P.s - Por aviso de uma leitora, apercebi-me que a segunda parte do capítulo 113 havia sido apagada, sem eu sequer me aperceber. Por isso aqui a reponho, apesar de ficar fora da ordem do blogue! A todas as outras leitoras, peço desculpa por qualquer incómodo que possa causa, beijinhos :)
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O tempo apagou as feridas que se haviam restabelecido no meu coração… Se dissesse que não relembrava David tão frequentemente como aquilo que gostaria, estaria a mentir com todo o meu ser, mas no entanto as recordações não eram suficientes para me autodestruírem. Afinal de contas o mês de Agosto findara-se e um novo ciclo tinha tido o seu maravilhoso início há coisa de três dias. Acerca dele nada mais sabia do que aquilo que encabeçava as manchetes dos jornais, mas substancialmente estas falavam do Benfica e o início de época desastroso que estavam a ter e acerca dele somente lera uma coluna de críticas, que maltratara o trabalho que tinha vindo a desenvolver… Falavam de um David “diferente”, imaturo dentro das quatro linhas, impulsivo frente ao adversário e que já tinha oferecido inúmeros golos aos opositores. Fiquei preocupada… Não tanto por ele, mas pela equipa do meu coração e todos os outros rapazes que sabia estarem desmoralizados com um início de competição tão atribulado.
Já eu, isolei-me durante uma semana em terras espanholas… Mais especificamente em Madrid, onde me dediquei somente a uns dias de lazer e cultura, que disfrutei a meu belo favor, tendo em conta que o segundo ano de faculdade se aproximava a uma velocidade furiosa e ameaçava ser implacável, levando-me aos extremos do desgaste físico e psicológico.
Por isso foi tempo de repor energias, recarregar as baterias e depois de confirmar o armazenamento, seguir viagem rumo ao meu obsoleto e entediante dia-a-dia.
- Bom dia, filha… - a minha mãe beijou-me as faces meigamente, mostrando um enorme sorriso de felicidade, símbolo do sentimento aprazível de que era alvo por me ter como sua companhia em casa há já uns dias… o que não era de todo habitual nos últimos tempos desde que saíra de casa
- Bom dia, mãe linda! – afirmei com a mesma confiança de alegria na voz, beijando-lhe o topo da cabeça e tomando lugar na enorme mesa de pequeno-almoço que ela tinha preparada para nós
- Acordaste cedo, meu amor… - constatou derramando no meu copo o já habitual café, que eu fiz questão de complementar com uns quantos pingos de leite frio, retirado directamente do frigorífico
- Sim… Ainda tentei adormecer de novo, mas andava às voltas na cama, por isso resolvi levantar-me! – gracejei, estendendo o meu corpo sobre a mesa, de forma a alcançar o pratinho das torradas
- Hum… Às voltas na cama? – inquiriu, deixando transparecer no seu olhar a típica preocupação que eu tão bem lhe conhecia e decifrava apenas com um toque – Alguma coisa a atormentar essa cabecinha?
- Não… Apenas muitas coisas para tratar antes que as aulas comecem… - esclareci, enquanto a minha mão barrava na torrada de pão integral, uma porção generosa de geleia de framboesas - uma das minhas preferidas – e prossegui com o discurso – Tenho de ir encomendar os livros… Arrumar aquele escritório lá de casa que anda numa bagunça, dar uma boa limpeza na casa e se ainda tiver tempo passar pelo atelier do João Rôlo, para ver se ele já tem algum esboço para eu usar no casamento do Ruben… Como vês tarefas não me faltam!
- Tens de abrandar esse ritmo… Daqui a nada estás pronta para ir de férias de novo, Adriana! – relembrou-me num tom assertivo e cortês os cuidados a ter para preservar a minha saúde física e mental
- Não se preocupe, mãe… Já sou crescidinha! – recordei, mastigando ainda a primeira dentada que dera na torrada adocicada pela compota de aroma frutado
- Se quiseres posso ir encomendar os livros por ti… Dá-me a lista, que eu trato disso!
- A mãe tem de ir para o emprego… Não lhe quero dar trabalho! – discordei, pairando a caneca de café fumegante junto do meu nariz e sentindo-lhe o meigo aroma da nostalgia que sentia de casa… da casa onde vivera a minha infância e onde agora me encontrava
- Não dás trabalho nenhum… Além disso ainda estou de férias e só preciso de passar lá no emprego para assinar uns papéis, posso perfeitamente tratar-te disso!
- Hum… Sendo assim talvez aceite! – acabei por ceder, pois por muito que me custasse admitir aquela oferta iria aliviar em muito todas as alíneas da minha agenda para aquele preenchido dia
- Aceitas e não se fala mais nisso! E quanto a essas arrumações e limpezas também não me importo de dar uma mãozinha… - sugeriu, pousando em cima da mesa o guardanapo de pano que até então lhe resguardara o colo
- Não! Isso é que eu já não posso aceitar, mãe…
- Que raio de ideia é essa, Adriana? Posso perfeitamente ajudar-te… Também não deves ter a casa assim tão desarrumada! – anuiu, deixando que uma expressão pacificamente maternal lhe assomasse as feições
- Não… Não está assim tão desarrumada, mas a mãe já tem as suas coisas para cuidar e eu posso perfeitamente desenrascar-me!
- Oh Adriana, olha que as horas a menos de sono fizeram-te de mal… Sou tua mãe, é óbvio que te irei ajudar! – pelo seu tom expressivo e vocacionado, compreendi que de nada adiantaria contrariá-la, pois seria o mesmo que lutar em punhos contra uma parede… sabendo que jamais iria sair vencedora!
- Pronto… Mas também não é preciso nada demais! Limpar o pó, abrir as janelas, trocar a roupa das camas e está feito! Depois do escritório cuido eu… - informei, deixando que pela minha garganta rouca passasse uma boa dose de café com leite, que me aqueceu a alma e amenizou o desconforto do meu estômago – E não se fala mais nisso! – ripostei erguendo no ar o indicador, no mesmo instante em que senti que ela iria revogar a minha decisão
- Essa tua teimosia… - indagou, mantendo-me debaixo de um olhar forçosamente ameaçador e preparando-se para proferir a típica frase associada àquele defeito – Sais mesmo ao…
- … meu pai! – rematei, abrindo espaço para que ambas soltássemos umas breves e despojadas gargalhadas, que nos eclodiram do fundo da alma - Já sei… A mãe já tinha dito!
