Aquela viagem de regresso a Portugal foi impiedosa no que toca a recordações… Apesar de estar num avião com mais de cem pessoas, apesar de ter do meu lado a Alice e no banco de trás dois dos meus seguranças, a sensação de desabitado que se apoderou de mim foi terrivelmente assustadora. De repente não sentia mais o sangue a correr-me nas veias, não tinha mais ar para alimentar os meus pulmões, não tinha mais pulsação no meu corpo e o meu coração não batia… Tão simplesmente parecia morto. “Será que é assim que se sente um corpo sem vida?”, questionei vezes sem conta a mim mesma, enquanto via aos poucos a paisagem brasileira desvanecer-se, dando lugar a um longo manto de azul… Este estendeu-se durante horas e horas naquele pequeno quadradinho de vidro do meu lado direito. Recordo vagamente quando a hospedeira me interpelou a fim de saber o que tencionava comer, mas no grupo de todos os que me acompanhavam, eu fui a única que preferiu não tocar em nada, pois o nó no topo do meu estômago era tão apertado que não me deixava espaço para o que fosse.
- Adriana, vou passar no supermercado porque não deves ter nada em casa e mando lá uma empregada para colocar tudo em ordem! – informou-me a Alice, enquanto já nos deslocávamos, dentro de um BMW negro, por entre o habitual trânsito da capital portuguesa
- Não precisas, Alice… - indaguei monocordicamente, deixando transparecer o meu estado de indiferença diante do assunto
- Precisa sim! Não vais ficar sem comer em casa, Adriana…
- Alice, por favor… Respeita o que te estou a dizer, não quero ninguém enfiado na minha casa e quando eu quiser ir às compras não te preocupes, que eu mesma me encarrego! – o meu olhar desprendeu-se pela primeira vez da linha do horizonte sobre o Tejo de forma a encará-la, olhos nos olhos
- Mas, Adriana…
- Alice, deixe-a… Noutra altura conversam acerca disso! – foi Paulo que pôs termo àquela conversa, talvez porque a convivência que mantivera comigo nos últimos tempos lhe foi suficiente para entender, que conversar era coisa que não queria fazer naquela altura, nem tão pouco nos próximos tempos
- Obrigada… - gesticulei com os lábios, para que este pudesse enxergar através do espelho retrovisor e ele limitou-se a corresponder com um leve aceno de cabeça, acompanhado por um sorriso discreto, que se camuflou por detrás da imagem de durão conferida por aquele terno negro e pelos óculos de sol, que lhe cobriam na totalidade a visão
- Então vamos cá ver… - assim que entrei em casa e os seguranças pousaram as minhas malas, partindo pouco depois para junto do carro, que aguardava nas garagens, Alice fez do meu sofá o seu pequeno escritório e sem eu ter dado conta, afundou-o numa tonelada de papéis – Partimos dentro de quatro dias rumo à Europa e tens o primeiro concerto agendado para…
- Alice, por favor… Não estou com cabeça, nem disposição para discutir a minha agenda profissional depois de uma viagem tão longa, por isso não querendo ser mal-educado, peço-te que saias e conversamos noutra hora…
Uma dor miudinha parecia matutar na minha cabeça e aos poucos levava-me a crer que esta iria explodir a qualquer segundo que fosse. Queria estar sozinha, tomar um duche, preparar uma coisa simples para comer e entregar-me ao prazer do descanso, mas algo me dizia que isso naquele dia seria uma tarefa difícil…
- Mas, Adriana…
- Alice, por favor, sim? Não estou com cabeça… Tratamos disso depois! – os meus olhos fecharam-se e a minha cabeça embateu fortemente na parede, que se prostrava na minha retaguarda
- Tudo bem… Amanhã eu passo por cá para acertarmos estas coisinhas, espero que esse humor esteja melhor do que hoje! – apesar de ter usado um tom brincalhão as suas palavras ofenderam-me e creio que isso somente aconteceu porque como ela própria referiu, eu não estava com um humor propriamente afável
- Vai estar, não te preocupes… Resolvemos isso e de amanhã não passa! – afirmei seguramente, enquanto em passadas vacilantes me direccionei até à porta de saída de modo a convidá-la a sair
- Não passa mesmo… Vê se descansas e cuidas de ti, Adriana! – alertou, parando na minha frente, com uma pilha de seis pastas na mão e uma agenda no topo
- Sim, eu já não sou nenhum bebé… Agora vai lá ver a tua família, que eles precisam mais de ti do que eu!
