quinta-feira, 28 de julho de 2011

Capítulo 111 - A vida segue... (Parte VI)


(Ruben)
O percurso até casa do David foi feito quase de olhos fechados, afinal já tinha perdido a conta ao número de vezes que lá tinha estado e pelas mais variadas razões, e infelizmente a que me levou lá nesse dia não foi de todo a melhor. Estacionei o carro na garagem, pois o porteiro já estava familiarizado comigo e subi até ao andar onde o apartamento dele se situava, sem sequer fazer uso do elevador.
- Já vai… - foi a voz da Dona Regina que em surdina se fez ouvir do outro lado da porta, assim que pressionei o botão da campainha – Oi, meu filho!
- Olá, tia Rê! – ela deu-me um abraço, que teve tanto de carinho, como de instinto maternal, o que na Dona Regina já era bastante habitual
- Entra, Ruben… - ela afastou a porta o suficiente, para eu conseguir entrar no “mundo” de David e acho que nunca estivera tão nervoso por me embrenhar nele
- Obrigado, tia… Com licença! – de forma educada, bati as solas dos sapatos no tapete da entrada e ingressei no apartamento
- Então, meu filho, como cê tá?
- Estou bem, tia… E a senhora?
- Também estou bem, dentro dos possíveis! – estava com esperança que aquele sorriso afável surtisse um efeito calmante em mim, para a conversa que planeava ter dentro de minutos, mas infelizmente isso não aconteceu – Então, veio jogar uma partidinha na PlayStation com o Davi’?
- Não, tia… Infelizmente o assunto que me traz hoje aqui é um pouco mais sério… - indaguei, enquanto o meu corpo se movimentava num acto quase impensável rumo à sala
- Tá com algum problema, meu filho? – imediatamente a Dona Regina reagiu, passando a mão no meio dos meus omoplatas e esboçando um sorriso reconfortantemente familiar e doce – Se senta…
- Não, estou só a precisar de dar dois dedos de conversa com o David… Coisa rápida, mas tenho mesmo de o fazer antes de os senhores irem embora para o Brasil… - tomei um dos lugares vagos no sofá da sala, que se encontrava totalmente vazia – Ele não está em casa?
- Tá sim… Tá no quarto, no mesmo sítio onde tem estado esses dias todos! Só sai pra ir no banheiro e buscar comida! Isso e quando algum dos meninos vem cá a casa pra disputar aí um joguinho, mas ele recusa sempre, por isso é que fiquei feliz em te ver, achei que com você, ele fosse topar! – pela expressão pesarosa da mãe dele , percebi que ela estava atormentada, o que só podia significar que aquele tipo de comportamento anormal e degradante continuava a ser imagem de marca do novo David Luiz
- Se o David pensa que é assim que vai resolver qualquer problema está muito enganado… Afinal, só está a ignorar a realidade ao invés da apagar! – instintivamente os meus ombros contraíram-se num jeito que teve tanto de natural, como de à vontade
- Ele tá assim meio bobo, mas quando chegar no Brasil, com os primos, os amigos, a irmã, a coisa melhora! – soltámos dois sorrisos breves e totalmente movidos pela esperança de o ver um pouco melhor – Meu filho, me fiz uma coisa… Cê sabe alguma coisa da Adriana?
- A Adriana? Vim agora de casa dela…
- Como ela está? Melhor do que naquele dia do Colombo...?
- Não, tia… Nem melhor, nem pior, mas isso é um assunto que vim resolver agora! – um sorriso misterioso tomou posse da minha boca e vi que isso a deixou ligeiramente confusa – Posso ir ver do David, então?
- Claro, meu filho… É como se a casa fosse sua! – a mão dela acompanhou as palavras e num único movimento, agitou-se no ar, indicando-me o caminho rumo ao quarto dele, que eu já tão bem conhecia
Bati à porta numa sucessão ritmada, que David iria saber reconhecer, pois era quase como que o nosso código, mas para surpresa das surpresas não obtive qualquer resposta da sua parte. Repeti o gesto, mas o acontecimento repetiu-se e vi-me então forçado a entrar sem qualquer ordem de permissão. Encontrei-o deitado sobre a cama, que permanecia por fazer. No corpo somente tinha uma t-shirt e uns calções de praia listados e o relógio habitual, que usava religiosamente no pulso esquerdo, era ausência claramente notória.
- Mano… - chamei por ele, mas como estava de olhos presos na televisão da parede e a ouvir música em altos berros, nem deu pela minha chegada
Confesso que não resisti a comparar mentalmente o estado dele com o de Adriana. Não quis tomar partidos de ninguém, mas ela parecia muito mais sofrida na sua dor, muito mais desgostosa pelo fim da relação. Vê-lo assim tão descontraído fez subir em mim uma certa raiva, que infelizmente acabou por explodir.
- David, ei! – mandei um puxão forte nos phones e estes saltaram-lhe dos ouvidos com uma facilidade tremenda – Não me ouviste chamar-te? A ouvires música desta maneira vais acabar surdo…
- Que é que cê tá fazendo aqui…? – de sobrancelha arqueada num jeito prepotente, ele encarou-me
- Vim ver-te, falar contigo…
- Pô, se foi minha mãe que pediu pra cê vir aqui me encher o saco, pode já ir saindo, manz… - tão depressa como me olhou, acabou por me ignorar, iniciando um vai e vem com os canais televisivos, que chegou a ser irritante devido à sua velocidade
- David, bolas! – o meu tom de voz subiu, eu não queria discutir com ele, mas chamá-lo à razão tornou-se inevitável – Faz o favor de desligar essa merda e ouvir-me!
Não sei se foi devido ao meu berro, mas facto é, que ele acabou mesmo por fazê-lo e atirou o comando para o lado vazio da cama. Olhou-me, pois já devia saber do que iria falar, aliás, da única coisa possível que se poderia falar numa altura daquelas e que fosse de interesse comum.
- Não tens vergonha…? – comecei por questionar, enquanto lhe dava tempo para se sentar na beira da cama bem de frente para mim, que permanecia de pé junto do guarda-vestidos – Não tens vergonha do que lhe fizeste? Naquela tarde…
Não tive sequer de referir o nome de Adriana, para ver os olhos de David iluminados pelo reflexo das luzes na superfície lacrimejante dos seus olhos, e os seus lábios trémulos, que levavam a cabo um esforço tremendo para auxiliarem as lágrimas a não lhe rolarem pelas faces.
- Ruben… - a voz dele perdeu intensidade e durante escassos segundos falhou – Eu não sei do que cê tá falando…
- Sabes… É claro que sabes, David! – sem eu dar conta, a minha testa enrugou-se, espelhando o tom de censura impresso na minha voz
- Não… Não sei mesmo do que cê tá falando!
- Então senão sabes eu vou avivar-te a memória… - depois de breves segundos em silêncio, iniciei uma das conversas mais duras da minha vida – Não tens vergonha de a teres beijado, só para a fazer crer que estava tudo bem? Não tens vergonha de teres-te rido dela, de a teres magoado e mesmo depois de a veres a chorar a teres deixado lá sozinha? E pior, não tens vergonha de mesmo depois disso tudo, ainda teres tido a capacidade e o sangue frio de mandar aquelas bocas em relação ao outro?
Quanto mais eu falava, mais os olhos dele ficavam brilhantes e húmidos, pois ele sabia tão bem quanto eu, que aquelas atitudes não eram tipicamente suas e que um dos seus valores mais forte era não fazer mal a ninguém, muito menos com intenção.
- Já te recordas agora?! – rematei, cruzando os braços em frente ao peito e aguardando a intervenção dele naquela conversa, que eu planeava que fosse a dois, apesar de saber que ele não iria facilitar
- Ela fez por merecer, Ruben… Não a defende, tá? – o corpo dele, moveu-se velozmente até permanecer frente a frente comigo
- Não a defendo, David? Porra, ela é a minha melhor amiga! – tenho de confessar que me exaltei um pouco, aquela atitude dele estava a tirar-me do sério
- E eu também sou o seu e no entanto é ela que cê tá aí defendendo!
