- Credo, Adriana… Estás tão pálida! – foi a voz francamente esmorecedora da minha mãe, acabada de entrar na sala já envergando algo mais confortável, que me retirou do transe perpétuo a que estava destinada
Os meus olhos continuavam presos naquela esconjurada página, que já relera vezes e vezes sem conta com a esperança de estar enganada e ser somente mais um trote impiedoso da minha cabeça saudosista.
Desejei a mim mesma estar num pesadelo e acordar o quanto antes - o mais rapidamente possível - pois tornou-se tortuosa a espera morosa pela verdade… Mas a verdade era aquela! Aquela e somente aquela… David reconstruíra o seu coração e nos alicerces da nova edificação conseguira aprender a amar de novo, mas não a mim.
- Adriana… Filha, estou a falar contigo! – o altear de voz da minha doce progenitora, fez o meu coração vacilar e o sangue que me gelava as veias até então, bloqueando o ataque de choro que eu sabia a que me iria entregar, desapareceu seguindo o seu percurso alterado nos vasos que delineavam o meu corpo
- Hum? – depois de ganhar coragem fixei os meus olhos translúcidos de lágrimas nos dela, rezando para que o meu sofrimento lhe passasse despercebido, mas mãe é mãe… e como tal isso não aconteceu
- Estás a chorar, Adriana? – semicerrou os olhos para que a minha imagem se elucidasse no seu globo ocular e eu limitei-me a mudar a trajectória do meu rosto, ocultando então as lágrimas que já se prendiam somente em fio na linha de água dos meus olhos
- Não, mãe… - clareei a voz roca do choro ameaçado, com uma simples tossidela, que se escapuliu no meu punho cerrado junto dos lábios – Que disparate!
Caí no erro mais fatídico… “Que disparate!”. Era a frase que me denunciava sempre que procurava fugir a qualquer assunto e somente três pessoas tinham o perfeito conhecimento dessa simbologia… A minha mãe, Ruben e David.
- Eu conheço-te, filha! Estás a chorar sim… - o transtorno causado pela minha aparência desgostosa, calcetou o coração da minha mãe com o sentimento de protecção que é suposto sentir e este veio à tona no mesmo instante em que ela se aproximou, disposta a tomar o lugar vago do meu lado – Diz-me o que aconteceu…
- O David, mãe… - sussurrei, intercalando o meu olhar, entre a vista desaprazível daquela página e o rosto carregado de inquietação da minha mãe - … O David tem uma nova namorada!
Assim que completei a frase que mais doía dentro do meu peito, as lágrimas correram-me impenetravelmente pelas faces, dispostas a não cessar mais desde então, deixando-me exposta como raramente ficava na frente de alguém… muito menos daqueles que me eram próximos.
- O quê? – creio que ela me julgou louca e procurou na revista, que permanecia aberta em cima do sofá, um porquê de fundamento que a fizesse acreditar naquilo que para mim se tornara então realidade… na pior delas
- Ele tem uma pessoa… Está tudo aqui! – cerrei as páginas tumultuosas, pousando a palma da minha mão na capa e abafando a imagem que a envolvia, uma outra sobre outro qualquer mexerico – Está tudo aqui, mãe… - reafirmei com os olhos rasos de novas lágrimas, que não demoraram nada a cair e a delinear os contornos de tristeza do meu rosto
- Não pode ser, filha… Isso é daquelas invenções! Tu já sabes como é a imprensa… - tentou demover-me, enquanto exercia uma busca esforçada para perscrutar a mesma notícia que eu lera minutos antes – O David jamais iria… - foi a própria constatação de factos que a silenciou
Encontrara por fim a décima quinta página da revista cor-de-rosa e a sua reacção tornou-se semelhante à minha - ainda que mais contida - afinal de contas também ela fora apanhada de surpresa, quando estava mais do que pronta para o defender, mas pelo menos não o amava como eu.
O seu olhar inebriantemente reconfortante tocou o meu, fazendo-me sentir que não estava só e que por muitas amarguras que ainda pudesse perspectivar, era nela que tinha o mais puro refúgio de amor… Era nela que poderia asfixiar os dissabores que a vida tanto teimava fazer-me sentir.
- Oh filha… - libertou um suspiro pesaroso, enquanto ainda observava detalhadamente a fotografia terna, que retratava um casal enamorado, passeando de mãos dadas pelas ruas de Lisboa
- Eu sabia que isto ia acontecer, mãe… Eu sabia… - ciciei na esperança vã de somente eu me conseguir ouvir, mas ela parecia deslindar tão perfeitamente tudo aquilo que eu pensava e tudo aquilo que eu realmente sentia, mas não ousava dizer
- Oh Adriana, não fiques assim… Vem cá… - acolhendo-me nos seus braços, manteve a preocupação de me enxugar as lágrimas, que pereciam no rosto e continuavam a percorrê-lo, deixando para trás um traço de dor, que dificilmente alguém iria conseguir apagar – Shiu… Não fiques assim, minha pequenina…
- Só não pensei que fosse tão cedo, mãe… Só não pensei que ele fosse ultrapassar tudo tão depressa… - confessei no embalo dos seus braços, sentindo as gotas do meu choro continuarem os caminhos livres pela minha pele – Ele esqueceu-me… Ele esqueceu-me!
- Calma, Adriana… Vocês já estão separados há mais de dois meses, não podias esperar que tudo ficasse como sempre foi!
- Mas dois meses é pouco, mãe! – a minha voz alterou-se desmedidamente sem eu ter essa percepção, mas repercutiu-se no corpo da minha mãe, que oscilou amedrontado – Como é que ele em dois meses arranjou outra pessoa, se eu fui incapaz de olhar pra outro homem? Como? Ele não me podia amar como dizia… Se o fizesse, não tinha seguido em frente tão depressa!
- Adriana, tem calma… As coisas não são assim! – firmou, vendo-me erguer o meu corpo combalido do sofá e dirigi-lo em direcção às escadas – Adriana, espera!
- Não quero ver ninguém, mãe… Deixe-me estar, por favor!
A minha teimosia venceu a persistência da minha pobre mãe, que assistiu à minha partida sem mais nada dizer, talvez na verdade porque nada do que ela dissesse me iria demover… Nada do que ela dissesse iria diminuir a minha dor e fazer-me desejar qualquer companhia.
Senti-me tão ridícula… Como é que eu ainda conseguia amar um homem, que me jurara durante tanto tempo um amor eterno e à primeira oportunidade correra para os braços de outra mulher?
Martirizei-me durante toda a tarde com essa singela questão, enquanto via vezes e vezes sem conta aquela imagem na minha frente… na revista escancarada em cima da minha cama. A fotografia estava desfocada, porque com toda a certeza fora tirada por um paparazzo, mas no entanto era perfeitamente visível as parecenças que a figura masculina tinha com David… e era ele, só podia ser ele! O casaco que envergava fora aquele que lhe oferecera há uns tempos atrás, pouco antes de a nossa relação ter findado.
- Burra, burra… - ofendi a mim mesma, sentindo-me culpada e idiota como nunca antes, por ter edificado o meu futuro em cima de falsas fundações, que acabaram por me trazer a dor há já muito aguardada
O ar comprimido no meu peito, foi dissipado pelas lágrimas de sofrimento que ainda não haviam cessado e que somente o fizeram largas horas depois do início do meu enclausuramento.
