domingo, 20 de novembro de 2011

Capítulo 114 - Nem sempre um sorriso é sinónimo de felicidade (Parte I)


Rodando o pescoço delicadamente, observei o meu querido David…
O meu coração pulsava dissimuladamente dentro do peito, tentando que isso passasse despercebido à figura masculina junto de mim, e a qual era responsável por tal comportamento anómalo do principal órgão vital que habitava o meu corpo. Perscrutei cada traço delicado do seu rosto e senti-me bucolicamente infeliz por saber que nunca mais os poderia sentir nas palmas delicadas das minhas mãos, que se encontravam então incessantemente trémulas pelo nervosismo que me corrompia o frágil autocontrolo.
- …David? – questionei, procurando obter uma acção plausível daquele personagem, de forma a confirmar a mim mesma de que não estava somente embrenhada em mais uma das minhas mirabolantes miragens
- Não ‘tá aqui mais ninguém, acho… - ripostou, num tom surpreendentemente calmo, como se não recordasse mais a maneira abrupta como fora deixado em Paris, sem receber pelo menos uma justificação que bem merecia
- Não… - confirmei, correndo o meu olhar em torno do jardim, que eu sabia estar completamente vazio – Tens razão…
- A Sofia já está esperando você lá em cima… - reafirmou, mantendo as duas mãos pousadas no interior dos bolsos dianteiras dos jeans de lavagem escura, que envergava perfeitamente no seu corpo delicadamente esculpido pela prática intensiva de actividade física
- Obrigada… Eu vou já ter com ela! – respondi, erguendo levemente no ar o cigarro já meio ardido, usando-o como fundamentação para a minha demora delongada
Achei que a conversa tinha findado ali, que nada mais havia a dizer, que nada mais havia a ser acrescentado a tudo aquilo que já fora afirmado antes, de todas as vezes que discutíramos a nova condição de amizade profunda que nos unia – ou pelo menos parecia unir – mas surpreendentemente ele deu continuação ao diálogo, apanhando-me desprevenida para a cavaqueira que se seguiu nos minutos seguintes.
- Vai ter com ela? – inquiriu com escárnio, esboçando em seus lábios um sorriso ironicamente doloroso – Tem certeza? É que cê é perita em deixar as pessoas esperando…
- Desculpa? – questionei, com o coração sobressaltado, enquanto sustinha a lufada de fumo aspirada, junto da minha traqueia, queimando-a ligeiramente num ardor espicaçado pelo desconforto
- Não escutou bem ou quer mesmo que eu repita?
- Não, eu ouvi muito bem… Só não percebo onde queres chegar com essa conversa! – ripostei, depois de ter soltado por uma pequena brecha dos meus lábios, o fumo que apelava ao desconchego dos meus pulmões, devido à longevidade com que o sustinha
- Não ‘tá entendendo? Nossa! Como cê é boa fugindo das conversas…
- Olha, David… Eu não quero discutir! – argumentei, tentando serenar os ânimos que ameaçavam eclodir a qualquer segundo, tal como uma granada à qual se solta o gatilho
- O problema é que cê nunca quer nada… - ciciou num rosnar de dentes provocativo, enquanto cruzava na frente do peito protuberante os dois braços teimosos – Passa a vida fugindo das coisas, Adriana…
- E quem és tu para me julgar…? – inquiri, arqueando a minha sobrancelha esquerda e olhando-o de cima a baixo, enquanto dava o último trago no meu cigarro já cinzelado pelo tempo
- O cara que cê deixou plantado em Paris… - após ter jogado a beata no interior do cinzeiro sobre a mesinha de apoio à zona de diversão da piscina, quedei-me em silêncio, pois nada do que eu pudesse dizer iria mudar o facto eminente de o ter abandonado mais uma vez – E agora… Perdeu os argumentos foi?
- Não, não perdi… - a minha estatura média permaneceu tão pacífica quanto possível, tentando ao máximo não ceder à fadiga emocional que me preenchia plenamente no meu íntimo
- Então fala alguma coisa, caramba! Grita, berra, chora, me xinga… Mas reage! – o seu tom de voz alterado, fez o meu corpo atemorizar-se de uma ponta à outra, totalmente apanhado de surpresa por aquele acesso de agressividade
- Baixa o tom de voz, por favor… - pedi educadamente, numa voz desvanecida pelo pavor de um alguém a quem sempre confiara a minha segurança, mas que naquele momento me assustava como nunca o havia feito
- Porquê, ‘tá com medo que todo mundo ali dentro fique sabendo do que cê fez? Não se preocupa… Já todo o mundo sabe! – afirmou ironicamente, percorrendo com desdém o meu corpo mirrado de vergonha…de uma vergonha que eu não sabia sentir, mas que naquele mesmo segundo me consumiu a uma velocidade alucinantemente assustadora
- Como…”todo o mundo sabe”? – questionei, sentindo dentro do meu peito os batimentos atabalhoados que o meu coração teimava compassar, desesperado por um momento de paz
- É isso que cê escutou… Todo o mundo ali sabe, até minha mãe!
- Sabem como?
- Acho que é fácil compreender, Adriana… Eu não fiquei bem depois do que cê fez, mas só você não enxergou isso! – acusou solenemente, até os seus olhos ilustrarem a dor que o havia sucumbido depois da minha partida da capital francesa, sem deixar para trás qualquer justificação
- E tinhas de lhes dizer a todos? – perguntei num misto de revolta e indignação, pois senti-me traída pela pessoa que mais amava no mundo
- E cê tinha de me deixar sem dizer nada?
- Não fales sem saber o que me levou a ir embora daquela maneira!
- Nada justifica a sua atitude… Cê não sabe o lixo que eu fiquei depois de cê ter ido embora, Adriana!
- Parece que recuperaste depressa! – incriminei, abrindo os meus braços perpendicularmente ao corpo e deixando-os cair instantes depois junto das minhas pernas abaladas pelo cansaço do dia exaustivo que se passara, mas desta vez o silêncio chegou da parte dele, pois ambos sabíamos perfeitamente ao que me estava a referir – Então… Agora foste tu que ficaste sem argumentos?
- Não, é claro que eu não fiquei… - defendeu-se, tentando encorpar uma figura segura e inquebrável, mas que para mim se revelou frágil demais para pertencer ao meu querido David, pelo menos àquele que conhecera há meses atrás
- Então vá… Diz qualquer coisa, reage! – ordenei, fazendo uso do discurso pateticamente ensaiado que David havia preleccionado segundos antes, a meio da nossa discussão amena
- O que é que cê quer que eu diga?
- Na verdade nada… Nunca me surpreendeu a capacidade que os homens têm de fingirem que amam e depressa substituírem essa pessoa, por outra qualquer! – murmurei, ajeitando o casaco que envergava no corpo e dando apenas alguns passos na direcção da entrada de casa, mas que foram travados pela mão pesada de David, que assentou no meu braço esquerdo, repelindo-o para si
- Fingirem que amam? – o rosto dele ficou a escassos milímetros do meu, tanto, que pude sentir a sua respiração ofegantemente descompassada pela raiva, embater na minha boca sôfrega por um beijo do homem que mais desejava no mundo inteiro… ele. – Cê tá insinuando o quê... Que nunca te amei, é isso?
- Não estou a insinuar nada, David… - disse calmamente, obrigando-o a soltar o meu braço, que apertava fortemente, num único puxão fervoroso de cólera - … mas se a carapuça te servir…
- Cê só pode estar de zoação… Eu fiquei pior que lixo quando cê me deixou daquela forma! Primeiro com aquela maldita carta de desistência e egoísmo, depois em Paris, sem sequer dar um sinal… - as palavras dissiparam-se da sua boca tão rapidamente, quanto as mãos ocorreram em auxílio da cabeça, navegando desesperadamente naquela amálgama de caracóis que lhe preenchia o cocuruto
- E como eu já disse… Ultrapassaste muito bem! – reafirmei, abrindo nos meus lábios o espaço necessário para um sorriso rasgado de falsidade se revelar sem qualquer medo ou pudor
- O que é que cê tá querendo dizer com isso, Adriana?
- Não preciso dizer nada… Está bem à vista de todos!
- Cê tá falando do quê, caramba? – suplicou exaltadamente por uma explicação que não era necessária, visto que ambos conhecíamos o conteúdo-chave daquela conversa encriptada, onde ele teimava fazer surgir a sua abençoada e falsa ignorância
- Tu sabes muito bem daquilo que eu estou a falar, David… Não te faças de parvo!
- ‘Tá falando da Joana? – questionou, percebendo que não teria mais por onde fugir, pois quanto mais caminhasse para trás, mais facilmente eu o encostaria à parede
- Uau, afinal até sabes do que estou a falar! – afirmei com escárnio, rindo-me brevemente de uma situação desconfortável, mas abafando-o no interior vagamente cálido da minha mão direita – Não és assim tão burro…
- O que é que a Joana tem a ver pra essa conversa?
- Ora, David… Somemos um, mais um! Se estivesses assim tão mal depois da minha partida, não terias arranjado uma nova namorada tão cedo! – retorqui num laivo de exaltação encoberto pela falsa serenidade que aparentava sentir – E ainda por cima formalizaste a relação, assumiste-a publicamente, apresentaste-a à família e ainda te deste ao trabalho de a trazer para o casamento do Ruben!
- E cê queria o quê, Adriana… Hum? Achou que eu ia ficar esperando você a minha vida inteira? Amar é uma coisa… Agora se rebaixar é outra bem diferente, garota!
- Nunca pedi, nem pedirei para que te rebaixes… Na verdade tu fazes aquilo que bem entenderes da tua vida, não me diz mais respeito!
- Mas no entanto cê falou na Joana, como se isso te incomodasse! – relembrou, percorrendo gloriosamente o olhar pelo jardim, disposto harmoniosamente em redor da vivenda de seis quartos
- O que me incomoda é ver pessoas dizerem a outras que as amam de verdade, mas não demorarem nem um segundo a substituí-las… - confessei num suspiro auspicioso de ainda deter para mim o seu coração e o sentimento que maioritariamente o dominava
- Cê me acusa de te ter substituído e eu te vou acusar uma vida inteira de me ter deixado… - indagou, cruzando o seu olhar com o meu e deixando-me delirar por momentos com uma linha de lágrimas que pensei ver em seus olhos luminosos
- Pois é, David… - concordei, libertando do meu corpo um suspiro profundamente pesado -... A diferença é que o facto de eu te ter abandonado não é, nem nunca será sinónimo de falta de amor; agora o teres-me substituído tão facilmente nada mais quer dizer do que isso mesmo…
- Cê me amava e me deixou? Isso não tem sentido, Adriana…
- Tem… Bastava teres olhado durante um segundo que fosse para o meu coração e terias percebido que fez, faz e fará sempre demasiado sentido! – os meus olhos corromperam-se pelas lágrimas sinceramente sofridas, que pouco depois escorreram pelo meu rosto delicadamente, não ousando temer represálias
- Cê fugiu de mim… Não tive nem tempo de olhar!
- Tiveste mais de um ano para o fazeres… Agora é tarde demais, para mim, e para ti!
- É? – o seu tom duvidoso, fez-me olhá-lo cara a cara, contorcendo-me de segurança para lhe dar a resposta séria que merecia ouvir
- É… A nossa relação acabou, o sentimento também. Tu ultrapassaste tudo e já tens até uma namorada nova, eu estou bem como estou, por isso não adianta nada desenterrar um passado que não irá alterar de qualquer maneira! – assumi claramente a minha posição secundária na vida dele e montando o sorriso mais doloroso que alguma vez esboçara, proclamei o desejo mais negável de toda a minha vida – Felicidades para ti e para ela!
O meu corpo precipitou-se na direcção da porta das traseiras, que dava acesso à cozinha e nem durante um segundo ele arriscou travar-me, pois ainda conhecia o meu temperamento intempestivo suficientemente bem, para não me forçar a um novo embate depois daquelas declarações guiadas unicamente pelo meu coração fragilizado devido ao fim oficializado daquela relação passada.
Subi as escadas interiores com as lágrimas no rosto e detive-me junto da porta do quarto das meninas. Sabia que era ali que iria repousar e por isso necessitava tranquilizar-me para não ser alvo de perguntas inoportunas das minhas colegas de quarto.
Sequei os prantos que me delineavam o rosto e respirei fundo, antes de fazer rodar a maçaneta passivamente trancada, que me impossibilitava de visitar um mundo do qual eu talvez não quisesse fazer parte nos próximos dias.

