sábado, 3 de dezembro de 2011

Capítulo 113 - Coração desarrumado (Parte II)

P.s - Por aviso de uma leitora, apercebi-me que a segunda parte do capítulo 113 havia sido apagada, sem eu sequer me aperceber. Por isso aqui a reponho, apesar de ficar fora da ordem do blogue! A todas as outras leitoras, peço desculpa por qualquer incómodo que possa causa, beijinhos :)



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O tempo apagou as feridas que se haviam restabelecido no meu coração… Se dissesse que não relembrava David tão frequentemente como aquilo que gostaria, estaria a mentir com todo o meu ser, mas no entanto as recordações não eram suficientes para me autodestruírem. Afinal de contas o mês de Agosto findara-se e um novo ciclo tinha tido o seu maravilhoso início há coisa de três dias. Acerca dele nada mais sabia do que aquilo que encabeçava as manchetes dos jornais, mas substancialmente estas falavam do Benfica e o início de época desastroso que estavam a ter e acerca dele somente lera uma coluna de críticas, que maltratara o trabalho que tinha vindo a desenvolver… Falavam de um David “diferente”, imaturo dentro das quatro linhas, impulsivo frente ao adversário e que já tinha oferecido inúmeros golos aos opositores. Fiquei preocupada… Não tanto por ele, mas pela equipa do meu coração e todos os outros rapazes que sabia estarem desmoralizados com um início de competição tão atribulado.
Já eu, isolei-me durante uma semana em terras espanholas… Mais especificamente em Madrid, onde me dediquei somente a uns dias de lazer e cultura, que disfrutei a meu belo favor, tendo em conta que o segundo ano de faculdade se aproximava a uma velocidade furiosa e ameaçava ser implacável, levando-me aos extremos do desgaste físico e psicológico.
Por isso foi tempo de repor energias, recarregar as baterias e depois de confirmar o armazenamento, seguir viagem rumo ao meu obsoleto e entediante dia-a-dia.

- Bom dia, filha… - a minha mãe beijou-me as faces meigamente, mostrando um enorme sorriso de felicidade, símbolo do sentimento aprazível de que era alvo por me ter como sua companhia em casa há já uns dias… o que não era de todo habitual nos últimos tempos desde que saíra de casa
- Bom dia, mãe linda! – afirmei com a mesma confiança de alegria na voz, beijando-lhe o topo da cabeça e tomando lugar na enorme mesa de pequeno-almoço que ela tinha preparada para nós
- Acordaste cedo, meu amor… - constatou derramando no meu copo o já habitual café, que eu fiz questão de complementar com uns quantos pingos de leite frio, retirado directamente do frigorífico
- Sim… Ainda tentei adormecer de novo, mas andava às voltas na cama, por isso resolvi levantar-me! – gracejei, estendendo o meu corpo sobre a mesa, de forma a alcançar o pratinho das torradas
- Hum… Às voltas na cama? – inquiriu, deixando transparecer no seu olhar a típica preocupação que eu tão bem lhe conhecia e decifrava apenas com um toque – Alguma coisa a atormentar essa cabecinha?
- Não… Apenas muitas coisas para tratar antes que as aulas comecem… - esclareci, enquanto a minha mão barrava na torrada de pão integral, uma porção generosa de geleia de framboesas - uma das minhas preferidas – e prossegui com o discurso – Tenho de ir encomendar os livros… Arrumar aquele escritório lá de casa que anda numa bagunça, dar uma boa limpeza na casa e se ainda tiver tempo passar pelo atelier do João Rôlo, para ver se ele já tem algum esboço para eu usar no casamento do Ruben… Como vês tarefas não me faltam!
- Tens de abrandar esse ritmo… Daqui a nada estás pronta para ir de férias de novo, Adriana! – relembrou-me num tom assertivo e cortês os cuidados a ter para preservar a minha saúde física e mental
- Não se preocupe, mãe… Já sou crescidinha! – recordei, mastigando ainda a primeira dentada que dera na torrada adocicada pela compota de aroma frutado
- Se quiseres posso ir encomendar os livros por ti… Dá-me a lista, que eu trato disso!
- A mãe tem de ir para o emprego… Não lhe quero dar trabalho! – discordei, pairando a caneca de café fumegante junto do meu nariz e sentindo-lhe o meigo aroma da nostalgia que sentia de casa… da casa onde vivera a minha infância e onde agora me encontrava
- Não dás trabalho nenhum… Além disso ainda estou de férias e só preciso de passar lá no emprego para assinar uns papéis, posso perfeitamente tratar-te disso!
- Hum… Sendo assim talvez aceite! – acabei por ceder, pois por muito que me custasse admitir aquela oferta iria aliviar em muito todas as alíneas da minha agenda para aquele preenchido dia
- Aceitas e não se fala mais nisso! E quanto a essas arrumações e limpezas também não me importo de dar uma mãozinha… - sugeriu, pousando em cima da mesa o guardanapo de pano que até então lhe resguardara o colo
- Não! Isso é que eu já não posso aceitar, mãe…
- Que raio de ideia é essa, Adriana? Posso perfeitamente ajudar-te… Também não deves ter a casa assim tão desarrumada! – anuiu, deixando que uma expressão pacificamente maternal lhe assomasse as feições
- Não… Não está assim tão desarrumada, mas a mãe já tem as suas coisas para cuidar e eu posso perfeitamente desenrascar-me!
- Oh Adriana, olha que as horas a menos de sono fizeram-te de mal… Sou tua mãe, é óbvio que te irei ajudar! – pelo seu tom expressivo e vocacionado, compreendi que de nada adiantaria contrariá-la, pois seria o mesmo que lutar em punhos contra uma parede… sabendo que jamais iria sair vencedora!
- Pronto… Mas também não é preciso nada demais! Limpar o pó, abrir as janelas, trocar a roupa das camas e está feito! Depois do escritório cuido eu… - informei, deixando que pela minha garganta rouca passasse uma boa dose de café com leite, que me aqueceu a alma e amenizou o desconforto do meu estômago – E não se fala mais nisso! – ripostei erguendo no ar o indicador, no mesmo instante em que senti que ela iria revogar a minha decisão
- Essa tua teimosia… - indagou, mantendo-me debaixo de um olhar forçosamente ameaçador e preparando-se para proferir a típica frase associada àquele defeito – Sais mesmo ao…
- … meu pai! – rematei, abrindo espaço para que ambas soltássemos umas breves e despojadas gargalhadas, que nos eclodiram do fundo da alma -  Já sei… A mãe já tinha dito!
- E então… Se eu te ajudo nisso tudo e faço a encomenda já só precisas de te preocupar com o vestido de madrinha…
- Sim… Pelo menos o João disse-me que por esta altura já teria qualquer coisa para eu ver, por isso não custa passar por lá! – murmurei, enquanto transpunha nos meus lábios timbrados de um rosa leve, o guardanapo de linho branco
- Fazes bem… Eu ainda não sei o que escolher para levar e estamos a dois meses do casamento!
- Se a mãe quiser eu levo-a lá e ele faz-lhe qualquer coisa… - sugeri no mesmo instante em que senti o desconforto prescrever-lhe cada palavra de insegurança e dúvida relativamente ao fato que deveria levar
- Oh filha… Isso é bom para ti que tens um corpinho jovem e uma carinha de menina e tudo te assenta bem, agora eu não… Prefiro coisas mais resguardadas! – vi-me obrigada a ceder-lhe a razão e mais uma vez nos rendemos a um riso freneticamente reconfortante – E então… Nunca mais estiveste com o Ruben desde Paris?
- Não… Falei no outro dia por telefone com a Inês sobre o casamento, e claro que ela está uma pilha de nervos, mas tirando isso… mais nada! Nunca mais nos vimos, sequer… - relembrei pesarosamente o facto de não ver o meu melhor amigo há duas semanas e um aperto sucumbiu rapidamente o lado esquerdo do meu peito, suprimindo-me os batimentos cardíacos
- Isso não é normal em vocês… Aconteceu alguma coisa em Paris? Discutiram? – aquele coraçãozinho de mãe era mais astuto do que o que eu esperava e deslindava-me com franqueza todos os segredos escondidos
- Não, mãe… Que disparate! Raramente me vê discutir com o Ruben, diria até que quase nunca!
- Então… Alguma coisa aconteceu para não se falarem! – reivindicou, mantendo no rosto a expressão ávida de sabedoria que tão bem a qualificava – Vocês não aguentam dois dias sem pelo menos trocarem uma mensagem…
- Oh mãe, as pessoas mudam… Eu já não sou aquela miudinha e o Ruben é um homem, prestes a casar-se! – relembrei, recorrendo a factos fustigados pelo tempo para justificar algo que só encontrava a sua explicação numa longa omissão à minha mãe – Ele anda ocupado com as coisas do casamento… É normal que não nos falemos tantas vezes!
- Para mim não é normal, pois sei que vocês são quase como irmãos um para o outro… Não é normal ficarem sem se falar tanto tempo, mas se preferes não falar eu respeito isso, meu amor… - senti os seus dedos passarem de fino modo nas bochechas da minha face, tentando amenizar a pequenina dor pelejante, que adivinhava em meus olhos um meigo rastilho de lágrimas
- Bem… Vou então vestir-me para passar pelo atelier e ver como estão as coisas relativamente ao meu vestido… - decidi-me, pousando o guardanapo sobre a mesa e erguendo-me da cadeira a fim de beijar mais uma vez a pele predisposta da cabeça da minha mãe, afastando-lhe a franja do rosto
- Tu não comeste nada de jeito, Adriana... Come mais qualquer coisa e depois vais! – pela terceira vez consecutiva voltou a alertar-me para a minha alimentação no preciso momento em que tomei passadas livres no corredor, mas desta vez nem me obriguei a encará-la, erguendo somente o braço no ar para que esta soubesse que me importava com toda aquela preocupação de mãe

Entrei no meu antigo quarto e tal como todas as outras vezes em que o fazia, uma enxurrada de lembranças da infância doce que havia tido, avivou-se na minha memória forçando-me a exibir um sorriso.
Então era aquela a sensação de estar em casa… De me sentir rodeada da família que me amava, de recordar as memórias ternas de tempos passados, de sentir no ar todos os cheiros que me inebriavam os sentidos e de encontrar em cada objecto uma nova visão desarmada, que me obrigava a enxergá-lo com outros olhos e mais atentamente, até descobrir a fulcral função que outrora haviam ocupado na minha meninice. Foi então com esse sorriso, que me dirigi à casa de banho e me entreguei nas malhas de mais um relaxante duche, porém curto, pois um dia repleto de afazeres aguardava-me. Sequei os cabelos e prendi-os num coque, de forma evitar as habituais demandas com o seu volume e ondulação cerrada. No rosto passei um pouco de pó translúcido e blush, e nos lábios um bálsamo hidratante que ainda se esforçava por recuperar a maciez dos meus lábios, fortemente agredida pelo sol daquele Verão.