O meu corpo tombou sobre a almofada que acolheu o meu choro e o cansaço venceu-me… Adormeci sem dar conta. Ainda tentei derrotar a fadiga e impor a mim mesma a eterna visão daquela foto, mas não fui capaz.
Foi apenas nela que me guiei rumo ao descanso… Sabendo que agora era de vez e ele não era, nunca fora e jamais voltaria a ser meu.
***
- Adriana… - os breves toques dados pela minha mãe na porta trancada do meu antigo quarto, fizeram-me despertar de um sono profundo que provavelmente se tinha arrastado até à hora do jantar, tendo em conta a quase inexistente luz diurna no exterior – Filha…
Senti os meus membros inferiores doridos e um ardor nos olhos, que se alastrou velozmente às minhas faces, recordando-me aquela sensação desconfortável que aprazia o meu corpo após longas horas de choro.
Olhei em redor e estava ainda tudo um pouco desfocado, mas logo ali em cima da mesinha de cabeceira uma foto minha, que havia sido tirada por David… E daí até o meu pensamento ter voado até ao acontecimento recente foi um flash tão rápido quanto o de uma câmara fotográfica numa sessão de moda. Compreendi então o porquê de sentir os meus olhos inchados de chorar, mas ainda assim procurei navegar até à realidade, buscando algo que me garantisse que aquela notícia não tinha sido somente um sonho e no entanto essa resposta não tardou em chegar. Em cima da minha cama lá estava ela… Aberta naquela página, com a foto apaixonada do homem que mais amava na vida e de uma rapariga que nunca vira, mas que era linda e tinha tudo… tudo o que eu não tinha e mais queria.
- Adriana… - enquanto me forçava a despertar, a teimosia da minha mãe propagava-se em mais um bater na minha porta, aguardando uma resposta que denunciasse a minha presença desperta
- Não quero ver ninguém…
- Está na hora do jantar, filha… Vem ao menos comer qualquer coisa! – implorou naquele tom irrecusável de mãe com o coração apertado, deixando-me sem margem de manobra e obrigada a uma resposta positiva
- Eu já vou, mãe… Comecem vocês a comer!
- Tudo bem… Mas não demores, meu amor! – ouvi os seus passos na escadaria de madeira de carvalho, desvanecerem ao passar do tempo até se tornarem imperceptíveis e inaudíveis
Apesar de sentir que mais nada havia a fazer e era hora de seguir em frente, fui incapaz de me guiar por esse tipo de pensamento, já tão dominado pelos clichés das histórias de amor. Eu estava a sofrer, por isso para quê esconder algo que estava retratado em todas as partes da minha existência?
Levantei-me ordenadamente da cama e joguei para o fundo de uma das prateleiras da estante dos livros a tal revista da imprensa cor-de-rosa, certa de que me esqueceria do seu paradeiro e só por isso teria mais facilidade em lidar com a “boa-nova”.
Nos pés coloquei umas pantufazinhas de pano e já quando destrancava a porta, ouvi o meu telemóvel tremer em cima da mesinha-de-cabeceira, vendo-me então obrigada a cortar caminho. Saltei por cima da cama e assim que segurei nas minhas mãos o aparelho, pude ler no visor “Ruben, a chamar…”.
- Bolas… Que merda de sentido de oportunidade! – indaguei a mim mesma, temendo não puder atender a chamada a alguém que me conhecia demasiado bem para saber somente pelo meu tom de voz, que algo não estava certo – Olá, Ruru! – foi na pose mais falseada possível, e só depois de me recompor, que atendi a tão indesejada ligação do meu melhor amigo
- Olá, Adriana! – no lugar da voz quente e habitualmente grossa, estava uma feminina e que era tão delicada, que só podia pertencer a Inês
- Ah, Inês! És tu… Pensei que era o Ruben!
- Não, sou mesmo eu! Fiquei sem bateria e então pedi-lhe o telemóvel emprestado! – esclareceu num tom cordial e amenamente convidativo a uma conversa afável – Está tudo bem contigo?
- Sim, comigo tudo bem… - menti, apesar de saber que se ela e Ruben mantinham a relação de amizade habitual com David, então já deveriam saber da sua nova relação amorosa – E contigo?
- Comigo também… Mas estou assim a precisar de uma mega ajuda da madrinha do noivo! – revelou-me nesse momento o porquê daquela chamada, levando-me a bafejar um suspiro de alívio ao compreender que nada tinha a ver com David
- Hum… Acho que sou eu! – pela primeira vez naquela tarde consegui sorrir, contudo ainda o fiz com um pouco de ironia amargurada, sabendo que dali a dois meses estaria no altar do lado de David para testemunhar a união do nosso melhor amigo e da mulher da sua vida – Para que é que precisas de mim, minha linda?
- Estou com alguns problemas pequeninos em relação à organização da decoração do casamento… Achas que nos podíamos encontrar amanhã para me dares uma ajudinha, ou já começaste a faculdade?
- Claro que posso… - confirmei, mesmo sabendo que a vontade de o fazer era pouca, mas a minha obrigação como madrinha mais do que muita – As aulas só começam daqui a uns dias, por isso para já posso ajudar-te!
- E então queres que seja onde…?
- Onde te der mais jeito… Para mim é indiferente! – encolhi os ombros de forma natural, esquecendo o facto de ela não me estar a ver, e mantendo na cabeça o pensamento simples de que fosse onde fosse, eu só queria chegar, ajudar e sair a correr
- Pode ser cá em casa? – questionou, referindo-se à vivenda luxuosa para a qual ela e Ruben se haviam mudado no início do Verão daquele ano – Vinhas às 16 horas, eu preparava um lanchinho para nós e ajudavas-me então naquilo que preciso!
- Por mim pode ser… Se chegar um pouco mais tarde já sabes que é por causa dos acessos, antes dessa hora estão sempre um caos! – relembrei a desordem da cidade de Lisboa e o trânsito que se instalava para sair da mesma, rumo à outra margem do rio Tejo
- Sim, não te preocupes com isso… Obrigada por vires, amor!
- Não tens de agradecer… Afinal sou madrinha, é essa a minha obrigação! – sorri levemente, prendendo o meu olhar nos ponteiros do relógio que já marcavam dez minutos a mais da hora estipulada para jantar em casa dos meus pais – Agora tenho de ir jantar, que estou em casa dos meus pais…
- Claro, desculpa ter-te incomodado! – perdoou-se de forma sincera, fazendo-me adivinhar-lhe nos lábios um sorriso constrangido – Amanhã cá te espero então… Beijinhos, madrinha de casamento!
- Até amanhã… Beijinhos, noivinha! – foram as gargalhadas habituais, mas desta vez mais suaves da minha parte, que ditaram o fim da ligação telefónica que estabeleceu planos na minha agenda para a tarde do dia seguinte, ainda que fosse um pouco contra a minha vontade
***
- Estava a ver que já não ias descer, filha… - murmurou imediatamente a minha mãe, assim que me viu transpor o arco da porta da sala de jantar
- Desculpe, mas a Inês ligou por causa de umas coisas do casamento… - desculpei-me imediatamente, beijando o topo da cabeça do meu pai, que jantava de forma pacífica ao fim de um longo dia de trabalho – Boa noite, pai!
