sábado, 30 de abril de 2011

Capítulo 107 – Finalmente nos 18 (Parte III)


O resto do meu dia de anos foi muito calmo e passado, única e exclusivamente com David. Os dias de Novembro escasseavam e aproximávamos a passos largos do Natal. Os primeiros planos começavam a ser traçados, as primeiras prendas a serem compradas e as primeiras decorações a serem colocadas na capital portuguesa. O David continuava determinadíssimo em passar o Natal em Lisboa comigo e não me sobrava outra opção, sem ser a de fazer à Dona Regina, o tão prometido telefonema, e pôr o meu plano em prática.

- Alô, minha filha! – a voz animada dela surgiu rapidamente do outro lado do telefone

- Olá, Dona Regina! – cumprimentei com um sorriso no rosto

- E aí, minha filha? Tava esperando seu telefonema desde do seu niver!

- É verdade, mas até lá ainda pensei que o teimoso do seu filho mudasse de ideias, mas como não mudou, vou ter de pôr o meu plano em prática! – brinquei rindo-me

- O que é que esse menino anda fazendo dessa vez?!

- Nada, Dona Regina… Mas meteu na cabeça que como eu não vou ao Brasil passar o Natal, que ele vai passa-lo cá comigo… Mas eu não me sinto bem com isso! Afinal ele está habituado aos pais e não deve ficar cá sem os senhores e ainda por cima por minha causa!

- Oh, mas fazer o quê? Esse menino é cabeça dura, minha filha… Desencana! Com ele cê não vai ganhar, ele quando enfia uma na cabeça, ninguém muda isso! Mas a gente não se importa que ele fique aí com você…

- Mas importo-me eu, Dona Regina! Afinal pais são pais… Então eu pensei, se Maomé não vai á montanha, a montanha vem a Maomé!

- Como assim, minha filha?

- Então, pensei que a Senhora e o seu marido, podiam vir cá passar o Natal… Assim eu ficava com a minha família, o David com a dele, mas estávamos juntos!

- Cê pensou mesmo no assunto, minha filha…

- Pensei… Mas pensei também que queria fazer disto uma surpresa para o David! Ele merece, mais do que ninguém ele merece!

- Minha filha, por mim podem contar connosco! A Belle vai mesmo passar o Natal com a família do Leandro por isso, eu e o Lau íamos ficar aqui sozinhos com o David, se ele viesse…

- Então posso preparar mais dois pratos na mesa para os senhores? – eu fiquei louca de felicidade, ia conseguir passar o Natal com a minha família, mas ter David do meu lado

- Pode sim! – notei também um certo entusiasmo na voz da Dona Regina

- Mas há um senão, Dona Regina… - disse meio a medo

- Que foi, minha filha?

- É que vamos passar o Natal com a minha família toda… Ou seja os senhores vão conhecer os meus pais…

- Vamo’? Óptimo, ‘tava louca para conhecer os dois seres humanos fantásticos que educaram uma menina linda que nem você!

- Oh, muito obrigada, Dona Rê! Então vou providenciar as passagens, e eu estarei lá para os ir buscar quando o voo chegar! Garanto! – sorri entusiasmada com a ideia

- Tudo bem, minha filha… Vai ficar sendo um segredinho só nosso e do Lau! Cuida bem do meu filho, beijo!

- Beijo para a Dona Regina e para o Sr. Lau! E outro para a Belle e o Leandro! Adeus! – desliguei a chamada e corri para a agência de viagens para providenciar tudo

Eles chegariam na manhã da véspera de Natal, eu iria buscá-los e levava-os directamente para a Quinta da minha família, onde mais tarde David iria ter.
Até ao Natal, e entre decorações, compras e encomendas, os dias esgotaram e estava na hora dos pais do homem da minha vida chegarem.
Acordei muito cedo, vesti uma roupa simples, apenas para os ir buscar ao aeroporto e seguir viagem para o Baleal.

Fui no meu carro, que na bagageira já contava com todas as prendas e roupas minhas e do David para a noite de Natal.
Quando cheguei ao aeroporto o avião deles já tinha dado entrada na pista e pouco a pouco já via pessoas a saírem pela porta de desembarque.

- Adriana! – a voz doce e amena da Dona Regina, foi imediatamente reconhecida pelo meu coraçãozinho

O meu corpo ergue-se do banco, e a meu corpo acompanhou a rotação da minha cabeça, na direcção da mãe de David. Do seu lado vinha o Sr. Ladislau empurrando o carrinho das malas e extremamente sorridente como a sua esposa. Aproximámo-nos uma da outra e abraçámo-nos fortemente.

- Oh minha filha, tanto tempo! – sorrimos as duas ainda de corpos colados

- Pode crer, Dona Regina! Desde as férias no Brasil já lá vão cinco meses! – finalmente quebrámos o abraço e olhámo-nos

- Nossa, cê tá cada vez mais bonita… Meu filho teve muito gosto! – elogiou o Sr. Ladislau

Corei, abracei-o também e trocámos dois beijinhos.

- Obrigada! – agradeci ainda levemente vermelha – E a viagem foi calma?

- Sim, foi muito bem… Só ‘tamos é loucos de saudade do nosso filho!

- Não se preocupe, Dona Regina! Em menos de nada estão com ele… Aposto que a esta hora ele está no décimo quinto sono e muito longe de imaginar que os senhores cá estão. Vai ficar louco de felicidade! – sorri muito confiante de que assim seria e assim foi

Segui viagem com eles no meu carro, prossegui às primeiras apresentações e a minha mãe e a Dona Regina criaram imediatamente uma grande empatia. O Sr. Ladislau era mais reservado, mas manteve uma conversa amena com o meu pai e restantes homens da família, enquanto eu me entretive com a ajuda do meu afilhado a arrumar as prendas debaixo da árvore. O almoço foi servido e a Dona Regina fez questão de ajudar, o que fez com que uma grande concentração de mulheres se instalasse na cozinha. Com o meu afilhado no colo juntei-me então a elas.

- Sim, mas o Benfica é mesmo o melhor do mundo! – foram as primeiras palavras que apanhei mal entrei na cozinha e proferidas pela Dona Regina

- Claro que é, o meu marido é que degenerou! – queixou-se a minha mãe e todas as mulheres presentes se riram

- Muito bem, sim senhora! Os homens estão lá fora, mas o tema futebol acontece dentro destas quatro paredes! – brinquei pousando o pequenote na bancada

- ‘Tava conversando com a sua mãe sobre o Benfica… - informou a Dona Rê com um sorriso

- Eu percebi! – sorri-lhe também

- Ó inha… - o meu pequenote dirigiu-se a mim de forma trapalhona como já era hábito – Por falar no Benfica… Onde está o moço de caracoles com quem estás shempre aos beijinhos? – ele fez uma carinha muito confusa, como se algo lhe tivesse a escapar

Todos se riram na cozinha, mas desde que o meu afilhado conhecera David a empatia havia sido imediata. Na verdade porque o David tinha muito jeito com crianças e era sempre extremamente carinhoso.

- Oh, amor… O David está quase aí a chegar, teve de descansar um bocadinho para no próximo jogo estar cheio de força e o Benfica ganhar, shim? – falei-lhe de forma melosa e mexendo-lhe nos cabelos

- Mas eu tenho muntas saudades dele… - o bebé fez um beicinho lindo e completamente comovente

O meu telemóvel começou a tocar nesse momento, era ele.

- Olha é ele, vês? Deve estar quase a chegar! Ainda vem a tempo de lanchar contigo, não é? – sorri-lhe novamente – Queres atender?

- Shiiiiiim! – o menino fez uma enorme festa e estendeu-me as mãos para que lhe desse o telemóvel

Atendi e coloquei em voz alta, pousando-o nas suas mãos pequeninas e abertas em conchinha

- Amô? – apesar de não estará ver David, consegui-lhe adivinhar um sorriso no rosto, apenas pelo seu tom de voz

- Olhá, David! – como sempre o bebé era um trapalhão a falar, mas sempre super doce

- Olá, pequenote! Ué, pensei que tava ligando para a jeitosa da sua madrinha! – ele para não variar meteu-se com o menino de forma muito divertida, que dominava o seu jeito de miúdo-homem

- A jeitoja da madinha, está aqui… Mas eu quelia falar contigo, poque tinha saudades…

- Muleque, eu ‘tou chegando e mal eu pise aí a primeira coisa que eu faço é matar essas saudades, sim?