- Oi, Adriana… Já botei a Sofia pra dormir e ela pegou direitinho, por isso já já, tiro ela da sua cama! – informou-me Brenda, enquanto retirava com uma pequena toalhinha molhada, toda a maquilhagem que lhe camuflava o rosto perfeitamente esculpido pela idade jovem e fresca que possuía

- Não precisas, Brenda… Deixa-a ficar lá a dormir comigo! – disse calmamente, sentindo que iria precisar de sentir um carinho naquela noite tão solitária em sentimentos verdadeiramente consoladores

- Tem certeza? – questionou, erguendo-se do pequeno banquinho na frente do espelho, que encabeçava a entrada da casa de banho privativa servente ao quarto completamente cheio de raparigas, que já dormiam aconchegadas no calor dos seus corpos

- Absoluta… Vai fazer-me bem pra matar as saudades todas! – afirmei serena, recostando a minha mão no interior do meu braço direito, e dando os primeiros passos na direcção da minha cama, que já se encontrava ocupada pela pequena Sofia

- Então sendo assim eu vou dormir também, meu anjo… Boa noite! – desejou, beijando-me docilmente a testa húmida pelo orvalho que peneirava o ar exterior da casa

- Boa noite, Brenda… - correspondi, erguendo nos cantos da minha boca um sorriso timidamente triste, pelo que vivera no alpendre juntamente com David naquela noite

Caminhei até junto das minhas coisas, e delicadamente, para não emitir qualquer barulho capaz de despertar alguma das meninas, retirei o pijama que rapidamente coloquei no corpo, fazendo a mim mesma uma jura… Aquela conversa com David, aquele momento no jardim, eram para esquecer... E enquanto lavava os dentes repetia a mim mesma, vezes e vezes sem conta, o mesmo discurso, como se me autopunisse por ter travado uma conversa tão comprometedora com o meu ex-namorado e agora ir dormir sobre o mesmo tecto que a sua actual namorada, que indiferente a tudo descansava harmoniosamente no mesmo quarto que eu.
Aproximei-me da minha cama e observei cada traço angelical do rostinho perfeito da minha piolhinha, que serenamente repousava sobre os seus sonhos esperançosos de criança inocente. A minha mão tocou-lhe as faces e constatou a temperatura agradável, que se desenvolvia debaixo dos lençóis que eu e ela iríamos compartilhar, e delicadamente repuxou as cobertas para que me pudesse juntar àquele ninho de sossego.

- Mad’inha…? – a sua voz ensonada emergiu no ar provinda de um sussurro melodioso, contrastante com os olhinhos semicerrados, e somente iluminados pelo pequeno candeeiro de mesa, que quebrava a escuridão imposta no quarto

- Olá, minha piolha… - sorri-lhe abertamente, deixando que os meus lábios polvilhassem a sua dócil testinha com beijos repenicados de amor

- Penshei que num vinhas mais domilhe com a Sofiazinha… - murmurou baixinho, depreendendo os seus lábios num ligeiro beicinho enternecedor

- É claro que vinha, princesa… Aqui estou eu pra dormir contigo! – afirmei com os olhos turvos de lágrimas, por recordar o motivo detentor de tanta demora em cumprir a promessa que fizera à minha afilhada

- Estás a cholhalhe, mad’inha? – questionou-me, arregalando brevemente os olhos e tocando as minhas faces, apenas com as suas duas mãozinhas ternurentas de tenra idade

- Não, boneca… A madrinha não está a chorar!

- Mas os teus olhos, mad’inha… - relembrou, observando-os meticulosamente, procurando mostrar-me que estava certa relativamente à tristeza que me abarcava a alma

- Não tem mal, pequenina… Vá, agora tens de descansar! – alertei, puxando as cobertas para cima dos nossos corpos e roubando à sua almofada um pouquinho de espaço para oferecer pousio à minha cabeça

- Não quelho descansar, enquanto tivelhes t’iste… - afirmou decididamente, embatendo os seus pequeninos lábios contra a minha face direita, já humedecida pelas primeiras lágrimas que abandonaram os meus olhos

- A madrinha não está triste…

- Mas estás a cholhalhe…

- Mas não estou triste…

- Mas as pessoas só cholham quando ‘tão t’istes…

- Mas essa tristeza passa e quando passa leva também as lágrimas… - os meus lábios proferiram algo totalmente diferente daquilo que os meus olhos demonstravam, mas no entanto ela era demasiado pequena para o compreender e no fundo acabei por agradecer intimamente esse facto

- A t’isteza pasha quando as alegrias vêm… Num ‘tás fewiz de estar aqui? Comigo, com a mamã, com as meninas, com o Ruben…?

- Estou, é claro que estou, princesa, mas a madrinha está cansada… Muito cansada! É só isso…

- ‘Tás a mentilhe à Sofiazinha, mad’inha! – acusou perspicazmente, fazendo-me crer que as crianças eram sem dúvida os seres mais puros do mundo e por isso os mais capazes de deslindar a complexidade de um ser humano na idade adulta

- A madrinha um dia explica-te tudo, sim, pequenina?

- Um dia quando? Explica agolha…

- Um dia, boneca… Quando fores mais crescida e conseguires compreender os assuntos dos crescidos…

- Nunca tiveste sheg’edos p’a mim… - recordou nostalgicamente, expressando no seu rostinho uma tristeza tamanha, que me esborrachou o coração

- E não tenho… Mas há coisas que tu ainda és muito novinha para perceberes, princesinha… Coisas que só as pessoas crescidas percebem!

- Eu não preciso selhe ashim c’escida para sabelhe que estás t’iste porque o David num é mais teu namowado!

- A madrinha não está triste por isso… O David está feliz e eu também, isso é que é importante! – esclareci monocordicamente tentando convencer-me interiormente da falsa veracidade das minhas palavras sonantes

- Não… Tu num ‘tás fewiz, porque amas o David e não o tens… E nós só shomos fewizes quando temos as peshoas que amamos!

A astúcia doce da minha adorável Sofia surpreendeu-me inequivocamente, apanhando-me nas malhas incontornáveis de um destino já traçado e há muito sucumbido pelo fim do relacionamento que mais me fizera sentir feliz e plenamente realizada. Apesar de saber que ela já possuía maturidade para compreender o que era o amor e a força desse sentimento, não me senti totalmente capacitada para abrir o coração a uma das pessoas que mais me devia querer bem no mundo, da maneira mais pura e sincera possível… a de uma criança. 

- E eu tenho as pessoas que mais amo… A minha família, os meus amigos, a afilhada mais linda do mundo inteiro… - enumerei, deixando que a ternura recaísse sobre mim e a minha mão polvilhasse a sua barriguinha com uma caminhada brincalhona dançada nas polpas dos meus dedos

- Mas não tens o David… - proferiu num sussurro certeiro, sustentando a sua teoria primitiva relativa à pessoa detentora dos meus sentidos

- Mas tenho outras pessoas… E sou feliz assim, piolhinha! – reafirmei, ajeitando as dobras superiores da colcha, que recaía sobre os nossos corpos prontos a serem dominados pelo cansaço – Agora vamos dormir… Precisas de descansar!

- Está bem, mad’inha… Mas p’omete que não cholhas mais! – os seus olhinhos esboroados, fitaram-me profundamente esperando receber uma resposta positiva à promessa que me era imposta de forma imprudentemente irrecusável

- Não… Eu prometo que não choro mais! – os meus lábios tocaram a sua pele macia e perfumada num único instante, beijando-lhe a testinha cálida – Até amanhã, bichinha…

- Até amanhã, mad’inha… - o seu desejo auspicioso dissipou-se numa respiração fechada, que guiou o descanso dos seus dois olhos, que encerraram os pontos de luminosidade eminente e se fecharam em direcção aos sonhos ainda por viver

Numa questão de instantes, senti a respiração da minha pequena Sofia misturar-se com a das restantes presenças no quarto, enquanto eu fiquei entregue à solidão habitual de mais uma noite nostalgicamente só, onde apenas resguardava a companhia do tempo… Do tempo que não esperava, que não aguardava por nada nem ninguém, e arrastava consigo os ponteiros do relógio, que depressa me atiraram à madrugada solitária, que antecipava mais uma alvorada.
No entanto o silêncio falado naquele quarto, foi quebrado quando vi alguém mover-se debaixo dos lençóis, após um sinal exterior à porta do quarto.
Joana ergueu-se e entre a brecha das portadas principais vi surgir a cabeça farta em caracóis do David… Foi o pior cenário que observei naqueles últimos meses, porque o ditado bem o diz “olhos que não vêm, coração que não sente”, mas agora os meus olhos viam demais, com uma definição extrema e por consequente muito dolorosa.

- Amor… - murmurou Joana, abrindo nos seus lábios espaço suficiente para que um sorriso perfeitamente belo surgisse

- Vem, tá todo o mundo dormindo… - suplicou David num sussurro esvoaçante, fazendo sinal com a sua mão esquerda para que a sua companheira se aproximasse de si

Joana acercou-se dele e foi numa troca intensa de beijos que saíram rumo ao corredor, que se preencheu com duas respirações descompassadas, até estas se desvanecerem com a ausência daqueles dois personagens.
Senti novamente as lágrimas aflorarem-me os olhos impiedosamente, apesar de eu ter lutado contra, mas o meu coração parecia não querer dar tréguas ao destino que me estava traçado.
Todas as outras meninas dormiam e eu estava sozinha… Completamente sozinha e sem ninguém em quem me apoiar. Sobre a mesinha de cabeceira vi o meu telemóvel posicionado meticulosamente num dos extremos e o meu pensamento voou imediatamente para o outro lado do oceano.
Levantei-me cuidadosamente, deixando para trás a pequena Sofia, que permaneceu alheia a todos aqueles acontecimentos, e segurando o telemóvel nas mãos, dirigi-me à varanda e marquei o número de uma pessoa que eu sabia estar sempre presente para mim… Vinte e quatro, sob vinte e quatro horas.

- Diogo… - chamei o seu nome numa única respiração segura, deixando que a minha voz timbrada pela dor manifestasse a fraqueza que me dominava por completo e que jamais passaria despercebida a um alguém que me conhecia tão bem e há tanto tempo quanto ele

- Adriana…? – a sua voz difusa, delatou o seu estado de dormência, que havia sido interrompido pela minha chamada de desespero, e que procurava esclarecer-se quanto à identidade da pessoa que se encontrava do meu lado da linha
- Sim, sou eu… - confirmei, soluçando tão discretamente quanto possível para que nem ele compreendesse o meu choro, nem as meninas que dormiam no interior do quarto, o pudessem escutar para além das portadas da varanda que se encontravam cerradas nas minhas costas – Desculpa se te acordei…

- Acabei agora de me deitar… Não tem problema! – já o conhecia suficientemente bem para saber que tomava as suas palavras num simples acto de cortesia, que ressaltou segundos depois, ao demonstrar a sua clara preocupação com o meu estado debilmente fragilizado – Mas… Estás estranha! Aconteceu alguma coisa…?

- Oh Diogo… - com apenas um bafejo ressentido, as lágrimas despoletaram em meus olhos e delinearam todo o meu rosto numa rajada sofrida de desilusão… aquela era a nova realidade, onde eu era forçada a viver sem David e vendo-o nos braços de um outro alguém

- Estás… a chorar, pequenina? – questionou tremulamente, deixando-me ouvir os barulhos revoltos da sua colcha, provocados provavelmente pelo movimento brusco que o seu corpo tomou ao erguer-se da cama… mas eu limitei-me a chorar, não revelando então qualquer preocupação em abafar o som ofegante da minha respiração plangente – Que aconteceu, Adriana? Fala comigo, por favor…

- Está tudo acabado, Diogo… - sussurrei esporadicamente numa voz desvanecida pelo choro, que se dissipou no silêncio da madrugada que corria célere, anunciando na linha do horizonte alaranjado o chegar de um novo dia – Acabou tudo…

- Mas acabou o quê, Adriana? – o nervoso que lhe abarcou a voz, transpareceu em cada agudo solene que moldou o seu timbre placidamente colocado – Diz de uma vez, estás a deixar-me preocupado…

- O David, Diogo… O David tem outra pessoa! – vacilei claramente, assim que assumi a dolorosa veracidade em que estava embebida e à qual me encontrava destinada nos próximos dias

- Outra pessoa? – questionou, descaindo a intensidade da sua voz juntamente com um sopro de ar quebrante – Oh Adriana, eu avisei-te… Avisei-te tantas vezes! – depois de sentir que as suas palavras somente serviram para atear um sentimento de culpa que já estava demasiado acesso, resolveu intervir oportunamente, desculpando-se – Não chores, Adriana… Não chores, por favor!

A sua súplica não conseguiu de todo deter-me no decurso de um sentimento que não era fingido e estava a ser exteriorizado ao máximo, pois por enquanto ainda me encontrava sozinha para puder agir intimamente comigo mesma e compartilhando a minha dor com um amigo que se tornara presente a todas as horas más. No entanto ele conseguiu acalmar-me – ou melhor – a vontade extrema que tive de ver o seu penar impotente sumir foi tanta, que acabei por me controlar, deixando que as lágrimas corressem pelas minhas faces sem emitir um único som.

- Ele trouxe-a para o casamento do Ruben… Tive de a conhecer! – murmurei baixinho, enquanto as minhas unhas chapinhavam o contorno insípido do músculo angular da minha coxa, esperando deter-me de uma possível recaída – Não imaginas como me sinto humilhada…

- Tu sabias que isto poderia acontecer, Adriana… - o seu alerta ressoou junto do meu ouvido, mas sentiu-se na memória de uma conversa passada que havíamos tido – Eu avisei-te, pequenina…

- Eu sei… Eu sei que avisaste, mas agora é tarde! Tão tarde para voltar atrás…

- Vais ter de aprender a viver…

- … sem ele! – quebrei o discurso imponente do meu amigo chegado, antes que ele próprio retratasse um cenário, que por enquanto eu preferia ignorar, deixando-o arrumado até que assim fosse possível – Eu sei disso, jamais me oporia na sua felicidade! E o pior é isso… É que ele parece feliz!

