"A distância pode separar dois olhares, mas nunca dois corações..."
sábado, 30 de abril de 2011
Capítulo 107 – Finalmente nos 18 (Parte III)
domingo, 24 de abril de 2011
Capítulo 107 - Finalmente nos 18 (Parte II)
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Comunicado
domingo, 17 de abril de 2011
Capítulo 107 – Finalmente nos 18 (Parte I)
Tinha-se passado um mês desde a morte do meu avô e eu nunca mais tinha ido ao cemitério desde o funeral, custava-me acreditar que tivesse acontecido e ir lá era a confirmação que eu não queria ter, talvez um dia… Quem sabe! Desde a sua morte que eu nunca mais tocara num piano uma vez que tinha sido ele a ensinar-me e sem saber explicar muito bem porquê, de repente já nada me fazia sentido sem ele. Mais do que nunca eu e o David estávamos unidos. Eram mais as noites em que dormíamos juntos na casa dele do que aquelas que eu passava na casa que dividia com Bianca, a namorada de Salvio. O meu aniversário estava quase a chegar e há duas semanas que eu tinha feito o exame de código e estava a um passo de ter a minha carta na mão. O David andava comigo a ver carros, mas eu já tinha mais ou menos em mente aquilo que queria.
- Quando cê vai comprar seu carro, meu amô? – perguntou-me ao pousar a mão na minha perna enquanto ia a conduzir na direcção de sua casa, era mais uma noite que iria dormir lá
- Não sei… Acho que para o mês que vem! Aproveito e fica a minha prenda de Natal e de aniversário pra mim mesma! Junto o útil ao agradável! – sorri levemente e acariciei a sua mão na minha perna
- Mas cê faz anos esse mês, amô! Não tem graça só comprar pro mês que vem…
- Oh, não é pra ter graça, amor! É pra usar e pronto, para o mês que vem vou a um Stand, compro-o e pronto! Nem me irei lembrar que foi prenda de aniversário, é completamente irrelevante! – falei de forma despreocupada
- Tudo bem… Cê que sabe… - senti David esmorecer e tirou a mão da minha perna, parecia que o tinha desiludido ou entristecido
- Estás bem? Disse alguma coisa errada? – a minha testa enrugou-se automaticamente
- Não, nada não… Tou só aqui pensando num négocio!
- No quê?
- Coisas minhas, não se preocupa, não! – ele sorriu-me e automaticamente fiquei mais aliviada
***
Era o dia dos meus anos, há dois dias tinha ido ao exame de condução e graças a Deus fui aprovado. Acabei por passar a noite em casa do David e foi uma noite “daquelas”. Acordei com uns lábios húmidos na minha face e muito lentamente abri os olhos.
- Parabéns, dorminhoca! – desejou imediatamente assim que o encarei, o sorriso enorme que inundava os seus lábios inundou o meu coração
- Obrigada, amor! – sorri-lhe e ele roubou-me um beijo leve nos lábios – É muito tarde? – elevei-me levemente da cama, na esperança de conseguir ver as horas
- Não, nem por isso… É cedo ainda, mais pra mais é sábado, logo nem tem que se preocupar com as horas! – o ar espevitado dele deu-me tamanha energia que sem pensar muito lhe espetei um beijão enorme – Obá! Sempre que cê fizer anos vai ser assim, é?
- Vai! – respondi num sorriso traquina
- Ué, vou querer você fazendo anos todo santo dia!
- Até parece, zuca… Quem te ouvir falar pensa que não te dou beijões destes em dias normais! – falei com desdém, mas apenas para me meter com ele
- Dá, mas assim do nada, sem eu falar nada bonito pra você não é muito comum…
- Olha passa a ser! – respondi de forma espevitada e ele riu-se levemente
- Tá lindo isso, tá… Tou vendo que esses 18 anos, tão afectando essa cabecinha…
- Tché! Olha aí o respeito, ó! – dei-lhe uma suave chapada na farta cabeleira
- Ai, amô! Me machuchou… - ele fez um beicinho de criança completamente delicioso
- Não vem que não tem, zuca! Foi devagarinho, deixa de ser mariquinhas!