- Eu não estou a defender ninguém, David! Eu simplesmente estou a ver os meus dois melhores amigos sofrerem, porque se amam, mas estão a milhas um do outro, é só por isso que estou aqui a ter esta conversa contigo! Porque acabei de sair de casa dela e queres saber como a encontrei?
- Não, não quero saber…! – apesar da sua resposta ter sido negativa, a expressividade do seu corpo e respectivos movimentos, fizeram-me crer que estava mais interessado no estado dela do que aquilo que dizia estar
- Mas eu digo-te na mesma… Encontrei uma Adriana completamente diferente daquela que conheço! Uma Adriana frágil, que está a sofrer, porque sim, sabe que errou, mas tem sentimentos e tu naquela maldita tarde, pisaste-os sem sequer te importares com o estado em que ela estava…
- Ruben, eu falei que não queria saber… - relembrou-me, agitando a cabeça em sinal de negação e fazendo um esforço enorme para que a vermelhidão não corrompesse os seus olhos
- A miúda não faz mais nada sem ser chorar! Está num estado lastimável, David… Não come, pouco ou nada dorme, não sai de casa só com medo de esbarrar com qualquer coisa que a faça recordar de ti… Não quer sentir, só para não se lembrar que ainda te ama, mesmo depois daquilo que lhe fizeste naquela tarde… Acho que por vontade dela já não estava mais cá, porque ela errou sim, errou muito, David, e ela sabe disso, mas naquela tarde tu perdeste toda e qualquer razão com aquela merda de atitude…
- Eu já falei que não queria saber! – um berro mais feroz de David inebriou-me o pensamento com mil e uma memórias
Finalmente eu tinha conseguido da parte dele uma atitude, pois ao gritar comigo, ainda que o tivesse feito sem surdina, ele levantou-se da cama num impulso e encarou-me com aqueles dois olhos verdes, mas totalmente rodeados de uma imensidão vermelha, que o denunciavam.
- Finalmente te vejo reagir, David! Caramba… Onde raio está o rapaz meigo que não faz mal a ninguém? Onde raio estava ele naquela tarde, que te permitiu fazer aquilo?
- Esse Davi’ morreu, quando leu cada palavrinha daquela esconjurada carta!
- E vais guardar essa mágoa para sempre, mano? Ela ao menos admitiu que errou… Sabe que errou e pediu-te desculpa por isso, mas tu preferiste acabar com ela, tudo bem… Estás no teu direito! Agora tratá-la como trataste naquela tarde, isso não te posso admitir, porque ela é um ser humano, David… Só que se ela não teve coragem para te pôr um travão, para te pedir que não a tratasses daquele jeito, então agora estou aqui eu… Como teu melhor amigo, a pedir-te por tudo o que é mais sagrado para decidires o que queres!
- Eu já decidi o que quero, não amo mais ela… - David teve de desviar os seus olhos dos meus, só assim eu não lhe permitiria vacilar com o meu ar de clara represália
- Estás a tentar enganar quem, David? A ti? A mim? Olha digo-te então que comigo não resulta… Está claro como a água que ainda a amas, porque senão amasses, não estavas em baixo e nem sequer te terias dado ao trabalho de agir daquela forma, porque quem não ama, não dá assim tanta importância…
- Eu sei do que eu tô falando, manz…! – respondeu-me de forma seca e num tom monocórdico
- Não… O problema é exactamente esse, é que este David não sabe, nem daquilo que fala, nem aquilo que faz… Se de facto não queres mais nada com ela, então não repitas aquela gracinha, porque se eu sonho que o fizeste, nunca te irei conseguir perdoar, David…
- Eu não preciso do seu perdão, nem do dela, aliás… Eu não preciso de ninguém! – o jeito como ele me encarou, falando de forma arrogante e numa pose altiva, levou-me à loucura, sim era essa a palavra certa
- Não? Não precisas de ninguém? Olha que bom, David, porque se continuas assim é exactamente assim que vais acabar: sem ninguém! Não há ninguém que te consiga aturar mais com essas atitudes de merda e sabes que mais? Ainda bem que não amas mais a Adriana, nem a queres, porque nesta altura, era eu que não a deixava voltar pra ti! – finalmente atingi o ponto fraco de David, depois de muito esforço, muita luta e uma dose extra de brutalidade
- Não, não diz isso… - ele baixou a cabeça e senti que o desespero havia domado todo o seu corpo
- Não digo o quê? Que não te quero mais com ela? Não quero mesmo! – continuei a picá-lo, mas agora de forma mais calma, mais contida, apenas o suficiente para saber que ia conseguir levá-lo à rendição e trazer o antigo David de volta
- Não, não diz isso… Não fala como se eu não fosse mais bom o suficiente pra ela!
- E não és, David… Ela fez-te sofrer, mas o que fizeste foi desumano! Nunca tinha visto a Adriana assim, nem mesmo pelo Diogo!
- Não fala o nome desse cara na minha frente! – alertou-me de uma forma, que teve tanto de brusca como de abrupta
- Porquê? Diz-me… Tens medo de perdê-la para ele?
- Manz, não fala isso nem brincando… - ouviu-o soluçar levemente de forma aflitiva, o que me fez compreender que esse era provavelmente um dos seus maiores medos desde que os vira juntos na garagem do Colombo
- Olha que corres sérios riscos de isso acontecer, se continuares aí a lamentar-te e a agires que nem um cabrãzinho! – não tive qualquer problema em ser duro nas palavras que utilizei, no final de contas precisava de chamá-lo à razão e a confiança que tinha com ele, permitia-me fazê-lo
- Ela não vai querer ele de volta… Ele a machucou muito…
- Tanto como tu, não… Aliás, comparado contigo, a dor que ele lhe causou foi uma comichãozita! Mas pronto, fica aí parado, que daqui a uns tempos falamos e logo vemos quem tinha razão! – pisquei o olho e esbocei um sorriso irónico, era óbvio que eu sabia que Adriana não tencionava nem de longe voltar para Diogo
- Ela falou alguma coisa pra você acerca dele? – a voz dele estremeceu só de equacionar a hipótese de a ver nos braços de outro, especialmente daquele “outro”
- Não sei, mas mesmo que tivesse falado é óbvio que não te vou dizer nada, David!
- Ela falou, portanto… - a fala dele perdeu intensidade e o seu corpo encostou-se à cabeceira da cama, em visível sinal de desalento
- E vais ficar aí? Vais cruzar os braços e simplesmente desistir? Que grande homem, sim senhor! Era mesmo o tipo de atitude que esperava da tua parte, David…
- Ruben, entende uma coisa… Eu não consigo voltar pra ela!
- Tudo bem, não consegues voltar, mas então não voltes a fazer o mesmo que no Colombo… Lembra-te só disso!
- Eu não vou fazer… Relaxa!
- Obrigada por pelo menos respeitares o que te peço agora…
- Tô fazendo isso por mim, pra não sair mais magoado disso tudo… Lembra só ela de uma coisa: ela até pode voltar pro Diogo, mas nunca ninguém vai amar ela como eu amei!
- Falas uma coisa e ages em contrário a isso, não te compreendo, David… A sério que não! Agora percebo o que ela quer dizer quando diz que não te reconhece mais…
- Um dia ela vai entender porque a deixei para trás... Agora parece uma desculpa boba, e sei que você deve estar pensando que sou uma pessoa horrível e talvez nem tenha acreditado nas minhas palavras, mas eu fiz isso por mim e por ela. Agora ela está livre, pode seguir em frente, aquilo que a prendia já não é mais um argumento. Será melhor para todo mundo…. Confia em mim!
Ali bem na minha frente, o David deu a sentença final e encerrou a última página daquela história de amor. Ele desistiu dela sem qualquer explicação plausível, sem sequer se preocupar em procurá-la para um pedido de desculpas. Ele estava sem dúvida mudado, não havia como negar, mas eu sabia que mais cedo do que ele pensava, o chão iria escapar-lhe debaixo dos pés e aí seria obrigada a despertar para uma realidade nada apelativa e nada, mas nada feliz…

