sábado, 16 de julho de 2011

Capítulo 111 – A vida segue... (Parte I)


Dois dias depois do confronto com David os ânimos estavam mais calmos. Eu já não chorava a toda a hora, não tinha o maior sorriso do mundo na cara como se pode imaginar, mas estava de pé… Tinha força para seguir em frente, para seguir com a minha vida e para já, isso era o necessário.
A primeira que coisa que fiz foi livrar-me de todas as recordações dolorosas de David e da nossa relação.
Fui à dispensa e trouxe de lá uma caixa de cartão. Caminhei até à sala e coloquei-a no centro da mesa de apoio, pois tinha como destino todas as provas de que o nosso amor havia sido real, mas mais do que isso… Que havia sido vivido!
Comecei por recolher todas as fotografias minhas e dele, quer do quarto, quer da sala ou do hall e coloquei-as bem no fundo da caixa. Por cima acrescentei tantas outras coisas, desde livros, CD’s, flores já secas e terminei arrumando algumas camisolas dele, que estavam entre os meus pertences.
Aquela caixa fez pousio debaixo da cama do quarto de hóspedes e estava determinada a não lhe tocar por tempo indefinido, pelo menos até o meu coração estar recomposto, se é que isso algum dia seria possível…
Fui até à cozinha na esperança de conseguir preparar alguma coisa para o almoço, mas foi totalmente em vão, só de olhar para aquela comida toda fiquei enjoada e cansada, por isso acabei por me jogar no sofá e aí fiquei até o som irritante do meu telemóvel me interromper o descanso.

- Estou sim? – coloquei o telemóvel no ouvido e sentei-me no sofá

- Alô, alô, miúda! – uma voz doce e calma, que me era familiar surgiu do outro lado do telefone

- Catarina? És tu? Oh meu Deus, que saudades! – um rasgo de ternura preencheu todo o meu coração em cacos  e finalmente consegui sorrir – Que é feito de ti, miúda?

- Olha, regressei a Lisboa… Finalmente em bom porto!

A Catarina era uma colega minha dos tempos do secundário, uma sportinguista ferrenha, mas que tinha estado do meu lado em quase todos os momentos amargos que a vida me proporcionara.

- Ai, estás em Lisboa? Que bom, que bom! Temos de marcar qualquer coisa…

- Claro que sim, tenho de aproveitar antes que a tua onda de concertos comece, senhora estrela! – ela riu-se e eu também, por muitos problemas que aquela miúda pudesse ter na sua vida, um sorriso nunca lhe faltava

- É quando tu quiseres, meu amor! – afirmei alegremente, pois achei que talvez me fosse fazer bem conviver com uma pessoa que amava muito e era naturalmente muito bem-disposta

- Então é daqui a duas horas no Colombo! – a sua voz espevitada apanhou-me de surpresa e com o olhar percorri a minha figura, que ainda se encontrava dentro de um pijama

- Daqui a duas horas? Estás doida! – gargalhei levemente, pois não levei a sério a sua proposta visto que era tão em cima da hora

- Não, estou a falar muito a sério… Já me chegou aos ouvidos que andam umas tristezas para esses lados e por isso quero-te muito rapidamente no Colombo, linda e maravilhosa para uma tarde só de mulheres!

- Uma tarde de mulheres? Mas e então a faculdade? Tenho aulas daqui a uma hora e meia…

- Não importa, já passaram os exames e os trabalhos, ias para lá pastelar e além disso as meninas vão todas faltar! Vá lá, vem connosco, vai ser divertido e sempre matamos saudades… - tornou-se difícil e impiedoso resistir àquele pedinchar saudoso de Catarina

- Pronto, topadíssimo! Daqui a duas horas no Colombo então… - sorri levemente

- Ah, assim é que e falar! Encontramo-nos naquele largo principal como sempre, pode ser? – questionou-me e por trás ouvi as comemorações das restantes meninas

- Sim, lá estarei daqui a duas horas!

- Não te atrases!

- Nada disso, relaxa… Beijinho, gatita!

- Beijinhos, princesa! Adoro-te!

- Também te adoro, pequena! Até já… - desliguei o telefone e respirei pesadamente

Era certo que a vida seguia, que era altura de sair, de me divertir, de ver novas caras e conhecer nova gente, mas ainda era tudo muito recente e apesar de eu aparentar estar bem e feliz, pelo menos minimamente, por dentro sentia-me em estilhaços. De qualquer das formas, acabei por levar a cabo um esforço extra e ir encontrar-me com as meninas. Como sempre detestei chegar atrasada onde quer que fosse, corri para o duche, escolhi uma roupa muito rápida e simples e saí de casa, tendo como destino as garagens do Colombo.
Só o simples acto de ter tocado o volante do meu carro e ter rodado a chave na ignição fez com que vacilasse e por consequência disso, todo o percurso foi feito com as lágrimas a correrem-me a fio pelas faces. Dei graças a Deus por ter levado óculos de sol e não ter colocado maquilhagem naquele dia, pois assim sempre dava para disfarçar um bocadinho.


- Ela nunca mais chega… - ao chegar por trás delas ouvi a Catarina lamentar-se num tom de voz dominantemente tristonho

- Se calhar apanhou trânsito, também a avisaram mesmo em cima da hora! – disse Ana, outra das minhas amigas do tempo do secundário

- Estou mesmo aqui! – esbocei um sorriso forçado e coloquei-me na frente delas

- Oh piolha, que saudades! – a Catarina lançou-se na minha direcção e acabou por me abafar num dos seus abraços carregados de ternura

- Podes crer, miúda… Que saudades!