- Tudo bem… Então, até amanhã! – senti os lábios dela tocarem-me a pele da testa de raspão, mas quando abri os olhos de modo a retribuir-lho, somente vi o vulto dela enfiar-se no elevador, numa pequena corrida de quem fazia um esforço evidente para não deixar cair nada – Espere, espere… Aguente o elevador!
A voz de Alice foi a única a preencher os meus ouvidos nas horas que se seguiram. Observei as minhas malas no corredor da sala, mas nem me dei trabalho que as desfazer, visto que iria partir em viagem dali a uns dias. Segui então para o meu quarto no intuito de tomar um duche refrescante, pois em Portugal o Verão tinha chegado com toda a força e os noticiários davam conta de um aumento maior da temperatura nos próximos dias. Vesti uma roupa simples, fresca e típica da estação. Caminhei até à cozinha e acabei por improvisar algo para comer a partir do que lá encontrei: leite e bolachas. Não era nenhum menu de rainha, mas para a pouca, ou nenhuma fome que eu tinha, estava mais do que bom. Sentei-me no sofá arrastando comigo a alma frágil e penosa, que continuava a pesar dentro do meu peito e atirei-me para as almofadas, de modo a comer o que havia descoberto no fundo do armário.
- Estou a ir… - respondi com calma, assim que ouvi a campainha do meu apartamento – Só espero que não seja a Alice de novo… - murmurei para mim mesma, demonstrando a vontade que possuía em vê-la longe nos próximos dias – Débora? – um sorriso tímido, mas sincero cobriu os meus lábios e os meus olhos não se coibiram de espelhar um brilho intenso, por a ver na minha frente
- Olá! – um tom ríspido, quase que violento assaltou-lhe a voz e naquele momento não consegui distinguir a minha Débora, a minha melhor amiga
- Olá, amor! – ainda assim consegui manter o sorriso em meus lábios e apressei-me a puxá-la para dentro de casa de modo a puder abraçá-la – Que saudades!
- Sim, que saudades… Como é que estás? – rapidamente me repeliu dos seus braços e abriu passagem, dirigindo-se à minha sala de estar, que percorreu rapidamente com um único olhar
- Vai-se andando… - encerrei a porta principal e sentindo o calor do soalho flutuante nos pés descalços, caminhei sobre ele atrás dela – E tu, como tens andado?
- Não muito bem… Mas melhor quando descobri que a minha melhor amiga, se é que ainda lhe posso chamar isso, terminou com o namorado como terminou e não me disse nada! – aquele tom de acusação na sua voz, despoletou no meu coração uma sensação de injustiça, uma tentativa de julgamento que eu não iria de todo permitir caso se confirmasse
- Débora, eu disse-te que o tinha deixado… Naquele almoço com as meninas no Colombo, eu disse-vos! – declarei calmamente, enquanto transpunha o meu olhar passivo pela sua figura alterada
- Sim, tu disseste que o tinhas deixado, mas nunca disseste que o tinhas deixado com uma carta! – as lágrimas rapidamente quiseram tomar conta de mim, mas desta vez resolvi contrapor e controlei-me antes que isso acontecesse – UMA CARTA, ADRIANA? E NÃO ME DISSESTE NADA!
Demorei um pouco para digerir os gritos sufocados que ela soltava e que faziam o meu coração fragilizado estremecer, mas aos poucos acabei por consolidar na minha cabeça as palavras que pretendia dizer-lhe e num impulso, com meia dúzia de palavras, procurei esclarecer a minha dúvida.
- Como é que sabes da carta? – os músculos da minha face contraíram-se, dando-me a perfeita noção desse movimento, para logo depois deixarem expostos os meus dois olhos que imperativamente ficaram rasos, apesar de terem lutado contra isso
- Não importa como é que eu sei! – os gritos dela continuaram e misturaram-se com o latejar aflitivo, que já ecoava na minha cabeça, devido à dor que estava a sentir
- Importa… Só ele e os amigos mais próximos sabem da carta… - esclareci num discurso claro e sereno, sem nunca sequer tentar atingir o nível dela
- Lá está… Amigos mais próximos, pensei que era a tua melhor amiga, bolas!
- E és… Quer dizer… - o maior erro do mundo foi cometido naquele segundo, quando permiti a mim mesma que as palavras me fugissem por falta do espaço dela no meu coração
- Quer dizer…?
- Estamos muito afastadas, Débora… Tu estás numa faculdade, eu noutra, temos novos amigos, vemo-nos raramente, falamos de vez em quando, mas já não sinto que te posso contar tudo… Que vais estar lá para mim a toda a hora como estavas antigamente!
