem! – apesar de saber que nenhum daqueles planos se iria realizar, exprimi um sorriso educado – Mas digam-me… Como está a Belle? O Leandro? E o bebé? – inquiri, sabendo que por aquela altura, a irmã de David já conhecera os prazeres da maternidade
- Ai nossa! O nosso netinho… aquele torrãozinho de açúcar! Cê precisa ver, Adriana… É uma ternura, aquele neném! – um sorriso abriu-se em meus lábios ao constatar o jeito meloso que dominava as palavras proferidas por Dona Regina em relação ao seu primeiro netinho
- Agora estou querendo uma montanha deles! – acrescentou o pai de David, deixando-me sem perceber qual dos dois avós seria o mais babado em relação ao benjamim do clã Marinho
- Tenha calma, Sr. Lau! A Belle ainda é nova e sempre lhe sobra o David…
- Calma nada, tô querendo minha casa cheia de criança correndo de um lado pro outro! – todos os que se encontravam na sala, soltaram breves gargalhadas, frente à sinceridade ingénua do Senhor Ladislau
- Mas… Ué, Adriana! Cadê a Quimera? – inquiriu a mãe de David, pousando o seu olhar em todos os cantinhos da sala, até notar a ausência da minha estimada cadelinha
- Bem, a Quimi teve de ficar lá fora…
- Lá fora? Que conversa é essa? Lugar de cachorro não é na rua, não! É junto das pessoas… No conforto de um lar!
- Pois, mas ela estava um pouco exaltada… Então teve de ser! – sorri, tentando fintar o assunto, de forma a não referir o triste episódio ocorrido no jardim, aquando da minha chegada
- Mas exaltada com o quê? – perguntou, insistindo e deixando-me sem qualquer hipótese de fuga
- Dona Anabela, o almoço está servido… - foi a entrada da governanta da sala, que me livrou de qualquer confronto desnecessário com a nova namorada de David, por isso limitei-me a suspirar discretamente ao sentir o alívio apoderar-se de mim
- Eh lá, vamos ao ataque! – incentivou o sempre faminto Ruben, esfregando a barriga circularmente
- Claro! E já cá faltava a fome deste gajo! – refilei, sentindo os seus braços enlaçarem-me num abraço forte e suficientemente firme para me fazer sentir segura e amada
- Até parece… Diz lá que não morreste de saudades minhas!
- Hum… Para ser sincera… - Ruben revelou um sorriso prestes, de quem adivinhava vinda de mim, uma resposta certa - … Não!
Todos se riram observando as tão saudosistas picardias entre mim e o meu melhor amigo, mas eu limitei-me a sorrir, recordando melancolicamente os momentos de felicidade que passara dentro daquelas quatro paredes, nos instantes doces da minha alegre infância.


***


- Estás a comer tão pouquinho, Adriana… - constatou a tia Bela, passando discretamente o olhar sobre o meu prato ainda cheio – Não gostas do almoço?
- Gosto… Claro que gosto, tia, mas não tenho muito apetite! – esclareci, bradando um serpentear de cabeça, enquanto os meus lábios se rasgaram num sorriso sincero
- Adriana, tens de ver o meu vestido de noiva! – exclamou Inês, mantendo no rosto a mesma postura entusiasmada que lhe vira há dois meses atrás – É lindo, lindo, lindo… Ficou perfeito!
- Claro, Inês… Mais logo mostras-me! – confirmei a sua intenção, resguardando o meu olhar no prato que se encontrava na minha frente ainda cheio de comida, na qual pinicava a pontinha do meu garfo
- E o teu vestido… Como é? – questionou-me rapidamente, mostrando-se realmente interessada em cada detalhe do seu casamento, que esperava ser perfeito e memorável
- É normal… Depois se quiseres mostro-to!
- Sim, quero ver isso… Quero ter a certeza de que ficas perfeitamente enquadrada no altar como madrinha do noivo!
- Podes ficar descansada que eu segui à risca as ruas recomendações acerca da paleta de cores, Inês…
- Ah, que bom, que bom! – as suas mãos embateram inúmeras vezes uma na outra, num gesto diminuto em grandeza, mas que não passou despercebido a ninguém
- E não vais ver os teus pais, Adriana…? – Ruben tocou no meu ponto frágil, pois ambos sabíamos perfeitamente em que casa eles estavam instalados… a do meu já falecido avô
- Sim… Talvez mais logo, para o final da tarde! – consenti, forçando um sorriso trémulo de emoção, que não deu asno às minhas lágrimas para que acompanhassem percursos tenebrosos no meu rosto
- Vais sozinha?
- Sim… Não devo demorar muito também… Vou num pé e venho noutro!
- Devias passar algum tempo com eles…
- Ainda ontem os vi, Ruben… Tenho estado com eles quase todas as noites da semana, sempre que posso vou lá jantar a casa!
- Eu convidei-os para virem cá jantar hoje, mas não querem deixar a tua avó sozinha… - interpelou a mãe do meu melhor amigo, recordando com um sorriso meigo a amizade de longos anos que partilhava com os meus pais
- É normal… Eles não gostam de a deixar sozinha e ela também não gosta muito de sair de casa, por isso…
- De qualquer das formas… Tenta convencê-los!
- Claro, tia… Eu tento! – afirmei de forma sincera, trocando um olhar de relance com a tia que me tinha sido amavelmente oferecida pela vida – Agora se me dão licença, vou lá fora buscar as minhas coisas ao carro e subir para as arrumar…
- Precisas de ajuda? – perguntou a minha doce Paulinha, resguardando nos seus lábios um sorriso gracioso e predisposto a ajudar
- Não, amor… Obrigada, mas eu dou conta de tudo sozinha! – agradeci cordialmente e retirei-me acordando um aceno de cabeça


***


- Oh Quimi, que saudade… Que saudade! – afirmei, passando as minhas mãos em torno do lombo da minha Quimera, que assim que me viu entrar no jardim, soltou em latinos desalinhados, agitando a sua curtinha cauda no ar
Devo confessar que por momentos me perdi com aquela que era então a minha única verdadeira companhia nos últimos tempos, aquela que eu sabia que podia confiar, pois jamais me trairia… afinal não existe nada mais puro e verdadeiro do que a ligação e fidelidade do cão ao seu dono. Quando me depreendi suficientemente dela, consegui observar um carro exactamente igual ao meu, estacionado ao fundo do jardim… Só podia ser o de David e de repente uma saudade acutilante atacou-me furiosamente o coração. Uma saudade apertada… Saudade dele, da vida que partilhava com ele, do quão feliz era quando o tinha do meu lado. Uma saudade louca, desmedida, mas sem cura.
Poderia até procurar mil anos, pois sabia que jamais recuperaria aquilo que já tinha perdido, aquilo que não cuidara o suficiente a ponto de me ser retirado da forma mais cruel possível. O David era então um capítulo encerrado na minha atribulada – apesar de curta – história de vida e poucas seriam aquelas oportunidades capazes de o aproximar de mim, por isso decidi aprender a viver desenganada, sem esperanças de o ter de volta para mim, ainda que só como um mero amigo.
Peguei na minha mala e no saco de transporte do meu vestido para a cerimónia matrimonial de Ruben e Inês, e subi até ao meu quarto… ou melhor, até ao quarto que teria de dividir com todas as outras raparigas, inclusive Joana.

- Então, já arrumou tudo, minha filha? – questionou-me a Dona Regina, colocando a cabeça entre uma brecha pequenina que eu havia deixado entre a porta e sua soleira

- Sim, tudo arrumadinho, Dona Rê! – respondi, mantendo nos lábios um sorriso afável, enquanto fechava a gaveta, que dava por encerrada a minha árdua e desprazível tarefa de desfazer malas

- Podia ter esperado e eu tinha ajudado você… - sugeriu, enquanto se encaminhava para dentro do quarto e encostando a porta, que até à sua chegada se encontrava aberta

- Obrigada, mas eu dei conta do recado sozinha… Foi fácil! – os meus lábios repenicaram no face esquerda da mãe dele, um beijinho dócil em forma de agradecimento

- Ainda bem então, minha filha… - um silêncio preencheu o ar, somente os nossos olhos falaram com palavras mudas de dor, pois tanto eu como ela, sabíamos o que passava na cabeça uma da outra – E… Tá sabendo que a Belle vem pro casamento?

- Não… Não sabia de nada! Mas isso é óptimo… - correspondi com um sorriso e um olhar polido, à fuga da Dona Regina ao assunto que se havia sem dúvida tornado motivo de silêncio entre nós… David!

- É mesmo… Tá vindo e vai trazer o neném! Só não vem o Leandro porque tá trabalhando!

- Ai, então vou puder conhecer aquele torrãozinho de açúcar! – afirmei entusiasta, passando os meus dedos finos uns pelos outros de forma desordeira, mas elegante

- Claro que vai, minha filha… A Belle me falou que enviou uma foto pra cê, pouco depois dele ter nascido!