Queria ter sido mais amável, mais carinhosa, mas o meu coração estava tão partido pelos acontecimentos recentes que não consegui. Acho que elas perceberam que algo não estava bem e por isso não disseram mais nada. Cumprimentei todas, uma por uma: Débora, Ana, Catarina e Kika. O grupinho de sempre novamente reunido para uma tarde de animação, pelo menos para elas. Seguimos para a Pizza Hut e ficámos numa mesa redonda de cinco.

- Não sei o que hei-de comer… - rabujou a Ana ao ler a ementa pela centésima vez e já com o empregado de mesa à espera somente do seu pedido

- Oh Ana despacha-te, o senhor está à espera… - relembrou Kika dando um gole no copo de ice tea que entretanto o senhor já trouxera

- Não se preocupem, eu tenho tempo… - respondeu-nos sorridente e calmo

- Olha pode ser uma pizza vegetariana então… De massa fina!

- Pronto, trarei já os pedidos! – o senhor sorriu uma última vez e retirou-se na direcção da cozinha

- Aleluia, estava difícil, Ana! – a Catarina riu-se levemente, pois não perdia uma oportunidade que fosse para provocar alguém

- Oh, sabem como sou… Gosto de pensar bem nas coisas! E não sabia bem o que me apetecia comer!

Nesse exacto momento as restantes meninas, exceptuando a Ana a eu, que estava completamente longe de tudo aquilo, reuniram-se num uníssono perfeito.

- Há coisas que não mudam! – aí todas gargalharam fortemente, tendo mesmo a mesa do lado reparado em nós e rido também, mas eu não fui capaz, limitei-me a sorrir levemente enquanto as minhas unhas brincavam com o papel da mesa

A diferença de animação que se fez sentir no grupo, levou a que elas trocassem olhares entre si, intercalando-os com outros piedosos sobre mim. Elas conheciam-me, sabiam que algo não estava bem, algo não estava certo e não conseguiram conter-se.

- Não vais tirar os óculos de sol? – perguntou Débora meio a medo

- Aqui dentro não está muita claridade… - apontou Ana de forma cautelosa

- Sim, têm razão! – forcei um sorriso e iniciei o movimento para o fazer

Sabia que o meu aspecto não devia ser dos melhores. Encontrava-me sem maquilhagem e com os olhos fatalmente vinculados pelas poucas horas de sono e as muitas de choro. Retirei-os e deixei expostos os meus olhos inchados em consequência de todas as lágrimas que derramara naquelas últimos dias. Elas olharam-me em sinal de admiração, pois já me conheciam há mais de cinco anos e muito dificilmente me tinham visto daquele estado. Forcei um sorriso e coloquei os óculos sobre a mesa, do lado do meu telemóvel.

- Adriana… - Catarina, que se encontrava na minha frente, murmurou muito baixinho

- Que foi? – perguntei com um sorriso na cara, que tinha tanto de grande, como de falso

- A tua cara… - ela proferiu estas palavras quase num sussurro, mas que me foi totalmente perceptível

- Que tem? Estou assim tão feia sem make? – acabei por arrastar o tema para a brincadeira, mas só para não dar parte fraca

- Tu deves estar farta de chorar, tens os olhos num estado lastimável… - confirmou Catarina, olhando-me carregada de preocupação

- Não, deve ser impressão tua! – voltei a falsear um sorriso de orelha a orelha

Quando uma delas ia tentar retomar a conversa fomos interrompidas com a chegada dos pedidos e agradeci por isso

- Ora aqui estão os pedidos… - constatou o senhor posicionando os tabuleiros no centro da mesa – Espero que esteja do vosso agrado, bom apetite!

- Obrigada! – respondemos todas em uníssono

Antes que o tema anterior à chegada da comida se retomasse, servi-me da primeira fatia de pizza e comecei a comer calmamente, sem lhes dar grande bola. Queria simplesmente estar no meu canto, sem ninguém a fazer-me perguntas, sem ninguém a relembrar-me constantemente da presença do David, ou melhor da presença que ele em tempos ocupara na minha vida e que naquele momento era substituida somente pela sua ausência.

- Hum, está deliciosa! – tentei meter conversa, ao reparar nos olhares à deriva sobre mim enquanto comiam

- Tu não vais mesmo falar sobre o que aconteceu para estares assim? – a Catarina não era mulher de desistir por nada, nem mesmo por uma finta como a que eu tinha feito, ou melhor, que tinha tentado fazer

- Não há nada pra falar… E eu não estou assim, não estou de modo nenhum, estou simplesmente eu, a Adriana de sempre…

“… a Adriana de sempre, antes de ter conhecido o David” acabei por completar nos meus mais profundos pensamentos, relembrando assim todos os motivos que me tinham levado àquele deprimente estado de alma, que teimava em se reflectir no meu rosto, estampando-o de consternação e tristeza.

- Não sei quem estás a tentar enganar, mas as tuas amigas de anos e anos, não é de certeza… - relembrou Kika que se prostrava do meu lado direito na mesa

- Meninas, eu estou bem, a sério que sim… - tive de parar de falar um pouco, pois senti os meus olhos a quererem ceder e renderem-se às emoções evidentes e tão recentes – Não tenho nada, que não acabe por passar com o tempo!