- E então… Se eu te ajudo nisso tudo e faço a encomenda já só precisas de te preocupar com o vestido de madrinha…
- Sim… Pelo menos o João disse-me que por esta altura já teria qualquer coisa para eu ver, por isso não custa passar por lá! – murmurei, enquanto transpunha nos meus lábios timbrados de um rosa leve, o guardanapo de linho branco
- Fazes bem… Eu ainda não sei o que escolher para levar e estamos a dois meses do casamento!
- Se a mãe quiser eu levo-a lá e ele faz-lhe qualquer coisa… - sugeri no mesmo instante em que senti o desconforto prescrever-lhe cada palavra de insegurança e dúvida relativamente ao fato que deveria levar
- Oh filha… Isso é bom para ti que tens um corpinho jovem e uma carinha de menina e tudo te assenta bem, agora eu não… Prefiro coisas mais resguardadas! – vi-me obrigada a ceder-lhe a razão e mais uma vez nos rendemos a um riso freneticamente reconfortante – E então… Nunca mais estiveste com o Ruben desde Paris?
- Não… Falei no outro dia por telefone com a Inês sobre o casamento, e claro que ela está uma pilha de nervos, mas tirando isso… mais nada! Nunca mais nos vimos, sequer… - relembrei pesarosamente o facto de não ver o meu melhor amigo há duas semanas e um aperto sucumbiu rapidamente o lado esquerdo do meu peito, suprimindo-me os batimentos cardíacos
- Isso não é normal em vocês… Aconteceu alguma coisa em Paris? Discutiram? – aquele coraçãozinho de mãe era mais astuto do que o que eu esperava e deslindava-me com franqueza todos os segredos escondidos
- Não, mãe… Que disparate! Raramente me vê discutir com o Ruben, diria até que quase nunca!
- Então… Alguma coisa aconteceu para não se falarem! – reivindicou, mantendo no rosto a expressão ávida de sabedoria que tão bem a qualificava – Vocês não aguentam dois dias sem pelo menos trocarem uma mensagem…
- Oh mãe, as pessoas mudam… Eu já não sou aquela miudinha e o Ruben é um homem, prestes a casar-se! – relembrei, recorrendo a factos fustigados pelo tempo para justificar algo que só encontrava a sua explicação numa longa omissão à minha mãe – Ele anda ocupado com as coisas do casamento… É normal que não nos falemos tantas vezes!
- Para mim não é normal, pois sei que vocês são quase como irmãos um para o outro… Não é normal ficarem sem se falar tanto tempo, mas se preferes não falar eu respeito isso, meu amor… - senti os seus dedos passarem de fino modo nas bochechas da minha face, tentando amenizar a pequenina dor pelejante, que adivinhava em meus olhos um meigo rastilho de lágrimas
- Bem… Vou então vestir-me para passar pelo atelier e ver como estão as coisas relativamente ao meu vestido… - decidi-me, pousando o guardanapo sobre a mesa e erguendo-me da cadeira a fim de beijar mais uma vez a pele predisposta da cabeça da minha mãe, afastando-lhe a franja do rosto
- Tu não comeste nada de jeito, Adriana... Come mais qualquer coisa e depois vais! – pela terceira vez consecutiva voltou a alertar-me para a minha alimentação no preciso momento em que tomei passadas livres no corredor, mas desta vez nem me obriguei a encará-la, erguendo somente o braço no ar para que esta soubesse que me importava com toda aquela preocupação de mãe
Entrei no meu antigo quarto e tal como todas as outras vezes em que o fazia, uma enxurrada de lembranças da infância doce que havia tido, avivou-se na minha memória forçando-me a exibir um sorriso.
Então era aquela a sensação de estar em casa… De me sentir rodeada da família que me amava, de recordar as memórias ternas de tempos passados, de sentir no ar todos os cheiros que me inebriavam os sentidos e de encontrar em cada objecto uma nova visão desarmada, que me obrigava a enxergá-lo com outros olhos e mais atentamente, até descobrir a fulcral função que outrora haviam ocupado na minha meninice. Foi então com esse sorriso, que me dirigi à casa de banho e me entreguei nas malhas de mais um relaxante duche, porém curto, pois um dia repleto de afazeres aguardava-me. Sequei os cabelos e prendi-os num coque, de forma evitar as habituais demandas com o seu volume e ondulação cerrada. No rosto passei um pouco de pó translúcido e blush, e nos lábios um bálsamo hidratante que ainda se esforçava por recuperar a maciez dos meus lábios, fortemente agredida pelo sol daquele Verão.
- Mãe? – a falange do meu indicador embateu ritmadamente na porta do quarto dos meus pais e a cabeça pendeu para o interior do mesmo, observando a minha progenitora que se maquilhava na frente do espelho – Estou de saída…
- Já te arranjaste? – inquiriu, não descolando o olhar do espelho do tocador por um singelo segundo
- Sim, mãe… Estou pronta pra sair, mas não devo demorar muito! – elucidei, mantendo no corpo a postura de mulher, que ocupava o meu novo estatuto de maioridade, dando-me o titulo de senhora e dona de mim mesma
- Eu também vou sair para passar no emprego e ir encomendar os livros…
- Precisa de boleia? – questionei-a, erguendo no ar as chaves do Q7 que me havia sido oferecido por David há quase um ano, na data do meu décimo oitavo aniversário
- Não, minha filha… Tenho o meu carro lá em baixo e assim não nos empatamos uma à outra! – agradeceu a oferta com um cordial e modesto sorriso, que era facilmente realçado pelo batom coral que lhe preenchia os lábios, de forma semelhante à que eu tinha herdado – Mas já sabes… Conduz com cuidado e nada de pressas!
- Sim… Não se preocupe, mãe! Qualquer coisa que precise, eu levo o telemóvel comigo, é só ligar… - informei, confirmando que o mesmo se encontrava na bolsinha exterior da mala camel, que pendia no meu braço esquerdo
- Tu a mesma coisa… Mais logo passo lá por casa para te ajudar!
- E então o pai…? Não vem jantar?
- Não… Ele hoje trabalha até mais tarde e mesmo que eu não esteja cá ele logo se desenrasca e prepara qualquer coisa pra ele! – os seus ombros encolheram-se num único movimento enérgico que lhe prendeu os braços juntos do corpo
- Sendo assim espero-a por volta das seis e meia, pode ser?
- Claro, meu amor… Eu levo o jantar para nós! Juízo! – ripostou, desviando então pela primeira vez o olhar na minha direcção e sorrindo ao perscrutar toda a minha figura de então já mulher feita
- Obrigada, mamã linda! – aproximei-me numa leve corrida para lhe beijar o rosto e nessa mesma rapidez abandonei o quarto, gritando só quando já tinha fechado a porta – Até mais logoooo!