- Mãe? – a falange do meu indicador embateu ritmadamente na porta do quarto dos meus pais e a cabeça pendeu para o interior do mesmo, observando a minha progenitora que se maquilhava na frente do espelho – Estou de saída…
- Já te arranjaste? – inquiriu, não descolando o olhar do espelho do tocador por um singelo segundo
- Sim, mãe… Estou pronta pra sair, mas não devo demorar muito! – elucidei, mantendo no corpo a postura de mulher, que ocupava o meu novo estatuto de maioridade, dando-me o titulo de senhora e dona de mim mesma
- Eu também vou sair para passar no emprego e ir encomendar os livros…
- Precisa de boleia? – questionei-a, erguendo no ar as chaves do Q7 que me havia sido oferecido por David há quase um ano, na data do meu décimo oitavo aniversário
- Não, minha filha… Tenho o meu carro lá em baixo e assim não nos empatamos uma à outra! – agradeceu a oferta com um cordial e modesto sorriso, que era facilmente realçado pelo batom coral que lhe preenchia os lábios, de forma semelhante à que eu tinha herdado – Mas já sabes… Conduz com cuidado e nada de pressas!
- Sim… Não se preocupe, mãe! Qualquer coisa que precise, eu levo o telemóvel comigo, é só ligar… - informei, confirmando que o mesmo se encontrava na bolsinha exterior da mala camel, que pendia no meu braço esquerdo  
- Tu a mesma coisa… Mais logo passo lá por casa para te ajudar!
- E então o pai…? Não vem jantar?
- Não… Ele hoje trabalha até mais tarde e mesmo que eu não esteja cá ele logo se desenrasca e prepara qualquer coisa pra ele! – os seus ombros encolheram-se num único movimento enérgico que lhe prendeu os braços juntos do corpo
- Sendo assim espero-a por volta das seis e meia, pode ser?
- Claro, meu amor… Eu levo o jantar para nós! Juízo! – ripostou, desviando então pela primeira vez o olhar na minha direcção e sorrindo ao perscrutar toda a minha figura de então já mulher feita
- Obrigada, mamã linda! – aproximei-me numa leve corrida para lhe beijar o rosto e nessa mesma rapidez abandonei o quarto, gritando só quando já tinha fechado a porta – Até mais logoooo!
“Rádio Renascença, todos os sucessos e a melhor informação!” – o tilintar fervoroso proveniente da estação da rádio, inundou o meu veículo, enquanto ainda me encontrava no acesso aos viadutos que davam entrada no centro de Lisboa – “Bem-vindo às manhãs da renascença! Parece que o sol decidiu brindar-nos em mais um dia de fim de Verão que promete estender-se assim de norte a sul do país até ao final da semana…”
- Eu bem disse que isto era “sol de pouca dura”… - indaguei metaforicamente, esperando que a meteorologia estivesse errada e os bons dias de calor ainda se arrastassem até princípios de Outubro
“Um acidente na 2ª circular atrasou todo o trânsito na via de acesso à capital portuguesa e há já duas horas que os bombeiros e polícia tomam conta da ocorrência, esperando que tudo se resolva rapidamente! Também a norte, um acidente no IC…” – quando não estava mais disposta a ouvir as aborrecidas e maçadoras notícias matutinas, pressionei um dos muitos botões do tablier e esse sintonizou uma frequência rapidamente – “Cidade FM, música à tua medida!”
- … Could have had it all, rolling in the deep, you had my heart inside of your hand, but you played it with a beating… - assim que reconheci na rádio a voz inconfundível de uma das minhas cantoras preferidas, não me coibi de entrar na onda descontraída, mesmo que isso fosse sinónimo de servir de alvo dos olhares indiscretos das pessoas que se encontravam nos carros ao lado
Olhei-os instintivamente, espicaçando-os com um simples mirar malévolo, que obrigou os transeuntes a focaram-se novamente na estrada, esperando que a cor do sinal mudasse. Logo que este se tingiu de verde parti em direcção a um cruzamento, no intuito de contornar à esquerda, fugindo assim do trânsito causado pelo acidente na segunda circular. A paz habitual do meu início de dia foi inesperadamente abalada pelo singular toque do meu telemóvel, mas dei graças por o puder atender em altifalante.
- Estou sim, bom dia? – atendi o telefonema tão formalmente quanto me foi possível, pois na verdade nem tive tempo suficiente para ver de quem se tratava
- Hello, hello, beautiful girl! – aquele timbre familiar, ressaltou no meu bem-aventurado coração
- Didi? – inquiri, mesmo sabendo que aquela voz pertencia a Diogo e que o indicativo telefónico registado no ecrã me remetia para a cidade das luzes, do outro lado do Atlântico – Seja bem aparecido, nunca mais disseste nada!
- É verdade, é verdade… Estou em dívida para contigo, mas agora as coisas acalmaram por estes lados e prometo que vou dando mais notícias! – eram muitas as promessas que lhe conhecia e que facilmente haviam sido desfeitas, mas pela primeira vez na vida acreditei derradeiramente na sua palavra de homem feito – Mas diz-me… Como estás? Como vão as coisas por aí? Como foram as férias?
- Eu estou bem, as coisas estão mais ou menos atribuladas com o regresso às aulas e o casamento do Ruben daqui a dois meses, mas graças a Deus tive umas férias fantásticas que me recarregaram as baterias ao máximo… - discursei, mantendo-me atenta ao carro que circulava à minha esquerda a uma velocidade claramente inferior à minha, o que me delimitou um pouco as manobras – E tu como estás aí em Nova Iorque?
- Bem… Estou a adorar a experiência e talvez fique cá por mais uns tempos, só volto às aulas quando estas levarem um mês de avanço! – informou-me, numa voz serena e pacífica, que me faziam adivinhar a lividez das suas expressões – Sim, sim, já sei que vais dizer que sou um baldas, mas… Nova Iorque, é Nova Iorque!
- E és um baldas, Diogo! Mas como eu te compreendo… Dava tudo para estar aí durante uns tempos! Pelo menos aí não existem caras familiares para nos perseguirem! – desabafei ao mesmo tempo, que a minha memória se alumiou de recordações saudosistas relativamente ao grande amor da minha vida, porque apesar de não o ver há já algum tempo, as imagens dele em cada capa de jornal ou revista, fazia ressaltar o sentimento que ainda estava bem vivo dentro de mim… no único órgão vital que ainda me fazia acreditar que estava realmente viva
- Tens bom remédio… Vem pra cá, terei todo o gosto em ter companhia nesta jornada maravilhosa! – pelo seu tom animado, imaginei o sorriso belíssimo que lhe devia delinear os lábios naquele mesmo instante
- Sabes que não posso… Tenho a faculdade que começa dentro de umas semanitas, mas fica para uma próxima! Obrigada… - agradeci educadamente toda a sua cortesia ao expor o tentador, mas porém recusável convite
- Não tens nada que agradecer, seria com todo o gosto, mas já que não podes, ficará com certeza para uma próxima! – uns esporádicos segundos de silêncio, que se instalavam amiúde nas nossas conversas, foram quebrados pela impenetrável e temível voz de Diogo – E… Novidades, há algo que eu possa saber?
- Hum… Creio que não… Graças a Deus está tudo pacífico!
- E como ficou aquela situação em Paris? Chegaste a encontrar-te com o Ruben naquele dia para o cafezinho? – recordei com nostalgia o passeio que eu e Diogo déramos nas margens do Sena, acompanhados pela inabalável harmonia que imperava na capital francesa – Ou não queres falar sobre isso?
- Hum… É incrível como tens uma tacada perfeita para este tipo de situações… - murmurei tentando conter a gargalhada de satisfação que ameaçava irromper dali a poucos instantes
- Se não quiseres, não tens de falar… - relembrou atenciosamente, naquela sonância meiga e muito pouco evasiva
- Não é isso… Mas é que não falamos desde aí, e mal o fazemos vais direitinho ao ponto que interessa, sem sequer saberes de nada! – constatei a cumplicidade que possivelmente ainda nos unia e foi somente o bastante para todo o meu corpo se arrepiar, expandindo nas suas extremidades os tremores adjacentes – Eu de facto fui ter com ele para o tal café…
- E…? – a sua voz arrastada, deu-me a indicação necessária para seguir com o discurso palpável de emoção, pois o beijo que partilhara na boca do meu doce David, ainda recordava facilmente nos meus lábios, levando-me ao máximo dos sentimentos
- E que acabei por não tomar café nenhum com ele, porque tive um pequeno… “imprevisto” vá, chamemos-lhe assim! – proferi com a ironia traçada na voz, permitindo ao meu rosto que dissipasse o sofrimento de ter visto tal acontecimento adiado por tempo indefinido
- Um imprevisto? – questionou, admitindo-me sentir na sua voz aquele laivo de curiosidade que caracteriza um menino pequeno, quando algo não lhe é suficientemente perceptível, ou então do seu conhecimento geral
- Sim… Um imprevisto…
- Hum… E esse imprevisto não se chama David, por acaso?
Bingo! “Como é que ele ainda detinha aquela capacidade?”, questionei vezes e vezes sem conta a mim mesma, ainda embalada pela perplexidade da amizade que até então partilhávamos e plenamente ciente de que jamais iria ser capaz de regressar aos seus braços, mas que pelo menos havia encontrado ali um amigo… dos verdadeiros e inquestionáveis.
- Hum… Por acaso até se chama!
- Aconteceu alguma coisa… Ele magoou-te? – foi aquele timbre indubitavelmente apoquentado que fez despoletar em mim o à vontade necessário para lhe confessar o segredo mais íntimo dos últimos tempos… todos os acontecimentos de Paris, que não tinha revelado a quase ninguém
- Não… Ele não me magoou! Quer dizer… - hesitei, perante as palavras que David proferira mesmo sem saber da minha presença e essas irromperam no meu peito levando-me a reconsiderar - … se o fez foi indirectamente!
- Ãh? Oh Adriana, não estou a perceber nada do que estás para aí a dizer…
- Ele disse algo que me magoou, mas no entanto não mo disse a mim… Eu é que escutei mais do que devia, Didi… - sabia que uma vez dado o primeiro passo naquela conversa, seria impossível recuar e deixar a meio uma narrativa, que Diogo queria dominar por inteiro
- Então conta-me tudo! – solicitou, sentindo no seu corpo a adrenalina de uma história que não era a dele, mas cuja uma das personagens principais lhe era extremamente querida…eu!
- Não há assim tanto pra contar… - esclareci, tentando não criar expectativas numa crónica que havia tido um desfecho muito pouco favorável para o meu frágil e afável coração – Depois de nos termos despedido no hotel segui para ir ter com o Ruben… Ele foi buscar as coisas ao balneário, mas para variar acabou por tomar banho e demorou uma hora! – recordei num breve revirar de olhos, que não se deteve no entanto da imagem dos carros posteriores à minha faixa de condução – Antes dele saiu o David, meteu conversa e o meu segurança foi-se embora de uma maneira nada discreta. A partir daí o inevitável aconteceu…
- Fizeram as pazes? – questionou numa exaltação da felicidade que pensava puder partilhar comigo, mas infelizmente a situação era bastante diferente da idealizada
- Não, Diogo… Ele beijou-me, mas assim que o Ruben finalmente apareceu, eu não sei que me deu e disse que o café ficava para outro dia! Desapareci com o rabinho entre as pernas!
- Oh Adriana… Porque raio foste fazer isso?
- Sei lá… Por medo que ele repetisse o gesto monstruoso do Colombo, sinceramente não sei, mas senti necessidade de me contrair daquele momento e fugir foi o melhor remédio!
- E nunca mais o viste? – inquiriu, talvez sentido uma faísca de esperança ainda acesa, pronta a atear-se em labaredas dispostas a consumir aquela história
- Vi… Quando voltei ao hotel no dia seguinte depois do concerto ele estava à minha espera à porta da minha suíte! – narrei, recordando todos os momentos daquela noite ao passarem como flashes na frente dos meus olhos – Queria falar, mas eu estava cansada e prometi que iria ter com ele na manhã seguinte para falarmos…
- E foste, Adriana?
- Fui… Mas ouvi uma conversa dele com o Ruben, a dizer que nunca ia conseguir confiar em mim de novo e por isso mesmo resolvi que era melhor não acarretar mais esperanças e vim-me embora… - informei com pesar, sentindo um pedregulho de culpa comprimir-me o peito, sufocando-me as vias respiratórias
- Tu vieste-te embora depois de lhe teres prometido uma conversa? – perguntou de forma chocada, sabendo que as suas palavras seguintes me iriam atingir que nem um torpedo, chamando-me a uma realidade que até então nem sequer me havia passado pela cabeça
- Vim… - ciciei num murmúrio cruel, que foi o mais honesto retrato da minha falta de expressão e indolência
- Tens noção que o voltaste a deixar… Hum? – as lágrimas despoletaram em meus olhos a uma velocidade atordoadoramente anestesiante, espicaçando-me a visão com um ardor desmedido e desconfortável, que me conturbava a visão – Voltaste a deixá-lo tal e qual como naquela manhã em que deixaste a carta e foste embora, Adriana…
- Eu juro… Eu juro que… - tentei falar, mas somente um soluçar aflitivo dominou os meus lábios, forçando-me a cerrá-los de forma a controlar o impulsionar bombeante que o meu peito teimava em ditar
- Acho que enterraste qualquer possibilidade de reconciliação que pudesse existir… - opinou de feição certeira, detendo a perfeita capacidade para compreender o lado oposto… aquele que não me pertencia e com o qual não me tinha preocupado no momento em que apanhei o avião de resgate para a minha cidade-natal
- Diogo, por favor… - supliquei tentando disfarçar ao máximo o choro compulsivo que se tinha instaurado, dando sinais de ter chegado sem passagem de regresso marcada
- Agora não adianta de muito chorares… Ele pode ter dito o que disse e até compreendo o teu lado, mas devias ter ficado lá… Devias ter falado com ele!
- Não consegui, Diogo… Eu não consegui… - confirmei a mim mesma, um dos meus piores defeitos – a cobardia – que havia tirado o melhor proveito de toda a situação
Sempre me tinha perseguido… Desde muito cedo que a conhecera e lhe tomara o gosto, mas tornava-se difícil repeli-la, diria até mesmo que impossível, quando a vida me forçava a trapear caminhos, quando me arrastava para vales desconhecidos e me obrigava a enfrentar a dor… Uma dor como nunca antes conhecera.
E tantas e tantas vezes desejei apagar aquela falta de coragem da minha vida - de mim e do meu ser - mas era-me sempre inevitável adiá-lo… porque me convinha, porque me dava jeito e porque era nela que encontrava os melhores refúgios para as situações que considerava serem de perigo.
E foi essa mesma cobardia que há meses atrás me levara a escrever aquela carta e partir… Foi essa mesma cobardia que não me deixou traçar planos do lado de David, mesmo que este se encontrasse longe, conduzindo-me pela forma mais fácil de sobrevivência, que no fim acabou por me afastar dele… e agora? Agora pouco mais havia a fazer para além de aceitar que aquele teria sido definitivamente o nosso fim, pelo menos assim acreditava, e que por muito que eu pudesse vacilar e procurá-lo… então seria ele a não querer saber de mim.
- Oh Adriana… Lamento imenso, mas acho melhor seguires definitivamente em frente! Digo-te isto porque sou teu amigo e acho que se continuares presa à vossa história… ainda vais sofrer por uns bons tempos! – senti-lhe no falar um tacto de nobreza e lealdade, que nunca havia tido para comigo, mas que no entanto era revigorante pois estabelecia um padrão de paz e consolo no meu coração
- Eu sei, Didi… Eu sei… - um suspiro grotesco precipitou-se do meu peito, delimitando o abismal precipício dos meus lábios, onde as lágrimas pereciam em catapulta
- Eu vou ter de desligar, pequenina… - lamentou-se num arrastar de voz auspicioso, sabendo que teria de regressar às suas tarefas, deixando-me de lado e em total sofrimento
- Tudo bem, Diogo… Não faz mal! – menti… não porque ele não pudesse adivinhar o estado lamentável a que me tinha submetido com as suas conclusões, mas sim porque o orgulho era superior e não permitia que me despisse de máscaras para alguém que ainda não detinha a minha total confiança, mas que aos poucos a ia conquistando
- Vamos falando, sim? – a pergunta retórica impôs a presença assídua que ele viria a marcar no meu dia-a-dia, apesar de naquele momento eu ainda considerar essa hipótese muito pouco plausível – Se precisares de alguma coisa manda mensagem, liga-me, o que for preciso… Vou estar sempre aqui para te ouvir, princesinha…
- Obrigada, Didi… Obrigada… - suprimi no contorno dos meus lábios cerrados as lágrimas mais pulsantes às quais ainda ameaçava ceder e guardei-as só para mim durante mais uns segundos – Até depois… Beijo grande!
- Cuida de ti, pequenina… Até depois, beijo enorme! – nem a meiguice daquela breve despedida, que não quis alongar muito mais, foi suficiente para enaltecer o meu coração, que ameaçava soltar-se do seu tímido lugar, expandindo-se para fora do meu corpo, esperando levar consigo toda a dor exclusa pelo silêncio de tanto tempo

