O tempo voou… Desde aquela tarde no jardim da casa do Ruben, já quase dois meses se haviam passado.
Sobre David e a sua nova namorada mais nada soubera, porque me obrigara a mim mesma a não ler mais qualquer tipo de revista ou artigo que falasse sobre a sua vida pessoal, ou até mesmo aqueles que inventavam maledicências sobre mim e me faziam vacilar no meu frágil autocontrolo… Talvez fosse melhor assim. “Olhos que não vêm, coração que não sente!”, sempre me dissera a minha avó, dona de toda a sabedoria de mais de sessenta anos de idade.
Mas o tempo passara e era um facto, que estava então a exactamente uma semana do casamento de Ruben e isso só quereria dizer uma coisa… Chegara a hora de enfrentar a pessoa que durante meses tinha procurado esquecer.
Naqueles sessenta dias, ocupei o meu pensamento com a faculdade, que ia de vento em pompa; com chamadas cruzadas para o outro lado do oceano, compartilhando amarguras, alegrias e dissabores com aquele que aprendera a ser o meu novo confidente, Diogo; e ajudando Inês com os últimos preparativos para o tão aguardado enlace.
Aquela semana seria passada ao abrigo da vivenda Amorim. Aquela enorme casa, situada perto da que pertencia à minha família, e que tomava cerco no Baleal, uma das cidades mais belas que alguma vez conhecera e onde outrora descobrira a minha paz.
O Campeonato português sofria então uma breve pausa, devido aos jogos de apuramento para o Mundial. Ruben, infelizmente ficara de fora da lista de convocados e segundo o que lera, David estava fora das opções de Mano Menezes, devido a uma pequena lesão no joelho esquerdo. Outros membros do plantel haviam sido chamados para representar o seu país, mas aqueles que essencialmente inteiravam o nosso antigo grupo de amigos, haviam-se tornado cartas fora do baralho para os seus seleccionadores.
Seria provavelmente a semana mais assustadora da minha vida, mas aquela que eu esperava ver passar mais depressa, para regressar ao conforto de Lisboa e da minha casa.
Conduzi calmamente durante uma hora. Não tinha pressa em chegar, apesar do meu coração teimar em manter um ritmo estupidamente parvo do lado esquerdo do meu peito. Posso até jurar que batia com tal intensidade que por momentos achei que me fosse sair boca fora, projectando-se sem sentido ou rumo algum.
Quando estacionei o meu Audi Q7 na frente da casa dos pais de Ruben, senti a sensação robusta de excentricidade percorrer-me o corpo. Teria definitivamente de ficar ali… Não conseguia regressar à vivenda da minha família após a morte do meu avô, mas Ruben também não aceitava o meu desejo de me instalar no hotel mais próximo e eu sabia que se o fizesse, ele nunca me iria perdoar.
Saí do carro e os meus ouvidos foram preenchidos por um burburinho ruidoso composto por um turbilhão de vozes e sotaques misturados no ar, que provinham do lado interior dos jardins da casa.
Não hesitei em abrir a porta e sair imediatamente do carro. Destranquei a de trás, abrindo espaço para a Quimera saltar para o chão e esta manteve-se próxima de mim rodando em torno das minhas pernas, em círculos modestamente confusos, mas enérgicos.
Avancei na direcção do portão, que como já era hábito estava fechado, mas não trancado... A minha mão delicada escapuliu-se por entre uma brecha entre os ferros e com um simples premir do gatilho, este abriu-se.
O início do meu percurso foi trémulo, pois sentia as pernas tiritantes, mas a presença de Quimera deu-me surpreendentemente um aconchego que eu não esperava conseguir sentir naquele momento de confrontos.
A primeira pessoa que vi foi Ruben, o meu eterno e dócil melhor amigo, com quem finalmente acertara as pontas soltas de uma guerra que não deveria ser travada entre nós. Ele largou tudo o que estava a fazer e correu na minha direcção, obrigando-me a reflectir um sorriso que ainda me esforcei por conter. Que saudades daquele miúdo… Dos momentos que vivêramos naquela casa há alguns anos, mas que ainda se sucediam em flashes na minha dissipada memória de menina. Assim que me alcançou, e apenas com um dos seus braços fortes, agarrou em mim e ergueu-me no ar. Apertámos-mos tão fortemente um contra o outro, enquanto os braços dele envolviam a minha cintura e os meus o seu pescoço, onde mantinha a cabeça enterrada, que me senti de novo no passado… Naquele que desejava recuperar. Onde ser criança não custava, e o segredo não estava em viver, mas sim em saber fazê-lo.
- Nunca mais fico tanto tempo sem te ver, pequenina! – consegui adivinhar-lhe um ar rezingão na face ao falar e acabei por o confirmar quando ergui o meu rosto do seu pescoço e o encarei, precavendo as saudades de dois meses em que somente faláramos por telefone
- Que saudades… Até da tua refilice! – por aquela altura já todos os presentes nos olhavam e apesar de ainda não ter visto quem mais ansiava e isso me ter feito suspirar em modos de pesar, não me coibí de beijar a face ao carinhoso Ruben
- Então e a viagem, foi calma? – inquiriu, pousando-me no chão e abrindo com os nossos pés um percurso feito sob o calor do seu terno abraço de irmão
- Sim, fez-se bem… Já me habituei a muitas horas de carro! – sorri levemente, pendendo o olhar no relvado verdejante que enquadrava perfeitamente as pontinhas dos meus sapatos
Foi nesse momento que a Quimera saiu a correr que nem uma louca. Afastou-se de mim e acelerou numa corrida desenfreada rumo a uma pessoa que acabara de enveredar pelo jardim.
O meu coração tremeu ao vê-la lançar-se à cintura de David, constatando que apesar de vários meses de ausência ela ainda o reconhecia e a loucura que sempre sentira em relação ao seu dono e às brincadeiras compartilhadas por ambos, ainda permanecia.
O meu olhar observou tudo… Quimera circundava o corpo dele num estado de frenética felicidade, latindo arduamente e agitando no ar a pequena cauda, que revelava toda o seu contentamento em reencontrá-lo. E o mesmo já não poderia eu dizer, mas ainda assim não consegui esconder um sorriso que me adornou os lábios, mas rapidamente o meu olhar tomou consciência de que na minha frente se encontrava o homem mais perfeito do mundo e por consequente os meus pés colaram-se ao chão, incapacitando-me de dar mais um passo que fosse.
- Quimi! Que linda, garota! – David revelou a mesma alegria que a nossa cadela e afavelmente distribuiu no focinho dela uma enxurrada de carinho e cumplicidade
E foi dessa mesma forma que Quimera acabou por se render… Jogou-se nos pés daquele que fora um dia o meu homem e com a zona lombar virada para cima, aguardou que as carícias se alastrassem por todo o corpo como já era hábito.
- Oh garota, que saudade! – ele limitou-se a cumprir o desejo dela e agachando-se junto do seu corpo combalido fez-lhe festas morosas, recebendo como compensação uma ou duas lambidelas brincalhonas na face
Quando a Quimera se levantou, também ele se ergueu e olhou na minha direcção… Aquele era o nosso primeiro confronto depois daquilo que acontecera em Paris, mas ainda assim eu não consegui evitar a estranguladora vontade que senti de me perder nos seus braços e roubar-lhe um beijo, que eu sentiria com todo o meu coração, mas pelas razões óbvias fui obrigada a suprimir o meu desejo a leves quimeras suspensas no pensamento do meu íntimo.