- Boa noite, filhota! – um sorriso meigo arrebitou-lhe os cantos das bocas e o beijo foi retribuído na minha face direita, deixando um rasto de carinho e amor paternal, que só ele me podia fazer sentir
- Senta-te, amor! – incentivou a minha mãe, segurando o meu prato na mão e aprontando-se para o encher de comida até mais não, mesmo sabendo que provavelmente não iria jantar nem metade – Eu sirvo-te!
- Não meta mais, mãe… Está bom assim! – ordenei minuciosamente, mas ainda assim sendo obrigada a retirar-lhe delicadamente o prato da mão, para que a enxurrada exagerada de comida parasse de cair na minha frente
- Isso é pouco… - contrapôs no mesmo instante que me perscrutou com uma expressão carrancudamente transtornada no rosto
- Está bom assim, mãe… Obrigada! – ripostei no mesmo instante em que assimilei um falso sorriso de tranquilidade, tentando não transparecer a fragilidade que ainda me assolava o coração
Os minutos seguintes foram ocupados por um silêncio brutalmente constrangedor, que nenhum dos três teve coragem de quebrar durante um largo período de tempo e assim que eles o fizeram, somente precaveram uma conversa simplória entre ambos, não mostrando grande tema de interesse no qual eu pudesse entrar. Falaram sobre o dia passado, sobre os empregos, sobre os encargos da família, sobre o estado do país, enfim… de tudo um pouco, mas nada que fosse do meu total domínio.
- E então a faculdade, Adriana… Quando começa? – forçando-me a entrar na conversa, o meu pai dirigiu-se a mim numa pronúncia clara e certeira, que me deixou no dever de lhe devolver uma resposta delicada
- Daqui a uma semana, pai… Já está tudo a postos! – esclareci, enquanto fazia o meu garfo rodar sobre um rolinho de massa, depenicando a quantidade avassaladoramente assustadora de comida que ainda preenchia o meu prato
- É o segundo ano, Adriana… Sabes bem que não te podes desleixar para não deixar nenhuma cadeira para trás!
- Pai, eu sei… Sabe muito bem que sempre fui responsável relativamente à faculdade e aos estudos, e não é agora que irei mudar! – relembrei com uma quanta aspereza na voz, que apesar de despropositada o magoou ligeiramente, pois o seu coração de pai estava já habituado à doçura da pequena menina que vira crescer
- Ah… E então o que é que a Inês queria falar contigo sobre o casamento? – questionou a minha mãe, a fim de findar com o mau ambiente que se havia instalado devido à minha falta de modos em responder ao meu querido pai – Algum problema?
- Nada demais… Acho que está com umas dúvidas quaisquer sobre a decoração e pediu-me opinião, só isso! – respondi, levando à boca o rebordo do copo de cristal que me pertencia e humedecendo os lábios com um trago de sumo natural de laranja – Passo por lá amanhã só para a ajudar…
- Ah, então vais estar com o Ruben!
Foi mais um soco no estômago… Já para não bastar a notícia impiedosa que recebera naquele dia, parecia que todos faziam questão de me relembrar da ausência que o meu melhor amigo tinha da minha vida, sem eu mesma perceber o porquê desse afastamento.
Até era compreensível que ele não soubesse lidar com ambas as partas da história – a minha e de David – mas no entanto não era inteligível o facto dele permanecer do lado do melhor amigo, mas de mim teimar manter a distância.
Era verdade que eu tinha errado - até demais - mas nunca poderia ter esperado uma atitude daquelas da parte de Ruben, pois ele era uma pessoa coerente que jamais tirava partido de qualquer das partes e procurava sempre fazer com que a paz imperasse, por muitos que fossem os dissabores do destino.
- Não sei… A Inês não falou nada sobre ele, somente falou num lanche pra mim e pra ela!
- Hum… Mas tu e ele já não se vêm, nem falam desde Paris… - relembrou-me dolorosamente algo que fez o meu batimento cardíaco abrandar até se tornar quase imperceptível e duradouramente sofrido
- Sim é verdade… Mas também teremos muito tempo pra nos vermos no casamento! – rematei ali mesmo a conversa e pousei sobre a mesa o guardanapo de pano, que me cobria nobremente o colo de modos quantos delicados – Agora se me dão licença vou subir, que o dia foi longo e eu estou estoirada…
- Não vais comer a sobremesa? – questionou meu pai, sabendo que era sempre a minha parte preferida em qualquer refeição, típico de alguém com o palato doce tão apurado quanto eu
- Não… Hoje não me apetece! – desculpei-me, perante o olhar surpreendido que o meu progenitor não se coibiu de trocar com a sua companheira – Boa noite aos dois! Durmam bem… - desejei, depois de lhes beijar o cocuruto e encaminhando-me já para o meu antigo quarto, onde iria passar a última noite, até regressar de novo ao meu afável apartamento e à solidão daquelas quatro paredes desprovidas de amor.
***
Apesar de a noite ter sido agitada e de pouco descanso, consegui ainda tomar umas horinhas antes do almoço, para uma sesta rápida e de apenas duas horas, mas que no mínimo atenuou as olheiras acusadoras do cansaço de uma madrugada em claro.
Quando me levantei, os meus pais já tinham saído para ir trabalhar e restou-me então almoçar sozinha. Preparei uma salada fresca de Verão, que apesar de não me ter satisfeito por completo, por suficiente para aguentar mais algumas horas sem comer. Assim que dei conta, restavam-me somente quarenta minutos para estar em casa da Inês e do Ruben e por isso corri celeremente para me ir arranjar.
Quando alcancei o espelho da casa de banho do corredor, a fim de me maquilhar, deparei-me com um fácies ebúrneo, onde somente sobressaíam os dois círculos escuros em redor da parte inferior dos meus olhos. Foi com um pouco de maquilhagem que os disfarcei e enrubesci as maçãs do rosto num tom rosado, numa tentativa de aparentar melhor condição e um estado de espírito suficientemente alegre para enganar Inês.
Conduzi calmamente, vendo os companheiros de estrada passarem por mim a velocidades muito superiores, mas eu não tinha na verdade grande pressa… melhor dizendo, não tinha nenhuma, pois quanto mais pudesse adiar aquele encontro, mais o iria fazer. O percurso era curto, ainda que movimentado pelo trânsito que aproximasse a capital portuguesa da hora de ponta, e eu cantarolava passivamente, face ao stress que começava a incandescer o princípio de tarde dos outros lisboetas.
Em menos de meia hora, estacionei o carro na frente da colossal vivenda branca, onde se lia nos azulejos azulados do muro… “Vivenda Amorim”.
Ali estava eu... Num reencontro prestes com a futura mulher do meu melhor amigo, sem saber o que esperar, ou até mesmo sem saber se esta estava a par de todos os acontecimentos parisienses. No entanto não adiantava mais fugir de algo, que me iria perseguir até que eu ganhasse coragem para enfrentá-lo. Numa só rajada de ar, abandonei o lugar de condutor, acerquei-me do muro em passadas largas e pressionei a pequena campainha.
