quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Capítulo 112 - Novos rumos (Parte III)


Aquela viagem de regresso a Portugal foi impiedosa no que toca a recordações… Apesar de estar num avião com mais de cem pessoas, apesar de ter do meu lado a Alice e no banco de trás dois dos meus seguranças, a sensação de desabitado que se apoderou de mim foi terrivelmente assustadora. De repente não sentia mais o sangue a correr-me nas veias, não tinha mais ar para alimentar os meus pulmões, não tinha mais pulsação no meu corpo e o meu coração não batia… Tão simplesmente parecia morto. “Será que é assim que se sente um corpo sem vida?”, questionei vezes sem conta a mim mesma, enquanto via aos poucos a paisagem brasileira desvanecer-se, dando lugar a um longo manto de azul… Este estendeu-se durante horas e horas naquele pequeno quadradinho de vidro do meu lado direito. Recordo vagamente quando a hospedeira me interpelou a fim de saber o que tencionava comer, mas no grupo de todos os que me acompanhavam, eu fui a única que preferiu não tocar em nada, pois o nó no topo do meu estômago era tão apertado que não me deixava espaço para o que fosse.
- Adriana, vou passar no supermercado porque não deves ter nada em casa e mando lá uma empregada para colocar tudo em ordem! – informou-me a Alice, enquanto já nos deslocávamos, dentro de um BMW negro, por entre o habitual trânsito da capital portuguesa
- Não precisas, Alice… - indaguei monocordicamente, deixando transparecer o meu estado de indiferença diante do assunto
- Precisa sim! Não vais ficar sem comer em casa, Adriana…
- Alice, por favor… Respeita o que te estou a dizer, não quero ninguém enfiado na minha casa e quando eu quiser ir às compras não te preocupes, que eu mesma me encarrego! – o meu olhar desprendeu-se pela primeira vez da linha do horizonte sobre o Tejo de forma a encará-la, olhos nos olhos
- Mas, Adriana…
- Alice, deixe-a… Noutra altura conversam acerca disso! – foi Paulo que pôs termo àquela conversa, talvez porque a convivência que mantivera comigo nos últimos tempos lhe foi suficiente para entender, que conversar era coisa que não queria fazer naquela altura, nem tão pouco nos próximos tempos
- Obrigada… - gesticulei com os lábios, para que este pudesse enxergar através do espelho retrovisor e ele limitou-se a corresponder com um leve aceno de cabeça, acompanhado por um sorriso discreto, que se camuflou por detrás da imagem de durão conferida por aquele terno negro e pelos óculos de sol, que lhe cobriam na totalidade a visão
- Então vamos cá ver… - assim que entrei em casa e os seguranças pousaram as minhas malas, partindo pouco depois para junto do carro, que aguardava nas garagens, Alice fez do meu sofá o seu pequeno escritório e sem eu ter dado conta, afundou-o numa tonelada de papéis – Partimos dentro de quatro dias rumo à Europa e tens o primeiro concerto agendado para…
- Alice, por favor… Não estou com cabeça, nem disposição para discutir a minha agenda profissional depois de uma viagem tão longa, por isso não querendo ser mal-educado, peço-te que saias e conversamos noutra hora…
Uma dor miudinha parecia matutar na minha cabeça e aos poucos levava-me a crer que esta iria explodir a qualquer segundo que fosse. Queria estar sozinha, tomar um duche, preparar uma coisa simples para comer e entregar-me ao prazer do descanso, mas algo me dizia que isso naquele dia seria uma tarefa difícil…
- Mas, Adriana…
- Alice, por favor, sim? Não estou com cabeça… Tratamos disso depois! – os meus olhos fecharam-se e a minha cabeça embateu fortemente na parede, que se prostrava na minha retaguarda
- Tudo bem… Amanhã eu passo por cá para acertarmos estas coisinhas, espero que esse humor esteja melhor do que hoje! – apesar de ter usado um tom brincalhão as suas palavras ofenderam-me e creio que isso somente aconteceu porque como ela própria referiu, eu não estava com um humor propriamente afável
- Vai estar, não te preocupes… Resolvemos isso e de amanhã não passa! – afirmei seguramente, enquanto em passadas vacilantes me direccionei até à porta de saída de modo a convidá-la a sair
- Não passa mesmo… Vê se descansas e cuidas de ti, Adriana! – alertou, parando na minha frente, com uma pilha de seis pastas na mão e uma agenda no topo
- Sim, eu já não sou nenhum bebé… Agora vai lá ver a tua família, que eles precisam mais de ti do que eu!
- Tudo bem… Então, até amanhã! – senti os lábios dela tocarem-me a pele da testa de raspão, mas quando abri os olhos de modo a retribuir-lho, somente vi o vulto dela enfiar-se no elevador, numa pequena corrida de quem fazia um esforço evidente para não deixar cair nada – Espere, espere… Aguente o elevador!
A voz de Alice foi a única a preencher os meus ouvidos nas horas que se seguiram. Observei as minhas malas no corredor da sala, mas nem me dei trabalho que as desfazer, visto que iria partir em viagem dali a uns dias. Segui então para o meu quarto no intuito de tomar um duche refrescante, pois em Portugal o Verão tinha chegado com toda a força e os noticiários davam conta de um aumento maior da temperatura nos próximos dias. Vesti uma roupa simples, fresca e típica da estação. Caminhei até à cozinha e acabei por improvisar algo para comer a partir do que lá encontrei: leite e bolachas. Não era nenhum menu de rainha, mas para a pouca, ou nenhuma fome que eu tinha, estava mais do que bom. Sentei-me no sofá arrastando comigo a alma frágil e penosa, que continuava a pesar dentro do meu peito e atirei-me para as almofadas, de modo a comer o que havia descoberto no fundo do armário.
- Estou a ir… - respondi com calma, assim que ouvi a campainha do meu apartamento – Só espero que não seja a Alice de novo… - murmurei para mim mesma, demonstrando a vontade que possuía em vê-la longe nos próximos dias – Débora? – um sorriso tímido, mas sincero cobriu os meus lábios e os meus olhos não se coibiram de espelhar um brilho intenso, por a ver na minha frente
- Olá! – um tom ríspido, quase que violento assaltou-lhe a voz e naquele momento não consegui distinguir a minha Débora, a minha melhor amiga
- Olá, amor! – ainda assim consegui manter o sorriso em meus lábios e apressei-me a puxá-la para dentro de casa de modo a puder abraçá-la – Que saudades!
- Sim, que saudades… Como é que estás? – rapidamente me repeliu dos seus braços e abriu passagem, dirigindo-se à minha sala de estar, que percorreu rapidamente com um único olhar
- Vai-se andando… - encerrei a porta principal e sentindo o calor do soalho flutuante nos pés descalços, caminhei sobre ele atrás dela – E tu, como tens andado?
- Não muito bem… Mas melhor quando descobri que a minha melhor amiga, se é que ainda lhe posso chamar isso, terminou com o namorado como terminou e não me disse nada! – aquele tom de acusação na sua voz, despoletou no meu coração uma sensação de injustiça, uma tentativa de julgamento que eu não iria de todo permitir caso se confirmasse
- Débora, eu disse-te que o tinha deixado… Naquele almoço com as meninas no Colombo, eu disse-vos! – declarei calmamente, enquanto transpunha o meu olhar passivo pela sua figura alterada
- Sim, tu disseste que o tinhas deixado, mas nunca disseste que o tinhas deixado com uma carta! – as lágrimas rapidamente quiseram tomar conta de mim, mas desta vez resolvi contrapor e controlei-me antes que isso acontecesse – UMA CARTA, ADRIANA? E NÃO ME DISSESTE NADA!
Demorei um pouco para digerir os gritos sufocados que ela soltava e que faziam o meu coração fragilizado estremecer, mas aos poucos acabei por consolidar na minha cabeça as palavras que pretendia dizer-lhe e num impulso, com meia dúzia de palavras, procurei esclarecer a minha dúvida.
- Como é que sabes da carta? – os músculos da minha face contraíram-se, dando-me a perfeita noção desse movimento, para logo depois deixarem expostos os meus dois olhos que imperativamente ficaram rasos, apesar de terem lutado contra isso
- Não importa como é que eu sei! – os gritos dela continuaram e misturaram-se com o latejar aflitivo, que já ecoava na minha cabeça, devido à dor que estava a sentir
- Importa… Só ele e os amigos mais próximos sabem da carta… - esclareci num discurso claro e sereno, sem nunca sequer tentar atingir o nível dela
- Lá está… Amigos mais próximos, pensei que era a tua melhor amiga, bolas!
- E és… Quer dizer… - o maior erro do mundo foi cometido naquele segundo, quando permiti a mim mesma que as palavras me fugissem por falta do espaço dela no meu coração
- Quer dizer…?
- Estamos muito afastadas, Débora… Tu estás numa faculdade, eu noutra, temos novos amigos, vemo-nos raramente, falamos de vez em quando, mas já não sinto que te posso contar tudo… Que vais estar lá para mim a toda a hora como estavas antigamente!