A primeira pessoa a aproximar-se de mim foi Paulinha, que me beijou carinhosamente a testa, mas quando eu pretendia retribuir o carinho imposto pela nossa amizade, detive-me na imagem contundentemente infeliz que inundou o jardim…
Uma bela rapariga, que eu nunca tinha visto, mas que fosse quem fosse fez todos os olhares presentes centrarem-se em mim e só em mim.
Ela era de facto uma mulher lindíssima. Os cabelos lisos castanhos aclarados pendiam-lhe sobre os ombros, enquadrando-lhe preciosamente o rosto onde dois olhos castanhos escuros sobressaíam, embelezando ainda mais o corpo bem-feito e atraente de que era dona.
Sem qualquer razão aparente o meu coração comprimiu-se num punho cerrado do lado esquerdo do meu peito, como se antevisse a cena que se seguiu. Era ela… A rapariga de quem todas as revistas falavam e apontavam como sendo a nova namorada do David! Os meus olhos clarificaram-se e desmistificaram aqueles traços, comparando-os com os da fotografia que vira deles os dois na revista cor-de-rosa de há dois meses atrás, mas tive essa certeza quando a vi roubar dos lábios de David um beijo rápido… Dos lábios que um dia haviam sido meus, que um dia só eu tinha beijado.
Apesar do orgulho dominante os meus olhos ficaram rasos de lágrimas, que felizmente não traçaram direcções no meu rosto de feições marcadas pela dor.
Como que por instinto a Quimera começou a ladrar-lhe, agachada em posição de ataque e mostrando todo o corpo - especialmente as patas – numa contracção tensa, que não era habitual naquele ser tão dócil, mas talvez estranhasse ver do lado de David, beijando-o, outra pessoa que não eu.
- Calma, Quimi, é só a Joana… Não vai fazer nada p’ra você! – ele tentou acalmá-la, passando-lhe a mão no topo da cabeça e no lombar, mas as carícias que há segundos atrás a haviam deliciado não foram capazes de pôr fim à inércia daquele descontentamento
- David, acalma esse bicho! – pela primeira vez ela pronunciou-se com uma camada de desdém, repugnância e repulsa, revelando uma voz igualmente bonita à sua figura, mas algo no seu jeito de se impor frente à minha companheira de longas horas, molestou-me, contudo ainda equacionei a hipótese de ser dona de um medo que eu própria já havia perdido há algum tempo… de cães.
Fiz questão de engolir uma por uma todas as lágrimas que impensadamente se haviam formado por detrás das minhas pálpebras e fincando o pé direito no chão, encaminhei dois dedos à boca e soprei, emitindo um forte assobio de chamamento para Quimera. David olhou-me, assim como a cadela, que circundou entusiasticamente o corpo de David, dando-lhe sinal para que se aproximasse de mim como tantas outras vezes o fizera, mas como já era previsível ele não se moveu. Talvez um pouco enfadada com a reacção anómala do seu dono e naquele jeito tão típico de cadela traquinas, retomou os latinos ofensivos à rapariga que permanecia escondida nas costas do meu antigo David.
- David, não deixes que me faça mal! – implorou, não conseguindo esconder o desprezo que foi perceptível a todos os presentes, mas especialmente a mim, que não demorei em manifestar-me
- Quimi, anda! – ordenei, repetindo o assobio de há pouco, mas desta vez ela nem sequer se deu ao trabalho de olhar na minha direcção, pois estava demasiado entretida a gozar do seu prazer deleitosamente delicioso em assustar a pobre rapariga
Não me restou nenhuma outra opção para além daquela de me aproximar. Decidida, finquei as pontas dos pés no chão e delineei um caminho recto e célere até chegar junto da minha cadela, de David e da sua nova companheira de vida. Tirei do bolso do meu casaco a trela e acerquei-me o suficiente para a conseguir prender na coleira de Quimera, sem ter de olhar David ou a sua companhia, olhos nos olhos, pois disso seria inequivocamente incapaz.
- Quimi, anda…! – implorei, fazendo-lhe festas no topo da cabeça e algum esforço para a conseguir arrastar os primeiros centímetros, enquanto a sentia oferecer resistência, deixando a marca das suas patas distintas no relvado, esburacando-o
Mas ela manteve-se intransigente, reforçando latidos violentos à nova namorado do David e oferecendo-me uma dose extra de defesa que me impedia de a continuar a arrojar pelo jardim fora.
- Quimi, bolas! Já chamei… Já! – nesse exacto momento a minha mão repeliu um movimento forte e conciso na trela, repercutindo-se num puxão que deixou Quimera sem qualquer hipótese de resistência e ela acabou por me seguir a muito custo, ainda tentando tomar o sentindo oposto, mas sendo-lhe impossibilitado
- Aquele cão tem graves problemas comportamentais! – escutei aquela voz sonantemente irritante de pujança, pertencente à tal rapariga que acompanhava o meu ex-namorado, mas não olhei para trás, resolvendo ignorar e seguir o meu caminho
A pobre Quimi ainda olhou para trás, ganindo fortemente, implorando a David que a seguisse… Que nos seguisse! Mas o caminho que tomei foi somente trilhado por nós duas e com as primeiras lágrimas a correrem-me pelas faces. Apenas Paula e Ruben conseguiram vê-las, pois eram os únicos naquele espaço que tinham uma visão frontal do meu rosto e por consequência do meu sofrimento.
Os rostos de ambos contorceram-se de dor ao ver-me assim, porém não desarmei a postura forte que havia adoptado e enxuguei as lágrimas que me afagavam os traços do rosto. Foram os braços da Paula os primeiros a envolverem-me num abraço forte, até eu finalmente me sentir em porto seguro.
- Não fiques assim… - pediu-me ela num sussurro discreto, mas que bastou para intensificar o meu choro silencioso
- Nunca pensei, Paula… Nunca pensei que ele fosse seguir em frente tão depressa! – consegui dizer por fim, controlando a respiração descompassada ordenada pelo choro, que me esforcei por manter tão discreto quanto possível
- Calma, tem calma, amor… - pediu-me, enquanto afagava carinhosamente os meus fios de cabelos docilmente embalados pela brisa fresca outonal que já quebrava as folhas das árvores
Libertei-me dos seus braços e quando encarei o meu melhor amigo, este delineou um sorriso nos seus lábios, enquanto me enxugava discretamente as lágrimas singelas, que ainda pereciam no meu rosto.
- Ele pediu-me, Adriana… Eu não lhe podia dizer que não! – Ruben apressou-se a emitir um pedido de desculpas, justificando na mesma frase o porquê da presença passiva da nova namorada do David naquela casa
- Eu compreendo, Ruben… A sério que sim, além disso a casa é tua! – clarifiquei, acariciando-lhe o rosto num afago amenamente adorável
- Não te quero ver assim… Se for preciso, falo com ele e peço-lhe que a mande embora!