****

(D. Regina)
Desde que o Ruben tinha entrado no quarto de meu filho, que alguns berros mais estridentes se tinham feito ouvir, alguns deles bastante compreensíveis, mas que pra mim não faziam qualquer sentido, pois parecia não saber sobre o que eles falavam, mas claro que deduzi que o tema fosse a Adriana. Estava sentada no sofá da sala, com os barulhos da conversa um pouco alterada deles como fundo, quando de repente esta cessou e vi o Ruben saindo do quarto de David.
- Meu filho, já vai…? – questionei, inclinando levemente a cabeça para o puder ver no hall de entrada
- Vou sim, tia Rê… Já terminei a minha conversa com o David!
- Vocês se exaltaram um pouco… Tá tudo bem?
- Não se preocupe, tia… Só estive a abrir os olhos ao seu filho, mas pelos vistos não deu em grande coisa…
- Que aconteceu naquela tarde do Colombo? – senti ele ficar estranho, como se fosse preparar pra mim mentir, mas eu já conhecia aquele muleque o suficiente para o travar antes mesmo dele o fazer – Eu ouvi, Ruben… O que é que o Davi’ aprontou pra ela?
- Tia, não quero arranjar mais problemas cá em casa… Se quiser mesmo saber pergunte-lhe a ele, pode ser que lhe responda…
- Ruben, me diz, por favor… Esse nó não vai sair do meu coração até eu saber, é angústia de mãe…
- A tia vai ficar desiludida se eu lhe contar… - o Ruben baixou seu olhar de forma intuitiva e se segurou na ombreira da porta, como se fosse revelar algo de assustador, algo realmente grave
- Prefiro saber do que ficar na ignorância… Me diz, Ruben!
- Tudo bem, tia… - se aproximou no seu jeito meigo, com passadas leves e seguras, para tomar o lugar do meu lado – Não fique chateada com o David, porque eu dei-lhe nas orelhas, mas compreendo o lado dele, pois estava e continua muito magoado…
- Ruben, não enrola, me diz de uma vez… - o meu coração ficou apertadinho, eu já sabia que ele tinha feito borrada, mas precisava saber o quê, senão não ia conseguir sossegar
- Então naquela tarde no Colombo… - ele segurou minha mão e começou falando
Tudo o que ele me disse me revoltou de um jeito desconfortante, de um jeito que me machucou. Aquele que ele dizia ser o dono daqueles actos não era meu menino… Meu Davi’ não era assim e eu sabia disso! Ele tava domado pela dor, mas nada, nada justificava aquele comportamento. Num primeiro momento tive vontade de levantar daquele sofá e dar uma surra nele, como se fosse um garotinho pequeno, mas depois compreendi que o sofrimento o moveu àquela atitude e uma vontade enorme de o abraçar e reconfortar nos meus braços subiu em mim.
- Não tô acreditando, Ruben… Cê tem certeza?
- Tenho, tia… A própria Adriana contou-me a história, mas eu já desconfiava…
- Pucha… Eu sei que ela errou, Ruben e eu sei que ela é sua melhor amiga, mas errou muito em tê-lo deixado daquele jeito e sem qualquer certeza relativamente ao futuro, mas essa garota deve tar se sentindo muito mal…
- E está mesmo, tia Rê… Não parece aquela miudinha alegre que conhecemos, está triste, como nunca a vi antes! – pelos olhinhos de tristeza do Ruben, vi que estava muito preocupado com ela e por isso seu estado devia ser realmente deplorável
- O Davi’ tem de pedir desculpa pra ela…
- O Ruben não vai aceitar humilhar-se a esse ponto e acho que a Adriana não vai querer ouvi-lo…
- Não… Ele vai ter de pedir e ela vai ter de escutar!
- Tia, esqueça… Eu conheço estes dois, não vale a pena insistir, eles decidiram seguir em frente um sem o outro, o máximo que pudemos fazer é apoiá-los…
- Não me conformo… Não me conformo de ver eles tristes desse jeito, mas ainda assim se amando, não faz sentido! – agitei minha cabeça, pois toda a situação me atormentava desconcertantemente 
- Para eles faz e por isso temos de respeitar…
- Ao menos vou querer pedir desculpas em nome dele, em nome da família… Afinal não foi essa a educação que eu e o Lau demos pra ele!
- Ela não vai querer ouvi-la, Dona Regina… A Adriana quer estar sozinha, não quer ver, nem estar com ninguém e muito menos alguém que lhe relembre o David!
- Mas não custa tentar, meu filho…
- Vai perder o seu tempo, tia… Ela é teimosa!
- Só me darei por vencida, quando levar um grande não! – afirmei mais decidida do que nunca
- A tia é que sabe, mas eu tenho de ir andando…
- Já, meu filho? Não quer ficar pra jantar com a gente? O Gu e o Lau tão chegando daqui a pouco!
- Não, obrigado, tia… A Inês está em casa à minha espera, temos os últimos preparativos do casamento para acertar… - enquanto se desculpava, seu corpo se ergueu do sofá e ocupou o espaço vazio na minha frente
- Pronto, meu filho, cê que sabe… Se mudar de ideia aparece aí com a Inês!
- Claro que sim… Obrigado, tia… - dei um abraço nele e esbocei um sorriso afável de gratidão pelas informações que me dera
Acompanhei Ruben até à porta e fui espreitar David, completamente jogado em cima da cama. Pelo silêncio da casa, consegui escutar o soluçar dele, que chorava baixinho, só pra não dar parte fraca, só pra não mostrar que era humano, o mesmo David de sempre e que estava sofrendo por amor.
- Oh, meu anjo… - deitei do lado dele na cama e rapidamente, ele se jogou nos meus braços, tal qual fazia em bebê
- Ai, mamãe… Tá doendo muito, não aguento mais isso…
- Calma, meu neném… Calma… - minhas mãos afagaram seus cachinhos de menino reguila e meus lábios polvilharam sua testa de beijinhos – Vai ficar tudo bem…
- Promete, mãe… Promete que vai ficar tudo bem… - implorou soluçando, num choro que chegava a doer de tão aflitivo que era
- Prometo, meu doce… Vai ficar tudo bem, tudo bem…
- Vai doer perder ela pra sempre…
- Eu sei, meu menino, mas cês é que escolheram assim…
Apertei ele mais pra mim, comecei embalando nossos corpos ao ritmo da canção de ninar que cantava para ele em pequenininho, mas sem pronunciar uma única nota dela. Ele acalmou e não demorou nada a vê-lo adormecido em meus braços, mas com o rosto vincado pela dor. Estava muito certa que ele ainda amava Adriana, apesar da carta que ela deixara preenchendo a sua ausência, mas sabia que apesar dos erros dos dois, ela merecia um pedido de desculpas e isso, só eu poderia fazer naquele momento.

****

(Adriana)
Lembro-me de ter adormecido no conforto dos braços do meu melhor amigo de longa data… É a memória mais presente que tenho, antes das longas e contínuas doze horas de sono, que se abateram sobre o meu fragilizado corpo. Quando levantei a cabeça, bastante pesada devido à dormência que anestesiava todas as partes do meu corpo, apenas me deparei com uma luz difusa, que embrenhava no meu quarto, circundando todo o espaço envolvente e provinda somente de quatro fileiras de brechas da persiana, entreaberta. O corpo quente de Quimera, aquecia-me a pele engelhada dos pés, que em tempos dispersos, havia sido aquecida pelo corpo quente do meu querido David… E mesmo não querendo acabei por me recordar dele, com um simples gesto e por uma coisa que tinha tanto de banal, mas ao mesmo tempo de especial.
- Oi, garotona… - dei uma festa na zona lombar da cadela e esta rapidamente se moveu, permitindo-me a mim, erguer da cama sem qualquer dificuldade – Obrigada, Quimi…!
Fui até à casa de banho, olhei-me ao espelho e passei o rosto por água, numa tentativa forçada de despertar e relaxar os meus músculos, ainda contraídos pelo longo espaço de tempo que usara para descansar. Lavei os dentes, tomei um duche e uma vontade de sair, de me divertir e ver pessoas, subiu em mim. Dessa forma dirigi-me ao armário do meu quarto, disposta a arranjar-me levemente, nada demais… Apenas o suficiente para estar apresentável e passar despercebida na volta que planeava dar pela baixa lisboeta.
Um “bichinho” arranhou o meu estômago e uma vontade súbita de comer qualquer coisa, abalou-me de rompante. Dirigi-me à cozinha em passadas vagas e serenas, não tinha qualquer pressa, pois era somente eu, no meu mundo e sem precisar de dar justificações a ninguém. Servi-me apenas de um copo de leite frio, pois de alguma forma o meu pensamento continuava atabalhoado no passado que construíra do lado de David e isso surtia em mim os seus efeitos… Não comer, não dormir… Mas percebi que aos poucos isso iria melhorar, apenas precisava de paciência, esforço e alguma calma. Ouvi o meu telefone de casa tocar, pois o meu telemóvel permanecia desligado, tal qual como tivera nos últimos dias, mas ainda assim não hesitei atender, pois o número era-me desconhecido.
- Estou sim? – acolhi num tom educado e julgando tratar-se de alguém que não me era cógnito
- Oi, Adriana, é você? – aquele jeitinho meigo de falar, aquela voz, aquele sotaque foram-me imediatamente familiares
- Dona Regina…? – questionei somente por via das dúvidas, não fosse a minha cabeça estar a baralhar-me, induzindo-me ao erro
- Sim, sou eu, minha filha…
- Olá… Está tudo bem consigo?
- Sim, tudo bem comigo, meu amô, e com você?
Ouvi-la, fez-me recordar de duas coisas. Primeiro, a minha mãe e a capacidade que ela possuía de me acalmar nos momentos mais difíceis da minha vida e também com a Dona Regina poderia quase ser assim, uma vez que me tratava como uma filha e eu a tratava como se fosse a minha segunda mãe e na verdade ela era-o. Depois recordei inevitavelmente o David… Claro! Ironicamente, ele iria estar sempre assim, iria ser sempre uma pedra no meu caminho, um percalço na minha alma, um peso no meu coração.
- Também… Tudo bem! – clareei um pouco a voz de forma a parecer o melhor possível, mas dificilmente conseguiria enganar alguém, com aquele quanto de consternação na fala
- ‘Tava ligando porque a gente parte pro Brasil amanhã e antes de ir queria tomar um café com você…
- Desculpe, Dona Regina, mas estou um pouco ocupada…
- É só um café, Adriana… São 10 minutos, é só isso que peço pra você! – a forma como a voz dela me implorou por apenas alguns minutos da sua atenção, acabou por me inviabilizar a possibilidade de negar tal pedido
- Mas… Só eu e a senhora, certo?
- Claro, minha filha… Só a gente! Não se preocupa que ele não vai… - não quis de todo parecer mal-educada, mas não contive um suspiro de alívio ao constatar que David não marcaria presença
- Sendo assim… - encolhi os ombros e com o telefone ainda junto do meu rosto, sentei-me no braço do sofá, pois as minhas pernas ainda se encontravam doridas de tantas horas passadas na cama
- Na esplanada perto aqui de casa, às 14h tá bom pra você, meu anjo?
- Sim, pode ser, Dona Rê…
- Então lá te esperarei, minha filha! Beijo, fica com Deus…
- Beijo para a senhora também! Fique com Deus… - sorri levemente, pois consegui encontrar em cada uma daquelas palavrinhas o conforto necessário para tomar coragem para sair de casa e rumar até junto da rua dele