- Shiiiiim! – o menino bateu palminhas e eu sorri enternecida

- E aí? Agora me vai dizer onde está sua madrinha? – notei uma certa impaciência e saudade na voz de David, e eu estava igualmente assim para o ver

- Ela fugiu com um jogadole do spoting! Não, não! Do Poto! – o menino meteu-se com David, relembrando uma brincadeira que Ruben tivera com este e todas na cozinha se desmancharam a rir

- Ela o quê? – a voz de David soou levemente aflita

- Oh, amor, não podes dizer essas coisas ao David… - acariciei-o nas faces e tentei tirar-lhe o telemóvel das mãos, mas ele não deixou

- Amô, que conversa é essa, pô? Tomei maior susto!

- Calma, amor… Não vês que o menino estava a brincar, obviamente! Achas que alguma vez eu dormiria com o inimigo? – ri-me e novamente todas as outras o fizeram

- Acho bem, mesmo! – ele não se conteve e riu-se – Oh amô, eu tou chegando… Mas tou chegando naquele cruzamento em que me perco sempre… É para cima ou para baixo?

- Oh amor, em frente! – ri-me porque de facto o David tinha péssima orientação

- Isso, ri! Ri de mim, que quando eu chegar aí cê me paga!

- Uau! Estou cheia de medo, David Marinho! – disse num tom sarcástico e falsamente assustado

- É bom que tenha ou esqueceu que vai dormir no mesmo quarto que eu?

- Amor! O telemóvel está em altifalante!

- Tá de sacanagem! – acho que ele achou que estava a brincar com ele e respondeu de forma muito descontraída

- Não, está mesmo! Está tudo na cozinha… A minha mãe, as minhas tias, as minhas primas, a minha avó… - enumerei, mas excluí a mãe dele como era óbvio

- A Rê, Rê, Rê! – gritava o menino agitando os braços no ar e automaticamente saltei para lhe tapar a boca

- O que é que esse garotinho falou?

- Nada, amor… Nada! Não ligues que isto já é do sono!

- Tá bom… Olha amô!

- Diz…

- Tou morrendo de saudade… - o tom da sua voz foi meloso, e esta arrastou-se levemente

- Amor, altifalante! – relembrei-o, rindo-me perante os olhares enternecidos de todas na cozinha

- Que tem? Eu te amo, isso não é segredo nenhum e não tenho problema nenhum em o admitir!

- Ohhhhhhhhh! – um uníssono perfeito inundou o ar

- És um totó, vê lá é se te despachas então, amor…

- Tá bom!

- Qualquer coisa que te percas liga-me… Mas a partir de agora á fácil, acho eu!

- Tá bom, eu te ligo! Beijão, amô da minha vida! Txi amo muitão! – um sorriso tonto surgiu na minha cara

- Madinha, txi amo! – o menino imitou as palavras de David e tanto nós do lado de cá do telefone, como David se riu

- Eu também, meu amor… - mexi-lhe nos cabelos e dirigi-me depois ao telemóvel – Também te amo, amorzão! Até já!

- Até já, lindona! – desliguei a chamada rapidamente

Um alarido instalou-se na cozinha, David estava quase a chegar e a surpresa dos pais estava prestes a ser feita. A confusão abrandou, quando ouvimos o barulho de pneus na estrada de gravilha da entrada e um buzinar: era ele!

- Calacole! Calacole! Calacole! – o meu afilhado começou a cantarolar e a bater palminhas, louco de entusiasmo

- Dona Regina, fique na sala com o Sr. Ladislau que eu vou buscar o David!

- Eu vou contigo, Madinha! – ofereceu-se o pequenote

- Não vais nada, amor… Deixa a madrinha ir buscar o David e depois falas com ele, sim? – a mãe dele, a minha prima, segurou-o nos braços e deu-lhe um beijinho das faces

- Tá bem… - o menino resignou-se às ordens da mãe – Mas manda-lhe já um beijinho e um abracinho meu! – acrescentou, num sorrisinho que já revelava os seus pequeninos dentes de leite

- Eu mando, amor! Volto já! – dei um beijo na face da mãe dele e da minha e saí na direcção do portão

Ainda percorria o pequeno percurso de pedra entre a porta de casa e o portão e já via o David do lado de fora, encostado ao carro, de mãos nos bolsos e um sorriso lindo e radioso, que já era a sua imagem de marca.

- Amor! – corri para o alcançar e joguei-me nos seus braços

- Ai, amô… - ele apertou-me para si e retirou levemente os meus pés do chão

- Ai, que saudades, borracho! – ri-me juntinho do seu ouvido, acho que nunca o havia chamado assim ele riu-se também

- Borracho?! Nossa, que elogiozão, viu?! – rimo-nos os dois e beijei-o

Sem pensar em mais nada, beijei-o! Beijei-o e limitei-me a beijá-lo, com muita calma, sem urgências, de forma saudosa, porque na verdade já não estava com ele há quase uma semana. Primeiro porque ele andava muito concentrado nos treinos e com horários super apertados, e depois porque estava em época de entrega de trabalhos e de provas de avaliação o que tornava o meu tempo livre completamente nulo.

- Que saudade dessa boca, meu Deus… - ele sussurrou ofegante bem juntinho dos meus lábios

- Mata-as, mata-as todinhas! – disse sorrindo

- Pode apostar que vou matar todinhas! – ele beijou-me de forma calma, mas muito sentida

- Já estão todos à tua espera e o meu afilhado louco para te ver! – ela riu-se relembrando toda a ternura do menino

- Eu sei, o muleque ‘tava doidão no celular! – ele riu-se e beijou-me nos lábios

- Pois, mas o muleque vai ter de esperar, porque eu tenho uma surpresa para ti! A minha prenda vem adiantada… - o meu rosto rasgou-se num sorriso matreiro

- O que é que cê andou aprontando, amô?

- Hum, vais ter de esperar para ver!

Dei-lhe a mão e avançámos juntos para dentro de casa. Nunca tivera tantas certezas como naquele dia, ao ver as nossas famílias unidas, que ele poderia perfeitamente ser o marido com que eu tanto sonhara, o pai que eu tanto desejara para os meus filhos. E essa foi das poucas certezas que me preencheu nesse dia, pois estava a segundos de ver a reacção dele à minha surpresa…



Obrigada pelas 200,000 visitas! :)
Deixo-vos mais um capítulo para comemorar este número grandito!
Espero que gostem e comentem!
Beijinhos
Dri

domingo, 24 de abril de 2011

Capítulo 107 - Finalmente nos 18 (Parte II)


- Que é isso, amor? – perguntei olhando para o pequeno embrulho nas mãos dele

- É sua prenda! – ela sorriu, sentou-se do meu lado na mesa e estendeu-me o pequeno embrulho, que eu não agarrei imediatamente – Aceita, amô!

- É o quê? – perguntei curiosa depois de o agarrar e agitar levemente

- Abre e vê! – ele fez um sorriso de orelha a orelha completamente delicioso

- Eu disse que não queria prendas, amor… - contrapus calmamente começando a soltar o laço

- Cê disse que não queria, mas não me proibiu de dar para você! – respondeu perspicazmente

- Oh… Não queria que tivesses gasto dinheiro, amor…

- Não se preocupa, eu que sei! – ele sorriu e acariciou-me a face direita

- És um teimosão! – disse ao mesmo tempo que abria a prenda com um sorrisão na cara

Deparei-me com uma pequena caixa preta, um pequeno fecho de mola em alumínio e umas letras douradas no tampo da mesma caixa que não consegui reconhecer como pertencendo a algo específico.

- Que é isto, amor? – perguntei olhando-o sem perceber muito bem o que era aquilo

- Abre e veja se gosta! – ele sorriu

Abri a pequena caixa e o queixo caiu-me. Uma chave pertencente a um carro, pelo símbolo um Audi, e pelo aspecto da chave, exactamente igual à do carro de David, um Q7.

- Amor, são as chaves do teu carro… - disse calmamente rindo-me

- Não, amô! São as chaves do SEU carro! – ela mostrou-me um pequeno bilhete colado no interior da tampa da caixa, onde uma pequena foto também constava.