- Ei, nem penses… Nada disso! Se alguém está aqui a mais, esse alguém sou eu… Logo, eu vou embora! – os meus lábios delinearam um sorriso forçado, mas compreensivo pela posição desconfortável em que Ruben se encontrava, e segui caminho até ao meu carro, que permanecia estacionado na frente da casa, do lado transposto do portão encostado
- Nada disso, não faz sentido nenhum ela ficar e tu ires embora!
- Ruben, eu fico num hotel aqui perto… Quero causar o mínimo desconforto possível a todos! – esclareci, empurrando num só movimento o portão pesado de ferro forjado
- Estou-me a borrifar para os outros, quem me importa és tu, Adriana! – contrapôs intempestivamente, desassociando a amizade que nutria por David ao desejo que sentia em ter a sua melhor amiga por perto numa jornada tão importante e inesquecível na sua vida – Eu quero-te é aqui, comigo!
- Ruben, por favor… - a minha tentativa de contra-argumentar a favor da segurança do meu ser fragilizado, foi imediatamente refutada pela persistência vagarosa daquele amigo, que ocupava quase um espaço de irmão dentro do meu coração
- Adriana… - a segurança transposta no olhar e na voz, fez-me compreender que não podia, não devia e não queria desiludi-lo ao ponto de lhe provocar tal desgosto com a minha tenebrosa ausência
- Tudo bem… Ganhaste! – afirmei num tom derrotado, enquanto premia o botão digital que encabeçava a chaves electrónicas do meu carro perfeitamente estacionado na dianteira da moradia, de forma a trancá-lo, deixando de parte a ideia clara de aportar aquela semana, que ainda se adivinhava demasiado longa
- Obrigada, Adriana… Tu sabes que eu não te pedia, senão fosse importante pra mim! – relembrou a sua escolha evidente entre mim – a ex-namorada do seu melhor amigo – e a nova mulher que ocupava então o lugar que em tempos de glória havia sido unicamente meu
- Eu sei disso, Ruben… Eu sei! – um suspiro vagaroso ancorou em meus lábios, dissipando o sussurrar vagarosamente adunado de saudade que me plenificava interiormente
- Oh amor… Não gosto nada de te ver assim! – desabafou a minha Paulinha, passando sobre os meus ombros o seu terno braço longo
- Eu estou bem, amor… Eu já estava preparada para ter de o ver nos braços de outra pessoa, só não achei que fosse ser tão cedo… - mantive a minha postura rígida e adunada pela robustez da falsa serenidade que envergava no rosto - …só isso!
- Vamos então fingir que a tua boca diz o mesmo que os teus olhos e estamos conversadas… - ambas sorrimos, num estado consciente da forte cumplicidade que nos unia
- Bem, então é melhor ir prender a Quimera… É uma cadela “com graves problemas comportamentais!” – não evitei na minha voz a imitação evidente da arrogância e prepotência usada por aquela rapariga para se referir à minha adorada cadela
- Também te irrita aquela vozinha? – inquiriu Ruben, passando pela polpa dos seus cabelos, os dedos castiços que lhe encimavam as mãos grosseiras
- “David, isto! David, aquilo!” e… “Um cão com graves problemas comportamentais!” – a minha doce Paula, não hesitou em juntar-se à brincadeira e assomou na sua frágil figura de mulher a imitação perfeita da rude petulância da companheira de David
- Parece que engoliu uma vassoura o raio da miúda! – queixou-se Ruben, caminhando na minha frente e de Paula rumo ao interior no enorme jardim, que havíamos abandonando há apenas uns minutos
- Ela é sempre assim? – questionei, abafando na palma da minha mão, uma gargalhadazinha discreta, mas que não passou despercebida aos meus dois amigos
- Assim? – a breve pausa que suspendeu no ar, abriu espaço a uma expressão de comicidade típica do meu melhor amigo – Nahhhh!
- É pior! – rematou Paula, quebrando em solenes gargalhadas, que somente foram acompanhadas por Ruben, pois eu remeti-me ao silêncio auspicioso de uma reflexão futura acerca daquela semana
Quando alcançámos novamente, o alpendre junto da piscina, onde todos se encontravam antes da nossa saída, vimo-lo completamente vazio, acompanhado pelo silêncio do silvar das folhas na copa dos carvalhos circundantes.
- Vais deixar aí a Quimera? – perguntou Ruben, vendo-me prendê-la no tronco do enorme plátano, que se encontrava no lado oposto à piscina
- Sim, é melhor… Para evitar problemas! – esclareci, forçando um sorriso tremido pela dor que me causava o abandono à minha doce companhia das horas melancólicas, sabendo que pelo menos ali estava abrigada e longe dos comentários daquela rapariga – Até já, Quimi… Até já! – despedi-me, fazendo-lhe um último afago no focinho carinhosamente húmido pelas brincadeiras que depreendia com a relva
***
No interior da casa tudo continuava igual. O mélico aroma a lavanda preenchia o hall de entrada, a jarra em cima do móvel circular estava cheia de orquídeas, tal como acontecia em todas as outras visitas que ali fizera, e a mescla de barulhos que geralmente provinha da sala, era enrubescida por uma parafernália de sotaques que a mim, me eram muito familiares.
A primeira pessoa que o meu olhar alcançou, vinda da porta da cozinha, foi a tia Bela, a mãe do meu adorado melhor amigo, Ruben. Assim que esta também me viu, um sorriso rasgou nossos lábios em simultâneo e os meus braços depreenderam-se do meu corpo para a abraçar ternamente.
- Tia Bela! – exclamei, no mesmo instante em que nossos corpos se uniram, entrelaçados pelos nossos braços saudosos
- Oh minha querida… Há quanto tempo! – a mãe de Ruben observou cada detalhe do meu rosto, movimentando os seus delicados dedos nas pontas dos meus cabelos e seguidamente afagando-me as faces – Estás cada vez mais bonita, Adriana! Mais magrita…Mas linda!
- Pronto, a convivência com a minha mãe fez da tua mãe, Ruben, uma tia-galinha! – constatei, passando o meu braço direito em torno dos ombros dela e ilustrando a passagem de anos… e essa não perdoava, eu tinha efectivamente crescido a olhos vistos em comparação com a tia Bela, que me tinha mudado muitas fraldas em bebé
- Oh minha querida, eu já sou quase como tua mãe… Logo preocupo-me contigo como uma filha! – perante tal confissão, tão carinhosa, não hesitei em beijar-lhe a bochecha esquerda, repuxando depois para trás da minha orelha a madeixa de cabelo, que pendia no meu rosto
- Mira chica, los demás no tienen derecho a un beso? – a voz grossa e monocórdica de Javi fez-me despertar do momento de carinho que compartilhava com Bela e focar, pela primeira vez desde que ali tinha entrado, o olhar na restante sala, preenchida por inúmeras caras conhecidas
- Javi! Még! – indaguei, avançado na direcção deles para os abraçar, afagando a saudade que me corrompia o peito
- Nunca mais te vimos, pequenina! – reclamou Margarida, quando já me tinha nos seus braços suprimindo-me num abraço suficientemente forte para recordar os tempos em que ainda era peça pertencente daquele animado grupo de amigos
- Sabem como é… Tenho andando ocupada! – desculpei-me prontamente, expressando com o meu rosto um torcer de nariz pesaroso ao constatar o facto da minha ausência
- O que ela quer dizer, é que agora que é famosa não liga mais a ninguém… - o tom de picardia exprimido por Brenda, fez-me dar um pulo no meu próprio lugar e observá-la – Tá esperando o quê pra me dar um abraço?