- Mariquinhas um escambau! Tá doendo, amô… - disse esfregando os caracóis num jeito muito aflito e pela primeira vez considerei que ele estava a falar a sério
- Oh amor, desculpa… - sentei-me na cama, agarrei a cabeça dele com jeitinho e enchi-o de beijinhos no sítio onde lhe tinha batido – Tá melhor assim? – perguntei carinhosamente e rapidamente o ouvi gargalhar desalmadamente
- Fala a sério! Não tou nem acreditando que cê caiu nessa, amô! – gozou entre riso agarrado à barriga
- Ai por esta tu vais pagar, David Luiz! - fiz um ar muito sério e chateado
- Vai encarar, é? – ele despojou o peito pra fora e fez um ar de luta
- Vou! Vou mesmo! Vou-te bater, zuca feio! Vais apanhar tantas! – disse erguendo-me na cama com a mão no ar já pronta a bater-lhe
- Amor, espera aí só cinco minutinhos! – disse e levantou-se da cama
- Que foi agora, ó? – perguntei num falso amuo
- É só pra dar tempo pra eu fugir! – assim que o disse desatou a rir e fugiu do quarto numa correria danada
Não evitei rir-me que nem uma louca, mas rapidamente saltei da cama e saí a correr atrás dele pela casa fora.
- David Luiz, volta aqui já! – gritava correndo atrás dele
Aquela pequena brincadeira acabou no banho onde fizemos amor, mais uma das muitas entregas àquele homem que eu tinha a certeza ser o da minha vida e que podia chamar de meu.
****
- Come qualquer coisa, amô… Cê não anda comendo nada! – refilou ao puxar-me para o seu colo, enquanto estava sentado à mesa da cozinha
- Amor, já comi, uma torrada… Um iogurte! Chega bem!
- Chega nada, muleca! Come mais!
- Mas tu deves achar que eu me chamo David Luiz, não? Que come este mundo e o que há-de vir se for preciso!
- Ah ah ah, olha a gracinha, moça! – ele apertou-me contra si e roubou-me um beijo leve – Come, amô… Pra sossegar esse grandalhão!
- Hum, lá grandalhão tu és, não és é grande coisa… - brinquei por entre carícias
- Ai, cê hoje tirou o dia pra me sacanear, é? – disse num sorriso travesso
- É pra aprenderes a não repetires a gracinha lá do quarto… - voltei a dar-lhe uma chapada nos cabelos
- Ai amô, machucou! – disse num ar muito sério
- David, nessa não caio! – informei sem o olhar
- Amô, tou falando sério… Me machucou! – ele coçava os caracóis, como se tentasse acalmar a dor
- David, não acredito! Podes parar… - falei, mas olhei-o pelo canto do olho preocupada
- Tou falando sério, tá doendo muito, amô lindo… - falou num jeitinho de criança pequena que me enterneceu
Não resisti, agarrei novamente na cabeça dele e observei-a desviando todos os caracóis até chegar ao seu couro cabeludo. Esfreguei a zona carinhosamente e selei com um beijinho. Olhei para a cara dele e muito rapidamente o seu beicinho foi substituído por um sorriso gozão.
- David, eu mato-te! – ameacei por entre dentes
- Davi’ – 2, Adriana- 0! – afirmou sorridente, marcando o numerador com as mãos
- Vais apanhar tantas, David Marinho! – levantei a mão no ar e comecei a bater-lhe nos ombros e no peito
- Isso me machuca! Me bate! Quanto mais cê me bate mais eu te amo! – dizia num tom super gozão
- Aiiii! – barafustei muito irritada e aumentei a força das chapadas
- Isso, me bate, amô! Me bate que é gostoso! – dizia rindo-se como se a força das minhas chapas não o afectasse em nada
- Ai, odeio-te David! – rendi-me e levantei-me furiosamente até ficar junto da bancada do lava-loiças
- Cê me ama, tá, garota? – ele fez um ar gozão e roubou-me um beijo atrevido
- Odeio-te! – afirmei sisuda
- Tem certeza? – ele elevou a sobrancelha e enterrou a sua cabeça no meu pescoço, que cobriu de beijos até me deixar totalmente arrepiada
- Odeio… - disse de olhos fechados tentando manter-me concentrada
- Tem certeza, amô? – perguntou passando a língua no meu lábio inferior
- Certezinha, absoluta… - sussurrei de olhos fechados e senti-o entalar o meu lábio inferior nos seus dentes
- Certeza? Absoluta, absolutinha? – a voz dele arrastou-se para me provocar e as suas mãos apertaram os meus glúteos
- Absolutinha… - a muito custo imitei o sotaque dele e tremi a cada toque seu
- Ainda bem, porque eu tenho treino! – quando eu já estava quase a ceder, louca para ser dele, fugiu daquela maneira
- Ai, odeio-te mesmo, David! – barafustei irritada
- Isso amô! Me continua odiando assim, que um dia então a gente casa, tem filhos lindos e se odeia pra sempre! – disse num tom gozão – Fui! – roubou-me um beijo e desapareceu pela porta da cozinha
- Bom treino! – gritei rindo-me sozinha
- Brigado! – ainda o ouvi gritar já depois de fechar a porta de casa
****
Era sábado, ia mesmo ficar por casa dele e passar o meu dia de anos com ele, uma vez que este ano não fazia tenções de o celebrar. Recebi um telefonema da minha mãe e do meu pai, da minha avó, e dos meus restantes familiares e amigos. Todos compreenderam a minha decisão de não comemorar os meus 18 anos, depois da perda tão recente do meu avô.