Pela paisagem da fotografia, pude reconhecer a entrada da casa de David, mais especificamente o carvalho que sombreava o parque de estacionamento. Agarrei no pequeno bilhete para o ler.

“Lá em baixo, esperando por você, o carro dos seus sonhos! Feliz aniversário, muleca! Beijão! Eu te amo!
O seu, David!”


- Estás a gozar!? – fiquei meio aparvalhada a olhar para ele até o meu pequeno cérebro assimilar toda as informações

 – Estou a sonhar, só pode! – exclamei apalpando bem a chave na minha mão

- Não tá sonhando, não… - ele sorriu de forma serena, agarrou na minha mão e levou-me à janela da cozinha para espreitar lá para baixo

Vi então um Audi Q7, branco, igualzinho ao dele, sem tirar nem pôr, o carro dos meus sonhos, ali estacionado na frente do prédio dele, com um laço vermelho enorme no tejadilho, à minha espera.

- Aquilo é meu?! – ela olhou para ele com a boca aberta de espanto e ele limitou-se a acenar positivamente com a cabeça – Tu és louco, amor!

- Não gostou?

- Gostei! Claro que gostei! – disse rindo-me

- Vamo’ lá ver, vem! – ele puxou-me pela mão e nem tomámos o elevador, num ritmo acelerado acabámos por ir de escadas

- Amor, é lindo! – disse já na frente do carro – Mas…

- Mas o quê, amô? – senti os braços dele envolverem-me carinhosamente, por trás

- Eu não posso aceitar… É demais! É um carro, amor! É uma fortuna!

- Amô, deixa disso! Não importa o valor que dei por ele, só interessa que você gostou e era só isso que eu queria! – ele deu-me um beijo no pescoço

- Eu amei, é o carro dos meus sonhos, tu sabes… E uma coisa é andar num, outra bem diferente é conduzir um, que ainda por cima é meu! – não me consegui controlar e sorri de entusiasmo

- Então não sei o que você estava fazendo aí parada, entra nele e experimenta de uma vez! – ele incentivou, com um sorriso lindo e tão seu a delinear-lhe os lábios

- Posso? – perguntei tremendo de ansiedade

- Ele é seu, cê pode tudo! – senti os lábios dele irem de encontro à minha bochecha e o sorriso que por si só já dominava a minha cara, tornou-se principal elemento

- Entra, amor! – disse destrancando o carro e livrando-me do abraço dele

- Não, amô… Vai você! Experimenta ele, se cê regressar inteira aí eu vou! – disse rindo-se

- És tão engraçadinho, David Luiz! – dei-lhe um leve calduço – Eu passei no exame de condução com distinção, sim?

- É amô, mas nunca confiando… - ele voltou a rir-se e não resisti, ri-me com ele

- Tudo bem, então quando vires que eu vou, mas volto inteira, entras no carro e vens comigo! – fiz um jeitinho com a cabeça e um sorriso traquina surgiu no rosto de ambos

Antes de darmos por isso, já tínhamos os corpos colados, os nossos narizes encostados e as testas tocavam-se levemente. Tão rapidamente como estes se uniram, os nossos membros superiores fizeram o mesmo, as nossas mãos uniram-se às do outro de forma calma e eu fui acariciando as costas das mãos dele, com o meu polegar. Um sorrisinho lindo, mesmo igualzinho àqueles dos meninos pequenos quando fazem algum disparate, mas estão extremamente felizes, surgiu nos lábios do meu David. Eu sorri também e rocei levemente a pontinha do meu nariz na do dele.

- Cê acha que eu não vou com você, amô? – perguntou rindo-se levemente, até eu sentir a sua respiração nos meus lábios

- Tu é que disseste, olha vê lá… Se calhar é melhor não! Quero o meu namorado vivinho da Silva! – eu alinhei claramente na brincadeira dele, a cumplicidade que com o tempo havíamos desenvolvido permitia-nos isso

- Não diz bobagem, meu amô! É claro que eu vou com você, na semana passada tratei do meu seguro de vida por isso, tou safo! – ele riu-se e eu dei-lhe uma chapada na cabeça – Au amô!

- Au, ui! Á pala dessa agora não vais mesmo! – deitei-lhe a língua de fora e antes que desse conta disso ele beijou-me

As nossas línguas envolveram-se, e os braços dele que rodeavam o meu corpo forçaram-me a encostar ao carro. Pelo caminho os meus pés baralharam-se todos e ia caindo, mas os braços dele puxaram-me para cima e empurrou-me de encontro ao carro. Os meus olhos permaneceram fechados, quando os lábios dele abandonaram os meus e se dedicaram a explorar o meu pescoço e ombros.

- David… - chamei-o, sorrindo e mordendo o lábio inferior

Ele não me respondeu, continuou concentrado nas carícias ignorando completamente o sítio onde estávamos.

- Amor… Estamos na rua… - relembrei rindo-se das cócegas, que os caracóis dele provocavam no encontro com a minha pele

- E daí? Só te estou dando uns beijinhos… - no mesmo instante em que acabou de falar os seus dentes ferraram-se de forma carinhosa na carne do meu pescoço

- David, quero ir experimentar o carro! – ri-me afastando-o levemente

- Vai já já, só mais uns beijinhos no seu zucão! – pediu colando novamente os nossos corpos e logo de seguida as nossas bocas

Depois de alguns minutos de troca carícias e de beijos, uns mais longos e sentidos e outros mais curtos, mas ainda assim ternos e doces, eu estava preparada para experimentar o meu carro. O meu primeiro carro, o primeiro que eu conduzia e que podia chamar de meu. Entrei no carro, sentando-me no lugar de condutor e o David no de pendura.

- Vamos lá ver… - disse eu colocando o cinto um pouco nervosa

- Bem, vamo’ lá ver nada! Cê me garantiu que passou no teste para dirigir esse troço daqui! – disse muito aflito, o que me deu uma vontade louca de rir

- E sei, amor… Estava só a “aquecer”! – afirmei sorrindo-lhe

- Me deixa um buscar um capacete e umas cotoveleiras? – pediu numa cara de gozo, que só me apeteceu bater-lhe

- Epá ó David, estás a deixar-me mais nervosa… Se vais começar com isso sais! – refilei ao mesmo tempo que regulava o acento para conseguir chegar com os pés aos pedais

- Pronto, amô… Já calei! – ele calou-se, controlando as gargalhadas e fixou a sua atenção em mim

Tentei ignorá-lo. Ajeitei o retrovisor para que pudesse ter uma visão da traseira do carro e coloquei a chave na ignição. O meu pé pisou a embraiagem e a minha mão direita rodou a chave até ouvir o motor ligar. Ainda as minhas mãos não tinham tocado o volante e já estavam húmidas de suor, os nervos começavam a tomar conta de mim. Engatei a primeira e o meu pé foi soltando levemente a embraiagem, com o outro pressionei o acelerador, mas o carro foi abaixo. Sentia os olhos de David completamente colados em mim e o meu estômago revirou-se dos nervos, comecei a considerar que talvez não fosse boa ideia ele estar presente.

- Oh David, contigo a olhares-me assim não consigo! – refilei voltando a rodar a chave para fazer o carro pegar de novo

- Assim como? – perguntou ele enrugando a testa

- Assim, desse jeito! – apontei para a cara dele com a mão que me sobrava livre

- De que jeito, muleca?

- Assim, David! Fixamente! – barafustei sem conseguir pôr o carro a trabalhar de novo

- Amô, se acalma… Cê tá muito nervosa!

- Isso é porque estás aqui… Eu sinto a pressão! – as minhas mãos embateram levemente no volante em sinal de frustração por não estar a conseguir ligar novamente o carro

- Amô, pressão nenhuma, eu também já tive nesse lugar… Não nasci ensinado, não! Vem cá… - ela debruçou-se sobre mim, rodou a chave e o carro pegou – Viu só? Não custou nada… Vai com calma, amô!

- Obrigada… - sorri de um jeito nervoso e senti os lábios dele embaterem nos meus, de uma forma calma, serena, como que tentando acalmar-me e acabou por surtir efeito

Pisei a embraiagem, engatei novamente a primeira, e acelerei ao mesmo tempo que levemente soltei a embraiagem. O carro começou a andar, muito levemente e apenas com um pequeno toque no volante consegui fazer com que ele se virasse e saísse do seu lugar no estacionamento. Um sorriso mais calmo delineou os meus lábios e senti a mão de David na minha perna, como que felicitando-me pelo progresso.