Acho que por me verem quase à beira das lágrimas, elas preferiram não insistir mais no assunto, uma vez que foi perceptível, toda a dor que me provocava. Os temas acabaram por derivar, ao fim de alguns minutos de silêncio, e quando retomei à realidade, quando o meu coração permitiu à minha cabeça esquecer o David e as nossas recordações durante alguns minutos, dei com elas a actualizarem-se dos relacionamentos umas das outras e sabia que isso iria ter um preço… pelo menos para mim!

- Então e tu, Adriana… Como vão as coisas com o David? – questionou Débora inocentemente, uma vez que elas nada sabiam do sucedido, mas isso estava prestes a mudar

Automaticamente que ouvi o nome dele vindo da boca de outra pessoa, o nó que eu tanto demorara a desmanchar de dentro do meu coração durante aqueles dias, voltou a surgir e mais apertado do que nunca. Compreendi que eu não amenizara em nada a dor naqueles dias, somente a tinha ignorado, a tinha camuflado de novas sensações e sentimentos, mas naquele momento veio tudo ao de cima. Apesar das lágrimas terem turvado momentaneamente os meus olhos, encarei-as e assumi uma postura de frieza, que não era de todo habitual em mim, mas era minha maneira de me defender da dor que estava a sentir e em parte, uma maneira de permitir que essa mesma dor não se agravasse devido ao facto de estar a falar nele.

- Não vão! – uma resposta curta e breve, mas que ainda assim me fez soluçar de emoção

- Como assim, não vão? – a Catarina olhou muito espantada para mim e aqueles seus olhos azuis esverdeados, ficaram nublados por um cinzento desinquietante

- Muito simples… Não vão! – voltei a firmar a resposta anterior e dei uma dentada na minha fatia de pizza, como se estivesse a falar do assunto mais natural do mundo

- Como assim? Acabou? – questionou a Ana de olhos esbugalhados e boca semiaberta num perfeito “O”

- Sim, acabou…

- Acabou e tu estás assim? Calma... A falar com essa descontracção? – a Débora conhecia-me e sabia que estava somente a montar um personagem que era completamente distante do meu verdadeiro “eu”

- Que querem que diga? Acabou, acabou e agora é seguir em frente…

- Adriana, hello?! Estamos a falar do mesmo David? Do teu David?

- Sim, estamos a falar do que era o meu David… Acabou meninas!

- Como é que estás? – perguntou a Catarina, numa voz oscilante pelo medo e receio de me ver chorar

- Bem, vai dando pra levar… Não há nada que o tempo não cure! – esbocei um ténue e forçado sorriso e continuei a comer

- Adriana, podes falar connosco, somos tuas amigas… Ninguém te quer tanto bem como nós! Podes ser sincera e dizeres o que estás a sentir…

- Querem mesmo saber? – fiz uma breve pausa até todas acenarem positivamente com a cabeça – Estou uma merda, apetece-me chorar e gritar a toda a hora! Sinto-me totalmente desamparada e sem vontade de voltar, mas tirando isso estou bem, muito bem!

- Como é que isso aconteceu? – percebi que de todas a Catarina era a mais surpresa ou talvez por ser curiosa, fosse a que procurava mais respostas

- Os jornais… - concluiu Ana, antes mesmo de eu dizer o que fosse

- Sim, isso mesmo… Ele ia recusar a proposta por minha causa e então eu deixei-o, é o melhor para todos!

- Deixaste-o, Adriana? – a Débora mostrou-se muito surpreendida

- Sim, deixei-o e peço desculpa, mas não quero falar mais no assunto meninas… - decidi recolher-me um pouco, expor os meus sentimentos e emoções não era de todo um dos meus actos preferidos, uma vez que era característica própria da minha personalidade resguardar-me sempre que sofria

Elas não insistiram mais no assunto e o almoço prosseguiu acompanhado de uma partilha de histórias do primeiro ano de faculdade, pelo menos da parte delas, pois eu limitei-me a ouvir, ou pelo menos a fingir que ouvia. Quando chegámos ao fim, dividimos a conta em cinco partes iguais e assim procedemos ao pagamento.

- Bem, acho que vou andando para casa… - disse enquanto nos encaminhávamos para fora do restaurante

- Já?

- Sim, tinham pensado em mais alguma coisa?

- Claro, achas que eu vinha a Lisboa, planeava uma farra e limitávamo-nos a almoçar? Estás doidinha, só pode!

- Oh, não ligues… Quais são os planos então?

- Já vais ver! – a Catarina sorriu e puxou-me por um braço

À medida que nos afastávamos da zona de restauração e nos aproximávamos da zona das lojas, comecei a perceber para onde ela nos levava. Por momentos achei que estava louca, que ela não ia fazer uma coisa daquelas e por isso aguardei em silêncio até chegarmos ao destino. Pelo caminho tive de passar em frente a uma das lojas preferidas de David e de onde provinham a maioria das suas roupas. Uma nostalgia invadiu-me ao recordar todas as vezes que o acompanhara nas idas àquela loja para comprar qualquer coisinha nova e que lhe assentava sempre como uma luva. A Catarina sentiu as minhas pernas vacilarem e o ritmo das minhas passadas abrandar quando passámos à porta e por isso mesmo puxou-me com alguma veracidade, não me permitindo cessar o trilho que percorríamos lado a lado, rumo a um dos piores sítios possíveis para eu frequentar naquele momento.

