sábado, 7 de maio de 2011

Capítulo 107 – Have Yourself a Merry Little Christmas (Parte IV)



- Vá, deixa-me abrir a porta e tapar-te os olhos! – pedi com um sorriso traquina

- Bem, já não ‘tou gostando disso, amô! – ele refilou fazendo um beicinho de criança

- Amor, acredita que depois vais gostar… - sorri, dei-lhe um beijinho no pescoço e com muito esforço coloquei-me em biquinhos de pés para lhe tapar os olhos com as mãos

Fui empurrando-o na minha frente, até atravessarmos a porta já aberta, a Dona Regina e o Sr. Ladislau estavam sozinhos na sala e eu via a cabecinha de quase todos da minha família, a espreitarem pela porta da cozinha.

- Amô, ainda demora muito? – o David já estava impaciente e por norma ele não gostava de surpresas, mas estava na esperança de que aquela fosse excepção

- Calma, eu vou já mostrar… - ri-me em surdina, devido ao desespero dele, que se contorcia devido à inclinação que fazia com o seu corpo para trás, para que eu lhe alcançasse os olhos

Fiz sinal com a cabeça aos pais dele de que o iria soltar, eles sorriram e a Dona Regina levantou os polegares positivamente, dando-me alvará para o fazer.

- Estás pronto, amor? – sussurrei juntinho do ouvido dele, e senti-o estremecer quando a minha respiração embateu contra a pele da sua orelha

- Estou, mais que pronto, amô! – ele esboçou um sorrisinho lindo que consegui alcançar com o olhar, espreitando por cima do seu ombro

- Então vou destapar… Um… Dois… Três! – contei vagarosamente, destapei-lhe rapidamente os olhos e tomei o lugar do seu lado, para puder ver bem de perto a sua reacção

Ele ficou hirto, olhando os pais, de queixo caído e de olhos brilhantes, completamente rasos de lágrimas.


***

(David)

Não via a minha mulequinha há uma semana, tava louco de saudade, mas os meus treinos e os trabalhos dela, não tinham permitido que fosse de outro jeito, para grande tristeza de ambos. Eu andei matutando um tempão o que eu ia oferecer para ela no Natal, sim, porque eu estava determinadíssimo em passar o Natal junto dela, mesmo que isso, infelizmente, significasse ficar longe dos meus pais. Ao fim de alguns dias pensado, recolhendo opiniões junto dos rapazes, que sugeriram desde jóias, a roupas, mas eu sabia que ela não ligava muito para essas coisas, apesar de andar sempre super arranjada e linda. Me decidi então por um presente ousado e muito arriscado tendo em conta um dos seus maiores medos, mas que eu podia imaginar uma fácil adaptação. Encomendei e apenas o iria buscar na manhã da véspera de Natal. Tentei ir junto com ela para a Quinta da sua família, mas ela não deixou, disse que tinha um negócio para resolver e eu até agradeci, pois assim fiquei mais à vontade para ir buscar o presente dela bem cedo. Quando lá cheguei a recepção feita por ela, não podia ter sido melhor. Me encheu de beijos, saciando parte do desejo que tinha dos seus lábios e do seu sabor, que eu conhecia tão bem e que já considerava meu. Mas depois disse que tinha uma surpresa para mim, eu detestava surpresas, mas confiei. Deixei então que ela me guiasse até dentro de casa e quando me deparei com meus pais bem na minha frente, fiquei muito emocionado.

- Tô sonhando! – meus olhos estavam cheios de lágrimas de felicidade, mas ainda assim meus lábios mostraram um pequeno sorrisinho

- Não está não, meu filho… - a voz doce da minha mãe, ali tão perto, me fez compreender que não ‘tava sonhando, mas vivendo a mais bela quimera de amor

- Mãe? Pai? Que cês tão fazendo aqui? – enxuguei as lágrimas que caíam do meu rosto e meu sorriso se intensificou

- Você vai querer essa resposta antes ou depois de nos dar um abraço? – ambos me abriram os braços, esperando que me aninhasse neles e foi exactamente isso que fiz

- Ai que saudade, mãe… Oh pai… - fiquei emocionado e entre o calor dos braços dos meus pais, chorei discretamente

- A gente já tá aqui meu filho, a saudade vai passar rapidinho… - minha mãe me mexeu nos cabelos e sua voz soou doce e meiga como sempre

- Como cês tão aqui? Como vieram? Porque não me disseram nada? – naquele momento, explodi todas as perguntas que me estavam deixando curioso

- Calma, meu filho… A resposta para todas essas perguntas é a Adriana! Ela que nos fez chegar até aqui, meu anjo! – minha mãe me esclareceu imediatamente e meu coração derreteu

Olhei para ela, meu mundo fixou naquele ser lindo, que de olhos húmidos me olhava, emocionada, por aquele momento lindo, e que havia sido proporcionado por ela. Naquele momento defini um monte de ideias, que até aquele momento, eu sentia, mas não tinha nem a mínima noção. Só ela era capaz de me dar a coragem que eu precisava. Só ela era capaz de me dar o amor que eu precisava. Só ela era capaz de me fazer sorrir apenas com um sorriso. Só ela era capaz de despertar o que havia de mais belo em mim… Porque o que havia de mais belo em mim, era ela! E eu não era feliz só porque estava com ela, eu era feliz porque ela me completava, me fazia sentir um homem de verdade, como nunca antes havia experimentado. E eu era feliz desse jeito, tendo ela do meu lado, todos os dias, me dando, mais e mais provas de amor. Era feliz porque a amava, era feliz porque ela me amava, era feliz porque ela me fazia sorrir e me fazia chorar. Era feliz porque toda a hora tinha uns braços para onde correr se algo desse errado, era feliz porque ela me amava, mas por vezes era fria… Era feliz, era feliz por tudo e por nada, por todos os motivos e por nenhuns… Era feliz e nem sabia bem explicar porquê! E ser feliz sem motivo específico é a mais autêntica forma de felicidade. Naquele momento ela me disse as suas mais belas palavras de amor: suas lágrimas de felicidade, ao me ver feliz. Elas provocaram um insano estado de alegria e uma sensação esmagadora dentro de mim.

- Foi você que trouxe eles, amô? – perguntei com um sorrisinho meio nervoso nos lábios

- Fui… Espero que não fiques chateado… - ela torceu os seus labiozinhos e nariz

Pô, eu nunca gostei de surpresas, mas como não gostar daquela? Como não gostar que a mulher da minha vida, que eu tanto amava, se tivesse preocupado comigo, com o meu bem-estar e tivesse trazido para junto de mim as pessoas que faziam meu mundo girar e meu coração bater?