- Se calhar ele está feliz… E tu devias tentar fazer o mesmo!

- Como, Diogo? Como, se ainda o amo tanto? Diz-me…

- A vida é assim, Adriana… Dá voltas! Voltas tão grandes que por vezes nem julgamos possíveis, talvez a vossa história tivesse de ser assim, talvez haja alguém melhor reservado para ti e para o teu futuro! – cada palavra que ele acrescentou àquela barbaridade, mais a fez soar ridiculamente impossível aos olhos de alguém que amava tanto David quanto eu

- Não há ninguém melhor do que ele, Diogo… Nunca irei amar ninguém do mesmo jeito que o amo, é um facto! – assimilei certa de que a única verdade que se mantinha para mim, iria ser eternamente inalterável, independentemente dos acontecimentos que a vida pudesse planear para mim

- Mas nada te impossibilita de amar de novo… - preparava-me para o contestar, mas provavelmente, como já conhecia o conteúdo do meu seguinte discurso, Diogo antecipou-se – Não digo amar com a mesma intensidade… Mas amar! Dar uma oportunidade a ti mesma para ser feliz!
- Não vou mais ser feliz como fui do lado dele…

- Não, senão tentares… Aí não irás ser de certeza! – após as palavras sábias vindas de uma pessoa que um dia amara de forma desmedida e por quem nutria então um carinho infindável, o silêncio instalou-se dando apenas espaço às nossas respirações para que falassem no vagante tempo

- Sinto-me tão sozinha aqui… - ciciei, buscando receber da sua parte um conforto, um ombro amigo… ainda que distante

- Não tens aí os teus amigos?

- Tenho… Mas ter de confrontar a cada minuto a nova namorada dele é sufocante! Ter de o ver a ele é sufocante… Só queria desaparecer daqui!

- Então porque é que simplesmente não sais daí…Hum? – a sua voz meiga, fez-me crer durante meros segundos, que tudo era de simples resolução, mas depressa recordei a promessa que havia imposto a mim mesma e ao meu melhor amigo de infância

- Não posso, Diogo… Simplesmente não posso!

- Não podes… ou não queres?

- Não posso… Eu prometi ao Ruben que ia ficar do lado dele esta semana! – justifiquei apressadamente, tentando no meu íntimo compreender a verdadeira resposta àquela pergunta intriguista, que me baralhou os sentidos – É o meu melhor amigo… É o casamento dele… Não posso abandoná-lo!

- Tu podes… Só que não queres! – Diogo não me pareceu disposto a meias palavras ou meias verdades, talvez porque o seu à vontade comigo fosse muito superior a todas as desavenças passadas, que estavam mais do que findadas – Não queres porque quando partiste para aí tinhas a ideia fixa de rever o David… Não queres porque te agarraste à esperança de finalmente as coisas se puderem resolver… E não queres porque apesar de teres visto com os teus próprios olhos que ele está feliz com outra pessoa, essa esperança não desapareceu e continuas à espera que suceda um milagre e tudo volte a ser tal e qual como antes…

- Não é verdade, Diogo… - a minha tentativa de argumentação foi rapidamente refutada pelo seu maior opositor

- É, Adriana… Tu sabes tão bem disso quanto eu! Não tens aí um carro?

- Sim…

- Não tens vontade própria?

- Claro que tenho…

- Não tens sítio onde ficar esta semana para além da casa dos pais do Ruben?

- Sim, claro que tenho… - concordei, sentindo a sua insistência persistir em cada uma das questões que me eram impostas numa liberdade interrogativa própria de um discurso banal entre duas pessoas cujos sentimentos estavam polidos pelo passado

- Então, Adriana… Se continuas aí é porque de alguma forma queres estar aí!

- Ai, Diogo… - as minhas pálpebras pesaram e acabaram por recair pesadamente na linha d’água, retirando-me a visão perfeita do horizonte iluminado que se erguia sob os meus olhos – Esta esperança não vai nunca desaparecer… Chama-se amor e eu não consigo desistir dele!

- Tens de seguir em frente… A menos que estejas disposta a lutar pelo David, mas agora parece-me um bocadinho tarde!

- Ele está feliz… Não imaginas como ele está feliz com ela! São um casal de namorados perfeitamente normal… Ele já a apresentou aos pais e tudo, Diogo! – relembrei, enquanto as lágrimas se apoderavam novamente dos meus olhos, antecipando o percurso que planeavam traçar no meu rosto

- Adriana, não te quero ver assim… Segue em frente! Por muito que doa… Por muito que sofras! O amor é assim… Nem sempre tem de haver um final feliz, princesa…

- Tens razão… Eu sei que tens, mas tenho de me conformar com a ideia, até lá vou continuar a sofrer… - reconheci, adiantando a mágoa que me iria elucidar durante aqueles dias destinados pelo enlace do meu melhor amigo

- As coisas demoram… Dá simplesmente tempo ao tempo! – aconselhou-me calmamente, fazendo-me adivinhar nos seus lábios um contorno perfeito para um sorriso compreensivamente carinhoso

- Quem me dera ter-te aqui… - segredei num murmúrio padecido pelo vagar tranquilo que arrastava a noite, fazendo-a dissipar-se no raiar de um novo sol, que deveria tomar o seu lugar na linha do horizonte dali a pouco mais de uma hora

- Quem me dera estar aí contigo… Não imaginas como gostava de te puder ajudar mais do que isto!  - ouvi-o suspirar pesadamente, conformando-se com os milhares de quilómetros que nos separavam de lados diferentes de um só oceano

- Já me estás a ajudar muito, miúdo… Só o facto de ter alguém com quem desabafar, já ajuda muito!

- Mas não é a mesma coisa… Não te posso confortar! Desculpa… - o seu perdão soou-me tão patético, que me vi forçada a intervir, face à não-obrigação que compartilhava comigo e que me dava a plena noção que na cidade das luzes ele vivia o seu sonho, paralelo à vida que eu cá seguia

- Não tens de pedir desculpa, Diogo… Além disso, daqui a um mês estás de volta e vou finalmente puder ver-te e chatear-te muito! – rapidamente a conversa pesarosa torneou-se de novas formas e acabou arrastada para uma brincadeira cúmplice de dois amigos recentes, mas unidos

- Terei o maior dos prazeres em que me chateeis… É para isso mesmo que os amigos servem!

- Obrigada, Diogo… Obrigada por te teres tornado um amigo tão bom pra mim! – passivamente delimitei os meus lábios num sorriso modesto e grato, por tudo aquilo que ele já fizera em tão pouco tempo

- Ninguém diria que o puto estúpido de quem um dia gostaste se ia tornar num gajo à maneira! – gracejou, fazendo-me libertar uma gargalhada entrecortada pela respiração bafejante em contraste com o frio delicado, que anunciava a aurora

- Sempre foste uma boa pessoa… Simplesmente ainda não tinhas crescido o suficiente para dar o respectivo uso a isso!

- Acho que foi a vida e todas as situações que travei, que acabaram por fazer com que crescesse assim… e tão rápido!

- Ainda bem que assim foi… Uma pessoa maravilhosa como tu precisava vir ao de cima e dar-se a conhecer! Só tens a ganhar com isso, Didi…

- Se isso me fizer ter como amigos, pessoas tão maravilhosas quanto tu… então sim! Valeu a pena crescer! – quase que telepaticamente tive a certeza que ambos sorrimos, embalados pela nostalgia do momento, deixando depois que só o silêncio imperasse, rompido pelos primeiros chilreares das pequenas aves que habitavam as copas dos carvalhos circundantes à casa – Devias ir descansar… Aí já é quase de manhã!

- Sim… E tu também! Mais uma vez desculpa ter-te acordado…

- Não te preocupes com isso… Podes ligar sempre que precisares, a qualquer hora que seja! Tens a minha autorização…

- Obrigada… Vou tentar não ser muito chata, prometo! – garanti, erguendo-me por instantes da cadeira de verga que abrigava o meu corpo da brisa gélida que envolvia o ar pesado, que circulava em torno de mim – Cuida de ti por aí, miúdo…

- Não te preocupes, eu fico em boas mãos! E tu vê se colocas um sorriso nessa cara e segues em frente… Já é hora, pequenina!

- Prometo que vou tentar, Diogo… Nem que seja pelas pessoas que amo!

- Sempre que quiseres, já sabes… Liga-me, manda-me mensagem, o que quiseres! Vou estar sempre disponível, Adriana!

- Obrigada… Agora vou para dentro, que está a começar a amanhecer! Beijo grande, dorme bem! – desejei cordialmente, segurando junto do ouvido o meu telemóvel de última geração, preenchido por um infinidade de teclas, perfeitamente alinhadas junto do ecrã

- Tu também, Adriana… Beijo, adoro-te! – sorri, esquecendo-me de que apenas estabelecia uma ligação telefónica e coloquei-lhe um fim, pousando o telemóvel no beiral da varanda

No fundo da paisagem, por detrás do lago que se avistava lá ao longe, o sol começava a surgir, matizando o céu de uns dois ou três tons quentes, que antecipavam a luz radiante que prestes se ergueria no firmamento. Sorri novamente, no mesmo instante em que inspirei a aragem que brandamente circulava agitando as flores e as vagens de colheita, e que me trouxe a doce sensação da companhia. Pelo menos tinha a certeza de que não estava, nem estaria mais sozinha… Do meu lado tinha Diogo, disponível a todos as horas para absorver as minhas mais delineadas confissões, e para além dele a minha família e restantes amigos, que até à data já tinham dado provas suficientes de que iriam sempre ficar do meu lado, mesmo nos piores momentos. Conformei-me com o facto de um regresso eminente ao quarto onde provavelmente todos ainda pernoitavam, ao contrário de mim, que quedava junto do beiral da varanda, e de Joana, que saíra a meio da noite, e até então não regressara.
Num passo oscilante, e não sem antes recolher para mim o telemóvel que repousava sobre o pequeno muro do eirado, aproximei-me das portadas brandas, que sustinham o ambiente pesado que plenificava o quarto e depois de as arrastar delicadamente a fim de não acordar ninguém, voltei a deter o poder total do espaço onde me encontrava.

- Já acordada, Adriana? – Andreia, que acabava de sair da casa de banho que servia o nosso quarto, interpelou-me, correndo minuciosamente o seu olhar na minha figura, como que talvez procurando um sinal de fraqueza que todos esperavam ver recair sobre mim durante aquela semana

- Sim… Fui apanhar um pouco de ar, mas vou já voltar para a cama… - esclareci, sorrindo-lhe e vendo-a corresponder, enquanto ambas nos recolhíamos ao conforto das nossas camas individuais, que se distribuíam desordenadamente pelo enorme quarto

- Fazes bem… Vou aproveitar para dormir mais um pouco também, até já! – a sua voz sempre serena, repousou no mesmo instante em que a sua cabeça aportou sobre a almofada, preparando-se para mais uma ou duas horas de descanso, enquanto eu numerava ainda nenhuma

- Até já, Andreia…

Recolhi o meu corpo, puxando até junto das pernas de Sofia os meus joelhos e abrigando debaixo da minha face esquerda, uma das minhas mãos, ilustrando assim a minha figura já habitual enquanto pernoitava. A outra mão limitou-se a pousar sobre o corpinho relaxado da minha afilhada, que permaneceu alheia a todas aquelas horas de sofrimento, vivendo as suas fantasias, até que o despertar matutino assim o ditasse…



***


 
- Mad’inha… Mad’inha… - acordei embalada no timbre harmonioso de Sofia, sentindo as suas mãos fazerem um esforço extra para me movimentarem levemente, esperançosas em que despertasse prontamente – Acorda, mad’inha…

- Hum… - a minha preguiça ofereceu resistência aos primeiros instantes da manhã, anunciada pelos raios de luz que trespassavam discretamente as persianas mal corridas do quarto – Mais um bocadinho…

- Mad’inha, acorda… Eu tenho fome! – balbuciou, usando os seus pequeninos dedos para me desembaraçar as pontas dos cabelos fatigadas por umas quantas e ligeiras duas horas de sono

- Hum… Tens fome, meu amor? – inquiri, no mesmo instante em que senti o meu peito abalado pela preocupação sempre presente com aquela criança
- Shim… Tenho, mad’inha! – assentiu, agitando a sua cabecinha coordenadamente e declarando a sua necessidade matinal

- Então calça os chinelinhos que a madrinha vai tratar de ti… - ordenei, forçando o meu corpo a despertar mais cedo que o previsto e ganhando possança nas pernas, para que estas sustentassem o meu corpo logo pela manhã e após um acordar tão repentino

- Já ‘tá, mad’inha…

- Então vamos, meu amor… Não faças barulho!