E foi no preciso instante em que o sinal da linha telefónica ressoou do outro lado, dando-me indicação de que a ligação tinha por fim terminado, que cedi aos mistérios do amor. As lágrimas escorreram acidentalmente pelas minhas faces cálidas do cansaço e um tremelicar incessante assomou aos meus lábios, na ameaça certa de os comandar, pelo menos enquanto houvesse gotas de orvalho a humedecerem-me a pele.  
Sabia que dificilmente conseguiria acalmar aquele coração desinquietado pela conclusão avassaladora do meu mais recente amigo, mas felizmente consegui controlar-me o suficiente para ainda deter na minha posse a condução do meu veículo, que circulava pelas ruas de Lisboa quase que sozinho… pois eu estava totalmente desorientada, sem ter na minha posse a mínima capacidade de compreender para onde me desejava deslocar.
Há quem lhe chame karma… Há quem lhe chame destino, mas eu prefiro acreditar que foi somente uma conspiração da história engendrada pela vida, que teimava em maltratar-me, pois quando dei conta encontrava-me na porta do estúdio de trabalho do João Rôlo. Mesmo sem saber como, havia completado o meu percurso e depois de enxugar as lágrimas uma por uma e camuflar os seus vestígios com os óculos de sol, estava então pronta para encarar o mundo… ainda que possuindo um fáceis fechado e pesaroso.

- Bom dia, em que posso ajudá-la? – a nova e inexperiente assistente do João interceptou-me o caminho, assim que me viu sair do elevador e marcar o primeiro passo na direcção da sala de espera para as clientes

- Ah… Bom dia, eu sou cliente do João e fiquei de passar cá um dia destes para ver como vão os progressos do vestido que lhe pedi… Ele conhece-me pessoalmente! – esclareci, agitando na minha mão a colectânea de três anéis de padrões variados, que encaixavam magistralmente uns nos outros e rodavam entre o meu anelar e polegar a um ritmo inebriante

- Hum… O Sr. João agora está numa reunião, mas diga-me o seu nome e pode ser que consiga fazer alguma coisa por si! – naquele mesmo momento a rapariga, que não devia ter muito mais que os seus vinte e poucos anos, prontificou-se a ajudar-me no que fosse preciso e tive a ligeira percepção que pelos graciosos modos que envergava havia sido escolhida pessoalmente pelo próprio estilista

- O meu nome é Adriana Vale… - proferi o meu nome, certa de que não provocaria em si grande alarmismo, visto que pelo menos até à data não me havia reconhecido como figura pública que era - Estive cá há coisa de duas semanas…
- Adriana… Vale? – questionou no mesmo instante, enquanto deslocava o seu olhar da pasta que trazia nas suas mãos e o colava em mim, de um jeito tão desgastante quanto intimidador
- Sim… Isso mesmo…
- Peço desculpa, mas nem a reconheci com os óculos de sol… - desculpou-se imediatamente, fazendo com a sua cabeça uma vénia tão forçada e cortês, que me fez ressaltar o constrangimento por tal veneração
- Não tem mal… - com uma só mão toquei-lhe o braço, obrigando-a a repor o seu rosto mais altivamente e do jeito certo que deveria ser, pois na verdade ela até era mais velha do que eu… somente alguns anos, mas era – Não se preocupe com isso…
- Sente-se, que eu vou falar com o Sr. João e trago-lhe já qualquer coisa pra tomar… - os seus dedos posicionaram a caneta de tinta permanente, que trazia na mão, junto da pasta que se encontrava então encerrada na união das suas duas mãos – Quer uma água, um café, um chá, um sumo… Alguma coisa?
- Uma água, por favor… Chega perfeitamente! – numa pose delicada, presenteei-a com um aceno de cabeça suficiente para lhe agradecer tamanha amabilidade
- Irei imediatamente tratar disso… Com licença! – retirando a sua figura do alcance posicionado dos meus olhos, apressou-se a delinear o balcão, onde depositou todas as suas ferramentas de trabalho, e a dirigir-se ao corredor, mas a presença de alguém que me era conhecido, impediu-a
- Maria, ligue por favor para a fábrica e pressione-os com a entrega dos tecidos… Preciso deles para ontem! – aquela ironia traçada era recorrente da petulante figura do meu caro amigo João, que num simples olhar vagante pelo seu atelier me reconheceu – Adriana!!
- Olá, João…! - a sua figura serena, que se encaminhou prontamente na minha direcção de braços abertos prontos a receberem-me no calor de um abraço reconfortante, foram o bastante para me fazer ceder e adoptar a mesma posição
- Oh Adriana! Não avisaste que vinhas! – sobre alertou, assim que me separei dos seus braços, mantendo-o somente debaixo da minha visão apoquentada, mas ainda disfarçada pelas lentes opacas dos meus óculos de sol
 - Sim, eu sei… Desculpa! – prontifiquei-me a um pedido de desculpas necessário, visto que tinha quebrado o protocolo e ido até lá sem pelo menos o avisar – Já sei que estás numa reunião e senão me puderes atender eu volto noutra altura mais propícia…
- Oh, nada disso, Adriana! – a sua mão elevou-se no ar, esboçando um trejeito certeiro, que revelava a pouca importância prestada ao assunto – A reunião já acabou… Vamos até ao meu gabinete! – educadamente, libertou um espaço vazio na sua frente para que lhe tomasse a dianteira, enquanto dava ordens à sua operária – Maria, se alguém ligar diga que estou ocupado e para tentar contactar mais tarde…
- Com certeza, Sr. João! – assentiu de forma atrapalhada, enquanto no bloquinho de papel amarelo em cima do balcão, tomava nota daquele simplório pedido
- É uma boa assistente ela… - sugeri ao mesmo tempo que entrava no escritório e me livrava da impertinente mala, que teimava em vincar-me o ombro devido à elevada carga que transportava – Prestável e educada…
- Inexperiente ainda… Mas nada que uns tempinhos aqui não resolvam! – esclareceu-me João, apoderando-se com pujança do lugar que tão bem lhe pertencia e se situava do outro lado da mesa de carvalho maciço – Mas diz-me lá… Que te traz para estas bandas a um dia da semana?
- Olha… Aproveitei que tinha de resolver uns problemas da faculdade e resolvi passar por aqui para ver se já tinhas algum esboço do vestido para o casamento… - sentei-me educadamente numa das cadeiras livres e num toque de elegância requintada, deixei a minha perna direita cruzar-se sobre a esquerda, acentuando assim as curvas do meu corpo torneado
- Claro que tenho… Já andei a trabalhar nisso e a ver umas amostras de tecido, mas como já percebeste este atelier está um caos! – lamentou-se, exercendo um esforço dobrado para conseguir organizar a parafernália de papéis que lhe impediam a visão da sua mesa de trabalho
- Eu também não tenho pressa… Ainda faltam dois meses e confio plenamente no teu bom gosto! – relembrei morosamente, dando asno aos meus dedos para que se movimentassem e atirassem para trás dos ombros os fios de cabelos cacheados que teimavam pender-me sobre o torso devido ao seu exagerado comprimento, que já se delimitava para lá do meio das costas
- Mas posso já mostrar-te os esboços que fiz…
- Se puder ser, agradeço imenso! – trocámos um sorriso cordial, muito característico de duas pessoas que já travavam conhecimento há já algum tempo, e ele dirigiu-se ao seu arquivador buscando nele aquilo que eu tanto ansiava ver
- Ora… Aqui está! – constatou transportando na mão uma pasta de papel crepe, cujo conteúdo era somente um imaculado esboço de uma obra do João Rôlo… o grandioso João Rôlo, e só por isso a sensação de vaidade despoletou em mim avassaladoramente – É só um estudo prévio… Vê se gostas…
- Adoro, João! Adoro! – exclamei assim que os meus olhos perscrutaram a aguada carmim predisposta no papel, dando vida a um vestido belíssimo e perfeito para o meu corpo… desenhado à medida, idealizado unicamente e exclusivamente para mim – Está perfeito!
- Ainda deve sofrer algumas alterações e talvez o tecido possa não ser esse… Mas não deve fugir muito do que aí está! – passando os dedos pelos cabelos crespos, assegurou-me a fidelidade que pretendia prestar ao seu esboço, limitando-se a pincelá-lo com agulha e linha
- Para mim está óptimo, João… Está simples, mas muito elegante, tal como te pedi!
- Fico contente que tenhas gostado, mas então se calhar vamos ali até à sala de provas para discutirmos os tecidos…
- Hum… Parece-me bem! – concordei, mantendo num olhar sereno o desejo iminente de regressar a casa dos meus pais o quanto antes, pois há algum tempo que me habituara somente à solidão de quadro paredes… daquelas que haviam testemunhado e gravado em si as mais belas memórias da minha infância
- Então vamos a isso!

Não sei dizer quanto tempo ele me susteve naquela enorme sala, ladeada por paredes brancas totalmente modernistas, mas frias e impessoais, que não conferiam qualquer sensação de conforto ou aconchego… Simplesmente não eram o meu lar, e era lá que eu pertencia, e era lá que ansiava regressar o mais rapidamente possível.  
O relógio acelerou vertiginosamente a nossa busca pelo tecido perfeito… Aquele que encantasse pela textura entrecortada do vintage, que sobressaísse pelo tom de exaltação soberano em contraste com a minha pele e aquele que fosse amor à primeira vista… Tal qual um homem que desejamos e que nos enfeitice ao mais primário e singelo olhar.

- Estes parecem-me definitivamente os melhores, Adriana… - afirmou, segurando na sua mão um molho de mais de dez amostras, pois o encontro marcante com o certo ainda não havia acontecido e aqueles eram somente opções mais tarde colocadas de parte

- Sim, concordo, João… Deixo isso ao teu critério, mas qualquer coisa também passo cá e acertamos isso!

- Parece-me bem!

- Bem… Sendo assim acho que vou indo então! – relatei, perscrutando com um simples olhar a sala de linhas rectas na esperança modesta e vagarosa de encontrar a mala que sabia pertencer-me

- Nem te perguntei se querias tomar alguma coisa… - lamentou-se, seguindo-me até ao estirador principal, onde descontraidamente coloquei a mala no ombro, pronta para me ir embora o mais rapidamente possível

- Oh, não é preciso nada, João… Tenho mesmo de ir porque tenho outros assuntos a resolver! – menti, mesmo sabendo que a minha mãe me aliviara todas as outras tarefas para aquele dia, mas estava demasiado entediada pela actividade dos últimos minutos

- Oh… Lamento imenso, mas então fica para outra altura, combinado? – questionou, encaminhando-se juntamente comigo até à porta de saída totalmente envidraçada, que conjugava na perfeição com o edifício Arte Déco

- Combinadíssimo! – confirmei, num sorriso educado, que se desvaneceu na troca de dois beijinhos de despedida, que compartilhámos – Vemo-nos então depois… Até à próxima!

- Até à próxima, querida… Qualquer coisa, já sabes… Liga ou aparece que eu atendo-te assim que puder!

- Obrigada, Adeus! – a minha mão ergueu-se magistralmente no ar antes mesmo antes dos meus pés terem pisado o asfalto, que palmilhei apressadamente em direcção ao meu carro

Ergui a chave na mão para o destrancar, mas era inevitável olhar pra ele sem recordar quem mo oferecera, o dia em que o fizera e a forma especial como havia agido para tornar o meu dia único… Único e perfeito como nenhum outro o fora até à data nos meus sucintos e vagos dezoito anos de vivência.
Mais uma vez, como já se tornara hábito naqueles meses de ausência, o meu peito reclamou saudade e reivindicou a assistência do seu exclusivo dono… David.