- Quem é? – a voz atenta e amigável de Inês ressoou no pequeno aparelho electrónico, que se encontrava junto da minha têmpora, sendo-me então perfeitamente perceptível o som
- A Adriana… - esclareci, tendo de me colocar em meia-ponta para que a minha boca se conseguisse aproximar do intercomunicador e a minha imagem da pequenina câmara instalada por questões de segurança
- Ah… Já chegaste! – o tilintar do portão fez-se ouvir, dando indicação de que este havia sido finalmente aberto para a minha aguardada chegada – Entra, amor…
- Obrigada! – sorri amavelmente, dominando nas minhas mãos os esterroes de ferro forjado, que impossibilitavam a entrada nos jardins primordiais da vivenda, mas aos quais o acesso não me era interdito
- Adriana! - ainda eu não tinha atravessado metade do percurso, que me conduzia à porta dupla da vivenda, e já Inês gritava o meu nome, no mesmo compasso de correria com que se aproximava de mim – Que saudades! – confidenciou por fim, quando já me sucumbia o ar dos pulmões num abraço demasiado apertado
- Olá, Inês… - cumprimentei a algum esforço tentando combater a força dolorosa que ela exercia sobre a minha caixa torácica - Larga-me, por favor… Não consigo respirar!
- Ai, desculpa! – procurou desculpar-se, passando os seus dedos trepidantemente nos meus fios de cabelo, numa tentativa de me aliviar o desconforto causado pela aspereza sufocante do seu abraço saudosista – Mas estava a morrer de saudades!
- Também eu, amor… Mas ias-me matando! – o meu desabafo, conduziu-nos a alguns segundos breves de gargalhadas moderadas, mas que foram suficientes para preencher o jardim e chamar a atenção do jardineiro, que aparava minuciosamente os arbustos circundantes à casa dos arrumos
- Estou tão entusiasmada de te ver de novo! – indagou no mesmo instante em que entrançou o seu braço no meu e nos guiou até ao interior da luxuosa vivenda que eu ainda não tinha tido a oportunidade de ver já toda concluída
- E eu entusiasmada por ver que finalmente tu e o Ruben montaram o vosso cantinho… - enquanto confessei um desafogo sincero, aproveitei para deixar que os meus olhos fizessem o primeiro reconhecimento do hall de entrada e logo de seguida da maravilhosa sala de estar decorada - diria eu - num estilo totalmente feminino, mas puramente intimista
- Hum… Que me diz a menina que está a meio caminho de se formar em design de interiores…? – questionou, colocando-se na minha frente e sustendo pousadas na cintura as duas mãos, primordialmente adornadas pelo anel de noivado escolhido por Ruben – Gostas?
- Está lindo, Inês… Tudo de muito bom gosto… - opinei, prestando atenção aos mais ínfimos detalhes, alguns um pouco exagerados, mas que adossados na decoração circundante passavam despercebidos - … mas totalmente a tua cara!
- Já sabes como o Ruben não tem o mínimo jeito para estas coisas… - relembrou, logo após nos termos deliciado com o riso provocado em nós, pela minha própria observação descabida de segundas intenções de ataque ao meu amigo de longa data
- Sim… A cena dele é mesmo a bola e os relvados! – consenti educadamente, pousando a minha mala sobre a banqueta central, que se encontrava junto do enorme sofá de tom branco-puro, onde as almofadas em tons creme e lavanda ressaltavam distintamente – E por falar nele… Não está em casa? – inquiri com nostalgia, ao recordar o calor do seu abraço e a segurança que me fazia sentir sempre que me apertava fortemente contra si e me sussurrava melodiosamente ao ouvido “Vai ficar tudo bem, pequenina…”, e eu acreditava… como se ele fosse o rei das minhas verdades, o mandatário do meu destino...
- Não… Saiu há pouco para ir ao treino, mas mandou-te um beijo e disse que estava cheio de saudades tuas… - respondeu, tomando lugar no sofá ao qual me juntei, logo após o sinal da anfitriã para que assim o fizesse
O tom tremulamente inquietante imposto na voz sempre doce de Inês, denunciou-a… Ela não sabia mentir! Talvez fosse uma característica pouco benéfica naquelas situações em que contar uma mentirinha impiedosa fosse estritamente necessário para prevenir a dor de um pequeno coração, como era o caso. O olhar sempre seguro, foi substituído por um mais brando e oscilante, que se apressou a desencontrar o meu, para só depois abrir passagem aos lábios para mais um discurso… Era óbvio que Ruben não falara nada sobre mim – nem tão pouco me mandara um recado – ou porque a minha visita ali não era do seu conhecimento, ou porque era, mas isso não lhe importava minimamente.
- Também tenho saudades dele… Não o vejo desde Paris! – afirmei de modo condescendente, sentindo logo de seguida o tremor do corpo fragilizado de Inês e ganhando as certezas – que eu já tinha logo de princípio – de que tudo o que acontecera em terras francas, havia-lhe sido narrada por Ruben
- Não deverá tardar muito para que se vejam…
- Talvez hoje… - murmurei num sorriso calmo, pronta a assistir à reacção de Inês, frente à minha modesta sugestão
- Hoje…?! – questionou num gaguejar frutiferamente denunciador – Não me parece… Ele deve chegar tarde! – desculpou-se, ajeitando nervosamente os cabelos – que havia deixado crescer propositadamente para o casamento – e lhe pendiam sobre o rosto, cobrindo-lhe parte da expressão consternada, mas extremamente bem disfarçada por um sorriso falseado
- Então fica pra outro dia… - anuí, prostrando-me num ligeiro e breve acenar de cabeça, que rematou a minha expressão ao fazer par com um belíssimo e contrastante sorriso - Mas então… Diz-me lá para que é que precisas da minha ajuda!
- Ah, claro… Vamos até lá fora ao jardim, que tenho lá tudo e vou mandar servir o lanche… - enalteceu o pedido formal, ao elevar-se do sofá e arrastar-me consigo na direcção do alpendre das traseiras, onde uma majestosa mesa de refeições estava posta, contando somente com dois lugares… o meu e o de Inês
A conversa desenrolou-se tão rapidamente que não permiti a mim mesma a mínima atenção… O que prometiam ser pequeninas dúvidas, alastraram-se para amostras de cetim, organza, flores, pétalas, arroz colorido; e quando dei conta, gastara mais horas naquela casa do que aquelas que pretendia.
O catálogo de vestidos de noiva, havia sido percorrido ao sabor de uma deleitosa chávena de café amargo e por fim, e somente a dois meses da cerimónia, havia um eleito - um perfeito e belíssimo eleito - que deixaria Ruben mil vezes mais apaixonado por aquela mulher, se é que isso seria humanamente possível.
As hipóteses para a ementa da recepção, foram discutidas no sabor adocicado dos melhores biscoitos de Lisboa e redondezas, confeccionados pela tia Bela; e os arranjos de mesa seleccionados na brisa fresca e amena que encorpava aquele final de tarde, anunciante já do fim do Verão.
- Ai, tu não imaginas a ajuda que me deste, Adriana! – proferiu, dando mais um gole no copo de sumo natural, que já enchera umas quantas vezes naquele longo espaço de tempo
- Oh… Tenho de fazer alguma coisa de útil, afinal sou a madrinha, não é?
