domingo, 18 de setembro de 2011

Capítulo 113 - Coração desarrumado (Parte I)



- Menina? Oh menina? – o pobre enjeitado do Paulo, seguiu tão bem quanto pôde o passo acelerado de Adriana, que ao cruzar a porta seguiu caminho a uma velocidade estonteante, sem ter aparentemente um destino definido
No entanto ela parecia disposta a ignorar tudo aquilo que a rodeava. Nunca se sentira tão confusa, tão desamparada e perdida… O sentimento que tinha aprendido a enterrar nos últimos meses estava então mais vivo do que nunca e o sabor do beijo de David ainda perecia em sua boca. Nunca a chama daquele amor estivera tão acesa como naquele momento. O seu corpo ainda permanecia arrepiado ao recordar o toque da boca dele e o seu coração ainda batia descompassado, de formas estranhas e atabalhoadas dentro do peito, sempre que tentava relembrar cada traço delicado do rosto dele.
- Menina, espere… - o seu segurança esforçava-se para manter uma passada regular e suficiente para a acompanhar, mas os pés dela teimavam em movimentar-se ao ritmo do seu coração desarrumado
- Paulo, deixe-me… Pelo amor de Deus, deixe-me! – praguejou, passando por cima de um pequeno canteiro relvado, onde algumas peónias brancas floriam, fazendo esquecer o prenúncio da época estival que estava para breve
- Menina, espere… Que aconteceu?
- Oh Paulo, deixe-me… Deixem-me todos! – implorou fustigada pela insistência desassossegadora de Paulo, que não parecia querer dar qualquer sinal de desistência e mantinha o mesmo ritmo de caminhada que adoptara há segundos atrás
- Oh menina… Fale comigo, que aconteceu?
- Nada, Paulo… Não aconteceu nada! – sentiu-se diminuta face ao adjectivo que utilizara, pois afinal de contas não haveria nenhum mais perfeito para descrever aquilo que a unia a David, apesar do beijo que haviam trocado intensamente até à exaustão dos dois corpos
- Menina, eu conheço-a… - falou de modo calmo e meigo, esperando que isso surtisse algum efeito na serena rapariga de dezoito anos que tinha a seu encargo – E pare de fugir de mim, Adriana! – ordenou, já com a respiração a dar sinais do esforço físico de que estava a ser alvo
- Então pare de andar atrás de mim! – gritou no mesmo instante em que ambos estancaram os seus caminhos, estabelecendo uma distância de cerca de três metros um do outro
- Que aconteceu, Adriana? Porque estás assim? Foi ele…? – Paulo procurou imediatamente encontrar respostas para o tormento que sentia no seu peito ao ver a sua pequena Adriana vitimada por uma dor tão grande e para si… tão transparente
- Eu não quero falar sobre isso… Não aconteceu absolutamente nada, eu só quero ir para o ensaio! – declarou mantendo em si um esforço gigantesco para segurar as lágrimas, que ameaçavam fluir dos seus olhos, dissipando-se pelo rosto a qualquer instante, facto que não passou despercebido ao seu agente com quem dividia um instinto paternal
- Adriana… Eu conheço-a… Fale comigo… - aquele jeito afectuoso de falar domou a aspereza das palavras dela, forçando-a a ceder às evidências da situação e aos poucos abrir o seu coração para a verdade
- Ai, Paulo… - num suspiro vagabundo, cerrou aqueles que lhe davam a visão perfeita do mundo – Não aguento isto… Não aguento… Isto é tudo um erro!
- Que aconteceu, Adriana? Diga-me… - tentou acercar-se da frágil e mirrada figura dela, mas num impulso esta acabou por o repelir para longe, forçando ambos os corpos àquela distanciamento enorme
- Ele beijou-me, Paulo… - revelou, mantendo o olhar posto de lado, no campo de treinos onde eles haviam passado toda a manhã – O David beijou-me! – firmou, mantendo o seu olhar preso em Paulo, ao mesmo tempo que abriu os braços no ar e os deixou cair pesadamente contra as coxas

- Oh menina… - este não conseguiu esconder o encanto, que sentiu ao puder adivinhar a felicidade dela, e este rapidamente se reflectiu num sorriso ágil e sereno, que lhe preencheu cada lacuna dos lábios