“Rádio Renascença, todos os sucessos e a melhor informação!” – o tilintar fervoroso proveniente da estação da rádio, inundou o meu veículo, enquanto ainda me encontrava no acesso aos viadutos que davam entrada no centro de Lisboa – “Bem-vindo às manhãs da renascença! Parece que o sol decidiu brindar-nos em mais um dia de fim de Verão que promete estender-se assim de norte a sul do país até ao final da semana…”
- Eu bem disse que isto era “sol de pouca dura”… - indaguei metaforicamente, esperando que a meteorologia estivesse errada e os bons dias de calor ainda se arrastassem até princípios de Outubro
“Um acidente na 2ª circular atrasou todo o trânsito na via de acesso à capital portuguesa e há já duas horas que os bombeiros e polícia tomam conta da ocorrência, esperando que tudo se resolva rapidamente! Também a norte, um acidente no IC…” – quando não estava mais disposta a ouvir as aborrecidas e maçadoras notícias matutinas, pressionei um dos muitos botões do tablier e esse sintonizou uma frequência rapidamente – “Cidade FM, música à tua medida!”
- … Could have had it all, rolling in the deep, you had my heart inside of your hand, but you played it with a beating… - assim que reconheci na rádio a voz inconfundível de uma das minhas cantoras preferidas, não me coibi de entrar na onda descontraída, mesmo que isso fosse sinónimo de servir de alvo dos olhares indiscretos das pessoas que se encontravam nos carros ao lado
Olhei-os instintivamente, espicaçando-os com um simples mirar malévolo, que obrigou os transeuntes a focaram-se novamente na estrada, esperando que a cor do sinal mudasse. Logo que este se tingiu de verde parti em direcção a um cruzamento, no intuito de contornar à esquerda, fugindo assim do trânsito causado pelo acidente na segunda circular. A paz habitual do meu início de dia foi inesperadamente abalada pelo singular toque do meu telemóvel, mas dei graças por o puder atender em altifalante.
- Estou sim, bom dia? – atendi o telefonema tão formalmente quanto me foi possível, pois na verdade nem tive tempo suficiente para ver de quem se tratava
- Hello, hello, beautiful girl! – aquele timbre familiar, ressaltou no meu bem-aventurado coração
- Didi? – inquiri, mesmo sabendo que aquela voz pertencia a Diogo e que o indicativo telefónico registado no ecrã me remetia para a cidade das luzes, do outro lado do Atlântico – Seja bem aparecido, nunca mais disseste nada!
- É verdade, é verdade… Estou em dívida para contigo, mas agora as coisas acalmaram por estes lados e prometo que vou dando mais notícias! – eram muitas as promessas que lhe conhecia e que facilmente haviam sido desfeitas, mas pela primeira vez na vida acreditei derradeiramente na sua palavra de homem feito – Mas diz-me… Como estás? Como vão as coisas por aí? Como foram as férias?
- Eu estou bem, as coisas estão mais ou menos atribuladas com o regresso às aulas e o casamento do Ruben daqui a dois meses, mas graças a Deus tive umas férias fantásticas que me recarregaram as baterias ao máximo… - discursei, mantendo-me atenta ao carro que circulava à minha esquerda a uma velocidade claramente inferior à minha, o que me delimitou um pouco as manobras – E tu como estás aí em Nova Iorque?
- Bem… Estou a adorar a experiência e talvez fique cá por mais uns tempos, só volto às aulas quando estas levarem um mês de avanço! – informou-me, numa voz serena e pacífica, que me faziam adivinhar a lividez das suas expressões – Sim, sim, já sei que vais dizer que sou um baldas, mas… Nova Iorque, é Nova Iorque!
- E és um baldas, Diogo! Mas como eu te compreendo… Dava tudo para estar aí durante uns tempos! Pelo menos aí não existem caras familiares para nos perseguirem! – desabafei ao mesmo tempo, que a minha memória se alumiou de recordações saudosistas relativamente ao grande amor da minha vida, porque apesar de não o ver há já algum tempo, as imagens dele em cada capa de jornal ou revista, fazia ressaltar o sentimento que ainda estava bem vivo dentro de mim… no único órgão vital que ainda me fazia acreditar que estava realmente viva
- Tens bom remédio… Vem pra cá, terei todo o gosto em ter companhia nesta jornada maravilhosa! – pelo seu tom animado, imaginei o sorriso belíssimo que lhe devia delinear os lábios naquele mesmo instante
- Sabes que não posso… Tenho a faculdade que começa dentro de umas semanitas, mas fica para uma próxima! Obrigada… - agradeci educadamente toda a sua cortesia ao expor o tentador, mas porém recusável convite
- Não tens nada que agradecer, seria com todo o gosto, mas já que não podes, ficará com certeza para uma próxima! – uns esporádicos segundos de silêncio, que se instalavam amiúde nas nossas conversas, foram quebrados pela impenetrável e temível voz de Diogo – E… Novidades, há algo que eu possa saber?
- Hum… Creio que não… Graças a Deus está tudo pacífico!
- E como ficou aquela situação em Paris? Chegaste a encontrar-te com o Ruben naquele dia para o cafezinho? – recordei com nostalgia o passeio que eu e Diogo déramos nas margens do Sena, acompanhados pela inabalável harmonia que imperava na capital francesa – Ou não queres falar sobre isso?
- Hum… É incrível como tens uma tacada perfeita para este tipo de situações… - murmurei tentando conter a gargalhada de satisfação que ameaçava irromper dali a poucos instantes
- Se não quiseres, não tens de falar… - relembrou atenciosamente, naquela sonância meiga e muito pouco evasiva
- Não é isso… Mas é que não falamos desde aí, e mal o fazemos vais direitinho ao ponto que interessa, sem sequer saberes de nada! – constatei a cumplicidade que possivelmente ainda nos unia e foi somente o bastante para todo o meu corpo se arrepiar, expandindo nas suas extremidades os tremores adjacentes – Eu de facto fui ter com ele para o tal café…
- E…? – a sua voz arrastada, deu-me a indicação necessária para seguir com o discurso palpável de emoção, pois o beijo que partilhara na boca do meu doce David, ainda recordava facilmente nos meus lábios, levando-me ao máximo dos sentimentos
- E que acabei por não tomar café nenhum com ele, porque tive um pequeno… “imprevisto” vá, chamemos-lhe assim! – proferi com a ironia traçada na voz, permitindo ao meu rosto que dissipasse o sofrimento de ter visto tal acontecimento adiado por tempo indefinido
- Um imprevisto? – questionou, admitindo-me sentir na sua voz aquele laivo de curiosidade que caracteriza um menino pequeno, quando algo não lhe é suficientemente perceptível, ou então do seu conhecimento geral
- Sim… Um imprevisto…
- Hum… E esse imprevisto não se chama David, por acaso?