- Sim, mas tiraste-me um peso enorme de cima dos ombros… O Ruben dizia que sim a tudo o que lhe mostrava e depois deixou-me assim confusa!
- Os homens não são propriamente dotados neste tipo de coisas… - recordei, passando sobre os lábios o guardanapo de linho com rebordos em cetim, que cobria arrojadamente o meu colo
- Sim, lá isso é verdade… Salvaste-me a vida, amor! – senti um novo e sufocante abraço, em redor do meu pescoço, tendo sido mais uma vez a minha expressão estrangulada a salvar-me de um aperto maior
- Tu hoje queres esganar-me, só pode! – assimilei um sorriso traquina, deixando que a conversa fluísse de modo mais natural rumo às típicas brincadeiras do nosso grupo de amigas
- Desculpa, mas estou entusiasmada com o casamento!
- Já percebi que sim, Inês… Nunca te vi tão feliz assim!
- Vou casar com o homem da minha vida… Há razões para não estar feliz? – colocou retoricamente aquela questão, que se arrastou e pairou no ar, recordando o desejo que um dia também eu tivera de me unir matrimonialmente ao homem da minha vida… David
- Tens razão… - os meus lábios rasgaram-se num sorriso compreensivelmente honesto, próprio de quem sentia em si a felicidade daqueles que mais amava – Espero que vocês encontrem a felicidade que tanto merecerem, amor…
- Deus te oiça, Adriana… Deus te oiça! – as nossas mãos uniram-se sobre o tampo da mesa de jardim e os nossos olhares cúmplices, tocaram-se numa carícia muda e discreta, reveladora de alguns anos de amizade
- Amor, cheguei! – um timbre masculino, vindo da zona da sala de estar - onde horas antes deixara a minha mala - transtornou a expressão lívida de Inês
Aquela voz… Aquela melodiosa voz, que tantas vezes me jurara que tudo iria ficar bem, mesmo nos momentos de maior solidão e tristeza. Aquela voz que tantas vezes me chamara carinhosamente de “minha pequenina”, aquela voz que resguardara em noites de infância o meu sonho amedrontado pelo escuro e me prometera que iria ficar do meu lado toda a noite, até os monstros do escuro desaparecerem… A mesma voz que eu não ouvia há algum tempo, há tempo demais para suportar a saudade!
O meu coração apertado descompassou e senti-me aquela eterna menina, que durante anos aprendera a lidar com o mau feitio de Ruben, que se acostumara às suas brincadeiras loucas sem as levar a mal e a mesma menina, que durantes anos e anos da sua curta vida, sentira crescer no seu coração um amor incondicional àquele extraordinário ser humano.
- É o Ruben… - murmurei, procurando ver a sua figura surgir a qualquer instante nas portas envidraçadas de acesso ao jardim, onde eu e Inês nos encontrávamos depois de uma tarde estonteante de decisões
- Amor! – apesar da persistência de Ruben, Inês não moveu um único músculo, esperando que fosse ele a encontrá-la – ou melhor! – a encontrar-nos – Ah… Estava a ver que tinhas saído, In…
Os seus olhos cruzaram os meus, impedindo-o de dar termino à sua frase. Ele não esperava ver-me ali e no meu pensamento uma cadeia de acontecimentos ligou-se.
Inês não pedira o telemóvel emprestado a Ruben, simplesmente o roubara, pois sabia que só assim eu teria atendido a chamada; tal como também não o tinha avisado sobre os seus planos para nossa tarde, nem tão pouco esperado que esta se alargasse tanto ao ponto de eu e ele ainda nos cruzarmos.
- Amor! – pela primeira vez ela conseguiu reagir e dando um pulo inerte da cadeira, beijou-lhe os lábios suavemente – Pensei que ias jantar com os rapazes…
- Sim, ia… Mas houve uma mudança de planos! – esclareceu-a, mas nunca descolando os seus olhos dos meus, o que ao fim de alguns segundos se tornou desconcertantemente desconfortável – Ah… Eles vêm cá jantar hoje… Quer dizer… Alguns deles!
- Assim…? Sem planos de antecedência? Oh meu Deus...! – como primorosa dona de casa que era, Inês entrou imediatamente em pânico, tentando formular na sua cabeça mil e uma ideias para solucionar os planos de última hora
- Tem calma, amor… O pessoal desenrasca-se com qualquer coisa! – Ruben procurou serená-la, mas o seu olhar sobre mim não expirou por um segundo que fosse, mantendo inquebravelmente impenetrável
- Qualquer coisa? Tu não deves estar bom da cabeça… Eu vou falar com a D. Graça! - saindo apressadamente do jardim, tomou percurso certo à cozinha, pronta para discutir uma ementa com a cozinheira de serviço há poucos, mas bons anos
- Inês… - clamei morosamente o seu nome, pressentindo que aquele olhar intimidante de Ruben fazia adivinhar uma conversa dura, que eu não estava disposta a ter, mas no entanto seria obrigada
Após a saída da sua noiva, quedámo-nos ambos em silêncio… Uma ausência de vozes taciturna, que abarcava ambas as faces lúteas, fazendo-nos assemelhar os nossos corpos com cadáveres já sem vida. Só os nossos olhos rodavam sobre a figura um do outro, mas a coragem para dar o primeiro passo ao fim de tanto tempo – quase um mês, mais ao certo – não chegava da parte de nenhum dos dois e parecia matar-nos a cada segundo fúnebre dos ponteiros do relógio.
- Não sabia que ias estar cá hoje… - começou por dizer, arqueando uma postura de ataque, nada típica daquele a quem chamava há anos de melhor amigo – Vieste visitar a Inês, foi?
- Não… Ah… - a sua rigidez e indiferença frivolamente dolorosa, deu-me a incapacidade de resposta, apesar dos meus lábios se terem mantido entreabertos, prontos para proferir qualquer discurso
- Então vieste cá fazer o quê? – inquiriu no mesmo instante em que deu vida própria aos seus braços, para que estes se cruzasse na frente do peito, aguardando qualquer resposta, ainda que cobarde, da minha parte
- A Inês ligou-me ontem… Pediu-me para que viesse cá ajudá-la com algumas coisas do casamento! – esclareci, pousando durante breves instantes o meu olhar sobre a mesa ainda atolada de catálogos, amostras e da restante loiça do nosso pequeno lanche, procurando provas que sustentassem a justificação para a minha fustigante presença
- A Inês ligou-te…? – questionou confuso com o meu esclarecimento – Ela não me disse nada acerca disso…
- Sim, ela ligou-me… Até o fez do teu telemóvel porque o dela estava sem bateria… - a expressão torneada pelas feições de Ruben, levaram-me a compreender que provavelmente já falara mais do que aquilo que devia e a Inês estava em maus lençóis
- Ah… Do meu telemóvel?
- Sim, mas já percebi que não sabias de nada e também não estás propriamente feliz com a minha presença… - concluí assertivamente, enquanto o meu olhar proclinava tal qual um pêndulo, entre Ruben e a paisagem inerte do jardim que se estendia na sua retaguarda – Eu já estou de saída… - após lhe ter virado costas disposta a encerrar aquela conversa, visto que não me parecia haver qualquer tipo de desenvolvimento favorável da minha parte, fui interrompida pela sua voz redundantemente tenebrosa, que me bloqueou os movimentos
- Tu deves ser mesmo especialista em fugas… especialmente de última hora!