Após erguer o indicador junto dos meus lábios, emitindo um pedido de silêncio, tomei a sua pequena mão na minha e delicadamente abri a porta do quarto para que pudéssemos sair, sem incomodar o repouso das restantes mulheres que se encontravam presentes e adormecidas. Ao passar junto da cama de Joana, constatei que esta já se encontrava lá e tal como as outras, ficou alheia à minha saída, que findou, assim que encerrei a portada branca e dei início a um percurso no corredor.

- Ainda estão todos a domilhe, é? – questionou, Sofia, espreitando cuidadosamente todas as portas recostadas no corredor, esperando, tal como eu, reconhecer algum rosto familiar, que se tivesse inteirado da manhã tão presto quanto nós

- Sim, meu anjo… Devem estar, ainda é muito cedo!

- Mas é que eu já não tenho sono… - exclamou, erguendo no ar o seu modesto indicador e fazendo-o rodopiar até este colidir com a pontinha do seu nariz resfriado pela atmosfera da casa

- Mas isso foi porque te deitaste cedo, meu bem… - concordei, auxilianda-o de forma segura, enquanto descíamos três lances de escadas, revestidas a alcatifa num tom bege

- E porque tenho fominha, mad’inha… Muita! – reafirmou, comprimindo a sua testa em três expressivas rugas, que lhe conferiram um aspecto deleitoso

- Então vamos lá tratar disso! – clamei, segurando-a nos meus braços para que encaixasse num dos bancos altos da cozinha, que se encontrava intacta, dando sinal de que desde a noite anterior mais ninguém a usara

Recolhi do armário superior, junto do lava loiças, uma taça funda feita numa cerâmica ceifada por uma mescla de cores vivas e pousei-a junto da bancada, que iria servir de suporte à primeira refeição do dia para a minha pequena menina. Caminhei até ao frigorífico e depois de encontrar o desejado pacote de leite, aqueci uma pequena porção, preparando-me para aprontar o pequeno-almoço de Sofia.

- Já estás mais fewiz hoje, mad’inha? – perguntou de rajada, vinda do nada, enquanto eu dispunha na taça de leite os primeiros flocos de avelã, juntamente com umas quantas pepitas de chocolate negro

- A madrinha já estava feliz, meu amor… Mas sim, hoje ainda estou mais! – confirmei, pretendendo fazer-lhe a vontade e não dar asno a uma conversa semelhante à da noite passada, que a qualquer segundo me poderia fazer vacilar

- Ontem num estavas… Cholhaste! Mas eu num digo a ninguém… P’ometo! – cruzou na frente dos seus labiozinhos os dois dedos indicadores e beijou-os, dando sinal de que iria cumprir a promessa mais recente, partilhada por nós duas… madrinha e afilhada.

- Eu sei que não dizes, meu amor… - assim que acerquei o meu corpo do seu, beijei-lhe harmoniosamente o topo da cabeça e na sua frente pousei a taça de cereais suficientemente abastecida para lhe saciar a fome – Agora come, princesinha!

- Ob’igada, mad’inha! – sorriu-me e sofregamente segurou a colher de metal na sua mão e deliciou-se com a simples refeição que lhe preparara

Enquanto Sofia devorava a primeira refeição do dia, eu aproximei-me da porta traseira da cozinha e espreitei pelo pequeno quadrado de vidro duplo, que me oferecia a visão periférica do jardim, onde a minha pequena Quimera havia passado a noite, amarrada a uma árvore e sujeita aos desprazeres de uma noite pungente de Inverno. Contorci-me no meu íntimo ao ver a tristeza demarcada em cada um dos seus movimentos meigos, enquanto remexia a relva húmida pelo zimbro, com o seu pequeno focinho saliente. Quis sair para brincar um pouco com ela, mas tinha sob a minha guarda Sofia e ainda me encontrava de pijama e pantufas, o que me fez retrair o desejo e guardá-lo para mais tarde.

- A Quimelha está lá fo’a? – rodei o meu corpo sobre os calcanhares de modo a ver a minha afilhada, que na sua frente apresentava uma taça já quase vazia

- Sim, meu anjo…

- Po’quê? Tu nunca a deixas na rua….

- Mas hoje teve de ser, amor…

- Oh, eu go’to de b’incalhe com elha! – exclamou, erguendo as suas mãozinhas em sinal de decepção face a ausência da minha companheira de longas e faustosas horas

- Mais logo prometo que te levo lá fora para que possam brincar, sim? – sugeri, aproximando-me mais uma vez do seu corpo inocente e remexendo nos seus cachinhos rebeldes, que lhe emolduravam canonicamente o rosto angelical de criança reguila

- Sim, mas também quero brincar contigo! – pedinchou, enterrando o seu rostinho sobre os dois punhos cerrados, erguidos verticalmente no ar e apoiados sobre os cotovelos que jaziam sobre a bancada de granito

- A madrinha não tem tempo para brincar contigo, amor… Tenho coisas a fazer! – o desgosto pelo simples facto de não puder compartilhar um par de horas de pura brincadeira com a minha afilhada, recaiu sobre o meu ser, afectando a animação matinal que se havia apoderado de mim

- Oh… Agolha nunca tens tempo pa’ mim!

- Desculpa, pequenina… Mas a madrinha anda cansada e tem um monte de coisas para fazer…

- Oh, tudo bem… Eu vou para ao pé da minha mamã! – num pulo rompante, saltou da alta cadeira para o chão e iniciou uma corridinha direccionada ao piso superior, ou melhor, ao mesmo quarto que me pertencia a mim e à sua mãe

- Sofia, espera… - chamei o seu nome, mas a tarefa de a demover foi totalmente em vão

Sem dar conta de que isso acontecesse, senti um aperto enorme assaltar-me o peito, comprimindo o meu coração num punho cerrado e bem atado pelos nós dos dedos. Tentei respirar fundo, mas a culpa que sentia dentro de mim não desapareceu, devido à plena consciência que detinha relativamente à desilusão que dera à minha pequena afilhada.
Durante meros segundo, reconsiderei segui-la e procurar serenar a decepção que causara naquele ser frágil, mas o meu corpo estava tão massacrado pelas poucas horas de sono, que foi incapaz de agir sozinho e comandar os meus pés para que estes se movessem ao sabor do coração. Fiquei então ali… Completamente inerte, completamente inanimada, buscando forças não sei onde para subir o olhar e fazer face à vida e às suas adversidades.
 Os meus olhos encerraram-se de cansaço e o meu corpo acabou por tombar sobre uma das cadeiras da cozinha, aquela que se encontrava ligeiramente deslocada da mesa, e nem os passos trepidantemente suaves que percepcionei ao fundo da escada, me fizeram erguer ou mostrar um sorriso que não era meu e o qual não sentia vontade de exibir faustosamente.

- Adriana… - a fala melodiosa de Paula, despertou-me do meu estado dormente de cansaço e fez-me pela primeira vez olhá-la, quando nos encontrávamos sozinhas naquele espaço

- Bom dia, amor… - murmurei calmamente, deixando o meu olhar pendurado no limite entre a bancada e o chão, e não encontrando forças para o altear

- Bom dia, princesa… - clamou, beijando-me o topo da cabeça com os seus lábios cálidos de ternura – Que carinha é essa?

- É a minha…

- Eu conheço-te… Algo se passa, amor!

- Ai, Paulinha… - assim que pronunciei o seu nome, a minha cabeça descaiu sobre o colo e duas lágrimas gordas precipitaram-se vertiginosamente, esmorecendo na pele que contornava as minhas coxas despidas

Lá estava eu… A chorar novamente por ele. Pelo único homem que detinha aquele puder avassalador sobre mim! Tudo em mim pedia “David”, tudo em mim vivia para e por ele e incrivelmente sentia-me tremendamente vazia. Até a minha pequena Sofia estava desiludida com a pessoa em que me havia tornado, o que de certa forma me levou a considerar que talvez David estivesse certo e eu não era mais a mesma Adriana de sempre.

- Fala comigo, amor… Que aconteceu? – perguntou-me Paula, segurando as minhas duas mãos e agachando-se junto de mim, determinada a não sair de perto, enquanto não me reconfortasse com o calor da sua amizade fulcral
- O David, Paula… O David… - apenas consegui esboçar o nome dele na terminação dos meus lábios, enquanto um soluçar aflitivo dominava a minha respiração
Talvez porque me sentiu demasiado nervosa, Paula segurou-me junto de si e plantou-me no sofá da sala, onde me entreguei a um choro compulsivo assim que esta se ausentou para regressar minutos depois com uma caneca fumegante de chá de camomila.
- Toma, amor… Bebe isto! – ordenou-me enquanto ocupava o lugar vago do meu lado e pousava a sua mão encorajadora no fundo da minha coxa
Sabia que era inútil contestar o simples facto de não querer sorver nada numa altura como aquela, por isso limitei-me a obedecer às suas ordens e sempre com as lágrimas constantes brotando dos meus olhos, bebi até ao último golinho a caneca que estava cheia.  
- Mais calminha? – perguntou carinhosamente, passando os seus dedos pelos fios delicados dos meus cabelos, mas apenas se acautelou de um simples acenar de cabeça da minha parte – Fala comigo… Com calma, conta-me o que tens.
- O David, Paulinha… Ele é feliz com a Joana! – as primeiras palavras que proferi não se devem ter associado de forma lógica no pensamento da minha amiga, pois esta esboçou uma expressão de estranheza, mas eu prossegui com o meu desabafo – O David… Eu vejo que ele é feliz com ela, que me esqueceu! – as lágrimas retomaram aos meus olhos perante a confissão revelada, deixando-a sem reacção face a tanto desespero
- Oh princesa… Passaram cinco meses desde que vocês se separaram! – relembrou-me no seu jeito carinhoso, acarinhando-me o rosto com as polpas dos seus dedos quebradiços
- Mas mesmo assim… Nós amávamo-nos tanto, Paula! Tanto…
- Tu sabes que o amor por vezes acaba, não sabes, amor?
- Sim, mas o nosso era diferente… Era para ser para sempre, ele prometeu-me! – proferi alteando levemente a voz, como se o simples facto de o fazer, fosse conferir outra veracidade às minhas palavras
- Muito pouca coisa é para sempre… Os sentimentos são mesmo assim!
- Também achas que ele não me ama mais, não é? – inquiri, encarando-a olhos nos olhos, pois conhecíamo-nos bem demais para eu reconhecer a misericórdia de uma mentira no seu olhar
- Acho que o David ficou muito magoado com o fim da vossa relação e entretando tentou ser feliz de outra forma…
- Com a Joana… - relembrei amargamente, rolando os meus olhos em dois círculos perfeitos num simples revirar
- Sim… com a Joana! – a confirmação para a minha teoria só provocou uma força maior no choro que despoletava a cada instante dos meus olhos já trucidados pela maratona de lágrimas que haviam atravessado
- Eu sei que errei, Paula… Mas… Eu pensei… Eu pensei que as coisas iam ser diferentes esta semana… Que nós íamos falar e… e… - os planos futuros que traçara na minha mente, tinham-se anulado num simples instante em que cruzei o portão daquela casa e vi aquela mulher beijar os lábios do (meu) homem - Deixa pra lá o que eu pensei…
- Oh amor… Achaste que vocês iam falar, fazer juras e ele acabava com a Joana para assumir esse amor? – inquiriu, acariciando-me meigamente as faces
- Achei… Achei que apesar de toda a mágoa ele ainda me amava e esse amor era superior a todas as dores que lhe havia provocado… - não consegui terminar o decurso das minhas palavras, pois um choro vagabundo apoderou-se de mim  
- Vem cá… - puxando-me para si, a minha doce Paula, acabou por me envolver no calor do seu abraço protector
- Dói tanto, Paula… Tanto… - confidenciei num soluçar miudinho e ressentido pela esperança findada naquele amor
- Eu sei, amor… Eu sei… - afirmou, embalando-me nos seus braços até que eu finalmente acalmei… as lágrimas secaram e um silêncio profundo instalou-se
Não ousei dizer uma única palavra e ela tão pouco, porque talvez adivinhasse a dor que trazia comigo e a inutilidade de qualquer palavra face a esse sentimento rancoroso com o destino. Manteve-se então protegida e amada no refúgio do abraço, mesmo sabendo que nunca iria conseguir preencher o vazio deixado pela partida de David da minha vida.
- Paulinha… - fui eu a primeira a quebrar o sossego e a separar os nossos corpos prolongadamente unidos por um abraço
- Diz, amor…
- Sabes o que dói mais? – questionei retoricamente, olhando os seus olhos, com os meus rasos de lágrimas – Não é saber que ele está com outra pessoa… É saber que ele está com outra pessoa e já não me ama mais!
Para além das lágrimas que me escorreram pelo rosto, percepcionei os olhos de Paula plenos de lágrimas… penso que se emocionou com a fraqueza do meu ser actual e sentiu pena, pena do sofrimento em que aprendera então a viver.
- Nunca pensei que ele me fosse substituir tão depressa… - confessei monocordicamente, recaindo a minha cabeça nas costas do sofá bege onde nos encontrávamos
- A vida seguiu para os dois…
- A dele seguiu depressa demais… Eu ainda nem consegui olhar para mais nenhum homem, quanto mais iniciar um relacionamento e assumi-lo perante tudo e todos!
- Com o tempo… Com o tempo irás aprender a fazê-lo!
-- Arrependo-me de tanta coisa… Se calhar devia ter lutado por ele, tentado reatar o amor que sentíamos, mas não… Deixei por morrer por completo a coisa mais bonita que alguma vez senti por alguém!
- Adriana, olha pra mim… - pediu, colocando a sua mão no meu queixo e obrigando-me a encará-la sem espaço para desistências ou fraquezas – Tu e o David têm um passado, uma história, tiveram juntos muito tempo… Sim, acabou! Por um erro teu, que ele não soube perdoar… Tu seguiste o teu caminho, não apareceste mais, não o procuraste e acho que ele não achou correcto seguir atrás de ti, manter-te sempre presa senão tinha a mínima intenção de te perdoar depois de o teres deixado de novo em Paris…
- E o amor acabou… Ele não me ama mais! – murmurei chorando de forma miudinha e sentida
- Amor, não entendas isto como um sinal de esperança, mas de um jeito ou de outro, o David vai sempre amar-te… À sua maneira! – afirmou compreensivamente, denotando a sua voz de uma ternura extrema que já lhe era característica – De um grande amor como o vosso, fica pelo menos o carinho…
- Mas essa maneira… Esse carinho… Não chegam para ele voltar a ser meu! Agora é a Joana que tem o bem mais precioso da minha vida!
- E tu tens de te conformar com isso e seguir com a tua vida, Adriana! Para trás fica o David, namorado de dois anos; e em frente fica o David, grande amigo!
- Mas como é que eu posso ser apenas amiga de uma pessoa que amo tanto? – a pergunta ficou suspensa no ar e eu não obtive uma única resposta da parte dela
Senti-a percorrer o olhar pela sala na esperança de que alguém ou alguma situação a livrasse daquela pergunta sem resposta possível, mas o que eu desconhecia… o que ainda estava para vir… eram uma dúzia de respostas, que se iriam arrastar até mim nos próximos dias, talvez até bem mais cedo do que aquilo que imaginava!