- Ele beijou-me… Ele beijou-me e tudo o que eu sentia voltou! – declarou, mantendo o olhar vidraçado pelas lágrimas, que ameaça brotar a qualquer segundo, preso nas pequenas pedras da calçada que se rasgavam debaixo dos seus pés, mantendo um fáceis fechado e carregado pela saudade penetrante que lhe dilacerava o coração
- Então o que é que a menina está aqui a fazer? – inquiriu mantendo-a sobre a protecção de um olhar, pois esta estava decidida a impor uma profunda distância do seu segurança e de qualquer outra pessoa que se pudesse aproximar – Volte para lá! Vá ter com ele! Não é tudo o que sempre quis?
- Não… Não assim! – proclamou num simples suspiro a dor que lhe abarcava a alma na incerteza dos sentimentos que lhe invadiam o coração – Não aqui… Não agora! Não depois de tanto tempo!
- A Adriana ama-o… Não importa onde, quando ou como, desde que fiquem juntos!
- Não consigo… Eu não consigo, caramba! – autocensurou-se, deixando que a mão direita lhe afastasse do rosto os cabelos mais teimosos que eram controlados pela respiração pesada e comedida que habitava os seus pulmões, pairando por entre os lábios entreabertos – Ele não é mais a mesma pessoa… Ele está a fazer isto para repetir aquilo que me fez no Colombo há uns meses! Eu não posso cair nesse disparate…
- Adriana, Adriana! Pare de dizer parvoeiras… Ele não iria dar-se ao trabalho de repetir essa brincadeira de mau-gosto! Eu acho que ele ainda a ama… - Paulo colocou em cima da mesa a única hipótese que não era fiável para Adriana naquele momento, pois ainda conseguia sentir o seu coração fragilizado pela humilhação de que fora vítima naquela fatídica tarde, que pretendia ser somente de diversão entre amigos, mas que infelizmente acabou da pior maneira
- Ama, Paulo? - enrugou a testa, ao mesmo tempo que um sorriso traçado de ironia lhe habitou os lábios, exibindo toda a sua surpresa por ser forçada a escutar aquela patusca afirmação – A partir do momento em que eu o deixei… Esse amor morreu!
- Adriana, não diga isso! Volta lá… Vá ter com ele e conversem!
- Conversar… Conversar… Acho que eu e o David já não sabemos o que isso é! – perquiriu lamentosamente, deixando os seus dedos ocuparem o lugar livre nos bolsos frontais dos jeans que elegantemente envergava
- Se calhar porque desde que ambos erraram nunca mais o tentaram fazer de verdade… Como dois adultos que são! – afirmou Paulo, deixando a experiência dos trinta e poucos anos que possuía vir ao de cima em breves conselhos que pareciam não surtir em Adriana qualquer resultado, visto que esta permanecia intermutável e pouco disposta a ceder aos seus pedidos
- Se calhar porque eu e ele não possuímos mais essa capacidade… Se calhar porque eu e ele funcionamos somente como amigos… Amigos e nada mais! – por muito que lhe tivesse custado admitir o que para si considerava como verdade, apesar de dolorosa, Adriana articulou ali um tubo de escape para se livrar da deformidade e fugir ao discurso imposto pelo persistente segurança
- Adriana! Adriana, espera! – assim que conseguiu resguardar o perfeito plano que se encontrava por detrás de Paulo, ela alcançou com um só olhar, mais do que o seu coração poderia aguentar
Lá estava Ruben… Proclamando o seu nome durante uma corridinha frenética, que atrás de si arrastava David, igualmente desejoso de lhe falar, de puder esclarecer aquilo que acontecera, mas sem saber ainda como abordar o assunto. O timbre vocal do seu melhor amigo foi o suficiente para despertar nos seus pés a mesma passada delirantemente louca, que minutos antes lhe fora decretada pelo medo. Virou costas ao tolerante Paulo, com quem mantinha uma conversa, ou pelo menos tentava, e impulsionou o seu corpo na direcção da saída do campus. Estava quase vazio e poucos eram os vestígios da equipa técnica encarnada… Somente dois ou três membros, que recolhiam as bolas em torno do perímetro de treinos, enquanto a pequena rapariga que desaprendera a amar se esforçava para alcançar um porto seguro, que a deixasse em paz consigo mesma.
- Adriana, espera! – ordenou Ruben pacificamente, tentando manter o sangue frio e a velocidade suficiente para a alcançar
- Menina… Por favor! – implorou Paulo, que também a perseguia, levando clara vantagem de Ruben, que se encontrava uns três metros atrás de si
- Esqueçam que eu existo, merda! Esqueçam! – gritou, pousando o pé na primeira estrada que surgiu na sua frente, sem ter tempo de colocar em prática as regras de segurança rodoviária e por isso viu-se mais uma vez vítima das artimanhas do destino, que lhe levou o coração à boca, no mesmo instante em que um carro teve de travar a fundo para evitar uma desgraça maior – Pardonne moi! – desculpou-se imediatamente ainda numa voz trémula do susto e ofegante pela corrida que teimava impor a si mesma, sustendo a mão em cima do capô do carro e a outra no ar, fazendo um sinal cordialmente sereno
- Adriana, espere, por favô! – pela primeira vez também David lhe solicitou a sua presença, dando uns passos mais largos de modo a apanhar Ruben, objectivo alcançado em cerca de poucos segundos
No entanto ela não parecia minimamente disposta a ceder ao pedido de nenhum dos três homens que teimavam em segui-la obstinadamente, sem mostrarem o mínimo sinal de desistência, tendo na boa forma física um excelente factor de apoio, mas ela acabou por levar a melhor.
- Taxi! Taxi! – esticando delicadamente a sua mão no ar, deu indicação para que uma viatura matriculada como parisiense, travasse o seu percurso e lhe cedesse lugar no seu interior
- Adriana, não… Espera! – foi louvável a insistência que Ruben partilhou até ao fim, mas infelizmente esta revelou-se totalmente em vão, pois assim que a viatura parou junto do passeio onde a sua melhor amiga se encontrava, esta entrou, mas não sem antes deixar o seu olhar percorrer o cenário que se desenrolava na sua dianteira, prendendo-se especialmente em David num momento relatado de breves segundos
- Bonjour, pour Paris Bercy, s’il vous plait… - solicitou educadamente, perscrutando todo o conteúdo da sua mala numa busca desesperada por dinheiro… pelo menos que lhe fosse suficiente para pagar aquela viagem até ao sítio onde a aguardavam dentro de uma hora para o ensaio geral
- Bien sur, Mademoiselle! – o homem jovem e vigoroso, que tinha em seu controlo a condução da viatura, acenou educadamente com a cabeça, tomando posse do volante pelo qual se guiaria nas movimentadas ruas parisienses, onde uma amálgama de transportes urbanos e pessoas inundavam os viadutos de passagem com os seus largos passeios… ora a pé, de metro, autocarro e até mesmo de bicicleta, para os mais ousados
- Adriana, espera! Espera! – Ruben ainda alcançou a viatura e bateu insistentemente com a mão na superfície envidraçada do automóvel, na esperança de que esta lhe abrisse a porta que se encontrava trancada do lado de fora – Adriana!
- Allez! – num trejeito subtil e desfocando o seu olhar do único ser que a poderia fazer desistir daquela fuga, desviou o rosto para o outro lado, sentindo as lágrimas molharem-lhe o rosto delicadamente - Je suis pressé!
O veículo arrastou-se pelo asfalto, transportando Adriana e seu fraco e desistente coração. Foi uma viagem feita em torno do silêncio e do enorme vazio que ficou em seu coração, que permaneceu alheio a tudo o que ficara para trás. O seu melhor amigo, o seu segurança… e o homem que ainda amava.
- O que é que tu lhe fizeste? – vociferou Ruben num laivo de irritação, impulsionando para trás a figura do frágil David, num descomplicado repelão violento, que quase o fez perder o equilíbrio – Eu avisei-te para não a magoares de novo!
- Tem calma, manz… Eu juro que eu não fiz nada de mal… Eu juro! – a sua voz trémula tentou libertar-se, mas a pressão imposta por Ruben era tamanha, que este se sentia totalmente incapaz de abrir o coração e dizer o que havia feito
- Eu avisei-te, David… Eu avisei-te que se ela não parasse essa tua nova personalidade de merda, ia parar eu! Estavas sobre aviso, puto! – apesar de poucas serem as pessoas junto do recinto privado do hotel, todas elas foram chamadas a assistir à cena, sob a voz exaltada de Ruben
- Cê não é ninguém pra me dar avisos e eu já falei que não fiz nada de mal! – suplicou numa voz fina e totalmente estrangulada, que deturpou toda a sua vontade de correr atrás de Adriana e reatar o sentimento puro e genuíno, que era comum a ambos os corações
- Fizeste, é claro que fizeste! A Adriana não iria sair daqui assim se tu, meu grande anormal… Não lhe tivesses feito alguma coisa de mal! – Ruben não se coibiu de prosseguir com todas as acusações, sem tomar pelo menos o mínimo conhecimento do que realmente acontecera
- Acalmem-se… Por favor, acalmem-se que há pessoas presentes! – relembrou o sempre atencioso Paulo, preocupado em mantê-los afastados de possíveis problemas e das objectivas sempre atentas dos fotógrafos da imprensa, que caminhavam sempre em busca de conflitos, que lhes oferecessem manchetes de jornais
- Eu não me vou acalmar, enquanto ficar aqui ouvindo o meu melhor amigo me ofendendo, sem se preocupar se pelo menos eu estou bem e se fiz ou não alguma coisa de errado!
- Não te faças de vítima, David… Eu avisei-te, eu avisei-te que aquela era a última vez que lhe tinhas feito mal!
- Eu já falei que não fiz nada pra ela, pô! Vê se enxerga que eu amo a Adriana, é ela a pessoa que mais quero bem nesse mundo!
- Não estejas a gozar com a minha cara, David! Este é o último aviso que te vou fazer relativamente a ela… Mantém-te longe, foda-se! – assim que aquela palavra obscena entrou no íntimo de David, este contorceu-se de uma tremenda desilusão, pois nunca pensou um dia ver o seu melhor amigo, uma das pessoas mais honestas e simples que conhecera, falar-lhe daquele jeito
- Acalmem-se por favor! – Paulo voltou a lembrá-los de que se encontravam num local público e naquele momento, mais do que nunca, expostos aos olhares curiosos de todos os que ali passavam
- Eu tô muito calmo… Calmo demais, até… Tô indo pro hotel, não fala mais pra mim! – depois de enterrar o seu olhar no chão e posicionar as mãos nos jeans escuros que vestia, David tentou retomar o calçadão de pedra que unia o centro de estágio ao hotel, mas Ruben cortou-lhe os movimentos com um forte apertão no braço
- Diz-me, o que lhe fizeste… Diz-me, antes que eu perca a paciência!
- Me solta, porque eu não vou falar nada pra você! – apesar de Ruben ter usado a potência máxima da sua voz, em David imperou a calma
- Não vais sair daqui enquanto não me disseres o que aconteceu na minha ausência!
- Já falei pra cê me soltar, caraca!
- Fala! Diz-me a mim tudo o que lhe disseste! Explica-me como é que a humilhaste desta vez! – antes de ter dado conta disso, Ruben berrava vertiginosamente com o homem a quem havia dado a mão, quando este mais precisara
- Já falei pra cê me soltar! Me solta! – David, repuxou o seu braço atrás, livrando-se do toque impertinentemente forçado por Ruben, mas este movimentou-se mais uma vez na sua retaguarda cortando-lhe o trajecto de regresso
- Fala, diz-me! Diz-me, seu otário… Diz-me o que lhe fizeste! Qual foi a grande humilhação desta vez?
- Ruben, me larga… Vê se me esquece!
- Que grande homem que tu és! Se calhar a Adriana estava certa quando te deixou… Como a Carolina também deixou, não é? És mesmo um grande homem, para acabares sempre abandonando!
Ruben tocou no único assunto que podia fazer com que David vacilasse. O único assunto do qual o seu coração guardava mágoa e que tanto o machucava… De dia para dia. Durante muitos anos achou que Carolina fosse o amor da sua vida, mas infelizmente essa realidade foi destruída pouco depois da sua vinda para Portugal e o laço que os unia, e costumava ser forte, quebrou, arrastando pela enorme distância que separa um país do outro os restos de uma história que teria tudo para ter sido perfeita. E depois Adriana… A menina, então já mulher, que encontrou em Portugal e que com a qual estabeleceu projectos de vida. Com a qual dividiu casa, com a qual desejou casar, ter filhos, no prenúncio claro de um futuro a dois. Mas a vida persistia em querer roubar-lhe todas as hipóteses de ser feliz e tal como Carolina, também ela o abandonou… Por causa da coisa que mais amava fazer na vida: jogar. Um misto de sensações revolveu o seu estômago, levando até à sua garganta um nó apertado, que quase o sufocou de tanta raiva e apesar das lágrimas terem aflorado imediatamente aos seus olhos, este não temeu encarar o melhor amigo, se é que ainda poderia chamar-lhe isso, de frente… Olhos nos olhos, rodando logo atrás dos calcanhares o seu corpo.
- Eu beijei ela! – gritou de braços abertos, assumindo para todos, aquele que fora o seu maior erro – Eu beijei ela! Eu beijei a Adriana! – afirmou com as lágrimas a correm-lhe pelas faces, naufragando segundos depois no contorno ténue dos seus lábios carnudos e pálidos
- Tu beijaste-a? – Ruben foi domado pela surpresa da sua confissão e pela possibilidade de uma possível injustiça que havia cometido com um amigo muito especial e já de longa data – Tu beijaste-a para quê?
- Pode ficar sossegado que não foi pra humilhar ela não… Beijei ela porque não aguentava mais de tanta saudade e a queria para mim! Beijei ela porque ela é a mulher da minha vida apesar de estar tudo terminado! Beijei ela porque a amo… Porque a amo e porque a sua ausência na minha vida está me matando!
O estado inebriantemente doloroso em que David se encontrava, anestesiou Ruben, impedindo-o de agir ou tomar qualquer gesto de carinho e solidariedade para com o melhor amigo, que tantas outras vezes lhe havia oferecido o seu ombro nas horas de maior aperto. Até Paulo ficou estancado, percebendo pela primeira vez que o amor que unia Adriana e David era bem maior e mais forte do que esta lhe descrevera nas narrativas de início de Verão.
- Mano… - assim que ganhou coragem para falar algo acertado pela primeira vez desde o início daquela confusão, foi interrompido por David, cuja mágoa falou mais alto, impedindo o melhor amigo de lhe dirigir a palavra
- Não fala mais nada… Me devia conhecer melhor, devia saber que meu amor por ela é puro e que sim… Posso ter errado daquela vez, mas jamais seria capaz de o repetir… Obrigado por me conhecer tão bem! – agradeceu ironicamente, enquanto limpava as lágrimas discretas que lhe corriam pelas faces, pois quem diz que homem não chora está errado… pois todo o homem ama e todo o homem tem coração…
- Se foi só isso que aconteceu porque é que ela saiu daqui a correr disparada? – inquiriu sentindo cada expressão da sua alma surpreender-se com tal reacção da parte de Adriana, visto que teria tido ali o momento de reconciliação com o qual sempre sonhara
- Não sei… Eu já não sei nada… - indagou num suspiro brando e deixando que os seus pés o guiassem, rumo ao quarto de hotel no intuito certo de cair sobre a cama e aí perecer, tentando compreender qual teria sido o seu implacável erro desta vez