“Chega, chega! Sai da minha cabeça!” – ordenei a mim mesma, apenas por pensamento, desejosa de, pela primeira vez desde que recebera aquele carro, conseguir conduzi-lo sem relembrar por um segundo que fosse o homem que ainda detinha o meu amor

Numa faustosa maresia de força, suspirei pesadamente, e ainda que combalida, entrei na polida e intocável viatura branca, exactamente igual à de David. A minha cabeça guiou-se por milhões de caminhos, procurando sempre um mapa, que me indicasse o caminho certo, mas no entanto por muitas voltas que eu desse ia sempre parar ao mesmo sítio, à mesma altura, à mesma pessoa!
Guiei decidida e por segundos ele saiu-me do pensamento, é verdade… mas não do coração!


***

- Mãe, cheguei! – a minha voz alteada percorreu todo o piso inferior da vivenda, fazendo-se ouvir até mesmo na cozinha, que se encontrava vazia pois era terça-feira e o dia de folga da nossa empregada doméstica, Odete

O silêncio imperou… Um silêncio estranho, um silêncio mórbido antecedente de um mau prenúncio.
A minha espinha arrepiou-se, dissipando toda a energia pelas extremidades do meu corpo, que estarreceram perante tal sensação. Alguma coisa não estava certa e eu sentia-o… Se me perguntassem o quê não saberia responder, mas eu sentia-o e algo se iria a passar.

- Mãe! Pai! Está alguém em casa? – voltei a inquirir numa voz sobressaltada, enquanto fazia do  móvel da entrada o perfeito pousio para os meus bens pessoais, mas mais uma vez não obtive resposta – Que estranho…

Àquela altura já deviam estar em casa, pois o relógio marcava quase a hora de almoço e o aroma delicioso que já era tradição abandonar a cozinha por volta do meio-dia, não se fazia sentir.

“Talvez o pai tenha ficado a almoçar no trabalho…” – sugeri a mim mesma, tentando não aumentar a sensação vibrante, que me assolava o coração, fazendo-me crer que algo estava para acontecer… algo a ver comigo, algo que ainda me ia machucar demais

- Mãe? – até no jardim das traseiras tentei a minha sorte, assim que espreitei pelas vidraças da porta de correr, mas o jogo traiu-me, deixando-me sem respostas

Subi até ao piso superior e livrei-me dos desconfortáveis, mas elegantes, sapatos de salto alto que usara toda a manhã, trocando-os por umas delicadas havaianas em tons de dourado. Amarrei o cabelo numa trança lateral e no rosto coloquei os meus óculos de leitura, essenciais para o meu défice de visão, mas que fazia questão de substituir pelas lentes de contacto sempre que andava em sítios públicos, apenas por uma questão de estética.
As escadas que em miúda eram descidas da forma mais cómica que se possa imaginar - sentada no vão por onde deslizava até ao pináculo que delimitava o seu fim - foram então percorridas numa corrida saltada, que me atirou para cima do sofá. Liguei a televisão e como já era hábito, nada que apresentasse um conteúdo coerente e minimamente interessante, passava no aparelho electrónico, embargando assim qualquer humano necessitado de evasão à insanidade mental do momento.
Porém prendi-me nos odores da casa… Aquele cheio a jasmim e rosmaninho era o toque perfeito para me fazer fechar os olhos e saborear com nostalgia os caminhos carinhosos travados em somente dezoito anos de existência.

- Como o tempo passa… - murmurei a mim mesma, deixando que o meu corpo se guiasse na direcção da cozinha, disposta a tomar um iogurte que me fustigasse a fome já latejante, mas o bilhete que encontrei exposto na porta de alumínio deteve-me.

“ Adriana,

Tive um pequeno contratempo no trabalho e vou ter de ficar por lá mais umas horas, mas pedi à Odete que comprasse comida e a deixasse no forno para ti!
Deixei o portátil em casa para o caso de te quereres distrair e também pedi a ela para comprar as revistas do dia.
Espero não demorar muito para não ficares sozinha!

Beijo grande, até logo!
Mãe ♥”



- Que lindo…! Mais de seis horas sozinha e sem nada pra fazer! – restitui com direito, palavras amargas e irónicas, não contra à minha mãe, mas ao estado de solidão constante que havia inundado a minha vida

Dando continuidade à minha anterior intenção, abri o frigorífico e recolhi um iogurte de morango, que digeri somente em meia dúzia de sorvos.
Regressei à sala e senti os ponteiros do relógio fixo na parede perderem intensidade… como se cada segundo demorasse o dobro a passar e cada hora somasse uma eternidade para virar. A televisão continuava com a programação desinteressante, então substituída pelas desgraças e dissabores constantes de um país, que se desmoronava aos poucos… ora pela crise, pelo crime, pela corrupção, tudo era motivo de desgraça e demandas do mau jornalismo que se fazia em Portugal.

- Bah, que seca! – assim que atingi o ponto de saturação possível para uma só pessoa com o mínimo de bom censo, desliguei a televisão, atirando o comando para o sofá que se encontrava ao lado, mas por pouco este não caiu no chão ao embater num dos braços da poltrona

Pensei em algo pra fazer… Algo que me estimulasse as ideias, algo que me quisesse fazer passar o tempo, por muito que este se prostrasse mais moroso que o normal, devido ao inebriante estado de melancolia que me abarcava.
Recordei então o recado da minha mãe e iniciei pela casa uma busca detalhada pelas ditas revistas diárias, que pelo menos me iriam retirar da monotonia conhecida pelo bom português, atirando-se para o mundo ilusoriamente oprimido da imprensa cor-de-rosa, que raramente lia, mas naquele instante foi a única possibilidade que me haviam dado para formular novas actividades expansivas e conotadas de dinâmica, se é que aquilo se poderia intitular como tal.

- Ora, cá está! – indaguei, segurando nos meus braços um molho de três revistas, que encontrei no aparador da sala, junto do candeeiro de pé, que antecedia a gaveta do faqueiro de prata na família há já várias gerações

Li integralmente a primeira e a mim só faziam referência aos concertos que dera mais recentemente, revelando uma empatia e à vontade com o público… factos esses que me deixaram bastante confiante e orgulhosa do meu trabalho, visto que este nunca fora encarado de ânimo leve durante todo o Verão.
No instante imediato em que pretendia iniciar a leitura da segunda revista fui interrompida pelo barulho da fechadura, que destrancou a porta, deixando visível a minha figura maternal com um aspecto terrível e visivelmente cansado, mas feliz por me ver, assim como eu.

- Oh mãe! – precipitei-me do meu lugar, envolvendo-a num abraço firme, que decorava o sentimento de aperto que me inundava o peito, mesmo que eu não encontrasse qualquer razão plausível para isso

- Oh filha, desculpa ter demorado tanto…

- Não faz mal, mãe… Eu li o seu recado e entretive-me por aqui! – revelei com indulgência num breve encolher de ombros, tão despreocupado que quase lhe passou despercebido

- Já almoçaste? – inquiriu, pousando o aglomerado de pastas de trabalho que trazia nas suas mãos, intercalado com a alça da pasta de executiva

- Não, ainda não… Mas já vi que a Odete deixou arroz de pato no forno, mas não tenho grande fome, mãe! – esclareci, oferecendo os meus serviços prestes e recolhendo o casaco que transportava para o colocar no cabine da entrada – E a mãe, já almoçou?

- Sim… Comi qualquer coisa no restaurante lá ao pé do trabalho!

- Pensei que ia chegar mais tarde… Que só nos íamos ver lá no meu apartamento… - comentei, sentindo a temperatura cálida dos mosaicos queimar-me a pele desnuda das plantas dos pés

- Também eu… Afinal demorei no trabalho, mas antes disso ainda consegui encomendar os teus livros! Foi num instante, meu amor! – os seus lábios embateram na minha testa, numa sensação de ternura há muito não sentida, pelo menos de tão perto

- Sendo assim pudemos deixar as limpezas lá de casa para outro dia…

- Nada disso, já estava combinado, meu anjo!

- Mas prefiro que fique para outro dia… Está a saber-me bem ficar deitada no sofá sem fazer nada! – confessei numa espécime molengona, que me assomou o corpo, fazendo-o descomprimir-se num suave espreguiçar de braços

- Hum… Essa preguiça, essa preguiça! Vê lá se te ambientas porque não tarda nada a faculdade está de volta!

- Não se preocupe, mãe… Eu vou entrar neste ano sempre a abrir, ninguém me vai parar!

- Assim é que eu gosto de ouvir falar, assim é que eu gosto! – compartilhou comigo um sorriso de incentivo e depois de me piscar o olho, num gesto singelo e já comum, libertou as suas pernas para que estas caminhassem até ao piso de cima – Vê lá se vais comer! – gritou, quando já se encontrava no corredor de acesso aos quartos superiores

- Não se preocupe… Vou já! – respondi no mesmo tom alteado, que penso que lhe foi suficientemente perceptível pois o seu discurso aconselhador findou

Retomei no sofá o lugar que era meu, decidida a dar continuação à leitura trivial que se desenrolava antes da chegada da minha progenitora. Segurei nas minhas mãos a segunda revista da imprensa cor-de-rosa e comecei a folheá-la despreocupadamente. Não esperava encontrar nada de especial… Uma notícia ou outra sobre casais famosos que tinham dado o nó, outro tanto de colunas sobre a moda que circulava no meio e mais umas quantas páginas acerca de escândalos que não eram sequer minimamente fundados.
Aproveitei a falta de interesse em qualquer daqueles assuntos para rever mentalmente as tarefas em que comprometera ajudar Inês para o casamento com Ruben, que cada vez se encontrava mais próximo, mas o conteúdo de uma página deteve-me… O cabeçalho incessantemente doloroso deturpou-me a visão, as imagens que os meus olhos alcançavam quebraram o meu fragilizado coração e tive a certeza de que nada de pior me poderia acontecer naquele momento…

“O novo amor de David Luiz!” – umas letras fartas tingidas de um vermelho ridiculamente forte, encabeçavam a notícia da revista de fofocas

“O defesa-central brasileiro de 23 anos, David Luiz, reencontrou o amor! Depois de uma relação duradoura e aparentemente feliz com Adriana Vale, uma portuguesa de 18 anos que já se afirmou no mundo da música, o jogador do Benfica encontrou o consolo que tanto procurava nos braços de outra portuguesa, uma jovem de 21 anos, residente em Lisboa e estudante de psicologia. Segundo fontes próximas do jogador “ele está muito feliz e finalmente encontrou a paz que tanto precisava”, acrescentando então “que ele ultrapassou o falhanço da sua relação com Adriana e é do lado da nova namorada que pretende criar o seu futuro”. Quanto a Adriana continua sozinha, tendo utilizado o Verão para passear por todo o mundo, dando concertos para os seus fãs. Tanto David como a sua ex-namorada foram contactados, mas não prestaram declarações até ao fecho da presente edição.”

Lá estava ele… Nas páginas que um dia haviam sido preenchidas com fotos de nós dois e onde agora outra mulher tomava lugar do seu lado. Ambos de mãos dadas, demonstrado com o olhar o carinho que um dia havia sido meu, o amor pelo qual ainda ansiava, mas que infelizmente havia perdido… para sempre.  

domingo, 20 de novembro de 2011

Capítulo 114 - Nem sempre um sorriso é sinónimo de felicidade (Parte I)