Antes demais quero pedir desculpa a todas as leitoras pela demora deste capítulo, mas já sabem o porquê desta situação.
Como o prometido é devido, cá fica o capítulo, sem previsões de quando conseguirei postar o próximo.
Espero que gostem e comentem :)
Beijinhos, Drii
P.s - Para quem perguntou a música do blogue é "It will rain - Bruno Mars"    :)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Olá queridas leitoras,
venho aqui deixar-vos mais um pedido de desculpas pela demora num capítulo novo, mas reforçando o que já comuniquei antes, a escola e os trabalhos andam insuportáveis e para piorar a situação, a inspiração para a história não tem andado grande coisa. No entanto quero informar que o capítulo já se encontra a ser escrito e espero conseguir acabá-lo em breve, mas espero que sejam compreensivas.         Mais uma vez peço muitas desculpas! :(

Beijinhos grandes, Drii

domingo, 30 de outubro de 2011

Capítulo 113 - Coração desarrumado (Parte IV)


O tempo voou… Desde aquela tarde no jardim da casa do Ruben, já quase dois meses se haviam passado.
Sobre David e a sua nova namorada mais nada soubera, porque me obrigara a mim mesma a não ler mais qualquer tipo de revista ou artigo que falasse sobre a sua vida pessoal, ou até mesmo aqueles que inventavam maledicências sobre mim e me faziam vacilar no meu frágil autocontrolo… Talvez fosse melhor assim. “Olhos que não vêm, coração que não sente!”, sempre me dissera a minha avó, dona de toda a sabedoria de mais de sessenta anos de idade.
Mas o tempo passara e era um facto, que estava então a exactamente uma semana do casamento de Ruben e isso só quereria dizer uma coisa… Chegara a hora de enfrentar a pessoa que durante meses tinha procurado esquecer.
Naqueles sessenta dias, ocupei o meu pensamento com a faculdade, que ia de vento em pompa; com chamadas cruzadas para o outro lado do oceano, compartilhando amarguras, alegrias e dissabores com aquele que aprendera a ser o meu novo confidente, Diogo; e ajudando Inês com os últimos preparativos para o tão aguardado enlace.
Aquela semana seria passada ao abrigo da vivenda Amorim. Aquela enorme casa, situada perto da que pertencia à minha família, e que tomava cerco no Baleal, uma das cidades mais belas que alguma vez conhecera e onde outrora descobrira a minha paz.
O Campeonato português sofria então uma breve pausa, devido aos jogos de apuramento para o Mundial. Ruben, infelizmente ficara de fora da lista de convocados e segundo o que lera, David estava fora das opções de Mano Menezes, devido a uma pequena lesão no joelho esquerdo. Outros membros do plantel haviam sido chamados para representar o seu país, mas aqueles que essencialmente inteiravam o nosso antigo grupo de amigos, haviam-se tornado cartas fora do baralho para os seus seleccionadores.
Seria provavelmente a semana mais assustadora da minha vida, mas aquela que eu esperava ver passar mais depressa, para regressar ao conforto de Lisboa e da minha casa.
Conduzi calmamente durante uma hora. Não tinha pressa em chegar, apesar do meu coração teimar em manter um ritmo estupidamente parvo do lado esquerdo do meu peito. Posso até jurar que batia com tal intensidade que por momentos achei que me fosse sair boca fora, projectando-se sem sentido ou rumo algum.
Quando estacionei o meu Audi Q7 na frente da casa dos pais de Ruben, senti a sensação robusta de excentricidade percorrer-me o corpo. Teria definitivamente de ficar ali… Não conseguia regressar à vivenda da minha família após a morte do meu avô, mas Ruben também não aceitava o meu desejo de me instalar no hotel mais próximo e eu sabia que se o fizesse, ele nunca me iria perdoar.
Saí do carro e os meus ouvidos foram preenchidos por um burburinho ruidoso composto por um turbilhão de vozes e sotaques misturados no ar, que provinham do lado interior dos jardins da casa.
Não hesitei em abrir a porta e sair imediatamente do carro. Destranquei a de trás, abrindo espaço para a Quimera saltar para o chão e esta manteve-se próxima de mim rodando em torno das minhas pernas, em círculos modestamente confusos, mas enérgicos.
Avancei na direcção do portão, que como já era hábito estava fechado, mas não trancado... A minha mão delicada escapuliu-se por entre uma brecha entre os ferros e com um simples premir do gatilho, este abriu-se.
O início do meu percurso foi trémulo, pois sentia as pernas tiritantes, mas a presença de Quimera deu-me surpreendentemente um aconchego que eu não esperava conseguir sentir naquele momento de confrontos.
A primeira pessoa que vi foi Ruben, o meu eterno e dócil melhor amigo, com quem finalmente acertara as pontas soltas de uma guerra que não deveria ser travada entre nós. Ele largou tudo o que estava a fazer e correu na minha direcção, obrigando-me a reflectir um sorriso que ainda me esforcei por conter. Que saudades daquele miúdo… Dos momentos que vivêramos naquela casa há alguns anos, mas que ainda se sucediam em flashes na minha dissipada memória de menina. Assim que me alcançou, e apenas com um dos seus braços fortes, agarrou em mim e ergueu-me no ar. Apertámos-mos tão fortemente um contra o outro, enquanto os braços dele envolviam a minha cintura e os meus o seu pescoço, onde mantinha a cabeça enterrada, que me senti de novo no passado… Naquele que desejava recuperar. Onde ser criança não custava, e o segredo não estava em viver, mas sim em saber fazê-lo.
- Nunca mais fico tanto tempo sem te ver, pequenina! – consegui adivinhar-lhe um ar rezingão na face ao falar e acabei por o confirmar quando ergui o meu rosto do seu pescoço e o encarei, precavendo as saudades de dois meses em que somente faláramos por telefone
- Que saudades… Até da tua refilice! – por aquela altura já todos os presentes nos olhavam e apesar de ainda não ter visto quem mais ansiava e isso me ter feito suspirar em modos de pesar, não me coibí de beijar a face ao carinhoso Ruben
- Então e a viagem, foi calma? – inquiriu, pousando-me no chão e abrindo com os nossos pés um percurso feito sob o calor do seu terno abraço de irmão
- Sim, fez-se bem… Já me habituei a muitas horas de carro! – sorri levemente, pendendo o olhar no relvado verdejante que enquadrava perfeitamente as pontinhas dos meus sapatos
Foi nesse momento que a Quimera saiu a correr que nem uma louca. Afastou-se de mim e acelerou numa corrida desenfreada rumo a uma pessoa que acabara de enveredar pelo jardim.
O meu coração tremeu ao vê-la lançar-se à cintura de David, constatando que apesar de vários meses de ausência ela ainda o reconhecia e a loucura que sempre sentira em relação ao seu dono e às brincadeiras compartilhadas por ambos, ainda permanecia.
O meu olhar observou tudo… Quimera circundava o corpo dele num estado de frenética felicidade, latindo arduamente e agitando no ar a pequena cauda, que revelava toda o seu contentamento em reencontrá-lo. E o mesmo já não poderia eu dizer, mas ainda assim não consegui esconder um sorriso que me adornou os lábios, mas rapidamente o meu olhar tomou consciência de que na minha frente se encontrava o homem mais perfeito do mundo e por consequente os meus pés colaram-se ao chão, incapacitando-me de dar mais um passo que fosse.