“De: Adriana
Querido Paulo, não te preocupes comigo! Segui no táxi para o local de ensaios, porque preciso de colocar a cabecinha em ordem! Desculpa ter-te deixado aí sozinho… Espero ver-te aqui entretanto! Até já, beijinhos :)”
                                                                                                          

O aparelho electrónico tremelicou no bolso esquerdo do casaco negro que escondia a encorpada figura do segurança, obrigando-o a desmontar a imagem apaziguadora que havia adoptado para puder ver do que se tratava. Os seus maxilares cerraram-se e tentou parecer o mais normal possível, visto que na sua frente ainda tinha a principal figura protectora de Adriana… o seu melhor amigo.
- Desculpe, mas eu vou ter de ir… Tenho trabalho a fazer! – perdoou-se, ajeitando a sua cabeça num aprazível trejeito direccionado ao chão – Até breve!
- Espere… Paulo, não é? – questionou, tentando concentrar-se na noite anterior e no momento em que ambos haviam sido apresentados, precisamente no calor de toda a confusão
- Sim… Isso mesmo! – confirmou, passando as suas mãos para o interior dos bolsos das calças clássicas que envergava de forma austera, conferindo-lhe aquele porte de guardião do destino de alguém
- Eu preciso de falar com a Adriana… Não me sabe dizer para onde ela possa ter ido? – inquiriu, deixando as emoções resguardarem-se no cálice do fulgor de uma nova réstia de esperança em tê-la na sua frente para uma longa e morosa conversa de amigos de longa data
- Desculpe-me, mas não creio que lhe saiba dizer onde ela se encontra… Agora se me dá licença, eu tenho mesmo de ir…
- Paulo, por favor… É importante! Eu preciso mesmo de falar com ela… Por favor! – apesar de ter suplicado livremente pela indicação do paradeiro da sua doce menina, Paulo não estava disposto a fornecer todas, mas poucas, informações que tinha a respeito do assunto
- Lamento, mas não poderei mesmo ajudá-lo… O resto de uma boa tarde! – rodando sobre os próprios calcanhares o corpo de desproporcional envergadura, Paulo deu início a uma caminhada fustigada pelas lacunas que o tempo provocara na sua vida até agora e esforçando-se por engendrar mil e uma maneiras de abordar novamente o tema do beijo com Adriana, mas não deixando que esta se magoasse face à nova recordação
Já Ruben, acabou por seguir o seu caminho, com o pensamento inundado de hipóteses para duas questões fulcrais: o paradeiro de Adriana e o estado deturpado em que a sua amizade e de David se poderia ou não encontrar, mas para uma dessas perguntas… a resposta não tardou em chegar.