Apesar do contexto ser bastante distinto e já termos avançado algumas semanas no calendário, eu compreendi onde ele queria chegar – na verdade – eu compreendi perfeitamente o seu claro intuito de me opugnar até à repulsa pela minha atitude para com o seu melhor amigo, David.
Decidi não dar asno à discussão, nem tão pouco inflamar palavras que podiam entrar em combustão, propagando-se num fogo de difícil extinção de parte a parte.
- E ainda tens a capacidade de fugir a um confronto, Adriana…? Estás sem dúvida diferente! – as palavras amarguradas e ditadas pelo meu melhor amigo – uma das pessoas que mais amava e estimava – tornaram-se improvavelmente impossíveis de ignorar, pois o meu coração ressentiu-se com tanta falta de cumplicidade e confiança mútua
- Mas afinal quem és tu para me acusar do que quer que seja, Ruben? – inquiri, confrontando-o pela primeira vez desde que nos havíamos cruzado naquele alpendre, mas não detendo ainda a capacidade de me aproximar sem temer represálias demasiado fortes a alguém de uma sensibilidade frágil como eu – O melhor amigo que não ligou mais? O melhor amigo que tirou partido de uma das partes de uma relação que nem é a dele? Ou o melhor amigo que me acusa, sem sequer tentar perceber as minhas razões pra ter feito aquilo? Espera… - pausei breve e delicadamente, não com o intuito de conseguir alguma resposta, mas na vontade de o impregnar à loucura sábia daquele momento - … acho que nem melhor amigo és mais, pelo menos não meu!
- É assim mesmo que pensas? – questionou amarguradamente, sustendo nos seus pulmões um sopro de ar comprimido pela dor que abocanhava arduamente o órgão vital compassante no lado esquerdo do seu peito – Que só porque não te procurei não mereço mais a amizade que demorámos tanto tempo a construir e jurámos ser eterna?
- É um facto, Ruben… Não te preocupaste em saber a minha versão dos factos, não quiseste saber se estava bem, se estava a sofrer, se precisava de alguma coisa… - acusei enumeradamente, não poupando as palavras maliciosas que provavelmente o iriam fragilizar, mas que precisavam ser ditas antes que me sufocassem no meu íntimo - … Queres que pense o quê, caramba?
- Quero que penses que és a minha melhor amiga e o mínimo que eu esperava era um telefonema depois daquela saída abrupta de Paris!
- Querias que te ligasse e dissesse o quê? Tu ias atacar-me, Ruben… Assim que soubeste da minha ida, tiraste o partido do David, foi por isso que nunca mais me procuraste! – senti um aperto no peito, que me sucumbiu a alma tristemente desanimada pela ausência de um alguém que me era tão querido – Foi por isso que não ligaste… Foi por isso que nem uma maldita mensagem mandaste!
- E queres mesmo continuar a atirar-me isso à cara? – inquiriu perspicazmente, tomando o controlo de toda a conversação e antevendo a viragem de todos os argumentos seguintes a seu favor – É melhor não entrares por aí… Porque pelo menos eu não prometi uma conversa a alguém que supostamente amo, mas parti, deixando-o num país estrangeiro, sem uma justificação, sem pelo menos um “Adeus… desculpa, mas não vai dar mais!”
- E pensas que eu não quis dar essa justificação? Que não me quis despedir do David? – todas as perguntas impostas não procuravam qualquer resposta, limitando-se a embaterem na vivacidade mortiça do rosto de Ruben, que me olhava subjugadamente a um julgamento – Caramba, Ruben! Então não me conheces…
- É, Adriana… Eu costumava conhecer, mas parece que agora não falas mais comigo…
- Porque não queres mais ouvir-me…
- Porque tu não me pedes mais que o faça!
- Eu nem devia precisar de pedir… Achei que a primeira coisa que farias assim que pisasses Portugal era ligar-me, procurar-me, saber o que se passava e consolares-me quando mais estava a precisar de ti! – relembrei os momentos de solidão que passara longe de olhares alheios e sob a guarda de umas mini férias ermas em terras vizinhas, mais prontamente na capital espanhola
- Eu não deveria sequer ter precisado de te procurar, porque se realmente quisesses o meu consolo, não terias fugido daquela maneira… sem pedir um aconchego, uma opinião, um abrigo de alguém que nunca te faltou e não fazia tenções de o fazer agora!
- Pronto… Desculpa então se errei, Ruben! – ciciei com as lágrimas prestes nos meus olhos, quase a transporem a linha de água e planejando o percurso que iriam traçar no meu rosto dentro de instantes – Desculpa se estava confusa, se estava assustada e se isso me fez perder o meu melhor amigo e o homem que mais amei na vida… Desculpa! – implorei erguendo os braços no ar e deixando-os cair, numa só lufada, junto das minhas pernas
O coração mirrado de dor ainda latejava dentro do peito, contudo eu não o sentia mais, mas conseguia perceber a rota que delimitava para os meus pés e que me aceirava para novos caminhos – pelo menos para um suficientemente longe daquele.
- Adriana… - escutei o seu timbre dilacerado, quando já havia rodado o meu corpo nova e frontalmente para as vidraças de acesso ao pequeno alpendre onde havíamos trocado palavras tão acesas e impiedosas - … espera!
- Que queres agora? Que mais vais atirar-me à cara desta vez, Ruben? – perguntei, não estando disposta a deixar correrem mais lágrimas do que aquelas que já afagavam o meu delicado rosto de mulher
- Vem cá…
Ao ver os seus dois braços abertos na minha direcção, dispostos a receberem-me no calor meigo de um abraço de irmão, chorei ainda mais… Talvez saudade ou apropriação ao medo de o ter realmente perdido, sem qualquer retorno contornável e combatível.
O meu coração amoleceu e as minhas pernas bambas precipitaram-se na sua direcção, ainda que de forma vagarosamente lenta, fazendo umas meras fracções de segundo transformarem-se numa eternidade.
- Ai, pequenina… - o murmúrio compadecido que abandonou junto do meu ouvido, activou as restantes lágrimas que eu teimava segurar no meu interior, mas que acabaram por abrir estradas no meu rosto despreocupado de censuras e retaliações
- Desculpa… Desculpa-me! – supliquei num fácies abatido, enquanto as gotas do meu choro percorriam as minhas faces tenras e pereciam no contorno milimétrico da minha boca
- Só preciso compreender-te, Adriana… Fala comigo!
- Eu não posso… Eu não sei que te diga…
- Adriana, eu preciso de compreender o que te leva a cometer o mesmo erro duas vezes…
- É uma longa história, Ruben… São precisas justificações complexas, que tu não vais aceitar e dificilmente entenderás!