- Quimi! Que linda, garota! – David revelou a mesma alegria que a nossa cadela e afavelmente distribuiu no focinho dela uma enxurrada de carinho e cumplicidade
E foi dessa mesma forma que Quimera acabou por se render… Jogou-se nos pés daquele que fora um dia o meu homem e com a zona lombar virada para cima, aguardou que as carícias se alastrassem por todo o corpo como já era hábito.
- Oh garota, que saudade! – ele limitou-se a cumprir o desejo dela e  agachando-se junto do seu corpo combalido fez-lhe festas morosas, recebendo como compensação uma ou duas lambidelas brincalhonas na face
Quando a Quimera se levantou, também ele se ergueu e olhou na minha direcção… Aquele era o nosso primeiro confronto depois daquilo que acontecera em Paris, mas ainda assim eu não consegui evitar a estranguladora vontade que senti de me perder nos seus braços e roubar-lhe um beijo, que eu sentiria com todo o meu coração, mas pelas razões óbvias fui obrigada a suprimir o meu desejo a leves quimeras suspensas no pensamento do meu íntimo.
A primeira pessoa a aproximar-se de mim foi Paulinha, que me beijou carinhosamente a testa, mas quando eu pretendia retribuir o carinho imposto pela nossa amizade, detive-me na imagem contundentemente infeliz que inundou o jardim…
Uma bela rapariga, que eu nunca tinha visto, mas que fosse quem fosse fez todos os olhares presentes centrarem-se em mim e só em mim.
Ela era de facto uma mulher lindíssima. Os cabelos lisos castanhos aclarados pendiam-lhe sobre os ombros, enquadrando-lhe preciosamente o rosto onde dois olhos castanhos escuros sobressaíam, embelezando ainda mais o corpo bem-feito e atraente de que era dona.
Sem qualquer razão aparente o meu coração comprimiu-se num punho cerrado do lado esquerdo do meu peito, como se antevisse a cena que se seguiu. Era ela… A rapariga de quem todas as revistas falavam e apontavam como sendo a nova namorada do David! Os meus olhos clarificaram-se e desmistificaram aqueles traços, comparando-os com os da fotografia que vira deles os dois na revista cor-de-rosa de há dois meses atrás, mas tive essa certeza quando a vi roubar dos lábios de David um beijo rápido… Dos lábios que um dia haviam sido meus, que um dia só eu tinha beijado.
Apesar do orgulho dominante os meus olhos ficaram rasos de lágrimas, que felizmente não traçaram direcções no meu rosto de feições marcadas pela dor.
Como que por instinto a Quimera começou a ladrar-lhe, agachada em posição de ataque e mostrando todo o corpo - especialmente as patas – numa contracção tensa, que não era habitual naquele ser tão dócil, mas talvez estranhasse ver do lado de David, beijando-o, outra pessoa que não eu.
- Calma, Quimi, é só a Joana… Não vai fazer nada p’ra você! – ele tentou acalmá-la, passando-lhe a mão no topo da cabeça e no lombar, mas as carícias que há segundos atrás a haviam deliciado não foram capazes de pôr fim à inércia daquele descontentamento
- David, acalma esse bicho! – pela primeira vez ela pronunciou-se com uma camada de desdém, repugnância e repulsa, revelando uma voz igualmente bonita à sua figura, mas algo no seu jeito de se impor frente à minha companheira de longas horas, molestou-me, contudo ainda equacionei a hipótese de ser dona de um medo que eu própria já havia perdido há algum tempo… de cães.
Fiz questão de engolir uma por uma todas as lágrimas que impensadamente se haviam formado por detrás das minhas pálpebras e fincando o pé direito no chão, encaminhei dois dedos à boca e soprei, emitindo um forte assobio de chamamento para Quimera. David olhou-me, assim como a cadela, que circundou entusiasticamente o corpo de David, dando-lhe sinal para que se aproximasse de mim como tantas outras vezes o fizera, mas como já era previsível ele não se moveu. Talvez um pouco enfadada com a reacção anómala do seu dono e naquele jeito tão típico de cadela traquinas, retomou os latinos ofensivos à rapariga que permanecia escondida nas costas do meu antigo David.
- David, não deixes que me faça mal! – implorou, não conseguindo esconder o desprezo que foi perceptível a todos os presentes, mas especialmente a mim, que não demorei em manifestar-me
- Quimi, anda! – ordenei, repetindo o assobio de há pouco, mas desta vez ela nem sequer se deu ao trabalho de olhar na minha direcção, pois estava demasiado entretida a gozar do seu prazer deleitosamente delicioso em assustar a pobre rapariga
Não me restou nenhuma outra opção para além daquela de me aproximar. Decidida, finquei as pontas dos pés no chão e delineei um caminho recto e célere até chegar junto da minha cadela, de David e da sua nova companheira de vida. Tirei do bolso do meu casaco a trela e acerquei-me o suficiente para a conseguir prender na coleira de Quimera, sem ter de olhar David ou a sua companhia, olhos nos olhos, pois disso seria inequivocamente incapaz.  
- Quimi, anda…! – implorei, fazendo-lhe festas no topo da cabeça e algum esforço para a conseguir arrastar os primeiros centímetros, enquanto a sentia oferecer resistência, deixando a marca das suas patas distintas no relvado, esburacando-o
Mas ela manteve-se intransigente, reforçando latidos violentos à nova namorado do David e oferecendo-me uma dose extra de defesa que me impedia de a continuar a arrojar pelo jardim fora.
- Quimi, bolas! Já chamei… Já! – nesse exacto momento a minha mão repeliu um movimento forte e conciso na trela, repercutindo-se num puxão que deixou Quimera sem qualquer hipótese de resistência e ela acabou por me seguir a muito custo, ainda tentando tomar o sentindo oposto, mas sendo-lhe impossibilitado
- Aquele cão tem graves problemas comportamentais! – escutei aquela voz sonantemente irritante de pujança, pertencente à tal rapariga que acompanhava o meu ex-namorado, mas não olhei para trás, resolvendo ignorar e seguir o meu caminho
A pobre Quimi ainda olhou para trás, ganindo fortemente, implorando a David que a seguisse… Que nos seguisse! Mas o caminho que tomei foi somente trilhado por nós duas e com as primeiras lágrimas a correrem-me pelas faces. Apenas Paula e Ruben conseguiram vê-las, pois eram os únicos naquele espaço que tinham uma visão frontal do meu rosto e por consequência do meu sofrimento.
Os rostos de ambos contorceram-se de dor ao ver-me assim, porém não desarmei a postura forte que havia adoptado e enxuguei as lágrimas que me afagavam os traços do rosto. Foram os braços da Paula os primeiros a envolverem-me num abraço forte, até eu finalmente me sentir em porto seguro.
- Não fiques assim… - pediu-me ela num sussurro discreto, mas que bastou para intensificar o meu choro silencioso
- Nunca pensei, Paula… Nunca pensei que ele fosse seguir em frente tão depressa! – consegui dizer por fim, controlando a respiração descompassada ordenada pelo choro, que me esforcei por manter tão discreto quanto possível
- Calma, tem calma, amor… - pediu-me, enquanto afagava carinhosamente os meus fios de cabelos docilmente embalados pela brisa fresca outonal que já quebrava as folhas das árvores
Libertei-me dos seus braços e quando encarei o meu melhor amigo, este delineou um sorriso nos seus lábios, enquanto me enxugava discretamente as lágrimas singelas, que ainda pereciam no meu rosto.
- Ele pediu-me, Adriana… Eu não lhe podia dizer que não! – Ruben apressou-se a emitir um pedido de desculpas, justificando na mesma frase o porquê da presença passiva da nova namorada do David naquela casa
- Eu compreendo, Ruben… A sério que sim, além disso a casa é tua! – clarifiquei, acariciando-lhe o rosto num afago amenamente adorável
- Não te quero ver assim… Se for preciso, falo com ele e peço-lhe que a mande embora!
- Ei, nem penses… Nada disso! Se alguém está aqui a mais, esse alguém sou eu… Logo, eu vou embora! – os meus lábios delinearam um sorriso forçado, mas compreensivo pela posição desconfortável em que Ruben se encontrava, e segui caminho até ao meu carro, que permanecia estacionado na frente da casa, do lado transposto do portão encostado
- Nada disso, não faz sentido nenhum ela ficar e tu ires embora!
- Ruben, eu fico num hotel aqui perto… Quero causar o mínimo desconforto possível a todos! – esclareci, empurrando num só movimento o portão pesado de ferro forjado
- Estou-me a borrifar para os outros, quem me importa és tu, Adriana! – contrapôs intempestivamente, desassociando a amizade que nutria por David ao desejo que sentia em ter a sua melhor amiga por perto numa jornada tão importante e inesquecível na sua vida – Eu quero-te é aqui, comigo!
- Ruben, por favor… - a minha tentativa de contra-argumentar a favor da segurança do meu ser fragilizado, foi imediatamente refutada pela persistência vagarosa daquele amigo, que ocupava quase um espaço de irmão dentro do meu coração
- Adriana… - a segurança transposta no olhar e na voz, fez-me compreender que não podia, não devia e não queria desiludi-lo ao ponto de lhe provocar tal desgosto com a minha tenebrosa ausência
- Tudo bem… Ganhaste! – afirmei num tom derrotado, enquanto premia o botão digital que encabeçava a chaves electrónicas do meu carro perfeitamente estacionado na dianteira da moradia, de forma a trancá-lo, deixando de parte a ideia clara de aportar aquela semana, que ainda se adivinhava demasiado longa
- Obrigada, Adriana… Tu sabes que eu não te pedia, senão fosse importante pra mim! – relembrou a sua escolha evidente entre mim – a ex-namorada do seu melhor amigo – e a nova mulher que ocupava então o lugar que em tempos de glória havia sido unicamente meu
- Eu sei disso, Ruben… Eu sei! – um suspiro vagaroso ancorou em meus lábios, dissipando o sussurrar vagarosamente adunado de saudade que me plenificava interiormente
- Oh amor… Não gosto nada de te ver assim! – desabafou a minha Paulinha, passando sobre os meus ombros o seu terno braço longo
- Eu estou bem, amor… Eu já estava preparada para ter de o ver nos braços de outra pessoa, só não achei que fosse ser tão cedo… - mantive a minha postura rígida e adunada pela robustez da falsa serenidade que envergava no rosto - …só isso!
- Vamos então fingir que a tua boca diz o mesmo que os teus olhos e estamos conversadas… - ambas sorrimos, num estado consciente da forte cumplicidade que nos unia
- Bem, então é melhor ir prender a Quimera… É uma cadela “com graves problemas comportamentais!” – não evitei na minha voz a imitação evidente da arrogância e prepotência usada por aquela rapariga para se referir à minha adorada cadela
- Também te irrita aquela vozinha? – inquiriu Ruben, passando pela polpa dos seus cabelos, os dedos castiços que lhe encimavam as mãos grosseiras
- “David, isto! David, aquilo!” e… “Um cão com graves problemas comportamentais!” – a minha doce Paula, não hesitou em juntar-se à brincadeira e assomou na sua frágil figura de mulher a imitação perfeita da rude petulância da companheira de David
- Parece que engoliu uma vassoura o raio da miúda! – queixou-se Ruben, caminhando na minha frente e de Paula rumo ao interior no enorme jardim, que havíamos abandonando há apenas uns minutos
- Ela é sempre assim? – questionei, abafando na palma da minha mão, uma gargalhadazinha discreta, mas que não passou despercebida aos meus dois amigos
- Assim? – a breve pausa que suspendeu no ar, abriu espaço a uma expressão de comicidade típica do meu melhor amigo – Nahhhh!
- É pior! – rematou Paula, quebrando em solenes gargalhadas, que somente foram acompanhadas por Ruben, pois eu remeti-me ao silêncio auspicioso de uma reflexão futura acerca daquela semana
Quando alcançámos novamente, o alpendre junto da piscina, onde todos se encontravam antes da nossa saída, vimo-lo completamente vazio, acompanhado pelo silêncio do silvar das folhas na copa dos carvalhos circundantes.
- Vais deixar aí a Quimera? – perguntou Ruben, vendo-me prendê-la no tronco do enorme plátano, que se encontrava no lado oposto à piscina
- Sim, é melhor… Para evitar problemas! – esclareci, forçando um sorriso tremido pela dor que me causava o abandono à minha doce companhia das horas melancólicas, sabendo que pelo menos ali estava abrigada e longe dos comentários daquela rapariga – Até já, Quimi… Até já! – despedi-me, fazendo-lhe um último afago no focinho carinhosamente húmido pelas brincadeiras que depreendia com a relva


***


No interior da casa tudo continuava igual. O mélico aroma a lavanda preenchia o hall de entrada, a jarra em cima do móvel circular estava cheia de orquídeas, tal como acontecia em todas as outras visitas que ali fizera, e a mescla de barulhos que geralmente provinha da sala, era enrubescida por uma parafernália de sotaques que a mim, me eram muito familiares.
A primeira pessoa que o meu olhar alcançou, vinda da porta da cozinha, foi a tia Bela, a mãe do meu adorado melhor amigo, Ruben. Assim que esta também me viu, um sorriso rasgou nossos lábios em simultâneo e os meus braços depreenderam-se do meu corpo para a abraçar ternamente.