Bingo! “Como é que ele ainda detinha aquela capacidade?”, questionei vezes e vezes sem conta a mim mesma, ainda embalada pela perplexidade da amizade que até então partilhávamos e plenamente ciente de que jamais iria ser capaz de regressar aos seus braços, mas que pelo menos havia encontrado ali um amigo… dos verdadeiros e inquestionáveis.
- Hum… Por acaso até se chama!
- Aconteceu alguma coisa… Ele magoou-te? – foi aquele timbre indubitavelmente apoquentado que fez despoletar em mim o à vontade necessário para lhe confessar o segredo mais íntimo dos últimos tempos… todos os acontecimentos de Paris, que não tinha revelado a quase ninguém
- Não… Ele não me magoou! Quer dizer… - hesitei, perante as palavras que David proferira mesmo sem saber da minha presença e essas irromperam no meu peito levando-me a reconsiderar - … se o fez foi indirectamente!
- Ãh? Oh Adriana, não estou a perceber nada do que estás para aí a dizer…
- Ele disse algo que me magoou, mas no entanto não mo disse a mim… Eu é que escutei mais do que devia, Didi… - sabia que uma vez dado o primeiro passo naquela conversa, seria impossível recuar e deixar a meio uma narrativa, que Diogo queria dominar por inteiro
- Então conta-me tudo! – solicitou, sentindo no seu corpo a adrenalina de uma história que não era a dele, mas cuja uma das personagens principais lhe era extremamente querida…eu!
- Não há assim tanto pra contar… - esclareci, tentando não criar expectativas numa crónica que havia tido um desfecho muito pouco favorável para o meu frágil e afável coração – Depois de nos termos despedido no hotel segui para ir ter com o Ruben… Ele foi buscar as coisas ao balneário, mas para variar acabou por tomar banho e demorou uma hora! – recordei num breve revirar de olhos, que não se deteve no entanto da imagem dos carros posteriores à minha faixa de condução – Antes dele saiu o David, meteu conversa e o meu segurança foi-se embora de uma maneira nada discreta. A partir daí o inevitável aconteceu…
- Fizeram as pazes? – questionou numa exaltação da felicidade que pensava puder partilhar comigo, mas infelizmente a situação era bastante diferente da idealizada
- Não, Diogo… Ele beijou-me, mas assim que o Ruben finalmente apareceu, eu não sei que me deu e disse que o café ficava para outro dia! Desapareci com o rabinho entre as pernas!
- Oh Adriana… Porque raio foste fazer isso?
- Sei lá… Por medo que ele repetisse o gesto monstruoso do Colombo, sinceramente não sei, mas senti necessidade de me contrair daquele momento e fugir foi o melhor remédio!
- E nunca mais o viste? – inquiriu, talvez sentido uma faísca de esperança ainda acesa, pronta a atear-se em labaredas dispostas a consumir aquela história
- Vi… Quando voltei ao hotel no dia seguinte depois do concerto ele estava à minha espera à porta da minha suíte! – narrei, recordando todos os momentos daquela noite ao passarem como flashes na frente dos meus olhos – Queria falar, mas eu estava cansada e prometi que iria ter com ele na manhã seguinte para falarmos…
- E foste, Adriana?
- Fui… Mas ouvi uma conversa dele com o Ruben, a dizer que nunca ia conseguir confiar em mim de novo e por isso mesmo resolvi que era melhor não acarretar mais esperanças e vim-me embora… - informei com pesar, sentindo um pedregulho de culpa comprimir-me o peito, sufocando-me as vias respiratórias
- Tu vieste-te embora depois de lhe teres prometido uma conversa? – perguntou de forma chocada, sabendo que as suas palavras seguintes me iriam atingir que nem um torpedo, chamando-me a uma realidade que até então nem sequer me havia passado pela cabeça
- Vim… - ciciei num murmúrio cruel, que foi o mais honesto retrato da minha falta de expressão e indolência
- Tens noção que o voltaste a deixar… Hum? – as lágrimas despoletaram em meus olhos a uma velocidade atordoadoramente anestesiante, espicaçando-me a visão com um ardor desmedido e desconfortável, que me conturbava a visão – Voltaste a deixá-lo tal e qual como naquela manhã em que deixaste a carta e foste embora, Adriana…
- Eu juro… Eu juro que… - tentei falar, mas somente um soluçar aflitivo dominou os meus lábios, forçando-me a cerrá-los de forma a controlar o impulsionar bombeante que o meu peito teimava em ditar
- Acho que enterraste qualquer possibilidade de reconciliação que pudesse existir… - opinou de feição certeira, detendo a perfeita capacidade para compreender o lado oposto… aquele que não me pertencia e com o qual não me tinha preocupado no momento em que apanhei o avião de resgate para a minha cidade-natal
- Diogo, por favor… - supliquei tentando disfarçar ao máximo o choro compulsivo que se tinha instaurado, dando sinais de ter chegado sem passagem de regresso marcada
- Agora não adianta de muito chorares… Ele pode ter dito o que disse e até compreendo o teu lado, mas devias ter ficado lá… Devias ter falado com ele!
- Não consegui, Diogo… Eu não consegui… - confirmei a mim mesma, um dos meus piores defeitos – a cobardia – que havia tirado o melhor proveito de toda a situação
Sempre me tinha perseguido… Desde muito cedo que a conhecera e lhe tomara o gosto, mas tornava-se difícil repeli-la, diria até mesmo que impossível, quando a vida me forçava a trapear caminhos, quando me arrastava para vales desconhecidos e me obrigava a enfrentar a dor… Uma dor como nunca antes conhecera.
E tantas e tantas vezes desejei apagar aquela falta de coragem da minha vida - de mim e do meu ser - mas era-me sempre inevitável adiá-lo… porque me convinha, porque me dava jeito e porque era nela que encontrava os melhores refúgios para as situações que considerava serem de perigo.