- Foi por isso que não me contaste da carta para o David?! – quando a observei vi os braços cruzados sobre o peito e uma raiva enorme implantada em cada movimento
- Mas qual é o teu problema com a carta? E com o David? Gostas dele é isso?
- Não, claro que não gosto dele… Sabes muito bem que sou feliz com o meu namorado! Só não compreendo, Adriana… Uma carta? Uma merda de uma carta e não me disseste nada? – percebi que ela não tencionava baixar o tom de voz de forma a termos uma conversa normal, entre duas mulheres adultas – Afinal as revistas têm razão quando te acusam de ser a má da fita no meio disto tudo… E eu que sempre te defendi, Adriana!
- Nunca te pedi que o fizesses! – aquilo saiu-me disparado pela boca, mas infelizmente foi o bastante para atear mais o fogo de uma discussão, que eu só queria circunscrever
- Nunca me pediste? Eu era tua melhor amiga, era suposto fazê-lo! – quando dei conta vi a mala dela jogada sobre o sofá e meio entreaberta devido à força com que ela a atirou para cima do mesmo – Agora é que eu compreendo…
- O que é que tu agora compreendes? – o sarcasmo acompanhou-me na voz e nos movimentos, que forçaram o meu corpo a assumir uma pose de arrogância
- Compreendo a Adriana que deixou o David com uma simples carta e que se foi embora sempre prestar justificações a ninguém! Estás mudada, Adriana, muito mudada e essa é a única explicação que encontro para aquilo que fizeste…
- Eu não tinha de prestar justificações a ninguém, Débora! Eu sou livre… Livre!
Sem nenhuma de nós o conseguir prever, o curto pavio acabou por arder em frente aos nossos olhos e inflamar o que restava da nossa amizade… ou melhor, o que restava das ruínas da nossa amizade. As nossas vozes tornaram-se desmesuravelmente alteradas, as nossas expressões acusadoras e os nossos indicadores não hesitaram em arrebitar-se no ar e apontarem-se uma à outra. A minha sala de estar tornou-se num campo de batalha e mesmo sem querer, acabei por me tornar uma das suas guerreiras…
- Tu és livre? Tu namoraste com ele mais de um ano, Adriana! Ele cuidou de ti, deu-te amor, carinho e tu deixaste-o com uma carta, foda-se! Que merda de namorada eras tu? Que merda de amor era esse que dizias sentir por ele?
Perdi totalmente o controlo da minha mente, que se deixou levar pelo coração, e esta tomou as rédeas do meu corpo. Intuitivamente a minha mão direita voo até à cara de Débora e presenteou-a com uma valente bofetada. Quando caí em mim fiquei incrédula com tal comportamento… Senti na mão dormente um pequeno formigueiro que subiu pelo meu corpo até se inteirar do coração, a minha boca entreabriu-se revelando então o espanto que me abominava e quando a encarei apenas encontrei cinco dedos marcados na sua face esquerda e uma grande dose de arrependimento.
- Não acredito que fizeste isto… - murmurou, enquanto passava a sua mão na bochecha de forma a aliviar o ardor, que o choque de peles lhe havia provocado
- Ninguém tem o direito de me julgar, Débora… Ninguém… - pausei levemente de forma a controlar os gritos, que involuntariamente se continuavam a soltar da minha garganta – Muito menos tu!
- Muito menos eu, porquê?
- Porque nunca foste capaz de amar e de te entregar para esse alguém de verdade! Porque vives com o Rafael um namoro de aparências e tenho pena daquela pobre alma por gostar de ti…
- Então parece que somos mais parecidas do que eu pensava… Porque tu deixaste para trás um tipo cinco estrelas, que te amava, mas fugiste porque és uma cobarde! – tocou no meu ponto fraco… ela sabia que era das piores coisas que me podiam fazer: duvidar da minha força – Foste uma fraca, Adriana!
- Cala a boca, Débora… - fechei os olhos ao mesmo tempo que alimentava os meus pulmões de ar, em respirações ritmadas e vigorosas, de forma a manter a calma
- Porquê? As verdades doem… Foste uma fraca!
- Débora, é melhor calares-te…
- Uma fraca, Adriana… UMA FRACA! – rematou num só grito, que despoletou em mim toda a força e garra que restavam
- SAI DA MINHA CASA, SAI! – ordenei, libertando a fúria que me corria nas veias
- Agora mandas-me embora? Estás cada vez mais cobarde…
- DÉBORA, SAI, JÁ DISSE! – o meu indicador ergueu-se no ar, numa recta inquebrável, que lhe indicou o caminho de saída
- Estão aí… - o barulho de algo a cair sobre o sofá fez-me despertar e abrir os olhos, que até então se encontravam cerrados pelo ardor que sentia – Diverte-te a ver o que dizem sobre ti… Tenho vergonha de algum dia ter chamado de melhor amiga uma fraca como tu!
- Então sai… Sai da minha casa e nunca mais me olhes para a cara! – vociferei, contendo o impulso que me empurrava para segurar as revistas que ela jogara sobre o sofá – SAI!
- Sabes que mais, Adriana…? No final eu até percebi uma coisa… - um sorrisinho cínico adornou a sua boca fina e imediatamente todo o meu corpo se contraiu num impulso de defesa – Tu e o Diogo… Merecessem-se!
As lágrimas tomaram desesperadamente conta de mim, pois apesar dos dias se terem sucedido e as mágoas terem encontrado o seu lugar no meu peito, eu não podia permitir a ninguém que me julgasse e me colocasse ao nível do Diogo, apesar de este ter mudado muito… e muito menos podia permitir que esse ninguém fosse a pessoa, que um dia chamei de melhor amiga.
- Sai, Débora… - ordenei sentindo as forças a escapulirem-se do meu corpo, mas ainda assim tive firmeza para a conduzir até à porta e expulsá-la da minha casa
- Fica bem, Adriana… E agora sem ele… Tenta ser feliz! – a imagem dela desapareceu do meu olhar antes mesmo de eu ter dado conta disso e fiquei ali… remetida ao abandono
Fechei a porta, encostei-me nela e automaticamente o meu corpo aterrou no chão. Havia perdido todas e quaisquer forças, que ainda me restavam depois do arrombo que havia sofrido há um mês atrás quando a minha relação com o David, tinha conhecido o seu fim. As lágrimas precipitaram-se mais uma vez pelas minhas faces e aterraram nas mãos, que as afagavam. Em apenas um mês, perdera o homem da minha vida, fui julgada em praça pública e condenada pela Débora… Era demasiado castigo, mas com certeza que eu o devia merecer depois de ter deixado o David daquela maneira. Aos poucos forcei o meu corpo a erguer-se e caminhei até ao sofá onde Débora deixara aquela pilha de revistas.
“Adriana Vale dá fim ao namoro com o menino bonito do Benfica” - li numa das capas e segurei-a
“A cantora e modelo de 18 anos e o defesa-central do clube encarnado mantinham uma relação de mais de um ano e tudo aponta para que esta chegou ao fim há cerca de um mês. Os jovens que quase viviam juntos tiveram um início de namoro bastante resguardado, sendo que a relação só foi descoberta há 8 meses, quando o casal apareceu pela primeira vez em público no aeroporto de Lisboa, antes da partida do jogador em estágio com a comitiva encarnada. Segundo fontes próxima do casal, foi Adriana que ditou o fim da relação e David “ficou completamente de rastos, pois ele gosta realmente dela… Para ela tudo não passou de uma brincadeira e ele é que saiu magoado. Nunca mais quer voltar a falar com ela, nem manter qualquer tipo de contacto”. A revista contactou o jogador brasileiro e este apenas declarou que “são assuntos pessoais e não irei prestar qualquer declaração acerca do assunto”, já a portuguesa, que se encontra em digressão do outro lado do Atlântico, mostrou-se incontactável até ao fecho da edição, contudo “ela está a ultrapassar muito bem a separação dos dois, pois há já algum tempo que o sentimento por David tinha enfraquecido e o fim tornou-se uma situação inadiável com a qual ela está a lidar muito bem” revelou a mesma fonte. Quanto às motivações do fim do namoro, essas são desconhecidas, mas uma coisa é certa… Entre eles não há mais relação!”
Fui atingida por cada uma daquelas palavras, apesar de saber que a maioria delas devia ser invenção, assim como a autoria daquela “fonte”. Atirei as revistas para o lixo, eu já tinha decidido seguir com a minha vida em frente e era exactamente isso que pretendia fazer, independentemente daquilo que fosse dito na imprensa acerca de mim e do fim da relação que outrora tivera com David. Não quis mais comer… Despejei o copo de leite pelo ralo do lava-loiça e voltei a colocar o pacote de bolachas no mesmo cantinho onde o encontrara. Acabei aquela noite como tantas outras antes… Deitada na minha cama, completamente sozinha e desejando que o dia seguinte não fosse mais dia… Que o meu corpo quente, não tivesse mais vida, que o meu coração parasse de bater, parasse de sentir…