- Chateado, amô? Chateado? – avancei na direcção dela, que coitadinha me olhava com uma cara de desespero e a abracei, com todas as minhas forças – Eu tô é mó feliz, amô! – escondi meu sorriso nos
cabelos dela e os afaguei com carinho

- Gostaste, amor? – ela se libertou de meus braços e colocou nossos rostos frente a frente, olhos nos olhos

- Eu amei! Foi a melhor coisa que podia ter feito para mim! – acariciei seu rosto ao de leve, com carinho e delicadeza

- Só queria que pudesses passar o Natal comigo, mas teres do teu lado a tua família como eu tenho a minha… - ela esboçou um sorriso lindo, verdadeiro, que desde que me apaixonara, se tornara a única razão de eu querer viver cada dia, mais intensamente do lado daquela mulher

- Cê não existe, garota! Eu nem te mereço! – desabafei o que por vezes cruzava minha cabeça

Acho que nunca tinha conhecido menina tão doce, tão madura e tão altruísta como ela… E se o que me fez admirar ela no início foi isso, a sua preocupação comigo, foi o que rematou tudo e me fez apaixonar.

- Shiu… Não digas isso! – ela me silenciou passando seu indicador sobre meus lábios meio gretados pelo frio do Inverno português

- Digo a verdade, cê é boa demais para mim…

- Shiu! Somos perfeitos um para o outro, na medida certa! – ela sorriu mais uma vez e meu coração acelerou que nem um louco e logo depois se acalmou

- Te amo… - sussurrei pertinho dos seus lábios quase pronto para a beijar

- Eu também… - ela respondeu quase num sopro, porque eu uni nossas bocas rapidamente para matar minha saudade e para agradecer por me fazer tão feliz

- Como cê fez isso tudo sozinha, amô?

- Fácil, liguei à Dona Regina, fiz-lhe o convite e do resto tratei eu! Arranjei duas passagens, mandei-as para lá e hoje só tive de ir buscá-los! – ela me sorriu de forma astuta, não passava nada àquela cabecinha mesmo

- Cês tavam feitos com ela, é? – eu me ri, passando minha mão na cintura dela e alcançando meus pais com o olhar

- Teve que ser, meu filho… Tudo por você! - o meu pai me piscou o olho, eu sorri para ele e recordei a conversa que havíamos tido os dois quando no Verão levei ela no Brasil para todo o mundo a conhecer

Minha opinião se mantinha a mesma, e eu acho que nunca iria mudar… Ela foi, era e sempre seria a mulher da minha vida. E eu já podia imaginar a gente se casando, tendo nenéns, meu quadro de felicidade tava esboçado, só faltava a ajuda dela para passar a tinta.

- Tô vendo que se uniram todos contra mim! – os três se riram e eu me juntei neles

- Foi por uma boa causa, amor… - ela rodeou minha cintura com seus braços e passou a mão na minha barriga

- Foi sim… A melhor causa de todas, meu amor! – dei um beijo no topo da cabeça dela, que era o mais próximo devido à nossa diferença de alturas

- Bem, os teus pais já estão instalados, vamos tratar de ti?

- Vamo’, amô! Tô morto de cansaço!

- Cansaço? Mas não dormiste de manhã, amor? – perguntou erguendo a sobrancelha e eu quase que fui apanhado

- E cê ainda me há-de dizer, desde quando é que eu não tenho sono, muleca! – meus pais se riram e eu também

- Caracole! – a vozinha do afilhado dela se fez ouvir

- Oh mocinho! – me baixei, abri os braços e aconcheguei o menino nele – Caraca, cê tá muito grande, garoto!

- Tu que tás gande! Quando é que palas de crescer? – o menino inclinou a cabeça e me olhou de um jeitinho confuso, foi inevitável não nos rirmos

- Ué, eu já parei de crescer, molequinho! – passei minhas mãos nos cabelos dele

- Palaste? Não palece! Estás cada vez maiole, ou isso ou eu tou a ficale mais pequenininho… - ele encolheu os ombros revelando a sua completa ignorância e inocência perante o assunto

- Nada disso, garoto! Não se preocupa que qualquer dia desses cê vai ser grandão que nem eu! - sorri para ele tentando tranquiliza-lo

- Vou sele maiole que tu! – o menino agitou a cabeça e saltou dos meus braços

- Vais, amor… Vais ser enorme, agora vai ter com a mamã que o David precisa descansar… - o meu amô, descartou o menino para que eu pudesse subir e repousar um pouco

- Não! O David é meu, madinha! Deixa de sele ciumenta! – o garoto saltou para o meu pescoço e meu encheu o rosto de beijinhos

- Olha, é teu onde ó meia leca? – ela olhou para o menino, colocando a mão na cintura

- Meia lheca? Meia lheca és tu, madinha! – o menino respondeu direitinho para ele e eu quebrei na risada

- Estás a rir-te é? – ela me deu um safanão nos cabelos e eu me ri ainda mais – Isso, riam-se! Riam-se os dois… Á pala dessa, hoje dormes sozinho, David Marinho! – ela anunciou isso de um jeito sério e eu fiquei olhando

- Caraca, nem brinca, amô! – revirei os olhos e torci o lábio

- Gostas tanto aí do pinchavelho que podes ficar com ele… - ela revirou os olhos como eu e vi seu jeitinho de menina, que teimava aprisionar um sorrisinho

- Amô, gosto mais de você! – coloquei minha mão na perna dela, pois agachado no chão junto do menino era o mais próximo que conseguia alcançar

- Assim a conversa é outra! – ela sorriu e se inclinou para me dar um beijo nos lábios

- Nada de beijinhos, que o tio Francisco não quer dessas coisas na casa delhe! – o menino interrompeu, e podia ser pequeno, mas sabia bem as regras do pai da Adriana o que claro, provocou risada em todo o mundo

- O que é que eu não quero na minha casa, ó pequenote? – o pai dela surgiu e segurou o menino nos braços

- Beijinhos, tio! O David e a Madrinha iam dar um beijinho! – o pequeno dos entregou de bandeja para uma das figuras que mais me intimidava naquela casa

- Olá, David! – agente se cumprimentou com um aperto de mão leve e firme

- Oi, Sr. Francisco! – respondi tão formal e educado como consegui

- Como estás, rapaz? Como vai esse Benfica?