- E aqui vamos nós! – gracejou com um enorme sorriso no rosto

Ela parou no destino, que eu já adivinhava como certo: o Funcenter. Iriamos com toda a certeza jogar bowling e que pior lembrança poderia haver naquele momento, que me atirasse para tão perto de David? Era certo que o momento ia doer, ia machucar e então estava na hora de montar a minha melhor personagem… A mais convincente, a mais segura e a mais certa. Esbocei um sorriso falso e forçado e olhei para todas com uma certa naturalidade, que nada tinha de sincera.

- Boa tarde, jogo para 4 pessoas! – solicitou a Catarina, pois como sempre a Kika estava de fora, não se ajeitava nada com aquilo, então preferia nem sequer gastar dinheiro

- Preferência pela pista? – questionou o empregado

- Ah… - antes que a Catarina falasse, resolvi interrompê-la

- Pista 4, por favor… - solicitei com um sorriso, pois sempre que ia com o David ali havia uma discussão devido à minha preferência pela pista 4 e pela preferência dele pela pista 1

- Com certeza… Sapatos?

- Três 37 e um 38, por favor! – a Catarina segurou a minha mão assim que me sentiu mais nervosa e creio que nervosa não era bem a palavra correcta

Eu estava somente nostálgica, queria por um lado sair dali e livrar-me das recordações que já atabalhoavam os meus pensamentos, sem ainda sequer ter posto a bola a rolar, mas por outro queria ficar, ficar e enfrentar a dor… Deixar de ser cobarde, deixar de me lamentar, deixar de sofrer e enfrentar tudo! Enfrentar este mundo e o outro, enfrentar as incertezas dos rostos desconhecidos, enfrentar o júbilo desinquietante daqueles que me eram tão próximos e estavam tão felizes, completamente alheios à minha dor. A obrigação que tinha para com elas, colou os meus pés ao chão e apenas me permitiu movê-los em direcção à pista… à 4, como havia solicitado.

- Vamos lá a isso, minhas meninas! Cheira-me que hoje vão levar uma daquelas e saem daqui de pernas bambas! – gabou-se Catarina na sua típica expressão animada, que era capaz de entusiasmar qualquer um e em qualquer outro dia isso teria funcionado comigo, senão estivesse onde estava

- Sim, sim, confia nisso, Catarina, mas confia só! – a Débora soltou uma gargalhada estridente enquanto calçava os sapatos de jogo

- Adriana, não te vais calçar? – perguntou Ana, que estava sentada do meu lado desempenhado essa mesma tarefa

- Sim, vou… Claro! – depois de despertar do meu mundo de lembranças, encerrei o enorme álbum do passado, que estava escancarado no meu pensamento e decidi tentar divertir-me um bocadinho, ou pelo menos fazer uso ao dinheiro que tinha gasto para aquelas jogadas

- Catarina, és a primeira! – disse Kika super entusiasmada e enquanto espectadora, quando a listagem da ordem de jogo surgiu no ecrã de jogadas

- Aqui vou eu, caras amigas! – ela segurou uma bola firmemente e lançou-a para um strike quase perfeito, que apenas não se realizou por teimosia de dois pinos, que apesar de terem balançado, não tombaram – Viram? Façam melhor se conseguem! – ela deu um leve toque de anca e todas se riram

Seguiu-se a Débora, que como sempre não melhorara ainda em nada o seu jeito para o bowling e somente conseguiu derrubar dois pinos. Depois veio a Ana que apesar da sua falta de jeito no lançamento da bola, conseguiu derrubar todos os pinos logo à primeira tentativa. Todas comemoraram e seguiu-se a minha vez. Avancei para a pista sem qualquer convicção, mas no entanto não me foi nada difícil derrubar tudo de uma só vez, porém fi-lo sem nenhum sorriso nos lábios.

- Boa, miúda! – ouvi a voz de Catarina nas minhas costas

Falseei um novo sorriso e quando rodei a minha cabeça, acompanhando o meu corpo, de frente para ela, tive uma imagem perceptível do que não queria ver pelo menos nos próximos tempos: David. Ali estava ele, encabeçando a pista onde jogava com as meninas, do lado dele tinha um amigo, que eu conhecia somente de vista. Um sorriso cínico delineava cada traço da sua expressão e a cada movimento seu tinha mais a certeza que estava fixo em mim, nas minhas acções e formas de agir. Nada disse, limitei-me e sorrir para as meninas, entretanto um pouco mais composta, mas nem assim consegui demonstrar ponta de felicidade.

- Nossa, é muito atrevimento… - ouvi o David murmurar junto do amigo, mas ainda assim fingi que não me tinha sido suficientemente audível

Virei costas e sentei-me no meu banco, onde na frente se delineava a sombra dele, que nem por um segundo me deixou de atormentar. Vi que as meninas olharam surpresas para mim, quando o viram ali, mas naturalmente que não se atreveram a tocar no assunto, nem que fosse de raspão, nem que sem intenção de me magoarem.

- Estás bem? – sussurrou Kika juntinho do meu ouvido e limitei-me a rasgar um pequeno sorriso e assentir positivamente com a cabeça

Vi o David juntar-se a um grupo de pessoas na pista 1, como era claro! Distingui rapidamente os seus pais, Ruben, Gustavo e uma rapariga, que era muito sorridente e natural. Um laivo de curiosidade e ao mesmo tempo de ciúmes, despoletou em mim uma roda de sentimentos e emoções. Será que ele teria arranjado alguém? Assim tão rápido? Questionei-me a mim mesma durante alguns segundos, mas após observar melhor os traços da jovem moça percebi que já a vira antes, em qualquer lado… Só não sabia bem onde.