- Foi por isso que não me contaste da carta para o David?! – quando a observei vi os braços cruzados sobre o peito e uma raiva enorme implantada em cada movimento
- Mas qual é o teu problema com a carta? E com o David? Gostas dele é isso?
- Não, claro que não gosto dele… Sabes muito bem que sou feliz com o meu namorado! Só não compreendo, Adriana… Uma carta? Uma merda de uma carta e não me disseste nada? – percebi que ela não tencionava baixar o tom de voz de forma a termos uma conversa normal, entre duas mulheres adultas – Afinal as revistas têm razão quando te acusam de ser a má da fita no meio disto tudo… E eu que sempre te defendi, Adriana!
- Nunca te pedi que o fizesses! – aquilo saiu-me disparado pela boca, mas infelizmente foi o bastante para atear mais o fogo de uma discussão, que eu só queria circunscrever
- Nunca me pediste? Eu era tua melhor amiga, era suposto fazê-lo! – quando dei conta vi a mala dela jogada sobre o sofá e meio entreaberta devido à força com que ela a atirou para cima do mesmo – Agora é que eu compreendo…
- O que é que tu agora compreendes? – o sarcasmo acompanhou-me na voz e nos movimentos, que forçaram o meu corpo a assumir uma pose de arrogância
- Compreendo a Adriana que deixou o David com uma simples carta e que se foi embora sempre prestar justificações a ninguém! Estás mudada, Adriana, muito mudada e essa é a única explicação que encontro para aquilo que fizeste…
- Eu não tinha de prestar justificações a ninguém, Débora! Eu sou livre… Livre!
Sem nenhuma de nós o conseguir prever, o curto pavio acabou por arder em frente aos nossos olhos e inflamar o que restava da nossa amizade… ou melhor, o que restava das ruínas da nossa amizade. As nossas vozes tornaram-se desmesuravelmente alteradas, as nossas expressões acusadoras e os nossos indicadores não hesitaram em arrebitar-se no ar e apontarem-se uma à outra. A minha sala de estar tornou-se num campo de batalha e mesmo sem querer, acabei por me tornar uma das suas guerreiras…
- Tu és livre? Tu namoraste com ele mais de um ano, Adriana! Ele cuidou de ti, deu-te amor, carinho e tu deixaste-o com uma carta, foda-se! Que merda de namorada eras tu? Que merda de amor era esse que dizias sentir por ele?
Perdi totalmente o controlo da minha mente, que se deixou levar pelo coração, e esta tomou as rédeas do meu corpo. Intuitivamente a minha mão direita voo até à cara de Débora e presenteou-a com uma valente bofetada. Quando caí em mim fiquei incrédula com tal comportamento… Senti na mão dormente um pequeno formigueiro que subiu pelo meu corpo até se inteirar do coração, a minha boca entreabriu-se revelando então o espanto que me abominava e quando a encarei apenas encontrei cinco dedos marcados na sua face esquerda e uma grande dose de arrependimento.
- Não acredito que fizeste isto… - murmurou, enquanto passava a sua mão na bochecha de forma a aliviar o ardor, que o choque de peles lhe havia provocado
- Ninguém tem o direito de me julgar, Débora… Ninguém… - pausei levemente de forma a controlar os gritos, que involuntariamente se continuavam a soltar da minha garganta – Muito menos tu!
- Muito menos eu, porquê?
- Porque nunca foste capaz de amar e de te entregar para esse alguém de verdade! Porque vives com o Rafael um namoro de aparências e tenho pena daquela pobre alma por gostar de ti…
- Então parece que somos mais parecidas do que eu pensava… Porque tu deixaste para trás um tipo cinco estrelas, que te amava, mas fugiste porque és uma cobarde! – tocou no meu ponto fraco… ela sabia que era das piores coisas que me podiam fazer: duvidar da minha força – Foste uma fraca, Adriana!
- Cala a boca, Débora… - fechei os olhos ao mesmo tempo que alimentava os meus pulmões de ar, em respirações ritmadas e vigorosas, de forma a manter a calma
- Porquê? As verdades doem… Foste uma fraca!
- Débora, é melhor calares-te…
- Uma fraca, Adriana… UMA FRACA! – rematou num só grito, que despoletou em mim toda a força e garra que restavam
- SAI DA MINHA CASA, SAI! – ordenei, libertando a fúria que me corria nas veias
- Agora mandas-me embora? Estás cada vez mais cobarde…
- DÉBORA, SAI, JÁ DISSE! – o meu indicador ergueu-se no ar, numa recta inquebrável, que lhe indicou o caminho de saída
- Estão aí… - o barulho de algo a cair sobre o sofá fez-me despertar e abrir os olhos, que até então se encontravam cerrados pelo ardor que sentia – Diverte-te a ver o que dizem sobre ti… Tenho vergonha de algum dia ter chamado de melhor amiga uma fraca como tu!