E foi essa mesma cobardia que há meses atrás me levara a escrever aquela carta e partir… Foi essa mesma cobardia que não me deixou traçar planos do lado de David, mesmo que este se encontrasse longe, conduzindo-me pela forma mais fácil de sobrevivência, que no fim acabou por me afastar dele… e agora? Agora pouco mais havia a fazer para além de aceitar que aquele teria sido definitivamente o nosso fim, pelo menos assim acreditava, e que por muito que eu pudesse vacilar e procurá-lo… então seria ele a não querer saber de mim.
- Oh Adriana… Lamento imenso, mas acho melhor seguires definitivamente em frente! Digo-te isto porque sou teu amigo e acho que se continuares presa à vossa história… ainda vais sofrer por uns bons tempos! – senti-lhe no falar um tacto de nobreza e lealdade, que nunca havia tido para comigo, mas que no entanto era revigorante pois estabelecia um padrão de paz e consolo no meu coração
- Eu sei, Didi… Eu sei… - um suspiro grotesco precipitou-se do meu peito, delimitando o abismal precipício dos meus lábios, onde as lágrimas pereciam em catapulta
- Eu vou ter de desligar, pequenina… - lamentou-se num arrastar de voz auspicioso, sabendo que teria de regressar às suas tarefas, deixando-me de lado e em total sofrimento
- Tudo bem, Diogo… Não faz mal! – menti… não porque ele não pudesse adivinhar o estado lamentável a que me tinha submetido com as suas conclusões, mas sim porque o orgulho era superior e não permitia que me despisse de máscaras para alguém que ainda não detinha a minha total confiança, mas que aos poucos a ia conquistando
- Vamos falando, sim? – a pergunta retórica impôs a presença assídua que ele viria a marcar no meu dia-a-dia, apesar de naquele momento eu ainda considerar essa hipótese muito pouco plausível – Se precisares de alguma coisa manda mensagem, liga-me, o que for preciso… Vou estar sempre aqui para te ouvir, princesinha…
- Obrigada, Didi… Obrigada… - suprimi no contorno dos meus lábios cerrados as lágrimas mais pulsantes às quais ainda ameaçava ceder e guardei-as só para mim durante mais uns segundos – Até depois… Beijo grande!
- Cuida de ti, pequenina… Até depois, beijo enorme! – nem a meiguice daquela breve despedida, que não quis alongar muito mais, foi suficiente para enaltecer o meu coração, que ameaçava soltar-se do seu tímido lugar, expandindo-se para fora do meu corpo, esperando levar consigo toda a dor exclusa pelo silêncio de tanto tempo
E foi no preciso instante em que o sinal da linha telefónica ressoou do outro lado, dando-me indicação de que a ligação tinha por fim terminado, que cedi aos mistérios do amor. As lágrimas escorreram acidentalmente pelas minhas faces cálidas do cansaço e um tremelicar incessante assomou aos meus lábios, na ameaça certa de os comandar, pelo menos enquanto houvesse gotas de orvalho a humedecerem-me a pele.
Sabia que dificilmente conseguiria acalmar aquele coração desinquietado pela conclusão avassaladora do meu mais recente amigo, mas felizmente consegui controlar-me o suficiente para ainda deter na minha posse a condução do meu veículo, que circulava pelas ruas de Lisboa quase que sozinho… pois eu estava totalmente desorientada, sem ter na minha posse a mínima capacidade de compreender para onde me desejava deslocar.
Há quem lhe chame karma… Há quem lhe chame destino, mas eu prefiro acreditar que foi somente uma conspiração da história engendrada pela vida, que teimava em maltratar-me, pois quando dei conta encontrava-me na porta do estúdio de trabalho do João Rôlo. Mesmo sem saber como, havia completado o meu percurso e depois de enxugar as lágrimas uma por uma e camuflar os seus vestígios com os óculos de sol, estava então pronta para encarar o mundo… ainda que possuindo um fáceis fechado e pesaroso.
- Bom dia, em que posso ajudá-la? – a nova e inexperiente assistente do João interceptou-me o caminho, assim que me viu sair do elevador e marcar o primeiro passo na direcção da sala de espera para as clientes
- Ah… Bom dia, eu sou cliente do João e fiquei de passar cá um dia destes para ver como vão os progressos do vestido que lhe pedi… Ele conhece-me pessoalmente! – esclareci, agitando na minha mão a colectânea de três anéis de padrões variados, que encaixavam magistralmente uns nos outros e rodavam entre o meu anelar e polegar a um ritmo inebriante
- Hum… O Sr. João agora está numa reunião, mas diga-me o seu nome e pode ser que consiga fazer alguma coisa por si! – naquele mesmo momento a rapariga, que não devia ter muito mais que os seus vinte e poucos anos, prontificou-se a ajudar-me no que fosse preciso e tive a ligeira percepção que pelos graciosos modos que envergava havia sido escolhida pessoalmente pelo próprio estilista
- O meu nome é Adriana Vale… - proferi o meu nome, certa de que não provocaria em si grande alarmismo, visto que pelo menos até à data não me havia reconhecido como figura pública que era - Estive cá há coisa de duas semanas…
- Adriana… Vale? – questionou no mesmo instante, enquanto deslocava o seu olhar da pasta que trazia nas suas mãos e o colava em mim, de um jeito tão desgastante quanto intimidador
- Sim… Isso mesmo…
- Peço desculpa, mas nem a reconheci com os óculos de sol… - desculpou-se imediatamente, fazendo com a sua cabeça uma vénia tão forçada e cortês, que me fez ressaltar o constrangimento por tal veneração
- Não tem mal… - com uma só mão toquei-lhe o braço, obrigando-a a repor o seu rosto mais altivamente e do jeito certo que deveria ser, pois na verdade ela até era mais velha do que eu… somente alguns anos, mas era – Não se preocupe com isso…
- Sente-se, que eu vou falar com o Sr. João e trago-lhe já qualquer coisa pra tomar… - os seus dedos posicionaram a caneta de tinta permanente, que trazia na mão, junto da pasta que se encontrava então encerrada na união das suas duas mãos – Quer uma água, um café, um chá, um sumo… Alguma coisa?
- Uma água, por favor… Chega perfeitamente! – numa pose delicada, presenteei-a com um aceno de cabeça suficiente para lhe agradecer tamanha amabilidade
- Irei imediatamente tratar disso… Com licença! – retirando a sua figura do alcance posicionado dos meus olhos, apressou-se a delinear o balcão, onde depositou todas as suas ferramentas de trabalho, e a dirigir-se ao corredor, mas a presença de alguém que me era conhecido, impediu-a
- Maria, ligue por favor para a fábrica e pressione-os com a entrega dos tecidos… Preciso deles para ontem! – aquela ironia traçada era recorrente da petulante figura do meu caro amigo João, que num simples olhar vagante pelo seu atelier me reconheceu – Adriana!!