- Conseguiu, amô! – os lábios dele tocaram de forma terna a minha face direita e mais uma vez sorri-lhe, mas sem nunca tirar os olhos da estrada

- Consegui… - disse ainda meio incrédula com o feito e metendo a segunda para acelerar – E agora vou para onde? – perguntei sem saber muito bem para onde me dirigir
- Sai por aí, amô… Não importa onde! Só para você experimentar…

- Já sei… - afirmei com uma ideia em mente

- Vamo’ onde? – perguntou curioso

- Já vês… - sorri e iniciei o caminho para Cascais

Nada me dava mais gozo do que percorrer aquele caminho com o vento a invadir a atmosfera que me envolvia. Apesar de ser Inverno, um solzinho ameno aquecia o ar frio próprio da estação em que nos encontrávamos. Coloquei os meus óculos de sol e a meio do caminho o meu telemóvel tocou dentro da mala.

- Amor, vê quem é… - pedi continuando muito atenta à estrada

- Minha mãe… - informou ele esticando o telemóvel na minha direcção

- Não posso atender no carro, mete em altifalante, amor… - disse consciente do meu estado de condutora prudente e ele riu-se discretamente

- Tá ensinadinha! – provocou e atendeu a chamada, colocando-a em alta-voz, antes que eu tivesse tempo de refilar

- Olá, minha filha… - ouvi a voz sempre doce da Dona Regina

- Olá, Dona Regina! Como estão todos aí? – perguntei sorrindo

- Bem… E vocês?

- Também!

- Tava ligando para desejar um feliz aniversário! – ouvi um entusiasmo na voz dela que me deixou feliz, incrivelmente feliz e aceite na família do David

- Obrigada, Dona Regina! – sorri virando num cruzamento

- Ainda não perdeu esse jeitinho de me chamar de Dona Regina?! – o David que estava do meu lado desmanchou-se a rir – Ué meu filho, cê tava aí e não dizia nada?

- Mãe, tenho de estar bem atento… A gentxi tá’ no carro e a mãe não pode nem imaginar quem tá conduzindo! – ele troçou de mim, rindo-se descaradamente

- Não lhe ligue, Dona Regina! Ele está numa de gozar comigo hoje e tirou a minha primeira volta no meu carro para o fazer…

- Tá dirigindo, minha filha?

- Estou, mas nunca mais o faço com o David do meu lado! Este rapaz é um melga!

- Oh meu filho, pára de azucrinar a moça, cê ama ela, mas não vive sem a provocar… Que coisa, gentxi! – foi a vez de nós os dois nos rirmos

- Oh mãe, tou de sacanagem com ela… Ela amou o meu presente!

- Amou? Ainda bem, muleque… A ver que assim cê pára de me encher o saco com tanta dúvida! - eu e a mãe dele rimo-nos, percebi claramente que ele tinha martirizado a pobre Dona Regina com as suas inseguranças

- Eu adorei, ele não a volta a chatear mais… - garanti ainda rindo-me

- Graça’ a Deus! – indagou ela do outro lado do telefone

- Vocês as duas, quando se unem contra mim… Pô! Que dupla!

- Oh coitadinho do garoto… Deixa de ser mariquinhas, ó! E tá caladinho que eu preciso falar com a tua mãe…

- Comigo minha filha?!

- Sim, consigo… Mas é uma coisa de mulheres, acha que lhe posso ligar depois?

- Claro, minha filha… Tou sempre disponível!

- Então eu ligo-lhe depois pode ser?

- Sim…

- Mande beijos a toda a gente! Estou a morrer de saudades disso aí…

- Ué, tem bom remédio, vem cá da próxima vez que o Davi’ vier!

- Irei, Dona Regina! Se até lá ele não tiver acabado comigo devido aos maus-tratos… - brinquei, e ambas nos rimos, David acabou por se juntar a nós

- Estaremos esperando você com o maior carinho do mundo! Beijos! Vos amo!

- Beijinhos! – despedi-me

- Beijo, mãe! Fiquem com Deus! – ele desligou a chamada – Que cê quer falar com minha mãe?

- Coisas minhas e dela, coisas de mulheres… Depois logo vês!

- Odeio, quando você me esconde coisas… - disse rabujento

- Não te estou a esconder nada, David… Simplesmente são assuntos que não te interessam, são coisas de mulher! – finquei sem lhe dar mais hipótese de me melgar

- Tá bom… E me diz uma coisa, onde cê vai passar o seu Natal? Falta um mês e meio, amô! – ele relembrou-me, mas eu tinha aquele facto bem assente na minha cabeça

- Eu sei que falta, e devo passá-lo onde passo sempre… Com os meus pais e a minha família na casa da minha avó!

- Pensei que ia passar o Natal comigo… Eu queria passar com você! – a sua voz soou a desilusão, mas mais do que isso, a tristeza e saudade

- Oh amor, mas eu não vou para o Brasil… E é lá que tens a tua família!

- Mas agora cê também é minha família… E eu queria você do meu lado! Vai fazer um ano nesse Natal, que a gente tava se começando a gostar… Foi tão gostoso, amô, que queria relembrar, mas agora do seu lado!

- Mas não podes ter as duas coisas… Tens de ir ao Brasil, e eu não posso sair de Portugal!

- Oh, mas aí então eu fico em Portugal com você!

- Não digas disparates, amor… Claro que não ficas! Tens mais é de ir ver a tua família! Os teus pais, a tua irmã, o Gu…

- Ah esse babaca eu vejo todo santo dia, meus pais vêm cá no meu aniversário, por isso eu posso passar cá o Natal!

- Amor, não te vou pedir que fiques em Portugal sem os teus pais…

- Ah, mas eu vou ficar, pode ter a certeza que vou! – pelo canto do olho, vi-o tomar uma expressão muito séria e decidida

- És mesmo teimoso! – refilei, e quando dei conta já estava parada novamente no lugar de onde havíamos partido – Vamos subir?

- Vamo… - ele sorriu, saiu do carro e correu para me abrir a porta

- Hum, que cavalheiro… Muitíssimo obrigada!

- Nada que agradecer, senhorita! – ele beijou-me nos lábios e eu tranquei o carro sorrindo-lhe

No elevador não resistimos a trocar mais uns beijos e juras de amor, há um ano atrás eu nunca poderia imaginar comemorar o meu décimo oitavo aniversário do lado de alguém como David e numa relação tão sólida.

- Caíste como um anjo na minha vida… - confessei com o meu narizinho encostado ao dele

- Cê que é o anjo da minha vida! Mudou tudo, virou meu mundo ponta-cabeceira! Nossa, foi bom demais te conhecer. Me deu uma fé, uma energia… Sei lá! – um sorriso louco permaneceu nos lábios dele, enquanto proferiu cada uma destas palavras

A maneira como ele falou, aquele jeitinho dele… Acertou em cheio no meu coração! Era tudo o que eu precisava ouvir, que era a fé e a energia que o movia. Limitei-me a esboçar um sorriso e roubar-lhe um beijo calmo, com um único pensamento: com ele ou não, juntos ou separados, iria amá-lo sempre, ainda que á minha maneira… em silêncio! E eu não estava muito longe de adivinhar o que se aproximava…





Obrigada a todos que lêem a fic, e pelos comentários
O vosso apoio é muito importante!
Não se esqueçam de comentar, é sempre importante
recolher opiniões!
Beijinhos
Drii ♥

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Comunicado

Boa noite queridos leitores,

eu sei que tenho andado desaparecida e tardia em capítulos, mas apesar de estar de férias as coisas não têm corrido como eu esperava. O meu computador avariou, fiquei sem word algum tempo e tenho tido problemas com o blog, que teima em não me deixar postar, mas enfim... Acho que já resolvi o problema e dentro em breve irei postar!
Obrigada a todos aqueles que não desistem da fic e aos novos leitores, que todos os dias surgem, surpreendendo-me!