Rodando o pescoço delicadamente, observei o meu querido David…
O meu coração pulsava dissimuladamente dentro do peito, tentando que isso passasse despercebido à figura masculina junto de mim, e a qual era responsável por tal comportamento anómalo do principal órgão vital que habitava o meu corpo. Perscrutei cada traço delicado do seu rosto e senti-me bucolicamente infeliz por saber que nunca mais os poderia sentir nas palmas delicadas das minhas mãos, que se encontravam então incessantemente trémulas pelo nervosismo que me corrompia o frágil autocontrolo.
- …David? – questionei, procurando obter uma acção plausível daquele personagem, de forma a confirmar a mim mesma de que não estava somente embrenhada em mais uma das minhas mirabolantes miragens
- Não ‘tá aqui mais ninguém, acho… - ripostou, num tom surpreendentemente calmo, como se não recordasse mais a maneira abrupta como fora deixado em Paris, sem receber pelo menos uma justificação que bem merecia
- Não… - confirmei, correndo o meu olhar em torno do jardim, que eu sabia estar completamente vazio – Tens razão…
- A Sofia já está esperando você lá em cima… - reafirmou, mantendo as duas mãos pousadas no interior dos bolsos dianteiras dos jeans de lavagem escura, que envergava perfeitamente no seu corpo delicadamente esculpido pela prática intensiva de actividade física
- Obrigada… Eu vou já ter com ela! – respondi, erguendo levemente no ar o cigarro já meio ardido, usando-o como fundamentação para a minha demora delongada
Achei que a conversa tinha findado ali, que nada mais havia a dizer, que nada mais havia a ser acrescentado a tudo aquilo que já fora afirmado antes, de todas as vezes que discutíramos a nova condição de amizade profunda que nos unia – ou pelo menos parecia unir – mas surpreendentemente ele deu continuação ao diálogo, apanhando-me desprevenida para a cavaqueira que se seguiu nos minutos seguintes.
- Vai ter com ela? – inquiriu com escárnio, esboçando em seus lábios um sorriso ironicamente doloroso – Tem certeza? É que cê é perita em deixar as pessoas esperando…
- Desculpa? – questionei, com o coração sobressaltado, enquanto sustinha a lufada de fumo aspirada, junto da minha traqueia, queimando-a ligeiramente num ardor espicaçado pelo desconforto
- Não escutou bem ou quer mesmo que eu repita?
- Não, eu ouvi muito bem… Só não percebo onde queres chegar com essa conversa! – ripostei, depois de ter soltado por uma pequena brecha dos meus lábios, o fumo que apelava ao desconchego dos meus pulmões, devido à longevidade com que o sustinha
- Não ‘tá entendendo? Nossa! Como cê é boa fugindo das conversas…
- Olha, David… Eu não quero discutir! – argumentei, tentando serenar os ânimos que ameaçavam eclodir a qualquer segundo, tal como uma granada à qual se solta o gatilho
- O problema é que cê nunca quer nada… - ciciou num rosnar de dentes provocativo, enquanto cruzava na frente do peito protuberante os dois braços teimosos – Passa a vida fugindo das coisas, Adriana…
- E quem és tu para me julgar…? – inquiri, arqueando a minha sobrancelha esquerda e olhando-o de cima a baixo, enquanto dava o último trago no meu cigarro já cinzelado pelo tempo
- O cara que cê deixou plantado em Paris… - após ter jogado a beata no interior do cinzeiro sobre a mesinha de apoio à zona de diversão da piscina, quedei-me em silêncio, pois nada do que eu pudesse dizer iria mudar o facto eminente de o ter abandonado mais uma vez – E agora… Perdeu os argumentos foi?
- Não, não perdi… - a minha estatura média permaneceu tão pacífica quanto possível, tentando ao máximo não ceder à fadiga emocional que me preenchia plenamente no meu íntimo
- Então fala alguma coisa, caramba! Grita, berra, chora, me xinga… Mas reage! – o seu tom de voz alterado, fez o meu corpo atemorizar-se de uma ponta à outra, totalmente apanhado de surpresa por aquele acesso de agressividade
- Baixa o tom de voz, por favor… - pedi educadamente, numa voz desvanecida pelo pavor de um alguém a quem sempre confiara a minha segurança, mas que naquele momento me assustava como nunca o havia feito
- Porquê, ‘tá com medo que todo mundo ali dentro fique sabendo do que cê fez? Não se preocupa… Já todo o mundo sabe! – afirmou ironicamente, percorrendo com desdém o meu corpo mirrado de vergonha…de uma vergonha que eu não sabia sentir, mas que naquele mesmo segundo me consumiu a uma velocidade alucinantemente assustadora
- Como…”todo o mundo sabe”? – questionei, sentindo dentro do meu peito os batimentos atabalhoados que o meu coração teimava compassar, desesperado por um momento de paz
- É isso que cê escutou… Todo o mundo ali sabe, até minha mãe!
- Sabem como?
- Acho que é fácil compreender, Adriana… Eu não fiquei bem depois do que cê fez, mas só você não enxergou isso! – acusou solenemente, até os seus olhos ilustrarem a dor que o havia sucumbido depois da minha partida da capital francesa, sem deixar para trás qualquer justificação
- E tinhas de lhes dizer a todos? – perguntei num misto de revolta e indignação, pois senti-me traída pela pessoa que mais amava no mundo
- E cê tinha de me deixar sem dizer nada?
- Não fales sem saber o que me levou a ir embora daquela maneira!
- Nada justifica a sua atitude… Cê não sabe o lixo que eu fiquei depois de cê ter ido embora, Adriana!
- Parece que recuperaste depressa! – incriminei, abrindo os meus braços perpendicularmente ao corpo e deixando-os cair instantes depois junto das minhas pernas abaladas pelo cansaço do dia exaustivo que se passara, mas desta vez o silêncio chegou da parte dele, pois ambos sabíamos perfeitamente ao que me estava a referir – Então… Agora foste tu que ficaste sem argumentos?
- Não, é claro que eu não fiquei… - defendeu-se, tentando encorpar uma figura segura e inquebrável, mas que para mim se revelou frágil demais para pertencer ao meu querido David, pelo menos àquele que conhecera há meses atrás
- Então vá… Diz qualquer coisa, reage! – ordenei, fazendo uso do discurso pateticamente ensaiado que David havia preleccionado segundos antes, a meio da nossa discussão amena
- O que é que cê quer que eu diga?
- Na verdade nada… Nunca me surpreendeu a capacidade que os homens têm de fingirem que amam e depressa substituírem essa pessoa, por outra qualquer! – murmurei, ajeitando o casaco que envergava no corpo e dando apenas alguns passos na direcção da entrada de casa, mas que foram travados pela mão pesada de David, que assentou no meu braço esquerdo, repelindo-o para si
- Fingirem que amam? – o rosto dele ficou a escassos milímetros do meu, tanto, que pude sentir a sua respiração ofegantemente descompassada pela raiva, embater na minha boca sôfrega por um beijo do homem que mais desejava no mundo inteiro… ele. – Cê tá insinuando o quê... Que nunca te amei, é isso?
- Não estou a insinuar nada, David… - disse calmamente, obrigando-o a soltar o meu braço, que apertava fortemente, num único puxão fervoroso de cólera - … mas se a carapuça te servir…
- Cê só pode estar de zoação… Eu fiquei pior que lixo quando cê me deixou daquela forma! Primeiro com aquela maldita carta de desistência e egoísmo, depois em Paris, sem sequer dar um sinal… - as palavras dissiparam-se da sua boca tão rapidamente, quanto as mãos ocorreram em auxílio da cabeça, navegando desesperadamente naquela amálgama de caracóis que lhe preenchia o cocuruto
- E como eu já disse… Ultrapassaste muito bem! – reafirmei, abrindo nos meus lábios o espaço necessário para um sorriso rasgado de falsidade se revelar sem qualquer medo ou pudor
- O que é que cê tá querendo dizer com isso, Adriana?
- Não preciso dizer nada… Está bem à vista de todos!
- Cê tá falando do quê, caramba? – suplicou exaltadamente por uma explicação que não era necessária, visto que ambos conhecíamos o conteúdo-chave daquela conversa encriptada, onde ele teimava fazer surgir a sua abençoada e falsa ignorância
- Tu sabes muito bem daquilo que eu estou a falar, David… Não te faças de parvo!
- ‘Tá falando da Joana? – questionou, percebendo que não teria mais por onde fugir, pois quanto mais caminhasse para trás, mais facilmente eu o encostaria à parede
- Uau, afinal até sabes do que estou a falar! – afirmei com escárnio, rindo-me brevemente de uma situação desconfortável, mas abafando-o no interior vagamente cálido da minha mão direita – Não és assim tão burro…
- O que é que a Joana tem a ver pra essa conversa?
- Ora, David… Somemos um, mais um! Se estivesses assim tão mal depois da minha partida, não terias arranjado uma nova namorada tão cedo! – retorqui num laivo de exaltação encoberto pela falsa serenidade que aparentava sentir – E ainda por cima formalizaste a relação, assumiste-a publicamente, apresentaste-a à família e ainda te deste ao trabalho de a trazer para o casamento do Ruben!
- E cê queria o quê, Adriana… Hum? Achou que eu ia ficar esperando você a minha vida inteira? Amar é uma coisa… Agora se rebaixar é outra bem diferente, garota!
- Nunca pedi, nem pedirei para que te rebaixes… Na verdade tu fazes aquilo que bem entenderes da tua vida, não me diz mais respeito!
- Mas no entanto cê falou na Joana, como se isso te incomodasse! – relembrou, percorrendo gloriosamente o olhar pelo jardim, disposto harmoniosamente em redor da vivenda de seis quartos
- O que me incomoda é ver pessoas dizerem a outras que as amam de verdade, mas não demorarem nem um segundo a substituí-las… - confessei num suspiro auspicioso de ainda deter para mim o seu coração e o sentimento que maioritariamente o dominava
- Cê me acusa de te ter substituído e eu te vou acusar uma vida inteira de me ter deixado… - indagou, cruzando o seu olhar com o meu e deixando-me delirar por momentos com uma linha de lágrimas que pensei ver em seus olhos luminosos
- Pois é, David… - concordei, libertando do meu corpo um suspiro profundamente pesado -... A diferença é que o facto de eu te ter abandonado não é, nem nunca será sinónimo de falta de amor; agora o teres-me substituído tão facilmente nada mais quer dizer do que isso mesmo…
- Cê me amava e me deixou? Isso não tem sentido, Adriana…
- Tem… Bastava teres olhado durante um segundo que fosse para o meu coração e terias percebido que fez, faz e fará sempre demasiado sentido! – os meus olhos corromperam-se pelas lágrimas sinceramente sofridas, que pouco depois escorreram pelo meu rosto delicadamente, não ousando temer represálias
- Cê fugiu de mim… Não tive nem tempo de olhar!
- Tiveste mais de um ano para o fazeres… Agora é tarde demais, para mim, e para ti!
- É? – o seu tom duvidoso, fez-me olhá-lo cara a cara, contorcendo-me de segurança para lhe dar a resposta séria que merecia ouvir
- É… A nossa relação acabou, o sentimento também. Tu ultrapassaste tudo e já tens até uma namorada nova, eu estou bem como estou, por isso não adianta nada desenterrar um passado que não irá alterar de qualquer maneira! – assumi claramente a minha posição secundária na vida dele e montando o sorriso mais doloroso que alguma vez esboçara, proclamei o desejo mais negável de toda a minha vida – Felicidades para ti e para ela!
O meu corpo precipitou-se na direcção da porta das traseiras, que dava acesso à cozinha e nem durante um segundo ele arriscou travar-me, pois ainda conhecia o meu temperamento intempestivo suficientemente bem, para não me forçar a um novo embate depois daquelas declarações guiadas unicamente pelo meu coração fragilizado devido ao fim oficializado daquela relação passada.
Subi as escadas interiores com as lágrimas no rosto e detive-me junto da porta do quarto das meninas. Sabia que era ali que iria repousar e por isso necessitava tranquilizar-me para não ser alvo de perguntas inoportunas das minhas colegas de quarto.
Sequei os prantos que me delineavam o rosto e respirei fundo, antes de fazer rodar a maçaneta passivamente trancada, que me impossibilitava de visitar um mundo do qual eu talvez não quisesse fazer parte nos próximos dias.

- Oi, Adriana… Já botei a Sofia pra dormir e ela pegou direitinho, por isso já já, tiro ela da sua cama! – informou-me Brenda, enquanto retirava com uma pequena toalhinha molhada, toda a maquilhagem que lhe camuflava o rosto perfeitamente esculpido pela idade jovem e fresca que possuía

- Não precisas, Brenda… Deixa-a ficar lá a dormir comigo! – disse calmamente, sentindo que iria precisar de sentir um carinho naquela noite tão solitária em sentimentos verdadeiramente consoladores

- Tem certeza? – questionou, erguendo-se do pequeno banquinho na frente do espelho, que encabeçava a entrada da casa de banho privativa servente ao quarto completamente cheio de raparigas, que já dormiam aconchegadas no calor dos seus corpos

- Absoluta… Vai fazer-me bem pra matar as saudades todas! – afirmei serena, recostando a minha mão no interior do meu braço direito, e dando os primeiros passos na direcção da minha cama, que já se encontrava ocupada pela pequena Sofia

- Então sendo assim eu vou dormir também, meu anjo… Boa noite! – desejou, beijando-me docilmente a testa húmida pelo orvalho que peneirava o ar exterior da casa

- Boa noite, Brenda… - correspondi, erguendo nos cantos da minha boca um sorriso timidamente triste, pelo que vivera no alpendre juntamente com David naquela noite

Caminhei até junto das minhas coisas, e delicadamente, para não emitir qualquer barulho capaz de despertar alguma das meninas, retirei o pijama que rapidamente coloquei no corpo, fazendo a mim mesma uma jura… Aquela conversa com David, aquele momento no jardim, eram para esquecer... E enquanto lavava os dentes repetia a mim mesma, vezes e vezes sem conta, o mesmo discurso, como se me autopunisse por ter travado uma conversa tão comprometedora com o meu ex-namorado e agora ir dormir sobre o mesmo tecto que a sua actual namorada, que indiferente a tudo descansava harmoniosamente no mesmo quarto que eu.
Aproximei-me da minha cama e observei cada traço angelical do rostinho perfeito da minha piolhinha, que serenamente repousava sobre os seus sonhos esperançosos de criança inocente. A minha mão tocou-lhe as faces e constatou a temperatura agradável, que se desenvolvia debaixo dos lençóis que eu e ela iríamos compartilhar, e delicadamente repuxou as cobertas para que me pudesse juntar àquele ninho de sossego.