- Olá, João…! - a sua figura serena, que se encaminhou prontamente na minha direcção de braços abertos prontos a receberem-me no calor de um abraço reconfortante, foram o bastante para me fazer ceder e adoptar a mesma posição
- Oh Adriana! Não avisaste que vinhas! – sobre alertou, assim que me separei dos seus braços, mantendo-o somente debaixo da minha visão apoquentada, mas ainda disfarçada pelas lentes opacas dos meus óculos de sol
- Sim, eu sei… Desculpa! – prontifiquei-me a um pedido de desculpas necessário, visto que tinha quebrado o protocolo e ido até lá sem pelo menos o avisar – Já sei que estás numa reunião e senão me puderes atender eu volto noutra altura mais propícia…
- Oh, nada disso, Adriana! – a sua mão elevou-se no ar, esboçando um trejeito certeiro, que revelava a pouca importância prestada ao assunto – A reunião já acabou… Vamos até ao meu gabinete! – educadamente, libertou um espaço vazio na sua frente para que lhe tomasse a dianteira, enquanto dava ordens à sua operária – Maria, se alguém ligar diga que estou ocupado e para tentar contactar mais tarde…
- Com certeza, Sr. João! – assentiu de forma atrapalhada, enquanto no bloquinho de papel amarelo em cima do balcão, tomava nota daquele simplório pedido
- É uma boa assistente ela… - sugeri ao mesmo tempo que entrava no escritório e me livrava da impertinente mala, que teimava em vincar-me o ombro devido à elevada carga que transportava – Prestável e educada…
- Inexperiente ainda… Mas nada que uns tempinhos aqui não resolvam! – esclareceu-me João, apoderando-se com pujança do lugar que tão bem lhe pertencia e se situava do outro lado da mesa de carvalho maciço – Mas diz-me lá… Que te traz para estas bandas a um dia da semana?
- Olha… Aproveitei que tinha de resolver uns problemas da faculdade e resolvi passar por aqui para ver se já tinhas algum esboço do vestido para o casamento… - sentei-me educadamente numa das cadeiras livres e num toque de elegância requintada, deixei a minha perna direita cruzar-se sobre a esquerda, acentuando assim as curvas do meu corpo torneado
- Claro que tenho… Já andei a trabalhar nisso e a ver umas amostras de tecido, mas como já percebeste este atelier está um caos! – lamentou-se, exercendo um esforço dobrado para conseguir organizar a parafernália de papéis que lhe impediam a visão da sua mesa de trabalho
- Eu também não tenho pressa… Ainda faltam dois meses e confio plenamente no teu bom gosto! – relembrei morosamente, dando asno aos meus dedos para que se movimentassem e atirassem para trás dos ombros os fios de cabelos cacheados que teimavam pender-me sobre o torso devido ao seu exagerado comprimento, que já se delimitava para lá do meio das costas
- Mas posso já mostrar-te os esboços que fiz…
- Se puder ser, agradeço imenso! – trocámos um sorriso cordial, muito característico de duas pessoas que já travavam conhecimento há já algum tempo, e ele dirigiu-se ao seu arquivador buscando nele aquilo que eu tanto ansiava ver
- Ora… Aqui está! – constatou transportando na mão uma pasta de papel crepe, cujo conteúdo era somente um imaculado esboço de uma obra do João Rôlo… o grandioso João Rôlo, e só por isso a sensação de vaidade despoletou em mim avassaladoramente – É só um estudo prévio… Vê se gostas…
- Adoro, João! Adoro! – exclamei assim que os meus olhos perscrutaram a aguada carmim predisposta no papel, dando vida a um vestido belíssimo e perfeito para o meu corpo… desenhado à medida, idealizado unicamente e exclusivamente para mim – Está perfeito!
- Ainda deve sofrer algumas alterações e talvez o tecido possa não ser esse… Mas não deve fugir muito do que aí está! – passando os dedos pelos cabelos crespos, assegurou-me a fidelidade que pretendia prestar ao seu esboço, limitando-se a pincelá-lo com agulha e linha
- Para mim está óptimo, João… Está simples, mas muito elegante, tal como te pedi!
- Fico contente que tenhas gostado, mas então se calhar vamos ali até à sala de provas para discutirmos os tecidos…
- Hum… Parece-me bem! – concordei, mantendo num olhar sereno o desejo iminente de regressar a casa dos meus pais o quanto antes, pois há algum tempo que me habituara somente à solidão de quadro paredes… daquelas que haviam testemunhado e gravado em si as mais belas memórias da minha infância
- Então vamos a isso!
Não sei dizer quanto tempo ele me susteve naquela enorme sala, ladeada por paredes brancas totalmente modernistas, mas frias e impessoais, que não conferiam qualquer sensação de conforto ou aconchego… Simplesmente não eram o meu lar, e era lá que eu pertencia, e era lá que ansiava regressar o mais rapidamente possível.
O relógio acelerou vertiginosamente a nossa busca pelo tecido perfeito… Aquele que encantasse pela textura entrecortada do vintage, que sobressaísse pelo tom de exaltação soberano em contraste com a minha pele e aquele que fosse amor à primeira vista… Tal qual um homem que desejamos e que nos enfeitice ao mais primário e singelo olhar.
- Estes parecem-me definitivamente os melhores, Adriana… - afirmou, segurando na sua mão um molho de mais de dez amostras, pois o encontro marcante com o certo ainda não havia acontecido e aqueles eram somente opções mais tarde colocadas de parte
- Sim, concordo, João… Deixo isso ao teu critério, mas qualquer coisa também passo cá e acertamos isso!
- Parece-me bem!
- Bem… Sendo assim acho que vou indo então! – relatei, perscrutando com um simples olhar a sala de linhas rectas na esperança modesta e vagarosa de encontrar a mala que sabia pertencer-me
- Nem te perguntei se querias tomar alguma coisa… - lamentou-se, seguindo-me até ao estirador principal, onde descontraidamente coloquei a mala no ombro, pronta para me ir embora o mais rapidamente possível
- Oh, não é preciso nada, João… Tenho mesmo de ir porque tenho outros assuntos a resolver! – menti, mesmo sabendo que a minha mãe me aliviara todas as outras tarefas para aquele dia, mas estava demasiado entediada pela actividade dos últimos minutos
- Oh… Lamento imenso, mas então fica para outra altura, combinado? – questionou, encaminhando-se juntamente comigo até à porta de saída totalmente envidraçada, que conjugava na perfeição com o edifício Arte Déco
- Combinadíssimo! – confirmei, num sorriso educado, que se desvaneceu na troca de dois beijinhos de despedida, que compartilhámos – Vemo-nos então depois… Até à próxima!