***

- Anda, Quimi… Vem! – juntei os lábios humedecidos e com um movimento complexo da língua produzi um assobio, que era o meu modo de comunicação com a minha mais fiel companheira
Tinha acabado de estacionar o carro junto ao café onde iria então encontrar-me com a mãe de David, quando abri a porta dos bancos de trás para deixar a Quimera sair. Claro que ao reconhecer a zona em que nos encontrávamos, iniciou uma corrida meio tresloucada na direcção da rua, que nos levava ao prédio dele, mas graças a Deus tive tempo de a segurar e prendê-la pela trela. Desse modo dirigi-me então ao café e, rapidamente na esplanada, reconheci a Dona Regina. Esta estava sentada majestosamente numa cadeira de verga e tinha na sua frente uma mesa, ensombrada pelo enorme chapéu que impedia o sol quente, do início de Verão português, de a sufocar.
- Boa tarde, Dona Regina… - acerquei-me dela e esta rapidamente se levantou, para me presentear com dois beijinhos ternos
- Boa tarde, minha filha! – sorriu-me de forma reconfortante, o que de certa forma me levou a relaxar um pouco e a ignorar qualquer carga formal que aquela conversa pudesse acarretar
- Desculpe o atraso, mas resolvi trazer a Quimera para dar uma voltinha…
- Não se preocupe, Adriana… Senta! – com a mão indicou-me a cadeira que se prostrava do seu lado direito e em qualquer momento hesitei tomá-la
- Com licença… - pedindo permissão, desviei-a para trás, prendi a trela de Quimera no braço da mesma e sentei-me
- Vai querer um café normal?
- Sim, por favor, Dona Regina…
- Moça… - ela fez sinal para que a rapariga que nos servia se aproximasse e pudesse assim anotar o nosso pedido – São dois cafés normais e uma garrafa de água, por favor…
- Com certeza, a água é fresca? – questionou-nos
- Sim, fresca, por favor… - a mãe de David acenou positivamente com a cabeça, num jeito delicado e esboçou um sorriso movido de total educação
- Trarei já, com licença… - a jovem rapariga retirou-se e acabei por a perder de vista quando enveredou por detrás do balcão, já no interior do café
- Então… - quis iniciar a conversa e tomar controlo do assunto que nos tinha trazido ali, mas não fui capaz – Está tudo bem consigo?
- Sim, minha filha… Tudo bom! E você?
- Também… Tudo óptimo! – montei um sorriso de orelha a orelha, mas por dentro senti o meu coração desfalecer
- Tá meio murchinha, você… - o nariz de Dona Regina torceu levemente e ela olhou-me por cima da expressão carrancuda de quem não era facilmente enganada, nem pelo melhor dos sorrisos, que tinha tanto disso como de falso
- Não, estou só cansada… Nada que umas boas horas de sono não resolvam! – aquele maldito sorriso não desapareceu dos meus lábios, apesar de saber que não era ele que a iria conseguir convencer
- Não precisa disfarçar, Adriana… Eu sei de tudo o que ele fez!
Naquele preciso momento o sangue deixou de correr-me nas veias, o meu coração, do lado esquerdo do meu peito, deixou de bater, para segundos depois começar a mover-se a uma velocidade estonteante e num acto quase que involuntário deixei de respirar. O meu nariz não permitiu mais ao ar que entrasse e engoli a seco a saliva que se havia formado na minha boca, mas nem assim impedindo a secura que dominou os meus lábios devido ao nervosismo.
- Aqui estão os cafezinhos… - fomos interrompidas pela chegada da Soraia, sim… era esse o seu nome, pelo menos era o que constava na plaquinha que trazia presa no avental – E a sua garrafinha de água… - esboçou um sorriso de empregada competente, enquanto ia libertando os nossos pedidos em cima da mesa, mas eu e a Dona Regina não tirámos os olhos uma da outra durante um segundo, iniciando mentalmente a conversa que se avizinhava – Vão desejar mais alguma coisa?
- Não, obrigada… - tive de desviar o olhar da mãe dele, pois aquele jeito tão profundo de me encarar, como se compreendesse tudo aquilo que me estava a passar pela cabeça, começava a queimar-me a alma de uma forma estranhamente desconfortável
- Se precisarem é só chamar, com licença… - mais uma vez fomos deixadas a sós e o silêncio tornou-se factor dominante
Coloquei o açúcar na minha chávena, apesar de ter por hábito beber o café sem nenhum, mas precisava adoçar a boca, talvez na tentativa falhada de amenizar os dissabores que a conversa, que persistíamos em adiar, me poderia trazer. Agitei freneticamente a colher no interior da chávena de loiça, provocando um tilintar que denunciava claramente o meu estado de nervosismo, mas por outro lado a mãe dele mantinha-se serena. Abriu a garrafa de água jogando um pouco dentro do copo e deu dois goles, mantendo sempre o olhar em mim, apesar de eu preferir manter o meu baixo e preso à superfície da mesa.
- Como é que sabe de tudo…? – questionei num sussurro, que rompeu o ar, tão rápida e inesperadamente como abandonou os meus lábios
- O Ruben… Ontem esteve lá em casa falando com o Davi’ e me contou! – naquele instante tive uma enorme raiva de Ruben, pois achei que ele não tinha qualquer direito de ter contado uma coisa que lhe confidenciei, ainda por cima acerca do que era, mas depois deduzi que não o havia feito por mal, mas somente para conseguir fazer com que David parasse de agir daquela forma
- Não importa mais, Dona Regina… - tentei desvalorizar o assunto, tentei apagar da minha memória as recordações daquela tarde, que naquele momento começavam a inundá-la novamente
- Claro que importa, minha filha… Aquela não foi a educação que dei pro Davi’, por isso mesmo lhe devo um pedido de desculpa…
- Não, nada disso, Dona Regina! – intervim prontamente, pois tinha a plena noção que ter a mãe dele a pedir-me desculpa no seu lugar era uma completa injustiça – A senhora não tem nada a ver com isto…
- Tenho sim, ele é meu filho e se agiu assim, em alguma coisa eu devo ter falhado na educação dele…
- Não, a senhora é uma óptima mãe, o David só fez o que fez porque estava magoado… Não o culpo por nada disso, a sério que não!
- Mas guarda mágoa, minha filha… Sofre! Isso se vê só olhando em seus olhos… - em meia dúzia de palavras a mãe de David resumiu aquela que para mim era a maior das verdades
- Sim, é verdade, mas se sofro a culpa é única e exclusivamente minha… Eu é que o deixei e ele simplesmente se vingou! – esbocei um sorriso leve, mas que sofreu um ténue rasgo de ironia
- Minha filha, eu não vou dizer que só ele teve culpa, nem vou passar a mão em sua cabeça, porque cê sabe que errou…
- Sim, eu sei que errei, sempre o admiti! – interrompi-a imediatamente, mas sem me usar de qualquer tom brusco, pois não queria descarregar nela a raiva que guardava de David
- Sim, você admitiu e eu sei que ama o Davi’, mas então não entendo porque desistiu tão fácil de tudo…
- Eu não desisti, Dona Regina! Eu simplesmente não o quis impedir de viver o seu sonho e ir para o Real Madrid… Mas sim, sei que não devia ter deixado aquela carta, nem tão pouco tê-lo feito sem haver uma decisão definitiva por parte do clube…
- Isso podia tudo ter sido evitado, meu anjo… Esse seu sofrimento e o dele…
- Eu sei disso, mas agora também não adianta pensar mais nisso, não vou resolver nada a massacrar-me constantemente com isso!
- Sim, é verdade… Ele não está mais disposto a ter você de volta e você já percebi que vai seguir sua vida… - a Dona Regina esboçou um sorris triste, pois acho que como todos os outros, julgou que aquilo iria acabar em casamento
- Tem de ser… Não posso ficar presa a isto pra sempre, não posso estancar a minha vida só porque o David não faz mais parte dela… Acredite que nunca quis ver isto falhar deste jeito, Dona Regina…
- Eu sei que não, minha filha… Nem você, nem ele, nem eu… - ela limitou-se a ciciar e bebemos o restante café em silêncio
Despedi-me com um certo sentimento de nostalgia a habitar em meu peito, afinal depois do fim do meu relacionamento com ele, não poderia adivinhar quando voltaria a ver os seus pais. Tive uma enorme vontade de chorar, pois aprendera a amar a família dele como se fosse minha, porque eles já faziam parte de mim, tal como ele um dia fizera e naquele momento, acabara de perder não uma, mas duas grandes partes de mim… Tomei o lugar de condutor do meu carro e parti naquela incerteza. De quando os voltaria a ver… E a ele, especialmente de quando o voltaria a ver…


Antes demais quero pedir imensas desculpas por ter demorado tanto a postar, mas tive um problema pessoal, que me deixou sem cabeça para me dedicar à escrita e espero que entendam... Depois quero aproveitar para agradecer o avultado número de comentários que me têm deixado nos últimos capítulos, é muito importante receber todo esse apoio! :)
Por isso aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem e não se esqueçam de continuar a aumentar o número de comentários à história!
Beijinhos a todas as minhas queridas leitoras! :)
Drii

sábado, 23 de julho de 2011

Capítulo 111 - A vida segue... (Parte V)