- Oh pai, nem venha… Todos aqui sabemos que lagarto como é está é desejoso que o David lhe revele os segredos dos campeões! – o Sr. Francisco se riu e a minha muleca também

- Oh filha, tu não dás tréguas! Nem em tempo de Natal…

- Oh pai, aí é quando dou menos tréguas! Já sei como fica furioso de ver tudo coberto de encarnado! Tipo estádio da luz, está a ver…? – novamente toda a sala se encheu de gargalhadas

- Pronto, lá estás tu a provocar-me!

- Oh amô… Deixa seu pai! Eu tou bem e o Benfica vai muito bem, Sr. Francisco! E o senhor como tem passado? – sorri para aquele que eu podia um dia chamar de meu sogro, pois seria sinal que do meu lado ia ter ela e só ela

- Bem obrigada… - ele me sorriu de forma tranquila, havia qualquer coisa nele diferente.

Parecia estar menos na ofensiva e somente preocupado com a felicidade da filha e a união da família, o que de certa forma me deixou feliz, pois parecia que tinha encontrado a carta-branca para seguir do lado de Adriana para sempre.

-David! – a mãe dela surgiu na porta da cozinha e me abraçou

A relação que mantínhamos era muito cúmplice, quase de filho e mãe e era assim que ela me pretendia tratar desde sempre, para a felicidade da filha e porque parecia gostar mesmo de mim.

- Oh Dona Isabel! Como a senhora está? – perguntei educado e tomando o lugar perto da minha Adriana

- Estou bem, obrigada… E tu, meu filho?

- Tou bem também! Depois da surpresa da sua filha, muito melhor, né?

- Bem, amor, agora que já viste toda a gente, vamos para cima que precisas de te instalar, descansar um bocadinho e preparares-te para o jantar! – ela me apertou para junto do seu corpo e eu passei meus braços
sem seus ombros

Pedindo a devida permissão, subimos até ao primeiro andar e entrámos no quarto que pertencia à minha muleca, mas que naqueles dias, ela iria dividir comigo…

sábado, 30 de abril de 2011

Capítulo 107 – Finalmente nos 18 (Parte III)


O resto do meu dia de anos foi muito calmo e passado, única e exclusivamente com David. Os dias de Novembro escasseavam e aproximávamos a passos largos do Natal. Os primeiros planos começavam a ser traçados, as primeiras prendas a serem compradas e as primeiras decorações a serem colocadas na capital portuguesa. O David continuava determinadíssimo em passar o Natal em Lisboa comigo e não me sobrava outra opção, sem ser a de fazer à Dona Regina, o tão prometido telefonema, e pôr o meu plano em prática.

- Alô, minha filha! – a voz animada dela surgiu rapidamente do outro lado do telefone

- Olá, Dona Regina! – cumprimentei com um sorriso no rosto

- E aí, minha filha? Tava esperando seu telefonema desde do seu niver!

- É verdade, mas até lá ainda pensei que o teimoso do seu filho mudasse de ideias, mas como não mudou, vou ter de pôr o meu plano em prática! – brinquei rindo-me

- O que é que esse menino anda fazendo dessa vez?!

- Nada, Dona Regina… Mas meteu na cabeça que como eu não vou ao Brasil passar o Natal, que ele vai passa-lo cá comigo… Mas eu não me sinto bem com isso! Afinal ele está habituado aos pais e não deve ficar cá sem os senhores e ainda por cima por minha causa!

- Oh, mas fazer o quê? Esse menino é cabeça dura, minha filha… Desencana! Com ele cê não vai ganhar, ele quando enfia uma na cabeça, ninguém muda isso! Mas a gente não se importa que ele fique aí com você…

- Mas importo-me eu, Dona Regina! Afinal pais são pais… Então eu pensei, se Maomé não vai á montanha, a montanha vem a Maomé!

- Como assim, minha filha?

- Então, pensei que a Senhora e o seu marido, podiam vir cá passar o Natal… Assim eu ficava com a minha família, o David com a dele, mas estávamos juntos!

- Cê pensou mesmo no assunto, minha filha…

- Pensei… Mas pensei também que queria fazer disto uma surpresa para o David! Ele merece, mais do que ninguém ele merece!

- Minha filha, por mim podem contar connosco! A Belle vai mesmo passar o Natal com a família do Leandro por isso, eu e o Lau íamos ficar aqui sozinhos com o David, se ele viesse…

- Então posso preparar mais dois pratos na mesa para os senhores? – eu fiquei louca de felicidade, ia conseguir passar o Natal com a minha família, mas ter David do meu lado

- Pode sim! – notei também um certo entusiasmo na voz da Dona Regina

- Mas há um senão, Dona Regina… - disse meio a medo

- Que foi, minha filha?

- É que vamos passar o Natal com a minha família toda… Ou seja os senhores vão conhecer os meus pais…

- Vamo’? Óptimo, ‘tava louca para conhecer os dois seres humanos fantásticos que educaram uma menina linda que nem você!

- Oh, muito obrigada, Dona Rê! Então vou providenciar as passagens, e eu estarei lá para os ir buscar quando o voo chegar! Garanto! – sorri entusiasmada com a ideia

- Tudo bem, minha filha… Vai ficar sendo um segredinho só nosso e do Lau! Cuida bem do meu filho, beijo!

- Beijo para a Dona Regina e para o Sr. Lau! E outro para a Belle e o Leandro! Adeus! – desliguei a chamada e corri para a agência de viagens para providenciar tudo

Eles chegariam na manhã da véspera de Natal, eu iria buscá-los e levava-os directamente para a Quinta da minha família, onde mais tarde David iria ter.
Até ao Natal, e entre decorações, compras e encomendas, os dias esgotaram e estava na hora dos pais do homem da minha vida chegarem.
Acordei muito cedo, vesti uma roupa simples, apenas para os ir buscar ao aeroporto e seguir viagem para o Baleal.

Fui no meu carro, que na bagageira já contava com todas as prendas e roupas minhas e do David para a noite de Natal.
Quando cheguei ao aeroporto o avião deles já tinha dado entrada na pista e pouco a pouco já via pessoas a saírem pela porta de desembarque.

- Adriana! – a voz doce e amena da Dona Regina, foi imediatamente reconhecida pelo meu coraçãozinho

O meu corpo ergue-se do banco, e a meu corpo acompanhou a rotação da minha cabeça, na direcção da mãe de David. Do seu lado vinha o Sr. Ladislau empurrando o carrinho das malas e extremamente sorridente como a sua esposa. Aproximámo-nos uma da outra e abraçámo-nos fortemente.