- Sim, eu recebi… Ela mandou para o meu telemóvel! Ele é tão pequenino… - recordei com um sorriso vaidoso a terna imagem daquele bebé a quem Belle me dera e iria sempre dar o privilégio de chamar de sobrinho

- É mesmo, minha filha… Nunca vi neném mais lindo!

- A Dona Regina é sem dúvida uma avó babada! – brinquei, passando para trás da linha dos meus ombros, os longos cabelos que me escorria em cascata pelo torso

- É normal… É o primeiro netinho, não há como não ficar babada, né gente?

- Tem razão… Tem toda a razão! – confirmei, mantendo a postura solene, que a gratidão que tinha para com aquela mulher, me exigia

- Mas acho que vou ser assim com todos… Com os próximos que vierem da Belle e até do Davi’! Ser avó é das melhores coisas do mundo…

O facto de ela ter tocado pela primeira vez no nome do filho, numa conversa somente partilhada por nós, fez-me quebrar… Fez-me agir da única forma, que eu me proibira a mim mesma… vacilando!
As palavras sumiram-se no espaço livre entre os meus lábios, o ar fugiu dos meus pulmões e o chão desabou debaixo dos meus pés.
Pela primeira vez, desde o fim do meu namoro com David, eu estava à beira de travar uma nova conversa com a mãe dele acerca do sentimento que ainda nos unia e eu conseguia ler isso com um simples olhar recaído sobre ela. O instinto maternal que tão bem lhe reconhecia, dizia-me que ela iria dispor-se a ouvir-me e por fim iria fazer com que abrisse o meu coração da forma mais pura, mais sincera, mas mais dolorosa.

- Ah… Bem, se calhar é melhor descermos… Aqui já está tudo! – afirmei, tentando fugir à conversa inerente que se dissipava no ar, mesmo antes de qualquer palavra ser proferida, e movimentando o meu corpo na direcção da saída daquele quarto

- Adriana, espera só um momentinho… Posso te perguntar uma coisa?  

- Claro, esteja à vontade… - disponibilizei-me de qualquer das maneiras e acabei completamente atolada nas consequências da minha simpatia constante
- Cê ainda ama o Davi’, não ama? – o ar voltou a faltar-me naquele mesmo instante e o meu pequeno coraçãozinho deixou de bater, comprimindo-se do tamanho de um punho cerrado no lado esquerdo do meu peito
- Oh Dona Regina… - tinha a intenção de iniciar um discurso coerente para ludibriar aquela pergunta, mas acho que o intento se tornou demasiado claro para ela e por isso interrompeu-me antes que concretizasse aquele que era o meu desejo
- Pode dizer a verdade, minha filha… Cê sabe que eu jamais direi alguma coisa pro meu filho! – apesar de saber que ela jamais me iria falhar, o meu coração vacilante ainda equacionou negar um sentimento que ainda me era bastante familiar e evidente
- Sim… Ainda o amo, Dona Regina! – confirmei, deslizando o meu olhar para o soalho de carvalho encerado que nos preenchia a soleira dos pés – Mas acho que é normal, estivemos juntos muito tempo e só estamos separados há uns meses… - procurei enumerar uma lista de justificações, que eu sabia que não tinha de dar, mas preferi fazê-lo, antes que a minha confissão fosse mal interpretada ou aceite
- Não se engana a você própria, minha filha! Cê sabe que não vai esquecer o Davi’ tão cedo… - e foi assim que ela me apanhou… num único tiro certeiro, directo na muche
- Talvez, mas isso só o tempo o dirá… - indaguei vagarosamente, num sopro de ar combalido pela dor
- O tempo e o seu coraçãozinho… - contrariamente ao que eu esperava, a mãe do homem que ainda amava muito, sorriu-me no seu jeito maternal e sempre meigo
- Mas, Dona Regina, oiça… Se me vai dizer para seguir em frente, para deixar o David ser feliz porque está num novo relacionamento, não precisa… Eu sei bem qual é o meu lugar, não me vou meter entre eles os dois! – apesar da dor e remorsos que sentia, fui o mais sincera possível, pois de facto não planeava qualquer forma de os separar, visto que havia testemunhado com os meus olhos a felicidade e amor que os unia
- Eu não ia dizer isso, Adriana… - afirmou serenamente, acrescentando depois de forma sussurrante algo que não tive a certeza de ouvir, pois a mãe de David deixou-me sozinha, saindo do quarto - Muito pelo contrário…


***


Acabei por visitar os meus pais naquela tarde, mas fiquei somente do lado de fora da casa, que um dia pertencera ao meu querido avô.
Desde o seu falecimento que não conseguira mais pisar aquele chão, pois até o mais pequeno detalhe me fazia recordar dele e da sua vivacidade incomum para a idade que tinha. Somente uma pessoa me teria dado força suficiente para encarar aquilo, mas essa também já não se encontrava mais do meu lado, desta vez não por intuito do destino, mas sim pelos meus próprios erros.
Regressei à casa da família Amorim, sentindo-me mais vazia do que nunca e essa sensação só se agravou, assim que estacionei o meu Audi junto do portão e senti vozes de calor humano circundarem o perímetro da sala interior.

- Boa noite… - cumprimentei educadamente, depois de fechar a porta atrás de mim e passar o olhar pela sala de estar que se encontrava cheia pelos mesmos rostos da tarde sumida

- Mad’inha! – nesse instante toda a dor que assolava o meu coração desapareceu, pois o espacinho de afecto de se encontrava livre, foi preenchido pela doçura da minha pequena Sofia

- Oh, minha tinkiunki… Que coisa boa, que saudades! – murmurei juntinho do seu ouvido, enquanto a segurava apertadamente nos meus braços trémulos de tanta emoção

- Também tive muntas shaudades tuas, mad’inha! – confessou-me naquele seu jeitinho trapalhão, passando os dedos robustos de pequenez pelos traços cansados do meu lívido rosto

- Como estás, piolha? Diz-me… Quero saber tudo!

- Estou bem, mad’inha… Canshadinha, mas bem!

- Ainda bem, minha princesa… Ainda bem! – um sorriso meigo enterneceu a minha boca e a pontinha dos meus lábios ocorreu ao narizinho da minha pequena menina, beijando-a

- Adriana, como pensei que ias jantar com os teus pais, mandei servir o jantar… mas se quiseres vou preparar-te qualquer coisa! – atempou-se imediatamente a minha tia Bela, no denote de educação exímia que eu há muito lhe atribuíra como traço fundamental da personalidade

- Não… Não precisa preparar nada, tia. Muito obrigada, mas eu antes de me ir deitar, vou à cozinha e preparo qualquer coisinha!

- Quelho do’milhe contigo, mad’inha! – pedinchou a pequena Sofia, contorcendo-se de excitação no afago maternal dos meus sucintos braços carinhosos

- Larga de ser metida, muleca! – Brenda interveio imediatamente no seu pronuncio de mãe dedicada, colocando um travão imediato no desejo inerente da minha adorada afilhada

- Oh mamã… Vá lhá, não sejas má!

- Não tem mal, Brenda… Eu não me importo que ela durma comigo! – esclareci, beijando a pequenina e escaldante testa daquele anjinho lindo

- Vês, mamã…? Vá lhá…  - Sofia insistiu, unindo as duas mãozinhas na frente do rosto em sinal de súplica e esbugalhando os seus dois majestosos pedaços de céus, capazes de manipular até o coração mais frio do mundo

- Pronto… Cê ganhou, mas nada de aprontar pra cima da sua madrinha!

- Ela porta-se bem… Não é, piolhinha? – inquiri, sabendo que iria encontrar uma resposta prestes à minha condição para a realização daquela noite de aconchego nos braços de alguém que ela tanto amava e de quem recebia tanto afecto

- Shim… É claro que eu po’to bem, mad’inha! – com aquele sorriso traquina nos lábios e os dois olhos latentes de folia, assimilou a resposta que eu já esperava receber da sua parte

- Então fazemos assim… Tu sobes para ir vestir o pijaminha, lavar os dentes e deitas-te, que a madrinha vai só comer qualquer coisa e sobe já, pode ser? – propus, enquanto pousava o seu corpo pairante no chão e vislumbrava a expressão extasiada de interesse da minha pequenita

- Shim… Combinado! – selou a sua aceitação do contrato, beijando-me a face esquerda e subindo numa correria eufórica escadas acima, sendo a pobre Brenda obrigada a segui-la numa agitação já habitual para aquela que era a mãe daquele pequenino relógio de pilhas infindáveis

- Então, aqueles que já se vão deitar… Boa noite! – desejei, tentando ao máximo que o meu olhar não se depreende-se nem por um único segundo na figura masculina que ainda detinha o aval do meu quebrado coração magoado

- Tem certeza que não quer ajuda, minha filha? – a preocupação carinhosa de Dona Regina, fez-me esboçar um sorriso meigo e encará-la com a mesma calmaria usada para lhe responder

- Não, obrigada… Vou preparar qualquer coisa simples e subir pra descansar! – quando senti que tanto ela como a mãe de Ruben se encontravam mais convencidas, sorrindo-me, dei-lhes um beijo na testa e segui o meu caminho num protesto que foi unanimemente correspondido por todos – Boa noite, pessoal…

- Boa noite…

Preparei uma sandes de fiambre e queijo, que acabei por comer sentada na bancada central da cozinha solitária e envolta na neblina insegura da escuridão. Quebrei o sabor enjoativo da comida, que empurrei a custo para o meu estômago, com meio copo de água gélida retirada da torneira. E para terminar aquela noite em grande, de forma a relaxar por completo, nada melhor do que o já habitual – desde que deixara David – cigarro.