Beijinhos
Drii

domingo, 17 de abril de 2011

Capítulo 107 – Finalmente nos 18 (Parte I)

Tinha-se passado um mês desde a morte do meu avô e eu nunca mais tinha ido ao cemitério desde o funeral, custava-me acreditar que tivesse acontecido e ir lá era a confirmação que eu não queria ter, talvez um dia… Quem sabe! Desde a sua morte que eu nunca mais tocara num piano uma vez que tinha sido ele a ensinar-me e sem saber explicar muito bem porquê, de repente já nada me fazia sentido sem ele. Mais do que nunca eu e o David estávamos unidos. Eram mais as noites em que dormíamos juntos na casa dele do que aquelas que eu passava na casa que dividia com Bianca, a namorada de Salvio. O meu aniversário estava quase a chegar e há duas semanas que eu tinha feito o exame de código e estava a um passo de ter a minha carta na mão. O David andava comigo a ver carros, mas eu já tinha mais ou menos em mente aquilo que queria.


- Quando cê vai comprar seu carro, meu amô? – perguntou-me ao pousar a mão na minha perna enquanto ia a conduzir na direcção de sua casa, era mais uma noite que iria dormir lá


- Não sei… Acho que para o mês que vem! Aproveito e fica a minha prenda de Natal e de aniversário pra mim mesma! Junto o útil ao agradável! – sorri levemente e acariciei a sua mão na minha perna


- Mas cê faz anos esse mês, amô! Não tem graça só comprar pro mês que vem…


- Oh, não é pra ter graça, amor! É pra usar e pronto, para o mês que vem vou a um Stand, compro-o e pronto! Nem me irei lembrar que foi prenda de aniversário, é completamente irrelevante! – falei de forma despreocupada


- Tudo bem… Cê que sabe… - senti David esmorecer e tirou a mão da minha perna, parecia que o tinha desiludido ou entristecido


- Estás bem? Disse alguma coisa errada? – a minha testa enrugou-se automaticamente


- Não, nada não… Tou só aqui pensando num négocio!


- No quê?


- Coisas minhas, não se preocupa, não! – ele sorriu-me e automaticamente fiquei mais aliviada



***



Era o dia dos meus anos, há dois dias tinha ido ao exame de condução e graças a Deus fui aprovado. Acabei por passar a noite em casa do David e foi uma noite “daquelas”. Acordei com uns lábios húmidos na minha face e muito lentamente abri os olhos.


- Parabéns, dorminhoca! – desejou imediatamente assim que o encarei, o sorriso enorme que inundava os seus lábios inundou o meu coração


- Obrigada, amor! – sorri-lhe e ele roubou-me um beijo leve nos lábios – É muito tarde? – elevei-me levemente da cama, na esperança de conseguir ver as horas


- Não, nem por isso… É cedo ainda, mais pra mais é sábado, logo nem tem que se preocupar com as horas! – o ar espevitado dele deu-me tamanha energia que sem pensar muito lhe espetei um beijão enorme – Obá! Sempre que cê fizer anos vai ser assim, é?


- Vai! – respondi num sorriso traquina


- Ué, vou querer você fazendo anos todo santo dia!


- Até parece, zuca… Quem te ouvir falar pensa que não te dou beijões destes em dias normais! – falei com desdém, mas apenas para me meter com ele


- Dá, mas assim do nada, sem eu falar nada bonito pra você não é muito comum…


- Olha passa a ser! – respondi de forma espevitada e ele riu-se levemente


- Tá lindo isso, tá… Tou vendo que esses 18 anos, tão afectando essa cabecinha…


- Tché! Olha aí o respeito, ó! – dei-lhe uma suave chapada na farta cabeleira


- Ai, amô! Me machuchou… - ele fez um beicinho de criança completamente delicioso


- Não vem que não tem, zuca! Foi devagarinho, deixa de ser mariquinhas!


- Mariquinhas um escambau! Tá doendo, amô… - disse esfregando os caracóis num jeito muito aflito e pela primeira vez considerei que ele estava a falar a sério


- Oh amor, desculpa… - sentei-me na cama, agarrei a cabeça dele com jeitinho e enchi-o de beijinhos no sítio onde lhe tinha batido – Tá melhor assim? – perguntei carinhosamente e rapidamente o ouvi gargalhar desalmadamente


- Fala a sério! Não tou nem acreditando que cê caiu nessa, amô! – gozou entre riso agarrado à barriga


- Ai por esta tu vais pagar, David Luiz! - fiz um ar muito sério e chateado


- Vai encarar, é? – ele despojou o peito pra fora e fez um ar de luta


- Vou! Vou mesmo! Vou-te bater, zuca feio! Vais apanhar tantas! – disse erguendo-me na cama com a mão no ar já pronta a bater-lhe


- Amor, espera aí só cinco minutinhos! – disse e levantou-se da cama


- Que foi agora, ó? – perguntei num falso amuo


- É só pra dar tempo pra eu fugir! – assim que o disse desatou a rir e fugiu do quarto numa correria danada


Não evitei rir-me que nem uma louca, mas rapidamente saltei da cama e saí a correr atrás dele pela casa fora.


- David Luiz, volta aqui já! – gritava correndo atrás dele


Aquela pequena brincadeira acabou no banho onde fizemos amor, mais uma das muitas entregas àquele homem que eu tinha a certeza ser o da minha vida e que podia chamar de meu.



****


- Come qualquer coisa, amô… Cê não anda comendo nada! – refilou ao puxar-me para o seu colo, enquanto estava sentado à mesa da cozinha


- Amor, já comi, uma torrada… Um iogurte! Chega bem!


- Chega nada, muleca! Come mais!


- Mas tu deves achar que eu me chamo David Luiz, não? Que come este mundo e o que há-de vir se for preciso!


- Ah ah ah, olha a gracinha, moça! – ele apertou-me contra si e roubou-me um beijo leve – Come, amô… Pra sossegar esse grandalhão!


- Hum, lá grandalhão tu és, não és é grande coisa… - brinquei por entre carícias


- Ai, cê hoje tirou o dia pra me sacanear, é? – disse num sorriso travesso


- É pra aprenderes a não repetires a gracinha lá do quarto… - voltei a dar-lhe uma chapada nos cabelos


- Ai amô, machucou! – disse num ar muito sério


- David, nessa não caio! – informei sem o olhar


- Amô, tou falando sério… Me machucou! – ele coçava os caracóis, como se tentasse acalmar a dor


- David, não acredito! Podes parar… - falei, mas olhei-o pelo canto do olho preocupada


- Tou falando sério, tá doendo muito, amô lindo… - falou num jeitinho de criança pequena que me enterneceu


Não resisti, agarrei novamente na cabeça dele e observei-a desviando todos os caracóis até chegar ao seu couro cabeludo. Esfreguei a zona carinhosamente e selei com um beijinho. Olhei para a cara dele e muito rapidamente o seu beicinho foi substituído por um sorriso gozão.


- David, eu mato-te! – ameacei por entre dentes


- Davi’ – 2, Adriana- 0! – afirmou sorridente, marcando o numerador com as mãos


- Vais apanhar tantas, David Marinho! – levantei a mão no ar e comecei a bater-lhe nos ombros e no peito


- Isso me machuca! Me bate! Quanto mais cê me bate mais eu te amo! – dizia num tom super gozão


- Aiiii! – barafustei muito irritada e aumentei a força das chapadas


- Isso, me bate, amô! Me bate que é gostoso! – dizia rindo-se como se a força das minhas chapas não o afectasse em nada


- Ai, odeio-te David! – rendi-me e levantei-me furiosamente até ficar junto da bancada do lava-loiças


- Cê me ama, tá, garota? – ele fez um ar gozão e roubou-me um beijo atrevido


- Odeio-te! – afirmei sisuda


- Tem certeza? – ele elevou a sobrancelha e enterrou a sua cabeça no meu pescoço, que cobriu de beijos até me deixar totalmente arrepiada


- Odeio… - disse de olhos fechados tentando manter-me concentrada


- Tem certeza, amô? – perguntou passando a língua no meu lábio inferior


- Certezinha, absoluta… - sussurrei de olhos fechados e senti-o entalar o meu lábio inferior nos seus dentes


- Certeza? Absoluta, absolutinha? – a voz dele arrastou-se para me provocar e as suas mãos apertaram os meus glúteos


- Absolutinha… - a muito custo imitei o sotaque dele e tremi a cada toque seu


- Ainda bem, porque eu tenho treino! – quando eu já estava quase a ceder, louca para ser dele, fugiu daquela maneira


- Ai, odeio-te mesmo, David! – barafustei irritada


- Isso amô! Me continua odiando assim, que um dia então a gente casa, tem filhos lindos e se odeia pra sempre! – disse num tom gozão – Fui! – roubou-me um beijo e desapareceu pela porta da cozinha


- Bom treino! – gritei rindo-me sozinha


- Brigado! – ainda o ouvi gritar já depois de fechar a porta de casa



****



Era sábado, ia mesmo ficar por casa dele e passar o meu dia de anos com ele, uma vez que este ano não fazia tenções de o celebrar. Recebi um telefonema da minha mãe e do meu pai, da minha avó, e dos meus restantes familiares e amigos. Todos compreenderam a minha decisão de não comemorar os meus 18 anos, depois da perda tão recente do meu avô.