***

(Ruben)

Parecia quase impossível a rapidez com que as férias tinham passado… Ainda há um mês estava num destino paradisíaco do lado daquela, que dentro de alguns meses se iria tornar minha mulher até ao resto da vida, pelo menos eu assim esperava, e agora estava ali… Em Paris, no estágio pré-época depois de mais um treino duro ao comando do mister Jorge Jesus. Seguíamos todos numa caminhada serena em direcção ao hotel para a tão merecida e desejada hora de almoço.
- Fogo, puto… Tô com uma fome! – reclamei enquanto passava a toalha no rosto, no intuito de recolher todas as partículas de suor que ainda humedeciam a minha pele
- Pode crer, manz! Tô com uma fome danada! – o David concordou comigo e poucos segundos depois serviu-se de dois goles de água fresca, que nos havia sido dada há minutos pela equipa técnica do clube
- Só espero que o almoço seja alguma coisa de jeito… Acho que hoje como até cair para trás.
- Não abusa, manz… Olha que depois não se aguenta no treino da tarde! – ambos nos rimos e continuámos o percurso até ao antigo hotel parisiense
- Eu aguento não te preocupes! Não vou aguentar é mais cinco minutos sem comer! – as minhas mãos esfregaram satisfatoriamente a barriga
- Larga de ser esfomeado, pô! – senti a mão do David bofetear-me o topo da cabeça, provocando-me uma dor ligeira
- Oh David, isso é o mesmo que pedir-te para não seres caracoleta! – debochei da cara dele e num movimento rápido despenteei-lhe os cabelos, por si só já embrenhados pela aragem quente que abafava o ar
- Cê anda com umas piadinhas, pô!
- Vá lá, meninos… Deixem-se dessas coisas! – o médico do clube surgiu na nossa retaguarda, mas rapidamente se colocou na frente do grupo, que se reuniu no átrio interior do hotel – Têm meia hora para subir aos quartos, tomar um duche e descer para virem comer!
- Só meia hora, Doutor? – David contrapôs-se imediatamente e todos os nossos colegas quebraram num riso intenso
- Porquê, puto? Não me digas que meia hora não te chega para tratares do ninho de ratos? – a risota impôs-se e até o médico não conseguiu conter-se
- Não diz besteira, seu gordo! Meia hora tá óptimo, já pudemos ir?
- Força, meninos… Não se atrasem! – ele subiu na nossa frente e rapidamente desapareceu pelas portas do elevador, rodeado pelos restantes membros da equipa médica
- Vamos subir, mano? – achei estranho não obter rapidamente uma resposta de David, mas depois de o observar compreendi o porquê
A sua mão viajava pelos caracóis, enquanto o olhar dele permanecia preso em duas mulheres a um canto do hotel, mas a sua atenção estava vidrada numa delas. A loira… Devia ter cerca de um metro e setenta, medidas quase perfeitas, cabelos longos e soltos que lhe batiam um pouco abaixo do meio das costas e envergava roupas que tinham tanto de elegante, como de provocador. Descodifiquei rapidamente o tipo de mulheres que eram… Mas penso que o David não, ou se o tivesse feito, com certeza que os seus gostos relativamente às mulheres e àquilo que o atraia tinham mudado muito.
- Puto! – as costas da minha mão direita embateram violentamente no seu peito e por fim encontrei a tão esperada reacção
- Ai, que é, manz?
- Nem te passe pela cabeça… Olha bem para elas e vais perceber o que são! – alertei erguendo a minha sobrancelha num arco perfeito
- Não me passou nada pela cabeça… Estava só olhando, que eu saiba sou livre!
- És, claro que és, mas vê lá no que te metes, mano… Não são miúdas para ti! – avisei, permitindo ao meu olhar perscrutar a figura daquelas duas mulheres
- Não se preocupa, não tô nem aí para arranjar alguém agora… Tô bem assim, sozinho! – ele sorriu, mas eu já o conhecia suficientemente bem para saber que somente o fazia com os lábios e não com o coração
- Então vá… Vamos tomar banho, senão depois levamos uma descasca do mister!
- Vamo’ nessa, manz!
Não quisemos esperar pelo elevador e tomámos as escadas para subir até ao terceiro andar, onde estavam situados os nossos quartos e para não variar, eu dividia o meu com o David. Desde a separação com Adriana que esta se havia tornado tema tabu entre o grupo de amigos e apesar de ele não o dizer, eu sabia que estava proibido de proferir o nome dela. Ele nunca mais tivera ninguém e desde o seu regresso do Brasil, que se mostrava mais animado, mas eu sabia que o assunto ainda o fazia sofrer muito, apesar de o preferir esconder. Ele abriu a porta da suíte e eu segui-o, mas um barulho proveniente do corredor deteve-me, uma voz… Uma voz familiar… Adriana? Enveredei pelo quarto, guardando aquele timbre harmonioso na minha cabeça… Estaria eu a ficar louco?


***

(Adriana)