- Ora cá vamos… - incentivei a mim mesma, puxando o fecho do meu casaquinho até cima e enveredando pelo caminho livre e ermo do alpendre traseiro, que ladeava amorosamente a piscina iluminada por cinco ou seis focos de luz

Sentei o meu corpo na pontinha de uma das esteiras e num gesto que já me era natural, retirei um cigarro no maço e repuxando-o até aos meus lábios, ateei-lhe fogo, dando o primeiro trago profundo. A sensação de calmaria que me invadia sempre que fumava, preencheu todo o meu corpo e acabei por cerrar as palmas, deixando a minha mão pender em direcção ao solo, mas sem deixar cair o incandescente cigarro.
Aquela paz que se apoderou de mim e se fez acompanhar pelo silvar das folhas secas nas copas das árvores e pelo estridular dos grilos e cigarras que assustadas preambulavam pela noite tépida de Outono, foi quebrada pelo arrastar metálico da porta que eu atravessara há minutos.
Senti uns passos levemente brandos que se precipitaram na minha direcção, mas não me exaltaram, pois não movi um único músculo e deixei-me estar… entregue a uma das poucas tarefas que ultimamente me faziam sentir completa.

- A Sofia já tá esperando você...

Aquele timbre harmonioso fez o meu coração disparar de uma forma descompassadamente aclamada. Não precisei sequer de rodar o meu corpo, buscando a figura dona daquela voz, pois eu sabia melhor do que ninguém a quem ela pertencia, apesar de não a escutar há já dois meses… Dois meses… Dois longos e duros meses sem nos falarmos, sem conversarmos, sem nos tocarmos, sem nos vermos… Mas isso estava prestes a mudar…








Peço desculpa pela demora em postar o capítulo, mas a escola não tem perdoado e daqui para a frente as coisas devem manter-se mais ou menos iguais, por isso espero que compreendam!
Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem e não se esqueçam de comentar!

Beijinhos,
Drii :)

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Capítulo 113 - Coração desarrumado (Parte III)


- Credo, Adriana… Estás tão pálida! – foi a voz francamente esmorecedora da minha mãe, acabada de entrar na sala já envergando algo mais confortável, que me retirou do transe perpétuo a que estava destinada

Os meus olhos continuavam presos naquela esconjurada página, que já relera vezes e vezes sem conta com a esperança de estar enganada e ser somente mais um trote impiedoso da minha cabeça saudosista.
Desejei a mim mesma estar num pesadelo e acordar o quanto antes - o mais rapidamente possível - pois tornou-se tortuosa a espera morosa pela verdade… Mas a verdade era aquela! Aquela e somente aquela… David reconstruíra o seu coração e nos alicerces da nova edificação conseguira aprender a amar de novo, mas não a mim.

- Adriana… Filha, estou a falar contigo! – o altear de voz da minha doce progenitora, fez o meu coração vacilar e o sangue que me gelava as veias até então, bloqueando o ataque de choro que eu sabia a que me iria entregar, desapareceu seguindo o seu percurso alterado nos vasos que delineavam o meu corpo

- Hum? – depois de ganhar coragem fixei os meus olhos translúcidos de lágrimas nos dela, rezando para que o meu sofrimento lhe passasse despercebido, mas mãe é mãe… e como tal isso não aconteceu

- Estás a chorar, Adriana? – semicerrou os olhos para que a minha imagem se elucidasse no seu globo ocular e eu limitei-me a mudar a trajectória do meu rosto, ocultando então as lágrimas que já se prendiam somente em fio na linha de água dos meus olhos

- Não, mãe… - clareei a voz roca do choro ameaçado, com uma simples tossidela, que se escapuliu no meu punho cerrado junto dos lábios – Que disparate!

Caí no erro mais fatídico… “Que disparate!”. Era a frase que me denunciava sempre que procurava fugir a qualquer assunto e somente três pessoas tinham o perfeito conhecimento dessa simbologia… A minha mãe, Ruben e David.

- Eu conheço-te, filha! Estás a chorar sim… - o transtorno causado pela minha aparência desgostosa, calcetou o coração da minha mãe com o sentimento de protecção que é suposto sentir e este veio à tona no mesmo instante em que ela se aproximou, disposta a tomar o lugar vago do meu lado – Diz-me o que aconteceu…

- O David, mãe… - sussurrei, intercalando o meu olhar, entre a vista desaprazível daquela página e o rosto carregado de inquietação da minha mãe - … O David tem uma nova namorada!

Assim que completei a frase que mais doía dentro do meu peito, as lágrimas correram-me impenetravelmente pelas faces, dispostas a não cessar mais desde então, deixando-me exposta como raramente ficava na frente de alguém… muito menos daqueles que me eram próximos.

- O quê? – creio que ela me julgou louca e procurou na revista, que permanecia aberta em cima do sofá, um porquê de fundamento que a fizesse acreditar naquilo que para mim se tornara então realidade… na pior delas

- Ele tem uma pessoa… Está tudo aqui! – cerrei as páginas tumultuosas, pousando a palma da minha mão na capa e abafando a imagem que a envolvia, uma outra sobre outro qualquer mexerico – Está tudo aqui, mãe… - reafirmei com os olhos rasos de novas lágrimas, que não demoraram nada a cair e a delinear os contornos de tristeza do meu rosto

- Não pode ser, filha… Isso é daquelas invenções! Tu já sabes como é a imprensa… - tentou demover-me, enquanto exercia uma busca esforçada para perscrutar a mesma notícia que eu lera minutos antes – O David jamais iria… - foi a própria constatação de factos que a silenciou

Encontrara por fim a décima quinta página da revista cor-de-rosa e a sua reacção tornou-se semelhante à minha - ainda que mais contida - afinal de contas também ela fora apanhada de surpresa, quando estava mais do que pronta para o defender, mas pelo menos não o amava como eu.
O seu olhar inebriantemente reconfortante tocou o meu, fazendo-me sentir que não estava só e que por muitas amarguras que ainda pudesse perspectivar, era nela que tinha o mais puro refúgio de amor… Era nela que poderia asfixiar os dissabores que a vida tanto teimava fazer-me sentir.

- Oh filha… - libertou um suspiro pesaroso, enquanto ainda observava detalhadamente a fotografia terna, que retratava um casal enamorado, passeando de mãos dadas pelas ruas de Lisboa

- Eu sabia que isto ia acontecer, mãe… Eu sabia… - ciciei na esperança vã de somente eu me conseguir ouvir, mas ela parecia deslindar tão perfeitamente tudo aquilo que eu pensava e tudo aquilo que eu realmente sentia, mas não ousava dizer

- Oh Adriana, não fiques assim… Vem cá… - acolhendo-me nos seus braços, manteve a preocupação de me enxugar as lágrimas, que pereciam no rosto e continuavam a percorrê-lo, deixando para trás um traço de dor, que dificilmente alguém iria conseguir apagar – Shiu… Não fiques assim, minha pequenina…

- Só não pensei que fosse tão cedo, mãe… Só não pensei que ele fosse ultrapassar tudo tão depressa… - confessei no embalo dos seus braços, sentindo as gotas do meu choro continuarem os caminhos livres pela minha pele – Ele esqueceu-me… Ele esqueceu-me!

- Calma, Adriana… Vocês já estão separados há mais de dois meses, não podias esperar que tudo ficasse como sempre foi!

- Mas dois meses é pouco, mãe! – a minha voz alterou-se desmedidamente sem eu ter essa percepção, mas repercutiu-se no corpo da minha mãe, que oscilou amedrontado – Como é que ele em dois meses arranjou outra pessoa, se eu fui incapaz de olhar pra outro homem? Como? Ele não me podia amar como dizia… Se o fizesse, não tinha seguido em frente tão depressa!

- Adriana, tem calma… As coisas não são assim! – firmou, vendo-me erguer o meu corpo combalido do sofá e dirigi-lo em direcção às escadas – Adriana, espera!

- Não quero ver ninguém, mãe… Deixe-me estar, por favor!