Chorei muito nos dias que se seguiram àquele reencontro com David, mas se por um lado as lágrimas estavam secas e as palavras gastas, os sentimentos continuavam ali… Bem presentes nas mais ínfimas e insignificantes partes do meu dia-a-dia. Continuei a ir às aulas da faculdade e depois da apresentação dos tão morosos trabalhos finais, dei por findado o primeiro ano como estudante universitária. E que ano…! Havia sido de doidos! As pessoas que conhecera eram sensacionais, os sítios que visitara ficariam sempre na minha memória e todos os momentos vividos jamais os esqueceria, mas no entanto nada disso era suficiente para preencher o enorme buraco que a ausência de David deixara na minha vida. Sabia que ele ainda não se tinha ido embora para o Brasil e que estava somente a 48 horas de o fazer, mas nada que eu fizesse podia demovê-lo da sua partida ou alterar os seus planos, levando-me consigo. Limitei-me à resignação e à conformidade de ter de passar os meus dias sozinha, até ao início das viagens por toda a Europa, para a minha digressão. Estava num dos programas aborrecidos que usava para queimar o tempo, toda estatelada no sofá, andando com os canais de trás para a frente depois de mais uma longa sessão de choro, quando ouvi a campainha tocar. A preguiça falou mais alto e limitei-me a ficar ali, no meu sítio, mas a pessoa do lado de fora parecia não desistir e sendo assim tive de fazer um esforço extra de modo a combater a dormência que dominava o meu corpo e ir abrir a porta.
- Já vai, já vai! – gritei, ajeitando a sweat que trazia vestida e que se via claramente que não era minha, mas sim de David, pois dava-me um pouco acima dos joelhos – Bolas, já disse que já vai! – vociferei ao verificar a insistência irritante da pessoa em pressionar o botão, que activava aquele barulho incomodativo
- Bolas, estava difícil… - reclamou Ruben, assim que escancarei a porta e o observei
- Que estás aqui a fazer?! – questionei numa expressão molengona e passando os dedos na minha testa franzida
- Olha, como me cansei de ligar e não ouvir a tua voz, de mandar mensagens e não ser correspondido e de ir à tua faculdade quase todos os dias, mas nunca te conseguir chegar a ver, resolvi passar por casa a ver se estás viva…! – respondeu-me num tom que tinha tanto de arrogante como de irónico
- Uau, Ruben Filipe! Diz-me aqui uma coisa… Foste buscar essa ironia toda onde? Não me digas que foi ao teu melhor amigo! – brinquei levemente, arrebitando o indicador no ar em claro sinal de gozo
- Adriana, não sejas assim! Estava a morrer de preocupação, não entendes isso? – ele falou de forma muito séria e compreendi que de facto ele devia estar preocupado comigo, pois a sua expressão de poucas horas de sono revelava isso
- Entendo, mas vieste ver se estou bem, como viste estou óptima! – flecti levemente os joelhos quase em sinal de vénia e falseei um sorriso – Por isso, podes ir…
Tentei fechar a porta, para retomar o meu cantinho de paz, pois tudo o que eu menos queria era ter alguém a invadir o meu espaço para viver a minha dor, porém Ruben não mo permitiu. Colocou o pé a barrar a passagem da porta e assim, auxiliando-se da força bruta que possuía nos braços e passou para a mãos, impediu-me de a fechar.
- Se tu chamas a isso estar bem, meu doce… - ele esboçou uma clara expressão de desalento, enquanto os seus olhos percorrera toda a minha figura
- Estou… - por segundos a minha voz vacilou e foi quebrada por um breve soluçar, que rapidamente bloqueei, clareando a voz através de uma tosse forçada – Estou muito bem, Ruru… Aliás, acho que dizer que estou muito bem é pouco!
- Acho que dizer que me estás a mentir com todos os dentes que tens na boca, isso sim é muito pouco… - ripostou na sua calma, que já lhe era tão característica como traço dominante da sua personalidade
- Ai, Ruben… - as minhas pernas perderam a força e inevitavelmente as lágrimas começaram a cair dos meus olhos de forma impetuosa
- Vem cá, miúda…
Ele forçou a entrada na minha casa empurrando-me um pouco para longe da porta, fechou-a e acabou por me acolher nos seus braços. Senti-me verdadeiramente em casa… Senti-me verdadeiramente amada, com cada gesto de carinho dele. Desde a força que os seus braços exerciam em torno do meu troco, até à delicadeza com que as polpas dos seus dedos percorriam os meus cabelos… Tudo no Ruben me fez sentir estranhamente calma. Era exactamente aquilo que eu precisava, sentir-me amada, ter alguém que se preocupasse comigo e quisesse cuidar de mim, sem tomar partido de nenhum dos lados, nem do meu, nem do de David.
- Ai, Ruben… Diz-me que isto é um pesadelo… - pedi soluçando de forma inquietante, tamanho era o desespero que me atormentava o corpo e a alma
- Calma, pequenina… Calma… - o sussurro proveniente dos lábios dele foi tão pacífico que por momentos jurei não o ter sequer ouvido – Vai correr tudo bem, prometo…
Ele acabou por me levar até ao sofá, onde nos sentámos, lado a lado, dispostos a conversar como melhores amigos de longa data que éramos, mas para isso foi primeiro necessário, que eu me acalmasse e controlasse as lágrimas que teimosamente insistiam em correr pela minha face, ainda que pelos caminhos do silêncio.
- Calma, pequenita! – ele rodeou os meus ombros com um dos seus braços e colou os seus lábios à minha têmpora esquerda, deixando-os lá permanecer durante minutos
Finalmente, acalmei-me. As lágrimas secaram, o soluçar cessou e a minha respiração retomou à normalidade, o meu mundo caminhara novamente até ao seu eixo. Tinha um monte de coisas para dizer ao Ruben, um monte de coisas, que me estavam entaladas na garganta, mas que por algum motivo não conseguia dizer. Não era cobardia, nem tão pouco medo, mas tinha simplesmente o corpo tão dominado e embrenhado na dor, que não conseguia ver, sentir ou respirar qualquer outra coisa, senão essa mesma.
- Obrigada por estares aqui… - foram as primeiras palavras que consegui pronunciar, assim que a fala retomou aos meus lábios
- Shiu, não tens que me agradecer… - as suas mãos tomaram a minha, fazendo-a pousar na minha perna esquerda – Queria ter vindo antes, mas depois daquele dia no Colombo achei que me estavas a odiar por não te ter ajudado…
- Fiquei magoada não vou negar, mas sei que o erro foi meu e que não estavas a tomar o partido de ninguém… Ele precisava do teu apoio e mais tarde acabarias por me procurar… Aqui estás tu! - esclareci calmamente, mas sem nunca pronunciar o nome de David, tinha a plena consciência que isso me faria quebrar assim que pronunciasse a primeira letra
- Desculpa, miúda… Eu liguei-te tantas vezes, mandei-te tantas mensagens, fui à faculdade, mas nunca te encontrava…
- Eu sei, não leves a mal, mas eu precisava estar na minha onda, sabes? Sem mais ninguém, sem mais conversas, sem mais pressões… Só eu! – esbocei um sorrisinho triste, que o Ruben colmatou com uma leve carícia na covinha da minha bochecha
- Não queres falar com o amigão? – questionou-me com aquele sorriso que lhe era tão característico, devido à sua beleza, jovialidade e boa-disposição
- Sabes que quero sempre falar com o amigão, mas ainda é tudo muito recente… Quero deixar a poeira assentar, digerir esta dor e aí sim, seguir em frente! Depois disso falarei sobre o assunto com a maior calma do mundo!
Sorri então, mas dessa vez foi um sorriso verdadeiro, sincero… Um sorriso de quem esperava realmente conseguir cumprir cada sílaba do que acabara de dizer… Um sorriso de esperança e essa é, e será sempre, a última a morrer!
- Não vais conseguir deixar a poeira assentar enquanto não partilhares com alguém o que ainda vai aí dentro… Esse remorso todo, essa culpa, essa mágoa, minha linda…
E pronto… Foi ali naquele momento que todos os sentimentos enumerados pelo Ruben eclodiram no meu peito e aterraram em mim a uma velocidade estonteante, até me levarem a um estado inconsciente de puro desabafo em que abri a minha alma e o meu coração sem pensar em mais nada.
- Dói tanto, Ru… - assim que comecei a falar os meus olhos ficaram rasos de lágrimas, que só não se precipitaram pelo meu rosto, porque me mantive forte, pelo menos tanto quanto possível
- Fala comigo, princesa… - pediu-me calmamente, ao apertar a minha mão de forma a fazer-me sentir mais segura, mais amparada, transmitindo-me que tinha um ombro amigo mesmo ali ao lado
- Sabes quando acordas de manhã e tens aquela extrema felicidade de veres a pessoa que mais amas a dormir do teu lado que nem um anjo? Tão calmo, tão sereno… E aquele sorrisinho com que ficas ao ir preparar um pequeno-almoço para os dois, para lhe levares à cama, relembrando sempre o momento de entrega que viveram na noite passada, sabes? E aquela vontade louca de correr, abraçar e beijar a pessoa, apesar de não estares com ela somente há um louco par de horas? Ou quando simplesmente paras para observar aquela pessoa… Quando notas o quão perfeita é, o quanto a amas e o quanto necessitas dela pra viver? – fiz uma breve pausa para recuperar o fôlego, mas sentia o Ruben atento a cada palavra que eu pronunciava, como se aquilo fosse dar-lhe alento para tudo o resto que se seguia – Não tenho e nem vou ter mais isso… - sussurrei baixinho, fechando os meus olhos e só aí, permitindo às lágrimas, que escorressem pelas minhas faces
- Podes ter… Vocês são os dois teimosos, estão magoados, mas nunca digas nunca! Não sabes o que o destino vos reserva…
- Sei, Ruben… Sei que esta falta do ar que costumava respirar e que eu apelidava de David, vai continuar, pelo menos até eu me habituar a respirar de outro jeito. Sei que esta dor no peito não vai desaparecer nunca, apenas vai ser aliviada pela morte do meu frágil coração, que muito em breve espero que deixe de sentir, só para eu não ter de saber que ainda o amo. E sei… Porque eu sei, que a minha história com ele chegou a um fim… Que é altura de ele arranjar uma pessoa e seguir em frente, porque eu tentarei fazer o mesmo…
- Adriana, o David…
- Não, Ruben… Não o chames de David! Aquele não é o David que todos conhecemos, aquilo é somente uma espécie de monstro que se apoderou do coração do homem que eu amo, mas que não sei onde raio se enfiou… Dou-vos um tempo até perceberem o que quero dizer com isto… - afastei a franja que teimava em pender do lado direito do meu rosto e prendia atrás da orelha, recordando o momento atroz que havia vivido com ele há uns dias atrás no Centro Comercial Colombo
- Adriana… - ao fim de alguns segundos de silêncio, o meu melhor amigo resolveu pronunciar-se
- Diz, Ru… - sorriu-lhe levemente e pela forma como ele pressionou a minha mão, que permanecia colada à sua, adivinhei que me ia dizer algo claramente incomodativo
- Naquele dia… No Colombo, tu sabes… - ela ia começar a falar, mas cortei-lhe imediatamente o discurso
- Sim, sei… Mas prefiro não falar disso, acho que é o melhor pra todos!
- Eu conheço-o… Quando ele saiu de ao pé de nós, a expressão dele denunciava algo… Ele fez algo de muito mau não fez? – toda a expressão de Ruben se contraiu num acto de pleno desespero, de quem agonizava por uma resposta rápida
- Desculpa, mas eu não vou falar sobre isso, Ruben… - acenei negativamente e também na minha cabeça o fiz, pois estava muito certa de que não iria contar a ninguém o episódio que acontecera durante o bowling
- Adriana… - ele chamou por mim até o olhar nos olhos, apesar dos meus estarem rasos de lágrimas, devido às recordações que forçosamente me invadiram – Por favor… Preciso de saber!
- Ruben, não creio que vás acreditar naquilo que tenho pra contar… Não encaixa no perfil do David que conheces… Que todos conhecemos… Ou conhecíamos! – esbocei um sorriso natural, mas de desalento, pois não queria que o Ruben ficasse chateado nem comigo, nem com David
- Experimenta, Adriana! – ele falou num jeito de desafio que me deixou claramente intrigada
Era como se ele soubesse do acto de crueldade de que ele havia sido protagonista, naquela maldita tarde… Como se ele precisasse somente da minha confirmação para formular o perfil de um novo David na sua cabeça. Como se ele fosse dono deste mundo e do outro, dono do tudo e do nada, dono da razão, mas mais do que isso… Dono da verdade!
- Então cá vai… - suspirei antes de dar início à narrativa