- Então sai… Sai da minha casa e nunca mais me olhes para a cara! – vociferei, contendo o impulso que me empurrava para segurar as revistas que ela jogara sobre o sofá – SAI!
- Sabes que mais, Adriana…? No final eu até percebi uma coisa… - um sorrisinho cínico adornou a sua boca fina e imediatamente todo o meu corpo se contraiu num impulso de defesa – Tu e o Diogo… Merecessem-se!
As lágrimas tomaram desesperadamente conta de mim, pois apesar dos dias se terem sucedido e as mágoas terem encontrado o seu lugar no meu peito, eu não podia permitir a ninguém que me julgasse e me colocasse ao nível do Diogo, apesar de este ter mudado muito… e muito menos podia permitir que esse ninguém fosse a pessoa, que um dia chamei de melhor amiga.
- Sai, Débora… - ordenei sentindo as forças a escapulirem-se do meu corpo, mas ainda assim tive firmeza para a conduzir até à porta e expulsá-la da minha casa
- Fica bem, Adriana… E agora sem ele… Tenta ser feliz! – a imagem dela desapareceu do meu olhar antes mesmo de eu ter dado conta disso e fiquei ali… remetida ao abandono
Fechei a porta, encostei-me nela e automaticamente o meu corpo aterrou no chão. Havia perdido todas e quaisquer forças, que ainda me restavam depois do arrombo que havia sofrido há um mês atrás quando a minha relação com o David, tinha conhecido o seu fim. As lágrimas precipitaram-se mais uma vez pelas minhas faces e aterraram nas mãos, que as afagavam. Em apenas um mês, perdera o homem da minha vida, fui julgada em praça pública e condenada pela Débora… Era demasiado castigo, mas com certeza que eu o devia merecer depois de ter deixado o David daquela maneira. Aos poucos forcei o meu corpo a erguer-se e caminhei até ao sofá onde Débora deixara aquela pilha de revistas.
“Adriana Vale dá fim ao namoro com o menino bonito do Benfica” - li numa das capas e segurei-a
“A cantora e modelo de 18 anos e o defesa-central do clube encarnado mantinham uma relação de mais de um ano e tudo aponta para que esta chegou ao fim há cerca de um mês. Os jovens que quase viviam juntos tiveram um início de namoro bastante resguardado, sendo que a relação só foi descoberta há 8 meses, quando o casal apareceu pela primeira vez em público no aeroporto de Lisboa, antes da partida do jogador em estágio com a comitiva encarnada. Segundo fontes próxima do casal, foi Adriana que ditou o fim da relação e David “ficou completamente de rastos, pois ele gosta realmente dela… Para ela tudo não passou de uma brincadeira e ele é que saiu magoado. Nunca mais quer voltar a falar com ela, nem manter qualquer tipo de contacto”. A revista contactou o jogador brasileiro e este apenas declarou que “são assuntos pessoais e não irei prestar qualquer declaração acerca do assunto”, já a portuguesa, que se encontra em digressão do outro lado do Atlântico, mostrou-se incontactável até ao fecho da edição, contudo “ela está a ultrapassar muito bem a separação dos dois, pois há já algum tempo que o sentimento por David tinha enfraquecido e o fim tornou-se uma situação inadiável com a qual ela está a lidar muito bem” revelou a mesma fonte. Quanto às motivações do fim do namoro, essas são desconhecidas, mas uma coisa é certa… Entre eles não há mais relação!”
Fui atingida por cada uma daquelas palavras, apesar de saber que a maioria delas devia ser invenção, assim como a autoria daquela “fonte”. Atirei as revistas para o lixo, eu já tinha decidido seguir com a minha vida em frente e era exactamente isso que pretendia fazer, independentemente daquilo que fosse dito na imprensa acerca de mim e do fim da relação que outrora tivera com David. Não quis mais comer… Despejei o copo de leite pelo ralo do lava-loiça e voltei a colocar o pacote de bolachas no mesmo cantinho onde o encontrara. Acabei aquela noite como tantas outras antes… Deitada na minha cama, completamente sozinha e desejando que o dia seguinte não fosse mais dia… Que o meu corpo quente, não tivesse mais vida, que o meu coração parasse de bater, parasse de sentir…
***
(Ruben)
Parecia quase impossível a rapidez com que as férias tinham passado… Ainda há um mês estava num destino paradisíaco do lado daquela, que dentro de alguns meses se iria tornar minha mulher até ao resto da vida, pelo menos eu assim esperava, e agora estava ali… Em Paris, no estágio pré-época depois de mais um treino duro ao comando do mister Jorge Jesus. Seguíamos todos numa caminhada serena em direcção ao hotel para a tão merecida e desejada hora de almoço.