A minha teimosia venceu a persistência da minha pobre mãe, que assistiu à minha partida sem mais nada dizer, talvez na verdade porque nada do que ela dissesse me iria demover… Nada do que ela dissesse iria diminuir a minha dor e fazer-me desejar qualquer companhia.
Senti-me tão ridícula… Como é que eu ainda conseguia amar um homem, que me jurara durante tanto tempo um amor eterno e à primeira oportunidade correra para os braços de outra mulher?
Martirizei-me durante toda a tarde com essa singela questão, enquanto via vezes e vezes sem conta aquela imagem na minha frente… na revista escancarada em cima da minha cama. A fotografia estava desfocada, porque com toda a certeza fora tirada por um paparazzo, mas no entanto era perfeitamente visível as parecenças que a figura masculina tinha com David… e era ele, só podia ser ele! O casaco que envergava fora aquele que lhe oferecera há uns tempos atrás, pouco antes de a nossa relação ter findado.

- Burra, burra… - ofendi a mim mesma, sentindo-me culpada e idiota como nunca antes, por ter edificado o meu futuro em cima de falsas fundações, que acabaram por me trazer a dor há já muito aguardada

O ar comprimido no meu peito, foi dissipado pelas lágrimas de sofrimento que ainda não haviam cessado e que somente o fizeram largas horas depois do início do meu enclausuramento.
O meu corpo tombou sobre a almofada que acolheu o meu choro e o cansaço venceu-me… Adormeci sem dar conta. Ainda tentei derrotar a fadiga e impor a mim mesma a eterna visão daquela foto, mas não fui capaz.
Foi apenas nela que me guiei rumo ao descanso… Sabendo que agora era de vez e ele não era, nunca fora e jamais voltaria a ser meu.



***

 
- Adriana… - os breves toques dados pela minha mãe na porta trancada do meu antigo quarto, fizeram-me despertar de um sono profundo que provavelmente se tinha arrastado até à hora do jantar, tendo em conta a quase inexistente luz diurna no exterior – Filha…

Senti os meus membros inferiores doridos e um ardor nos olhos, que se alastrou velozmente às minhas faces, recordando-me aquela sensação desconfortável que aprazia o meu corpo após longas horas de choro.
Olhei em redor e estava ainda tudo um pouco desfocado, mas logo ali em cima da mesinha de cabeceira uma foto minha, que havia sido tirada por David… E daí até o meu pensamento ter voado até ao acontecimento recente foi um flash tão rápido quanto o de uma câmara fotográfica numa sessão de moda. Compreendi então o porquê de sentir os meus olhos inchados de chorar, mas ainda assim procurei navegar até à realidade, buscando algo que me garantisse que aquela notícia não tinha sido somente um sonho e no entanto essa resposta não tardou em chegar. Em cima da minha cama lá estava ela… Aberta naquela página, com a foto apaixonada do homem que mais amava na vida e de uma rapariga que nunca vira, mas que era linda e tinha tudo… tudo o que eu não tinha e mais queria.

- Adriana… - enquanto me forçava a despertar, a teimosia da minha mãe propagava-se em mais um bater na minha porta, aguardando uma resposta que denunciasse a minha presença desperta

- Não quero ver ninguém…

- Está na hora do jantar, filha… Vem ao menos comer qualquer coisa! – implorou naquele tom irrecusável de mãe com o coração apertado, deixando-me sem margem de manobra e obrigada a uma resposta positiva

- Eu já vou, mãe… Comecem vocês a comer!

- Tudo bem… Mas não demores, meu amor! – ouvi os seus passos na escadaria de madeira de carvalho, desvanecerem ao passar do tempo até se tornarem imperceptíveis e inaudíveis

Apesar de sentir que mais nada havia a fazer e era hora de seguir em frente, fui incapaz de me guiar por esse tipo de pensamento, já tão dominado pelos clichés das histórias de amor. Eu estava a sofrer, por isso para quê esconder algo que estava retratado em todas as partes da minha existência?
Levantei-me ordenadamente da cama e joguei para o fundo de uma das prateleiras da estante dos livros a tal revista da imprensa cor-de-rosa, certa de que me esqueceria do seu paradeiro e só por isso teria mais facilidade em lidar com a “boa-nova”.
Nos pés coloquei umas pantufazinhas de pano e já quando destrancava a porta, ouvi o meu telemóvel tremer em cima da mesinha-de-cabeceira, vendo-me então obrigada a cortar caminho. Saltei por cima da cama e assim que segurei nas minhas mãos o aparelho, pude ler no visor “Ruben, a chamar…”.

- Bolas… Que merda de sentido de oportunidade! – indaguei a mim mesma, temendo não puder atender a chamada a alguém que me conhecia demasiado bem para saber somente pelo meu tom de voz, que algo não estava certo – Olá, Ruru! – foi na pose mais falseada possível, e só depois de me recompor, que atendi a tão indesejada ligação do meu melhor amigo

- Olá, Adriana! – no lugar da voz quente e habitualmente grossa, estava uma feminina e que era tão delicada, que só podia pertencer a Inês

- Ah, Inês! És tu… Pensei que era o Ruben!

- Não, sou mesmo eu! Fiquei sem bateria e então pedi-lhe o telemóvel emprestado! – esclareceu num tom cordial e amenamente convidativo a uma conversa afável – Está tudo bem contigo?

- Sim, comigo tudo bem… - menti, apesar de saber que se ela e Ruben mantinham a relação de amizade habitual com David, então já deveriam saber da sua nova relação amorosa – E contigo?

- Comigo também… Mas estou assim a precisar de uma mega ajuda da madrinha do noivo! – revelou-me nesse momento o porquê daquela chamada, levando-me a bafejar um suspiro de alívio ao compreender que nada tinha a ver com David

- Hum… Acho que sou eu! – pela primeira vez naquela tarde consegui sorrir, contudo ainda o fiz com um pouco de ironia amargurada, sabendo que dali a dois meses estaria no altar do lado de David para testemunhar a união do nosso melhor amigo e da mulher da sua vida – Para que é que precisas de mim, minha linda?

- Estou com alguns problemas pequeninos em relação à organização da decoração do casamento… Achas que nos podíamos encontrar amanhã para me dares uma ajudinha, ou já começaste a faculdade?

- Claro que posso… - confirmei, mesmo sabendo que a vontade de o fazer era pouca, mas a minha obrigação como madrinha mais do que muita – As aulas só começam daqui a uns dias, por isso para já posso ajudar-te!

- E então queres que seja onde…?

- Onde te der mais jeito… Para mim é indiferente! – encolhi os ombros de forma natural, esquecendo o facto de ela não me estar a ver, e mantendo na cabeça o pensamento simples de que fosse onde fosse, eu só queria chegar, ajudar e sair a correr

- Pode ser cá em casa? – questionou, referindo-se à vivenda luxuosa para a qual ela e Ruben se haviam mudado no início do Verão daquele ano – Vinhas às 16 horas, eu preparava um lanchinho para nós e ajudavas-me então naquilo que preciso!

- Por mim pode ser… Se chegar um pouco mais tarde já sabes que é por causa dos acessos, antes dessa hora estão sempre um caos! – relembrei a desordem da cidade de Lisboa e o trânsito que se instalava para sair da mesma, rumo à outra margem do rio Tejo

- Sim, não te preocupes com isso… Obrigada por vires, amor!

- Não tens de agradecer… Afinal sou madrinha, é essa a minha obrigação! – sorri levemente, prendendo o meu olhar nos ponteiros do relógio que já marcavam dez minutos a mais da hora estipulada para jantar em casa dos meus pais – Agora tenho de ir jantar, que estou em casa dos meus pais…

- Claro, desculpa ter-te incomodado! – perdoou-se de forma sincera, fazendo-me adivinhar-lhe nos lábios um sorriso constrangido – Amanhã cá te espero então… Beijinhos, madrinha de casamento!

- Até amanhã… Beijinhos, noivinha! – foram as gargalhadas habituais, mas desta vez mais suaves da minha parte, que ditaram o fim da ligação telefónica que estabeleceu planos na minha agenda para a tarde do dia seguinte, ainda que fosse um pouco contra a minha vontade



***



- Estava a ver que já não ias descer, filha… - murmurou imediatamente a minha mãe, assim que me viu transpor o arco da porta da sala de jantar

- Desculpe, mas a Inês ligou por causa de umas coisas do casamento… - desculpei-me imediatamente, beijando o topo da cabeça do meu pai, que jantava de forma pacífica ao fim de um longo dia de trabalho – Boa noite, pai!

- Boa noite, filhota! – um sorriso meigo arrebitou-lhe os cantos das bocas e o beijo foi retribuído na minha face direita, deixando um rasto de carinho e amor paternal, que só ele me podia fazer sentir

- Senta-te, amor! – incentivou a minha mãe, segurando o meu prato na mão e aprontando-se para o encher de comida até mais não, mesmo sabendo que provavelmente não iria jantar nem metade – Eu sirvo-te!