***


 
- Mano? Mano? – o seu punho cerrado bateu durante três vezes ritmadamente na porta da casa de banho da suíte que ambos dividiam, mas não obteve qualquer resposta, por isso resolveu abri-la mesmo sem receber uma autorização – David… - chamou por ele assim que perscrutou a sua imagem de pé, debruçada sobre o enorme lavabo que enquadrava o espelho colossal, que ocupava uma só parede de cima abaixo
- Eu não lembro de dizer que cê podia entrar! – acusou, erguendo a cabeça e servindo-se da superfície espelhada para conseguir enxergar o melhor amigo
- Não precisas falar assim comigo… - contrapôs imediatamente, fazendo passar a porta pelo restante espaço entre o vão da mesma - … vim em paz!
- Ué, engraçado… Cadê sua paz há pouco, quando me desatou acusando sem sequer perguntar nada? – questionou, virando-se na direcção do amigo e deixando os expostos os dois olhos esverdeados e fustigados pelo sofrimento de mais uma perda da sua amada Adriana
- Vamos falar sobre isso, David… Sabes que sou o teu melhor amigo, mas que com ela ninguém pode brincar… Que ninguém a pode magoar! – declarou avidamente, relembrando que há já muito tempo que a conhecia e que a condição que os unia era a de irmãos… do coração – Eu sei que errei, mas não fiques de mal comigo…
- Eu não tô de mal com você… Eu simplesmente quero ficar sozinho! Como cê disse fui mais uma vez abandonado, logo é assim que pretendo ficar! – David sabia que recorrer a palavras ditas por Ruben no momento de consternação era o mesmo que atear com achas uma fogueira que já ardia demais, mas nem isso o impediu de fazer – Por isso com licença… Sai!
- Olha lá… Que eu me lembre não afirmei nenhuma mentira, David! Sei que não o devia ter feito, pois sei como as histórias do passado te magoam… mas no entanto não menti, limitei-me a tocar num assunto que era proibido…
- Então cê disse o que quis e perdeu o que não quis! – ripostou imediatamente, dando claramente a entender que a forte amizade dos dois havia perdido o enorme laço de irmandade que os unia, sendo sustentada por alicerces quebrados e que não aguentariam muito mais tempo
- David… Já nos conhecemos há alguns anos, somos como irmãos, estamos sempre lá um para o outro… Não tem sentido ficarmos chateados por isto!
- Cê disse bem… A gente se conhece há uns anos, mas sempre que o assunto envolve Adriana, parece que esse tempo desaparece da sua memória e cê só enxerga a longa amizade que tem com ela! – acusou, abrindo os braços no ar e deixando-os cair em cima da bancada da casa de banho, sustentando-se somente nas duas frágeis mãos, que ameaçavam detonar a qualquer segundo o choro impulsivo que lhe picava o olhar
- Ela é mais frágil, David… Precisam que a protejam!
- A Adriana não é nenhum bebé! Ela é mais mulher do que muitos pensam… Ela é bem mais forte do que todo o mundo julga! – afirmou, tendo em base todos os conhecimentos, que um ano de relação e outros tantos meses de convívio, lhe tinham ensinado – Deixa ela continuar a crescer sozinha… Parem de a proteger! É por a protegerem tanto que na mínima advertência ela quebra em fraqueza e sai correndo! – concluiu ao relembrar dolorosamente o comportamento que tivera para consigo logo após o maravilhoso beijo que havia bailado em ambas as bocas
- As coisas não são bem assim… Ela é forte sim, mas todo a gente precisa de ser protegida de vez em quando na vida e desde aquilo que aconteceu no Colombo que eu prometi a mim mesmo cuidar dela e garantir que não se repetirá de novo! Só estou a fazê-lo…
- Aquilo que eu fiz no Colombo, foi porque estava fora de mim… Nada mais se irá repetir, o meu único erro agora foi ter beijado ela, achando que ainda sente alguma coisa por mim! – auto-satirizou-se, tendo em mente que a mulher que mais amava na vida toda, havia-o esquecido num singelo compasso de três meses, que a si lhe pareceram uma eternidade inultrapassável
- Achas mesmo que ela não sente nada? – questionou impenetrável, deixando que o seu tronco tombasse no sentido de uma das laterais da aduela da porta e cruzando na frente do peito os braços impertinentes, em busca de uma resposta sincera - … Que já te esqueceu?
- Sim… Sinceramente acho! Porque uma pessoa que corresponde ao beijo como ela correspondeu e sai correndo só pode significar duas coisas… Ou não me ama mais ou é cobarde demais para enfrentar esse tipo de situação! – afirmou, mantendo debaixo de olho o melhor amigo, mas sempre enxugando o seu próprio rosto com uma toalha branca adornada a orlas de fio se seda dourada
- Ou se calhar gosta de ti, mas está demasiado confusa para conseguir perceber onde queres chegar com isto tudo… não? – sugeriu Ruben, detendo todos os conhecimentos mais profundos acerca dos sentimentos que ainda faziam modesta moradia no coração frágil e ainda em chagas da sua amiga mais próxima
- Acha mesmo que ela me ama depois de tudo o que eu fiz, Ruben? – perguntou, servindo-se do pouco espaço que Ruben deixara na porta, para passar em direcção ao quarto que tinha sido a habitação de ambos na última semana – Você foi o primeiro a dizer que mesmo que ela me perdoasse era você que não me deixava voltar pra ela… ou esqueceu?
- Não… Claro que não me esqueci, mas sabes… Eu disse isso àquele David horrível que magoou a minha melhor amiga… Não a este David, não a ti, mano! – defendeu Ruben, rodando o seu corpo 180º para que pudesse ver o percurso que David fez até se jogar em cima da cama, mantendo a barriga virada para cima e o olhar fixo no tecto, perdido nos seus próprios pensamentos… Acerca de quê? Adriana, pois claro.
- Eu nunca vou esquecer a forma como a magoei… - retomando a posição própria de quem ocupa uma cadeira, ergueu as suas costas e conseguiu por fim olhar o amigo - … mas também não vou esquecer a forma como ela me deixou! E hoje… pela segunda vez!
- Só não percebo uma coisa, David… Porquê agora, hum? – questionou-o, mantendo um olhar de censura sobre a figura combalida do amigo que lhe era mais próximo e ao qual desejava a maior felicidade do mundo, especialmente no amor… pois essa também seria sinónimo da felicidade de Adriana – Porquê só agora a beijaste?
- Porque não tô aguentando mais essa saudade… Eu achei que a mágoa era grande, mas o amor e saudade são muito maiores e mais fortes! É difícil ficar longe só pelo simples facto que tê-la por perto me deixa louco… - confessou, sabendo que estava a passar todos os limites do que era aceitável para ser assumido por um homem, mas isso não o importunou nem um pouco, pois no final de contas estava a abrir o seu coração para uma pessoa que sabia que não o iria ridicularizar
- Então estás à espera do quê para fazeres as pazes com ela? – perguntou, deixando que um olhar de incentivo fosse direccionado ao melhor amigo – Ela ama-te, tu a ela… Vai a isso, mano! O tempo está a contar e quanto mais os ponteiros passam, é mais um minuto que ficam longe um do outro!
- Mas eu nem sei onde ela está… Não sei o que dizer… especialmente depois do jeito grosso que ela me deixou pendurado depois daquele beijo!
- Vais saber o que fazer… Apenas deixa-te ir pelo que sentes, mano! – aconselhou Ruben, ciente de que os melhores amigos se encontravam a um pequeno passo de unificarem novamente o sentimento que os demovia a ambos na busca do amor mútuo
- Mas como vou ver ela se saiu daquele jeito bobo?
- Pois… Isso eu não sei, mas há um sítio de onde ela amanhã não vai puder fugir! – recordou, deixando que os seus lábios se abrissem num sorriso triunfantemente sábio, fruto dos conhecimentos que possuía
- E esse sítio é onde…? – apesar de ter questionado, não precisou de qualquer resposta pois a expressão óbvia de Ruben, denunciou o paradeiro da jovem de quem ambos gostavam muito… mas de maneiras muito diferentes – O concerto…
- Isso mesmo, mano! O concerto… Não vai haver maneira de ela fugir disso! – constatou, mantendo na face o olhar astuto e perspicaz, característico da personalidade sólida e inteligente que possuía
- Acha que deva ir…?
- Eu já ia, mano… Pedi autorização ao mister e ele deixou, por isso se falares com ele…
- É isso, é isso mesmo! – ciciou para si mesmo, tentando procurar em cada extremo do seu corpo a coragem suficiente para procurar a sua mais-que-tudo, mas esta parecia fugir-lhe a cada investida fugaz
- Relaxa… Amanhã as vossas vidas vão voltar aos eixos! – gracejou Ruben, sorrindo-lhe harmoniosamente, totalmente confiante na reconciliação dos dois amigos, mas nem tudo seria como ele imaginara…