Estava já de volta do meu almoço e de David quando o meu telemóvel deu sinal de uma nova mensagem, calmamente li-a.


“De: Diogo

Olá, pequenina! Antes de mais quero desejar-te um feliz dia de aniversário, finalmente atinges a maioridade, mas não vou dizer que apenas agora te tornas mulher, porque isso já o és há demasiado tempo, só eu não conseguia enxergar. Depois quero aproveitar para te relembrar que de uma forma ou de outra, aqueles que partem ficam sempre do nosso lado, nos dias mais importantes da nossa vida e tenho a certeza que o teu avô não será excepção, assim como eu… Há demasiado tempo que me mantenho afastado, que te dou paz como me pediste, mas não consigo ignorar o que sinto… Não consigo, nem quero! Amo-te, com todas as certezas que tenho, com todas as forças deste mundo. Sei que nem sempre te dei o teu devido valor e foi preciso perder-te para ver o quão importante és na minha vida, mas uma coisa te garanto! Não vais sair de mim nunca, vou estar sempre à tua espera! Quando já não fores mais feliz aí, com ele, procura-me e eu estarei no lugar onde me deixaste, com o coração nas mãos pronto a entregar-to! Parabéns, pequenina! :) “


Tremi de cima abaixo ao ler aquela mensagem, senti as pernas falharem-me, as lágrimas turvarem-me a vista e tive de me sentar na cadeira de cozinha. Ouvi o David virar a chave na fechadura e apressei-me a enxugar as faces onde as lágrimas já corriam. Diogo ainda não me tinha esquecido, isto é se eu considerar acreditar que ele alguma vez me amou, e não sabia porquê, mas saber disso, doía. Doía de todas as maneiras possíveis, em cada parte de mim. Os meus olhos percorreram uma última vez o texto que tinha na minha frente e apaguei-o, assim como já tinha apagado Diogo da minha vida.


- Oi, amô! – a voz sempre animada e doce de David rompeu o ar


- Olá, amor! – senti uma necessidade desmedida de sentir o David por perto e corri na sua direcção para o apertar fortemente para mim


- Ei que é isso, amô? Saudade? – perguntou não me recusando o seu abraço e pousando o saco do treino no chão da cozinha


- Sim, muitas! – sorri levemente e beijei-o por toda a linha do maxilar


- Oh amô… - a voz dele arrastou-se e as nossas bocas foram unidas por vontade de David


- Fiz o almoço para nós… - sorri levemente e apontei com a cabeça na direcção dos tachos que estavam ao lume


- Uau, nossa! Que bem, meu amô… Já tá cheirando a comidinha! – ele fez um sorriso louco, as suas mãos envolveram a minha cintura e viraram-me até ficar com as minhas costas encostadas no seu peito


- Só espero que gostes… É frango com natas e massa! – entrelacei os meus dedos nas mãos dele que estavam sob a minha barriga


- Vou amar, tenho a certeza! – rematou dando-me um beijo no pescoço


Começámos a almoçar entre beijos e carinhos, sentia-me feliz! E a perda deixada pelo meu avô, o enorme buraco no meu coração era preenchido por todo o amor que David me dava.


- Amô, hoje tive um sonho louco! – começou por contar rindo-se que nem um tonto


- Ai sim? Sonhaste com o quê, tontinho? – perguntei, mas continuei a comer


- Sonhei que cê tava grávida, com um barrigão lindo! – afirmou com um sorriso de orelha a orelha


Automaticamente engasguei-me, muito aflita tentei que a comida descesse e tal só aconteceu depois de uns bons goles de água e algumas chapadas de David nas minhas costas.


- Grávida?! – perguntei num tom aflitivo limpando a boca


- Sim, grávida! Nossa tava com um barrigão lindo! – um brilho cresceu nos seus olhos e eu arrepiei-me com a intensidade


- Oh amor, só mesmo em sonho, porque grávida é coisa que eu não estou te garanto… - falei de forma calma e pausada


- Eu sei, amô… Mas sonho com isso! Sonho ter um monte de nenéns seus! Nossa, que felicidade! – a mão dele procurou a minha e uniram-se sobre a mesa


- Oh amor, é um bocadinho cedo para isso… Estamos juntos nem sequer há um ano! – agitei levemente a cabeça e dei uma garfada na comida


- Eu sei, mas já nos conhecemos há mais de um ano, ficámos foi naquele pega-pega, naquele vai-não-vai! Além disso o tempo é relativo e eu não tou falando que quero cê grávida já, mas no meu sonho estava linda! – fez um sorriso babado e eu derreti completamente


Ainda não tinha equacionado a hipótese de ter um filho dele, de engravidar, apesar da ideia de ser mãe sempre me ter agradado muito e as crianças sempre terem sido uma das minhas grandes paixões.


- Vamos ter tempo pra tudo, amor… Um dia vais ver-me com um barrigão enorme!


- Cê jura? – aproximou o seu rosto do meu com um sorriso traquina


- Juro! Vamos ter uma equipa de futebol! – brinquei num sorriso


- 11 nenéns? Fechado! – afirmou sorridente e roubou-me um beijo nos lábios


- Eu amo-te, David… - falei da forma mais sincera que consegui


- Eu te amo mais, meu amô… Muito mais! – afirmou num sussurro juntinho dos meus lábios


- Não… Eu é que te amo! – contra-argumentei rapidamente


- Shiu… Eu que sei! – beijou-me novamente sem me dar hipótese de refutar

- Ganhas sempre, é incrível! – barafustei rindo-me


- Cê é fraquinha, fazer o quê? – ambos nos rimos e unimos novamente os nossos lábios – Tenho uma surpresa pra você! – ele saiu da cozinha e regressou com um pequeno presente vermelho

terça-feira, 12 de abril de 2011

Capítulo 106 - O tempo leva tudo menos a saudade... (Parte V)

Vesti-me de negro, o David acompanhou-me na indumentária e seguimos no carro dele para a capela mortuária, ainda me aguardava uma missa longa e que só iria tornar a hora mais longa e desesperante.




O discurso do padre não me emocionou nem um pouco, era um bloco de gelo que ali estava! No lugar do meu coração não havia mais nada senão uma pedra, uma enorme e fria pedra. Deus tinha-me castigado roubando-me a pessoa que mais amava e eu estava magoada, diria mesmo chateada com ele e não havia outra maneira de agir. A missa chegou ao fim… Era altura da família se despedir. Foi o momento mais arrepiante que alguma vez vivi em toda a minha vida. A nossa família, avó, pai, mãe, tios, tias, primos e primas, reunimo-nos todos em torno do caixão, abraçados formando um circulo e chorámos a sua morte, era a nossa despedida, o nosso “Adeus”. O David entrou nesse círculo, ele era também já parte da minha família. No fim todos se aproximaram ordenadamente para se despedirem individualmente. Fui a última da fila, o David estava do meu lado, como sempre estivera naqueles dois últimos dias. Olhou para mim e incentivou-me a avançar, mas os meus pés não descolaram do chão, especialmente porque todos me olhavam.