- Fogo, puto… Tô com uma fome! – reclamei enquanto passava a toalha no rosto, no intuito de recolher todas as partículas de suor que ainda humedeciam a minha pele
- Pode crer, manz! Tô com uma fome danada! – o David concordou comigo e poucos segundos depois serviu-se de dois goles de água fresca, que nos havia sido dada há minutos pela equipa técnica do clube
- Só espero que o almoço seja alguma coisa de jeito… Acho que hoje como até cair para trás.
- Não abusa, manz… Olha que depois não se aguenta no treino da tarde! – ambos nos rimos e continuámos o percurso até ao antigo hotel parisiense
- Eu aguento não te preocupes! Não vou aguentar é mais cinco minutos sem comer! – as minhas mãos esfregaram satisfatoriamente a barriga
- Larga de ser esfomeado, pô! – senti a mão do David bofetear-me o topo da cabeça, provocando-me uma dor ligeira
- Oh David, isso é o mesmo que pedir-te para não seres caracoleta! – debochei da cara dele e num movimento rápido despenteei-lhe os cabelos, por si só já embrenhados pela aragem quente que abafava o ar
- Cê anda com umas piadinhas, pô!
- Vá lá, meninos… Deixem-se dessas coisas! – o médico do clube surgiu na nossa retaguarda, mas rapidamente se colocou na frente do grupo, que se reuniu no átrio interior do hotel – Têm meia hora para subir aos quartos, tomar um duche e descer para virem comer!
- Só meia hora, Doutor? – David contrapôs-se imediatamente e todos os nossos colegas quebraram num riso intenso
- Porquê, puto? Não me digas que meia hora não te chega para tratares do ninho de ratos? – a risota impôs-se e até o médico não conseguiu conter-se
- Não diz besteira, seu gordo! Meia hora tá óptimo, já pudemos ir?
- Força, meninos… Não se atrasem! – ele subiu na nossa frente e rapidamente desapareceu pelas portas do elevador, rodeado pelos restantes membros da equipa médica
- Vamos subir, mano? – achei estranho não obter rapidamente uma resposta de David, mas depois de o observar compreendi o porquê
A sua mão viajava pelos caracóis, enquanto o olhar dele permanecia preso em duas mulheres a um canto do hotel, mas a sua atenção estava vidrada numa delas. A loira… Devia ter cerca de um metro e setenta, medidas quase perfeitas, cabelos longos e soltos que lhe batiam um pouco abaixo do meio das costas e envergava roupas que tinham tanto de elegante, como de provocador. Descodifiquei rapidamente o tipo de mulheres que eram… Mas penso que o David não, ou se o tivesse feito, com certeza que os seus gostos relativamente às mulheres e àquilo que o atraia tinham mudado muito.
- Puto! – as costas da minha mão direita embateram violentamente no seu peito e por fim encontrei a tão esperada reacção
- Ai, que é, manz?
- Nem te passe pela cabeça… Olha bem para elas e vais perceber o que são! – alertei erguendo a minha sobrancelha num arco perfeito
- Não me passou nada pela cabeça… Estava só olhando, que eu saiba sou livre!
- És, claro que és, mas vê lá no que te metes, mano… Não são miúdas para ti! – avisei, permitindo ao meu olhar perscrutar a figura daquelas duas mulheres
- Não se preocupa, não tô nem aí para arranjar alguém agora… Tô bem assim, sozinho! – ele sorriu, mas eu já o conhecia suficientemente bem para saber que somente o fazia com os lábios e não com o coração
- Então vá… Vamos tomar banho, senão depois levamos uma descasca do mister!
- Vamo’ nessa, manz!