***


 
- I wanna run away from love, this time i have had enough, every time I feel your touch, I’m broken! – no edifício antigo bem no centro de Paris, os ensaios de Adriana decorriam, mas a sua cabeça encontrava-se longe… no mínimo a dez quilómetros dali, no hotel onde estava instalada há dois dias e meio – Pára, pára! – ordenou, atirando o microfone para o chão do palco
- Adriana que se passa? Onde estás com a cabeça? - inquiriu nervosamente o director de espectáculo, pressentindo que estavam a menos de 24 horas do concerto e ela não estava nem de longe preparada
- Eu estou bem… Eu consigo fazer isto! Só preciso de cinco minutos… - solicitou mais uma vez um intervalo… o quinto naquela tarde de ensaios que não lhe estava a correr de feição
- Tu já disseste isso uma série de vezes esta tarde!
- Eu prometo que agora é de vez… Prometo… - falou para si mesma, descendo em passadas apressadas os quatro degraus que lhe davam acesso ao backstage e aí se perdeu, fintando freneticamente a quantidade assustadora de fios e cabos que lhe transpuseram o caminho
- Adriana… Que raio se passa? – questionou Alice, entrando de rompante pelos corredores estreitos que a haviam trazido das bancadas do edifício de espectáculos parisiense
- Eu só preciso de cinco minutos… Isto é cansaço! – esclareceu, retirando de um pequeno cesto uma garrafinha de água, na qual deu um pequeno gole na esperança ténue de conseguir colocar as ideias em ordens e depois de subir àquele palco, arrasar completamente
- Tu não costumas ser assim… Não é hábito falhares tanto!
- Alice, eu já disse que é só cansaço… Por favor, deixa-me estar! – suplicou, empurrando com as duas mãos a enorme porta de molas, que lhe deu acesso imediato a uns bancos da assistência onde tomou lugar, levando até ao peito os dois joelhos
- Pronto… Eu já não digo mais nada, mas então é bom que descanses pois amanhã tens um concerto e é bom que arrases! – alertou num tom austero e impróprio para alguém por quem Adriana nutria um carinho tão grande, ficando esta sozinha… vendo Alice afastar-se na direcção aos corredores de onde viera segundos antes
- “…é bom que arrases!” – Adriana não se coibiu de imitar com escárnio as palavras da agente, enquanto na sua cabeça um turbilhão de ideias continuavam vivas, chocalhando-lhe as memórias e obrigando-a a recordar na sua boca o sabor meigo e ternurento do seu David
- Ela só quer o teu bem… - a voz de Paulo surgiu sem qualquer aviso prévio, levando a frágil Adriana a sobressaltar-se na sua cadeira, pois julgava-se então sozinha e em paz – É o dever dela…
- Mas o Paulo quer matar-me, é? – inquiriu num tom nervoso, pois tomou imediata consciência de que ele iria procurar respostas para aquilo que acontecera no centro de estágio… respostas essas que Adriana ainda não estava pronta para dar, mas no entanto isso não iria ser preciso
- Desculpe, menina, mas como a vi falar sozinha pensei que não houvesse qualquer problema em juntar-me a si… - esclareceu, enquanto na sua boa-fé ocupava o cadeirão vago do lado da sua pequena menina – O ensaio não está a correr bem?
- Nem por isso… - respondeu, mantendo o olhar firme no palco então vazio, pois toda a banda se tinha recolhida em descanso pela quinta vez numa só tarde – … já conheci melhores dias!
- Hum… E… A menina está com problemas na voz?
- Não… Nada disso! – a expressão lividamente relaxante que lhe domou os traços, demonstrou que estava a predispor-se aos poucos para aceder à conversa que Paulo tanto ansiava travar com ela – Antes fosse… - ciciou baixinho, esperando que aquele murmúrio somente fosse audível aos seus ouvidos, mas no entanto acabou por chegar destorcido aos do segurança
- Disse alguma coisa, menina? – inquiriu, sabendo perfeitamente o que ela havia dito… palavrinha por palavrinha
- Não… Não disse nada! Esqueça lá isso, Paulo! – ripostou, deixando que a sua mão se erguesse no ar e arremessasse a garrafa na direcção do balde do lixo, mas infelizmente naquele dia a sorte parecia não abonar a seu favor e a embalagem de plástico acabou refastelada no chão, depois de somente ter embatido na beirinha da lixeira de metal – Isto hoje é para esquecer… de facto!
- Então, menina… Pensei que hoje o dia não seria para esquecer! – vendo Adriana acercar-se do contentor de alumínio para apanhar a garrafa de água e aí a depositar, Paulo tentou iniciar uma conversa de tema proibido, mas nem isso o intimidou – Afinal… Beijou o homem de quem ainda gosta!
- Oh Paulo! – gritou sufocada pelas próprias palavras traiçoeiras que havia consumado num beijo apaixonado nos lábios do seu David – Não sei do que fala e sinceramente estou sem o mínimo de pachorra para falar sobre barbaridades! – tentando fugir à conversa que se mostrava inevitável mais tarde ou mais cedo, rematou então certeiramente a garrafa de água e rodou o seu corpo disposta a alcançar a porta de acesso ao palco e transpô-la
- Não adianta fugir… A menina sabe que não vou desistir de falar nisto…
- Porque é que não me deixam todos em paz, hum? Porque é que insistem em martelar-me o juízo com essa conversa que não tem pés nem cabeça? – questionou, deixando o seu corpo apoiar-se numa das paredes azuis escuras que se encontravam na sua ulteriora, mostrando-se então disposta a encarar Paulo e responder a todas as suas questões
- Se calhar porque há minutos atrás assisti a uma discussão violenta entre o Ruben e o David… Logo após nos ter deixado lá…
- O quê? – o coração dela disparou nesse mesmo instante, apesar de ela não ter conseguido perceber se pela culpa que sentiu em estar a destruir uma amizade tão grande ou por temer que David tivesse saído ainda mais magoado de toda aquela história, pois sabia que Ruben era sempre demasiado impulsivo
- É isso que ouviu, menina… O Ruben e o David discutiram, porque o seu melhor amigo acusou-o de lhe ter feito mal a si…
- Oh meu Deus… - os olhos baços de lágrimas perderam a essência que os firmava a fixarem-se num ponto alto e estes acabaram por cair por terra, detendo-se nas biqueiras dos seus sapatos, que deixavam descobertas as suas unhas dos pés, levemente tingidas de fúcsia – Eles chatearam-se?
- Não creio, Adriana… O Ruben fez-lhe algumas acusações, os ânimos exaltaram-se, mas acho que irão resolver tudo… Isto se já não o fizeram!
- Eu não queria fazer isto… Não queria… - sussurrou, sentindo as primeiras lágrimas de culpa salgarem-lhe as faces timbradas de desilusão – Eles são os melhores amigos… Eu estou a dar cabo de tudo!
- A Adriana não deu cabo de nada… Simplesmente não devia ter fugido! Devia ter ficado… Conversado com o David… - aconselhou, ao mesmo tempo que a mantinha segura debaixo do seu braço, recordando Adriana de como se sentia no colo do pai quando era pequenina e este a enchia de mimos sempre que os seus primos a excluíam das brincadeiras de rapazes, onde ela tanto queria entrar
- Não consegui, Paulo… Tenho a cabeça numa confusão! O meu coração não sabe o que quer, principalmente porque não esquece aquilo que ele me fez… Eu sei que errei, mas ele tratou-me como lixo naquela tarde… Humilhou-me… Esta foi a minha maneira de me defender de uma nova situação semelhante!
- Oiça… Eu não sei se lhe serve de muito, mas por aquilo que ouvi… - apesar de ter dado início a uma insinuação que certamente levaria Adriana a cair nos braços de David, este proibiu-se a si mesmo de o fazer por não lhe parecer de todo justo expor David e aquilo que ele confidenciara num momento de desespero na frente do melhor amigo
- O que é que ouviu, Paulo? Diga-me, por favor! – suplicou, sentindo as pernas tremerem-lhe de tanta ansiedade pois desde aquele beijo que sentira uma necessidade tremenda de correr para os braços do homem da sua vida, mas uma infinidade de medos não a deixava avançar
- Quer um conselho, Adriana? – procurou receber da sua parte uma resposta, mas ela limitou-se a acenar pacificamente, deixando que as lágrimas lhe corressem vagamente pelo rosto – Se o ama mesmo, se não quer perder este amor… Vá atrás dele, pode ser a última oportunidade que tem para ser feliz!