***

(Ruben)
Depois de ouvir o relato da Adriana ainda consegui ficar chocado, não sei bem porquê, afinal eu estava mais do que certo de que David havia feito asneira da grossa naquela tarde, só não esperava que tivesse chegado a tanto. Tive pena da Adriana, era um pobre coração partido ali na minha frente, mas que ainda assim arranjava forças para continuar de pé e batalhar pela sua vida e pelo seu regresso à normalidade. Tenho de admitir que não sei onde é que ela enfiou tanta coragem, somente num metro e sessenta, era um segredo que um dia ela ainda me havia de contar!
- Não pode ser… - murmurei, assim que ela terminou de falar e ainda o fez durante largos minutos
- Eu disse-te que não ias acreditar! – respondeu-me rapidamente, com um sorriso irónico a tomar posse da sua boca
- Não, não… O pior é que eu acredito! – disse rapidamente, com a plena consciência de que David havia passado todas as marcas
- Acho que agora já consegues compreender um bocadinho o meu lado e o porquê de tanta dor e tanta mágoa… - ela encolheu-se no seu cantinho do sofá, como se se estivesse a defender de um possível ataque da minha parte, coisa que não viria a acontecer
- Já compreendia antes… Acredita que eu percebi que aquilo que fizeste não foi por maldade, mas sim porque lhe querias bem, mas entendo também o quanto isso o magoou! Naquelas linhas foste o mais sincera possível e acho que foi isso que lhe doeu tanto, ouvir tanta verdade vinda de linhas e não da tua boca…
- Eu ia tentar, Ruben… A sério que ia, mas cara-a-cara, eu ia acabar por falhar! Sabes como sou… Assim que o visse sofrer, recuava atrás na decisão e naquela altura não podia ser… Não podia!
- Naquela altura… Agora é que tocaste no ponto-chave! – elevei perspicazmente o indicador no ar, com um certo jeito traquina e sorri-lhe ternamente
- Sim, naquela altura… Agora é simplesmente tarde pra pensar mais nisso! – ela encolheu os ombros descontraidamente e deixou a cabeça tombar para trás, suspirando de jeito desinquietante
- Nunca é tarde par… - ela não me deu tempo de acabar e endireitou a cabeça para falar, interrompendo-me
- Não, Ruben! Para isto é demasiado tarde… Não adianta insistires, chega da minha dose de humilhação! Sabes que não sou disto, por isso é erguer a cabeça e vamos à luta! – respondeu-me rapidamente em tom de guerreira e o seu próprio corpo assumiu essa posição
- Eu sei, princesa… Não penses mais nisso agora, então...!
- Eu sei que vou pensar, pelo menos durante mais algum tempo… Pelo menos enquanto a presença da ausência dele me atormentar nas mais pequenas coisas…
- Dói muito, pequenina? – as polpas dos meus dedos palmilharem cada centímetro da sua face, demonstrando todo o carinho que nutria por aquela pequena grande mulher
- Dói a toda a hora, Ru… Dói só o simples facto de ele continuar a ser o dono do meu coração, mas no entanto não ter qualquer vontade de o comandar… - depois ela sussurrar aquilo de olhos vidrados de lágrimas, pude compreender o sofrimento que a invadia toda a vez que falava nele e resolvi então mudar de assunto
- Tens comido bem? Dormido? Descansado?
- Sim, Ruben, podes ficar sossegado… Eu não sou louca ao ponto de deixar de comer por causa de um desgosto destes!
- Eu sei disso, mas também te conheço muito bem e sei como te entregas ao sofrimento e o fazes em silêncio e é isso que mais me assusta, minha pequena mulher… - aninhei-a nos meus braços, senti que tinha ali um dos bens mais preciosos do mundo e não estava muito longe da verdade
Afinal conhecia aquela miúda desde que era uma minorquinha, não que agora fosse muito diferente, mas quando era mesmo pequenina, ainda mal andava. Fomos criados quase juntos, pois os nossos pais eram grandes amigos desde sempre e por essas mesmas razões desenvolvi por ela um sentimento diferente… Um carinho especial, que ultrapassava muito para além do amor de amigos, de melhores amigos! Era um amor de irmãos, um amor de família, daqueles que vem de dentro, daqueles amores que nos aquecem o coração e enaltecem o espírito.
- Eu posso sofrer em silêncio, mas não sou doida ao ponto de destruir o que ainda sobra de mim… Com a minha vida não estou preocupada, pois essa perdia-a no momento em que o deixei pra trás… - ela soluçou e assim que o pressenti apertei-a mais para mim, num laivo quase que intuitivo de protecção
- E se fossemos fazer qualquer coisa pra comeres? Está quase na hora do jantar, pequenita… - sugeri, encarando aquele pequeno rosto de feições quase angelicais e esforçando-me ao máximo para a fazer delinear um sorriso
- Não tenho muita fome… - respondeu-me, torcendo aquele narizinho, que era naturalmente arrebitado desde que a conhecera
- Mas tu estás-me a dizer que não tens fome? A mim, Ruben Filipe Marques Amorim? É que nem sonhes, Adriana Sofia, nem sonhes! – puxei-a até à ponta do sofá, mas quando a forcei a abandoná-lo, esta ofereceu-me resistência fincando os pequenos pés no chão e deixando o peso do seu corpo tombar para trás
- Não quero ir… - refilou comigo quase em surdina, mas eu estava no entanto disposto a não desistir assim com aquela facilidade
- Adriana Sofia, levanta-me esse rabo do sofá! – ordenei num tom rezingão e fazendo mais força para a puxar, mas no entanto sempre com o cuidado e a preocupação de não a magoar
- Não quero ir comer, Ruben Filipe… Deixa-me estar, caramba! – ela jogou-se para trás com uma força tal, que quase me fez perder o equilíbrio e deixou-me somente com uma opção
- Não vais a bem, vais a mal, Adriana!
Aproximei-me do sofá, fiz força em redor do tronco dela e acabei por a segurar no meu colo. De cabeça para baixo e com a barriga vergada sobre o meu ombro, ela foi-se recorrendo dos punhos para soquear as minhas nádegas, mas no entanto isso não me incomodou nem um pouco.
- Põem-me no chão, Ruben… Por favor! – pedinchou naquela voz de criança cheia de manhas, que eu já conhecia melhor que a palma da minha mão
- Adriana, vais comer, quer queiras quer não, lamento imenso!
Até chegarmos à cozinha ela não desistiu de me tentar agredir fisicamente, mas assim que a pousei no chão realizou o seu desejo e com a mão fechada em conchinha, deu-me um carolo no topo da cabeça, que eu tinha bastante desprovida de cabelo, por isso conseguiu provocar-me uma certa dor, ainda que de fraca intensidade.
- Obrigada por me pores no chão! – agradeceu com um sorrisinho irónico no rosto – Já disse que não quero comer, Ruben… Por favor, não insistas mais!
- Adriana, faz esse esforço por mim… Preciso de ficar sossegado por te ver comer, por favor… - antes que ela me desse imediatamente uma resposta negativa, eu recorri-me dos meus dotes de “menino bonito” e formei um beicinho irresistível – Por favor…