- Não meta mais, mãe… Está bom assim! – ordenei minuciosamente, mas ainda assim sendo obrigada a retirar-lhe delicadamente o prato da mão, para que a enxurrada exagerada de comida parasse de cair na minha frente

- Isso é pouco… - contrapôs no mesmo instante que me perscrutou com uma expressão carrancudamente transtornada no rosto

- Está bom assim, mãe… Obrigada! – ripostei no mesmo instante em que assimilei um falso sorriso de tranquilidade, tentando não transparecer a fragilidade que ainda me assolava o coração

Os minutos seguintes foram ocupados por um silêncio brutalmente constrangedor, que nenhum dos três teve coragem de quebrar durante um largo período de tempo e assim que eles o fizeram, somente precaveram uma conversa simplória entre ambos, não mostrando grande tema de interesse no qual eu pudesse entrar. Falaram sobre o dia passado, sobre os empregos, sobre os encargos da família, sobre o estado do país, enfim… de tudo um pouco, mas nada que fosse do meu total domínio.

- E então a faculdade, Adriana… Quando começa? – forçando-me a entrar na conversa, o meu pai dirigiu-se a mim numa pronúncia clara e certeira, que me deixou no dever de lhe devolver uma resposta delicada

- Daqui a uma semana, pai… Já está tudo a postos! – esclareci, enquanto fazia o meu garfo rodar sobre um rolinho de massa, depenicando a quantidade avassaladoramente assustadora de comida que ainda preenchia o meu prato


- É o segundo ano, Adriana… Sabes bem que não te podes desleixar para não deixar nenhuma cadeira para trás!

- Pai, eu sei… Sabe muito bem que sempre fui responsável relativamente à faculdade e aos estudos, e não é agora que irei mudar! – relembrei com uma quanta aspereza na voz, que apesar de despropositada o magoou ligeiramente, pois o seu coração de pai estava já habituado à doçura da pequena menina que vira crescer

- Ah… E então o que é que a Inês queria falar contigo sobre o casamento? – questionou a minha mãe, a fim de findar com o mau ambiente que se havia instalado devido à minha falta de modos em responder ao meu querido pai – Algum problema?

- Nada demais… Acho que está com umas dúvidas quaisquer sobre a decoração e pediu-me opinião, só isso! – respondi, levando à boca o rebordo do copo de cristal que me pertencia e humedecendo os lábios com um trago de sumo natural de laranja – Passo por lá amanhã só para a ajudar…

- Ah, então vais estar com o Ruben!

Foi mais um soco no estômago… Já para não bastar a notícia impiedosa que recebera naquele dia, parecia que todos faziam questão de me relembrar da ausência que o meu melhor amigo tinha da minha vida, sem eu mesma perceber o porquê desse afastamento.
Até era compreensível que ele não soubesse lidar com ambas as partas da história – a minha e de David – mas no entanto não era inteligível o facto dele permanecer do lado do melhor amigo, mas de mim teimar manter a distância.
Era verdade que eu tinha errado - até demais - mas nunca poderia ter esperado uma atitude daquelas da parte de Ruben, pois ele era uma pessoa coerente que jamais tirava partido de qualquer das partes e procurava sempre fazer com que a paz imperasse, por muitos que fossem os dissabores do destino.

- Não sei… A Inês não falou nada sobre ele, somente falou num lanche pra mim e pra ela!

- Hum… Mas tu e ele já não se vêm, nem falam desde Paris… - relembrou-me dolorosamente algo que fez o meu batimento cardíaco abrandar até se tornar quase imperceptível e duradouramente sofrido  

- Sim é verdade… Mas também teremos muito tempo pra nos vermos no casamento! – rematei ali mesmo a conversa e pousei sobre a mesa o guardanapo de pano, que me cobria nobremente o colo de modos quantos delicados – Agora se me dão licença vou subir, que o dia foi longo e eu estou estoirada…

- Não vais comer a sobremesa? – questionou meu pai, sabendo que era sempre a minha parte preferida em qualquer refeição, típico de alguém com o palato doce tão apurado quanto eu

- Não… Hoje não me apetece! – desculpei-me, perante o olhar surpreendido que o meu progenitor não se coibiu de trocar com a sua companheira – Boa noite aos dois! Durmam bem… - desejei, depois de lhes beijar o cocuruto e encaminhando-me já para o meu antigo quarto, onde iria passar a última noite, até regressar de novo ao meu afável apartamento e à solidão daquelas quatro paredes desprovidas de amor.




***



Apesar de a noite ter sido agitada e de pouco descanso, consegui ainda tomar umas horinhas antes do almoço, para uma sesta rápida e de apenas duas horas, mas que no mínimo atenuou as olheiras acusadoras do cansaço de uma madrugada em claro.
Quando me levantei, os meus pais já tinham saído para ir trabalhar e restou-me então almoçar sozinha. Preparei uma salada fresca de Verão, que apesar de não me ter satisfeito por completo, por suficiente para aguentar mais algumas horas sem comer. Assim que dei conta, restavam-me somente quarenta minutos para estar em casa da Inês e do Ruben e por isso corri celeremente para me ir arranjar.


Quando alcancei o espelho da casa de banho do corredor, a fim de me maquilhar, deparei-me com um fácies ebúrneo, onde somente sobressaíam os dois círculos escuros em redor da parte inferior dos meus olhos. Foi com um pouco de maquilhagem que os disfarcei e enrubesci as maçãs do rosto num tom rosado, numa tentativa de aparentar melhor condição e um estado de espírito suficientemente alegre para enganar Inês.
Conduzi calmamente, vendo os companheiros de estrada passarem por mim a velocidades muito superiores, mas eu não tinha na verdade grande pressa… melhor dizendo, não tinha nenhuma, pois quanto mais pudesse adiar aquele encontro, mais o iria fazer. O percurso era curto, ainda que movimentado pelo trânsito que aproximasse a capital portuguesa da hora de ponta, e eu cantarolava passivamente, face ao stress que começava a incandescer o princípio de tarde dos outros lisboetas.
Em menos de meia hora, estacionei o carro na frente da colossal vivenda branca, onde se lia nos azulejos azulados do muro… “Vivenda Amorim”.
Ali estava eu... Num reencontro prestes com a futura mulher do meu melhor amigo, sem saber o que esperar, ou até mesmo sem saber se esta estava a par de todos os acontecimentos parisienses. No entanto não adiantava mais fugir de algo, que me iria perseguir até que eu ganhasse coragem para enfrentá-lo. Numa só rajada de ar, abandonei o lugar de condutor, acerquei-me do muro em passadas largas e pressionei a pequena campainha.

- Quem é? – a voz atenta e amigável de Inês ressoou no pequeno aparelho electrónico, que se encontrava junto da minha têmpora, sendo-me então perfeitamente perceptível o som

- A Adriana… - esclareci, tendo de me colocar em meia-ponta para que a minha boca se conseguisse aproximar do intercomunicador e a minha imagem da pequenina câmara instalada por questões de segurança

- Ah… Já chegaste! – o tilintar do portão fez-se ouvir, dando indicação de que este havia sido finalmente aberto para a minha aguardada chegada – Entra, amor…

- Obrigada! – sorri amavelmente, dominando nas minhas mãos os esterroes de ferro forjado, que impossibilitavam a entrada nos jardins primordiais da vivenda, mas aos quais o acesso não me era interdito

- Adriana! - ainda eu não tinha atravessado metade do percurso, que me conduzia à porta dupla da vivenda, e já Inês gritava o meu nome, no mesmo compasso de correria com que se aproximava de mim – Que saudades! – confidenciou por fim, quando já me sucumbia o ar dos pulmões num abraço demasiado apertado

- Olá, Inês… - cumprimentei a algum esforço tentando combater a força dolorosa que ela exercia sobre a minha caixa torácica - Larga-me, por favor… Não consigo respirar!

- Ai, desculpa! – procurou desculpar-se, passando os seus dedos trepidantemente nos meus fios de cabelo, numa tentativa de me aliviar o desconforto causado pela aspereza sufocante do seu abraço saudosista – Mas estava a morrer de saudades!

- Também eu, amor… Mas ias-me matando! – o meu desabafo, conduziu-nos a alguns segundos breves de gargalhadas moderadas, mas que foram suficientes para preencher o jardim e chamar a atenção do jardineiro, que aparava minuciosamente os arbustos circundantes à casa dos arrumos

- Estou tão entusiasmada de te ver de novo! – indagou no mesmo instante em que entrançou o seu braço no meu e nos guiou até ao interior da luxuosa vivenda que eu ainda não tinha tido a oportunidade de ver já toda concluída

- E eu entusiasmada por ver que finalmente tu e o Ruben montaram o vosso cantinho… - enquanto confessei um desafogo sincero, aproveitei para deixar que os meus olhos fizessem o primeiro reconhecimento do hall de entrada e logo de seguida da maravilhosa sala de estar decorada - diria eu -  num estilo totalmente feminino, mas puramente intimista

- Hum… Que me diz a menina que está a meio caminho de se formar em design de interiores…? – questionou, colocando-se na minha frente e sustendo pousadas na cintura as duas mãos, primordialmente adornadas pelo anel de noivado escolhido por Ruben – Gostas?