***


 
O dia seguinte correu tão ou ainda mais célere do que se esperava. O sol estava bem alto e com uma intensidade desconcertantemente incomodativa, que impedia qualquer um de se manter debaixo dele durante grandes períodos de tempo. Adriana gastou as suas ínfimas horas a preparar-se para o espectáculo e tudo se recompôs ligeiramente depois da conversa que havia tido com o Paulo, mas de qualquer das formas no seu coração os medos continuavam presentes, no entanto não a impediam de subir ao palco e fazer aquilo que sabia melhor. Já David passou o dia nervosamente ansioso, esperando que chegasse a hora do concerto para finalmente puder abrir o seu coração a Adriana e contar-lhe tudo aquilo que lhe passava pela cabeça sempre que a tinha por perto, e nem as palavras consoladoras do seu melhor amigo pareciam amenizar tal angústia que vivia.
- Mano! Oh mano! – estava há mais de uma hora trancado na casa de banho, ganhando coragem para sair depois de já se ter aprumado mais de dez vezes, esperando estar no seu melhor quando a encontrasse – Vamos chegar atrasados ao concerto, David! – alertou Ruben, passando mais uma vez o olhar pelo relógio de pulso, que já sentia os seus ponteiros gastos pelo passar das horas que era célere e não esperava por ninguém
- Eu acho que agora tô pronto… Não está faltando nada! – surgiu então pela primeira vez mostrando-se ao melhor amigo, que o percorreu com um simples olhar, para imediatamente esboçar o sorriso mais sincero ao vê-lo
No corpo trazia uns jeans de lavagem escura que lhe assentavam na perfeição, acentuando vertiginosamente as longas pernas que lhe conferiam tão exagerada altura, e nos pés uns bonitos ténis da sua marca preferida, que em combinação com a camisa ligeiramente azulada, repuxada nas magas a três quartos, lhe davam um ao polido e encantador para o evento. A rematar toda a sua imagem nervosa e fustigada pelo momento, o sempre presente relógio de pulso e uma dose exagerada de perfume, que pairava até em seus cabelos fartos em caracóis, perfeitamente alinhados no topo da cabeça.
- E aí… Tô assim tão mal? – questionou, deixando que as suas mãos escorressem nas coxas das calças, depositando aí todas as partículas de suor que revelavam a inquietação que o mutilava minuto a minuto, sempre que via os ponteiros progredirem
- Não… Estás lindinho, mas pareces aquelas gajas para saírem de casa! – indagou Ruben, não conseguindo abafar as amenas gargalhadas que insistiram em rebentar no seu peito, acabando por levar a melhor
- Não me zoa, Ruben! Isso é assunto sério… Tô indo resolver a minha vida! – repreendeu-o de modo sisudo, enquanto colocava no bolso o telemóvel e as chaves da suíte onde ainda se encontravam
- Pronto, pronto, não está mais aqui quem falou! – rapidamente Ruben ergueu as mãos no ar e escondeu-as atrás das costas, mostrando o seu sinal de desistência – Mas parece-me que pelo andar das coisas não vais é resolver nada… Temos dez minutos para atravessar a capital toda!
- Nada que um bom táxi não resolva! – esclareceu, precipitando a sua marcha em direcção à saída do quarto, chegando mesmo a abandoná-lo num único movimento repentino – Manz, vamo’ embora, caraca! – já no corredor gritou, esperando que Ruben o seguisse, tornando-se então ele o motivo do principal atraso – Vamo’ embora, não quero chegar atrasado por sua causa!
- Ah… Este gajo tem uma lata dos diabos! – afirmou para si mesmo, enquanto passava o casaco pelos ombros e enfiava os braços, de modo a ajustá-lo ao seu corpo – Estou a ir… - informou, encaminhando-se também na direcção da porta de carvalho que encerrava o espaço – Estou a ir…
Tudo parecia estar a conspirar a favor de David naquela noite… Todas as peças se mostravam alinhadas para se conseguir reconciliar com Adriana, tanto que no parque de estacionamento vazio do hotel, apenas havia um único táxi que tiveram de disputar com um casal de turistas, mas acabaram por levar a melhor. Apesar das dificuldades que mostraram em comunicar com o condutor, este rapidamente compreendeu o que pretendiam assim que Ruben lhe mostrou o panfleto que anunciava o concerto da sua Adriana.
- A gente tá atrasado, pô! – refilou David, quando já se encontravam às portas do anfiteatro e do seu interior uma ovação proclamando o nome de Adriana se fazia ouvir
- Tem calma… Estas coisas atrasam-se sempre um pouco! Agora é só entrarmos…
- E… Como é que a gente vai fazer isso? Nem tinha pensado… - relembrou esmorecido assim que equacionou a possibilidade de não conseguir por fim colocar um ponto final naquele capítulo menos feliz da sua história com Adriana
- Claro que não pensaste… Tinha de ser eu, mano! – num simples revirar de olhos, executou um movimento certeiro que colocou à vista de David dois passes de acesso a um camarote privativo
- Como cê conseguiu isso? – questionou, mantendo o olhar vidrado nos dois papéis coloridos e tomando imediatamente na sua mão um deles
- Eu até te gostava de dizer que os roubei da pasta da agente dela… Compreendo que teria muito mais emoção!
- Manz, tô falando sério! – falou sentindo em cada extremo do seu corpo a impaciência leviana que o estava a consumir
- Nada que um bom cheque chorudo não tenha resolvido! – revelou, aproximando-se da porta de acesso, onde um enorme segurança, que ele não identificou como sendo privado de Adriana, lhes abriu passagem para o interior, sem sequer terem de aguardar numa fila enorme
- Eu já falei pra você que cê é o maior, cara? – a expressão claramente animada de David ressaltou no mesmo instante em que este saltou para as costas de Ruben e o abraçou intensamente, sentindo-se realmente grato por tudo o que ele fizera para naquele momento estar a realizar um dos seus maiores desejos
- Ei, já chega destes afectos, credo! – num impulso urgente repeliu o corpo de David afastando-o para a outra ponta do corredor, que então percorriam apressadamente – Chega pra lá, que não tens cá confianças para estas merdas!
- Cê é o maior, manz… O maior! – garantiu, batendo com o passe na palma da sua mão, vendo nele o ticket de entrada livre para a zona de felicidade sincera, que lhe havia sido restrita nos últimos meses
- Qual maior qual quê! Vais pagar isto bem pago, não penses… Ficas-me a dever uma… E das grandes, puto!
- Eu faço o que cê quiser, mas agora tô indo atrás da minha felicidade e só isso me importa… - cada palavra proferida por David denotou-se de uma enorme carga expressiva de certeza… ele estava esperançoso de que tudo se iria resolver no preciso momento em que confessasse os seus sentimentos, mas e se… esse momento nem chegasse a acontecer?


 
***


 
- Adriana, entras em palco em menos de dez minutos! – Alice abordou-a, entrando se rompante no seu camarim, no qual ela ainda se preparava, mantendo o olhar focado na sua imagem no espelho e tentando convencer-se a si mesma de que era capaz de o fazer
- Vamos a isso! – afirmou, passando os cabelos soltos para um só ombro e rodando sobre os calcanhares para ficar de frente para a sua agente
- Vai correr tudo bem… Mantém-te focada, diverte-te e faz aquilo que melhor sabes fazer! – enumerou, enquanto o assistente de som, artilhava Adriana com todo o equipamento necessário para o grande acontecimento
- Parece que é agora, então… - sussurrou, mantendo a respiração controlada e a zona do diafragma contraída de modo a suster as notas que ameaçavam tremer nas suas cordas vocais – Desejem-me sorte!
Foi sem olhar mais para trás que se posicionou e deu alento a um dos momentos mais extraordinários daquele Verão. Assim que as luzes se acenderam e a sua imagem surgiu no fundo preto que era emergente em todo o palco, a multidão gritou desenfreadamente, revelando a verdadeira adoração que nutriam por aquela jovem artista. O body de tecido dourado coberto de lentejoulas que envergava fazia brilhar o dobro do que aconteceria numa noite igual àquela, mas estranhamente o seu coração estava fortemente harmonioso, revelando uma paz que não era esperada depois das complicações do ensaio. A partir daí ela soltou-se… Deixou-se levar e nem que tenha sido apenas por uma hora e meia esqueceu-se de tudo aquilo que acontecera na tarde anterior e colocou de parte todos os medos e sentimentos que a inquietavam. Era só ela e o seu coração livre, a fazer uma das coisas que mais a realizava… Mas não foi apenas para o público que brilhou naquele noite, nem somente para eles que cantou, aquecendo-lhes o coração. No camarote superior que se encontrava mais perto do palco, revelando uma vista perfeita, encontrava-se o seu maior admirador… David. Durante aqueles noventa minutos foi completamente incapaz de desviar o olhar da sua menina por um segundo que fosse e cada um que passava mais próxima da perfeição ela se acercava… pelo menos aos seus olhos de eterno apaixonado.
- Eu preciso ver ela… - suplicou a Ruben no mesmo instante que ela se recolheu aos bastidores, aquando do final do espectáculo
- Calma, puto… Não vamos entrar por ali a dentro e dizer que precisas de falar com ela… - assimilou Ruben, com um sorriso nervoso a pintalgar-lhe os lábios carnudos e canonicamente delineados – Ela provavelmente fugia no mesmo instante!
- Mas eu tenho de ver ela… Agora! – a expressão de desespero que lhe assomou no rosto, foi motivo suficiente para conseguir demover o amigo, que se mostrou então disponível para ajudar em tudo aquilo que fosse preciso
- Vamos ver se a conseguimos encontrar… - sugeriu, deixando que o seu olhar percorresse o corredor vazio de acesso à sua bancada
- Manz, isso tá cheio de gente… - afirmou David, quando já ambos se encontravam próximos do camarim de Adriana, mas este estava cheio de gente até ao exterior, impossibilitando qualquer um de se aproximar
- Não a vais conseguir ver aqui…
- Vou, tem de ser! Eu preciso resolver tudo de uma vez… Por favor!
- Mano, é impossível… Isto está a abarrotar de gente, mais vale esperarmos no hotel e aí vocês falam! – Ruben tentou manter o bom censo e alinhar toda a situação de forma a manter David tão calmo quanto possível
- Não… No hotel não, eu quero falar com ela agora! – insistiu, revelando a persistência teimosa, que mostrava ter vindo para ficar… pelo menos até ao momento em que a satisfizesse a seu belo prazer
- Deixa de ser teimoso… Vai ser impossível de entrares ali e mesmo que consigas ela vai arranjar alguma desculpa para não falarem… Vamos embora, vá… - Ruben mostrou-se bastante compreensivo face ao comportamento birrento do melhor amigo, pois sabia bem como ele estava a sofrer desde o fim daquela relação
- Manz, não… Não!
- David, vamos! Depois falas… Va lá!
- Tudo bem… Mas eu não vou desistir, manz! – a segurança com que proferiu o seu discurso, foi a suficiente para fazer Ruben entender que ele não estava de todo disposto a aceitar partir de Paris sem tentar pelo menos uma vez a reconciliação com a mulher que amava – Não vou…