- Adriana, anda… Vamos perder o avião! – ordenou a Alice enquanto eu caminhava por entre a multidão de forma a conseguir aproximar-me do local de embarque, juntamente com os seguranças que me rodeavam
O aeroporto de Praga estava alotado de gente. Uma parafernália de línguas, de pessoas e culturas, dominava toda a atmosfera e empilhava-se na zona de embarque, pois devido a um imprevisto os aviões tinham sido proibidos de levantar voo no tempo previsto e já contavam todos com uma hora de atraso. Tinha dado um concerto há cerca de 12 horas na capital da República Checa e a loucura entre os fãs tinha sido abominavelmente surpreendente.  O Verão estava quase no fim, já tinha viajado e dado concertos por quase toda a Europa e restava-me fechar com chave de ouro em Paris dali a dois dias. Em Madrid tinha-me encontrado com Paulinha e Roberto há sensivelmente um mês e ficou prometido encontrarmo-nos na capital francesa, pois era lá, que a equipa encarnada iria fazer o seu estágio pré-época. Nunca mais chorara por causa de David… Agora era só eu e o trabalho. Era para ele que vivia, para ele que respirava, para ele que acordava todas as manhãs, cheia de força para encarar o mundo.
- Finalmente… - cheguei perto de Alice e esta deu-me a mão, de forma a não nos separarmos mais
- Vamos, vamos… Não pudemos perder este avião! – senti um puxão, que se iniciou na minha mão e culminou no meu ombro, arrastando consigo todo o meu tronco, atrás da figura alta e esguia da minha agente, que foi caminhando em jeito de zig-zag para ultrapassar as pessoas na fila.
Não sei como ela o conseguiu, mas verdade seja dita, que em menos de dois minutos já havíamos mostrado os bilhetes e embarcado no avião comercial com destino a Paris.
“Senhores passageiros, por favor coloquem os cintos pois dentro de minutos o avião irá iniciar o voo com destino a Paris. Desejamos a todos uma excelente viagem na nossa companhia!” – a voz simpática da hospedeira ressoou por todos os compartimentos e classes do avião
Era a hora… Hora de enfrentar um destino que me havia sido prometido meses antes numa aposta com David. Podia recordar como se fosse hoje… Nós dois a filmarmos aquela brincadeira tola junto ao rio Tejo e a sua voz doce e meiga jurando-me que naquele Verão visitaríamos Paris… Juntos! E no entanto quem poderia adivinhar que apenas algum tempo depois iriamos de facto pisar solo francês, os dois, ao mesmo tempo, mas separados… Apesar de ter sido forçada a ressuscitar aquela lembrança, esta não conseguiu fazer com que eu chorasse, como outrora teria feito. Lembro-me de ter sentido o avião decolar da pista e depois disso um mar de escuridão, porque provavelmente devo ter adormecido.
“Senhores passageiros, coloquem os cintos de segurança pois o avião vai dar entrada na pista. Bem-vindos a Paris e obrigada por terem viajado na nossa companhia” – depois de dois meses inteiros a viajar aquela voz já se havia tornado mais familiar do que o meu próprio timbre
Pouco depois bem clara na minha frente surgiu a imagem da minha belíssima Paris. Consegui distinguir, ainda que por entre a espessa camada de nuvens que preenchiam o céu aqui ou ali, alguns dos locais mais emblemáticos da cidade. Imponente em toda a sua altura, a grandiosa Torre Eiffel; depois Le Champs-Élysées, encimados pelo perfeitamente arquitectónico Arco do Triunfo… E entre essas três grandes referências da capital francesa, muitos outros edifícios se conseguiam distinguir e cada um mais maravilhoso que o outro, tanto em história, como arquitectura e até mesmo misticidade. Era Paris… A maravilhosa cidade de Paris em todo o seu esplendor! Era a cidade dos sonhos, a cidade do amor e nem eu sabia a quantidade de surpresas que ainda me esperavam naqueles dois dias…
- Mademoiselle, où je peux laisser vos sacs? – questionou-me o simpático empregado do Hotel, que envergava uma farda de um azul enfadonho, enquanto suportava nas suas mãos o peso das minhas duas malas
- Alors, s'il vous plaît! – ordenei num francês perfeito, apontado com o indicador um pequeno recanto da suíte que me estava destinada
- Vous aurez besoin d'autre chose?
- Non, merci… C'est tout, monsieur! – sorri-lhe discretamente e segurei a minha carteira na mão, de onde tirei uma nota de avultada quantia e entreguei-lha como forma de agradecimento
- Merci! Si vous besoin de quelque chose il suffit d'appeler ... Excusez-moi! – de forma educada retirou-se , deixando-me remetida ao silêncio daquelas quatro paredes
A aparência austera do quarto não me conferia qualquer conforto, apesar de ter embutido nas suas paredes o tradicional encanto parisiense…Dava-me a sensação que cada pedaço de papel de parede, cada retalho de tecido, cada cheiro das velas levemente perfumadas, eram partes constituintes da história maravilhosa daquela cidade e das pessoas que um dia ali haviam passado. A cama imponente, era adornada por um dossel branco e fluido, que tocava o chão devido ao seu comprimento. A mobília branca, possuía uns arrebites em dourado, que emoldurados pelas leves pinturas, feitas à mão, no canto de cada gaveta e porta, lhe conferiam um ar campestre e rapidamente nos sentíamos na época da corte de Luís XIV, onde o rococó era o estilo decorativo dominante. As portadas duplas de acesso à varanda tinham um ar extremamente convidativo para quem quisesse espreitar a paisagem, que se estendia sobre a linha do horizonte, e foi isso mesmo que acabei por fazer. Abri uma brecha entre as duas portas e acerquei-me do beiral da varanda. A vista era belíssima e o ar quente que corria contrastante com a época do ano, trazia às minhas faces uma sensação de calor aprazível e muito agradável. Não sei quanto tempo ali fiquei… Mas recordo com precisa exactidão que o meu olhar corria sobre o rio Sena, quando umas vozes de certo modo familiares, interromperam a minha contemplação. Olhei para baixo e observei um grupo de homens jovens… Todos eles de boa estatura física, fina estampa, pelo aspecto diria que mesmo desportistas. Mas… Não, não podia ser, era muito azar junto. Clareei a visão, obrigando-a a focar melhor aquelas pessoas e pouco a pouco comecei a reconhecê-los… Javi, Aimar, Luisão, Ruben, Saviola, Salvio e… Sim, era ele (!), David… Aquela farta cabeleira não deixava margem para dúvidas. Mas teria eu tanto azar assim ao ponto de ter ido parar ao mesmo hotel que eles? Rapidamente me recolhi aos meus aposentos e selei aquelas portas, como se fossem os portais do céu, resguardando o medo que eu tanto tinha e procurava esconder… O medo de o encontrar, o medo de o encarar. Dei círculos sobre mim mesma, palmilhando cada tábua do soalho de carvalho, que revestia o chão da suite. Procurava soluções, buscava respostas e implorava por um milagre… Sem pensar em mais nada abandonei aquele espaço num passo que tinha tanto de acelerado como de desesperado, tendo como destino um dos quartos do fundo do corredor, onde se encontrava Alice… Mas o meu corpo embateu contra algo. Um corpo forte, bem constituído, alto… Que eu reconheceria em qualquer lugar, fosse como fosse, até mesmo de olhos fechados.
- Adriana? – os seus olhos espantados por me ver vidraram nos meus e senti-me mirrar, ficar pequenina, quase minúscula na frente dele
Era precisar ter azar, de facto… Mas assim tanto de uma só vez?

Antes demais quero pedir desculpa pela demora em postar o capítulo, mas apesar de estar em tempos de férias, nem sempre o tempo livre é muito. Depois quero aproveitar para avisar que irei entrar de férias até princípios de Setembro e por essas razões os capítulos não serão tão frequentes, mas espero ainda assim conseguir postar qualquer coisinha de vez em quando! :) 
Aproveito também para agradecer o avultado número de comentários que me têm deixado nos últimos capítulos, é muito importante receber todo esse apoio! :)
Por isso aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem e não se esqueçam de continuar a aumentar o número de comentários à história!
Beijinhos a todas as minhas queridas leitoras! :)
Drii
 
P.s - A quem procurou saber, a nova música do blog chama-se "Good Life - One Republic" :)

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Capítulo 112 - Novos rumos (Parte II)