- Está lindo, Inês… Tudo de muito bom gosto… - opinei, prestando atenção aos mais ínfimos detalhes, alguns um pouco exagerados, mas que adossados na decoração circundante passavam despercebidos - … mas totalmente a tua cara!

- Já sabes como o Ruben não tem o mínimo jeito para estas coisas… - relembrou, logo após nos termos deliciado com o riso provocado em nós, pela minha própria observação descabida de segundas intenções de ataque ao meu amigo de longa data

- Sim… A cena dele é mesmo a bola e os relvados! – consenti educadamente, pousando a minha mala sobre a banqueta central, que se encontrava junto do enorme sofá de tom branco-puro, onde as almofadas em tons creme e lavanda ressaltavam distintamente – E por falar nele… Não está em casa? – inquiri com nostalgia, ao recordar o calor do seu abraço e a segurança que me fazia sentir sempre que me apertava fortemente contra si e me sussurrava melodiosamente ao ouvido “Vai ficar tudo bem, pequenina…”, e eu acreditava… como se ele fosse o rei das minhas verdades, o mandatário do meu destino...

- Não… Saiu há pouco para ir ao treino, mas mandou-te um beijo e disse que estava cheio de saudades tuas… - respondeu, tomando lugar no sofá ao qual me juntei, logo após o sinal da anfitriã para que assim o fizesse

O tom tremulamente inquietante imposto na voz sempre doce de Inês, denunciou-a… Ela não sabia mentir! Talvez fosse uma característica pouco benéfica naquelas situações em que contar uma mentirinha impiedosa fosse estritamente necessário para prevenir a dor de um pequeno coração, como era o caso. O olhar sempre seguro, foi substituído por um mais brando e oscilante, que se apressou a desencontrar o meu, para só depois abrir passagem aos lábios para mais um discurso… Era óbvio que Ruben não falara nada sobre mim – nem tão pouco me mandara um recado – ou porque a minha visita ali não era do seu conhecimento, ou porque era, mas isso não lhe importava minimamente.

- Também tenho saudades dele… Não o vejo desde Paris! – afirmei de modo condescendente, sentindo logo de seguida o tremor do corpo fragilizado de Inês e ganhando as certezas – que eu já tinha logo de princípio – de que tudo o que acontecera em terras francas, havia-lhe sido narrada por Ruben

- Não deverá tardar muito para que se vejam…

- Talvez hoje… - murmurei num sorriso calmo, pronta a assistir à reacção de Inês, frente à minha modesta sugestão

- Hoje…?! – questionou num gaguejar frutiferamente denunciador – Não me parece… Ele deve chegar tarde! – desculpou-se, ajeitando nervosamente os cabelos – que havia deixado crescer propositadamente para o casamento – e lhe pendiam sobre o rosto, cobrindo-lhe parte da expressão consternada, mas extremamente bem disfarçada por um sorriso falseado

- Então fica pra outro dia… - anuí, prostrando-me num ligeiro e breve acenar de cabeça, que rematou a minha expressão ao fazer par com um belíssimo e contrastante sorriso - Mas então… Diz-me lá para que é que precisas da minha ajuda!

- Ah, claro… Vamos até lá fora ao jardim, que tenho lá tudo e vou mandar servir o lanche… - enalteceu o pedido formal, ao elevar-se do sofá e arrastar-me consigo na direcção do alpendre das traseiras, onde uma majestosa mesa de refeições estava posta, contando somente com dois lugares… o meu e o de Inês

A conversa desenrolou-se tão rapidamente que não permiti a mim mesma a mínima atenção… O que prometiam ser pequeninas dúvidas, alastraram-se para amostras de cetim, organza, flores, pétalas, arroz colorido; e quando dei conta, gastara mais horas naquela casa do que aquelas que pretendia.
O catálogo de vestidos de noiva, havia sido percorrido ao sabor de uma deleitosa chávena de café amargo e por fim, e somente a dois meses da cerimónia, havia um eleito - um perfeito e belíssimo eleito - que deixaria Ruben mil vezes mais apaixonado por aquela mulher, se é que isso seria humanamente possível.
As hipóteses para a ementa da recepção, foram discutidas no sabor adocicado dos melhores biscoitos de Lisboa e redondezas, confeccionados pela tia Bela; e os arranjos de mesa seleccionados na brisa fresca e amena que encorpava aquele final de tarde, anunciante já do fim do Verão.

- Ai, tu não imaginas a ajuda que me deste, Adriana! – proferiu, dando mais um gole no copo de sumo natural, que já enchera umas quantas vezes naquele longo espaço de tempo

- Oh… Tenho de fazer alguma coisa de útil, afinal sou a madrinha, não é?

- Sim, mas tiraste-me um peso enorme de cima dos ombros… O Ruben dizia que sim a tudo o que lhe mostrava e depois deixou-me assim confusa!

- Os homens não são propriamente dotados neste tipo de coisas… - recordei, passando sobre os lábios o guardanapo de linho com rebordos em cetim, que cobria arrojadamente o meu colo

- Sim, lá isso é verdade… Salvaste-me a vida, amor! – senti um novo e sufocante abraço, em redor do meu pescoço, tendo sido mais uma vez a minha expressão estrangulada a salvar-me de um aperto maior

- Tu hoje queres esganar-me, só pode! – assimilei um sorriso traquina, deixando que a conversa fluísse de modo mais natural rumo às típicas brincadeiras do nosso grupo de amigas

- Desculpa, mas estou entusiasmada com o casamento!

- Já percebi que sim, Inês… Nunca te vi tão feliz assim!

- Vou casar com o homem da minha vida… Há razões para não estar feliz? – colocou retoricamente aquela questão, que se arrastou e pairou no ar, recordando o desejo que um dia também eu tivera de me unir matrimonialmente ao homem da minha vida… David

- Tens razão… - os meus lábios rasgaram-se num sorriso compreensivelmente honesto, próprio de quem sentia em si a felicidade daqueles que mais amava – Espero que vocês encontrem a felicidade que tanto merecerem, amor…

- Deus te oiça, Adriana… Deus te oiça! – as nossas mãos uniram-se sobre o tampo da mesa de jardim e os nossos olhares cúmplices, tocaram-se numa carícia muda e discreta, reveladora de alguns anos de amizade

- Amor, cheguei! – um timbre masculino, vindo da zona da sala de estar - onde horas antes deixara a minha mala - transtornou a expressão lívida de Inês

Aquela voz… Aquela melodiosa voz, que tantas vezes me jurara que tudo iria ficar bem, mesmo nos momentos de maior solidão e tristeza. Aquela voz que tantas vezes me chamara carinhosamente de “minha pequenina”, aquela voz que resguardara em noites de infância o meu sonho amedrontado pelo escuro e me prometera que iria ficar do meu lado toda a noite, até os monstros do escuro desaparecerem… A mesma voz que eu não ouvia há algum tempo, há tempo demais para suportar a saudade!
O meu coração apertado descompassou e senti-me aquela eterna menina, que durante anos aprendera a lidar com o mau feitio de Ruben, que se acostumara às suas brincadeiras loucas sem as levar a mal e a mesma menina, que durantes anos e anos da sua curta vida, sentira crescer no seu coração um amor incondicional àquele extraordinário ser humano.

- É o Ruben… - murmurei, procurando ver a sua figura surgir a qualquer instante nas portas envidraçadas de acesso ao jardim, onde eu e Inês nos encontrávamos depois de uma tarde estonteante de decisões

- Amor! – apesar da persistência de Ruben, Inês não moveu um único músculo, esperando que fosse ele a encontrá-la – ou melhor! – a encontrar-nos – Ah… Estava a ver que tinhas saído, In…

Os seus olhos cruzaram os meus, impedindo-o de dar termino à sua frase. Ele não esperava ver-me ali e no meu pensamento uma cadeia de acontecimentos ligou-se.
Inês não pedira o telemóvel emprestado a Ruben, simplesmente o roubara, pois sabia que só assim eu teria atendido a chamada; tal como também não o tinha avisado sobre os seus planos para  nossa tarde, nem tão pouco esperado que esta se alargasse tanto ao ponto de eu e ele ainda nos cruzarmos.

- Amor! – pela primeira vez ela conseguiu reagir e dando um pulo inerte da cadeira, beijou-lhe os lábios suavemente – Pensei que ias jantar com os rapazes…

- Sim, ia… Mas houve uma mudança de planos! – esclareceu-a, mas nunca descolando os seus olhos dos meus, o que ao fim de alguns segundos se tornou desconcertantemente desconfortável – Ah… Eles vêm cá jantar hoje… Quer dizer… Alguns deles!