***


 
- Parabéns, Adriana! – um abraço vagaroso por parte de Alice inundou os seus braços – Estiveste melhor do que nunca!
- Obrigada, Alice… Muito obrigada! – ela proferiu o vigésimo agradecimento da noite, revelando já alguma fadiga, que se demonstrava nos olhos decadentes e cerrados pela dor de que ocultara durante hora e meia – Quero ir descansar…
- Já? Tínhamos pensado em ir jantar por aí com a equipa… - sugeriu, esperando receber uma resposta positiva da parte dela, demonstrando nem que fosse uma breve vontade de se animar um pouco e abstrair-se de todos os problemas
- Não estou com grande disponibilidade para isso… Mas vão vocês, aproveitem! – falseou um sorriso moderado e no seu ombro segurou a mala com todos os seus pertences utilizados no espectáculo – Só quero regressar ao hotel e cair redonda na cama…
- Pronto, se assim preferes vamos lá pôr-te… O jantar fica para depois!
- Não, nada disso… Lá porque eu não vou nada vos impede de o fazer! Vão… Divirtam-se… Aproveitem muito!
- Não vai ser o mesmo sem ti…
- Depois marcamos qualquer coisa quando chegarmos a Lisboa… Pode ser? – apesar de o ter sugerido, sabia que não iria com toda a certeza cumpri-lo, uma vez que quando chegasse a Lisboa se remeteria ao celibato da solidão
- Pronto… Vou então chamar o carro para te levar ao hotel, se precisares de alguma coisa vou lá deixar um segurança e tens sempre o meu número de telefone! – relembrou, ciente de que não poderia jamais descurar das suas obrigações, exigidas pelo importante cargo que ocupava
- Sim, não te preocupes que eu fico bem… Até amanhã! – beijou-lhe a tez empalidecida pelo cansaço e seguiu a rota de um dos seus seguranças, desejosa de chegar à sua suite e se entregar a umas boas doze horas de sono, antes de regressar a Lisboa no voo agendado para o final da manhã do dia seguinte
Foi num carro alugado e conduzido pelo seu segurança de serviço naquela noite, que se dirigiu ao hotel… A madrugada já cerrada, empalecia os traçados luminosos que recaiam sobre a paisagem da capital francesa e uma sensação de nostalgia eminente persistia no seu nobre coração entristecido. Os seus olhos teimavam em brotar lágrimas, um espicaçar frutífero perdurava no seu ser e Adriana não sabia como se livrar dele, apesar de forçar a todos os instantes um sorriso falseado.
- Já chegámos… - anunciou Sérgio, o segurança, segurando-lhe a porta para que ela pudesse sair
- Muito obrigada… - com o mesmo falso sorriso nos lábios, ergueu-se da viatura e caminhou alguns segundos na direcção do átrio – Pode ir descansar, Sérgio… Eu vou subir para descansar!
- Não vai precisar de mais nada, menina?
- Não… Pode ir descansar, sair… O que preferir! – os cabelos que lhe penderam sobre o rosto, assim que ela olhou o chão que lhe corria debaixo dos pés, foi afastado num movimento brusco, que os recolocou atrás da orelha – Até amanhã… Tenha uma boa noite!
Ela não esperou para receber uma resposta e aproximou-se da enorme porta de vidraça que fixava a entrada do estabelecimento de luxo, abrindo-se esta na sua frente ao serviço de um dos camareiros.
- Merci… - agradeceu num cordial aceno de cabeça, compartilhando também de um olhar educado e encorpado de postura de mulher
Subiu no elevador como já se havia tornado hábito e somente esperava desejosamente chegar à sua suíte e aí se debater num total momento de descanso, mas esse ameaçava não chegar tão cedo… Percorreu o corredor livre e o seu olhar pairou por instantes na porta do quarto de Ruben e David, rezando para que ambos estivessem a dormir e não tivesse de os ver mais até regressarem todos a Portugal… pelo menos aí estaria mais mentalizada para o derradeiro confronto, mas este chegou mais cedo que o esperado.
Encostado na parede junto da porta que pretendia transpor sem olhar para trás, encontrava-se David… Com as mãos postas na retaguarda do seu corpo, o rosto encovado no chão e os caracóis rebeldemente desalinhados a enquadrarem toda a imagem, que obrigou o coração de Adriana a bater descompassado. Quis virar costas e seguir no caminho oposto sem sequer deixar que ele a visse, mas acabou denunciada pelas solas dos seus sapatos no chão forrado de alcatifa.
- Adriana! – a sua voz foi imediata e o seu rosto apressou-se a fitar o dela, sem qualquer hipótese de vacilar perante tal cenário de nervos
- Ah… - as palavras enrolaram-se na sua garganta, deixando-a sentir no nó apertado que lhe travava a respiração, o amargo sabor da situação que tanto pretendia adiar, mas que entretanto era obrigada a enfrentar – Acho que te enganaste no quarto… - indagou, procurando nos bolsos dos seus jeans a chave que lhe permitisse entrar no quarto quanto antes
- Não… Eu sei bem que esse não é o meu quarto, mas estava precisando falar com você…
- Ouve, eu estou cansada, David… Achas que a conversa pode falar para depois? – questionou, sentindo-lhe o medo em cada frase, que elevava e diminuía a amplitude da sua voz à medida que era proferida
- Não… Essa conversa vai ser aqui e agora! – ele mostrou-se mais decidido do que nunca e sabia que não iria desistir tão cedo de pôr em claro tudo aquilo que havia para dizer
- David, eu estou cansada… Por favor! Amanhã falamos… - desta vez Adriana ganhou a capacidade de lhe falar do coração sem temer ver o seu coração magoado pelas palavras que David lhe pretendia falar
- Amanhã? Amanhã cê vai fugir de mim como fez hoje…
- Prometo que não… Amanhã eu passo no teu quarto assim que acordar… Prometo!
- Adriana… O que é que me garante… - antes que David acabasse de pôr em causa algo que sabia magoar ambos os corações, Adriana enterrou a conversa
- … que não vou deixar-te de novo, é isso? – questionou, cruzando na frente do peito os braços relutantes em deixá-lo ali sozinho – Eu garanto… Agora se acreditas ou não na minha palavra, é um problema só teu…
- Não me falha dessa vez… Vou ficar esperando…
- Podes esperar… Agora se me dás licença, até amanhã!
- Até amanhã… - procurou evocar um pronome carinhoso, mas Adriana livrou-se da conversa do jeito mais fácil que conseguiu… entrando no seu quarto, fechando velozmente a porta - … meu amô! – proferiu já com desilusão e remetido à solidão de um corredor vazio


 
***


Depois de uma longa noite de sono, a manhã trouxe a Adriana as certezas que ela precisava para enfrentar os medos e procurar David tal como havia prometido. Iria ser a última coisa a fazer em solo parisiense… Tomou um banho, perfumou-se e depois de se vestir e fazer as malas, ordenou que estas descessem e todos a esperassem junto do carro, pois não deveria demorar muito mais do que meia hora...


Uma respiração forte foi o suficiente para se aproximar da porta do quarto com as veias cheias de adrenalina, mas esta evaporou-se assim que reconheceu duas vozes familiares, partilhando uma conversa intimista.
- Ela me vai deixar na mão de novo… - conseguiu escutar a voz de David pela brecha da porta, que se encontrava encostada em três quartos de espaço
- Tem calma… Ela gosta de dormir até tarde!
- Não arranja desculpas, Ruben… Ela me enrolou e eu caí! É óbvio que não me vai procurar… É óbvio, é tão óbvio e só eu não enxerguei! – lamentou-se, deixando que a cabeça lhe pendesse pelo intermeio da mãos, que a suportou facilmente sem qualquer tipo de esforço
- Tem calma, David… Caramba! – vociferou, sentindo já em si a impaciência que fazia os sentimentos de David delirarem – Confia nela… Pelo menos uma vez na vida, confia nela!
- Manz… É impossível confiar em alguém que um dia me deixou daquele jeito… - relembrou na sua cabeça cada palavra escrita na extensa carta que ela lhe havia deixado – A minha confiança nela nunca vai voltar!
Aquelas palavras mutilaram o que sobrava do coração estilhaçado de Adriana, que sentiu toda a coragem cair por terra e os medos emergirem e sucumbirem-lhe a alma. Apesar de ter lutado contra a sua vontade, os pés ganharam vida própria e numa corrida desenfreada procurou alcançar a restante equipa que a aguardava já do lado de fora do hotel. Sentiu um embate de um corpo repelir o seu afastando-a para longe num único movimento.
- Menina… - era Paulo… os seus olhos cobriram-se de desespero assim que perscrutou a desesperança aflitiva que lhe dominava as expressões – Que aconteceu?
- Quero ir embora… – com os olhos rasos de lágrimas, jogou-se nos braços do seu segurança, que a prendeu para si num abraço afectuoso e fraternal – Quero ir para casa…
O caminho de regresso estava traçado e quem sabe um dia… Todos os discursos praticados iriam ser proferidos, todas as palavras sufocadas pelo sofrimento iriam ser ditas, todos os sentimentos iriam ser postos em causa de formas nunca antes imaginadas… A reconciliação iria ser esboçada, os beijos um dia dados iriam ser de novo partilhados, as juras de amor iriam ser mais uma vez sussurradas nos ouvidos de dois amantes eternos… Porque sempre se disse que “Deus escreve direito, por linhas tortas”… mas e se nem tudo estivesse destinado a ser escrito a direito por linhas tortas?