- Mad’inha…? – a sua voz ensonada emergiu no ar provinda de um sussurro melodioso, contrastante com os olhinhos semicerrados, e somente iluminados pelo pequeno candeeiro de mesa, que quebrava a escuridão imposta no quarto

- Olá, minha piolha… - sorri-lhe abertamente, deixando que os meus lábios polvilhassem a sua dócil testinha com beijos repenicados de amor

- Penshei que num vinhas mais domilhe com a Sofiazinha… - murmurou baixinho, depreendendo os seus lábios num ligeiro beicinho enternecedor

- É claro que vinha, princesa… Aqui estou eu pra dormir contigo! – afirmei com os olhos turvos de lágrimas, por recordar o motivo detentor de tanta demora em cumprir a promessa que fizera à minha afilhada

- Estás a cholhalhe, mad’inha? – questionou-me, arregalando brevemente os olhos e tocando as minhas faces, apenas com as suas duas mãozinhas ternurentas de tenra idade

- Não, boneca… A madrinha não está a chorar!

- Mas os teus olhos, mad’inha… - relembrou, observando-os meticulosamente, procurando mostrar-me que estava certa relativamente à tristeza que me abarcava a alma

- Não tem mal, pequenina… Vá, agora tens de descansar! – alertei, puxando as cobertas para cima dos nossos corpos e roubando à sua almofada um pouquinho de espaço para oferecer pousio à minha cabeça

- Não quelho descansar, enquanto tivelhes t’iste… - afirmou decididamente, embatendo os seus pequeninos lábios contra a minha face direita, já humedecida pelas primeiras lágrimas que abandonaram os meus olhos

- A madrinha não está triste…

- Mas estás a cholhalhe…

- Mas não estou triste…

- Mas as pessoas só cholham quando ‘tão t’istes…

- Mas essa tristeza passa e quando passa leva também as lágrimas… - os meus lábios proferiram algo totalmente diferente daquilo que os meus olhos demonstravam, mas no entanto ela era demasiado pequena para o compreender e no fundo acabei por agradecer intimamente esse facto

- A t’isteza pasha quando as alegrias vêm… Num ‘tás fewiz de estar aqui? Comigo, com a mamã, com as meninas, com o Ruben…?

- Estou, é claro que estou, princesa, mas a madrinha está cansada… Muito cansada! É só isso…

- ‘Tás a mentilhe à Sofiazinha, mad’inha! – acusou perspicazmente, fazendo-me crer que as crianças eram sem dúvida os seres mais puros do mundo e por isso os mais capazes de deslindar a complexidade de um ser humano na idade adulta

- A madrinha um dia explica-te tudo, sim, pequenina?

- Um dia quando? Explica agolha…

- Um dia, boneca… Quando fores mais crescida e conseguires compreender os assuntos dos crescidos…

- Nunca tiveste sheg’edos p’a mim… - recordou nostalgicamente, expressando no seu rostinho uma tristeza tamanha, que me esborrachou o coração

- E não tenho… Mas há coisas que tu ainda és muito novinha para perceberes, princesinha… Coisas que só as pessoas crescidas percebem!

- Eu não preciso selhe ashim c’escida para sabelhe que estás t’iste porque o David num é mais teu namowado!

- A madrinha não está triste por isso… O David está feliz e eu também, isso é que é importante! – esclareci monocordicamente tentando convencer-me interiormente da falsa veracidade das minhas palavras sonantes

- Não… Tu num ‘tás fewiz, porque amas o David e não o tens… E nós só shomos fewizes quando temos as peshoas que amamos!

A astúcia doce da minha adorável Sofia surpreendeu-me inequivocamente, apanhando-me nas malhas incontornáveis de um destino já traçado e há muito sucumbido pelo fim do relacionamento que mais me fizera sentir feliz e plenamente realizada. Apesar de saber que ela já possuía maturidade para compreender o que era o amor e a força desse sentimento, não me senti totalmente capacitada para abrir o coração a uma das pessoas que mais me devia querer bem no mundo, da maneira mais pura e sincera possível… a de uma criança. 

- E eu tenho as pessoas que mais amo… A minha família, os meus amigos, a afilhada mais linda do mundo inteiro… - enumerei, deixando que a ternura recaísse sobre mim e a minha mão polvilhasse a sua barriguinha com uma caminhada brincalhona dançada nas polpas dos meus dedos

- Mas não tens o David… - proferiu num sussurro certeiro, sustentando a sua teoria primitiva relativa à pessoa detentora dos meus sentidos

- Mas tenho outras pessoas… E sou feliz assim, piolhinha! – reafirmei, ajeitando as dobras superiores da colcha, que recaía sobre os nossos corpos prontos a serem dominados pelo cansaço – Agora vamos dormir… Precisas de descansar!

- Está bem, mad’inha… Mas p’omete que não cholhas mais! – os seus olhinhos esboroados, fitaram-me profundamente esperando receber uma resposta positiva à promessa que me era imposta de forma imprudentemente irrecusável

- Não… Eu prometo que não choro mais! – os meus lábios tocaram a sua pele macia e perfumada num único instante, beijando-lhe a testinha cálida – Até amanhã, bichinha…

- Até amanhã, mad’inha… - o seu desejo auspicioso dissipou-se numa respiração fechada, que guiou o descanso dos seus dois olhos, que encerraram os pontos de luminosidade eminente e se fecharam em direcção aos sonhos ainda por viver

Numa questão de instantes, senti a respiração da minha pequena Sofia misturar-se com a das restantes presenças no quarto, enquanto eu fiquei entregue à solidão habitual de mais uma noite nostalgicamente só, onde apenas resguardava a companhia do tempo… Do tempo que não esperava, que não aguardava por nada nem ninguém, e arrastava consigo os ponteiros do relógio, que depressa me atiraram à madrugada solitária, que antecipava mais uma alvorada.
No entanto o silêncio falado naquele quarto, foi quebrado quando vi alguém mover-se debaixo dos lençóis, após um sinal exterior à porta do quarto.
Joana ergueu-se e entre a brecha das portadas principais vi surgir a cabeça farta em caracóis do David… Foi o pior cenário que observei naqueles últimos meses, porque o ditado bem o diz “olhos que não vêm, coração que não sente”, mas agora os meus olhos viam demais, com uma definição extrema e por consequente muito dolorosa.

- Amor… - murmurou Joana, abrindo nos seus lábios espaço suficiente para que um sorriso perfeitamente belo surgisse

- Vem, tá todo o mundo dormindo… - suplicou David num sussurro esvoaçante, fazendo sinal com a sua mão esquerda para que a sua companheira se aproximasse de si

Joana acercou-se dele e foi numa troca intensa de beijos que saíram rumo ao corredor, que se preencheu com duas respirações descompassadas, até estas se desvanecerem com a ausência daqueles dois personagens.
Senti novamente as lágrimas aflorarem-me os olhos impiedosamente, apesar de eu ter lutado contra, mas o meu coração parecia não querer dar tréguas ao destino que me estava traçado.
Todas as outras meninas dormiam e eu estava sozinha… Completamente sozinha e sem ninguém em quem me apoiar. Sobre a mesinha de cabeceira vi o meu telemóvel posicionado meticulosamente num dos extremos e o meu pensamento voou imediatamente para o outro lado do oceano.
Levantei-me cuidadosamente, deixando para trás a pequena Sofia, que permaneceu alheia a todos aqueles acontecimentos, e segurando o telemóvel nas mãos, dirigi-me à varanda e marquei o número de uma pessoa que eu sabia estar sempre presente para mim… Vinte e quatro, sob vinte e quatro horas.

- Diogo… - chamei o seu nome numa única respiração segura, deixando que a minha voz timbrada pela dor manifestasse a fraqueza que me dominava por completo e que jamais passaria despercebida a um alguém que me conhecia tão bem e há tanto tempo quanto ele

- Adriana…? – a sua voz difusa, delatou o seu estado de dormência, que havia sido interrompido pela minha chamada de desespero, e que procurava esclarecer-se quanto à identidade da pessoa que se encontrava do meu lado da linha
- Sim, sou eu… - confirmei, soluçando tão discretamente quanto possível para que nem ele compreendesse o meu choro, nem as meninas que dormiam no interior do quarto, o pudessem escutar para além das portadas da varanda que se encontravam cerradas nas minhas costas – Desculpa se te acordei…

- Acabei agora de me deitar… Não tem problema! – já o conhecia suficientemente bem para saber que tomava as suas palavras num simples acto de cortesia, que ressaltou segundos depois, ao demonstrar a sua clara preocupação com o meu estado debilmente fragilizado – Mas… Estás estranha! Aconteceu alguma coisa…?

- Oh Diogo… - com apenas um bafejo ressentido, as lágrimas despoletaram em meus olhos e delinearam todo o meu rosto numa rajada sofrida de desilusão… aquela era a nova realidade, onde eu era forçada a viver sem David e vendo-o nos braços de um outro alguém

- Estás… a chorar, pequenina? – questionou tremulamente, deixando-me ouvir os barulhos revoltos da sua colcha, provocados provavelmente pelo movimento brusco que o seu corpo tomou ao erguer-se da cama… mas eu limitei-me a chorar, não revelando então qualquer preocupação em abafar o som ofegante da minha respiração plangente – Que aconteceu, Adriana? Fala comigo, por favor…

- Está tudo acabado, Diogo… - sussurrei esporadicamente numa voz desvanecida pelo choro, que se dissipou no silêncio da madrugada que corria célere, anunciando na linha do horizonte alaranjado o chegar de um novo dia – Acabou tudo…

- Mas acabou o quê, Adriana? – o nervoso que lhe abarcou a voz, transpareceu em cada agudo solene que moldou o seu timbre placidamente colocado – Diz de uma vez, estás a deixar-me preocupado…

- O David, Diogo… O David tem outra pessoa! – vacilei claramente, assim que assumi a dolorosa veracidade em que estava embebida e à qual me encontrava destinada nos próximos dias

- Outra pessoa? – questionou, descaindo a intensidade da sua voz juntamente com um sopro de ar quebrante – Oh Adriana, eu avisei-te… Avisei-te tantas vezes! – depois de sentir que as suas palavras somente serviram para atear um sentimento de culpa que já estava demasiado acesso, resolveu intervir oportunamente, desculpando-se – Não chores, Adriana… Não chores, por favor!

A sua súplica não conseguiu de todo deter-me no decurso de um sentimento que não era fingido e estava a ser exteriorizado ao máximo, pois por enquanto ainda me encontrava sozinha para puder agir intimamente comigo mesma e compartilhando a minha dor com um amigo que se tornara presente a todas as horas más. No entanto ele conseguiu acalmar-me – ou melhor – a vontade extrema que tive de ver o seu penar impotente sumir foi tanta, que acabei por me controlar, deixando que as lágrimas corressem pelas minhas faces sem emitir um único som.

- Ele trouxe-a para o casamento do Ruben… Tive de a conhecer! – murmurei baixinho, enquanto as minhas unhas chapinhavam o contorno insípido do músculo angular da minha coxa, esperando deter-me de uma possível recaída – Não imaginas como me sinto humilhada…

- Tu sabias que isto poderia acontecer, Adriana… - o seu alerta ressoou junto do meu ouvido, mas sentiu-se na memória de uma conversa passada que havíamos tido – Eu avisei-te, pequenina…

- Eu sei… Eu sei que avisaste, mas agora é tarde! Tão tarde para voltar atrás…

- Vais ter de aprender a viver…

- … sem ele! – quebrei o discurso imponente do meu amigo chegado, antes que ele próprio retratasse um cenário, que por enquanto eu preferia ignorar, deixando-o arrumado até que assim fosse possível – Eu sei disso, jamais me oporia na sua felicidade! E o pior é isso… É que ele parece feliz!

- Se calhar ele está feliz… E tu devias tentar fazer o mesmo!

- Como, Diogo? Como, se ainda o amo tanto? Diz-me…

- A vida é assim, Adriana… Dá voltas! Voltas tão grandes que por vezes nem julgamos possíveis, talvez a vossa história tivesse de ser assim, talvez haja alguém melhor reservado para ti e para o teu futuro! – cada palavra que ele acrescentou àquela barbaridade, mais a fez soar ridiculamente impossível aos olhos de alguém que amava tanto David quanto eu

- Não há ninguém melhor do que ele, Diogo… Nunca irei amar ninguém do mesmo jeito que o amo, é um facto! – assimilei certa de que a única verdade que se mantinha para mim, iria ser eternamente inalterável, independentemente dos acontecimentos que a vida pudesse planear para mim

- Mas nada te impossibilita de amar de novo… - preparava-me para o contestar, mas provavelmente, como já conhecia o conteúdo do meu seguinte discurso, Diogo antecipou-se – Não digo amar com a mesma intensidade… Mas amar! Dar uma oportunidade a ti mesma para ser feliz!
- Não vou mais ser feliz como fui do lado dele…

- Não, senão tentares… Aí não irás ser de certeza! – após as palavras sábias vindas de uma pessoa que um dia amara de forma desmedida e por quem nutria então um carinho infindável, o silêncio instalou-se dando apenas espaço às nossas respirações para que falassem no vagante tempo

- Sinto-me tão sozinha aqui… - ciciei, buscando receber da sua parte um conforto, um ombro amigo… ainda que distante

- Não tens aí os teus amigos?

- Tenho… Mas ter de confrontar a cada minuto a nova namorada dele é sufocante! Ter de o ver a ele é sufocante… Só queria desaparecer daqui!