Antes de mais tenho mesmo de agradecer por todas as palavras que deixaram nos comentários ao último capítulo, estes incentivos são sempre importantes e fazem-me escrever ainda com mais prazer!
Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem!
Não se esqueçam de comentar, pois é muito importante saber o vosso feedback! :)
Beijinhos
Drii


quarta-feira, 13 de julho de 2011

Capítulo 110 – Amar a 628 Km de distância também é amar (Parte VI)



A pequena Sofia acabou por regressar para o meu colo e foi aí que tomou lugar para darmos início à refeição. Como entradas a Brenda preparou um rodízio de todo o tipo de marisco, o que noutra altura me teria deixado radiante, naquele momento pouco me importou. A vontade que tinha de comer era nula e apenas o fazia por questões de sobrevivência e por grande insistência de Paula.

- Mad’inha, estás tão t’iste, é po’que o Caracole não está cá?

- Não, amor… A madrinha só está cansada, só isso… - a minha mão delineou uma carícia na bochechinha dela

- O Caracole! – exclamou num tom de voz aberto e sorrindo

- Não, amor… É mesmo só cansaço!

- Não é isho, mad’inha… O Caracole, está cá! – ela deu um pulo do meu colo e desatou numa correria frenética pelo jardim

Bastou-me segui-la com o olhar e o meu coração perdeu o ritmo, pois ali, bem perto, prostrava-se David. Este segurou-a no colo, com todo o carinho do mundo, como já era hábito seu.

- Oioi, garotinha! – os lábios dele, deram um ligeiro toque na face direita dela

- Oioi, mulecão! – a menina cumprimentou-o e ambos se riram com as palavras dela, pois sempre fora o jeito deles se saudarem 

- Como cê tá?

- Bem e tu? – ela passou as suas mãos pequeninas pelo rosto nele e tenho de admitir que senti inveja de não o puder fazer mais

- Tô bem… - vi-o forçar um sorriso e ainda nem se tinha apercebido da minha presença, pois aí as coisas iriam piorar

- Os teus olhos… - a pequenina parou para o encarar – Não brilham mais, estão tristes… - um beicinho sereno delineou os delicados lábios de Sofia

- É a vida, moçinha… - ele deu-lhe um beijinho na testa e avançou na direcção da mesa, mantendo a menina no seu colo - Alô gente, boa tarde! – a voz dele inundou todo o espaço circundante e apesar de ele não me ter visto logo, todo o meu corpo gelou

O meu olhar prendeu-se rapidamente no de Paula, pois ela garantira-me que ele não iria estar ali. Senti um nó enorme formar-se no meu estômago e por uma questão de segundos, o meu coração perdeu a vida.

- E aí, mano? Sempre vieste… - Ruben deu-lhe um aperto de mão e sorriu

- Sim, sempre é melhor que ficar fechado em casa, né?

- Sim, é isso mesmo! Estavas a precisar de sair…

- Se senta, Davi’! Ainda vem a tempo do almoço! – a Brenda esboçou um enorme sorriso enquanto colocava na mesa mais um prato para ele

Finalmente o olhar dele cruzou o meu, um fogo ardeu dentro de mim e quase me queimou de tanta dor. Acho que nunca havia sentido nada assim… Um laivo de tristeza, com toda a certeza, pintou os meus olhos e estes fixaram-se na mesa, quando se tornou impossível encará-lo mais. Porém ele nem se moveu, ficou ali a olhar-me, enquanto todos os outros o faziam. Olhavam-nos esperando qualquer reacção, provavelmente uma discussão, mas essa nunca chegou a acontecer… Ele sorriu cordialmente a Brenda, como que agradecendo o lugar posto na mesa e com a pequena Sofia no colo, ocupou-o, sem me olhar mais ou proferir qualquer palavra.

- Davi’, quer sumo de laranja ou cerveja? – questionou Luisão

- Cerveja, por favor…

Aquela resposta provocou-me alguma estranheza, pois ele raramente bebia álcool, muito menos num almoço de amigos e tão pouco cerveja. Apesar de toda a admiração que o pedido dele me possa ter causado, não ousei sequer olhá-lo, nem por um segundo que fosse… Todos naquela mesa sabiam do sucedido e como me senti muito envergonha por o ter deixado, baixei a cabeça e assim permaneci durante toda a refeição.

- Olha lá, David… Porque é que não trouxeste os teus pais? – o Ruben nunca se conseguia manter calado, apesar de serem horas de comer e não de conversar

- Meus pais foram almoçar na casa de uns amigos…

- Que amigos, mano?

- O Sr. Francisco e a Dona Isabel… - quando ouvi o nome dos meus pais, e apesar de ter os olhos presos ao prato na minha frente, estes esbugalharam-se em sinal de admiração

- Foram almoçar juntos? – questionou o Ruben, tão surpreso quanto eu

- Sim, foram… Na casa deles! Queriam estar juntos antes da gente ir embora pra semana…

- Hum, tá bem… - o Ruben e eu trocámos um olhar surpreso, mas porém discreto

- Mad’inha… - a voz da Sofiazinha despertou-me

- Diz, meu amor… - fiz-lhe um carinho nas faces e esta saltou para o meu colo

- Não go’to de te velhe ashim t’iste…

- A madrinha não está triste, isto já passa, sim? – dei-lhe um pequeno toque de lábios na testa e ela aninhou-se no meu corpo

- Vocês não estão mais juntos, num é? – a menina falou baixinho e olhou-me

- É, meu amor… É isso…

- A mamã disse que ele vai embolha…

- Vai, meu anjo… Ele vai embora…

- É por isho, que vocês acabalham?