- Tia Bela! – exclamei, no mesmo instante em que nossos corpos se uniram, entrelaçados pelos nossos braços saudosos
- Oh minha querida… Há quanto tempo! – a mãe de Ruben observou cada detalhe do meu rosto, movimentando os seus delicados dedos nas pontas dos meus cabelos e seguidamente afagando-me as faces – Estás cada vez mais bonita, Adriana! Mais magrita…Mas linda!
- Pronto, a convivência com a minha mãe fez da tua mãe, Ruben, uma tia-galinha! – constatei, passando o meu braço direito em torno dos ombros dela e ilustrando a passagem de anos… e essa não perdoava, eu tinha efectivamente crescido a olhos vistos em comparação com a tia Bela, que me tinha mudado muitas fraldas em bebé
- Oh minha querida, eu já sou quase como tua mãe… Logo preocupo-me contigo como uma filha! – perante tal confissão, tão carinhosa, não hesitei em beijar-lhe a bochecha esquerda, repuxando depois para trás da minha orelha a madeixa de cabelo, que pendia no meu rosto
- Mira chica, los demás no tienen derecho a un beso? – a voz grossa e monocórdica de Javi fez-me despertar do momento de carinho que compartilhava com Bela e focar, pela primeira vez desde que ali tinha entrado, o olhar na restante sala, preenchida por inúmeras caras conhecidas
- Javi! Még! – indaguei, avançado na direcção deles para os abraçar, afagando a saudade que me corrompia o peito
- Nunca mais te vimos, pequenina! – reclamou Margarida, quando já me tinha nos seus braços suprimindo-me num abraço suficientemente forte para recordar os tempos em que ainda era peça pertencente daquele animado grupo de amigos
- Sabem como é… Tenho andando ocupada! – desculpei-me prontamente, expressando com o meu rosto um torcer de nariz pesaroso ao constatar o facto da minha ausência
- O que ela quer dizer, é que agora que é famosa não liga mais a ninguém… - o tom de picardia exprimido por Brenda, fez-me dar um pulo no meu próprio lugar e observá-la – Tá esperando o quê pra me dar um abraço?
- Ai, Brenda, Brenda… Tu não mudas! – afirmei, agitando certeiramente a minha cabeça e apropriando-me do calor do seu abraço meigo – Que saudades, minha zuca!
- Que saudades, digo eu, portuga, ué! – exclamou no seu jeito engraçado de falar, fazendo a maioria dos presentes rirem-se de uma só vez
- Cadê o teu carecão, Brenda? – inquiri, olhando em redor e dando pela falta evidente de um personagem que se salientava do grupo de amigos, tanto pela sua figura agigantada, como pela boa disposição constante – Selecção?
- Claro! Representando as cores do nosso Brasil!
- E a minha bonequinha? – perguntei, recordando o rosto perfeitamente angelical da minha afilhada, Sofia
- Está dormindo… Cê sabe como ela é preguiçosa! – ambas quebrámos a nossa conversa com suaves gargalhadas de tom feminino
- Andreia, Andreia… Que linda que estás! – afirmei, apertando para mim a mulher de Fábio Coentrão, que envergava uma barriguinha perfeita de cerca de trinta semanas de gravidez
- Tu é que continuas lindíssima, miúda… - sorri-lhe em jeito de agradecimento e olhei a pessoa que se seguia na fila com o sorriso mais falso que consegui montar – Olá, tu és…?
- Eu sou a Joana! A namorada do David… Prazer! – estendendo a mão direita no ar, junto da separação dos nossos corpos, ela presenteou-me com um sorriso perfeitamente alinhado e polido
Cada palavra que ela proferiu, surtiu em mim efeitos inexplicáveis! O meu peito foi alvo de uma dúzia de impiedosas facadas… Eu sabia que ela estava com ele, eu sabia que eles se amavam, eu sabia que o meu lugar já havia sido preenchido, mas ouvi-lo da boca da pessoa que o havia tomado, doeu mais do que eu poderia imaginar, talvez porque não estivesse preparada para aquele confronto… mas também me questionava: será que algum dia estaria verdadeiramente preparada?
- Eu sou a Adriana… Prazer! – as nossas mãos colidiram prudentemente, agitando-se ritmadamente durante apenas alguns segundos, pois eu fiz questão de não prolongar algo que se avizinhava tão doloroso
Quando o meu olhar já se fixava em David – a próxima pessoa alinhada do lado de Joana – escutei um voz melancolicamente doce, que me aqueceu o coração e me fez sentir mais segura, pois sabia então que tinha por perto uma das pessoas que mais me queria bem e mais desejava ver-me feliz
- Bela, cadê aquela panela que eu arrum… - a voz da Dona Regina invadiu a sala, surgindo nas minhas costas
Libertei a mão de Joana da minha e a minha cabeça rodou na direcção da voz, deixando que o meu corpo a seguisse. Dona Regina interrompeu o discurso assim que me viu e os nossos lábios delinearam um sorriso sincero, enquanto os meus olhos se vidraram de uma superfície cristalina e as minhas mãos se quedaram trémulas.
- Oh Adriana… - o timbre carinhoso da mãe de David proclamando o meu nome, provocou um clarão de luz naquele meu dia, que até então se encontrava nublado
- Dona Rê…  - os nossos corpos caminharam na mesma direcção, anulando num abraço forte, toda a distância que nos separava há já alguns meses
A mãe dele, havia-se tornado também para mim uma segunda mãe, durante todo o tempo de namoro com David, mas mais – e muito mais – do que isso, uma amiga, uma confidente, que poderia procurar nas horas de maior aperto. E era essa amizade, uma das poucas coisas que eu sabia, que iria sobreviver ao fim da relação que compartilhara com David… aquela amizade e sentido de cumplicidade, expressos no embalo possante que os seus braços exerciam em torno do meu corpo num instinto protector. As minhas lágrimas dissiparam-se assim como todos os meus medos… Permanecemos abraçadas durante largos e prazerosos segundos, durante os quais não me contive e olhei David, que nos contemplava com um sorriso completamente vidrado no rosto, que eu não soube explicar o porquê, mas que me deleitou ver.
- Que saudade, minha filha… - murmurou, afagando-me o topo da cabeça, para logo de seguida desenlaçarmos o abraço, mas deixando os nossos braços e mãos unidos e em contacto
- Podes crer que sim… Há quanto tempo não nos víamos! – suspirei, assim que a vi observar discretamente, pelo canto do olho, o meu querido David
- Mas me diga, moça… Como cê tá? – apesar de ter colocado uma questão, não me deu tempo suficiente para responder, pois logo após me analisar de cima a baixo proletarizou um novo discurso – Tá mais magrinha, minha filha… Aposto que não se tem alimentado nadica de nada! – todos os presentes se riram, recordando o mesmo elóquio proferido pela tia Bela
- Eu estou bem, Dona Regina… Vai-se indo, devagar, devagarinho, mas a vida é mesmo assim! – sorri-lhe, tentando camuflar a dor expressa no meu olhar e que ela não teria qualquer dificuldade em deslindar – A senhora continua linda como sempre!
- Engano seu, meu anjo… Cê que é atenciosa! – os seus dedos trespassaram calmamente as maçãs do meu rosto cálido – Mas me conta… Como vai sua vida, sua carreira? Tenho visto todas as notícias sobre você!
- Vai tudo bem… Tenho tido trabalho, um ou dois concertos agendados e dá sempre para conciliar com a faculdade… E a vida vai bem! Vai-se levando como Deus quer!
- E Deus te há-de querer muito bem, minha filha! – ambas sorrimos, compartilhando um olhar cúmplice, que apenas nós soubemos ler
- Oh Adriana… - desta feita, foi uma voz masculina a irromper pelo ar, uma que também me era bastante familiar
- Senhor Lau! – o meu corpo repercutiu um pequeno pulo, precipitando-se na direcção daquela figura paternal que erguia os braços abertos no ar, esperando receber-me no calor de um abraço  
- Como cê tá, minha querida? – inquiriu, depois de nos termos cumprimentado apropriadamente com um abraço e dois beijinhos
- Estou bem e o senhor? – perguntei, sempre com um sorriso simpático e atencioso
- Bem, também! Já vi que para além de linda, continua simpática e atenciosa como sempre! – elogiou-me sorrindo, trocando um olhar ininteligível com o seu filho, David
- Obrigada, Sr. Lau! – sorri-lhe, tentando ignorar a tensão que se havia instalado entre pai e filho, com um simples toque de olhares – Então e como vai o Brasil? – perguntei, aproximando-me novamente da minha querida Dona Regina
- Oh, minha filha… Lindo, lindo, lindo! Cê não tem noção do barzinho e do calçadão que construíram lá na praia da frente da gente…
O meu olhar tocou o dela, pois ambas sabíamos que eu tinha estado no Brasil recentemente, mas ainda assim ela esforçou-se da melhor forma por disfarçar algo que só ela e Belle sabiam, mas que não tinham contado a David, pelo menos assim deram a entender.
- Nossa, tá mara mesmo! Tem que ir lá ver, minha filha… - rematou o Senhor Ladislau, confirmando a minha teoria acerca de quem detinha – ou não – o conhecimento da minha estadia veranil no Brasil
- A gente vai ter maior prazer em receber você! – afirmou a mãe de David, pousando no fundo das minhas costas a sua mão escaldante e em seus lábios um sorriso modesto 
- Vou pensar nisso… Quem sabe no Verão que vem! – apesar de saber que nenhum daqueles planos se iria realizar, exprimi um sorriso educado – Mas digam-me… Como está a Belle? O Leandro? E o bebé? – inquiri, sabendo que por aquela altura, a irmã de David já conhecera os prazeres da maternidade
- Ai nossa! O nosso netinho… aquele torrãozinho de açúcar! Cê precisa ver, Adriana… É uma ternura, aquele neném! – um sorriso abriu-se em meus lábios ao constatar o jeito meloso que dominava as palavras proferidas por Dona Regina em relação ao seu primeiro netinho
- Agora estou querendo uma montanha deles! – acrescentou o pai de David, deixando-me sem perceber qual dos dois avós seria o mais babado em relação ao benjamim do clã Marinho
- Tenha calma, Sr. Lau! A Belle ainda é nova e sempre lhe sobra o David…
- Calma nada, tô querendo minha casa cheia de criança correndo de um lado pro outro! – todos os que se encontravam na sala, soltaram breves gargalhadas, frente à sinceridade ingénua do Senhor Ladislau
- Mas… Ué, Adriana! Cadê a Quimera? – inquiriu a mãe de David, pousando o seu olhar em todos os cantinhos da sala, até notar a ausência da minha estimada cadelinha
- Bem, a Quimi teve de ficar lá fora…
- Lá fora? Que conversa é essa? Lugar de cachorro não é na rua, não! É junto das pessoas… No conforto de um lar!
- Pois, mas ela estava um pouco exaltada… Então teve de ser! – sorri, tentando fintar o assunto, de forma a não referir o triste episódio ocorrido no jardim, aquando da minha chegada
- Mas exaltada com o quê? – perguntou, insistindo e deixando-me sem qualquer hipótese de fuga
- Dona Anabela, o almoço está servido… - foi a entrada da governanta da sala, que me livrou de qualquer confronto desnecessário com a nova namorada de David, por isso limitei-me a suspirar discretamente ao sentir o alívio apoderar-se de mim
- Eh lá, vamos ao ataque! – incentivou o sempre faminto Ruben, esfregando a barriga circularmente
- Claro! E já cá faltava a fome deste gajo! – refilei, sentindo os seus braços enlaçarem-me num abraço forte e suficientemente firme para me fazer sentir segura e amada
- Até parece… Diz lá que não morreste de saudades minhas!
- Hum… Para ser sincera… - Ruben revelou um sorriso prestes, de quem adivinhava vinda de mim, uma resposta certa - … Não!
Todos se riram observando as tão saudosistas picardias entre mim e o meu melhor amigo, mas eu limitei-me a sorrir, recordando melancolicamente os momentos de felicidade que passara dentro daquelas quatro paredes, nos instantes doces da minha alegre infância.


***


- Estás a comer tão pouquinho, Adriana… - constatou a tia Bela, passando discretamente o olhar sobre o meu prato ainda cheio – Não gostas do almoço?
- Gosto… Claro que gosto, tia, mas não tenho muito apetite! – esclareci, bradando um serpentear de cabeça, enquanto os meus lábios se rasgaram num sorriso sincero
- Adriana, tens de ver o meu vestido de noiva! – exclamou Inês, mantendo no rosto a mesma postura entusiasmada que lhe vira há dois meses atrás – É lindo, lindo, lindo… Ficou perfeito!
- Claro, Inês… Mais logo mostras-me! – confirmei a sua intenção, resguardando o meu olhar no prato que se encontrava na minha frente ainda cheio de comida, na qual pinicava a pontinha do meu garfo
- E o teu vestido… Como é? – questionou-me rapidamente, mostrando-se realmente interessada em cada detalhe do seu casamento, que esperava ser perfeito e memorável
- É normal… Depois se quiseres mostro-to!
- Sim, quero ver isso… Quero ter a certeza de que ficas perfeitamente enquadrada no altar como madrinha do noivo!
- Podes ficar descansada que eu segui à risca as ruas recomendações acerca da paleta de cores, Inês…
- Ah, que bom, que bom! – as suas mãos embateram inúmeras vezes uma na outra, num gesto diminuto em grandeza, mas que não passou despercebido a ninguém
- E não vais ver os teus pais, Adriana…? – Ruben tocou no meu ponto frágil, pois ambos sabíamos perfeitamente em que casa eles estavam instalados… a do meu já falecido avô
- Sim… Talvez mais logo, para o final da tarde! – consenti, forçando um sorriso trémulo de emoção, que não deu asno às minhas lágrimas para que acompanhassem percursos tenebrosos no meu rosto
- Vais sozinha?
- Sim… Não devo demorar muito também… Vou num pé e venho noutro!
- Devias passar algum tempo com eles…
- Ainda ontem os vi, Ruben… Tenho estado com eles quase todas as noites da semana, sempre que posso vou lá jantar a casa!
- Eu convidei-os para virem cá jantar hoje, mas não querem deixar a tua avó sozinha… - interpelou a mãe do meu melhor amigo, recordando com um sorriso meigo a amizade de longos anos que partilhava com os meus pais
- É normal… Eles não gostam de a deixar sozinha e ela também não gosta muito de sair de casa, por isso…
- De qualquer das formas… Tenta convencê-los!
- Claro, tia… Eu tento! – afirmei de forma sincera, trocando um olhar de relance com a tia que me tinha sido amavelmente oferecida pela vida – Agora se me dão licença, vou lá fora buscar as minhas coisas ao carro e subir para as arrumar…
- Precisas de ajuda? – perguntou a minha doce Paulinha, resguardando nos seus lábios um sorriso gracioso e predisposto a ajudar
- Não, amor… Obrigada, mas eu dou conta de tudo sozinha! – agradeci cordialmente e retirei-me acordando um aceno de cabeça


***


- Oh Quimi, que saudade… Que saudade! – afirmei, passando as minhas mãos em torno do lombo da minha Quimera, que assim que me viu entrar no jardim, soltou em latinos desalinhados, agitando a sua curtinha cauda no ar
Devo confessar que por momentos me perdi com aquela que era então a minha única verdadeira companhia nos últimos tempos, aquela que eu sabia que podia confiar, pois jamais me trairia… afinal não existe nada mais puro e verdadeiro do que a ligação e fidelidade do cão ao seu dono. Quando me depreendi suficientemente dela, consegui observar um carro exactamente igual ao meu, estacionado ao fundo do jardim… Só podia ser o de David e de repente uma saudade acutilante atacou-me furiosamente o coração. Uma saudade apertada… Saudade dele, da vida que partilhava com ele, do quão feliz era quando o tinha do meu lado. Uma saudade louca, desmedida, mas sem cura.
Poderia até procurar mil anos, pois sabia que jamais recuperaria aquilo que já tinha perdido, aquilo que não cuidara o suficiente a ponto de me ser retirado da forma mais cruel possível. O David era então um capítulo encerrado na minha atribulada – apesar de curta – história de vida e poucas seriam aquelas oportunidades capazes de o aproximar de mim, por isso decidi aprender a viver desenganada, sem esperanças de o ter de volta para mim, ainda que só como um mero amigo.
Peguei na minha mala e no saco de transporte do meu vestido para a cerimónia matrimonial de Ruben e Inês, e subi até ao meu quarto… ou melhor, até ao quarto que teria de dividir com todas as outras raparigas, inclusive Joana.