Não quisemos esperar pelo elevador e tomámos as escadas para subir até ao terceiro andar, onde estavam situados os nossos quartos e para não variar, eu dividia o meu com o David. Desde a separação com Adriana que esta se havia tornado tema tabu entre o grupo de amigos e apesar de ele não o dizer, eu sabia que estava proibido de proferir o nome dela. Ele nunca mais tivera ninguém e desde o seu regresso do Brasil, que se mostrava mais animado, mas eu sabia que o assunto ainda o fazia sofrer muito, apesar de o preferir esconder. Ele abriu a porta da suíte e eu segui-o, mas um barulho proveniente do corredor deteve-me, uma voz… Uma voz familiar… Adriana? Enveredei pelo quarto, guardando aquele timbre harmonioso na minha cabeça… Estaria eu a ficar louco?
***
(Adriana)
- Adriana, anda… Vamos perder o avião! – ordenou a Alice enquanto eu caminhava por entre a multidão de forma a conseguir aproximar-me do local de embarque, juntamente com os seguranças que me rodeavam
O aeroporto de Praga estava alotado de gente. Uma parafernália de línguas, de pessoas e culturas, dominava toda a atmosfera e empilhava-se na zona de embarque, pois devido a um imprevisto os aviões tinham sido proibidos de levantar voo no tempo previsto e já contavam todos com uma hora de atraso. Tinha dado um concerto há cerca de 12 horas na capital da República Checa e a loucura entre os fãs tinha sido abominavelmente surpreendente. O Verão estava quase no fim, já tinha viajado e dado concertos por quase toda a Europa e restava-me fechar com chave de ouro em Paris dali a dois dias. Em Madrid tinha-me encontrado com Paulinha e Roberto há sensivelmente um mês e ficou prometido encontrarmo-nos na capital francesa, pois era lá, que a equipa encarnada iria fazer o seu estágio pré-época. Nunca mais chorara por causa de David… Agora era só eu e o trabalho. Era para ele que vivia, para ele que respirava, para ele que acordava todas as manhãs, cheia de força para encarar o mundo.
- Finalmente… - cheguei perto de Alice e esta deu-me a mão, de forma a não nos separarmos mais
- Vamos, vamos… Não pudemos perder este avião! – senti um puxão, que se iniciou na minha mão e culminou no meu ombro, arrastando consigo todo o meu tronco, atrás da figura alta e esguia da minha agente, que foi caminhando em jeito de zig-zag para ultrapassar as pessoas na fila.
Não sei como ela o conseguiu, mas verdade seja dita, que em menos de dois minutos já havíamos mostrado os bilhetes e embarcado no avião comercial com destino a Paris.
“Senhores passageiros, por favor coloquem os cintos pois dentro de minutos o avião irá iniciar o voo com destino a Paris. Desejamos a todos uma excelente viagem na nossa companhia!” – a voz simpática da hospedeira ressoou por todos os compartimentos e classes do avião
Era a hora… Hora de enfrentar um destino que me havia sido prometido meses antes numa aposta com David. Podia recordar como se fosse hoje… Nós dois a filmarmos aquela brincadeira tola junto ao rio Tejo e a sua voz doce e meiga jurando-me que naquele Verão visitaríamos Paris… Juntos! E no entanto quem poderia adivinhar que apenas algum tempo depois iriamos de facto pisar solo francês, os dois, ao mesmo tempo, mas separados… Apesar de ter sido forçada a ressuscitar aquela lembrança, esta não conseguiu fazer com que eu chorasse, como outrora teria feito. Lembro-me de ter sentido o avião decolar da pista e depois disso um mar de escuridão, porque provavelmente devo ter adormecido.
“Senhores passageiros, coloquem os cintos de segurança pois o avião vai dar entrada na pista. Bem-vindos a Paris e obrigada por terem viajado na nossa companhia” – depois de dois meses inteiros a viajar aquela voz já se havia tornado mais familiar do que o meu próprio timbre
Pouco depois bem clara na minha frente surgiu a imagem da minha belíssima Paris. Consegui distinguir, ainda que por entre a espessa camada de nuvens que preenchiam o céu aqui ou ali, alguns dos locais mais emblemáticos da cidade. Imponente em toda a sua altura, a grandiosa Torre Eiffel; depois Le Champs-Élysées, encimados pelo perfeitamente arquitectónico Arco do Triunfo… E entre essas três grandes referências da capital francesa, muitos outros edifícios se conseguiam distinguir e cada um mais maravilhoso que o outro, tanto em história, como arquitectura e até mesmo misticidade. Era Paris… A maravilhosa cidade de Paris em todo o seu esplendor! Era a cidade dos sonhos, a cidade do amor e nem eu sabia a quantidade de surpresas que ainda me esperavam naqueles dois dias…
- Mademoiselle, où je peux laisser vos sacs? – questionou-me o simpático empregado do Hotel, que envergava uma farda de um azul enfadonho, enquanto suportava nas suas mãos o peso das minhas duas malas
- Alors, s'il vous plaît! – ordenei num francês perfeito, apontado com o indicador um pequeno recanto da suíte que me estava destinada
- Vous aurez besoin d'autre chose?