- Não consigo, David… - disse sufocada pelas lágrimas, olhando-o no rosto


- Consegue, amô… Eu tou bem aqui do seu lado! – olhei para o caixão, novamente para David que me deu um último olhar de incentivo e depois de novo para o caixão


Finalmente avancei, nem sei bem como, nem onde arranjei forças, mas avancei. As minhas mãos descobriram o rosto do meu avô coberto pelo pequeno pano de seda branca bordado de trocados delicados. Assim que o vi, morto na minha frente, as lágrimas fluíram e embateram na sua pele dura e gélida. Não havia qualquer movimento de respiração, os seus olhos estavam fechados, era o meu avô tal qual o tinha conhecido, mas parecia apenas profundamente adormecido. Esbocei um leve sorriso que foi imediatamente cortado por novas e fluentes lágrimas. Abri o seu casaco levemente e no bolso interior esquerdo, bem junto ao seu peito, que ao tocar apercebi-me estar estagnado no tempo, sem qualquer batimento, coloquei a minha carta de despedida na esperança de que apesar de não a poder ler, de alguma maneira lhe tomasse conhecimento do conteúdo. Acariciei-o na face e os meus órgãos vitais gelaram ao sentir a temperatura baixa do corpo dele, estava mesmo morto… E era tão dura essa realidade! A minha cabeça tombou sobre o seu peito, chorei durante breves minutos e ainda rezei por ouvir qualquer batimento que fosse daquele coraçãozinho, mas nada… Apenas o silêncio e o eterno vazio de uma despedida. Ergui a cabeça, os meus lábios colaram-se à sua bochecha e cerrei as pálpebras de onde as lágrimas teimavam escorrer sem cessar.


- Eu amo-o… Até já… - sussurrei por entre o choro ao ouvido de quem já não me podia ouvir


- Desculpe, mas está na hora… - informou o Senhor da funerária aproximando-se de mim


- Mais um minuto, por favor… - implorei


Entrei em desespero ao aperceber-me que seria a última vez que via e tocava o meu avô, ainda que morto.


- Vai ter mesmo de ser, menina… - pediu-me o senhor


- Por favor… - implorei num choro descontrolado sem largar o meu avô


- Adriana… Por favô, vamo, amô… - o David agarrou-me pela cintura e pediu-me calmamente isso


- David… É o meu avô! – disse tentando que alguém compreendesse o meu desespero


- Eu sei, amô… Mas chegou a hora… - ele disse aquilo de forma calma e serena, com o máximo cuidado possível para não me magoar


Só assim acedi ao pedido que me era feito, toquei a ponta dos meus dedos com os lábios e toquei uma última vez no rosto do meu avô, afastando-me. O David tomou-me nos seus braços e não me deixou assistir ao momento de selagem do caixão. Calmamente, puxando-me pela mão tirou-me dali e levou-me para o carro. Transportaram o caixão até ao carro funerário e o David seguiu-o até ao cemitério. Aquela seria sem dúvida a parte pior… Tiraram o caixão do carro, o padre proferiu mais algumas palavras e quando iam abrir o caixão pela última vez uma chuva torrencial fez-se cair. Olhei imediatamente para a minha mãe como que implorando que não abrissem o caixão.


- David, não deixes… Não quero que o meu avô apanhe chuva! – implorei em choro


- Calma, amô… Eles não vão abrir, eu não vou deixar… - prometeu ao mesmo tempo que me apertava mais contra si, na tentativa de que me molhasse o menos possível


- Não abram… - pediu a minha avó chorando, era uma questão de respeito ao corpo do meu avô


Os senhores atenderam ao pedido dela e abriram o gavetão onde o caixão iria ficar. Não era aquilo que eu tinha imaginado para a última morada do meu avô, mas enterrar as pessoas na terra, estava a ser proibido em maior parte dos cemitérios devido à falta de vagas. Fechei os olhos no momento em que enfiaram o caixão dentro do gavetão, o David apertou-me mais contra si, enterrando a cabeça na minha nuca e senti as suas lágrimas escorrerem pelas minhas costas abaixo. Ele estava a sofrer tanto como eu por me ver assim… O gavetão foi selado, não iria ser mais aberto, depositámos junto dele as inúmeras coroas de flores. A bandeira de Portugal que cobria o caixão, devido ao facto do meu avô ter pertencido às forças militares, foi recolhida e entregue à viúva pelo comandante da ordem onde o meu avô pertencera. Um outro militar atirou dois tiros ao ar e bateram continência junto à campa, a chuva cessou então. Foi totalmente arrepiante e emocionante! A pedido do meu pai todos começaram a abandonar a zona onde o meu avô tinha sido sepultado, apenas eu me quis aproximar.


- Não faz isso, amô… - pediu o David assim que me viu tomar o caminho nessa direcção


Aproximei-me na mesma, coloquei-me de cóqueras e toquei a lápida fria e negra. Era assim que estava a minha alma negra, escura e coberta de uma enorme nuvem de frieza e dor.


- Amô, vem… Cê só tá se machucando mais desse jeito… - o David colocou-se de cóqueras do meu lado e tocou-me no braço


Olhei-o pelo menos uma vez com as lágrimas nos olhos, não queria deixar o meu avô ali, mas tinha de ser, não havia retorno, era aquela a sua última morada.


- Amô… Por favô! Sou eu que tou pedindo… - ele colou os seus lábios à minha orelha direita e a sua voz soou embargada pelas lágrimas que lhe corriam pelo seu rosto


Ele levantou-se, estendeu uma das suas mãos e esperou que eu a tomasse. Assim acabei por fazê-lo, ainda que contra minha vontade e sabendo que ali deixava metade do meu coração. Caminhei com o braço do David em torno dos meus ombros até ao portão do cemitério, mas o nosso percurso foi travado por uma voz que me era estranhamente familiar.


- Adriana…


Olhei para trás e vi Diogo, todo vestido de negro, num ar calmo e pacífico, eu compreendi que ele vinha em paz desta vez. Pedi permissão a David com o olhar e aproximei-me.


- Lamento, lamento muito… - disse-me assim que me juntei a ele


- Eu sei, obrigada… - respondi educadamente


- Era um senhor o teu avô! – o Diogo conhecera bem o meu avô, apesar deste não gostar nada dele devido ao que ele me fizera


- Sim, era um senhor! – afirmei orgulhosa


- Ele vai sempre orgulhar-se de ti… Tu sabes disso!


- Sim, eu sei… Ele disse-mo e não duvido sequer!


- Ainda bem… - ele sorriu-me levemente, mas não consegui corresponder sabendo que tinha David impaciente e nervoso, aguardando por mim e com medo de me perder para Diogo


- Eu vou indo senão te importas… - respondi educadamente


- Sim, vai… Deves estar a precisar de descansar! Se precisares de alguma coisa liga, manda mensagem, é só avisares…


- Obrigada, mas creio que não será preciso! Fico bem, Diogo! E obrigada por teres vindo!


- Não tens que agradecer! – trocámos um breve sorriso sem qualquer sentimento, pelo menos da minha parte e regressei para junto de David que imediatamente me acolheu em seus braços


- Algum problema? – perguntou David visivelmente nervoso


- Não, ele veio em paz… - respondi impávida e serena


- Graças a Deus, é o que todo o mundo aqui tá precisando… De paz!


Já fora do portão fui tomada nos braços de Débora, de Paula que fizera questão de estar presente mais o Roberto, da Brenda e do Luisão que trouxeram a minha pequena afilhada Sofia e o Ruben que veio com Inês. Foi um período longo, sofrido, em que me rendi nos braços de todos os presentes, mas a verdadeira rendição chegaria mais tarde, em casa, nos braços do homem que amava…



***



- Amô, come qualquer coisinha, sim? – estávamos os dois sentados à mesa, um prato cheio na minha frente, mas nada entrava, nada queria entrar


- Não tenho fome, amor… - torci o nariz ao prato e coloquei os talheres em posição de já ter findado a refeição, quando na verdade ainda nem a tinha começado


- Tá assim tão ruim meu macarrão? – perguntou numa expressão triste e eu acariciei-o no rosto


- Nada disso, amor… Está bom, mas eu é que não tenho muita fome, desculpa…


- Oh amô, cê tem de comer! – pela sua expressão abatida era fácil compreender que ele estava visivelmente preocupado


- Eu sei, mas não entra nada… Vai ser pior se eu empurrar, sem querer comer!


- Tudo bem, não vou obrigar você… - levantei-me e coloquei o prato em cima da bancada da minha cozinha – Amor, desde que chegaste ainda não foste a casa…


- Não se preocupa com isso, ainda tenho roupa aí da viagem…


- Mas devias ir, não podes ficar aqui para sempre a tomar conta de mim, tens a tua vida, as tuas prioridades… - falei calmamente ao entrar novamente na sala


- Posso, é claro que eu posso… - falou clara e calmamente – Minha prioridade é você, amô!