- Até à próxima, querida… Qualquer coisa, já sabes… Liga ou aparece que eu atendo-te assim que puder!
- Obrigada, Adeus! – a minha mão ergueu-se magistralmente no ar antes mesmo antes dos meus pés terem pisado o asfalto, que palmilhei apressadamente em direcção ao meu carro
Ergui a chave na mão para o destrancar, mas era inevitável olhar pra ele sem recordar quem mo oferecera, o dia em que o fizera e a forma especial como havia agido para tornar o meu dia único… Único e perfeito como nenhum outro o fora até à data nos meus sucintos e vagos dezoito anos de vivência.
Mais uma vez, como já se tornara hábito naqueles meses de ausência, o meu peito reclamou saudade e reivindicou a assistência do seu exclusivo dono… David.
“Chega, chega! Sai da minha cabeça!” – ordenei a mim mesma, apenas por pensamento, desejosa de, pela primeira vez desde que recebera aquele carro, conseguir conduzi-lo sem relembrar por um segundo que fosse o homem que ainda detinha o meu amor
Numa faustosa maresia de força, suspirei pesadamente, e ainda que combalida, entrei na polida e intocável viatura branca, exactamente igual à de David. A minha cabeça guiou-se por milhões de caminhos, procurando sempre um mapa, que me indicasse o caminho certo, mas no entanto por muitas voltas que eu desse ia sempre parar ao mesmo sítio, à mesma altura, à mesma pessoa!
Guiei decidida e por segundos ele saiu-me do pensamento, é verdade… mas não do coração!
***
- Mãe, cheguei! – a minha voz alteada percorreu todo o piso inferior da vivenda, fazendo-se ouvir até mesmo na cozinha, que se encontrava vazia pois era terça-feira e o dia de folga da nossa empregada doméstica, Odete
O silêncio imperou… Um silêncio estranho, um silêncio mórbido antecedente de um mau prenúncio.
A minha espinha arrepiou-se, dissipando toda a energia pelas extremidades do meu corpo, que estarreceram perante tal sensação. Alguma coisa não estava certa e eu sentia-o… Se me perguntassem o quê não saberia responder, mas eu sentia-o e algo se iria a passar.
- Mãe! Pai! Está alguém em casa? – voltei a inquirir numa voz sobressaltada, enquanto fazia do móvel da entrada o perfeito pousio para os meus bens pessoais, mas mais uma vez não obtive resposta – Que estranho…
Àquela altura já deviam estar em casa, pois o relógio marcava quase a hora de almoço e o aroma delicioso que já era tradição abandonar a cozinha por volta do meio-dia, não se fazia sentir.
“Talvez o pai tenha ficado a almoçar no trabalho…” – sugeri a mim mesma, tentando não aumentar a sensação vibrante, que me assolava o coração, fazendo-me crer que algo estava para acontecer… algo a ver comigo, algo que ainda me ia machucar demais
- Mãe? – até no jardim das traseiras tentei a minha sorte, assim que espreitei pelas vidraças da porta de correr, mas o jogo traiu-me, deixando-me sem respostas
Subi até ao piso superior e livrei-me dos desconfortáveis, mas elegantes, sapatos de salto alto que usara toda a manhã, trocando-os por umas delicadas havaianas em tons de dourado. Amarrei o cabelo numa trança lateral e no rosto coloquei os meus óculos de leitura, essenciais para o meu défice de visão, mas que fazia questão de substituir pelas lentes de contacto sempre que andava em sítios públicos, apenas por uma questão de estética.
As escadas que em miúda eram descidas da forma mais cómica que se possa imaginar - sentada no vão por onde deslizava até ao pináculo que delimitava o seu fim - foram então percorridas numa corrida saltada, que me atirou para cima do sofá. Liguei a televisão e como já era hábito, nada que apresentasse um conteúdo coerente e minimamente interessante, passava no aparelho electrónico, embargando assim qualquer humano necessitado de evasão à insanidade mental do momento.
Porém prendi-me nos odores da casa… Aquele cheio a jasmim e rosmaninho era o toque perfeito para me fazer fechar os olhos e saborear com nostalgia os caminhos carinhosos travados em somente dezoito anos de existência.
- Como o tempo passa… - murmurei a mim mesma, deixando que o meu corpo se guiasse na direcção da cozinha, disposta a tomar um iogurte que me fustigasse a fome já latejante, mas o bilhete que encontrei exposto na porta de alumínio deteve-me.
“ Adriana,
Tive um pequeno contratempo no trabalho e vou ter de ficar por lá mais umas horas, mas pedi à Odete que comprasse comida e a deixasse no forno para ti!
Deixei o portátil em casa para o caso de te quereres distrair e também pedi a ela para comprar as revistas do dia.
Espero não demorar muito para não ficares sozinha!
Beijo grande, até logo!
Mãe ♥”
- Que lindo…! Mais de seis horas sozinha e sem nada pra fazer! – restitui com direito, palavras amargas e irónicas, não contra à minha mãe, mas ao estado de solidão constante que havia inundado a minha vida
Dando continuidade à minha anterior intenção, abri o frigorífico e recolhi um iogurte de morango, que digeri somente em meia dúzia de sorvos.
Regressei à sala e senti os ponteiros do relógio fixo na parede perderem intensidade… como se cada segundo demorasse o dobro a passar e cada hora somasse uma eternidade para virar. A televisão continuava com a programação desinteressante, então substituída pelas desgraças e dissabores constantes de um país, que se desmoronava aos poucos… ora pela crise, pelo crime, pela corrupção, tudo era motivo de desgraça e demandas do mau jornalismo que se fazia em Portugal.
- Bah, que seca! – assim que atingi o ponto de saturação possível para uma só pessoa com o mínimo de bom censo, desliguei a televisão, atirando o comando para o sofá que se encontrava ao lado, mas por pouco este não caiu no chão ao embater num dos braços da poltrona
Pensei em algo pra fazer… Algo que me estimulasse as ideias, algo que me quisesse fazer passar o tempo, por muito que este se prostrasse mais moroso que o normal, devido ao inebriante estado de melancolia que me abarcava.