- Non, merci… C'est tout, monsieur! – sorri-lhe discretamente e segurei a minha carteira na mão, de onde tirei uma nota de avultada quantia e entreguei-lha como forma de agradecimento
- Merci! Si vous besoin de quelque chose il suffit d'appeler ... Excusez-moi! – de forma educada retirou-se , deixando-me remetida ao silêncio daquelas quatro paredes
A aparência austera do quarto não me conferia qualquer conforto, apesar de ter embutido nas suas paredes o tradicional encanto parisiense…Dava-me a sensação que cada pedaço de papel de parede, cada retalho de tecido, cada cheiro das velas levemente perfumadas, eram partes constituintes da história maravilhosa daquela cidade e das pessoas que um dia ali haviam passado. A cama imponente, era adornada por um dossel branco e fluido, que tocava o chão devido ao seu comprimento. A mobília branca, possuía uns arrebites em dourado, que emoldurados pelas leves pinturas, feitas à mão, no canto de cada gaveta e porta, lhe conferiam um ar campestre e rapidamente nos sentíamos na época da corte de Luís XIV, onde o rococó era o estilo decorativo dominante. As portadas duplas de acesso à varanda tinham um ar extremamente convidativo para quem quisesse espreitar a paisagem, que se estendia sobre a linha do horizonte, e foi isso mesmo que acabei por fazer. Abri uma brecha entre as duas portas e acerquei-me do beiral da varanda. A vista era belíssima e o ar quente que corria contrastante com a época do ano, trazia às minhas faces uma sensação de calor aprazível e muito agradável. Não sei quanto tempo ali fiquei… Mas recordo com precisa exactidão que o meu olhar corria sobre o rio Sena, quando umas vozes de certo modo familiares, interromperam a minha contemplação. Olhei para baixo e observei um grupo de homens jovens… Todos eles de boa estatura física, fina estampa, pelo aspecto diria que mesmo desportistas. Mas… Não, não podia ser, era muito azar junto. Clareei a visão, obrigando-a a focar melhor aquelas pessoas e pouco a pouco comecei a reconhecê-los… Javi, Aimar, Luisão, Ruben, Saviola, Salvio e… Sim, era ele (!), David… Aquela farta cabeleira não deixava margem para dúvidas. Mas teria eu tanto azar assim ao ponto de ter ido parar ao mesmo hotel que eles? Rapidamente me recolhi aos meus aposentos e selei aquelas portas, como se fossem os portais do céu, resguardando o medo que eu tanto tinha e procurava esconder… O medo de o encontrar, o medo de o encarar. Dei círculos sobre mim mesma, palmilhando cada tábua do soalho de carvalho, que revestia o chão da suite. Procurava soluções, buscava respostas e implorava por um milagre… Sem pensar em mais nada abandonei aquele espaço num passo que tinha tanto de acelerado como de desesperado, tendo como destino um dos quartos do fundo do corredor, onde se encontrava Alice… Mas o meu corpo embateu contra algo. Um corpo forte, bem constituído, alto… Que eu reconheceria em qualquer lugar, fosse como fosse, até mesmo de olhos fechados.
- Adriana? – os seus olhos espantados por me ver vidraram nos meus e senti-me mirrar, ficar pequenina, quase minúscula na frente dele
Era precisar ter azar, de facto… Mas assim tanto de uma só vez?
Antes demais quero pedir desculpa pela demora em postar o capítulo, mas apesar de estar em tempos de férias, nem sempre o tempo livre é muito. Depois quero aproveitar para avisar que irei entrar de férias até princípios de Setembro e por essas razões os capítulos não serão tão frequentes, mas espero ainda assim conseguir postar qualquer coisinha de vez em quando! :)
Aproveito também para agradecer o avultado número de comentários que me têm deixado nos últimos capítulos, é muito importante receber todo esse apoio! :)
Por isso aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem e não se esqueçam de continuar a aumentar o número de comentários à história!
Beijinhos a todas as minhas queridas leitoras! :)
Drii ♥
P.s - A quem procurou saber, a nova música do blog chama-se "Good Life - One Republic" :)

25 comentários:
Amor da melhor amiga, o cap está lindo! +.+
fico tão orgulhosa a ler isto! :$:$:$
amo-te muito princesa! para sempre! <3<3<3
Aaaaai Dri , é tão lindo . Eu fico que nem uma maluquinha abrindo toda hora a página do seu blog pra ver se tu já postou :$
Quero esses dois juntinhos amor , rum !