Estava já de volta do meu almoço e de David quando o meu telemóvel deu sinal de uma nova mensagem, calmamente li-a.
“De: Diogo
Olá, pequenina! Antes de mais quero desejar-te um feliz dia de aniversário, finalmente atinges a maioridade, mas não vou dizer que apenas agora te tornas mulher, porque isso já o és há demasiado tempo, só eu não conseguia enxergar. Depois quero aproveitar para te relembrar que de uma forma ou de outra, aqueles que partem ficam sempre do nosso lado, nos dias mais importantes da nossa vida e tenho a certeza que o teu avô não será excepção, assim como eu… Há demasiado tempo que me mantenho afastado, que te dou paz como me pediste, mas não consigo ignorar o que sinto… Não consigo, nem quero! Amo-te, com todas as certezas que tenho, com todas as forças deste mundo. Sei que nem sempre te dei o teu devido valor e foi preciso perder-te para ver o quão importante és na minha vida, mas uma coisa te garanto! Não vais sair de mim nunca, vou estar sempre à tua espera! Quando já não fores mais feliz aí, com ele, procura-me e eu estarei no lugar onde me deixaste, com o coração nas mãos pronto a entregar-to! Parabéns, pequenina! :) “
Tremi de cima abaixo ao ler aquela mensagem, senti as pernas falharem-me, as lágrimas turvarem-me a vista e tive de me sentar na cadeira de cozinha. Ouvi o David virar a chave na fechadura e apressei-me a enxugar as faces onde as lágrimas já corriam. Diogo ainda não me tinha esquecido, isto é se eu considerar acreditar que ele alguma vez me amou, e não sabia porquê, mas saber disso, doía. Doía de todas as maneiras possíveis, em cada parte de mim. Os meus olhos percorreram uma última vez o texto que tinha na minha frente e apaguei-o, assim como já tinha apagado Diogo da minha vida.
- Oi, amô! – a voz sempre animada e doce de David rompeu o ar
- Olá, amor! – senti uma necessidade desmedida de sentir o David por perto e corri na sua direcção para o apertar fortemente para mim
- Ei que é isso, amô? Saudade? – perguntou não me recusando o seu abraço e pousando o saco do treino no chão da cozinha
- Sim, muitas! – sorri levemente e beijei-o por toda a linha do maxilar
- Oh amô… - a voz dele arrastou-se e as nossas bocas foram unidas por vontade de David
- Fiz o almoço para nós… - sorri levemente e apontei com a cabeça na direcção dos tachos que estavam ao lume
- Uau, nossa! Que bem, meu amô… Já tá cheirando a comidinha! – ele fez um sorriso louco, as suas mãos envolveram a minha cintura e viraram-me até ficar com as minhas costas encostadas no seu peito
- Só espero que gostes… É frango com natas e massa! – entrelacei os meus dedos nas mãos dele que estavam sob a minha barriga
- Vou amar, tenho a certeza! – rematou dando-me um beijo no pescoço
Começámos a almoçar entre beijos e carinhos, sentia-me feliz! E a perda deixada pelo meu avô, o enorme buraco no meu coração era preenchido por todo o amor que David me dava.