- Ai, Brenda, Brenda… Tu não mudas! – afirmei, agitando certeiramente a minha cabeça e apropriando-me do calor do seu abraço meigo – Que saudades, minha zuca!
- Que saudades, digo eu, portuga, ué! – exclamou no seu jeito engraçado de falar, fazendo a maioria dos presentes rirem-se de uma só vez
- Cadê o teu carecão, Brenda? – inquiri, olhando em redor e dando pela falta evidente de um personagem que se salientava do grupo de amigos, tanto pela sua figura agigantada, como pela boa disposição constante – Selecção?
- Claro! Representando as cores do nosso Brasil!
- E a minha bonequinha? – perguntei, recordando o rosto perfeitamente angelical da minha afilhada, Sofia
- Está dormindo… Cê sabe como ela é preguiçosa! – ambas quebrámos a nossa conversa com suaves gargalhadas de tom feminino
- Andreia, Andreia… Que linda que estás! – afirmei, apertando para mim a mulher de Fábio Coentrão, que envergava uma barriguinha perfeita de cerca de trinta semanas de gravidez
- Tu é que continuas lindíssima, miúda… - sorri-lhe em jeito de agradecimento e olhei a pessoa que se seguia na fila com o sorriso mais falso que consegui montar – Olá, tu és…?
- Eu sou a Joana! A namorada do David… Prazer! – estendendo a mão direita no ar, junto da separação dos nossos corpos, ela presenteou-me com um sorriso perfeitamente alinhado e polido
Cada palavra que ela proferiu, surtiu em mim efeitos inexplicáveis! O meu peito foi alvo de uma dúzia de impiedosas facadas… Eu sabia que ela estava com ele, eu sabia que eles se amavam, eu sabia que o meu lugar já havia sido preenchido, mas ouvi-lo da boca da pessoa que o havia tomado, doeu mais do que eu poderia imaginar, talvez porque não estivesse preparada para aquele confronto… mas também me questionava: será que algum dia estaria verdadeiramente preparada?
- Eu sou a Adriana… Prazer! – as nossas mãos colidiram prudentemente, agitando-se ritmadamente durante apenas alguns segundos, pois eu fiz questão de não prolongar algo que se avizinhava tão doloroso
Quando o meu olhar já se fixava em David – a próxima pessoa alinhada do lado de Joana – escutei um voz melancolicamente doce, que me aqueceu o coração e me fez sentir mais segura, pois sabia então que tinha por perto uma das pessoas que mais me queria bem e mais desejava ver-me feliz
- Bela, cadê aquela panela que eu arrum… - a voz da Dona Regina invadiu a sala, surgindo nas minhas costas
Libertei a mão de Joana da minha e a minha cabeça rodou na direcção da voz, deixando que o meu corpo a seguisse. Dona Regina interrompeu o discurso assim que me viu e os nossos lábios delinearam um sorriso sincero, enquanto os meus olhos se vidraram de uma superfície cristalina e as minhas mãos se quedaram trémulas.
- Oh Adriana… - o timbre carinhoso da mãe de David proclamando o meu nome, provocou um clarão de luz naquele meu dia, que até então se encontrava nublado
- Dona Rê… - os nossos corpos caminharam na mesma direcção, anulando num abraço forte, toda a distância que nos separava há já alguns meses
A mãe dele, havia-se tornado também para mim uma segunda mãe, durante todo o tempo de namoro com David, mas mais – e muito mais – do que isso, uma amiga, uma confidente, que poderia procurar nas horas de maior aperto. E era essa amizade, uma das poucas coisas que eu sabia, que iria sobreviver ao fim da relação que compartilhara com David… aquela amizade e sentido de cumplicidade, expressos no embalo possante que os seus braços exerciam em torno do meu corpo num instinto protector. As minhas lágrimas dissiparam-se assim como todos os meus medos… Permanecemos abraçadas durante largos e prazerosos segundos, durante os quais não me contive e olhei David, que nos contemplava com um sorriso completamente vidrado no rosto, que eu não soube explicar o porquê, mas que me deleitou ver.
- Que saudade, minha filha… - murmurou, afagando-me o topo da cabeça, para logo de seguida desenlaçarmos o abraço, mas deixando os nossos braços e mãos unidos e em contacto
- Podes crer que sim… Há quanto tempo não nos víamos! – suspirei, assim que a vi observar discretamente, pelo canto do olho, o meu querido David
- Mas me diga, moça… Como cê tá? – apesar de ter colocado uma questão, não me deu tempo suficiente para responder, pois logo após me analisar de cima a baixo proletarizou um novo discurso – Tá mais magrinha, minha filha… Aposto que não se tem alimentado nadica de nada! – todos os presentes se riram, recordando o mesmo elóquio proferido pela tia Bela
- Eu estou bem, Dona Regina… Vai-se indo, devagar, devagarinho, mas a vida é mesmo assim! – sorri-lhe, tentando camuflar a dor expressa no meu olhar e que ela não teria qualquer dificuldade em deslindar – A senhora continua linda como sempre!
- Engano seu, meu anjo… Cê que é atenciosa! – os seus dedos trespassaram calmamente as maçãs do meu rosto cálido – Mas me conta… Como vai sua vida, sua carreira? Tenho visto todas as notícias sobre você!
- Vai tudo bem… Tenho tido trabalho, um ou dois concertos agendados e dá sempre para conciliar com a faculdade… E a vida vai bem! Vai-se levando como Deus quer!
- E Deus te há-de querer muito bem, minha filha! – ambas sorrimos, compartilhando um olhar cúmplice, que apenas nós soubemos ler
- Oh Adriana… - desta feita, foi uma voz masculina a irromper pelo ar, uma que também me era bastante familiar
- Senhor Lau! – o meu corpo repercutiu um pequeno pulo, precipitando-se na direcção daquela figura paternal que erguia os braços abertos no ar, esperando receber-me no calor de um abraço
- Como cê tá, minha querida? – inquiriu, depois de nos termos cumprimentado apropriadamente com um abraço e dois beijinhos
- Estou bem e o senhor? – perguntei, sempre com um sorriso simpático e atencioso
- Bem, também! Já vi que para além de linda, continua simpática e atenciosa como sempre! – elogiou-me sorrindo, trocando um olhar ininteligível com o seu filho, David
- Obrigada, Sr. Lau! – sorri-lhe, tentando ignorar a tensão que se havia instalado entre pai e filho, com um simples toque de olhares – Então e como vai o Brasil? – perguntei, aproximando-me novamente da minha querida Dona Regina
- Oh, minha filha… Lindo, lindo, lindo! Cê não tem noção do barzinho e do calçadão que construíram lá na praia da frente da gente…
O meu olhar tocou o dela, pois ambas sabíamos que eu tinha estado no Brasil recentemente, mas ainda assim ela esforçou-se da melhor forma por disfarçar algo que só ela e Belle sabiam, mas que não tinham contado a David, pelo menos assim deram a entender.