- Então, já arrumou tudo, minha filha? – questionou-me a Dona Regina, colocando a cabeça entre uma brecha pequenina que eu havia deixado entre a porta e sua soleira

- Sim, tudo arrumadinho, Dona Rê! – respondi, mantendo nos lábios um sorriso afável, enquanto fechava a gaveta, que dava por encerrada a minha árdua e desprazível tarefa de desfazer malas

- Podia ter esperado e eu tinha ajudado você… - sugeriu, enquanto se encaminhava para dentro do quarto e encostando a porta, que até à sua chegada se encontrava aberta

- Obrigada, mas eu dei conta do recado sozinha… Foi fácil! – os meus lábios repenicaram no face esquerda da mãe dele, um beijinho dócil em forma de agradecimento

- Ainda bem então, minha filha… - um silêncio preencheu o ar, somente os nossos olhos falaram com palavras mudas de dor, pois tanto eu como ela, sabíamos o que passava na cabeça uma da outra – E… Tá sabendo que a Belle vem pro casamento?

- Não… Não sabia de nada! Mas isso é óptimo… - correspondi com um sorriso e um olhar polido, à fuga da Dona Regina ao assunto que se havia sem dúvida tornado motivo de silêncio entre nós… David!

- É mesmo… Tá vindo e vai trazer o neném! Só não vem o Leandro porque tá trabalhando!

- Ai, então vou puder conhecer aquele torrãozinho de açúcar! – afirmei entusiasta, passando os meus dedos finos uns pelos outros de forma desordeira, mas elegante

- Claro que vai, minha filha… A Belle me falou que enviou uma foto pra cê, pouco depois dele ter nascido!

- Sim, eu recebi… Ela mandou para o meu telemóvel! Ele é tão pequenino… - recordei com um sorriso vaidoso a terna imagem daquele bebé a quem Belle me dera e iria sempre dar o privilégio de chamar de sobrinho

- É mesmo, minha filha… Nunca vi neném mais lindo!

- A Dona Regina é sem dúvida uma avó babada! – brinquei, passando para trás da linha dos meus ombros, os longos cabelos que me escorria em cascata pelo torso

- É normal… É o primeiro netinho, não há como não ficar babada, né gente?

- Tem razão… Tem toda a razão! – confirmei, mantendo a postura solene, que a gratidão que tinha para com aquela mulher, me exigia

- Mas acho que vou ser assim com todos… Com os próximos que vierem da Belle e até do Davi’! Ser avó é das melhores coisas do mundo…

O facto de ela ter tocado pela primeira vez no nome do filho, numa conversa somente partilhada por nós, fez-me quebrar… Fez-me agir da única forma, que eu me proibira a mim mesma… vacilando!
As palavras sumiram-se no espaço livre entre os meus lábios, o ar fugiu dos meus pulmões e o chão desabou debaixo dos meus pés.
Pela primeira vez, desde o fim do meu namoro com David, eu estava à beira de travar uma nova conversa com a mãe dele acerca do sentimento que ainda nos unia e eu conseguia ler isso com um simples olhar recaído sobre ela. O instinto maternal que tão bem lhe reconhecia, dizia-me que ela iria dispor-se a ouvir-me e por fim iria fazer com que abrisse o meu coração da forma mais pura, mais sincera, mas mais dolorosa.

- Ah… Bem, se calhar é melhor descermos… Aqui já está tudo! – afirmei, tentando fugir à conversa inerente que se dissipava no ar, mesmo antes de qualquer palavra ser proferida, e movimentando o meu corpo na direcção da saída daquele quarto

- Adriana, espera só um momentinho… Posso te perguntar uma coisa?  

- Claro, esteja à vontade… - disponibilizei-me de qualquer das maneiras e acabei completamente atolada nas consequências da minha simpatia constante
- Cê ainda ama o Davi’, não ama? – o ar voltou a faltar-me naquele mesmo instante e o meu pequeno coraçãozinho deixou de bater, comprimindo-se do tamanho de um punho cerrado no lado esquerdo do meu peito
- Oh Dona Regina… - tinha a intenção de iniciar um discurso coerente para ludibriar aquela pergunta, mas acho que o intento se tornou demasiado claro para ela e por isso interrompeu-me antes que concretizasse aquele que era o meu desejo
- Pode dizer a verdade, minha filha… Cê sabe que eu jamais direi alguma coisa pro meu filho! – apesar de saber que ela jamais me iria falhar, o meu coração vacilante ainda equacionou negar um sentimento que ainda me era bastante familiar e evidente
- Sim… Ainda o amo, Dona Regina! – confirmei, deslizando o meu olhar para o soalho de carvalho encerado que nos preenchia a soleira dos pés – Mas acho que é normal, estivemos juntos muito tempo e só estamos separados há uns meses… - procurei enumerar uma lista de justificações, que eu sabia que não tinha de dar, mas preferi fazê-lo, antes que a minha confissão fosse mal interpretada ou aceite
- Não se engana a você própria, minha filha! Cê sabe que não vai esquecer o Davi’ tão cedo… - e foi assim que ela me apanhou… num único tiro certeiro, directo na muche
- Talvez, mas isso só o tempo o dirá… - indaguei vagarosamente, num sopro de ar combalido pela dor
- O tempo e o seu coraçãozinho… - contrariamente ao que eu esperava, a mãe do homem que ainda amava muito, sorriu-me no seu jeito maternal e sempre meigo
- Mas, Dona Regina, oiça… Se me vai dizer para seguir em frente, para deixar o David ser feliz porque está num novo relacionamento, não precisa… Eu sei bem qual é o meu lugar, não me vou meter entre eles os dois! – apesar da dor e remorsos que sentia, fui o mais sincera possível, pois de facto não planeava qualquer forma de os separar, visto que havia testemunhado com os meus olhos a felicidade e amor que os unia
- Eu não ia dizer isso, Adriana… - afirmou serenamente, acrescentando depois de forma sussurrante algo que não tive a certeza de ouvir, pois a mãe de David deixou-me sozinha, saindo do quarto - Muito pelo contrário…


***


Acabei por visitar os meus pais naquela tarde, mas fiquei somente do lado de fora da casa, que um dia pertencera ao meu querido avô.
Desde o seu falecimento que não conseguira mais pisar aquele chão, pois até o mais pequeno detalhe me fazia recordar dele e da sua vivacidade incomum para a idade que tinha. Somente uma pessoa me teria dado força suficiente para encarar aquilo, mas essa também já não se encontrava mais do meu lado, desta vez não por intuito do destino, mas sim pelos meus próprios erros.
Regressei à casa da família Amorim, sentindo-me mais vazia do que nunca e essa sensação só se agravou, assim que estacionei o meu Audi junto do portão e senti vozes de calor humano circundarem o perímetro da sala interior.

- Boa noite… - cumprimentei educadamente, depois de fechar a porta atrás de mim e passar o olhar pela sala de estar que se encontrava cheia pelos mesmos rostos da tarde sumida

- Mad’inha! – nesse instante toda a dor que assolava o meu coração desapareceu, pois o espacinho de afecto de se encontrava livre, foi preenchido pela doçura da minha pequena Sofia

- Oh, minha tinkiunki… Que coisa boa, que saudades! – murmurei juntinho do seu ouvido, enquanto a segurava apertadamente nos meus braços trémulos de tanta emoção

- Também tive muntas shaudades tuas, mad’inha! – confessou-me naquele seu jeitinho trapalhão, passando os dedos robustos de pequenez pelos traços cansados do meu lívido rosto

- Como estás, piolha? Diz-me… Quero saber tudo!

- Estou bem, mad’inha… Canshadinha, mas bem!

- Ainda bem, minha princesa… Ainda bem! – um sorriso meigo enterneceu a minha boca e a pontinha dos meus lábios ocorreu ao narizinho da minha pequena menina, beijando-a

- Adriana, como pensei que ias jantar com os teus pais, mandei servir o jantar… mas se quiseres vou preparar-te qualquer coisa! – atempou-se imediatamente a minha tia Bela, no denote de educação exímia que eu há muito lhe atribuíra como traço fundamental da personalidade

- Não… Não precisa preparar nada, tia. Muito obrigada, mas eu antes de me ir deitar, vou à cozinha e preparo qualquer coisinha!

- Quelho do’milhe contigo, mad’inha! – pedinchou a pequena Sofia, contorcendo-se de excitação no afago maternal dos meus sucintos braços carinhosos

- Larga de ser metida, muleca! – Brenda interveio imediatamente no seu pronuncio de mãe dedicada, colocando um travão imediato no desejo inerente da minha adorada afilhada

- Oh mamã… Vá lhá, não sejas má!

- Não tem mal, Brenda… Eu não me importo que ela durma comigo! – esclareci, beijando a pequenina e escaldante testa daquele anjinho lindo

- Vês, mamã…? Vá lhá…  - Sofia insistiu, unindo as duas mãozinhas na frente do rosto em sinal de súplica e esbugalhando os seus dois majestosos pedaços de céus, capazes de manipular até o coração mais frio do mundo

- Pronto… Cê ganhou, mas nada de aprontar pra cima da sua madrinha!

- Ela porta-se bem… Não é, piolhinha? – inquiri, sabendo que iria encontrar uma resposta prestes à minha condição para a realização daquela noite de aconchego nos braços de alguém que ela tanto amava e de quem recebia tanto afecto

- Shim… É claro que eu po’to bem, mad’inha! – com aquele sorriso traquina nos lábios e os dois olhos latentes de folia, assimilou a resposta que eu já esperava receber da sua parte

- Então fazemos assim… Tu sobes para ir vestir o pijaminha, lavar os dentes e deitas-te, que a madrinha vai só comer qualquer coisa e sobe já, pode ser? – propus, enquanto pousava o seu corpo pairante no chão e vislumbrava a expressão extasiada de interesse da minha pequenita

- Shim… Combinado! – selou a sua aceitação do contrato, beijando-me a face esquerda e subindo numa correria eufórica escadas acima, sendo a pobre Brenda obrigada a segui-la numa agitação já habitual para aquela que era a mãe daquele pequenino relógio de pilhas infindáveis

- Então, aqueles que já se vão deitar… Boa noite! – desejei, tentando ao máximo que o meu olhar não se depreende-se nem por um único segundo na figura masculina que ainda detinha o aval do meu quebrado coração magoado

- Tem certeza que não quer ajuda, minha filha? – a preocupação carinhosa de Dona Regina, fez-me esboçar um sorriso meigo e encará-la com a mesma calmaria usada para lhe responder

- Não, obrigada… Vou preparar qualquer coisa simples e subir pra descansar! – quando senti que tanto ela como a mãe de Ruben se encontravam mais convencidas, sorrindo-me, dei-lhes um beijo na testa e segui o meu caminho num protesto que foi unanimemente correspondido por todos – Boa noite, pessoal…

- Boa noite…

Preparei uma sandes de fiambre e queijo, que acabei por comer sentada na bancada central da cozinha solitária e envolta na neblina insegura da escuridão. Quebrei o sabor enjoativo da comida, que empurrei a custo para o meu estômago, com meio copo de água gélida retirada da torneira. E para terminar aquela noite em grande, de forma a relaxar por completo, nada melhor do que o já habitual – desde que deixara David – cigarro.

- Ora cá vamos… - incentivei a mim mesma, puxando o fecho do meu casaquinho até cima e enveredando pelo caminho livre e ermo do alpendre traseiro, que ladeava amorosamente a piscina iluminada por cinco ou seis focos de luz

Sentei o meu corpo na pontinha de uma das esteiras e num gesto que já me era natural, retirei um cigarro no maço e repuxando-o até aos meus lábios, ateei-lhe fogo, dando o primeiro trago profundo. A sensação de calmaria que me invadia sempre que fumava, preencheu todo o meu corpo e acabei por cerrar as palmas, deixando a minha mão pender em direcção ao solo, mas sem deixar cair o incandescente cigarro.
Aquela paz que se apoderou de mim e se fez acompanhar pelo silvar das folhas secas nas copas das árvores e pelo estridular dos grilos e cigarras que assustadas preambulavam pela noite tépida de Outono, foi quebrada pelo arrastar metálico da porta que eu atravessara há minutos.
Senti uns passos levemente brandos que se precipitaram na minha direcção, mas não me exaltaram, pois não movi um único músculo e deixei-me estar… entregue a uma das poucas tarefas que ultimamente me faziam sentir completa.

- A Sofia já tá esperando você...

Aquele timbre harmonioso fez o meu coração disparar de uma forma descompassadamente aclamada. Não precisei sequer de rodar o meu corpo, buscando a figura dona daquela voz, pois eu sabia melhor do que ninguém a quem ela pertencia, apesar de não a escutar há já dois meses… Dois meses… Dois longos e duros meses sem nos falarmos, sem conversarmos, sem nos tocarmos, sem nos vermos… Mas isso estava prestes a mudar…








Peço desculpa pela demora em postar o capítulo, mas a escola não tem perdoado e daqui para a frente as coisas devem manter-se mais ou menos iguais, por isso espero que compreendam!
Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem e não se esqueçam de comentar!

Beijinhos,
Drii :)