- Não venhas, que essa carinha de anjo-rebelde pega com a totó da Inês, mas comigo não, Ruben Amorim! – ela não deu tréguas, nem que fosse durante uns segundos, mas a maneira rezingona como falou, provocou em mim uma vontade de sorrir, porque por momentos achei ter na minha frente a Adriana de sempre
- E pronto, lá estás tu! Deixa de ser teimosa, masé…
- Epá, que chato! – ela soltou um forte bafo de ar por entre os lábios e num pulo, que teve tanto de rápido como de bruto, sentou-se em cima da bancada bem do lado da placa de indução
- Vá, diga-me lá a princesa o que vai desejar para a sua majestosa refeição? – dissimulei um tom de voz cavalheiresco e galanteador e curvei-me em sinal de vénia
- E ainda me gozas? É que estás mesmo a pedi-las… Ai se estás!
- Vá, agora a sério, o que vais querer?
- Não tenho muita fome… Uma coisa simples, pelo menos simples ao ponto de a conseguires cozinhar, carequinha! – ela falou-me num tom trocista e de modo a acompanhar as suas palavras, recorreu-se de uma das mãos para afagar a minha cabeça escassa em cabelo, uma vez que o havia rapado
- Estás a insinuar que não sei cozinhar, ó meia-leca de uma figa?
- Não, Ruquinha, não estou nada a insinuar… - pela pausa curta que ela fez, adivinhei imediatamente o que iria dizer de seguida – Estou a a-fir-mar! – completou com aquele narizinho empinado na direcção do céu
- Vá, pede-me então o que quiseres que eu faço! – pedi em tom de desafio, que pela sua expressão compreendi que havia aceite
- Então é assim… Pra entrada quero um canapé de salmão, com ovas de peixe e molho vinagrete! Depois quero uma sopa de marisco, mas no ponto, com tudo a que tenho direito! Prolongando, quero assim um lombo de porco selado, com uma salada fresca e puré de maçã, por favor! – ela foi fazendo o seu pedido, com o olhar totalmente perdido e enumerando cada prato, um a um, com os dedos das mãos – Ah, e para sobremesa pode ser uma tarte com ganache, morangos e natas batidas com alfazema!
- Oh princesa, não abuses… Isto aqui não é nenhum restaurante cinco estrelas, é a tasca do Ruruzinho, por isso facilita! – ambos quebrámos as vozes com gargalhadas estridente e por segundos senti-me feliz, afinal a minha missão estava completa, mesmo que apenas por segundos, havia conseguido colocar um sorriso naquela face
- Pronto, então eu vou facilitar… Podes fazer o que quiseres, a tua especialidade, vá! Mostra-me esses dotes! – cruzando as pernas sobre o balcão ela alcançou uma garrafa de água de litro e meio, que estava quase no fim e bebeu o pouco que sobrava
- Hum, vamos cá a ver então… - abri a gaveta do primeiro módulo da cozinha, alcançando um avental branco, com a cara da Hello Kitty estampada e uns folhinhos cor-de-rosa no bolso frontal e não hesitei em colocá-lo – Ãh… Diz lá que não fico extremamente sensual?!
Apertei o avental atrás da cintura e obviamente que este me ficou um pouco pequeno, tendo em conta que aquilo era um modelo de mulher, mas acho que isso só contribuiu ainda mais para as gargalhadas de Adriana, que finalmente se parecia estar a distrair da questão do David.
- O teu melhor amigo é de uma sensualidade extrema! – forcei um sorriso meio patusco no rosto e fiz uma pose fatalmente irresistível
- Esse avental assenta-te que nem uma luva… - proferiu por entre fortes gargalhadas e eu ri-me também, ao sentir-me de novo com menos cinco anos e naquelas farras que eu e ela fazíamos em casa dos nossos pais
- Olha que pensando bem, troco o meu fraque por este avental pra subir ao altar daqui a uns meses! – sugeri num tom brincalhão, enquanto retirava um pequeno tacho do armário superior com uma extrema facilidade
- Sim, sim, isso e a Inês esfrangalhava-te… No mínimo! Já pra não falar no padre, que devia fugir pela porta da sacristia para ir perdão a Deus por algum dia vos ter pensado casar!
- Não, não, espera… Imagina: eu de boxers justinhas, meias até meia canela, de avental… Ãh? – acendi uma boca digital e encarei-a colocando as mãos na cintura
- Ok, eu vou ligar ao padre Inácio! – ela ia dar um salto para o chão, no intuito de procurar o telefone, mas claro que tudo não passava de fachada e ambos nos desmanchámos a rir mais uma vez
- Ai, há tanto tempo que não te via rir assim, Adriana!
- Não foi há tanto tempo assim, Ruben… Nós é que temos andado mais afastados desde que eu comecei a namorar com o David!
- Sim, um pouco… Mas eu também tenho falhado, porque desde que comecei a ajudar a Inês com as coisas do nosso casamento, que mal temos falado…
- Pronto, falámos agora! – ripostou imediatamente, naquele jeito espevitado e imediato
Os minutos que se seguiram foram simplesmente deliciosos. Cada silêncio foi ocupado por uma palavra, cada expressão de consternação ou tristeza foi assaltada por um sorriso, cada marca de saudade foi apagada pelo convívio de dois velhos amigos, que há muito não punham à prova a sua cumplicidade.
- Olha que até cheira bem… - disse ela, espreitando pra dentro do tacho – Mas é o quê mesmo?
- Parva! – voltámos a gargalhar, mas não me deixei desconcentrar do prato, afinal de contas isso seria motivo imediato para chacota por parte dela – É “Macarrão à la Ruru”!
Muito rapidamente a expressão dela mudou e eu percebi que metera os pés pelas mãos. Rapidamente na minha memória se avivou a expressão tão familiar de “Macarrão à la Davi’” e a quantidade de vezes que a ouvira em cada jantar em casa dele. Dei-lhe mais do que razões para regressar àquela tristeza, ainda que o tenha feito sem qualquer intenção. Ela baixou o olhar e prendeu-o na mãos, que manteve ocupadas com brincadeiras de entrelaça-desenlaça, só para não deixar nenhuma lágrima cair dos seus olhos.
- Adriana, desculp… - tão rapidamente como comecei a falar, ela interrompeu-me
- Está com bom aspecto, só espero que esteja tão bom como aparenta! – ela fitou-me com um sorriso claramente forçado e os seus olhos estavam rasos de lágrimas, que não sei como, ela não deixou cair
Aquela pequenina começava a dar-me provas de ser mais resistente do que realmente aparentava ser, talvez isso se devesse à maturidade, que com um ano e tal de namoro com David, havia conquistado, mas quiçá fosse somente sinal de estar a dar início ao processo de esquecimento… Bem, de esquecimento não digo, porque quem viveu tão de perto o amor deles, não pode crer que fosse acabar assim, muito menos tão rapidamente, mas quem sabe fosse um sinal de que estava a aprender a controlar os sentimentos, a aceitar as desilusões e a viver com a dor.
- Espero tanto ou mais do que tu que esteja mesmo! – sorri levemente, guardando apenas para mim o duplo sentido que havia dado àquela frase