- Oh minha filha, tanto tempo! – sorrimos as duas ainda de corpos colados

- Pode crer, Dona Regina! Desde as férias no Brasil já lá vão cinco meses! – finalmente quebrámos o abraço e olhámo-nos

- Nossa, cê tá cada vez mais bonita… Meu filho teve muito gosto! – elogiou o Sr. Ladislau

Corei, abracei-o também e trocámos dois beijinhos.

- Obrigada! – agradeci ainda levemente vermelha – E a viagem foi calma?

- Sim, foi muito bem… Só ‘tamos é loucos de saudade do nosso filho!

- Não se preocupe, Dona Regina! Em menos de nada estão com ele… Aposto que a esta hora ele está no décimo quinto sono e muito longe de imaginar que os senhores cá estão. Vai ficar louco de felicidade! – sorri muito confiante de que assim seria e assim foi

Segui viagem com eles no meu carro, prossegui às primeiras apresentações e a minha mãe e a Dona Regina criaram imediatamente uma grande empatia. O Sr. Ladislau era mais reservado, mas manteve uma conversa amena com o meu pai e restantes homens da família, enquanto eu me entretive com a ajuda do meu afilhado a arrumar as prendas debaixo da árvore. O almoço foi servido e a Dona Regina fez questão de ajudar, o que fez com que uma grande concentração de mulheres se instalasse na cozinha. Com o meu afilhado no colo juntei-me então a elas.

- Sim, mas o Benfica é mesmo o melhor do mundo! – foram as primeiras palavras que apanhei mal entrei na cozinha e proferidas pela Dona Regina

- Claro que é, o meu marido é que degenerou! – queixou-se a minha mãe e todas as mulheres presentes se riram

- Muito bem, sim senhora! Os homens estão lá fora, mas o tema futebol acontece dentro destas quatro paredes! – brinquei pousando o pequenote na bancada

- ‘Tava conversando com a sua mãe sobre o Benfica… - informou a Dona Rê com um sorriso

- Eu percebi! – sorri-lhe também

- Ó inha… - o meu pequenote dirigiu-se a mim de forma trapalhona como já era hábito – Por falar no Benfica… Onde está o moço de caracoles com quem estás shempre aos beijinhos? – ele fez uma carinha muito confusa, como se algo lhe tivesse a escapar

Todos se riram na cozinha, mas desde que o meu afilhado conhecera David a empatia havia sido imediata. Na verdade porque o David tinha muito jeito com crianças e era sempre extremamente carinhoso.

- Oh, amor… O David está quase aí a chegar, teve de descansar um bocadinho para no próximo jogo estar cheio de força e o Benfica ganhar, shim? – falei-lhe de forma melosa e mexendo-lhe nos cabelos

- Mas eu tenho muntas saudades dele… - o bebé fez um beicinho lindo e completamente comovente

O meu telemóvel começou a tocar nesse momento, era ele.

- Olha é ele, vês? Deve estar quase a chegar! Ainda vem a tempo de lanchar contigo, não é? – sorri-lhe novamente – Queres atender?

- Shiiiiiim! – o menino fez uma enorme festa e estendeu-me as mãos para que lhe desse o telemóvel

Atendi e coloquei em voz alta, pousando-o nas suas mãos pequeninas e abertas em conchinha

- Amô? – apesar de não estará ver David, consegui-lhe adivinhar um sorriso no rosto, apenas pelo seu tom de voz

- Olhá, David! – como sempre o bebé era um trapalhão a falar, mas sempre super doce

- Olá, pequenote! Ué, pensei que tava ligando para a jeitosa da sua madrinha! – ele para não variar meteu-se com o menino de forma muito divertida, que dominava o seu jeito de miúdo-homem

- A jeitoja da madinha, está aqui… Mas eu quelia falar contigo, poque tinha saudades…

- Muleque, eu ‘tou chegando e mal eu pise aí a primeira coisa que eu faço é matar essas saudades, sim?

- Shiiiiim! – o menino bateu palminhas e eu sorri enternecida

- E aí? Agora me vai dizer onde está sua madrinha? – notei uma certa impaciência e saudade na voz de David, e eu estava igualmente assim para o ver

- Ela fugiu com um jogadole do spoting! Não, não! Do Poto! – o menino meteu-se com David, relembrando uma brincadeira que Ruben tivera com este e todas na cozinha se desmancharam a rir

- Ela o quê? – a voz de David soou levemente aflita

- Oh, amor, não podes dizer essas coisas ao David… - acariciei-o nas faces e tentei tirar-lhe o telemóvel das mãos, mas ele não deixou

- Amô, que conversa é essa, pô? Tomei maior susto!

- Calma, amor… Não vês que o menino estava a brincar, obviamente! Achas que alguma vez eu dormiria com o inimigo? – ri-me e novamente todas as outras o fizeram

- Acho bem, mesmo! – ele não se conteve e riu-se – Oh amô, eu tou chegando… Mas tou chegando naquele cruzamento em que me perco sempre… É para cima ou para baixo?

- Oh amor, em frente! – ri-me porque de facto o David tinha péssima orientação

- Isso, ri! Ri de mim, que quando eu chegar aí cê me paga!

- Uau! Estou cheia de medo, David Marinho! – disse num tom sarcástico e falsamente assustado

- É bom que tenha ou esqueceu que vai dormir no mesmo quarto que eu?

- Amor! O telemóvel está em altifalante!

- Tá de sacanagem! – acho que ele achou que estava a brincar com ele e respondeu de forma muito descontraída

- Não, está mesmo! Está tudo na cozinha… A minha mãe, as minhas tias, as minhas primas, a minha avó… - enumerei, mas excluí a mãe dele como era óbvio

- A Rê, Rê, Rê! – gritava o menino agitando os braços no ar e automaticamente saltei para lhe tapar a boca

- O que é que esse garotinho falou?

- Nada, amor… Nada! Não ligues que isto já é do sono!

- Tá bom… Olha amô!

- Diz…

- Tou morrendo de saudade… - o tom da sua voz foi meloso, e esta arrastou-se levemente

- Amor, altifalante! – relembrei-o, rindo-me perante os olhares enternecidos de todas na cozinha

- Que tem? Eu te amo, isso não é segredo nenhum e não tenho problema nenhum em o admitir!

- Ohhhhhhhhh! – um uníssono perfeito inundou o ar

- És um totó, vê lá é se te despachas então, amor…

- Tá bom!

- Qualquer coisa que te percas liga-me… Mas a partir de agora á fácil, acho eu!