- Nossa, tá mara mesmo! Tem que ir lá ver, minha filha… - rematou o Senhor Ladislau, confirmando a minha teoria acerca de quem detinha – ou não – o conhecimento da minha estadia veranil no Brasil
- A gente vai ter maior prazer em receber você! – afirmou a mãe de David, pousando no fundo das minhas costas a sua mão escaldante e em seus lábios um sorriso modesto
- Vou pensar nisso… Quem sabe no Verão que vem! – apesar de saber que nenhum daqueles planos se iria realizar, exprimi um sorriso educado – Mas digam-me… Como está a Belle? O Leandro? E o bebé? – inquiri, sabendo que por aquela altura, a irmã de David já conhecera os prazeres da maternidade
- Ai nossa! O nosso netinho… aquele torrãozinho de açúcar! Cê precisa ver, Adriana… É uma ternura, aquele neném! – um sorriso abriu-se em meus lábios ao constatar o jeito meloso que dominava as palavras proferidas por Dona Regina em relação ao seu primeiro netinho
- Agora estou querendo uma montanha deles! – acrescentou o pai de David, deixando-me sem perceber qual dos dois avós seria o mais babado em relação ao benjamim do clã Marinho
- Tenha calma, Sr. Lau! A Belle ainda é nova e sempre lhe sobra o David…
- Calma nada, tô querendo minha casa cheia de criança correndo de um lado pro outro! – todos os que se encontravam na sala, soltaram breves gargalhadas, frente à sinceridade ingénua do Senhor Ladislau
- Mas… Ué, Adriana! Cadê a Quimera? – inquiriu a mãe de David, pousando o seu olhar em todos os cantinhos da sala, até notar a ausência da minha estimada cadelinha
- Bem, a Quimi teve de ficar lá fora…
- Lá fora? Que conversa é essa? Lugar de cachorro não é na rua, não! É junto das pessoas… No conforto de um lar!
- Pois, mas ela estava um pouco exaltada… Então teve de ser! – sorri, tentando fintar o assunto, de forma a não referir o triste episódio ocorrido no jardim, aquando da minha chegada
- Mas exaltada com o quê? – perguntou, insistindo e deixando-me sem qualquer hipótese de fuga
- Dona Anabela, o almoço está servido… - foi a entrada da governanta da sala, que me livrou de qualquer confronto desnecessário com a nova namorada de David, por isso limitei-me a suspirar discretamente ao sentir o alívio apoderar-se de mim
- Eh lá, vamos ao ataque! – incentivou o sempre faminto Ruben, esfregando a barriga circularmente
- Claro! E já cá faltava a fome deste gajo! – refilei, sentindo os seus braços enlaçarem-me num abraço forte e suficientemente firme para me fazer sentir segura e amada
- Até parece… Diz lá que não morreste de saudades minhas!
- Hum… Para ser sincera… - Ruben revelou um sorriso prestes, de quem adivinhava vinda de mim, uma resposta certa - … Não!
Todos se riram observando as tão saudosistas picardias entre mim e o meu melhor amigo, mas eu limitei-me a sorrir, recordando melancolicamente os momentos de felicidade que passara dentro daquelas quatro paredes, nos instantes doces da minha alegre infância.
***
- Estás a comer tão pouquinho, Adriana… - constatou a tia Bela, passando discretamente o olhar sobre o meu prato ainda cheio – Não gostas do almoço?
- Gosto… Claro que gosto, tia, mas não tenho muito apetite! – esclareci, bradando um serpentear de cabeça, enquanto os meus lábios se rasgaram num sorriso sincero
- Adriana, tens de ver o meu vestido de noiva! – exclamou Inês, mantendo no rosto a mesma postura entusiasmada que lhe vira há dois meses atrás – É lindo, lindo, lindo… Ficou perfeito!
- Claro, Inês… Mais logo mostras-me! – confirmei a sua intenção, resguardando o meu olhar no prato que se encontrava na minha frente ainda cheio de comida, na qual pinicava a pontinha do meu garfo
- E o teu vestido… Como é? – questionou-me rapidamente, mostrando-se realmente interessada em cada detalhe do seu casamento, que esperava ser perfeito e memorável
- É normal… Depois se quiseres mostro-to!
- Sim, quero ver isso… Quero ter a certeza de que ficas perfeitamente enquadrada no altar como madrinha do noivo!
- Podes ficar descansada que eu segui à risca as ruas recomendações acerca da paleta de cores, Inês…
- Ah, que bom, que bom! – as suas mãos embateram inúmeras vezes uma na outra, num gesto diminuto em grandeza, mas que não passou despercebido a ninguém
- E não vais ver os teus pais, Adriana…? – Ruben tocou no meu ponto frágil, pois ambos sabíamos perfeitamente em que casa eles estavam instalados… a do meu já falecido avô
- Sim… Talvez mais logo, para o final da tarde! – consenti, forçando um sorriso trémulo de emoção, que não deu asno às minhas lágrimas para que acompanhassem percursos tenebrosos no meu rosto
- Vais sozinha?
- Sim… Não devo demorar muito também… Vou num pé e venho noutro!
- Devias passar algum tempo com eles…
- Ainda ontem os vi, Ruben… Tenho estado com eles quase todas as noites da semana, sempre que posso vou lá jantar a casa!
- Eu convidei-os para virem cá jantar hoje, mas não querem deixar a tua avó sozinha… - interpelou a mãe do meu melhor amigo, recordando com um sorriso meigo a amizade de longos anos que partilhava com os meus pais
- É normal… Eles não gostam de a deixar sozinha e ela também não gosta muito de sair de casa, por isso…
- De qualquer das formas… Tenta convencê-los!
- Claro, tia… Eu tento! – afirmei de forma sincera, trocando um olhar de relance com a tia que me tinha sido amavelmente oferecida pela vida – Agora se me dão licença, vou lá fora buscar as minhas coisas ao carro e subir para as arrumar…
- Precisas de ajuda? – perguntou a minha doce Paulinha, resguardando nos seus lábios um sorriso gracioso e predisposto a ajudar
- Não, amor… Obrigada, mas eu dou conta de tudo sozinha! – agradeci cordialmente e retirei-me acordando um aceno de cabeça
***
- Oh Quimi, que saudade… Que saudade! – afirmei, passando as minhas mãos em torno do lombo da minha Quimera, que assim que me viu entrar no jardim, soltou em latinos desalinhados, agitando a sua curtinha cauda no ar
Devo confessar que por momentos me perdi com aquela que era então a minha única verdadeira companhia nos últimos tempos, aquela que eu sabia que podia confiar, pois jamais me trairia… afinal não existe nada mais puro e verdadeiro do que a ligação e fidelidade do cão ao seu dono. Quando me depreendi suficientemente dela, consegui observar um carro exactamente igual ao meu, estacionado ao fundo do jardim… Só podia ser o de David e de repente uma saudade acutilante atacou-me furiosamente o coração. Uma saudade apertada… Saudade dele, da vida que partilhava com ele, do quão feliz era quando o tinha do meu lado. Uma saudade louca, desmedida, mas sem cura.