- Amô, hoje tive um sonho louco! – começou por contar rindo-se que nem um tonto
- Ai sim? Sonhaste com o quê, tontinho? – perguntei, mas continuei a comer
- Sonhei que cê tava grávida, com um barrigão lindo! – afirmou com um sorriso de orelha a orelha
Automaticamente engasguei-me, muito aflita tentei que a comida descesse e tal só aconteceu depois de uns bons goles de água e algumas chapadas de David nas minhas costas.
- Grávida?! – perguntei num tom aflitivo limpando a boca
- Sim, grávida! Nossa tava com um barrigão lindo! – um brilho cresceu nos seus olhos e eu arrepiei-me com a intensidade
- Oh amor, só mesmo em sonho, porque grávida é coisa que eu não estou te garanto… - falei de forma calma e pausada
- Eu sei, amô… Mas sonho com isso! Sonho ter um monte de nenéns seus! Nossa, que felicidade! – a mão dele procurou a minha e uniram-se sobre a mesa
- Oh amor, é um bocadinho cedo para isso… Estamos juntos nem sequer há um ano! – agitei levemente a cabeça e dei uma garfada na comida
- Eu sei, mas já nos conhecemos há mais de um ano, ficámos foi naquele pega-pega, naquele vai-não-vai! Além disso o tempo é relativo e eu não tou falando que quero cê grávida já, mas no meu sonho estava linda! – fez um sorriso babado e eu derreti completamente
Ainda não tinha equacionado a hipótese de ter um filho dele, de engravidar, apesar da ideia de ser mãe sempre me ter agradado muito e as crianças sempre terem sido uma das minhas grandes paixões.
- Vamos ter tempo pra tudo, amor… Um dia vais ver-me com um barrigão enorme!
- Cê jura? – aproximou o seu rosto do meu com um sorriso traquina
- Juro! Vamos ter uma equipa de futebol! – brinquei num sorriso
- 11 nenéns? Fechado! – afirmou sorridente e roubou-me um beijo nos lábios
- Eu amo-te, David… - falei da forma mais sincera que consegui
- Eu te amo mais, meu amô… Muito mais! – afirmou num sussurro juntinho dos meus lábios
- Não… Eu é que te amo! – contra-argumentei rapidamente
- Shiu… Eu que sei! – beijou-me novamente sem me dar hipótese de refutar
- Ganhas sempre, é incrível! – barafustei rindo-me
- Cê é fraquinha, fazer o quê? – ambos nos rimos e unimos novamente os nossos lábios – Tenho uma surpresa pra você! – ele saiu da cozinha e regressou com um pequeno presente vermelho
terça-feira, 12 de abril de 2011
Capítulo 106 - O tempo leva tudo menos a saudade... (Parte V)
Vesti-me de negro, o David acompanhou-me na indumentária e seguimos no carro dele para a capela mortuária, ainda me aguardava uma missa longa e que só iria tornar a hora mais longa e desesperante.
O discurso do padre não me emocionou nem um pouco, era um bloco de gelo que ali estava! No lugar do meu coração não havia mais nada senão uma pedra, uma enorme e fria pedra. Deus tinha-me castigado roubando-me a pessoa que mais amava e eu estava magoada, diria mesmo chateada com ele e não havia outra maneira de agir. A missa chegou ao fim… Era altura da família se despedir. Foi o momento mais arrepiante que alguma vez vivi em toda a minha vida. A nossa família, avó, pai, mãe, tios, tias, primos e primas, reunimo-nos todos em torno do caixão, abraçados formando um circulo e chorámos a sua morte, era a nossa despedida, o nosso “Adeus”. O David entrou nesse círculo, ele era também já parte da minha família. No fim todos se aproximaram ordenadamente para se despedirem individualmente. Fui a última da fila, o David estava do meu lado, como sempre estivera naqueles dois últimos dias. Olhou para mim e incentivou-me a avançar, mas os meus pés não descolaram do chão, especialmente porque todos me olhavam.