- Tá bom, eu te ligo! Beijão, amô da minha vida! Txi amo muitão! – um sorriso tonto surgiu na minha cara

- Madinha, txi amo! – o menino imitou as palavras de David e tanto nós do lado de cá do telefone, como David se riu

- Eu também, meu amor… - mexi-lhe nos cabelos e dirigi-me depois ao telemóvel – Também te amo, amorzão! Até já!

- Até já, lindona! – desliguei a chamada rapidamente

Um alarido instalou-se na cozinha, David estava quase a chegar e a surpresa dos pais estava prestes a ser feita. A confusão abrandou, quando ouvimos o barulho de pneus na estrada de gravilha da entrada e um buzinar: era ele!

- Calacole! Calacole! Calacole! – o meu afilhado começou a cantarolar e a bater palminhas, louco de entusiasmo

- Dona Regina, fique na sala com o Sr. Ladislau que eu vou buscar o David!

- Eu vou contigo, Madinha! – ofereceu-se o pequenote

- Não vais nada, amor… Deixa a madrinha ir buscar o David e depois falas com ele, sim? – a mãe dele, a minha prima, segurou-o nos braços e deu-lhe um beijinho das faces

- Tá bem… - o menino resignou-se às ordens da mãe – Mas manda-lhe já um beijinho e um abracinho meu! – acrescentou, num sorrisinho que já revelava os seus pequeninos dentes de leite

- Eu mando, amor! Volto já! – dei um beijo na face da mãe dele e da minha e saí na direcção do portão

Ainda percorria o pequeno percurso de pedra entre a porta de casa e o portão e já via o David do lado de fora, encostado ao carro, de mãos nos bolsos e um sorriso lindo e radioso, que já era a sua imagem de marca.

- Amor! – corri para o alcançar e joguei-me nos seus braços

- Ai, amô… - ele apertou-me para si e retirou levemente os meus pés do chão

- Ai, que saudades, borracho! – ri-me juntinho do seu ouvido, acho que nunca o havia chamado assim ele riu-se também

- Borracho?! Nossa, que elogiozão, viu?! – rimo-nos os dois e beijei-o

Sem pensar em mais nada, beijei-o! Beijei-o e limitei-me a beijá-lo, com muita calma, sem urgências, de forma saudosa, porque na verdade já não estava com ele há quase uma semana. Primeiro porque ele andava muito concentrado nos treinos e com horários super apertados, e depois porque estava em época de entrega de trabalhos e de provas de avaliação o que tornava o meu tempo livre completamente nulo.

- Que saudade dessa boca, meu Deus… - ele sussurrou ofegante bem juntinho dos meus lábios

- Mata-as, mata-as todinhas! – disse sorrindo

- Pode apostar que vou matar todinhas! – ele beijou-me de forma calma, mas muito sentida

- Já estão todos à tua espera e o meu afilhado louco para te ver! – ela riu-se relembrando toda a ternura do menino

- Eu sei, o muleque ‘tava doidão no celular! – ele riu-se e beijou-me nos lábios

- Pois, mas o muleque vai ter de esperar, porque eu tenho uma surpresa para ti! A minha prenda vem adiantada… - o meu rosto rasgou-se num sorriso matreiro

- O que é que cê andou aprontando, amô?

- Hum, vais ter de esperar para ver!

Dei-lhe a mão e avançámos juntos para dentro de casa. Nunca tivera tantas certezas como naquele dia, ao ver as nossas famílias unidas, que ele poderia perfeitamente ser o marido com que eu tanto sonhara, o pai que eu tanto desejara para os meus filhos. E essa foi das poucas certezas que me preencheu nesse dia, pois estava a segundos de ver a reacção dele à minha surpresa…



Obrigada pelas 200,000 visitas! :)
Deixo-vos mais um capítulo para comemorar este número grandito!
Espero que gostem e comentem!
Beijinhos
Dri

domingo, 24 de abril de 2011

Capítulo 107 - Finalmente nos 18 (Parte II)


- Que é isso, amor? – perguntei olhando para o pequeno embrulho nas mãos dele

- É sua prenda! – ela sorriu, sentou-se do meu lado na mesa e estendeu-me o pequeno embrulho, que eu não agarrei imediatamente – Aceita, amô!

- É o quê? – perguntei curiosa depois de o agarrar e agitar levemente

- Abre e vê! – ele fez um sorriso de orelha a orelha completamente delicioso

- Eu disse que não queria prendas, amor… - contrapus calmamente começando a soltar o laço

- Cê disse que não queria, mas não me proibiu de dar para você! – respondeu perspicazmente

- Oh… Não queria que tivesses gasto dinheiro, amor…

- Não se preocupa, eu que sei! – ele sorriu e acariciou-me a face direita

- És um teimosão! – disse ao mesmo tempo que abria a prenda com um sorrisão na cara

Deparei-me com uma pequena caixa preta, um pequeno fecho de mola em alumínio e umas letras douradas no tampo da mesma caixa que não consegui reconhecer como pertencendo a algo específico.

- Que é isto, amor? – perguntei olhando-o sem perceber muito bem o que era aquilo

- Abre e veja se gosta! – ele sorriu

Abri a pequena caixa e o queixo caiu-me. Uma chave pertencente a um carro, pelo símbolo um Audi, e pelo aspecto da chave, exactamente igual à do carro de David, um Q7.

- Amor, são as chaves do teu carro… - disse calmamente rindo-me

- Não, amô! São as chaves do SEU carro! – ela mostrou-me um pequeno bilhete colado no interior da tampa da caixa, onde uma pequena foto também constava.

Pela paisagem da fotografia, pude reconhecer a entrada da casa de David, mais especificamente o carvalho que sombreava o parque de estacionamento. Agarrei no pequeno bilhete para o ler.

“Lá em baixo, esperando por você, o carro dos seus sonhos! Feliz aniversário, muleca! Beijão! Eu te amo!
O seu, David!”


- Estás a gozar!? – fiquei meio aparvalhada a olhar para ele até o meu pequeno cérebro assimilar toda as informações

 – Estou a sonhar, só pode! – exclamei apalpando bem a chave na minha mão

- Não tá sonhando, não… - ele sorriu de forma serena, agarrou na minha mão e levou-me à janela da cozinha para espreitar lá para baixo

Vi então um Audi Q7, branco, igualzinho ao dele, sem tirar nem pôr, o carro dos meus sonhos, ali estacionado na frente do prédio dele, com um laço vermelho enorme no tejadilho, à minha espera.

- Aquilo é meu?! – ela olhou para ele com a boca aberta de espanto e ele limitou-se a acenar positivamente com a cabeça – Tu és louco, amor!

- Não gostou?