Poderia até procurar mil anos, pois sabia que jamais recuperaria aquilo que já tinha perdido, aquilo que não cuidara o suficiente a ponto de me ser retirado da forma mais cruel possível. O David era então um capítulo encerrado na minha atribulada – apesar de curta – história de vida e poucas seriam aquelas oportunidades capazes de o aproximar de mim, por isso decidi aprender a viver desenganada, sem esperanças de o ter de volta para mim, ainda que só como um mero amigo.
Peguei na minha mala e no saco de transporte do meu vestido para a cerimónia matrimonial de Ruben e Inês, e subi até ao meu quarto… ou melhor, até ao quarto que teria de dividir com todas as outras raparigas, inclusive Joana.
- Então, já arrumou tudo, minha filha? – questionou-me a Dona Regina, colocando a cabeça entre uma brecha pequenina que eu havia deixado entre a porta e sua soleira
- Sim, tudo arrumadinho, Dona Rê! – respondi, mantendo nos lábios um sorriso afável, enquanto fechava a gaveta, que dava por encerrada a minha árdua e desprazível tarefa de desfazer malas
- Podia ter esperado e eu tinha ajudado você… - sugeriu, enquanto se encaminhava para dentro do quarto e encostando a porta, que até à sua chegada se encontrava aberta
- Obrigada, mas eu dei conta do recado sozinha… Foi fácil! – os meus lábios repenicaram no face esquerda da mãe dele, um beijinho dócil em forma de agradecimento
- Ainda bem então, minha filha… - um silêncio preencheu o ar, somente os nossos olhos falaram com palavras mudas de dor, pois tanto eu como ela, sabíamos o que passava na cabeça uma da outra – E… Tá sabendo que a Belle vem pro casamento?
- Não… Não sabia de nada! Mas isso é óptimo… - correspondi com um sorriso e um olhar polido, à fuga da Dona Regina ao assunto que se havia sem dúvida tornado motivo de silêncio entre nós… David!
- É mesmo… Tá vindo e vai trazer o neném! Só não vem o Leandro porque tá trabalhando!
- Ai, então vou puder conhecer aquele torrãozinho de açúcar! – afirmei entusiasta, passando os meus dedos finos uns pelos outros de forma desordeira, mas elegante
- Claro que vai, minha filha… A Belle me falou que enviou uma foto pra cê, pouco depois dele ter nascido!
- Sim, eu recebi… Ela mandou para o meu telemóvel! Ele é tão pequenino… - recordei com um sorriso vaidoso a terna imagem daquele bebé a quem Belle me dera e iria sempre dar o privilégio de chamar de sobrinho
- É mesmo, minha filha… Nunca vi neném mais lindo!
- A Dona Regina é sem dúvida uma avó babada! – brinquei, passando para trás da linha dos meus ombros, os longos cabelos que me escorria em cascata pelo torso
- É normal… É o primeiro netinho, não há como não ficar babada, né gente?
- Tem razão… Tem toda a razão! – confirmei, mantendo a postura solene, que a gratidão que tinha para com aquela mulher, me exigia
- Mas acho que vou ser assim com todos… Com os próximos que vierem da Belle e até do Davi’! Ser avó é das melhores coisas do mundo…
O facto de ela ter tocado pela primeira vez no nome do filho, numa conversa somente partilhada por nós, fez-me quebrar… Fez-me agir da única forma, que eu me proibira a mim mesma… vacilando!
As palavras sumiram-se no espaço livre entre os meus lábios, o ar fugiu dos meus pulmões e o chão desabou debaixo dos meus pés.
Pela primeira vez, desde o fim do meu namoro com David, eu estava à beira de travar uma nova conversa com a mãe dele acerca do sentimento que ainda nos unia e eu conseguia ler isso com um simples olhar recaído sobre ela. O instinto maternal que tão bem lhe reconhecia, dizia-me que ela iria dispor-se a ouvir-me e por fim iria fazer com que abrisse o meu coração da forma mais pura, mais sincera, mas mais dolorosa.
- Ah… Bem, se calhar é melhor descermos… Aqui já está tudo! – afirmei, tentando fugir à conversa inerente que se dissipava no ar, mesmo antes de qualquer palavra ser proferida, e movimentando o meu corpo na direcção da saída daquele quarto
- Adriana, espera só um momentinho… Posso te perguntar uma coisa?
- Claro, esteja à vontade… - disponibilizei-me de qualquer das maneiras e acabei completamente atolada nas consequências da minha simpatia constante
- Cê ainda ama o Davi’, não ama? – o ar voltou a faltar-me naquele mesmo instante e o meu pequeno coraçãozinho deixou de bater, comprimindo-se do tamanho de um punho cerrado no lado esquerdo do meu peito
- Oh Dona Regina… - tinha a intenção de iniciar um discurso coerente para ludibriar aquela pergunta, mas acho que o intento se tornou demasiado claro para ela e por isso interrompeu-me antes que concretizasse aquele que era o meu desejo
- Pode dizer a verdade, minha filha… Cê sabe que eu jamais direi alguma coisa pro meu filho! – apesar de saber que ela jamais me iria falhar, o meu coração vacilante ainda equacionou negar um sentimento que ainda me era bastante familiar e evidente
- Sim… Ainda o amo, Dona Regina! – confirmei, deslizando o meu olhar para o soalho de carvalho encerado que nos preenchia a soleira dos pés – Mas acho que é normal, estivemos juntos muito tempo e só estamos separados há uns meses… - procurei enumerar uma lista de justificações, que eu sabia que não tinha de dar, mas preferi fazê-lo, antes que a minha confissão fosse mal interpretada ou aceite
- Não se engana a você própria, minha filha! Cê sabe que não vai esquecer o Davi’ tão cedo… - e foi assim que ela me apanhou… num único tiro certeiro, directo na muche
- Talvez, mas isso só o tempo o dirá… - indaguei vagarosamente, num sopro de ar combalido pela dor
- O tempo e o seu coraçãozinho… - contrariamente ao que eu esperava, a mãe do homem que ainda amava muito, sorriu-me no seu jeito maternal e sempre meigo
- Mas, Dona Regina, oiça… Se me vai dizer para seguir em frente, para deixar o David ser feliz porque está num novo relacionamento, não precisa… Eu sei bem qual é o meu lugar, não me vou meter entre eles os dois! – apesar da dor e remorsos que sentia, fui o mais sincera possível, pois de facto não planeava qualquer forma de os separar, visto que havia testemunhado com os meus olhos a felicidade e amor que os unia
- Eu não ia dizer isso, Adriana… - afirmou serenamente, acrescentando depois de forma sussurrante algo que não tive a certeza de ouvir, pois a mãe de David deixou-me sozinha, saindo do quarto - Muito pelo contrário…
***
Acabei por visitar os meus pais naquela tarde, mas fiquei somente do lado de fora da casa, que um dia pertencera ao meu querido avô.