- Não consigo, David… - disse sufocada pelas lágrimas, olhando-o no rosto
- Consegue, amô… Eu tou bem aqui do seu lado! – olhei para o caixão, novamente para David que me deu um último olhar de incentivo e depois de novo para o caixão
Finalmente avancei, nem sei bem como, nem onde arranjei forças, mas avancei. As minhas mãos descobriram o rosto do meu avô coberto pelo pequeno pano de seda branca bordado de trocados delicados. Assim que o vi, morto na minha frente, as lágrimas fluíram e embateram na sua pele dura e gélida. Não havia qualquer movimento de respiração, os seus olhos estavam fechados, era o meu avô tal qual o tinha conhecido, mas parecia apenas profundamente adormecido. Esbocei um leve sorriso que foi imediatamente cortado por novas e fluentes lágrimas. Abri o seu casaco levemente e no bolso interior esquerdo, bem junto ao seu peito, que ao tocar apercebi-me estar estagnado no tempo, sem qualquer batimento, coloquei a minha carta de despedida na esperança de que apesar de não a poder ler, de alguma maneira lhe tomasse conhecimento do conteúdo. Acariciei-o na face e os meus órgãos vitais gelaram ao sentir a temperatura baixa do corpo dele, estava mesmo morto… E era tão dura essa realidade! A minha cabeça tombou sobre o seu peito, chorei durante breves minutos e ainda rezei por ouvir qualquer batimento que fosse daquele coraçãozinho, mas nada… Apenas o silêncio e o eterno vazio de uma despedida. Ergui a cabeça, os meus lábios colaram-se à sua bochecha e cerrei as pálpebras de onde as lágrimas teimavam escorrer sem cessar.
- Eu amo-o… Até já… - sussurrei por entre o choro ao ouvido de quem já não me podia ouvir
- Desculpe, mas está na hora… - informou o Senhor da funerária aproximando-se de mim
- Mais um minuto, por favor… - implorei
Entrei em desespero ao aperceber-me que seria a última vez que via e tocava o meu avô, ainda que morto.
- Vai ter mesmo de ser, menina… - pediu-me o senhor
- Por favor… - implorei num choro descontrolado sem largar o meu avô
- Adriana… Por favô, vamo, amô… - o David agarrou-me pela cintura e pediu-me calmamente isso
- David… É o meu avô! – disse tentando que alguém compreendesse o meu desespero
- Eu sei, amô… Mas chegou a hora… - ele disse aquilo de forma calma e serena, com o máximo cuidado possível para não me magoar
Só assim acedi ao pedido que me era feito, toquei a ponta dos meus dedos com os lábios e toquei uma última vez no rosto do meu avô, afastando-me. O David tomou-me nos seus braços e não me deixou assistir ao momento de selagem do caixão. Calmamente, puxando-me pela mão tirou-me dali e levou-me para o carro. Transportaram o caixão até ao carro funerário e o David seguiu-o até ao cemitério. Aquela seria sem dúvida a parte pior… Tiraram o caixão do carro, o padre proferiu mais algumas palavras e quando iam abrir o caixão pela última vez uma chuva torrencial fez-se cair. Olhei imediatamente para a minha mãe como que implorando que não abrissem o caixão.
- David, não deixes… Não quero que o meu avô apanhe chuva! – implorei em choro
- Calma, amô… Eles não vão abrir, eu não vou deixar… - prometeu ao mesmo tempo que me apertava mais contra si, na tentativa de que me molhasse o menos possível
- Não abram… - pediu a minha avó chorando, era uma questão de respeito ao corpo do meu avô
Os senhores atenderam ao pedido dela e abriram o gavetão onde o caixão iria ficar. Não era aquilo que eu tinha imaginado para a última morada do meu avô, mas enterrar as pessoas na terra, estava a ser proibido em maior parte dos cemitérios devido à falta de vagas. Fechei os olhos no momento em que enfiaram o caixão dentro do gavetão, o David apertou-me mais contra si, enterrando a cabeça na minha nuca e senti as suas lágrimas escorrerem pelas minhas costas abaixo. Ele estava a sofrer tanto como eu por me ver assim… O gavetão foi selado, não iria ser mais aberto, depositámos junto dele as inúmeras coroas de flores. A bandeira de Portugal que cobria o caixão, devido ao facto do meu avô ter pertencido às forças militares, foi recolhida e entregue à viúva pelo comandante da ordem onde o meu avô pertencera. Um outro militar atirou dois tiros ao ar e bateram continência junto à campa, a chuva cessou então. Foi totalmente arrepiante e emocionante! A pedido do meu pai todos começaram a abandonar a zona onde o meu avô tinha sido sepultado, apenas eu me quis aproximar.