Antes de mais quero pedir desculpa pela demora, mas já expliquei no post anterior toda a situação! :c
Quero também aproveitar para agradecer todos os comentários, pois são eles os maiores incentivadores para a continuação da história!
Aqui vos deixo um capítulo grandito que espero que gostem!
Não se esqueçam de comentar e deixar a vossa opinião!   :)
Beijinhos a todas as minhas queridas leitoras!
Drii

25 comentários:

Anónimo disse...

fogo tanto drama...:P
ja chega de nos fazer sofrer...
quero ve-los juntos

Anónimo disse...

Mais uma vez estava lindo, escreves de uma maneira inexplicável, dizes cada coisa que ninguém poderia imaginar, quando estou a ler os teus capítulos parecem que as histórias são reais, daquelas histórias de amor que fazem chorar ( e também chorar por mais), escreves coisas lindas lindas lindas, o capítulo estava lindo mas pelo menos o último paragráfo estava WOW, e a discussão entre o Ruben e o David também estava linda, tu escreves perfeitamente, venho todos os dias ao blog para ver quando tenho capítulos teus, e quando vejo que sim nasce um novo sorriso na minha cara, esperoq eu postes mais o mais rápido possível, por favor. e espero que a reconciliação entre o David e a Adriana seja rápida (:

Catarina disse...

Ai Adriana ja nao aguento mais tanto sofrimento ... Ve la se consegues apressar a reconcialiação XD
Fico à espera do proximo!
Bjs

Anónimo disse...

CHOREI LITROS , COMO TU CONSEGUE HEIM ? MEU DEUS ! MUITO PERFEITO , EU QUERO MAIS , MAIS , MAIS , MAIS , MAIS , MAIS , BEM RAPIDINHO SHIM ?
ADORO VOCÊ MINHA LINDA s2
E TAMBÉM QUERO VER ELES JUNTIINHOS TÁ ?

ElsaNeves disse...

No mínimo fantástico, não há palavras. Mas porque raio teve a Adriana de fugir outra vez... havia mesmo necessidade de ela ouvir aquela conversa e pior ela lhe dar razão e fugir. É mesmo irracional a forma como nos envolves na história, dou por mim a ter vontade de ir empurrar a Adriana para dentro do quarto deles...
Fantástico!!!
Beijinhos minha linda.

Anónimo disse...

mais uma vez espectacular...fantástico! escreves tão bem.
este capítulo deixou-me com os nervos em franja..:p
queria tanto que eles tivessem falado...não foi desta, fica para a próxima. espero!
continua com este trabalho fantástico, e embora compreenda que seja dificíl postar com regularidade, por favor tenta fazê-lo.

parabéns
:)

Diana Ferreira disse...

Ai Adriana Maria! tu deves querer matar uma pessoa de coraçao, nao é?
primeiro a discussao do rubene do david, finalmente que ele admite que ainda amava, o rapaz pronto a declarar-se e sepois pumba! a adriana ouve aquilo que nao deveria ter ouvido e ele nao deveria ter dito!

mas, eu AMEI este capitulo, já estava com saudades de ler um capitulo teu, e vou pedir aquilo que peço sempre, mais e mais!! quero muito ler o proximo, nao me deixes ansiosa por muito tempo! :b

fico à espera!

beijinhos linda!

Anónimo disse...

Concordo com a Elsa, dá vontade de empurrar a Adriana para dentro do quarto, para ver se eles se entendem.
Quando é que a Adriana deixa de fugir?Os cobardes é que fogem e quero acreditar que a Adriana não é uma cobarde, não depois de tudo o que ela já passou, se ela é a Mulher que o David diz que ela é, então tá na hora dela enfrentar os problemas, fugir não é a melhor solução.
Tu consegues mexer com as nossas emoções, pelo menos com as minhas,eu quase que me vejo a presenciar cada cena que tu tão bem descreves,é incrível,como é que se pode encontrar algo de mal na maneira como escreves? não se pode,porque todo o capitulo tá no limite da perfeição,digo no limite, porque acho que nada é perfeito,podemos sempre melhorar, e é o que tu tens feito ao longo destes 113 capitulos,tens melhorado e de que maneira, o que torna a sua leitura cada vez mais apetecível.Adoro o que escreves,agora só quero que estes dois se entendam de uma vez por todas, pobres corações, já tá mais que na hora não achas?
Continua, fico a aguardar o capitulo da reconciliação,ansiosamente.
Beijos

Fernanda

Castro disse...

Ai, aguenta coração :´(
Como sempre os teus capitulos são fantásticos e a tua história é unica!
Mas quando é que estes dois se entendem? Já não há coração que aguente. A adriana não tinha nada que fugir, e muito menos ouvir esta conversa!! :(
Eu qero estes dois juntos o mais rapido possivel, tah?!

Beijinhos, e continua :D

Annie disse...

Oh minha Adriana linda, eu tinha tantas mas tantas saudades da tua escrita maravilhosa. Fogo, este capítulo foi tão perfeito. Conseguiu mostrar o quanto o Rúben ama o David e a Adriana, o quanto ele protege e quer agradar aos dois. Sabes o que me dá vontade? De pegar nos bracinhos da Adriana e recambiá-la novamente para a porta do quarto do David. Obrigá-la a bater à porta e a entrar. Porra, ela é casmurra e ele tem a boca grande :D -> Perfeitos um para o outro como já se percebeu faz tempo. Espero sinceramente que eles resolvam as coisas no próximo capítulo porque senão acho que começo a desesperar, eu e o David. Coitadinho :/ .
Eu percebo a Adriana, ela ainda está magoada com a tarde no Colombo e o David também tem sentimentos e sofre com o abandono!
Minha querida, isto tudo para dizer que a cada dia que passa adoro e amo e idolatro mais a tua escrita. A maneira como descreves cada movimento, do início ao fim.
És espantosa.
Ontem também postei Dreams of Love, não sei se já viste.
beijinhos e espero vir aqui e ler outro capítulo rapidamente

Anónimo disse...

Oieeeeeeeee


AMEIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII :D


QUERE-OS JUNTOS :P



Beijinhos

Ana Sousa disse...

Ai, minha linda! Que coisa mais linda :D
AMO, AMO, E AMO!
A tua escrita encanta-me, vicia-me!
Espero bem que eles se entendam de vez, a Adriana está a ser bastante mázinha com ele :C
De qualquer das maneiras, amo!
Quero mais, minha querida.
Beijinho
Ana Sousa :b

- C' disse...

AMO a TUA História!

CONTINUA!

http://ummundodefantasiaerealidade.blogspot.com/

é novinho(mesmo muito) mas vai vendo ;)

Anónimo disse...

Isto é lindo Dri! Quero mais! :)
Está cada vez melhor!

Ana Moreira

Mary disse...

Ora bolas!
E eu a pensar que era desta que eles ficavam juntos e felizes de novo e estou a ver que isto ainda vai verter muita água...
Bem, como sempre, eu amei o capítulo e sabe mesmo, mesmo, mesmo bem vir ao teu blog e ter um capítulo enorme para ler.
Beijinhos!

Fabi disse...

Ai, é tão delicioso ler esta história! É tudo tão fantástico, tão pensado, tão real, que damos por nós como sendo parte integrante da história!
Mais uma vez, muitos parabéns pelo excelente trabalho que tens feito aqui! **

Anónimo disse...

Está fantástico :D
continua...

Já agora, qual é a música?
beijinhos*

Anónimo disse...

como sempre fantástico né??
muitos parabéns

beijinho

ps:quero mais

Anónimo disse...

Quero mais rapidinho shim minha linda ?
aah e não deveria ser capítulo 112 amor ?
de qualquer forma AMEI!

Anónimo disse...

EXCELENTE....simplesmente excelente. Só tenho duas coisas a dizer
1ª-continua assim :)
2ªquero-os juntos , pode ser? :*-*
P.S. nome da múscia :$

Anónimo disse...

poça, eu achar que seria desta....e pumba, ele tinha de dizer aquelas palavras tontas :S


queria tanto que eles fizessem as pazes :(

para quando o proximo? quero ver como é que vai ficar o david.

bjs e continua.

Anónimo disse...

adriana esto esta lindo mas caramba tenta por esto mais saselarado bjkas mas adoro a mesma

Anónimo disse...

está espectacular...

Anónimo disse...

Quando é que vais publicar, já não publicas há mais de uma semana... quero ler o resto --'

Alexa disse...

Está lindo! Nem há palavras para o descrever, está verdadeiro, puro e sentido. Ainda estou a chorar :s mas amooooo

Parabéns!!

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