- É Sofia linda, é por isso… - mantivemos o tom de voz baixo, para mais ninguém ouvir a nossa conversa

- Ele vai para onde?

- Para Madrid, meu amor… Para Madrid… - respondi num sorriso triste e por minutos a menina ficou em silêncio digerindo tudo

- Mamã, Madrid fica muito longe? – questionou Sofia, olhando Brenda e todos na mesa pararam para a observar

- Um pouco, meu anjo…

- Quão longe, mamã?

- 628 km, meu anjo! – ela sorriu e continuou a comer a sobremesa

Um silêncio arrebatador dominou todos os presentes e um sofrimento delineou os rostos de que era mais próximo a mim e a David, o que era o caso de Paula e Roberto. Admirei Sofia alguns segundos e fui-lhe fazendo pequenas festas nas faces rosadas pela tenra idade, mas foi quando ela se desprendeu do silêncio, que proferiu algumas das palavras mais sábias que alguma vez ouvira na minha vida, e vindas somente de uma menina de 3 anos…

- Shabes, Ad’iana… Amar a 628 km de distância, também é amar… - proferiu num tom perfeitamente audível a qualquer dos presentes

Mesmo que lhe quisesse ter respondido, o que não era de todo o caso, a televisão do pequeno alpendre anunciou uma série de notícias do Benfica e assim que a imagem do presidente surgiu todos se silenciara o volume subiu.

“ – Sr. Luís Filipe Vieira, quando é que o Benfica irá fechar o negócio com o Real Madrid por David Luiz?

- O Benfica não fechou, nem irá fechar negócio com o Real Madrid por David Luiz…

- Mas membros da equipa madrilena afirmam que há negócio em vista e o jogador declarou disponibilidade para sair…

- O David é e continuará a ser jogador do Sport Lisboa e Benfica, durante esta época… Ele tem um contrato firmado por mais 3 anos e tudo implica que irá cumpri-lo!

- O Real Madrid não atingiu o valor pretendido pela SAD encarnada?

- Não é uma questão de valores… O David Luiz simplesmente não está à venda por esta época! O treinador precisa do jogador e este solicitou-me a sua permanência no clube!

- Mas David Luiz afirma querer sair do clube…

- O David não afirmou nada, tudo o que vi até agora foram rumores em páginas dos jornais, eu conversei com ele e o assunto está resolvido…

- Conversaram sobre o quê?

- O David pediu-me para ficar no clube…

- A permanência foi negociada através de um melhoramento de ordenado?

- Lamento, mas o teor da conversa só interessa ao clube… Apenas posso dizer que o David Luiz irá ficar na Luz esta época e que o único negócio com o Real Madrid é o de Di Maria, que hoje viaja para a capital espanhola… Não tenho mais nada a dizer, com licença… “

A notícia teve fim e o repórter seguiu com o noticiário, dando conta de outros acontecimentos banais e próprios de um país pequenino como Portugal. E que sentido tinha aquilo? Que sentido tinha eu ter deixado David, para depois estar a ver aquilo na televisão? O David continuou a comer sem pronunciar uma palavra e o olhar de Paula e Ruben tocou o meu numa típica expressão de “Eu bem te avisei…”
Sim, eles tinham-me avisado, mas naquele momento já era tarde mais para qualquer acção, que não de arrependimento…

- Vais ficar, Caracol? – os olhinhos de Sofia brilharam e ela correu para os braços dele

- Vou garotinha, vou… - ele sentou-a no seu colo e não demorou menos de nada até ela o abraçar fortemente

- Ai, adoro-te, caracol… Adoro-te… - todos sorriram com aquele acto de carinho

- Eu também adoro você, garotinha… - ele sorriu meigamente e deu-lhe um beijinho na testa

Acho que ninguém na mesa se importou em como eu me estava a sentir, apesar de puderem ter pensado no assunto. A única pessoa que esboçou qualquer preocupação foi Paula, que ao sentir que não encarava ninguém, me deu um leve toque com o pé debaixo da mesa.

“Então, amor?” – gesticulou com os lábios

Limitei-me a assentir positivamente com a cabeça, num sinal de que estava tudo bem e montei o melhor sorriso que consegui. O meu telemóvel tocou e no ecrã vi o nome da minha mãe, o que me serenou o coração naquele momento.

- Com licença… - pedi e levantei-me caminhando para uma zona mais afastada do jardim – Olá, mãe linda…

- Olá, meu anjo, como estás?

- Bem e a mãe?

- Bem também… Estás num almoço em casa do Luisão?

- Estou, como sabe?

- Não sabia, mas estou com os pais do David e quando eles me disseram que o David tinha ido, pensei que também o podias ter feito e fiquei preocupada… Por isso é que te liguei!