- Assim…? Sem planos de antecedência? Oh meu Deus...! – como primorosa dona de casa que era, Inês entrou imediatamente em pânico, tentando formular na sua cabeça mil e uma ideias para solucionar os planos de última hora

- Tem calma, amor… O pessoal desenrasca-se com qualquer coisa! – Ruben procurou serená-la, mas o seu olhar sobre mim não expirou por um segundo que fosse, mantendo inquebravelmente impenetrável

- Qualquer coisa? Tu não deves estar bom da cabeça… Eu vou falar com a D. Graça! - saindo apressadamente do jardim, tomou percurso certo à cozinha, pronta para discutir uma ementa com a cozinheira de serviço há poucos, mas bons anos

- Inês… - clamei morosamente o seu nome, pressentindo que aquele olhar intimidante de Ruben fazia adivinhar uma conversa dura, que eu não estava disposta a ter, mas no entanto seria obrigada

Após a saída da sua noiva, quedámo-nos ambos em silêncio… Uma ausência de vozes taciturna, que abarcava ambas as faces lúteas, fazendo-nos assemelhar os nossos corpos com cadáveres já sem vida. Só os nossos olhos rodavam sobre a figura um do outro, mas a coragem para dar o primeiro passo ao fim de tanto tempo – quase um mês, mais ao certo – não chegava da parte de nenhum dos dois e parecia matar-nos a cada segundo fúnebre dos ponteiros do relógio.

- Não sabia que ias estar cá hoje… - começou por dizer, arqueando uma postura de ataque, nada típica daquele a quem chamava há anos de melhor amigo – Vieste visitar a Inês, foi?

- Não… Ah… - a sua rigidez e indiferença frivolamente dolorosa, deu-me a incapacidade de resposta, apesar dos meus lábios se terem mantido entreabertos, prontos para proferir qualquer discurso

- Então vieste cá fazer o quê? – inquiriu no mesmo instante em que deu vida própria aos seus braços, para que estes se cruzasse na frente do peito, aguardando qualquer resposta, ainda que cobarde, da minha parte

- A Inês ligou-me ontem… Pediu-me para que viesse cá ajudá-la com algumas coisas do casamento! – esclareci, pousando durante breves instantes o meu olhar sobre a mesa ainda atolada de catálogos, amostras e da restante loiça do nosso pequeno lanche, procurando provas que sustentassem a justificação para  a minha fustigante presença

- A Inês ligou-te…? – questionou confuso com o meu esclarecimento – Ela não me disse nada acerca disso…

- Sim, ela ligou-me… Até o fez do teu telemóvel porque o dela estava sem bateria… - a expressão torneada pelas feições de Ruben, levaram-me a compreender que provavelmente já falara mais do que aquilo que devia e a Inês estava em maus lençóis

- Ah… Do meu telemóvel?

- Sim, mas já percebi que não sabias de nada e também não estás propriamente feliz com a minha presença… - concluí assertivamente, enquanto o meu olhar proclinava tal qual um pêndulo, entre Ruben e a paisagem inerte do jardim que se estendia na sua retaguarda – Eu já estou de saída… - após lhe ter virado costas disposta a encerrar aquela conversa, visto que não me parecia haver qualquer tipo de desenvolvimento favorável da minha parte, fui interrompida pela sua voz redundantemente tenebrosa, que me bloqueou os movimentos

- Tu deves ser mesmo especialista em fugas… especialmente de última hora!

Apesar do contexto ser bastante distinto e já termos avançado algumas semanas no calendário, eu compreendi onde ele queria chegar – na verdade – eu compreendi perfeitamente o seu claro intuito de me opugnar até à repulsa pela minha atitude para com o seu melhor amigo, David.
Decidi não dar asno à discussão, nem tão pouco inflamar palavras que podiam entrar em combustão, propagando-se num fogo de difícil extinção de parte a parte.

- E ainda tens a capacidade de fugir a um confronto, Adriana…? Estás sem dúvida diferente! – as palavras amarguradas e ditadas pelo meu melhor amigo – uma das pessoas que mais amava e estimava – tornaram-se improvavelmente impossíveis de ignorar, pois o meu coração ressentiu-se com tanta falta de cumplicidade e confiança mútua

- Mas afinal quem és tu para me acusar do que quer que seja, Ruben? – inquiri, confrontando-o pela primeira vez desde que nos havíamos cruzado naquele alpendre, mas não detendo ainda a capacidade de me aproximar sem temer represálias demasiado fortes a alguém de uma sensibilidade frágil como eu – O melhor amigo que não ligou mais? O melhor amigo que tirou partido de uma das partes de uma relação que nem é a dele? Ou o melhor amigo que me acusa, sem sequer tentar perceber as minhas razões pra ter feito aquilo? Espera… - pausei breve e delicadamente, não com o intuito de conseguir alguma resposta, mas na vontade de o impregnar à loucura sábia daquele momento - … acho que nem melhor amigo és mais, pelo menos não meu!

- É assim mesmo que pensas? – questionou amarguradamente, sustendo nos seus pulmões um sopro de ar comprimido pela dor que abocanhava arduamente o órgão vital compassante no lado esquerdo do seu peito – Que só porque não te procurei não mereço mais a amizade que demorámos tanto tempo a construir e jurámos ser eterna?

- É um facto, Ruben… Não te preocupaste em saber a minha versão dos factos, não quiseste saber se estava bem, se estava a sofrer, se precisava de alguma coisa… - acusei enumeradamente, não poupando as palavras maliciosas que provavelmente o iriam fragilizar, mas que precisavam ser ditas antes que me sufocassem no meu íntimo - … Queres que pense o quê, caramba?

- Quero que penses que és a minha melhor amiga e o mínimo que eu esperava era um telefonema depois daquela saída abrupta de Paris!

- Querias que te ligasse e dissesse o quê? Tu ias atacar-me, Ruben… Assim que soubeste da minha ida, tiraste o partido do David, foi por isso que nunca mais me procuraste! – senti um aperto no peito, que me sucumbiu a alma tristemente desanimada pela ausência de um alguém que me era tão querido – Foi por isso que não ligaste… Foi por isso que nem uma maldita mensagem mandaste!

- E queres mesmo continuar a atirar-me isso à cara? – inquiriu perspicazmente, tomando o controlo de toda a conversação e antevendo a viragem de todos os argumentos seguintes a seu favor – É melhor não entrares por aí… Porque pelo menos eu não prometi uma conversa a alguém que supostamente amo, mas parti, deixando-o num país estrangeiro, sem uma justificação, sem pelo menos um “Adeus… desculpa, mas não vai dar mais!”

- E pensas que eu não quis dar essa justificação? Que não me quis despedir do David? – todas as perguntas impostas não procuravam qualquer resposta, limitando-se a embaterem na vivacidade mortiça do rosto de Ruben, que me olhava subjugadamente a um julgamento – Caramba, Ruben! Então não me conheces…

- É, Adriana… Eu costumava conhecer, mas parece que agora não falas mais comigo…

- Porque não queres mais ouvir-me…

- Porque tu não me pedes mais que o faça!

- Eu nem devia precisar de pedir… Achei que a primeira coisa que farias assim que pisasses Portugal era ligar-me, procurar-me, saber o que se passava e consolares-me quando mais estava a precisar de ti! – relembrei os momentos de solidão que passara longe de olhares alheios e sob a guarda de umas mini férias ermas em terras vizinhas, mais prontamente na capital espanhola

- Eu não deveria sequer ter precisado de te procurar, porque se realmente quisesses o meu consolo, não terias fugido daquela maneira… sem pedir um aconchego, uma opinião, um abrigo de alguém que nunca te faltou e não fazia tenções de o fazer agora!

- Pronto… Desculpa então se errei, Ruben! – ciciei com as lágrimas prestes nos meus olhos, quase a transporem a linha de água e planejando o percurso que iriam traçar no meu rosto dentro de instantes – Desculpa se estava confusa, se estava assustada e se isso me fez perder o meu melhor amigo e o homem que mais amei na vida… Desculpa! – implorei erguendo os braços no ar e deixando-os cair, numa só lufada, junto das minhas pernas

O coração mirrado de dor ainda latejava dentro do peito, contudo eu não o sentia mais, mas conseguia perceber a rota que delimitava para os meus pés e que me aceirava para novos caminhos – pelo menos para um suficientemente longe daquele.

- Adriana… - escutei o seu timbre dilacerado, quando já havia rodado o meu corpo nova e frontalmente para as vidraças de acesso ao pequeno alpendre onde havíamos trocado palavras tão acesas e impiedosas - … espera!