Desde o seu falecimento que não conseguira mais pisar aquele chão, pois até o mais pequeno detalhe me fazia recordar dele e da sua vivacidade incomum para a idade que tinha. Somente uma pessoa me teria dado força suficiente para encarar aquilo, mas essa também já não se encontrava mais do meu lado, desta vez não por intuito do destino, mas sim pelos meus próprios erros.
Regressei à casa da família Amorim, sentindo-me mais vazia do que nunca e essa sensação só se agravou, assim que estacionei o meu Audi junto do portão e senti vozes de calor humano circundarem o perímetro da sala interior.
- Boa noite… - cumprimentei educadamente, depois de fechar a porta atrás de mim e passar o olhar pela sala de estar que se encontrava cheia pelos mesmos rostos da tarde sumida
- Mad’inha! – nesse instante toda a dor que assolava o meu coração desapareceu, pois o espacinho de afecto de se encontrava livre, foi preenchido pela doçura da minha pequena Sofia
- Oh, minha tinkiunki… Que coisa boa, que saudades! – murmurei juntinho do seu ouvido, enquanto a segurava apertadamente nos meus braços trémulos de tanta emoção
- Também tive muntas shaudades tuas, mad’inha! – confessou-me naquele seu jeitinho trapalhão, passando os dedos robustos de pequenez pelos traços cansados do meu lívido rosto
- Como estás, piolha? Diz-me… Quero saber tudo!
- Estou bem, mad’inha… Canshadinha, mas bem!
- Ainda bem, minha princesa… Ainda bem! – um sorriso meigo enterneceu a minha boca e a pontinha dos meus lábios ocorreu ao narizinho da minha pequena menina, beijando-a
- Adriana, como pensei que ias jantar com os teus pais, mandei servir o jantar… mas se quiseres vou preparar-te qualquer coisa! – atempou-se imediatamente a minha tia Bela, no denote de educação exímia que eu há muito lhe atribuíra como traço fundamental da personalidade
- Não… Não precisa preparar nada, tia. Muito obrigada, mas eu antes de me ir deitar, vou à cozinha e preparo qualquer coisinha!
- Quelho do’milhe contigo, mad’inha! – pedinchou a pequena Sofia, contorcendo-se de excitação no afago maternal dos meus sucintos braços carinhosos
- Larga de ser metida, muleca! – Brenda interveio imediatamente no seu pronuncio de mãe dedicada, colocando um travão imediato no desejo inerente da minha adorada afilhada
- Oh mamã… Vá lhá, não sejas má!
- Não tem mal, Brenda… Eu não me importo que ela durma comigo! – esclareci, beijando a pequenina e escaldante testa daquele anjinho lindo
- Vês, mamã…? Vá lhá… - Sofia insistiu, unindo as duas mãozinhas na frente do rosto em sinal de súplica e esbugalhando os seus dois majestosos pedaços de céus, capazes de manipular até o coração mais frio do mundo
- Pronto… Cê ganhou, mas nada de aprontar pra cima da sua madrinha!
- Ela porta-se bem… Não é, piolhinha? – inquiri, sabendo que iria encontrar uma resposta prestes à minha condição para a realização daquela noite de aconchego nos braços de alguém que ela tanto amava e de quem recebia tanto afecto
- Shim… É claro que eu po’to bem, mad’inha! – com aquele sorriso traquina nos lábios e os dois olhos latentes de folia, assimilou a resposta que eu já esperava receber da sua parte
- Então fazemos assim… Tu sobes para ir vestir o pijaminha, lavar os dentes e deitas-te, que a madrinha vai só comer qualquer coisa e sobe já, pode ser? – propus, enquanto pousava o seu corpo pairante no chão e vislumbrava a expressão extasiada de interesse da minha pequenita
- Shim… Combinado! – selou a sua aceitação do contrato, beijando-me a face esquerda e subindo numa correria eufórica escadas acima, sendo a pobre Brenda obrigada a segui-la numa agitação já habitual para aquela que era a mãe daquele pequenino relógio de pilhas infindáveis
- Então, aqueles que já se vão deitar… Boa noite! – desejei, tentando ao máximo que o meu olhar não se depreende-se nem por um único segundo na figura masculina que ainda detinha o aval do meu quebrado coração magoado
- Tem certeza que não quer ajuda, minha filha? – a preocupação carinhosa de Dona Regina, fez-me esboçar um sorriso meigo e encará-la com a mesma calmaria usada para lhe responder
- Não, obrigada… Vou preparar qualquer coisa simples e subir pra descansar! – quando senti que tanto ela como a mãe de Ruben se encontravam mais convencidas, sorrindo-me, dei-lhes um beijo na testa e segui o meu caminho num protesto que foi unanimemente correspondido por todos – Boa noite, pessoal…
- Boa noite…
Preparei uma sandes de fiambre e queijo, que acabei por comer sentada na bancada central da cozinha solitária e envolta na neblina insegura da escuridão. Quebrei o sabor enjoativo da comida, que empurrei a custo para o meu estômago, com meio copo de água gélida retirada da torneira. E para terminar aquela noite em grande, de forma a relaxar por completo, nada melhor do que o já habitual – desde que deixara David – cigarro.
- Ora cá vamos… - incentivei a mim mesma, puxando o fecho do meu casaquinho até cima e enveredando pelo caminho livre e ermo do alpendre traseiro, que ladeava amorosamente a piscina iluminada por cinco ou seis focos de luz
Sentei o meu corpo na pontinha de uma das esteiras e num gesto que já me era natural, retirei um cigarro no maço e repuxando-o até aos meus lábios, ateei-lhe fogo, dando o primeiro trago profundo. A sensação de calmaria que me invadia sempre que fumava, preencheu todo o meu corpo e acabei por cerrar as palmas, deixando a minha mão pender em direcção ao solo, mas sem deixar cair o incandescente cigarro.
Aquela paz que se apoderou de mim e se fez acompanhar pelo silvar das folhas secas nas copas das árvores e pelo estridular dos grilos e cigarras que assustadas preambulavam pela noite tépida de Outono, foi quebrada pelo arrastar metálico da porta que eu atravessara há minutos.
Senti uns passos levemente brandos que se precipitaram na minha direcção, mas não me exaltaram, pois não movi um único músculo e deixei-me estar… entregue a uma das poucas tarefas que ultimamente me faziam sentir completa.
- A Sofia já tá esperando você...
Aquele timbre harmonioso fez o meu coração disparar de uma forma descompassadamente aclamada. Não precisei sequer de rodar o meu corpo, buscando a figura dona daquela voz, pois eu sabia melhor do que ninguém a quem ela pertencia, apesar de não a escutar há já dois meses… Dois meses… Dois longos e duros meses sem nos falarmos, sem conversarmos, sem nos tocarmos, sem nos vermos… Mas isso estava prestes a mudar…
Peço desculpa pela demora em postar o capítulo, mas a escola não tem perdoado e daqui para a frente as coisas devem manter-se mais ou menos iguais, por isso espero que compreendam!
Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem e não se esqueçam de comentar!
Beijinhos,
Drii :)

31 comentários:
Lindo, lindo, chorei, e quero o próximo capítulo rápido por favor Driii, tenta postar ao meio da semana por favor.
fantastico... maravilhoso...
quero mais... agora tou curiosa para ver o proximo capitulo...
continua...