- Não faz isso, amô… - pediu o David assim que me viu tomar o caminho nessa direcção
Aproximei-me na mesma, coloquei-me de cóqueras e toquei a lápida fria e negra. Era assim que estava a minha alma negra, escura e coberta de uma enorme nuvem de frieza e dor.
- Amô, vem… Cê só tá se machucando mais desse jeito… - o David colocou-se de cóqueras do meu lado e tocou-me no braço
Olhei-o pelo menos uma vez com as lágrimas nos olhos, não queria deixar o meu avô ali, mas tinha de ser, não havia retorno, era aquela a sua última morada.
- Amô… Por favô! Sou eu que tou pedindo… - ele colou os seus lábios à minha orelha direita e a sua voz soou embargada pelas lágrimas que lhe corriam pelo seu rosto
Ele levantou-se, estendeu uma das suas mãos e esperou que eu a tomasse. Assim acabei por fazê-lo, ainda que contra minha vontade e sabendo que ali deixava metade do meu coração. Caminhei com o braço do David em torno dos meus ombros até ao portão do cemitério, mas o nosso percurso foi travado por uma voz que me era estranhamente familiar.
- Adriana…
Olhei para trás e vi Diogo, todo vestido de negro, num ar calmo e pacífico, eu compreendi que ele vinha em paz desta vez. Pedi permissão a David com o olhar e aproximei-me.
- Lamento, lamento muito… - disse-me assim que me juntei a ele
- Eu sei, obrigada… - respondi educadamente
- Era um senhor o teu avô! – o Diogo conhecera bem o meu avô, apesar deste não gostar nada dele devido ao que ele me fizera
- Sim, era um senhor! – afirmei orgulhosa
- Ele vai sempre orgulhar-se de ti… Tu sabes disso!
- Sim, eu sei… Ele disse-mo e não duvido sequer!
- Ainda bem… - ele sorriu-me levemente, mas não consegui corresponder sabendo que tinha David impaciente e nervoso, aguardando por mim e com medo de me perder para Diogo
- Eu vou indo senão te importas… - respondi educadamente
- Sim, vai… Deves estar a precisar de descansar! Se precisares de alguma coisa liga, manda mensagem, é só avisares…
- Obrigada, mas creio que não será preciso! Fico bem, Diogo! E obrigada por teres vindo!
- Não tens que agradecer! – trocámos um breve sorriso sem qualquer sentimento, pelo menos da minha parte e regressei para junto de David que imediatamente me acolheu em seus braços
- Algum problema? – perguntou David visivelmente nervoso
- Não, ele veio em paz… - respondi impávida e serena
- Graças a Deus, é o que todo o mundo aqui tá precisando… De paz!
Já fora do portão fui tomada nos braços de Débora, de Paula que fizera questão de estar presente mais o Roberto, da Brenda e do Luisão que trouxeram a minha pequena afilhada Sofia e o Ruben que veio com Inês. Foi um período longo, sofrido, em que me rendi nos braços de todos os presentes, mas a verdadeira rendição chegaria mais tarde, em casa, nos braços do homem que amava…
***
- Amô, come qualquer coisinha, sim? – estávamos os dois sentados à mesa, um prato cheio na minha frente, mas nada entrava, nada queria entrar
- Não tenho fome, amor… - torci o nariz ao prato e coloquei os talheres em posição de já ter findado a refeição, quando na verdade ainda nem a tinha começado
- Tá assim tão ruim meu macarrão? – perguntou numa expressão triste e eu acariciei-o no rosto
- Nada disso, amor… Está bom, mas eu é que não tenho muita fome, desculpa…
- Oh amô, cê tem de comer! – pela sua expressão abatida era fácil compreender que ele estava visivelmente preocupado
- Eu sei, mas não entra nada… Vai ser pior se eu empurrar, sem querer comer!
- Tudo bem, não vou obrigar você… - levantei-me e coloquei o prato em cima da bancada da minha cozinha – Amor, desde que chegaste ainda não foste a casa…
- Não se preocupa com isso, ainda tenho roupa aí da viagem…
- Mas devias ir, não podes ficar aqui para sempre a tomar conta de mim, tens a tua vida, as tuas prioridades… - falei calmamente ao entrar novamente na sala
- Posso, é claro que eu posso… - falou clara e calmamente – Minha prioridade é você, amô!