Na manhã seguinte o meu telemóvel tocou insistentemente, vezes e vezes sem conta e aos poucos foi-me arrancando do estado de dormência, pelo qual tanto rezara na noite anterior. No visor pude ler “Paulinha ♥ a chamar…”, mas a minha vontade de atender não era muita, uma vez que o meu corpo implorava por pelo menos mais uma hora de descanso. Como aquele toque irritante, que eu precisava de mudar urgentemente, não findou, fui obrigada a atender. Ainda de olhos fechados, voz rouca e membros combalidos, sentei-me na cama, segurando o telemóvel junto do meu ouvido.
- Sim? – a voz embargada pela fadiga que sentia, não me permitiu demonstrar grande entusiasmo
- Bom dia, flor do dia! – ao contrário do que acontecia comigo, a minha querida Paula devia levar bastantes horas de sono, pois a sua aura apresentava-se leve e intocável
- Bom dia… - arrastei a minha fala e acabei por deixar tombar o meu corpo sobre a cama, permitindo à minha cabeça, que voltasse a fazer moradia no meu travesseiro perfumado com a essência a baunilha proveniente do meu novo perfume
- Hum… Isso é que é animação! Acordei-te?
- Sim… Estava a dormir, mas daqui a meia hora tinha de me levantar mesmo, por isso deixa lá, amor! – encolhi os ombros e mantive os olhos fechados, porque aquela claridade matutina que invadia a minha suite, estava a cegar-me
- Como estão a ser essas viagens, meu amor?
- Bem… Quer dizer, dentro dos possíveis!
- E estás onde agora? – a última vez que falara com ela, fora somente há dois dias atrás quando me encontrava no México
- Brasil… - indaguei quase num murmúrio que creio não lhe ter sido suficientemente esclarecedor
- Onde?! – um laivo de surpresa, mas ao mesmo tempo de confusão deve ter assaltado a Paulinha, pois não lhe havia contado dos planos que a minha agente havia destinado para aquele país
- Ouviste bem, sim… Estou no Brasil! – enterrei a cabeça nos lençóis, quando aquela claridade se tornou insuportável e comecei a ouvir no exterior os primeiros movimentos do trânsito de Minas Gerais
- No Brasil? Bem, ainda dizem que não existem coincidências… - eu sabia bem ao que ela se queria referir, pois desde que partira de Portugal e sempre que falávamos ao telefone, ela martelava-me as ideias com uma possibilidade iminente de reconciliação com David, quando eu sabia muito bem que essa nunca iria acontecer – Ou destino…
- Eu acredito nisso tudo, Paulinha… Mas o meu destino aqui é só um: gravar a música e ir embora! – tentei ao máximo encerrar o assunto, virar a página e rasgá-la, porque virá-la só, já não era mais suficiente, especialmente quando alguém teimava em andar sempre para trás na história, mesmo contra a minha vontade
- Sim, sim, Adriana… Vais dizer que não tiveste vontade de o procurar desde que pisaste aí?
- Não… Não foi preciso sequer! – informei ao mesmo tempo que espreguiçava o meu corpo esguio, forçando-o a despertar
- Encontraste-o? – ela nem me deu tempo de responder àquela pergunta feita a um ritmo de euforia estonteante – AHHHHH! – o berro de entusiasmo que deu, furou-me os tímpanos completamente e se ver já estava difícil, ouvir então tornou-se impossível – Como foi? Ele viu-te? Falaram?
- Paula, pára de me bombardear com perguntas… São sete da manhã aqui, eu dormi um par de horas e o meu cérebro não consegue assimilar nada! – indaguei a algum esforço, porque estava quase impossível de manter qualquer conversa com aquele nível de cansaço a querer dominar-me por completo
- Amor, conta-me! Vá lá… - suplicou naquele tom pedinchão de menina, que eu já tão bem lhe conhecia – Quero saber como foi…
- Eu não o encontrei a ele… Encontrei a irmã dele, a Belle!
- E então, como foi?
- Oh, normal… A típica conversa de circunstância!
- Não falaram nele?
- Pouco… Quase nada, na verdade… - enquanto falei os meus olhos percorreram o quarto, talvez na esperança de ver qualquer sinal da minha agente Alice, mas nada, provavelmente ainda estaria a dormir
- Não tiveste curiosidade em saber como ele está? – a Paulinha não desistia, queria saber de tudo, com todos os pormenores, mas eu não levava a mal, sabia que apenas o queria, para me puder reconfortar no caso de ser trazida alguma má notícia ou confronto
- Não, não tive… - menti-lhe de forma descarada, mas creio que ela percebeu que o tinha feito – Mas a Belle acabou por me dizer na mesma como ele estava…
- E então? – aquele tom inquisitivo e carinhoso, fez com que um sorriso momentâneo invadisse a minha boca
- Então que ele está bem, dentro dos possíveis… Está mais calmo e já parece o David que todos conhecem, logo podem todos ficar sossegados que o pior já passou!
- E tu como estás depois disso?
- Ah… Bem… Mais ou menos! – rematei com um sorriso triste a revelar o meu estado de melancolia
- Mexeu contigo o facto de teres tido novidades dele e de uma pessoa que lhe está tão perto?
- Ah… Sim, é verdade que mexeu, mas foi mais o que Belle me disse ao fim…
- Que disse ela? – um rasgo de entusiasmo pernoitou na voz de Paula
- Convidou-me para passar lá em casa a qualquer hora que quisesse, porque seria muito bem-vinda… - revelei-lhe com um suave torcer de lábios demonstrativo da agonia e incerteza em que a minha alma estava envolta
- E tu vais, certo? – não me deu tempo de responder, pois como me conhecia suficientemente bem, sabia qual a resposta – Oh Adriana, tens de ir… Nem que seja para o veres, saberes como ele está!
- Eu já sei como ele está, amor… A Belle disse-me!
- Não importa… Vais poder comprovar com os teus olhos e além disso verem-se, vai fazer-vos bem! Quem sabe… - foi então a minha vez de o interromper pois detalhei naquela perspicácia ao falar onde aquela assunto iria acabar  
- Não, Paulinha! Quem sabe nada, porque mesmo que a gente se veja não vamos voltar a estar juntos, amor… Tu sabes disso, eu sei disso e ele sabe disso!
- Tudo bem, é uma decisão tua… Mas pelo menos ias lá, ver os pais dele, a família… Ia fazer-te bem!
- Não… Além disso não tenho tempo! Ao final da noite tenho voo!
- Disseste bem: ao final da noite… Logo tens um dia inteiro para passares por lá, além disso só precisas de dez minutinhos! Cumprimentar as pessoas, dar um “oi” e segues a tua vidinha!
- Paula, não sei se consigo… E sim! Não sei se consigo porque morro de medo de o ver, porque morro de medo que ele me volte a tratar daquele jeito e porque morro de medo de perceber que ele não me ama mais… Por isso é melhor ficar no meu cantinho e deixá-lo ficar no dele…
- Não te posso obrigar, amor… - aquela meiguice do seu jeito de falar, amenizou os medos do meu coração – Já sabes que se precisares de alguma coisa eu estou aqui…
- Eu sei, amor… Obrigada! Olha, vou ter de desligar, porque senão me começo a arranjar já, daqui a nada aparece aqui a minha agente aos berros para me arrancar da cama! – gargalhei levemente e a minha pequena menina acompanhou-me de uma forma deliciosa de se ouvir – Falamos depois, eu ligo-te!
- Está bem, meu anjo… Qualquer coisa, já sabes!
- Sim, podes ficar descansada, que eu sei para onde correr se tiver problemas… Beijo, minha linda! Amo-te!
- Beijo também pra ti, amor! Amo-te! – deixei de ouvir barulho do outro lado da linha e segundos depois a chamada desligou-se