- Gostei! Claro que gostei! – disse rindo-me

- Vamo’ lá ver, vem! – ele puxou-me pela mão e nem tomámos o elevador, num ritmo acelerado acabámos por ir de escadas

- Amor, é lindo! – disse já na frente do carro – Mas…

- Mas o quê, amô? – senti os braços dele envolverem-me carinhosamente, por trás

- Eu não posso aceitar… É demais! É um carro, amor! É uma fortuna!

- Amô, deixa disso! Não importa o valor que dei por ele, só interessa que você gostou e era só isso que eu queria! – ele deu-me um beijo no pescoço

- Eu amei, é o carro dos meus sonhos, tu sabes… E uma coisa é andar num, outra bem diferente é conduzir um, que ainda por cima é meu! – não me consegui controlar e sorri de entusiasmo

- Então não sei o que você estava fazendo aí parada, entra nele e experimenta de uma vez! – ele incentivou, com um sorriso lindo e tão seu a delinear-lhe os lábios

- Posso? – perguntei tremendo de ansiedade

- Ele é seu, cê pode tudo! – senti os lábios dele irem de encontro à minha bochecha e o sorriso que por si só já dominava a minha cara, tornou-se principal elemento

- Entra, amor! – disse destrancando o carro e livrando-me do abraço dele

- Não, amô… Vai você! Experimenta ele, se cê regressar inteira aí eu vou! – disse rindo-se

- És tão engraçadinho, David Luiz! – dei-lhe um leve calduço – Eu passei no exame de condução com distinção, sim?

- É amô, mas nunca confiando… - ele voltou a rir-se e não resisti, ri-me com ele

- Tudo bem, então quando vires que eu vou, mas volto inteira, entras no carro e vens comigo! – fiz um jeitinho com a cabeça e um sorriso traquina surgiu no rosto de ambos

Antes de darmos por isso, já tínhamos os corpos colados, os nossos narizes encostados e as testas tocavam-se levemente. Tão rapidamente como estes se uniram, os nossos membros superiores fizeram o mesmo, as nossas mãos uniram-se às do outro de forma calma e eu fui acariciando as costas das mãos dele, com o meu polegar. Um sorrisinho lindo, mesmo igualzinho àqueles dos meninos pequenos quando fazem algum disparate, mas estão extremamente felizes, surgiu nos lábios do meu David. Eu sorri também e rocei levemente a pontinha do meu nariz na do dele.

- Cê acha que eu não vou com você, amô? – perguntou rindo-se levemente, até eu sentir a sua respiração nos meus lábios

- Tu é que disseste, olha vê lá… Se calhar é melhor não! Quero o meu namorado vivinho da Silva! – eu alinhei claramente na brincadeira dele, a cumplicidade que com o tempo havíamos desenvolvido permitia-nos isso

- Não diz bobagem, meu amô! É claro que eu vou com você, na semana passada tratei do meu seguro de vida por isso, tou safo! – ele riu-se e eu dei-lhe uma chapada na cabeça – Au amô!

- Au, ui! Á pala dessa agora não vais mesmo! – deitei-lhe a língua de fora e antes que desse conta disso ele beijou-me

As nossas línguas envolveram-se, e os braços dele que rodeavam o meu corpo forçaram-me a encostar ao carro. Pelo caminho os meus pés baralharam-se todos e ia caindo, mas os braços dele puxaram-me para cima e empurrou-me de encontro ao carro. Os meus olhos permaneceram fechados, quando os lábios dele abandonaram os meus e se dedicaram a explorar o meu pescoço e ombros.

- David… - chamei-o, sorrindo e mordendo o lábio inferior

Ele não me respondeu, continuou concentrado nas carícias ignorando completamente o sítio onde estávamos.

- Amor… Estamos na rua… - relembrei rindo-se das cócegas, que os caracóis dele provocavam no encontro com a minha pele

- E daí? Só te estou dando uns beijinhos… - no mesmo instante em que acabou de falar os seus dentes ferraram-se de forma carinhosa na carne do meu pescoço

- David, quero ir experimentar o carro! – ri-me afastando-o levemente

- Vai já já, só mais uns beijinhos no seu zucão! – pediu colando novamente os nossos corpos e logo de seguida as nossas bocas

Depois de alguns minutos de troca carícias e de beijos, uns mais longos e sentidos e outros mais curtos, mas ainda assim ternos e doces, eu estava preparada para experimentar o meu carro. O meu primeiro carro, o primeiro que eu conduzia e que podia chamar de meu. Entrei no carro, sentando-me no lugar de condutor e o David no de pendura.

- Vamos lá ver… - disse eu colocando o cinto um pouco nervosa

- Bem, vamo’ lá ver nada! Cê me garantiu que passou no teste para dirigir esse troço daqui! – disse muito aflito, o que me deu uma vontade louca de rir

- E sei, amor… Estava só a “aquecer”! – afirmei sorrindo-lhe

- Me deixa um buscar um capacete e umas cotoveleiras? – pediu numa cara de gozo, que só me apeteceu bater-lhe

- Epá ó David, estás a deixar-me mais nervosa… Se vais começar com isso sais! – refilei ao mesmo tempo que regulava o acento para conseguir chegar com os pés aos pedais

- Pronto, amô… Já calei! – ele calou-se, controlando as gargalhadas e fixou a sua atenção em mim

Tentei ignorá-lo. Ajeitei o retrovisor para que pudesse ter uma visão da traseira do carro e coloquei a chave na ignição. O meu pé pisou a embraiagem e a minha mão direita rodou a chave até ouvir o motor ligar. Ainda as minhas mãos não tinham tocado o volante e já estavam húmidas de suor, os nervos começavam a tomar conta de mim. Engatei a primeira e o meu pé foi soltando levemente a embraiagem, com o outro pressionei o acelerador, mas o carro foi abaixo. Sentia os olhos de David completamente colados em mim e o meu estômago revirou-se dos nervos, comecei a considerar que talvez não fosse boa ideia ele estar presente.

- Oh David, contigo a olhares-me assim não consigo! – refilei voltando a rodar a chave para fazer o carro pegar de novo

- Assim como? – perguntou ele enrugando a testa

- Assim, desse jeito! – apontei para a cara dele com a mão que me sobrava livre

- De que jeito, muleca?

- Assim, David! Fixamente! – barafustei sem conseguir pôr o carro a trabalhar de novo

- Amô, se acalma… Cê tá muito nervosa!