- Não, tens a tua vida para além destas quatro paredes e de mim! – afirmei muito convicta


- Me deixa, amô… Tou pedindo, me deixa ficar e tomar conta de você, não me manda embora… - implorou no seu jeito de menino e com os olhos já manchados de vermelho denunciando novas lágrimas


- Não te ia mandar embora, amor… - tentei sorrir levemente e colei o meu corpo ao dele – Não ia… Claro, que eu não ia…


A minha face enterrou-se no pescoço dele, e os meus lábios percorreram com beijos toda a sua pele perfumada, com o maior dos carinhos e doçura.


- Oh meu Deus… Essa é minha Adriana, essa doçura… - a voz dele arrastou-se e quando alcancei a visão do seu rosto, vi o mais belo sorriso esboçado por aquela boca linda


- É? – perguntei num sorriso louco


- É… Essa sua doçura toda… É minha menininha… - ele apertou-me mais contra si e encheu-me de beijinhos no rosto


- Então toma conta da tua menininha… Por favor… - pedi com as lágrimas nos olhos – Preciso muito de ti…


- Vem, eu cuido de você… - as mãos quentes dele uniram-se às minhas e muito calmamente, num compasso calmo ditado pelos nossos corações caminhámos juntos até ao quarto


Sentei-me na cama, sentia-me morta, completamente a desmoronar, mas tê-lo do meu lado, ainda me dava forçar, para erguer a cabeça e seguir em frente.


- Vamo’ vestir seu pijama, amô!


Ele pousou as minhas coisas junto de mim na cama e muito pacientemente e com todo o carinho do mundo, como já tinha demonstrado naqueles últimos dias, colocou-se na minha frente esperando que erguesse os braços para me despir. Assim o fiz, ergui-os no ar e num movimento rápido, mas nem por isso menos cuidadoso, ele despiu-me a camisola. Logo de seguida, inclinou-se sobre o meu corpo até alcançar o fecho do soutien e desapertou-o, deixando-me semi-nua na sua frente, completamente despojada para ele, o homem que eu amava. Vestiu-me uma t-shirt larga, que pelo cheiro identifiquei rapidamente como sendo dele.


- Levanta um pouquinho, amô… - pediu num sussurro meigo e eu obedeci


As mãos dele percorreram delicadamente os meus quadris e fizeram as minhas calças deslizar até ao chão, acabei por me livrar delas. As mãos dele fizeram o percurso inverso e subiram pelas minhas ancas acima, com um enorme desejo, podia ler no seu toque que esse o consumia totalmente. A minha boca colou-se à dele e senti-o estremecer na surpresa do beijo. As minhas mãos procuraram a camisola dele e muito facilmente a despiram, para novamente as nossas bocas e línguas se fundirem.


- Amô, a gente não tem de… - a voz sempre doce e preocupada dele fez-se ouvir


- Eu quero, amor… - sussurrei ofegante de encontro aos lábios dele


Na carícia leve de um beijo, senti as mãos dele enterrarem-se dentro da sua t-shirt que cobria o meu corpo, e acariciarem-me o peito. Gemi baixinho nos lábios dele, mas ainda assim as nossas línguas uniram-se. Do meu peito, as suas mãos viajaram até às minhas costas, percorreram a minha espinha de cima abaixo e repousaram nos meus glúteos. Tremi que nem uma criança pequena, assustada por um berro, nos braços dele. Não sabia muito bem porquê, mas eu e David namorávamos há oito meses, e ele ainda conseguia mexer comigo como se fosse a primeira vez que me beijasse, a primeira vez que me tocasse… As minhas mãos desceram até ao fecho das calças de David e desapertaram-no assim como ao botão. Num gesto trapalhão, mas completamente enternecedor, ele descalçou-se aos saltinhos fazendo um esforço por manter as nossas bocas unidas, apesar de usar as duas mãos para se livrar dos ténis. Rimo-nos levemente da situação e beijámo-nos mais uma vez. A minha mão enterrou-se no bolso traseiro das suas calças e sacou da sua carteira. Numa divisória pequenina, encontrei um preservativo e tirei-o segurando-o entre os dentes. Atirei a carteira para o chão do quarto e despi-lhe as calças que aterraram direitinhas nos seus pés. Ele desviou os cabelos do meu rosto e eu tirei a bolsinha do preservativo dos dentes, jogando-a sobre a cama. As grandes mãos dele, sempre numa temperatura exageradamente alta, despiram-me a camisola deixando-me novamente exposta para o homem que amava. Ele sorriu, não foi um sorriso depravado, de quem procura meramente prazer. Foi um sorriso terno, genuíno, de alguém que ama e anseia por ser amado. Senti o corpo dele colar-se ao meu e fazer-me cair sobre a cama. A minha língua procurou a dele, mesmo sem as nossas bocas estarem unidas e as minhas mãos viajaram até à linha abaixo da cintura de David, acariciei-o e da parte dele apenas obtive gemidos em surdina. Percebi claramente pela sua intensidade que ele se estava a controlar, em cada gesto seu adivinhava uma nova expressão de carinho e em cada carícia uma nova tentativa de me amar, na calmaria de cada batimento lento dos nossos corações. Senti-o finalmente excitado e despi-lhe os boxers. Ele fez exactamente o mesmo e ainda com o meu corpo debaixo do seu, fez os seus polegares deslizarem pelos meus quadris, livrando-se da única peça de roupa que ainda impedia a união dos nossos corpos. Estremeci quando finalmente vi que estávamos despidos um para o outro e completamente preparados para uma nova noite de entrega mútua e incessante. Dei uma pequena reviravolta ficando sobre o corpo dele e sentei-me nas suas coxas. Procurei o preservativo por entre os lençóis enrodilhados e ao fim de alguns segundos finalmente encontrei-o. Abri-o devagarinho ao mesmo tempo que acariciava cuidadosamente David e ele gemia deliciado. Coloquei-lho lentamente, com muito cuidado para não o magoar, mas com muita adrenalina para o provocar.


- Cê me deixa louco… - disse em timbre de gemido ao mesmo tempo que inclinava a sua cabeça levemente para trás e mordia o lábio inferior


Quando terminei de o colocar, senti uns braços quentes envolverem-me e puxarem-me de volta para os lençóis, ele tinha novamente o controlo. Abri as pernas devagarinho e sem ser preciso qualquer pedido ou concessão ele entrou em mim. Num ritmo lento, mas intenso, naquela noite o David tocou cada recanto de mim, o mais escondido, o mais intimo, e a partir desse momento, o mais seu. Tocou-me o coração, mas mais do que isso, entrou no mais profundo de mim: tocou-me a alma. Teimou em manter um ritmo calmo, doce, mas ambos os corpos pediam mais e nós queríamos mais, mas eu sabia… Sabia tão bem, que ele se estava a controlar. As minhas pernas encolheram-se levemente, cruzaram-se nas costas dele e puxaram-no mais para mim. As minhas mãos ganharam vida própria e percorreram cada traço das suas costas e tronco perfeitamente esculpido pelas horas de treino.


- Mais, David… Quero mais… - sussurrei baixinho no ouvido dele


- Não quero magoar você… - falou num tom calmo, parando de unir os nossos corpos, mas permanecendo dentro de mim


- Não magoas… Podes acelerar… - confessei num sorriso, tentando tranquilizá-lo


Eu estava frágil pela morte do meu avô, era verdade, mas mais do que nunca, precisava sentir-me amada. E depois daqueles dias de sufoco e das provas de David, de que estaria do meu lado, nos piores e nos melhores momentos, eu precisava ter a certeza de mais do que os nossos corações, também as nossas almas estavam unidas para sempre. Assim que lhe dei consentimento para tal, senti-o entrar em mim com mais força e mais rápido, não me magoou e deu-me uma sensação de protecção indescritível. Nem que procurasse por cem palavras, mil eufemismos e dez mil charadas eu conseguiria descrever o quanto ele me fez sentir amada e protegida nessa noite. A minha respiração acelerou juntamente com a dele e com os gemidos que abandonaram os nossos lábios. O ritmo não parou de aumentar e só culminou quando nos braços um do outro, gememos o nome de ambos e atingimos o máximo prazer. Senti-o pulsar dentro de mim e sorri-lhe de forma terna e carinhosa.


- Eu amo-te… - sussurrei ainda ofegante


- Eu também te amo, meu anjo… Muito… - disse num sorriso e roubou-me um beijo longo e muito, muito doce...