- Não, tens a tua vida para além destas quatro paredes e de mim! – afirmei muito convicta
- Me deixa, amô… Tou pedindo, me deixa ficar e tomar conta de você, não me manda embora… - implorou no seu jeito de menino e com os olhos já manchados de vermelho denunciando novas lágrimas
- Não te ia mandar embora, amor… - tentei sorrir levemente e colei o meu corpo ao dele – Não ia… Claro, que eu não ia…
A minha face enterrou-se no pescoço dele, e os meus lábios percorreram com beijos toda a sua pele perfumada, com o maior dos carinhos e doçura.
- Oh meu Deus… Essa é minha Adriana, essa doçura… - a voz dele arrastou-se e quando alcancei a visão do seu rosto, vi o mais belo sorriso esboçado por aquela boca linda
- É? – perguntei num sorriso louco
- É… Essa sua doçura toda… É minha menininha… - ele apertou-me mais contra si e encheu-me de beijinhos no rosto
- Então toma conta da tua menininha… Por favor… - pedi com as lágrimas nos olhos – Preciso muito de ti…
- Vem, eu cuido de você… - as mãos quentes dele uniram-se às minhas e muito calmamente, num compasso calmo ditado pelos nossos corações caminhámos juntos até ao quarto
Sentei-me na cama, sentia-me morta, completamente a desmoronar, mas tê-lo do meu lado, ainda me dava forçar, para erguer a cabeça e seguir em frente.
- Vamo’ vestir seu pijama, amô!
Ele pousou as minhas coisas junto de mim na cama e muito pacientemente e com todo o carinho do mundo, como já tinha demonstrado naqueles últimos dias, colocou-se na minha frente esperando que erguesse os braços para me despir. Assim o fiz, ergui-os no ar e num movimento rápido, mas nem por isso menos cuidadoso, ele despiu-me a camisola. Logo de seguida, inclinou-se sobre o meu corpo até alcançar o fecho do soutien e desapertou-o, deixando-me semi-nua na sua frente, completamente despojada para ele, o homem que eu amava. Vestiu-me uma t-shirt larga, que pelo cheiro identifiquei rapidamente como sendo dele.
- Levanta um pouquinho, amô… - pediu num sussurro meigo e eu obedeci
As mãos dele percorreram delicadamente os meus quadris e fizeram as minhas calças deslizar até ao chão, acabei por me livrar delas. As mãos dele fizeram o percurso inverso e subiram pelas minhas ancas acima, com um enorme desejo, podia ler no seu toque que esse o consumia totalmente. A minha boca colou-se à dele e senti-o estremecer na surpresa do beijo. As minhas mãos procuraram a camisola dele e muito facilmente a despiram, para novamente as nossas bocas e línguas se fundirem.
- Amô, a gente não tem de… - a voz sempre doce e preocupada dele fez-se ouvir
- Eu quero, amor… - sussurrei ofegante de encontro aos lábios dele
Na carícia leve de um beijo, senti as mãos dele enterrarem-se dentro da sua t-shirt que cobria o meu corpo, e acariciarem-me o peito. Gemi baixinho nos lábios dele, mas ainda assim as nossas línguas uniram-se. Do meu peito, as suas mãos viajaram até às minhas costas, percorreram a minha espinha de cima abaixo e repousaram nos meus glúteos. Tremi que nem uma criança pequena, assustada por um berro, nos braços dele. Não sabia muito bem porquê, mas eu e David namorávamos há oito meses, e ele ainda conseguia mexer comigo como se fosse a primeira vez que me beijasse, a primeira vez que me tocasse… As minhas mãos desceram até ao fecho das calças de David e desapertaram-no assim como ao botão. Num gesto trapalhão, mas completamente enternecedor, ele descalçou-se aos saltinhos fazendo um esforço por manter as nossas bocas unidas, apesar de usar as duas mãos para se livrar dos ténis. Rimo-nos levemente da situação e beijámo-nos mais uma vez. A minha mão enterrou-se no bolso traseiro das suas calças e sacou da sua carteira. Numa divisória pequenina, encontrei um preservativo e tirei-o segurando-o entre os dentes. Atirei a carteira para o chão do quarto e despi-lhe as calças que aterraram direitinhas nos seus pés. Ele desviou os cabelos do meu rosto e eu tirei a bolsinha do preservativo dos dentes, jogando-a