- Experimenta só! – desafiou-se numa feição marcada pela rivalidade antiga, que disputávamos em crianças, a fim de compreender quem seria o mais capacitado para compreender longas e intrincadas teorias, fossem elas sobre o que fossem
***
- Queres que comece por onde? – questionei, sentada na mesa onde lanchara com Inês, mas agora tendo como companhia o seu adorado noivo e segurando na mão um cigarro e o meu isqueiro predilecto
- Pelo início… Por aquilo que aconteceu no centro de estágio…
- Ele beijou-me… - relembrei, colocando o filtro entre os meus lábios e fornecendo lume à ponta de papel, que rapidamente começou a arder, deixando-me então tragar a primeira lufada de fumo - … mas isso tu já deves saber!
- Sim, isso eu sei… O David contou-me, até porque não lhe deixei nenhuma outra hipótese! – confirmou a minha teoria, enquanto me olhava atentamente a expelir a primeira colunazinha de fumo – Mas o porquê de teres fugido… Não compreendo! Não era o que mais querias? Ficar bem com ele…?
- Queria, quero e sempre quis… Mas o medo venceu-me, Ruben! Eu fui cobarde e o medo venceu-me…
- Tu… Cobarde? – perguntou, esboçando nos lábios um sorriso irónico e no entanto recheado de razões para tal – Deves ser das pessoas mais corajosas que já conheci…
- Não é bem assim… - procurei com os meus olhos, num recanto escuro do jardim, o conforto necessário para que a minha respiração se mantivesse regularizada e a afluência das lágrimas minimamente controlada – Eu achei que ele estava a repetir o mesmo que já me fizera naquela tarde no Colombo… Eu achei que ele ia brincar com o meu coração e que eu ia sair ainda mais magoada de tudo!
- Ele não ia fazer isso, pequenina… Ele estava mesmo disposto a reconciliar-se contigo e a reaver a vossa relação!
- Mas não confiava em mim! – acusei impensadamente, ao recordar a conversa que não deveria ter escutado entre David e o meu melhor amigo
- Como é que tu…? – a surpresa ondulou-lhe o rosto, adaptando-se cordialmente à sua voz façanha de homem experienciado na vida
- Eu ouvi a vossa conversa, Ruben… - comecei por dizer num sopro de desabafo, que desabrochou dos meus lábios tão naturalmente, guiando o meu corpo de encontro às costas da cadeira, onde buscava forças para me suster – Eu ia mesmo conversar com o David naquela manhã antes de partir, mas eu ouvi a vossa conversa… Por isso é que eu fui embora!
- Não acredito que o abandonaste de novo por isso, Adriana… Se ele já não conseguia confiar em ti plenamente, depois do mesmo erro tornou-se impossível! – Ruben repreendeu-me com as mesmas palavras duras com que Diogo o fizera no dia anterior, quando eu ainda não sabia da nova mulher que ocupava o coração onde durante mais de um ano eu havia habitado
- Também agora é sinceramente indiferente se ele confia em mim ou não… - murmurei, sustendo o cigarro entre os meus lábios e suprimido com lividez o fumo, que rapidamente se dissipou pelo ar
- Pudera… Estás tão diferente! – incriminou, movimentando a sua cabeça num trejeito que indicou o fino cigarro que segurava entre o meu dedo médio e anelar – Desde quando é que fumas, agora?
- Desde que me deixa relaxada… - ripostei, alinhando nos meus lábios um sorriso deliciosamente desafiador, que espicaçou o intuito de Ruben, o que me foi facilmente perceptível, pois afinal conhecia-o melhor que ninguém – E no entanto não é isso que faz de mim alguém “tão diferente!” – argumentei, fazendo uso das suas próprias palavras
- Não… Mas faz de ti alguém não reconhecível à primeira vista! Pelo menos não como a minha Adriana… Aquela que conheço há anos!
- As pessoas mudam…
- Não… As pessoas simplesmente se revelam! – contrariou-me, ressentindo na sua voz aquele tom de recriminação tão próprio do sentimento de irmão que nutria por mim e que somente desejava o meu melhor
- Então talvez esta seja eu… A Adriana e só isso! – os meus ombros ergueram-se e caíram hostilmente sobre si mesmos num único movimento
- Uma Adriana que já não ama o David? – inquiriu, conhecendo o campo armadilhado de minas que me colocava no caminho, esperando que desse um passo em falso e caísse num erro de inimizade
- Uma Adriana que sabe que independentemente de o amar ou não, isso não interessa mais… - esclareci, contornando o rebordo do cinzeiro com a pontinha do cigarro e desvanecendo a sua chama no interior – Agora tenho de ir…
- Já…?
- Sim… Tenho umas coisas pra tratar e vocês vão ter convidados pra jantar! – os meus lábios mostraram timidamente um sorriso à paz tolhida
- Eu até te convidava para o jantar mas…
- … mas o David vai cá estar e vai trazer a namorada nova! – concluí num rasgo de ironia que me serpenteou as faces, acumulando-se em meus lábios num único gesto de clamor impiedoso e deixando Ruben surpreendido por tal descontracção na revelação dolorosa – Achavas mesmo que eu não sabia deles…? Eu leio revistas…Já sei de tudo!
- Ouve, Adriana… Não muda nada daquil... – antes que ele iniciasse um pedido de desculpas, que não tinha qualquer fundamente de culpa, aproximei o meu indicador dos seus lábios e selei-os
- Shiu… Não te preocupes com isso! Ele pode ter uma nova namorada, mas eu vou continuar a ocupar o meu lugar na tua vida… Eu sei disso, Ruben!
Um sorriso cúmplice foi compartilhado por nós na melodia de um silêncio pacífico, onde somente ressaltavam os ruídos de fim de tarde, acompanhados pelo chilrear das aves imersas nas extensas copas dos carvalhos que circundavam a vivenda.
As suas mãos quentes premiram as minhas faces, apertando-as no calor de uma caricia e os seus lábios tocaram leve e sentidamente a minha testa, no maior sinal de respeito e carinho que alguma vez conheci.
- Adoro-te, minorquinha… - jurou num sussurrar descompassado de emoção, sentido pelas polpas dos meus dedos, que pousavam do lado esquerdo do seu peito, de onde um palpitar assolado se dissipava percorrendo todo o meu corpo
- E eu a ti… E eu a ti…
Regressei a casa mais vazia do que nunca, mas certa de que nenhuma dor era suficientemente grande para me derrubar e nenhum sentimento suficientemente forte para se conhecer inesquecível.
Apesar da dor, foquei-me na determinação de uma certeza dolorosa… Tinha de esquecer permanentemente David!
Não sei quando o iria ver, mas um reencontro seria inevitável. Dali a dois meses, na vivenda da família Amorim para o casamento mais esperado do ano dentro do nosso círculo de amigos próximos… Pois fugir a um momento tão importante como esse, seria renegar a amizade celeste e indestrutível que sustentava por Ruben, e isso… ele jamais me perdoaria!
Antes demais quero pedir desculpa pela demora num novo capítulo, mas a escola dificulta um pouco o tempo livre para dedicar à escrita!
Depois quero agradecer o avolutado número de comentários, que são um enorme incentivo para a escrita e aqui vos deixo um novo capítulo.
Espero que gostem e comentem :)
Beijinhos,
Drii ♥
P.s - Há uns dias recebi o convite para a rúbrica "8 perguntas e meia", passem pelo blogue e vejam a entrevista feita a convite da gestora: http://23davidluiz.blogspot.com/2011/10/8-perguntas-e-meia-adri-amar-628km-de.html, a ela um muito obrigada! :)


28 comentários:
Mais uma vez adorei, mas quero a reconciliação do David e da Adriana rápido por favor :)
fantastico...
quero mais...
continua...