- Então porque é que simplesmente não sais daí…Hum? – a sua voz meiga, fez-me crer durante meros segundos, que tudo era de simples resolução, mas depressa recordei a promessa que havia imposto a mim mesma e ao meu melhor amigo de infância

- Não posso, Diogo… Simplesmente não posso!

- Não podes… ou não queres?

- Não posso… Eu prometi ao Ruben que ia ficar do lado dele esta semana! – justifiquei apressadamente, tentando no meu íntimo compreender a verdadeira resposta àquela pergunta intriguista, que me baralhou os sentidos – É o meu melhor amigo… É o casamento dele… Não posso abandoná-lo!

- Tu podes… Só que não queres! – Diogo não me pareceu disposto a meias palavras ou meias verdades, talvez porque o seu à vontade comigo fosse muito superior a todas as desavenças passadas, que estavam mais do que findadas – Não queres porque quando partiste para aí tinhas a ideia fixa de rever o David… Não queres porque te agarraste à esperança de finalmente as coisas se puderem resolver… E não queres porque apesar de teres visto com os teus próprios olhos que ele está feliz com outra pessoa, essa esperança não desapareceu e continuas à espera que suceda um milagre e tudo volte a ser tal e qual como antes…

- Não é verdade, Diogo… - a minha tentativa de argumentação foi rapidamente refutada pelo seu maior opositor

- É, Adriana… Tu sabes tão bem disso quanto eu! Não tens aí um carro?

- Sim…

- Não tens vontade própria?

- Claro que tenho…

- Não tens sítio onde ficar esta semana para além da casa dos pais do Ruben?

- Sim, claro que tenho… - concordei, sentindo a sua insistência persistir em cada uma das questões que me eram impostas numa liberdade interrogativa própria de um discurso banal entre duas pessoas cujos sentimentos estavam polidos pelo passado

- Então, Adriana… Se continuas aí é porque de alguma forma queres estar aí!

- Ai, Diogo… - as minhas pálpebras pesaram e acabaram por recair pesadamente na linha d’água, retirando-me a visão perfeita do horizonte iluminado que se erguia sob os meus olhos – Esta esperança não vai nunca desaparecer… Chama-se amor e eu não consigo desistir dele!

- Tens de seguir em frente… A menos que estejas disposta a lutar pelo David, mas agora parece-me um bocadinho tarde!

- Ele está feliz… Não imaginas como ele está feliz com ela! São um casal de namorados perfeitamente normal… Ele já a apresentou aos pais e tudo, Diogo! – relembrei, enquanto as lágrimas se apoderavam novamente dos meus olhos, antecipando o percurso que planeavam traçar no meu rosto

- Adriana, não te quero ver assim… Segue em frente! Por muito que doa… Por muito que sofras! O amor é assim… Nem sempre tem de haver um final feliz, princesa…

- Tens razão… Eu sei que tens, mas tenho de me conformar com a ideia, até lá vou continuar a sofrer… - reconheci, adiantando a mágoa que me iria elucidar durante aqueles dias destinados pelo enlace do meu melhor amigo

- As coisas demoram… Dá simplesmente tempo ao tempo! – aconselhou-me calmamente, fazendo-me adivinhar nos seus lábios um contorno perfeito para um sorriso compreensivamente carinhoso

- Quem me dera ter-te aqui… - segredei num murmúrio padecido pelo vagar tranquilo que arrastava a noite, fazendo-a dissipar-se no raiar de um novo sol, que deveria tomar o seu lugar na linha do horizonte dali a pouco mais de uma hora

- Quem me dera estar aí contigo… Não imaginas como gostava de te puder ajudar mais do que isto!  - ouvi-o suspirar pesadamente, conformando-se com os milhares de quilómetros que nos separavam de lados diferentes de um só oceano

- Já me estás a ajudar muito, miúdo… Só o facto de ter alguém com quem desabafar, já ajuda muito!

- Mas não é a mesma coisa… Não te posso confortar! Desculpa… - o seu perdão soou-me tão patético, que me vi forçada a intervir, face à não-obrigação que compartilhava comigo e que me dava a plena noção que na cidade das luzes ele vivia o seu sonho, paralelo à vida que eu cá seguia

- Não tens de pedir desculpa, Diogo… Além disso, daqui a um mês estás de volta e vou finalmente puder ver-te e chatear-te muito! – rapidamente a conversa pesarosa torneou-se de novas formas e acabou arrastada para uma brincadeira cúmplice de dois amigos recentes, mas unidos

- Terei o maior dos prazeres em que me chateeis… É para isso mesmo que os amigos servem!

- Obrigada, Diogo… Obrigada por te teres tornado um amigo tão bom pra mim! – passivamente delimitei os meus lábios num sorriso modesto e grato, por tudo aquilo que ele já fizera em tão pouco tempo

- Ninguém diria que o puto estúpido de quem um dia gostaste se ia tornar num gajo à maneira! – gracejou, fazendo-me libertar uma gargalhada entrecortada pela respiração bafejante em contraste com o frio delicado, que anunciava a aurora

- Sempre foste uma boa pessoa… Simplesmente ainda não tinhas crescido o suficiente para dar o respectivo uso a isso!

- Acho que foi a vida e todas as situações que travei, que acabaram por fazer com que crescesse assim… e tão rápido!

- Ainda bem que assim foi… Uma pessoa maravilhosa como tu precisava vir ao de cima e dar-se a conhecer! Só tens a ganhar com isso, Didi…

- Se isso me fizer ter como amigos, pessoas tão maravilhosas quanto tu… então sim! Valeu a pena crescer! – quase que telepaticamente tive a certeza que ambos sorrimos, embalados pela nostalgia do momento, deixando depois que só o silêncio imperasse, rompido pelos primeiros chilreares das pequenas aves que habitavam as copas dos carvalhos circundantes à casa – Devias ir descansar… Aí já é quase de manhã!

- Sim… E tu também! Mais uma vez desculpa ter-te acordado…

- Não te preocupes com isso… Podes ligar sempre que precisares, a qualquer hora que seja! Tens a minha autorização…

- Obrigada… Vou tentar não ser muito chata, prometo! – garanti, erguendo-me por instantes da cadeira de verga que abrigava o meu corpo da brisa gélida que envolvia o ar pesado, que circulava em torno de mim – Cuida de ti por aí, miúdo…

- Não te preocupes, eu fico em boas mãos! E tu vê se colocas um sorriso nessa cara e segues em frente… Já é hora, pequenina!

- Prometo que vou tentar, Diogo… Nem que seja pelas pessoas que amo!

- Sempre que quiseres, já sabes… Liga-me, manda-me mensagem, o que quiseres! Vou estar sempre disponível, Adriana!

- Obrigada… Agora vou para dentro, que está a começar a amanhecer! Beijo grande, dorme bem! – desejei cordialmente, segurando junto do ouvido o meu telemóvel de última geração, preenchido por um infinidade de teclas, perfeitamente alinhadas junto do ecrã

- Tu também, Adriana… Beijo, adoro-te! – sorri, esquecendo-me de que apenas estabelecia uma ligação telefónica e coloquei-lhe um fim, pousando o telemóvel no beiral da varanda

No fundo da paisagem, por detrás do lago que se avistava lá ao longe, o sol começava a surgir, matizando o céu de uns dois ou três tons quentes, que antecipavam a luz radiante que prestes se ergueria no firmamento. Sorri novamente, no mesmo instante em que inspirei a aragem que brandamente circulava agitando as flores e as vagens de colheita, e que me trouxe a doce sensação da companhia. Pelo menos tinha a certeza de que não estava, nem estaria mais sozinha… Do meu lado tinha Diogo, disponível a todos as horas para absorver as minhas mais delineadas confissões, e para além dele a minha família e restantes amigos, que até à data já tinham dado provas suficientes de que iriam sempre ficar do meu lado, mesmo nos piores momentos. Conformei-me com o facto de um regresso eminente ao quarto onde provavelmente todos ainda pernoitavam, ao contrário de mim, que quedava junto do beiral da varanda, e de Joana, que saíra a meio da noite, e até então não regressara.
Num passo oscilante, e não sem antes recolher para mim o telemóvel que repousava sobre o pequeno muro do eirado, aproximei-me das portadas brandas, que sustinham o ambiente pesado que plenificava o quarto e depois de as arrastar delicadamente a fim de não acordar ninguém, voltei a deter o poder total do espaço onde me encontrava.

- Já acordada, Adriana? – Andreia, que acabava de sair da casa de banho que servia o nosso quarto, interpelou-me, correndo minuciosamente o seu olhar na minha figura, como que talvez procurando um sinal de fraqueza que todos esperavam ver recair sobre mim durante aquela semana

- Sim… Fui apanhar um pouco de ar, mas vou já voltar para a cama… - esclareci, sorrindo-lhe e vendo-a corresponder, enquanto ambas nos recolhíamos ao conforto das nossas camas individuais, que se distribuíam desordenadamente pelo enorme quarto

- Fazes bem… Vou aproveitar para dormir mais um pouco também, até já! – a sua voz sempre serena, repousou no mesmo instante em que a sua cabeça aportou sobre a almofada, preparando-se para mais uma ou duas horas de descanso, enquanto eu numerava ainda nenhuma

- Até já, Andreia…

Recolhi o meu corpo, puxando até junto das pernas de Sofia os meus joelhos e abrigando debaixo da minha face esquerda, uma das minhas mãos, ilustrando assim a minha figura já habitual enquanto pernoitava. A outra mão limitou-se a pousar sobre o corpinho relaxado da minha afilhada, que permaneceu alheia a todas aquelas horas de sofrimento, vivendo as suas fantasias, até que o despertar matutino assim o ditasse…



***


 
- Mad’inha… Mad’inha… - acordei embalada no timbre harmonioso de Sofia, sentindo as suas mãos fazerem um esforço extra para me movimentarem levemente, esperançosas em que despertasse prontamente – Acorda, mad’inha…

- Hum… - a minha preguiça ofereceu resistência aos primeiros instantes da manhã, anunciada pelos raios de luz que trespassavam discretamente as persianas mal corridas do quarto – Mais um bocadinho…

- Mad’inha, acorda… Eu tenho fome! – balbuciou, usando os seus pequeninos dedos para me desembaraçar as pontas dos cabelos fatigadas por umas quantas e ligeiras duas horas de sono

- Hum… Tens fome, meu amor? – inquiri, no mesmo instante em que senti o meu peito abalado pela preocupação sempre presente com aquela criança
- Shim… Tenho, mad’inha! – assentiu, agitando a sua cabecinha coordenadamente e declarando a sua necessidade matinal

- Então calça os chinelinhos que a madrinha vai tratar de ti… - ordenei, forçando o meu corpo a despertar mais cedo que o previsto e ganhando possança nas pernas, para que estas sustentassem o meu corpo logo pela manhã e após um acordar tão repentino

- Já ‘tá, mad’inha…

- Então vamos, meu amor… Não faças barulho!

Após erguer o indicador junto dos meus lábios, emitindo um pedido de silêncio, tomei a sua pequena mão na minha e delicadamente abri a porta do quarto para que pudéssemos sair, sem incomodar o repouso das restantes mulheres que se encontravam presentes e adormecidas. Ao passar junto da cama de Joana, constatei que esta já se encontrava lá e tal como as outras, ficou alheia à minha saída, que findou, assim que encerrei a portada branca e dei início a um percurso no corredor.

- Ainda estão todos a domilhe, é? – questionou, Sofia, espreitando cuidadosamente todas as portas recostadas no corredor, esperando, tal como eu, reconhecer algum rosto familiar, que se tivesse inteirado da manhã tão presto quanto nós

- Sim, meu anjo… Devem estar, ainda é muito cedo!

- Mas é que eu já não tenho sono… - exclamou, erguendo no ar o seu modesto indicador e fazendo-o rodopiar até este colidir com a pontinha do seu nariz resfriado pela atmosfera da casa

- Mas isso foi porque te deitaste cedo, meu bem… - concordei, auxilianda-o de forma segura, enquanto descíamos três lances de escadas, revestidas a alcatifa num tom bege

- E porque tenho fominha, mad’inha… Muita! – reafirmou, comprimindo a sua testa em três expressivas rugas, que lhe conferiram um aspecto deleitoso

- Então vamos lá tratar disso! – clamei, segurando-a nos meus braços para que encaixasse num dos bancos altos da cozinha, que se encontrava intacta, dando sinal de que desde a noite anterior mais ninguém a usara

Recolhi do armário superior, junto do lava loiças, uma taça funda feita numa cerâmica ceifada por uma mescla de cores vivas e pousei-a junto da bancada, que iria servir de suporte à primeira refeição do dia para a minha pequena menina. Caminhei até ao frigorífico e depois de encontrar o desejado pacote de leite, aqueci uma pequena porção, preparando-me para aprontar o pequeno-almoço de Sofia.

- Já estás mais fewiz hoje, mad’inha? – perguntou de rajada, vinda do nada, enquanto eu dispunha na taça de leite os primeiros flocos de avelã, juntamente com umas quantas pepitas de chocolate negro

- A madrinha já estava feliz, meu amor… Mas sim, hoje ainda estou mais! – confirmei, pretendendo fazer-lhe a vontade e não dar asno a uma conversa semelhante à da noite passada, que a qualquer segundo me poderia fazer vacilar

- Ontem num estavas… Cholhaste! Mas eu num digo a ninguém… P’ometo! – cruzou na frente dos seus labiozinhos os dois dedos indicadores e beijou-os, dando sinal de que iria cumprir a promessa mais recente, partilhada por nós duas… madrinha e afilhada.