- Isso é porque estás aqui… Eu sinto a pressão! – as minhas mãos embateram levemente no volante em sinal de frustração por não estar a conseguir ligar novamente o carro

- Amô, pressão nenhuma, eu também já tive nesse lugar… Não nasci ensinado, não! Vem cá… - ela debruçou-se sobre mim, rodou a chave e o carro pegou – Viu só? Não custou nada… Vai com calma, amô!

- Obrigada… - sorri de um jeito nervoso e senti os lábios dele embaterem nos meus, de uma forma calma, serena, como que tentando acalmar-me e acabou por surtir efeito

Pisei a embraiagem, engatei novamente a primeira, e acelerei ao mesmo tempo que levemente soltei a embraiagem. O carro começou a andar, muito levemente e apenas com um pequeno toque no volante consegui fazer com que ele se virasse e saísse do seu lugar no estacionamento. Um sorriso mais calmo delineou os meus lábios e senti a mão de David na minha perna, como que felicitando-me pelo progresso.

- Conseguiu, amô! – os lábios dele tocaram de forma terna a minha face direita e mais uma vez sorri-lhe, mas sem nunca tirar os olhos da estrada

- Consegui… - disse ainda meio incrédula com o feito e metendo a segunda para acelerar – E agora vou para onde? – perguntei sem saber muito bem para onde me dirigir
- Sai por aí, amô… Não importa onde! Só para você experimentar…

- Já sei… - afirmei com uma ideia em mente

- Vamo’ onde? – perguntou curioso

- Já vês… - sorri e iniciei o caminho para Cascais

Nada me dava mais gozo do que percorrer aquele caminho com o vento a invadir a atmosfera que me envolvia. Apesar de ser Inverno, um solzinho ameno aquecia o ar frio próprio da estação em que nos encontrávamos. Coloquei os meus óculos de sol e a meio do caminho o meu telemóvel tocou dentro da mala.

- Amor, vê quem é… - pedi continuando muito atenta à estrada

- Minha mãe… - informou ele esticando o telemóvel na minha direcção

- Não posso atender no carro, mete em altifalante, amor… - disse consciente do meu estado de condutora prudente e ele riu-se discretamente

- Tá ensinadinha! – provocou e atendeu a chamada, colocando-a em alta-voz, antes que eu tivesse tempo de refilar

- Olá, minha filha… - ouvi a voz sempre doce da Dona Regina

- Olá, Dona Regina! Como estão todos aí? – perguntei sorrindo

- Bem… E vocês?

- Também!

- Tava ligando para desejar um feliz aniversário! – ouvi um entusiasmo na voz dela que me deixou feliz, incrivelmente feliz e aceite na família do David

- Obrigada, Dona Regina! – sorri virando num cruzamento

- Ainda não perdeu esse jeitinho de me chamar de Dona Regina?! – o David que estava do meu lado desmanchou-se a rir – Ué meu filho, cê tava aí e não dizia nada?

- Mãe, tenho de estar bem atento… A gentxi tá’ no carro e a mãe não pode nem imaginar quem tá conduzindo! – ele troçou de mim, rindo-se descaradamente

- Não lhe ligue, Dona Regina! Ele está numa de gozar comigo hoje e tirou a minha primeira volta no meu carro para o fazer…

- Tá dirigindo, minha filha?

- Estou, mas nunca mais o faço com o David do meu lado! Este rapaz é um melga!

- Oh meu filho, pára de azucrinar a moça, cê ama ela, mas não vive sem a provocar… Que coisa, gentxi! – foi a vez de nós os dois nos rirmos

- Oh mãe, tou de sacanagem com ela… Ela amou o meu presente!

- Amou? Ainda bem, muleque… A ver que assim cê pára de me encher o saco com tanta dúvida! - eu e a mãe dele rimo-nos, percebi claramente que ele tinha martirizado a pobre Dona Regina com as suas inseguranças

- Eu adorei, ele não a volta a chatear mais… - garanti ainda rindo-me

- Graça’ a Deus! – indagou ela do outro lado do telefone

- Vocês as duas, quando se unem contra mim… Pô! Que dupla!

- Oh coitadinho do garoto… Deixa de ser mariquinhas, ó! E tá caladinho que eu preciso falar com a tua mãe…

- Comigo minha filha?!

- Sim, consigo… Mas é uma coisa de mulheres, acha que lhe posso ligar depois?

- Claro, minha filha… Tou sempre disponível!

- Então eu ligo-lhe depois pode ser?

- Sim…

- Mande beijos a toda a gente! Estou a morrer de saudades disso aí…

- Ué, tem bom remédio, vem cá da próxima vez que o Davi’ vier!

- Irei, Dona Regina! Se até lá ele não tiver acabado comigo devido aos maus-tratos… - brinquei, e ambas nos rimos, David acabou por se juntar a nós

- Estaremos esperando você com o maior carinho do mundo! Beijos! Vos amo!

- Beijinhos! – despedi-me

- Beijo, mãe! Fiquem com Deus! – ele desligou a chamada – Que cê quer falar com minha mãe?

- Coisas minhas e dela, coisas de mulheres… Depois logo vês!

- Odeio, quando você me esconde coisas… - disse rabujento

- Não te estou a esconder nada, David… Simplesmente são assuntos que não te interessam, são coisas de mulher! – finquei sem lhe dar mais hipótese de me melgar

- Tá bom… E me diz uma coisa, onde cê vai passar o seu Natal? Falta um mês e meio, amô! – ele relembrou-me, mas eu tinha aquele facto bem assente na minha cabeça

- Eu sei que falta, e devo passá-lo onde passo sempre… Com os meus pais e a minha família na casa da minha avó!

- Pensei que ia passar o Natal comigo… Eu queria passar com você! – a sua voz soou a desilusão, mas mais do que isso, a tristeza e saudade

- Oh amor, mas eu não vou para o Brasil… E é lá que tens a tua família!

- Mas agora cê também é minha família… E eu queria você do meu lado! Vai fazer um ano nesse Natal, que a gente tava se começando a gostar… Foi tão gostoso, amô, que queria relembrar, mas agora do seu lado!

- Mas não podes ter as duas coisas… Tens de ir ao Brasil, e eu não posso sair de Portugal!

- Oh, mas aí então eu fico em Portugal com você!

- Não digas disparates, amor… Claro que não ficas! Tens mais é de ir ver a tua família! Os teus pais, a tua irmã, o Gu…

- Ah esse babaca eu vejo todo santo dia, meus pais vêm cá no meu aniversário, por isso eu posso passar cá o Natal!

- Amor, não te vou pedir que fiques em Portugal sem os teus pais…

- Ah, mas eu vou ficar, pode ter a certeza que vou! – pelo canto do olho, vi-o tomar uma expressão muito séria e decidida

- És mesmo teimoso! – refilei, e quando dei conta já estava parada novamente no lugar de onde havíamos partido – Vamos subir?