Suspirei, pois o vazio que durante uns escassos minutos foi preenchido por Paula, naquele momento regressou. Pousei o telemóvel em cima da mesinha de cabeceira, de onde o retirara há minutos atrás e olhei em meu redor. Como a solidão era triste… Como a felicidade se tornara tão efémera nas minhas mãos… Como aquele amor persistia em quedar-se em meu peito, de armas e bagagens, sem quaisquer intenções de partir tão cedo em busca do desconhecido… Tal como na noite anterior tive uma vontade enorme de chorar e esta acabou por se sobrepor ao orgulho, e só me apercebi disso, quando senti o sal das minhas lágrimas nos meus lábios. Fechei os olhos e entrei num transe profundo… Revi a minha história com David, quase como se tratasse de um livro e esse foi rasgado a meio com a entrada de Alice no quarto e a tentativa falhada desta em me despertar.
- Adriana… - o meu corpo agitou-se sob a cama, devido à força que as suas mãos exerceram nos meus braços
- Eu estou acordada, Alice! – vociferei um pouco irritada por estar a ser alvo de mais uma manhã alvoraçada
- Então levanta-te, caramba! Já devias ter tomado banho e devias estar a acabar de te vestir!
- Eu estou a ir, Alice… - as forças para lutar não habitavam mais em mim, nem no meu corpo, por isso o preferível foi declarar derrota e obedecer ao inimigo – Dá-me 15 minutos, que fico pronta!
Levantei-me da cama, senti ainda as restantes lágrimas formadas em meus olhos descerem involuntariamente o meu rosto, rumo aos meus lábios, mas enxuguei-as calmamente. Gesto que não passou despercebido ao sexto sentido da minha perspicaz agente, que começava a conhecer-me bem demais e de jeitos perigosos para aquilo que eu apelidava de “o meu cantinho”.
- Adriana! – assim que a sua voz encorpada em robustez cortou o ar, virei-me para a enfrentar, mas ela fez questão de se aproximar e analisar o meu rosto milimetricamente – Estiveste a chorar? – interrompeu-me assim que tentei falar – É claro que tiveste a chorar, olha-me para esses olhos… Estás horrível, parece que levaste dois socos em cada olho! E agora como é que vais para o estúdio com essa cara miserável? Vê se metes um bocado de corrector nesses olhos e disfarças isso muito bem, porque senão ainda cancelam o contrato que tens!
No momento que mais precisava de apoio, ela estava preocupada em falar-me de correctores que disfarçassem o inchaço dos meus olhos? Quando mais precisava de um abraço, ela estava ali ocupada em tecer-me um enorme sermão por ter agido de forma natural… Como humana que sou! A situação descambou fugindo-me de controlo, o meu corpo perdeu qualquer vontade e cedeu aos caprichos do meu coração, que continuavam a comandar as lágrimas que habilmente me delimitavam os traços faciais. Não quis dizer mais nada… Limitei-me a sentar na cama, enterrar a cabeça nas mãos e chorar. Não aguentava mais aquele sufoco… Não aguentava a ausência dele todas as noites do meu lado, a ausência das suas mensagens e telefonemas diários, dos seus carinhos e beijos, nem tão pouco a ausência dos momentos em que éramos só nós… Entregando-nos um ao outro. Sentia-me tão tola por estar assim, quando possivelmente ele já estava a seguir em frente. Sentia-me perdida… Sem norte, sem direcção, nem ninguém que ma indicasse e não havia nada mais desesperante do que querer correr na procura de conforto, de um abraço, de um carinho, mas não entanto não ter para onde correr.
- Adriana… - a voz de Alice soou baixinho junto do meu ouvido e senti o peso dela ocupar o espaço livre do meu lado, na beirinha da cama
- Não digas nada, Alice, eu estou bem! – falei com uma certa raiva pernoitando na minha voz – Se o teu problema é a merda do inchaço, eu vou já disfarçar isto! – ergui-me num impulso e finquei bem os meus pés no chão de modo a entrar na casa de banho
- Adriana, espera… - ela segurou-me o braço e encarou-me bem dentro dos meus olhos, até eu sentir a minha alma vacilar, até doer de um jeito insuportável – Que se passa?
- Nada, Alice… Eu vou arranjar-me o mais depressa que conseguir!
- Adriana, tens os olhos inchados de chorar… Do jeito que estão deves ter chorado a noite toda e eu quero saber o que se passa… - forçou-me de jeito meigo a ocupar novamente o meu lugar na cama, mas ergui-me, pois o nervoso miudinho que me comandava repelia-me daquele espaço
- Não é nada em que me possas ajudar, prefiro ficar sozinha, Alice…
- Ouve… Eu sei que não te sou nada, senão meramente uma agente, mas desde que nos conhecemos, que criámos laços fortes, que cuido de ti com o carinho que cuido uma filha, só te quero ajudar, Adriana…
- Isto passa… Não é nada que o tempo não cure e neste momento não consigo falar sobre o que aconteceu!
- Não precisas… Eu sei! – arqueei automaticamente a sobrancelha num ar inquiridor de quem espera uma resposta, ou talvez um esclarecimento – O Paulo contou-me de um encontro menos feliz que ontem tiveste no calçadão…
- Oh bolas…! – expeli num único movimento todo o ar que tinha dentro dos pulmões e pontapeei o chão
- Vá lá… Fala comigo, vai fazer-te bem!
- Não, o que me faz bem é viver a minha vida sossegada… Isso é que me faz bem!
- Adriana, não podes continuar a ignorar o que acontece… Além disso aqui no Brasil é fácil, quando chegares a Portugal, vai ser bem mais difícil… - não compreendi o que ela queria dizer com aquilo e procurei então, numa voz acutilante e desesperada, esclarecer as minhas dúvidas
- Que queres dizer com isso?
- Ah… Em Portugal as coisas estão complicadas! A imprensa já descobriu o fim do namoro, alguém passou informações, a história foi distorcida e tu és apontada como a má da fita… Montaram uma autêntica novela em torno do fim da relação!
Era tudo o que eu menos precisava ouvir naquele momento. Assim que senti as minhas pernas vacilarem e as poucas forças, que as habitavam sumirem, necessitei de me segurar ao móvel que se prostrava na minha traseira. As minhas unhas cravaram a madeira e arrastaram-se levemente, mas sem lhe proporcionar um único arranhão. O meu coração estava cheio de ódio, a minha alma revoltada e só sentia sede de vingança. Não de David, por incrível que parece-se, mas sim das pessoas que haviam publicado aqueles artigos.
- Estás bem, Adriana? – Alice baixou um pouco a cabeça de forma a alcançar a perfeita visão do meu rosto, que se encontrava cabisbaixo
- Achas, Alice? Achas? – protestei num tom de voz um pouco elevado e chorando mais uma vez
 - Tem calma… Nós arranjamos uma maneira de resolver isso, quando chegarmos a Portugal pensa-se nisso com calma! – adiantou-me naquela fala burocrática, que a mim não me tranquilizou nem um pouco, pois sabia bem como o mundo das revistas cor-de-rosa funcionava
- Não há maneira de resolver isto… Se emitir um desmentido ou tentar justificar-me, eles vão distorcer tudo aquilo que eu disser, não entendes?
- Tem calma… Alguma coisa nós podemos com certeza fazer!
- Há… Saíres daqui, quero ficar sozinha! – ordenei de forma bruta, à qual ela não estava de todo habituada
- Adriana… - tentou contrapor-se, mas nem lhe dei hipótese
- ALICE, SAI! – repeti aos berros e indicando o caminho da porta
- Não fales assim comigo, Adriana… - puxou-me pelos ombros e forçou a que me sentasse na cama – Ouve bem o que te vou dizer! A tua relação com ele acabou, não importa como, quando, ou por culpa de quem, agora é hora de seguires em frente, entendes-te bem?
Encarei-a com o queixo a tremelicar, por aprisionar as lágrimas que nos meus olhos tanto tentava segurar. Ela tinha razão… Era hora de seguir em frente, encenar o maior sorriso, dissimular a maior felicidade, erguer o queixo e caminhar na construção de um futuro… Esperando que esse fosse mais doce e sorridente que a minha actual realidade. Deixei que o assunto morresse ali… Caminhei até ao duche e fiquei pronta numa questão de minutos, sempre sob o olhar atento, mas porém surpreendido da minha agente, que não compreendeu de onde vinha aquela frivolidade em lidar com a situação.