- Eu sei que não dizes, meu amor… - assim que acerquei o meu corpo do seu, beijei-lhe harmoniosamente o topo da cabeça e na sua frente pousei a taça de cereais suficientemente abastecida para lhe saciar a fome – Agora come, princesinha!

- Ob’igada, mad’inha! – sorriu-me e sofregamente segurou a colher de metal na sua mão e deliciou-se com a simples refeição que lhe preparara

Enquanto Sofia devorava a primeira refeição do dia, eu aproximei-me da porta traseira da cozinha e espreitei pelo pequeno quadrado de vidro duplo, que me oferecia a visão periférica do jardim, onde a minha pequena Quimera havia passado a noite, amarrada a uma árvore e sujeita aos desprazeres de uma noite pungente de Inverno. Contorci-me no meu íntimo ao ver a tristeza demarcada em cada um dos seus movimentos meigos, enquanto remexia a relva húmida pelo zimbro, com o seu pequeno focinho saliente. Quis sair para brincar um pouco com ela, mas tinha sob a minha guarda Sofia e ainda me encontrava de pijama e pantufas, o que me fez retrair o desejo e guardá-lo para mais tarde.

- A Quimelha está lá fo’a? – rodei o meu corpo sobre os calcanhares de modo a ver a minha afilhada, que na sua frente apresentava uma taça já quase vazia

- Sim, meu anjo…

- Po’quê? Tu nunca a deixas na rua….

- Mas hoje teve de ser, amor…

- Oh, eu go’to de b’incalhe com elha! – exclamou, erguendo as suas mãozinhas em sinal de decepção face a ausência da minha companheira de longas e faustosas horas

- Mais logo prometo que te levo lá fora para que possam brincar, sim? – sugeri, aproximando-me mais uma vez do seu corpo inocente e remexendo nos seus cachinhos rebeldes, que lhe emolduravam canonicamente o rosto angelical de criança reguila

- Sim, mas também quero brincar contigo! – pedinchou, enterrando o seu rostinho sobre os dois punhos cerrados, erguidos verticalmente no ar e apoiados sobre os cotovelos que jaziam sobre a bancada de granito

- A madrinha não tem tempo para brincar contigo, amor… Tenho coisas a fazer! – o desgosto pelo simples facto de não puder compartilhar um par de horas de pura brincadeira com a minha afilhada, recaiu sobre o meu ser, afectando a animação matinal que se havia apoderado de mim

- Oh… Agolha nunca tens tempo pa’ mim!

- Desculpa, pequenina… Mas a madrinha anda cansada e tem um monte de coisas para fazer…

- Oh, tudo bem… Eu vou para ao pé da minha mamã! – num pulo rompante, saltou da alta cadeira para o chão e iniciou uma corridinha direccionada ao piso superior, ou melhor, ao mesmo quarto que me pertencia a mim e à sua mãe

- Sofia, espera… - chamei o seu nome, mas a tarefa de a demover foi totalmente em vão

Sem dar conta de que isso acontecesse, senti um aperto enorme assaltar-me o peito, comprimindo o meu coração num punho cerrado e bem atado pelos nós dos dedos. Tentei respirar fundo, mas a culpa que sentia dentro de mim não desapareceu, devido à plena consciência que detinha relativamente à desilusão que dera à minha pequena afilhada.
Durante meros segundo, reconsiderei segui-la e procurar serenar a decepção que causara naquele ser frágil, mas o meu corpo estava tão massacrado pelas poucas horas de sono, que foi incapaz de agir sozinho e comandar os meus pés para que estes se movessem ao sabor do coração. Fiquei então ali… Completamente inerte, completamente inanimada, buscando forças não sei onde para subir o olhar e fazer face à vida e às suas adversidades.
 Os meus olhos encerraram-se de cansaço e o meu corpo acabou por tombar sobre uma das cadeiras da cozinha, aquela que se encontrava ligeiramente deslocada da mesa, e nem os passos trepidantemente suaves que percepcionei ao fundo da escada, me fizeram erguer ou mostrar um sorriso que não era meu e o qual não sentia vontade de exibir faustosamente.

- Adriana… - a fala melodiosa de Paula, despertou-me do meu estado dormente de cansaço e fez-me pela primeira vez olhá-la, quando nos encontrávamos sozinhas naquele espaço

- Bom dia, amor… - murmurei calmamente, deixando o meu olhar pendurado no limite entre a bancada e o chão, e não encontrando forças para o altear

- Bom dia, princesa… - clamou, beijando-me o topo da cabeça com os seus lábios cálidos de ternura – Que carinha é essa?

- É a minha…

- Eu conheço-te… Algo se passa, amor!

- Ai, Paulinha… - assim que pronunciei o seu nome, a minha cabeça descaiu sobre o colo e duas lágrimas gordas precipitaram-se vertiginosamente, esmorecendo na pele que contornava as minhas coxas despidas

Lá estava eu… A chorar novamente por ele. Pelo único homem que detinha aquele puder avassalador sobre mim! Tudo em mim pedia “David”, tudo em mim vivia para e por ele e incrivelmente sentia-me tremendamente vazia. Até a minha pequena Sofia estava desiludida com a pessoa em que me havia tornado, o que de certa forma me levou a considerar que talvez David estivesse certo e eu não era mais a mesma Adriana de sempre.

- Fala comigo, amor… Que aconteceu? – perguntou-me Paula, segurando as minhas duas mãos e agachando-se junto de mim, determinada a não sair de perto, enquanto não me reconfortasse com o calor da sua amizade fulcral
- O David, Paula… O David… - apenas consegui esboçar o nome dele na terminação dos meus lábios, enquanto um soluçar aflitivo dominava a minha respiração
Talvez porque me sentiu demasiado nervosa, Paula segurou-me junto de si e plantou-me no sofá da sala, onde me entreguei a um choro compulsivo assim que esta se ausentou para regressar minutos depois com uma caneca fumegante de chá de camomila.
- Toma, amor… Bebe isto! – ordenou-me enquanto ocupava o lugar vago do meu lado e pousava a sua mão encorajadora no fundo da minha coxa
Sabia que era inútil contestar o simples facto de não querer sorver nada numa altura como aquela, por isso limitei-me a obedecer às suas ordens e sempre com as lágrimas constantes brotando dos meus olhos, bebi até ao último golinho a caneca que estava cheia.  
- Mais calminha? – perguntou carinhosamente, passando os seus dedos pelos fios delicados dos meus cabelos, mas apenas se acautelou de um simples acenar de cabeça da minha parte – Fala comigo… Com calma, conta-me o que tens.
- O David, Paulinha… Ele é feliz com a Joana! – as primeiras palavras que proferi não se devem ter associado de forma lógica no pensamento da minha amiga, pois esta esboçou uma expressão de estranheza, mas eu prossegui com o meu desabafo – O David… Eu vejo que ele é feliz com ela, que me esqueceu! – as lágrimas retomaram aos meus olhos perante a confissão revelada, deixando-a sem reacção face a tanto desespero
- Oh princesa… Passaram cinco meses desde que vocês se separaram! – relembrou-me no seu jeito carinhoso, acarinhando-me o rosto com as polpas dos seus dedos quebradiços
- Mas mesmo assim… Nós amávamo-nos tanto, Paula! Tanto…
- Tu sabes que o amor por vezes acaba, não sabes, amor?
- Sim, mas o nosso era diferente… Era para ser para sempre, ele prometeu-me! – proferi alteando levemente a voz, como se o simples facto de o fazer, fosse conferir outra veracidade às minhas palavras
- Muito pouca coisa é para sempre… Os sentimentos são mesmo assim!
- Também achas que ele não me ama mais, não é? – inquiri, encarando-a olhos nos olhos, pois conhecíamo-nos bem demais para eu reconhecer a misericórdia de uma mentira no seu olhar
- Acho que o David ficou muito magoado com o fim da vossa relação e entretando tentou ser feliz de outra forma…
- Com a Joana… - relembrei amargamente, rolando os meus olhos em dois círculos perfeitos num simples revirar
- Sim… com a Joana! – a confirmação para a minha teoria só provocou uma força maior no choro que despoletava a cada instante dos meus olhos já trucidados pela maratona de lágrimas que haviam atravessado
- Eu sei que errei, Paula… Mas… Eu pensei… Eu pensei que as coisas iam ser diferentes esta semana… Que nós íamos falar e… e… - os planos futuros que traçara na minha mente, tinham-se anulado num simples instante em que cruzei o portão daquela casa e vi aquela mulher beijar os lábios do (meu) homem - Deixa pra lá o que eu pensei…
- Oh amor… Achaste que vocês iam falar, fazer juras e ele acabava com a Joana para assumir esse amor? – inquiriu, acariciando-me meigamente as faces
- Achei… Achei que apesar de toda a mágoa ele ainda me amava e esse amor era superior a todas as dores que lhe havia provocado… - não consegui terminar o decurso das minhas palavras, pois um choro vagabundo apoderou-se de mim  
- Vem cá… - puxando-me para si, a minha doce Paula, acabou por me envolver no calor do seu abraço protector
- Dói tanto, Paula… Tanto… - confidenciei num soluçar miudinho e ressentido pela esperança findada naquele amor
- Eu sei, amor… Eu sei… - afirmou, embalando-me nos seus braços até que eu finalmente acalmei… as lágrimas secaram e um silêncio profundo instalou-se
Não ousei dizer uma única palavra e ela tão pouco, porque talvez adivinhasse a dor que trazia comigo e a inutilidade de qualquer palavra face a esse sentimento rancoroso com o destino. Manteve-se então protegida e amada no refúgio do abraço, mesmo sabendo que nunca iria conseguir preencher o vazio deixado pela partida de David da minha vida.
- Paulinha… - fui eu a primeira a quebrar o sossego e a separar os nossos corpos prolongadamente unidos por um abraço
- Diz, amor…
- Sabes o que dói mais? – questionei retoricamente, olhando os seus olhos, com os meus rasos de lágrimas – Não é saber que ele está com outra pessoa… É saber que ele está com outra pessoa e já não me ama mais!
Para além das lágrimas que me escorreram pelo rosto, percepcionei os olhos de Paula plenos de lágrimas… penso que se emocionou com a fraqueza do meu ser actual e sentiu pena, pena do sofrimento em que aprendera então a viver.
- Nunca pensei que ele me fosse substituir tão depressa… - confessei monocordicamente, recaindo a minha cabeça nas costas do sofá bege onde nos encontrávamos
- A vida seguiu para os dois…
- A dele seguiu depressa demais… Eu ainda nem consegui olhar para mais nenhum homem, quanto mais iniciar um relacionamento e assumi-lo perante tudo e todos!
- Com o tempo… Com o tempo irás aprender a fazê-lo!
-- Arrependo-me de tanta coisa… Se calhar devia ter lutado por ele, tentado reatar o amor que sentíamos, mas não… Deixei por morrer por completo a coisa mais bonita que alguma vez senti por alguém!
- Adriana, olha pra mim… - pediu, colocando a sua mão no meu queixo e obrigando-me a encará-la sem espaço para desistências ou fraquezas – Tu e o David têm um passado, uma história, tiveram juntos muito tempo… Sim, acabou! Por um erro teu, que ele não soube perdoar… Tu seguiste o teu caminho, não apareceste mais, não o procuraste e acho que ele não achou correcto seguir atrás de ti, manter-te sempre presa senão tinha a mínima intenção de te perdoar depois de o teres deixado de novo em Paris…
- E o amor acabou… Ele não me ama mais! – murmurei chorando de forma miudinha e sentida
- Amor, não entendas isto como um sinal de esperança, mas de um jeito ou de outro, o David vai sempre amar-te… À sua maneira! – afirmou compreensivamente, denotando a sua voz de uma ternura extrema que já lhe era característica – De um grande amor como o vosso, fica pelo menos o carinho…
- Mas essa maneira… Esse carinho… Não chegam para ele voltar a ser meu! Agora é a Joana que tem o bem mais precioso da minha vida!
- E tu tens de te conformar com isso e seguir com a tua vida, Adriana! Para trás fica o David, namorado de dois anos; e em frente fica o David, grande amigo!
- Mas como é que eu posso ser apenas amiga de uma pessoa que amo tanto? – a pergunta ficou suspensa no ar e eu não obtive uma única resposta da parte dela
Senti-a percorrer o olhar pela sala na esperança de que alguém ou alguma situação a livrasse daquela pergunta sem resposta possível, mas o que eu desconhecia… o que ainda estava para vir… eram uma dúzia de respostas, que se iriam arrastar até mim nos próximos dias, talvez até bem mais cedo do que aquilo que imaginava!





Antes demais quero pedir desculpa a todas as leitoras pela demora deste capítulo, mas já sabem o porquê desta situação.
Como o prometido é devido, cá fica o capítulo, sem previsões de quando conseguirei postar o próximo.
Espero que gostem e comentem :)
Beijinhos, Drii
P.s - Para quem perguntou a música do blogue é "It will rain - Bruno Mars"    :)