AMEI AMOR , CHOREI TANTO QUE TU NEM IMAGINAS ... QUERO LOGO VER O REENCONTRO DELES , QUE COM CERTEZA IRÁ SER MUITO MAIS EMOCIONANTE . CONTIIINUA (:
Ai Dri, estou super viciada nisto!
Está tão lindo o capítulo (:
Vais ter de nos prometer que vais continuar a fic até o David e a Adriana estarem casados e terem bebés xD
Adorei, posta rápido!
Beijinho (:
Elena Gilbert e Stefan Salvator (na foto), da série Vampire Diaries, grande série...
Mais um excelente capitulo, estás a escrever cada vez melhor, parabéns! Espero que nos brindes com mais um grande capitulo brevemente! :D
oh... queria tanto ve-los juntos de novo, espero que seja para breve.
ADOREI, continua :)
AMEIII!! *-*
Escreves maravilhosamente bem, mas caramba custa-me não ver o David e a Adriana juntos!!
Rubén e Adriana juntos finalmente ^.^
Continua Por Favor!
Visita e comenta: http://ummundodefantasiaerealidade.blogspot.com/
Tinha tantas saudadinhas disto, e só tu mesmo para me fazeres sorrir ao ver que tinha mais uma coisinha para ler aqui, e depois para me fazeres chorar que nem uma Madalena no final. Escreves cada vez melhor, e acho que vai ser complicado começar a procurar novos adjectivos para caracterizar esta tua forma tão simples e cheia de complexidade ao mesmo tempo.
É perfeita!
beijinhos minha querida, adoro-te.
P.s: não demores muito :)
Minha querida é verdade, eu sei que não tens muito tempo mas eu acho que já postei um capítulo ou dois que tu não leste.
Beijinhos
Mais uma vez conseguiste,não sei como consegues só sei que consegues, neste capitulo senti uma mistura de sentimentos que até me deixa baralhada das idéias.Senti raiva, pelo facto de a Adriana depois do que fez ainda se dar ao luxo de se sentir "ofendida" pelo facto do David ter nova namorada, fogo o que é que ela tava á espera depois de tudo o que fez?que ele continuasse à espera dela?ela tá muito mal habituada, secalhar porque é um bocadinho mimada e pensa que o mundo gira á volta dela, e depois aparece-lhe estes percalços na vida, enfim, de certa forma foi o que ela escolheu, não tem que se queixar.Por outro senti uma tristeza tão grande ao ler o momento entre a Adriana e o seu grande amigo, primeiro o silêncio, só uma troca de olhares, depois a mágoa através de palavras mais amargas,um momento triste mas que não deixa de ser lindo.Mas não há nada como ter uma conversa e pôr tudo em pratos limpos,o momento deles foi lindo,e o Ruben não podia deixá-la ir embora sem lhe dar aquele abraço, não é fácil ser amigo dos dois e não ter a tentação de escolher um dos lados.Cada capitulo teu é como um presente, e eu digo-te OBRIGADA,continua assim
beijos
Fernanda
Ah! Já tinha tantas saudades de ler um capítulo teu!
Isto dá-me vontade de chorar. Ela não merece sofrer e o David também que podia esperar um bocadinho!
Espero pelo próximo muito ansiosa e expectante.
Li a entrevista e gostei.
Beijinhos!
:o Mas o que é isto? David com nova namorada? Que seja mentira, pois eu, e muitas de nós, estamos fartas de ver o David e a Adriana separados! E para além do mais, por muito bonita que tenha sido a conversa entre a Adriana e o Ruben, as atitudes dele não são de um melhor amigo, que supostamente devia estar ao lado dela para tudo, bom e mau, mesmo sem ser chamado!
Vá lá Drii, junta-os !
Está muito bom mesmo! :)
Beijo!
E pronto não consegui controlar-me... fartei-me de chorar... é impressionante como consegues produzir este feito com o que escreves. Nem tenho palavras, mas há duas que não esqueço nunca no final de um capitulo teu: quero mais!!!!
Amo a tua fic.
Posta rapidinho por favor.
Beijinhos linda.
Ai ai, minha menina! Não sei que te faça. Consegues por-me mais vezes a chorar do que outros LOOL
ADOREI, minha querida! Está simples e inebriantemente fantástico
Qualquer dia tens que me dar umas aulinhas :x ahah
Quero saber o que se vai passar a seguir
Beijinho, minha querida
Ana Sousa
Olaaa
Adoreiiii
Mas queremos todos o david com a adriana , nao com outra :(
Junta-os!
quero mais , beijinhos
Estou em "pulgas" para ler os próximos capítulos, agora que já chegamos à parte do David ter namorada nova quero o resto... sei que sabes do que falo LOL por isso despacha-te lá :)
O tempo é curto e acredita que sei bem o que isso é :s mas como pedir nunca custa nada... olha vou pedinchando sempre mais e mais :P
Quanto ao capítulo em si, nem sei o que dizer mais! Consegues sempre surpreender-me por muito que possa ter assim umas ideias do que vai acontecer, tu vens e deixas-me sempre sem palavras perante a tua capacidade enorme de passares para o papel as tuas ideias mas acima de tudo sentimentos/emoções!
Minha linda, continua porque quero sempre mais... isto é um vicio!
Beijocas
adorei com sempre continua :)
quando é que publicas?
quando é que pensas em publicar?
Quando é que publicas, já não publicas há muito tempo... já tenho saudades e penso que todos os teus leitores também! :) Publica rápido...
Quando é que vais publicar? Estou em "pulgas"!
Podes dizer-nos quando é que vais publicar, ou quando pensas publicar, eu percebo que com a escola não tenhas tanto tempo, como todos nós, mas já não publicas há muito tempo! :)
Quando é que vais publicar, pelo menos diz-nos alguma coisas, para não estarmos na expectativa.
Olá, adorei o capitulo, acho que foi muito bem conseguido. Gostava de saber quando é que vais publicar mais, pois já não publicas há bastante tempo e estou ansiosa para ler a continuação da história. Obrigada.
Ass: Carolina :)
Entao?! Para quando o proximo? Esta espera mata-me:S
tou tao curiosa por saber como vai ser o reencontro da Adriana e do David.
Como é possivel que ele tenha arranjado outra? ele so pode estar a usar essa namorada para tentar esquecer a Adriana.
gostava de ler um capitulo na perspetiva do David,para perceber o que vai na cabecinha dele.
bjs & posta rapido sff.
AMEI *-* sigo . segue tambem o meu cantinho : www.souoquenuncapoderasser.blogspot.com . beiijo , esperando pelo próximo para ver como é que é o reencontro de ambos :b
Olá Adriana,
Tenho seguido , como sempre a tua fanfic, mas como tinha as leituras em atraso só agora cheguei ao capítulo 13. Contudo, vejo que não tens publicada a parte II, e não faz qualquer sentido continuar a ler sem ler esse mesmo capítulo. Se poderes publicá-lo agradecia.
Boa escrita e parabéns pelo trabalho alcançado até aqui!
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