- Não fique, mãe… Eu estou bem, pelo menos o melhor que é possível, tendo em conta a tortuosa presença dele…

- Viste o noticiário? O presidente falou aos jornalistas…

- Sim, eu vi… Quer dizer, todos nós vimos agora mesmo… - levemente solucei, ficando com os olhos rasos de lágrimas, mas nenhuma caiu devido ao meu orgulho

- Ele vai ficar, filha… Se calhar foste precipitada…

- Sim, agora vejo que fui, mas é tarde para voltar atrás, mãe…

- Mas não é tarde para falares com ele, pedir desculpa…

- Eu conheço o David, ele nunca me irá perdoar, mãe…

- Claro que vai, meu amor… Quem ama, acaba sempre por perdoar de alguma forma…

- Não me parece, mãe… Aquele David ali dentro é diferente daquele que um dia conheci, parece mais amargurado… - deixei de ouvir a minha mãe e o telemóvel deu sinal que a chamada tinha caído – Que treta! – refilei comigo mesma e com o pequeno aparelho electrónico

- Nisso cê tem razão… - a voz dele surgiu nas minhas costas e estanquei completamente – Esse Davi’ não é mais o mesmo…

- Não sabia que estavas aí… - disse muito calmamente, virando-me de frente para si e desposta a finalmente encarar o problema

- Estava, vim só ver você se contorcendo de culpa por me ter deixado, por me ter humilhado daquele jeito! – ele falou num tom de deboche, que eu lhe desconhecia totalmente

- Eu sei que errei, eu pedi desculpa na carta e não sabes como me custou fazer aquilo… - argumentei a meu favor

- Ah é? Pô, tô cheio de pena de você… O largado fui eu, a humilhação em frente dos meus pais foi minha, mas cê é que a pobre coitadinha, tem razão!

- David, não me fales assim! – os meus olhos ficaram rasos de lágrimas e o meu coração apertadinho, pois nunca havia visto David daquele jeito – Não sou nenhum animal, tenho sentimentos, bolas!

- Porque é que eu me hei-de importar com seus sentimentos se você está nem aí pros meus?

- Pára com isso, tenta compreender-me… - as primeiras lágrimas rolaram-me pela face e morreram nos meus lábios cerrados de tanta amargura na voz dele

- Não me pede pra te compreender, porque sinceramente é isso que eu tenho tentado fazer esses dias e quer saber? Não consigo… Não tem compreensão possível! Cê brincou com meus sentimentos, cê me machucou… Cê falou que ia ficar comigo e na primeira oportunidade me deixou… Com uma carta! – acusou num tom de voz mais exaltado e com os olhos vermelhos de tanta raiva

- Só usei a carta, porque não era capaz de acabar contigo cara a cara, sabendo que te ia magoar do jeito que magoei…

- Cê pode ter muito defeito, mas cobarde eu não sabia que cê era… - falou com algum sarcasmo

- Não é cobarde, é humana! – gritei e ficámos ambos em silêncio durante alguns segundos olhando-nos, enquanto as lágrimas persistiam em percorrer as minhas bochechas – Bolas, David… Eu sei que errei, acredita que tive a plena noção disso, antes mesmo de ter escrito aquela maldita carta, mas se o fiz, foi porque te amo… Porque te amo e não ia aceitar que dissesses adeus a um sonho de menino, para ficar comigo em Portugal!

- Então nisso cê pode ficar sossegada, não fiquei por sua causa… Fiquei por mim!

- Pronto, ficaste por ti, por mim eu nunca aceitaria! Só queria que fosses feliz…

- E eu era feliz, antes de cê ter acabado comigo… Aí eu era muito feliz!

- Já pedi desculpa… Será que não podes aceitá-las e seguir em frente com isto?

- Cê tá achando o quê? Que agora como eu não vou mais embora, eu jogo aquela carta no lixo, esqueço o que aconteceu e contínuo do seu lado?

- Não é isso que vai acontecer? – questionei, quando senti o órgão vital que me mantém viva mirrar no lado esquerdo do meu peito

- Óbvio que não… Não consigo perdoar você! – gritou com as primeiras lágrimas a correrem pelo rosto

- Mas nós podemos tentar, eu amo-te e tu amas-me…! – supliquei desesperada, segurando-o pela gola da t-shirt

- Não… Eu um dia amei você! Amei a Adriana corajosa, destemida, que ficava do meu lado pra tudo, que dava tudo por mim, agora essa Adriana sumiu…

- Não, não! Ela continua aqui, eu estou aqui, David! – bati levemente no meu peito, mas voltei a segurá-lo para perto de mim recorrendo à sua gola

- Não, não dá mais… Um dia o Davi’ amou você, mas também não foi esse Davi’ daqui… Esse é um Davi’ novo, um Davi’ muito machucado, um Davi’ que não consegue mais amar você… Que não consegue, nem quer! – ele retirou as minhas mãos de cima do seu corpo e afastou-me com uma enorme indiferença em cada movimento seu

- Não, por favor… Por favor… - eu entrei em total desespero, não me queria humilhar, mas também não o queria perder – Não faças isso, eu amo-te, David! O nosso amor não pode acabar assim… Sempre fomos loucos um pelo outro, super apaixonados…

- Disse bem… Fomos! Eu não sou mais…

- Como não? O que é que queres dizer com isso?

- Acabou, Adriana… Acabou!

- Não, não, por favor! – os gritos desesperados que soltei ouviram-se por todo o jardim, pois o burburinho animado que provinha do alpendre deixou de se ouvir

- Adriana, não arma barraco… Aceita que acabou e segue sua vida!

- Eu amo-te, nós estamos muito apaixonados, David… Não digas que não me amas mais! – implorei sentindo todas as partes de mim morrerem

- Mete uma coisa na sua cabecinha: a paixão acabou!