Aii Dri, não acredito que nos vais deixar nesta ansiedade de saber como vai correr a conversa entre eles :c És tão má! xD
Mas olha, adorei o capítulo! Está mesmo lindo!
Beijinho (:
Céus!!! Estes capítulos matam-me... será possível que tinhas de acabar agora???!!!
Vou tentar sobreviver até ao próximo, ainda morro de ansiedade... muito bom mesmo.
Acho que já te disse tudo sobre a tua escrita por isso o que posso dizer mais é que acabo de ler e fico com vontade de mais e mais, mais e mais...
Lindo, fantástico!!!
Beijinhos
...e mais uma vez cá estou eu feita Madalena arrependida a chorar sem parar e sem ter palavras para defenir este mágnifico capitulo e com uma musica igualmente magnifica que o completa...
Mais uma vez muito obrigada Dri pelos momentos que nos porpocionas ao ler estes maravilhosos capitulos que nos levam a esquecer por momentos a nossa vida e a viver outra completamente diferente...obrigada...Bj.
Ana
Lindo demais Drii, eu chorei! Admito hehe
E gostei muito do final , humm , o que será que vem por ai ??
Quero mais sua malvada =//
Beeeeeeeeeijos!
Eu não acredito que nos vais deixar a sofrer um tempão pela continuação desta conversa.Chorei que nem uma Madalena arrependida, é preciso coragem para enfrentar a realidade,que é a nova namorada do David. Fogo é preciso ter lata, ele tinha mesmo que levá-la?
Fiquei com pena da Quimera, coitado do bicho ter que ficar na rua por causa da madame.
Amei, Dri,tá fantástico como sempre,mas gostava tanto que eles fizessem as pazes...
Continua, tá cada vez melhor
Beijocas
Fernanda
bem tu ja sabes que não adorar os teus capítulos é impossivel, logo este nao á excepção, agr é assim eu sei q é dificil com a escola a correr e ainda pr cima tar no 12 ano eu sei,e sei q provavelmente vais so postar la para o meio do mes de novembro mas por favor nao postes muito tarde este cap, pq eu acho que morro de ansiedade pra ver a conversa deles! continua asssim : ) beijinho grande : D
ass: andreiaaaa23
OHHH isto não se faz! Acabar uma capitulo assim devia ser crime!! ;p
Espero o próximo ansiosa!
Bjokinha
Mariaa
http://mariaainwonderland.blogspot.com
O capitulo está mais que fantastico.
Bem parece que ninguem gosta da nova namorada do David, se calhar nem ele xD
Espero que esta conversa seja muito produtiva ^.^ estou ansiosa, e assim que poderes publica.
Beijinho
Oh meu deus... Adriana tu tens o dom de me pores a chorar quando leio os teus capítulos.
Está magnífico como sempre e tu sabes que eu podia estar aqui mais de uma hora a elogiar-te mas não seria suficiente para que correspondesse à realidade.
Como tens andado? Espero que esteja tudo bem contigo.
Percebo tão bem a Adriana na questão do avô que até me arrepio toda, e fica já sabendo que não gostei nada da Joana.
1º - por ser arrogante para a Quimi
2º - por estar no lugar da Adriana
3º porque ninguém pareceu gostar muito dela.
A dona regina continua uma querida, e o senhor lau também.
Espero ansiosamente por mais um dos teus maravilhosos capítulos, e já sabes: quanto mais depressa os puseres a conversar mais depressa me pões a sorrir.
Beijinhos <3
Oieeeeeeeee
ADOREIIIIIIIIIIIII :D nao gostei dessa namorada do David , ele tem é de ficar com a Adriana :D
Beijinhos
Lindo!! Como é possivel?! cada vez que eu acho que vai ser no proximo capitulo que O David e a Adriana vao falar, nunca é :s
Coitadinha, ate me doi a mim também. ve-lo ali, tao perto com outra. mas que outra?! que arrogantezinha. mandava-he a quimera para cima. é que nem a cadela gosta dessa Joana.
e agora? o que sera que eles vao falar? como ficarao as coisas? sera que a adriana vai lhe dizer o porque de te-lo abandonado mais uma vez?
tou tao curiosa. queria tanto chegar aqui amanha e ver um novo capitulo!!!
eu sei que é complicado. E espero, vale sempre a pena esperar.
bjs*
Ai! Amei!
Estive a semana toda à espera disto e amei!
Espero que eles se esclareçam nesta semana e que a outra se vá embora que já não gosto dela só! Já a odeio!
Adorei o último parágrafo... sinal de mudança!
lol
Beijinho
Bem é impossivel nao sentir na pele aquilo que tu escreves ... Custa me ver a adriana tao triste e desolada, sem apoio! So espero que as coisas melhorem para o lado dela. Ela mais do que qualquer outra pessoa merece ;)
Fico à espera do proximo!
Bjs
PS: qual é o nome da musica do teu blog?
minha querida já nao sei o que hei-de dizer mais, fico sempre sem palavras quando leio um capitulo teu e este nao é excepçao! tá lindo, adorei imenso e peço-te para nao nos deixares muito tempo à espera, posta rapidinho porque eu vou ficar à espera!
beijinhos :)
Olá Drii :) como sempre mais um capítulo fantástico e tocante. Queria só fazer-te uma pergunta ou para qualquer outra pessoa que saiba responder. Como se põem os gifs a dar na mensagem? tenho tentado e nunca consigo.
beijinhos.
Ana P.
drii ola, conseguiste adiantar alguma coisa do cap hoje? beijinho : )
dri se puderes responde no blog do david luiz sff : )
amei
AMEI AMEI AMEI AMEI AMEI AMEI AMEI AMEI AMEI AMEI AMEI AMEI AMEI AMEI AMEI AMEI AMEI AMEI AMEI AMEI
E...
AMEI *-*
Mais Mais Mais!
Beijocas
P.S: Visita: ummundodefantasiaerealidade.blogspot.com
Minha querida, só para avisar que postei um enorme capítulo com direito a bónus.
p.s: já reli este teu capítulo umas três vezes e cada vez gosto mais
Está muito muito lindo!
Excelente! :)
Beijo :)
ADOREI :D
tu escreves tão bem que quando o capitulo chega ao fim fico sempre deprimida porque quero mais :)
Que venha o próx. tenho a certeza que vais ser fantástico !
Beijinhos
Adorei Adriana!!!!!!
Espero que postes rapido, fiquei curiosa.
Bjs
Amooo a tua fic! É magnífica! Fico à espera do próximo. Beijinhos
fiquei com lágrimas nos olhos! estou ansiosa pelo que se segue, Drii
Mariana Vieira
Queria dizer-te que gosto muito da tua fic.
Muitos parabéns e continua a surpreender.
Beijinhos
http://www.lifearoundworld.blogspot.com/
Excelente como sempre :D
Estou em "pulgas" pelo próximo capítulo ;)
Catarina : )
quando publicas novamente?/ matie
MAAIS, POR FAVOR DRI, NÃO ESTOU ME AGUENTANDO DE TANTA CURIOSIDADE +.+
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