***

- Estava muito bom, Ru… - agradeceu-me com uns olhinhos tristes, que se haviam transformado desde aquela maldita frase minha
- Não comeste tudo o que estava no prato… - verifiquei ao ver uma boa parte dele ainda cheio de macarrão
- Isso é porque me serviste uma dose de cavalo, daquelas à jogador de futebol! – ainda que triste, ela não conseguia perder parte do seu humor e por vezes lá ia sorrindo, umas vezes mais naturalmente, outras num jeito mais forçado
- Não respinga, sim, Sr. Dona Adriana?
- Pronto, não está mais aqui quem falou! – ela sorriu e levantou-se, levando consigo o prato e o copo
- Eu arrumo a cozinha! – ofereci-me rapidamente, pois apesar de não ter comido, eu desejava ajudá-la em tudo, desde que isso minimizasse um pouco a sua dor
- Não, já cozinhaste, Ru…
Depois de alguns segundos de discussão, acabámos por fazê-lo juntos, se bem que também não havia grande coisa para arrumar. Ela deitou o que restou dentro do tacho, directamente no lixo, mas não levei a mal… Ela não o fez porque estava mau, ou porque não fosse do seu agrado, mas simplesmente porque não queria ter de lidar com mais nenhuma memória de David, ainda que fosse uma coisa tão simples como uma caixinha de comida.
- E agora, vais ficar fechada a correr os canais de televisão? – questionei, enquanto caminhávamos, lado a lado, em direcção à sala
- Sim, provavelmente é isso mesmo que vou fazer… - ela jogou-se para cima do enorme sofá branco e espreguiçou-se, libertando daquele corpo pequenino e airoso toda a tensão acumulada num par de horas
- Isso não é vida, Adriana… Porque é que não vamos dar uma voltinha ou assim?
- Se calhar porque não me apetece… - mostrou-me o seu sorriso mais amarelo e desagradável, e procurou o comando para ligar a televisão – E olha lá, não tens mais vidas para atazanar, ó melga? Tipo… Uma noiva em casa à espera, ou assim! – foi falando enquanto tentava sintonizar-se num canal que desse alguma coisa em condições
- Ter até tenho, mas a ideia de ficar aqui a chatear-te a noite toda é muito mais tentadora!
Atirei-me para cima do sofá e comecei a despenteá-la, tendo o pleno conhecimento de como isso a enfurecia e tirava fora de si. Entre brincadeiras, ela foi chamando pelo meu primeiro e segundo nome, talvez na tentativa de provocar em mim medo ou qualquer outro tipo de sentimento que se assemelhasse, mas não valeu de nada, claro.
- Larga-me, Ruben Filipe! – pediu numa voz quase esganiçada e irritante
- Oh pequenina, pequenina…! – fui-me metendo com ela, recorrendo à pirraça e à minha clara superioridade a nível de força física
Com os movimentos dos nossos corpos e entre tanta chapada e puxão, ela acabou por dar com o pé no comando e este mudou de canal, parando num muito pouco agradável, pelo menos tendo em conta a situação presente da relação, ou melhor, da não-relação, de Adriana e David.
“ – Eu sei que o meu lugar é no Benfica e em Portugal, sempre fui muito amado e acarinhado pelos portugueses, especialmente pelos adeptos benfiquistas, por isso vou continuar dando ao clube no dobro, tudo aquilo que eles um dia me deram e continuam dando, todos os dias desde que aqui cheguei.
- David, o que o fez querer permanecer mais uma época?
- É o que eu já falei… Para quê sair de um clube e de um país onde sou acarinhado e amado já, se para o próximo mercado de Verão os outros clubes continuam lá? Tudo tem o seu tempo, e o da minha partida irá chegar, mas não pra já!
- E o facto da sua namorada ser portuguesa tem alguma coisa a ver com esse desejo de permanecer por cá?
- Em relação à minha vida pessoal não me vou pronunciar, somente posso dizer que tenho em Portugal pessoas que amo muito e que também me amam, lógico que prefiro então ficar o mais possível perto delas… Mas se tiver de partir não serão qualquer impedimento, pois os laços afectivos criados são fortes o suficiente para aguentar a distância!
- David, mas será qu…?
- Peço imensa desculpa, mas não tenho mais nada a declarar… - ele esboçou um sorriso e aquela imagem desapareceu-me dos olhos rapidamente”
Era óbvio que ver David mexia muito com ela, por muito que teimasse em dizer o contrário ou até demonstrá-lo. Pelo aspecto dele e pela maneira como falou ficou tão claro pra mim, como para Adriana, que a entrevista havia sido dada já depois da sua separação. Olhei-a um pouco a medo do cenário que iria encontrar e infelizmente este não foi o melhor. Aqueles dois olhos enormes, estavam esbugalhados, rasos de lágrimas e colados ao ecrã, apesar da imagem dele ter desaparecido há muito. O silêncio havia-se quase tornado constrangedor e a minha falta de acções embaraçosa. Queria ajudá-la, mas naquelas alturas ficava difícil saber como o fazer, pois a emoção acabava sempre por se sobrepor à razão, atrapalhando-me.
- Pequenina… - toquei-lhe levemente no ombro e acerquei o meu corpo calmamente, para não invadir o seu espaço assim de rompante e sem qualquer aviso prévio
- Ai, Ru… - a respiração de Adriana vacilou, ela fechou os olhos, baixou a cabeça e somente vi as lágrimas aterrarem a um ritmo fatalmente vertiginoso nas suas pernas
- Vem cá… Vem cá…
Os meus braços de irmão, ainda que somente de coração, ampararam-na e deram-lhe todo o consolo possível numa altura como aquela. Apertei-a com cuidado e fui sentido as lágrimas escorrerem-lhe pela face e morreram no meu ombro, onde a t-shirt ficou rapidamente coberta de gotas salgadas oriundas da alma.
- Shiu… Não chores, não chores, pequenina… - fui sussurrando pequenas palavras de incentivo, pensando que talvez a estivesse a ajudar, mas contrariamente ao que eu pensava, isso só despoletava em si um choro ainda mais descontrolado e sem fim iminente
- Ai, abraça-me, Ru… Abraça-me…! – pediu de uma forma desesperada e recorrendo à pouca força, de que os seus braços haviam sido dotados, para o fazer
Depois de alguns minutos de sofrimento, o seu choro foi substituído por um burburinho pesado, proveniente da sua respiração. Desencostei-a do meu corpo, olhei o seu rosto, ainda marcado pela dor e molhado pelas lágrimas, e constatei que adormecera assim… Nos meus braços. Nos braços do irmão mais velho, que ela nunca tivera, mas que aprendera a amar. Com algum esforço, mas não muito, pois a sua figura esguia e tonificada não o exigia, consegui pegá-la ao colo. Caminhei pelo corredor com a cadela, a Quimi, a andar em meu redor, quase que fazendo-me perder o equilíbrio. Pousei-a sobre a cama ainda desfeita, muito provavelmente desde manhã, pois Adriana não apresentava sinais de ter saído de casa naquele dia e ajeitei-a sobre as almofadas. Usei uma pequena manta no fundo da cama para a tapar e dei-lhe um beijinho na testa.
- Ru… - a sua voz rouca e recentemente desperta, invadiu a pequena porção de paz que nos envolvia
- Diz, pequenina… - mexi-lhe carinhosamente nos cabelos, usando-me dos meus dedos para os desviar do seu rosto
- Promete que não me deixas também… - pediu calmamente, o que me levou a crer que estivesse mais a sonhar, do que no seu pleno estado de consciência
- Prometo, é claro que eu prometo… - deixei os meus lábios beijaram-lhe a testa uma única e longa vez – Tens a minha palavra… - acrescentei num sussurro
- Obrigada… - respondeu-me em surdina e acabou por se entregar novamente ao cansaço emocional e físico de que foi vitima naqueles últimos dias
Beijei-lhe a face tépida e aconcheguei-a, puxando a manta mais para cima do seu corpo. Naturalmente, Quimera tomou a sua posição ao fundo da cama, enrocando-se nos pés de Adriana.
- Isso, Quimera… Toma conta dela enquanto eu estiver longe… - fiz uma festinha na região lombar da cadela, que crescia a olhos vistos, e saí do quarto, encostando a porta
De duas coisas eu estava muito certo! Uma delas era que Adriana estava irremediavelmente a sofrer de amor e quanto a isso, não havia nada que eu pudesse fazer. Era somente uma questão de tempo até ela conseguir adormecer aquele sentimento, deixando-o nos seus mais profundos calabouços, na esperança de conseguir viver melhor, aprendo a respirar outro ar, a ver outros seres, e a ser outro sentimento, para além daquele que se habituara no último ano e meio: David. E outra coisa sobre a qual tinha profundas certezas, talvez mais até do que da primeira, era que aquilo não podia continuar assim… Depois do que ela me contara acerca daquela tarde, não posso negar que uma certa raiva do meu manz, havia crescido dentro de mim, mas no entanto não lhe conseguia desejar nenhum mal ou até gostar menos dele. David podia ser meu melhor amigo, mas ela era a minha pequenina, e se ele estava a sofrer, aquilo que eu assistira na casa dela, nas últimas horas, nada mais era do que o perfeito retrato de dor e esse eu estava disposto a apagar, da forma que fosse, do jeito que tivesse que ser… E custasse o que custasse! Abandonei o condomínio dela com um destino muito certo: a casa dele.


Mais uma vez obrigada pelos 30 comentários, vocês são incansáveis! MIL OBRIGADAS, meninas! :)
Deixo-vos aqui mais um capítulo, espero que gostem e não se esqueçam de comentar!
Beijinhos
Drii

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