- Que queres agora? Que mais vais atirar-me à cara desta vez, Ruben? – perguntei, não estando disposta a deixar correrem mais lágrimas do que aquelas que já afagavam o meu delicado rosto de mulher

- Vem cá…

Ao ver os seus dois braços abertos na minha direcção, dispostos a receberem-me no calor meigo de um abraço de irmão, chorei ainda mais… Talvez saudade ou apropriação ao medo de o ter realmente perdido, sem qualquer retorno contornável e combatível.
O meu coração amoleceu e as minhas pernas bambas precipitaram-se na sua direcção, ainda que de forma vagarosamente lenta, fazendo umas meras fracções de segundo transformarem-se numa eternidade.

- Ai, pequenina… - o murmúrio compadecido que abandonou junto do meu ouvido, activou as restantes lágrimas que eu teimava segurar no meu interior, mas que acabaram por abrir estradas no meu rosto despreocupado de censuras e retaliações

- Desculpa… Desculpa-me! – supliquei num fácies abatido, enquanto as gotas do meu choro percorriam as minhas faces tenras e pereciam no contorno milimétrico da minha boca

- Só preciso compreender-te, Adriana… Fala comigo!

- Eu não posso… Eu não sei que te diga…

- Adriana, eu preciso de compreender o que te leva a cometer o mesmo erro duas vezes…

- É uma longa história, Ruben… São precisas justificações complexas, que tu não vais aceitar e dificilmente entenderás!

- Experimenta só! – desafiou-se numa feição marcada pela rivalidade antiga, que disputávamos em crianças, a fim de compreender quem seria o mais capacitado para compreender longas e intrincadas teorias, fossem elas sobre o que fossem



***



- Queres que comece por onde? – questionei, sentada na mesa onde lanchara com Inês, mas agora tendo como companhia o seu adorado noivo e segurando na mão um cigarro e o meu isqueiro predilecto

- Pelo início… Por aquilo que aconteceu no centro de estágio…

- Ele beijou-me… - relembrei, colocando o filtro entre os meus lábios e fornecendo lume à ponta de papel, que rapidamente começou a arder, deixando-me então tragar a primeira lufada de fumo - … mas isso tu já deves saber!

- Sim, isso eu sei… O David contou-me, até porque não lhe deixei nenhuma outra hipótese! – confirmou a minha teoria, enquanto me olhava atentamente a expelir a primeira colunazinha de fumo – Mas o porquê de teres fugido… Não compreendo! Não era o que mais querias? Ficar bem com ele…?

- Queria, quero e sempre quis… Mas o medo venceu-me, Ruben! Eu fui cobarde e o medo venceu-me…

- Tu… Cobarde? – perguntou, esboçando nos lábios um sorriso irónico e no entanto recheado de razões para tal – Deves ser das pessoas mais corajosas que já conheci…

- Não é bem assim… - procurei com os meus olhos, num recanto escuro do jardim, o conforto necessário para que a minha respiração se mantivesse regularizada e a afluência das lágrimas minimamente controlada – Eu achei que ele estava a repetir o mesmo que já me fizera naquela tarde no Colombo… Eu achei que ele ia brincar com o meu coração e que eu ia sair ainda mais magoada de tudo!

- Ele não ia fazer isso, pequenina… Ele estava mesmo disposto a reconciliar-se contigo e a reaver a vossa relação!

- Mas não confiava em mim! – acusei impensadamente, ao recordar a conversa que não deveria ter escutado entre David e o meu melhor amigo

- Como é que tu…? – a surpresa ondulou-lhe o rosto, adaptando-se cordialmente à sua voz façanha de homem experienciado na vida

- Eu ouvi a vossa conversa, Ruben… - comecei por dizer num sopro de desabafo, que desabrochou dos meus lábios tão naturalmente, guiando o meu corpo de encontro às costas da cadeira, onde buscava forças para me suster – Eu ia mesmo conversar com o David naquela manhã antes de partir, mas eu ouvi a vossa conversa… Por isso é que eu fui embora!

- Não acredito que o abandonaste de novo por isso, Adriana… Se ele já não conseguia confiar em ti plenamente, depois do mesmo erro tornou-se impossível! – Ruben repreendeu-me com as mesmas palavras duras com que Diogo o fizera no dia anterior, quando eu ainda não sabia da nova mulher que ocupava o coração onde durante mais de um ano eu havia habitado

- Também agora é sinceramente indiferente se ele confia em mim ou não… - murmurei, sustendo o cigarro entre os meus lábios e suprimido com lividez o fumo, que rapidamente se dissipou pelo ar

- Pudera… Estás tão diferente! – incriminou, movimentando a sua cabeça num trejeito que indicou o fino cigarro que segurava entre o meu dedo médio e anelar – Desde quando é que fumas, agora?

- Desde que me deixa relaxada… - ripostei, alinhando nos meus lábios um sorriso deliciosamente desafiador, que espicaçou o intuito de Ruben, o que me foi facilmente perceptível, pois afinal conhecia-o melhor que ninguém – E no entanto não é isso que faz de mim alguém “tão diferente!” – argumentei, fazendo uso das suas próprias palavras

- Não… Mas faz de ti alguém não reconhecível à primeira vista! Pelo menos não como a minha Adriana… Aquela que conheço há anos!

- As pessoas mudam…

- Não… As pessoas simplesmente se revelam! – contrariou-me, ressentindo na sua voz aquele tom de recriminação tão próprio do sentimento de irmão que nutria por mim e que somente desejava o meu melhor

- Então talvez esta seja eu… A Adriana e só isso! – os meus ombros ergueram-se e caíram hostilmente sobre si mesmos num único movimento

- Uma Adriana que já não ama o David? – inquiriu, conhecendo o campo armadilhado de minas que me colocava no caminho, esperando que desse um passo em falso e caísse num erro de inimizade

- Uma Adriana que sabe que independentemente de o amar ou não, isso não interessa mais… - esclareci, contornando o rebordo do cinzeiro com a pontinha do cigarro e desvanecendo a sua chama no interior – Agora tenho de ir…

- Já…?

- Sim… Tenho umas coisas pra tratar e vocês vão ter convidados pra jantar! – os meus lábios mostraram timidamente um sorriso à paz tolhida

- Eu até te convidava para o jantar mas…

- … mas o David vai cá estar e vai trazer a namorada nova! – concluí num rasgo de ironia que me serpenteou as faces, acumulando-se em meus lábios num único gesto de clamor impiedoso e deixando Ruben surpreendido por tal descontracção na revelação dolorosa – Achavas mesmo que eu não sabia deles…? Eu leio revistas…Já sei de tudo!

- Ouve, Adriana… Não muda nada daquil... – antes que ele iniciasse um pedido de desculpas, que não tinha qualquer fundamente de culpa, aproximei o meu indicador dos seus lábios e selei-os

- Shiu… Não te preocupes com isso! Ele pode ter uma nova namorada, mas eu vou continuar a ocupar o meu lugar na tua vida… Eu sei disso, Ruben!

Um sorriso cúmplice foi compartilhado por nós na melodia de um silêncio pacífico, onde somente ressaltavam os ruídos de fim de tarde, acompanhados pelo chilrear das aves imersas nas extensas copas dos carvalhos que circundavam a vivenda.
As suas mãos quentes premiram as minhas faces, apertando-as no calor de uma caricia e os seus lábios tocaram leve e sentidamente a minha testa, no maior sinal de respeito e carinho que alguma vez conheci.

- Adoro-te, minorquinha… - jurou num sussurrar descompassado de emoção, sentido pelas polpas dos meus dedos, que pousavam do lado esquerdo do seu peito, de onde um palpitar assolado se dissipava percorrendo todo o meu corpo

- E eu a ti… E eu a ti…

Regressei a casa mais vazia do que nunca, mas certa de que nenhuma dor era suficientemente grande para me derrubar e nenhum sentimento suficientemente forte para se conhecer inesquecível.
Apesar da dor, foquei-me na determinação de uma certeza dolorosa… Tinha de esquecer permanentemente David!
Não sei quando o iria ver, mas um reencontro seria inevitável. Dali a dois meses, na vivenda da família Amorim para o casamento mais esperado do ano dentro do nosso círculo de amigos próximos… Pois fugir a um momento tão importante como esse, seria renegar a amizade celeste e indestrutível que sustentava por Ruben, e isso… ele jamais me perdoaria!










Antes demais quero pedir desculpa pela demora num novo capítulo, mas a escola dificulta um pouco o tempo livre para dedicar à escrita!
Depois quero agradecer o avolutado número de comentários, que são um enorme incentivo para a escrita e aqui vos deixo um novo capítulo.
Espero que gostem e comentem :)

Beijinhos,
Drii


P.s - Há uns dias recebi o convite para a rúbrica "8 perguntas e meia", passem pelo blogue e vejam a entrevista feita a convite da gestora: http://23davidluiz.blogspot.com/2011/10/8-perguntas-e-meia-adri-amar-628km-de.html, a ela um muito obrigada! :)