sobre a cama. As grandes mãos dele, sempre numa temperatura exageradamente alta, despiram-me a camisola deixando-me novamente exposta para o homem que amava. Ele sorriu, não foi um sorriso depravado, de quem procura meramente prazer. Foi um sorriso terno, genuíno, de alguém que ama e anseia por ser amado. Senti o corpo dele colar-se ao meu e fazer-me cair sobre a cama. A minha língua procurou a dele, mesmo sem as nossas bocas estarem unidas e as minhas mãos viajaram até à linha abaixo da cintura de David, acariciei-o e da parte dele apenas obtive gemidos em surdina. Percebi claramente pela sua intensidade que ele se estava a controlar, em cada gesto seu adivinhava uma nova expressão de carinho e em cada carícia uma nova tentativa de me amar, na calmaria de cada batimento lento dos nossos corações. Senti-o finalmente excitado e despi-lhe os boxers. Ele fez exactamente o mesmo e ainda com o meu corpo debaixo do seu, fez os seus polegares deslizarem pelos meus quadris, livrando-se da única peça de roupa que ainda impedia a união dos nossos corpos. Estremeci quando finalmente vi que estávamos despidos um para o outro e completamente preparados para uma nova noite de entrega mútua e incessante. Dei uma pequena reviravolta ficando sobre o corpo dele e sentei-me nas suas coxas. Procurei o preservativo por entre os lençóis enrodilhados e ao fim de alguns segundos finalmente encontrei-o. Abri-o devagarinho ao mesmo tempo que acariciava cuidadosamente David e ele gemia deliciado. Coloquei-lho lentamente, com muito cuidado para não o magoar, mas com muita adrenalina para o provocar.
- Cê me deixa louco… - disse em timbre de gemido ao mesmo tempo que inclinava a sua cabeça levemente para trás e mordia o lábio inferior
Quando terminei de o colocar, senti uns braços quentes envolverem-me e puxarem-me de volta para os lençóis, ele tinha novamente o controlo. Abri as pernas devagarinho e sem ser preciso qualquer pedido ou concessão ele entrou em mim. Num ritmo lento, mas intenso, naquela noite o David tocou cada recanto de mim, o mais escondido, o mais intimo, e a partir desse momento, o mais seu. Tocou-me o coração, mas mais do que isso, entrou no mais profundo de mim: tocou-me a alma. Teimou em manter um ritmo calmo, doce, mas ambos os corpos pediam mais e nós queríamos mais, mas eu sabia… Sabia tão bem, que ele se estava a controlar. As minhas pernas encolheram-se levemente, cruzaram-se nas costas dele e puxaram-no mais para mim. As minhas mãos ganharam vida própria e percorreram cada traço das suas costas e tronco perfeitamente esculpido pelas horas de treino.
- Mais, David… Quero mais… - sussurrei baixinho no ouvido dele
- Não quero magoar você… - falou num tom calmo, parando de unir os nossos corpos, mas permanecendo dentro de mim
- Não magoas… Podes acelerar… - confessei num sorriso, tentando tranquilizá-lo
Eu estava frágil pela morte do meu avô, era verdade, mas mais do que nunca, precisava sentir-me amada. E depois daqueles dias de sufoco e das provas de David, de que estaria do meu lado, nos piores e nos melhores momentos, eu precisava ter a certeza de mais do que os nossos corações, também as nossas almas estavam unidas para sempre. Assim que lhe dei consentimento para tal, senti-o entrar em mim com mais força e mais rápido, não me magoou e deu-me uma sensação de protecção indescritível. Nem que procurasse por cem palavras, mil eufemismos e dez mil charadas eu conseguiria descrever o quanto ele me fez sentir amada e protegida nessa noite. A minha respiração acelerou juntamente com a dele e com os gemidos que abandonaram os nossos lábios. O ritmo não parou de aumentar e só culminou quando nos braços um do outro, gememos o nome de ambos e atingimos o máximo prazer. Senti-o pulsar dentro de mim e sorri-lhe de forma terna e carinhosa.
- Eu amo-te… - sussurrei ainda ofegante
- Eu também te amo, meu anjo… Muito… - disse num sorriso e roubou-me um beijo longo e muito, muito doce...