Quero mais rapidinho tá ?
Beijos Minha Linda s2
adorei...
quero mais...
continua...
P.s.do dia 11 ate 21 nao vou poder ler nem comentar a tua fic, vou de viagem para madrid, mas quando voltar comento...
Mas tu tinhas mesmo de acabar assim o capitulo...
Que ansiedade!!!
Lindo, fantástico como sempre!!!
Quero mais urgentemente ;)
Beijinhos.
Ai minha querida, aquela Débora eu acho que se a apanhasse na rua lhe dava outra bofetada mas eu no fundo percebo a adriana. A Débora não tinha o direito de fazer o que fez.
Estou tão ansiosa pelo próximo capítulo, diz-me por favor que em Paris algo os vai juntar minha querida, diz-me que os nossos meninos vão ficar bem
Beijinhos e boas férias
va la eu quero os dois rapidooo juntos :c
amo a historia
Acho que nao vou aguentar senao postares bem depressa o proximo capitulo XD
Estou a morrer de curiosidade para saber o que vai acontecer com aqueles dois agora que se reecontraram ...
Posta depressa sim =P
Fico à espera do proximo!
Bjs
Ai driii, não se pode acabar assim um capítulo matas uma pessoa.
Quero mais!
Qual é a música do blog?
lindo, fantástico como sempre!
continua...
:)
Aii, o menino David que nem pense em meter-se com aquelas mulheres! :O
Está lindo, mas quero-os juntos rapidinho (:
Beijinhos
isto assim já nao se aguenta, mas mais uma vez o destino assim quis, e o david e a adriana encontrara-se mais uma vez e espero que a coisa nao fique ainda mais preta! :b
quero mais, sim minha linda? tá lindo lindo! :D :D
Fico à espera do proximo!
beijinhos
Como sempre...adorooooo!
Espero ansiosa pelo próximo capítulo
Beijinhos!!
Oieeeeeeeeeee (:
LINDO :D eles tem de se entender :b junta-os : rapidinho , sim ? :)
Quero mais *_*
Beijinhos*
Está lindo, mas realmente é preciso ter azar...
Continua minha querida, cada vez amo mais ler os teus capítulos *_*
Beijinhos :)
Muito fixe.. o video do inicio é a Jenna do Vampire diaries.. Continua o bom trabalho! :D
Está tão lindo!
Espero que eles finalmente se acertem na cidade do amor!
BJS
Driii, o próximo rápido please :)
Adoro, adoro, adoro!
Continua!
Beijinhos linda
Acho que não vale a pena esperar até ao casamento do Rúben.. Estão os dois na cidade do amor, tal como tinha combinado meses antes, o David está mais calmo... Não vejo o motivo de não voltarem...
Drii posta rapidinho, sim?
Ai que lindo!
Amei, coisa mais linda!
Amo isto!
Grande vicio!
Quero mais rapidissimo!
Beijinhos
Lindoo. Tens de juntá-los na cidade do amor :p
Posta rapidinho, estou a adorar :)
(aaaaaaaaaaaaaa) Quero mais e logo Adriana !
perfeito. tenta postar o mais rápido possível. beijinhos
E tu acabas assim o capítulo???
Agora quero a continuação...
Linda, a tua escrita está cada vez melhor :)
Adoro tudo o que escreves.
Beijocas
Por mais voltas que deem, contra o destino não há nada a fazer,o menino David não tinha uma aposta para pagar?do que é que ele tá à espera?Já lá estão os dois na cidade do amor, era uma boa altura para fazerem as pazes,eles merecem.Dizer que adorei é dizer pouco,começamos a ler e não queremos mais parar,mas tenho que fazer uma reclamação, isto não é maneira de se acabar um capitulo, ia eu embalada na leitura e derrepente acaba-se,ai,ai,ai,isso não se faz.
Tens um talento enorme, espero que nunca te esqueças disso, continua a escrever porque eu sou mais uma das que adora o que escreves.
Beijos
Fernanda
Adoro a tua fic... posso mesmo dizer que estou viciada, pois estou sempre a abrir o blog a procura de um novo capitulo.
estou super curiosa para saber como vai correr o reencontro entre os dois... espero que fiquem bem, é tao triste ver a dor dos dois...
beijinhos!!
P.S. escreves super bem!!!! =)
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