Aquelas palavras embateram de frente contra mim, fazendo-me despistar do meu caminho. Daquela vez não perdi o controlo, não gritei, não implorei…
A seriedade que ele usou para falar, fez-me perceber que falava muito a sério e como ele mesmo solicitara, eu não ia fazer nenhum barraco. Limitei-me a olhá-lo, ainda com as lágrimas a correrem-me pelas faces. Ajeitei as minhas roupas, passei os dedos trémulos nas maças do rosto e encarei-o cheia de força. Era altura de me despedir e para isso limitei-me a usar um curto olhar. Curto, mas sentido… E não correspondido. Virei-lhe costas e preparei-me para regressar à mesa, mas algo me fez parar antes.

- David, só mais uma coisa… - chamei-o, virando-me novamente de frente para ele

- Fala… - disse friamente, pois devia estar à espera que eu implorasse novamente pelo seu perdão

– Se me esqueceres, esquece-me bem devagarinho… - disse calmamente e retomei o meu caminho na direcção da mesa

Fiz aquele pedido porque sabia que o sentimento que ele negava sentir ia acabar por consumi-lo de tanta dor e sofrimento, assim como me estava a consumir naquele mesmo momento. Ele olhou-me um pouco surpreendido, mas mais do que isso, magoado, muito magoado, pelo menos bem mais do que eu esperava.
Aproximei-me da mesa, segurei a minha mala e forcei um sorriso, que era largamente denunciado pelos meus olhos vermelhos de lacrimejar.

- Obrigada pelo almoço Brenda, mas tenho de ir… - lamentei-me educadamente

- Mas já? – questionou um pouco desiludida

- Sim, desculpa… - olhei Paula, que expectante assistia à conversa – Mas acabou… - disse indirectamente referindo-me a David e assim acabei por responder ao que Paulinha tanto queria saber – Boa tarde a todos!

Atravessei o jardim, indo na direcção do portão e à medida que me ia aproximando dele, as minhas passadas iam ficando mais largas e mais desesperadas, na procura de um porto seguro, onde pudesse extravasar tudo aquilo que estava a sentir. Assim que me encontrei na rua, encostei-me a um poste e chorei desalmadamente. Não sei precisar quantos minutos ali fiquei, mas quando as lágrimas secaram, ergui a cabeça.
Não adiantava mais chorar por uma pessoa que não ia voltar, não adiantava mais lamentar-me por ter feito o que fiz ou desejar não tê-lo feito. Era hora de virar a página, ensaiar o sorriso mais bonito, recompor o coração e ensiná-lo a bater novamente.

***

(David)

Naqueles dias me reuni com o presidente do clube e somente expressei a minha vontade, que agora nada tinha a ver com Adriana, mas somente com minhas decisões profissionais. Meus pais me deram o maior apoio e não me deixaram sozinho nem um minuto, mas tiveram de sair para ir almoçar em casa dos pais de Adriana, apesar de tudo eles eram amigos e assim devia continuar sendo apesar do fim do nosso relacionamento.
Acabei indo na casa do Lu e da Bre, num almoço com a galera toda, me tinham garantido que ela não ia estar lá, mas ainda que tivesse, alguma hora a gente ia ter que se enfrentar e infelizmente essa hora chegou mais cedo… O almoço foi estranho para todos e quando ela se afastou para atender um telefonema, segui ela.

- David, vais onde? – perguntou a Paula segurando meu braço

- Acertar umas pontas soltas, não se preocupa, vai ficar tudo bem…

Ela me soltou e eu fui pra junto de Adriana. A conversa não podia ter sido pior, tive de me montar de forte e indiferente, mas por dentro estava morrendo por a estar magoando daquele jeito… Mas depois da dor que ela me havia feito sentir, aquilo não era nem de perto suficiente e ataquei num ponto que apesar de ser mentira, ia abalar de vez com ela… “A paixão acabou…”, relembro que foram exactamente essas as palavras que fizeram ela me olhar e desistir, me deixou ali sozinho, mas não sem antes fazer um último pedido.

- David, só uma coisa… - me chamou, se virando novamente de frente para mim

- Fala… - disse friamente, pois estava à espera que ela implorasse novamente pelo meu perdão

– Se me esqueceres, esquece-me bem devagarinho… - disse calmamente e retomou o meu caminho na direcção da mesa

Fiquei num pranto desesperado, era tudo o que eu menos queria, mas que sabia que ia acontecer… Esquecê-la bem devagarinho, na pior das hipóteses, nunca a esquecer! Fechei meus olhos e as lágrimas correram a fio, tinha dito aquilo somente para a magoar, mas infelizmente aquilo me estava machucando também.

- Dê… - a voz de Paula trepidou pelo ar e me obrigou a abrir os olhos, mostrando pra ela o meu estado – Oh meu amigo…

- Paulinha… - tentei chamar por ela, mas minha voz vacilou e acabei chorando

- Vem cá, Dê… - ela abriu os braços e me aninhou junto do seu corpo e confortando

- Ai, acabou… Acabou… - sussurrei, desejando no mais íntimo de mim estar vivendo um pesadelo

- Eu sei, eu sei… Tem calma… - ela passou suas mãos nos meus cabelos, sem nunca me soltar do seu abraço tranquilizante

Tinha perdido ela, em parte por escolha própria, mas não dava mais pra seguir amando, ou pelo menos, eu é que não tinha mais forças para isso… Pelo menos não com ela!



Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem!
Não se esqueçam de comentar, pois é muito importante saber o vosso feedback! :)
Beijinhos
Drii
 
 
P.S - Para quem perguntou nos comentários do capítulo anterior, a música chama-se "Set Fire to the rain - Adele" :)