- Vamos embora, Alice… Quero despachar-me cedo, para ainda dar uma volta! – um sorriso alinhou-se na minha boca e da parte dela somente recebi um olhar esbugalhado de tanto espanto – Vais ficar aí a olhar-me desse jeito, ou vens?
Caminhei na direcção da porta da minha suite, segurando entre os meus dedos o cartão electrónico de acesso à mesma e deixei para trás a Alice, que numa questão de segundos se predispôs a uma corrida, de forma a apanhar-me e somente o conseguiu, quando eu já me encontrava dentro do elevador pronta para descer até ao piso zero.
- Qual é a pressa, Adriana? – questionou-me ainda ofegante, tanto que teve de se segurar a uma das paredes laterais do elevador para se puder acalmar
- Ser feliz, Alice… Ser feliz! – esbocei um sorriso sincero e assim que as portas abriram passagem saí, disposta a enfrentar o mundo, mesmo sem ter ninguém do meu lado

***

- Acho que estamos despachados! – a voz de Bruno ressoou junto do meu ouvido, pois o som era abafado pela sala de gravação
- Sim, parece-me que sim! Foi um prazer trabalhar contigo! – trocámos um sorriso e os nossos corpos partilharam um abraço de gratidão
- O prazer foi todo meu, afinal não é todo o dia que se ouve uma voz tão bonita como a sua…
- Oh, muito obrigada! – os meus lábios rasgaram-se num sorriso revelando o meu lado educado e sempre simpático
- E vai topar ir naquela volta que ficou prometida?
- Ah… Acho que terá de ficar para outra visita a Minas!
- Oh… Que é isso? Então você vem na minha cidade, grava uma música comigo e nem conhece a zona? Ah, não pode ser!
- Oh, eu agradeço imenso, mas para além de não querer dar trabalho, ainda quero descansar um pouco antes de partir… O voo é longo e tardio, infelizmente! – desculpei-me da melhor maneira possível e felizmente o Bruno acabou por perceber
- Pronto, não insisto mais, mas da próxima vez que vier cá, fica me devendo essa!
- Com todo o prazer! – despedimo-nos num abraço apertado e com dois beijinhos
Antes de abandonar o estúdio ainda dei um beijo a todos os membros da banda e tirámos juntos uma foto, que iria com toda a certeza ficar para a posteridade. No carro preto, que apesar de ser meu há somente um dia eu já conhecia bem, acabei por seguir rumo ao desconhecido, os planos eram somente divertir-me e passear um pouco para arejar as ideias.
- Menina, quer ir onde? – perguntou o simpático motorista, que haviam atribuído para a minha curta estadia no país
- Leve-me a passear pela costa, por favor… Quero ver o mar! – esbocei um sorriso tranquilizante e da minha mala retirei a máquina fotográfica
Ao fim de cinco minutos já havíamos atravessado a cidade, encontrando-nos então na periferia. Era tudo demasiado bonito… Num lado estendia-se o mar, onde o sol teimava espelhar-se de forma inconfundível, e do outro os longos montes, que recordava verdejantes, da última vez que estivera por aqueles lados.
- Pode parar… É aqui que fico! – anunciei e sem dar mais tempo para qualquer resposta, abandonei o carro
- Adriana, espere… - Paulo e outro segurança seguiram atrás de mim
- Tente apanhar-me se conseguir, Paulinho… Quero ver tudo! – sorri-lhe e penso que acompanhada pela minha forma altiva de falar, isso deve ter ressentido nele um jeito de desafio, apesar de essa não ser de todo a minha intenção
Percorri o calçadão todo com os desgraçados dos dois seguranças a fazerem um esforço enorme para se manterem por perto, um na frente e outro do meu lado. Tirei fotos a tudo… Ao mar, às falésias, às pessoas, até ao senhor das águas de coco. Queria fazer daquela ida ao Brasil uma tão feliz como a primeira e última que se tinha dado há sensivelmente um ano. E pronto… Lá estava eu, inevitavelmente a recordar-me dele, ainda assim forcei o meu pensamento a concentrar-se somente no que estava a viver… Agora sozinha é verdade, mas ainda assim com um sorriso lindo no rosto.
- Não sei como a menina consegue… - começou por dizer Paulo com a ofegância a denotar-se na voz – Com uns saltos desse tamanho e a uma velocidade destas…
- Oh Paulo… Paulinho, sabe que a idade a mim ainda não me pesa, graças a Deus… Mas se estiverem cansados podem sempre ir beber uma garrafinha de água, que eu vou continuando a minha voltinha! – sugeri, enquanto tirava mais uma fotografia a umas pequenas casas tipicamente coloridas, situadas numa aldeia totalmente rural
- Não… Isso queria a menina! Nós ficamos! – assegurou sem nunca deixar a voz vacilar
- Mas, Paulo… - o outro segurança tentou protestar e quando olhei reparei como estava pálido e suava a bica
- Não, Sérgio! Nós ficamos! – insistiu o Paulo, assegurando o seu papel de chefe de segurança
- Pronto, façam como preferirem… - virei-lhes costas e continuei a descer a enorme ladeira forrada a pedras de granito, que tinham uma irregularidade inquietante, mas que não foi suficiente para me impedir de caminhar
Encontrei vários grupos de crianças e quando uma menina muito simpática me interceptou o caminho, pois reconhecia-me devido ao meu trabalho, não resisti em dar-lhe um autógrafo e tirar consigo uma fotografia.
- Menina Adriana, está tarde… Temos de regressar, daqui a duas horas tem o seu voo! – relembrou-me o Paulo ao surgir na minha frente, quando me preparava para fazer a máquina fotográfica disparar mais umas quantas vezes
- Já, Paulo? – contra-argumentei pois a vontade de abandonar aquela terra era muito pouca, na verdade quase nenhuma
- Sim… A Alice já estará à nossa espera no aeroporto, vamos por favor…
- Tudo bem… Vamos lá a isso!
Não valia a pena discutir, se perdesse aquele voo de regresso a Portugal, provavelmente só conseguiria outro no dia seguinte, o que era o mesmo que dizer que toda a minha agenda ficaria atrasada e isso seria motivo de histerismo para Alice, que apenas com um atraso de cinco minutos entrava em pânico. Acabei por me rir com os meus próprios pensamentos, enquanto caminhava em passadas largas até ao carro, que havia ficado junto da areal.
- Boa tarde! – cumprimentei o motorista que se encontrava no exterior da viatura, tragando o seu cigarrito e deliciando-se com um copinho de plástico de café, que estava quase no fim
- Boa tarde, menina! – respondeu-me naquele seu doce sotaque de brasileiro e apressou-se a beber o muito pouco que lhe sobrava do café somente com um sorvo, mas quando se preparava para apagar o cigarro que ainda não ia a meio, resolvi intervir
- Não tenha pressa… Fume lá o seu cigarrinho descansado, porque ainda temos tempo! – sorri-lhe de forma amável e enveredei para dentro do automóvel, que se encontrava vazio, mas rapidamente foi ocupado por Paulo e o outro segurança
Aguardámos a entrada do motorista, que na sua pose modesta se revelou extremamente envergonhado por me ter feito esperar, mas não me importava minimamente com isso. Não era rainha, mas sim uma pessoa normal como tantas outras e o pobre senhor bem que precisava da sua pausa para descanso, depois de ter passado o dia a andar comigo de um lado para o outro.
- Me perdoe, menina… - indagou cabisbaixo enquanto colocava o cinto em redor do corpo
- Não se preocupe com isso, não tem problema! – reforcei a minha afirmação com um ténue sorriso e ajeitei o meu corpo no canto direito do banco de trás
O senhor seguiu caminho e eu acabei por me concentrar na paisagem, que me acompanhou durante toda a viagem. De um lado, o mar e do outro, as pequenas casas de cariz rural, que enquadravam perfeitamente naquele cenário avassaladoramente magnífico. Aos poucos senti-me em casa… A cada árvore uma lufada de ar fresco, que me renovava a alma. A cada pessoa no calçadão uma nova sensação de companhia do meu lado, apesar de estar somente entregue a solidão. Aos poucos tudo se começou a tornar familiar… Familiar até demais! Até que eu descobri o porquê. Aquela rua… Aquelas pessoas e aquela praia! Eu já tinha visto aquele cenário, eu já tinha estado ali… Há um ano! Quando observei a janela do lado do Paulo, perscrutei com o olhar algo que não ansiava e nem esperava ver tão cedo. A casa verde das portadas brancas… Ai, que sensação de nostalgia, de saudade… Era a casa dele! Pela primeira vez em quase três semanas, estava o mais perto dele que me era possível tendo em conta as condições em que a nossa relação, ou melhor… a nossa não-relação, se encontrava. Um aperto enorme conseguiu o meu peito e quanto mais aquela imagem de tornava nítida, mais a minha respiração teimava em tornar-se atabalhoada e irregular.
- Pare o carro! – ordenei, num sufoco estrangulado pelo desespero do impasse em não saber o que fazer
- Está tudo bem, menina? – Paulo, que se encontrava do meu lado esquerdo, segurou-me imediatamente pelo braço e observou-me, de modo a entender se me estava a sentir mal – Está a sentir-se bem?
- Espere só um pouco… - comandei o motorista e este limitou-se a desligar o carro, surgindo depois um silêncio tenebroso, que dominou por completo o ambiente
- Menina, que se passa? – o meu segurança agitou-me levemente na esperança, que eu o olhasse, mas no entanto encontrava-me bem mais interessada em observar a casa verde tão familiar, que se prostrava diante dos meus olhos, tentando adivinhar o que se passaria no seu interior