Recordei então o recado da minha mãe e iniciei pela casa uma busca detalhada pelas ditas revistas diárias, que pelo menos me iriam retirar da monotonia conhecida pelo bom português, atirando-se para o mundo ilusoriamente oprimido da imprensa cor-de-rosa, que raramente lia, mas naquele instante foi a única possibilidade que me haviam dado para formular novas actividades expansivas e conotadas de dinâmica, se é que aquilo se poderia intitular como tal.
- Ora, cá está! – indaguei, segurando nos meus braços um molho de três revistas, que encontrei no aparador da sala, junto do candeeiro de pé, que antecedia a gaveta do faqueiro de prata na família há já várias gerações
Li integralmente a primeira e a mim só faziam referência aos concertos que dera mais recentemente, revelando uma empatia e à vontade com o público… factos esses que me deixaram bastante confiante e orgulhosa do meu trabalho, visto que este nunca fora encarado de ânimo leve durante todo o Verão.
No instante imediato em que pretendia iniciar a leitura da segunda revista fui interrompida pelo barulho da fechadura, que destrancou a porta, deixando visível a minha figura maternal com um aspecto terrível e visivelmente cansado, mas feliz por me ver, assim como eu.
- Oh mãe! – precipitei-me do meu lugar, envolvendo-a num abraço firme, que decorava o sentimento de aperto que me inundava o peito, mesmo que eu não encontrasse qualquer razão plausível para isso
- Oh filha, desculpa ter demorado tanto…
- Não faz mal, mãe… Eu li o seu recado e entretive-me por aqui! – revelei com indulgência num breve encolher de ombros, tão despreocupado que quase lhe passou despercebido
- Já almoçaste? – inquiriu, pousando o aglomerado de pastas de trabalho que trazia nas suas mãos, intercalado com a alça da pasta de executiva
- Não, ainda não… Mas já vi que a Odete deixou arroz de pato no forno, mas não tenho grande fome, mãe! – esclareci, oferecendo os meus serviços prestes e recolhendo o casaco que transportava para o colocar no cabine da entrada – E a mãe, já almoçou?
- Sim… Comi qualquer coisa no restaurante lá ao pé do trabalho!
- Pensei que ia chegar mais tarde… Que só nos íamos ver lá no meu apartamento… - comentei, sentindo a temperatura cálida dos mosaicos queimar-me a pele desnuda das plantas dos pés
- Também eu… Afinal demorei no trabalho, mas antes disso ainda consegui encomendar os teus livros! Foi num instante, meu amor! – os seus lábios embateram na minha testa, numa sensação de ternura há muito não sentida, pelo menos de tão perto
- Sendo assim pudemos deixar as limpezas lá de casa para outro dia…
- Nada disso, já estava combinado, meu anjo!
- Mas prefiro que fique para outro dia… Está a saber-me bem ficar deitada no sofá sem fazer nada! – confessei numa espécime molengona, que me assomou o corpo, fazendo-o descomprimir-se num suave espreguiçar de braços
- Hum… Essa preguiça, essa preguiça! Vê lá se te ambientas porque não tarda nada a faculdade está de volta!
- Não se preocupe, mãe… Eu vou entrar neste ano sempre a abrir, ninguém me vai parar!
- Assim é que eu gosto de ouvir falar, assim é que eu gosto! – compartilhou comigo um sorriso de incentivo e depois de me piscar o olho, num gesto singelo e já comum, libertou as suas pernas para que estas caminhassem até ao piso de cima – Vê lá se vais comer! – gritou, quando já se encontrava no corredor de acesso aos quartos superiores
- Não se preocupe… Vou já! – respondi no mesmo tom alteado, que penso que lhe foi suficientemente perceptível pois o seu discurso aconselhador findou
Retomei no sofá o lugar que era meu, decidida a dar continuação à leitura trivial que se desenrolava antes da chegada da minha progenitora. Segurei nas minhas mãos a segunda revista da imprensa cor-de-rosa e comecei a folheá-la despreocupadamente. Não esperava encontrar nada de especial… Uma notícia ou outra sobre casais famosos que tinham dado o nó, outro tanto de colunas sobre a moda que circulava no meio e mais umas quantas páginas acerca de escândalos que não eram sequer minimamente fundados.
Aproveitei a falta de interesse em qualquer daqueles assuntos para rever mentalmente as tarefas em que comprometera ajudar Inês para o casamento com Ruben, que cada vez se encontrava mais próximo, mas o conteúdo de uma página deteve-me… O cabeçalho incessantemente doloroso deturpou-me a visão, as imagens que os meus olhos alcançavam quebraram o meu fragilizado coração e tive a certeza de que nada de pior me poderia acontecer naquele momento…
“O novo amor de David Luiz!” – umas letras fartas tingidas de um vermelho ridiculamente forte, encabeçavam a notícia da revista de fofocas
“O defesa-central brasileiro de 23 anos, David Luiz, reencontrou o amor! Depois de uma relação duradoura e aparentemente feliz com Adriana Vale, uma portuguesa de 18 anos que já se afirmou no mundo da música, o jogador do Benfica encontrou o consolo que tanto procurava nos braços de outra portuguesa, uma jovem de 21 anos, residente em Lisboa e estudante de psicologia. Segundo fontes próximas do jogador “ele está muito feliz e finalmente encontrou a paz que tanto precisava”, acrescentando então “que ele ultrapassou o falhanço da sua relação com Adriana e é do lado da nova namorada que pretende criar o seu futuro”. Quanto a Adriana continua sozinha, tendo utilizado o Verão para passear por todo o mundo, dando concertos para os seus fãs. Tanto David como a sua ex-namorada foram contactados, mas não prestaram declarações até ao fecho da presente edição.”
Lá estava ele… Nas páginas que um dia haviam sido preenchidas com fotos de nós dois e onde agora outra mulher tomava lugar do seu lado. Ambos de mãos dadas, demonstrado com o olhar o carinho que um dia havia sido meu, o amor pelo qual ainda ansiava, mas que infelizmente havia perdido… para sempre.

5 comentários:
Querida, e a parte II do 114 quando chega? BEIJINHOS
quero mais... quando postas o proximo capitulo...
tou super curiosa para ler...
continua...
Esta fantastico continua.bjs
Por favor... faz alguma coisa. ja nao aguento tanta tristeza. isto nao pode ficar assim por favor, faz com que isto mude, dá uma reviravolta, peco te, que fiquem juntos please... ja agora escreves muito bem... continua
Olá!
Para quando o próximo capítulo?
Estou muito ansiosa para o ler...
PS:Não consigo ir ao blog halfofmyheartfic.blogspot.com
Desistiram da fic?
Beijinhos!
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