Encarei aquilo como um sinal do destino… Primeiro o convite de Belle e depois o ter chegado ali por pura coincidência, sem nunca o ter solicitado ao motorista, que guiava o carro onde me deslocava. Tirei a mala, que durante toda a viagem seguira no meu colo de cima do mesmo e precipitei-me para fora da viatura.
- Adriana, onde é que vai? – fui interceptada pela voz de Paulo e pelo seu enorme corpo, que me barraram qualquer movimento
- Paulo, entre no carro, eu venho já! – tentei tirá-lo da minha frente, mas se eu seguia para a esquerda, ele também, se eu seguia para a direita, ele acompanhava-me os movimentos e assim sucessivamente – Paulo, pára já com isso! – vociferei de modos alterados e perdendo assim toda a compostura, mas estava desejosa por alcançar os muros daquela casa e por fim transpor aquele portãozinho
- Mas onde é que a menina vai?
- Eu vou àquela casa… Preciso de dois minutos, só isso! É só isso que peço…
- Então eu vou consigo! – sugeriu de forma altiva e como se quem possui-se ali o poder de ordem fosse ele e não eu
- Paulo, quem manda aqui sou eu… Pode ser mais velho, mas trabalha para mim, por isso enfie-se no carro, que eu só demoro dois minutos, prometo!
- Não, lamento imenso, menina, mas tenho ordens da Dona Alice para não deixar…
- Paulo, está-me a irritar com essa conversa… - olhei em meu redor, respirei fundo e regressei ao olhar temível do meu segurança – Oiça bem o que lhe vou dizer, porque só o irei fazer uma vez e uma vez apenas! – ele quedou-se em silêncio esperando para ouvir as minhas palavras – Você vai sair-me da frente, enfiar-se neste maldito carro e deixar-me ir… - quando senti que ele iria quebrar o meu discurso, apressei-me a prossegui-lo – E eu vou demorar dois minutos e só dois minutos apenas, para depois estar de regresso e seguir viagem… Estamos entendidos?
- Sim, menina… - por incrível que pareça ele acabou por ceder, o que nos primeiros segundos me deixou estupefacta, mas orgulhosa das minhas capacidades de persuasão – Mas aguardo-a junto do carro…
- Mas deste lado da estrada! – forcei ali um negócio, onde era mais que óbvia beneficiária
- Sim… Dois minutos, depois vou buscá-la! – alertou-me imediatamente
- Sim… Volto já! – esbocei um sorriso de agradecimento e passei aquela estrada numa correria infernal
Uma sensação de Deja Vu assaltou a minha memória… As vezes que passara aquela estrada ainda se avivavam em mim. As vezes que sentira os meus cabelos sobreporem-se aos meus traços, fazendo-se acompanhar de uma doce maresia, que baptizei como sendo somente brasileira, ainda tocavam a minha pele… E todas as vezes que o fizera com ele do meu lado, segurando-me a mão de forma a guiar-me até sua casa. Depois da felicidade do passado, um nó impulsionado pelo presente, atou o meu estômago e não me deixou alegrar mais aquele dia. Um burburinho emanava de dentro dos quatros muros, uma mistura de vozes, conotadas pelo sotaque brasileiro, juntamente com um sambinha delicioso como música de fundo. Afinal era aquela a sensação de quando nos sentimos em casa… Pé ante pé aproximei-me do portão, mas não resisti e detive-me observando por cima do muro, as pessoas que davam vida àquele espaço exterior. Apesar de estar de saltos coloquei-me em biquinhos de pés, mas nem isso foi o suficiente para que me vissem, pois do lado de fora do muro uma enorme árvore ensombrava a minha visão.
- Há coisas que não mudam… - confessei a mim mesma, enquanto me deliciava com aquele quadro que se estendia bem na frente dos meus olhos
Ao fundo do jardim, uns primos de David tocavam instrumentos e davam som àquele samba que eu escutara pela primeira vez, poucos segundos antes. A criançada andava de roda da piscina entre palhaçadas, apesar de estar quase a escurecer, e os mais velhos encontravam-se perfeitamente entretidos, entre dois dedos de conversa e a mesa de matraquilhos e snooker. O meu olhar identificou todos aqueles que me tinham sido apresentados há um ano atrás e mais facilmente o fiz com a Dona Regina, o Sr. Ladislau, a Belle e o marido. Um sorriso tomou a minha face e uma brisa aqueceu o meu coração, aquela era e seria sempre, independentemente da minha história com David, uma família pra mim.
- Cuidado, crianças! – alertou a sempre atenta mãe de David
- Sim, tia Rê! – responderam todos num uníssono perfeito e engraçado, e jogaram-se na água entre acrobacias desalinhadas
O meu coração ansiava por uma só pessoa, apesar desta não se encontrar presente, mas queria tanto puder abraçá-los… Queria tanto rever e falar com aquelas pessoas que há já tanto tempo não via. Os meus pés simplesmente seguiram as pisadas do coração e direccionaram o meu corpo para o portão, que acabei por não transpor inicialmente.
- MÃE! – aquela voz… aquela bendita voz, que durante aqueles dias tanto havia atormentado os meus sonhos – OH MÃE! – as minhas mãos já se encontravam no ferro forjado do portão, mas não foram capazes de o empurrar
- QUE É, DAVI’?
- Ah… Finalmente encontrei a senhora! – o seu jeito protector e carinhoso, pelo qual sempre fora conhecido, veio ao de cima, quando rodeou os ombros da Dona Regina e lhe beijou o topo da cabeça
- Precisa de alguma coisa, meu anjo?
- Tô com fome… Ainda falta muito pro jantar ficar pronto?
- Não… Talvez mais uns dez minutos! – a mão dela traçou o rosto dele e um sorriso maternal acolheu seus lábios – Vai brincar com os meninos que logo logo o jantar tá saindo!
- E aí, mulecada? – aquela animação eu não lha via desde que as notícias da sua saída do Benfica, haviam abalado a nossa relação – Há aí um espacinho pra mim na piscina?
- Vem, Davi’, vem! – imploraram alegremente pela presença dele e este acabou por lhes conceder
Despiu a t-shirt negra que envergava, livrou-se das enormes havaianas e jogou-se naquelas águas agitadas, pelas brincadeiras dos meninos pequenos. Num movimento quase que automático, vi o Lucas abeirar-se do pescoço dele e permanecer então no seu colo. A partir daí desejei não ter visto mais nada… Ele estava feliz… Tão, mas tão feliz… Brincava com os meninos, sorria, gargalhava e claramente não o fazia por obrigatoriedade, mas como é que conseguia? Como é que ele conseguia estar assim separado de mim? Quase sem dar conta os meus olhos começaram a ficar nublados pelas lágrimas que rapidamente se preparavam para cair. Olhei para trás de modo a certificar-me que o carro e os meus seguranças ainda se encontravam lá à minha espera e vi o Paulo já se preparando para me ir buscar ao outro lado da rua. Foquei novamente as minhas atenções no jardim e quando dei conta tinha os olhos da Dona Regina cravados nos meus. Num acto de estúpida imprudência e descuido fui apanhada nas malhas do destino, que teimavam em arrastar-me até àquela família, até ele… Não podia ser descoberta, não podia! Não podia entrar naquela casa, não podia deixar que ele me visse, não podia destruir aquela sua felicidade… Não podia e não tinha esse direito. O meu indicador ergueu-se junto dos meus lábios em sinal de silêncio e apenas assim ela compreendeu a mensagem: ignorar-me. Ambas olhámos David, que sorria afavelmente, como não devia fazer há muito, e encarámo-nos uma última vez… Tanto eu como ela soubemos o que foi dito naquelas palavras silenciosas. Tanto foi dito, tanta coisa acordada e somente nós saberíamos. Acenei-lhe e mandei pelo ar um beijinho, adornado por um sorriso triste. As lágrimas caíam-me a pique pelo rosto, mas precisava desaparecer dali… Agora é que nunca mais equacionaria correr atrás dele, agora é que nunca mais tentaria reconstruir a nossa felicidade. Não olhei para a estrada, mas ainda assim passei-a a correr, tendo sido apanhada no caminho por Paulo, que já se encontrava a meio-percurso para me ir buscar.
- Menina…! – proferiu assim que reparou no meu estado lastimável
- Não, Paulo… Agora não!
O meu passo apressado só estagnou quando joguei o meu corpo combalido e inerte no banco traseiro do automóvel. Queria parar de chorar e não conseguia, queria ter forças para seguir em frente como ele, mas infelizmente não as tinha. Respirei fundo, tentei acalmar aquele soluçar aflitivo e observei o condutor pelo espelho retrovisor.
- Siga… Eu tenho um avião para apanhar! – alertei de forma fria e desgostosa, talvez porque uma parte de mim tivesse achado que iria permanecer naquela casa alguns dias como acontecera no Verão passado
O meu corpo retraiu-se a um canto e assim segui até ao aeroporto, com o rosto cheio de lágrimas e o queixo a tremelicar de tanta mágoa. Embarquei sem olhar mais para trás e prometendo a mim mesma uma coisa… Era hora de seguir em frente!



Antes demais quero aproveitar para agradecer o avultado número de comentários que me têm deixado nos últimos capítulos, é muito importante receber todo esse apoio! :)
Por isso aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem e não se esqueçam de continuar a aumentar o número de comentários à história!
Beijinhos a todas as minhas queridas leitoras! :)
Drii