- Vamo… - ele sorriu, saiu do carro e correu para me abrir a porta

- Hum, que cavalheiro… Muitíssimo obrigada!

- Nada que agradecer, senhorita! – ele beijou-me nos lábios e eu tranquei o carro sorrindo-lhe

No elevador não resistimos a trocar mais uns beijos e juras de amor, há um ano atrás eu nunca poderia imaginar comemorar o meu décimo oitavo aniversário do lado de alguém como David e numa relação tão sólida.

- Caíste como um anjo na minha vida… - confessei com o meu narizinho encostado ao dele

- Cê que é o anjo da minha vida! Mudou tudo, virou meu mundo ponta-cabeceira! Nossa, foi bom demais te conhecer. Me deu uma fé, uma energia… Sei lá! – um sorriso louco permaneceu nos lábios dele, enquanto proferiu cada uma destas palavras

A maneira como ele falou, aquele jeitinho dele… Acertou em cheio no meu coração! Era tudo o que eu precisava ouvir, que era a fé e a energia que o movia. Limitei-me a esboçar um sorriso e roubar-lhe um beijo calmo, com um único pensamento: com ele ou não, juntos ou separados, iria amá-lo sempre, ainda que á minha maneira… em silêncio! E eu não estava muito longe de adivinhar o que se aproximava…





Obrigada a todos que lêem a fic, e pelos comentários
O vosso apoio é muito importante!
Não se esqueçam de comentar, é sempre importante
recolher opiniões!
Beijinhos
Drii ♥

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Comunicado

Boa noite queridos leitores,

eu sei que tenho andado desaparecida e tardia em capítulos, mas apesar de estar de férias as coisas não têm corrido como eu esperava. O meu computador avariou, fiquei sem word algum tempo e tenho tido problemas com o blog, que teima em não me deixar postar, mas enfim... Acho que já resolvi o problema e dentro em breve irei postar!
Obrigada a todos aqueles que não desistem da fic e aos novos leitores, que todos os dias surgem, surpreendendo-me!

Beijinhos
Drii

domingo, 17 de abril de 2011

Capítulo 107 – Finalmente nos 18 (Parte I)

Tinha-se passado um mês desde a morte do meu avô e eu nunca mais tinha ido ao cemitério desde o funeral, custava-me acreditar que tivesse acontecido e ir lá era a confirmação que eu não queria ter, talvez um dia… Quem sabe! Desde a sua morte que eu nunca mais tocara num piano uma vez que tinha sido ele a ensinar-me e sem saber explicar muito bem porquê, de repente já nada me fazia sentido sem ele. Mais do que nunca eu e o David estávamos unidos. Eram mais as noites em que dormíamos juntos na casa dele do que aquelas que eu passava na casa que dividia com Bianca, a namorada de Salvio. O meu aniversário estava quase a chegar e há duas semanas que eu tinha feito o exame de código e estava a um passo de ter a minha carta na mão. O David andava comigo a ver carros, mas eu já tinha mais ou menos em mente aquilo que queria.


- Quando cê vai comprar seu carro, meu amô? – perguntou-me ao pousar a mão na minha perna enquanto ia a conduzir na direcção de sua casa, era mais uma noite que iria dormir lá


- Não sei… Acho que para o mês que vem! Aproveito e fica a minha prenda de Natal e de aniversário pra mim mesma! Junto o útil ao agradável! – sorri levemente e acariciei a sua mão na minha perna


- Mas cê faz anos esse mês, amô! Não tem graça só comprar pro mês que vem…


- Oh, não é pra ter graça, amor! É pra usar e pronto, para o mês que vem vou a um Stand, compro-o e pronto! Nem me irei lembrar que foi prenda de aniversário, é completamente irrelevante! – falei de forma despreocupada


- Tudo bem… Cê que sabe… - senti David esmorecer e tirou a mão da minha perna, parecia que o tinha desiludido ou entristecido


- Estás bem? Disse alguma coisa errada? – a minha testa enrugou-se automaticamente


- Não, nada não… Tou só aqui pensando num négocio!


- No quê?


- Coisas minhas, não se preocupa, não! – ele sorriu-me e automaticamente fiquei mais aliviada



***



Era o dia dos meus anos, há dois dias tinha ido ao exame de condução e graças a Deus fui aprovado. Acabei por passar a noite em casa do David e foi uma noite “daquelas”. Acordei com uns lábios húmidos na minha face e muito lentamente abri os olhos.


- Parabéns, dorminhoca! – desejou imediatamente assim que o encarei, o sorriso enorme que inundava os seus lábios inundou o meu coração


- Obrigada, amor! – sorri-lhe e ele roubou-me um beijo leve nos lábios – É muito tarde? – elevei-me levemente da cama, na esperança de conseguir ver as horas


- Não, nem por isso… É cedo ainda, mais pra mais é sábado, logo nem tem que se preocupar com as horas! – o ar espevitado dele deu-me tamanha energia que sem pensar muito lhe espetei um beijão enorme – Obá! Sempre que cê fizer anos vai ser assim, é?


- Vai! – respondi num sorriso traquina


- Ué, vou querer você fazendo anos todo santo dia!


- Até parece, zuca… Quem te ouvir falar pensa que não te dou beijões destes em dias normais! – falei com desdém, mas apenas para me meter com ele


- Dá, mas assim do nada, sem eu falar nada bonito pra você não é muito comum…


- Olha passa a ser! – respondi de forma espevitada e ele riu-se levemente


- Tá lindo isso, tá… Tou vendo que esses 18 anos, tão afectando essa cabecinha…


- Tché! Olha aí o respeito, ó! – dei-lhe uma suave chapada na farta cabeleira


- Ai, amô! Me machuchou… - ele fez um beicinho de criança completamente delicioso


- Não vem que não tem, zuca! Foi devagarinho, deixa de ser mariquinhas!


- Mariquinhas um escambau! Tá doendo, amô… - disse esfregando os caracóis num jeito muito aflito e pela primeira vez considerei que ele estava a falar a sério


- Oh amor, desculpa… - sentei-me na cama, agarrei a cabeça dele com jeitinho e enchi-o de beijinhos no sítio onde lhe tinha batido – Tá melhor assim? – perguntei carinhosamente e rapidamente o ouvi gargalhar desalmadamente


- Fala a sério! Não tou nem acreditando que cê caiu nessa, amô! – gozou entre riso agarrado à barriga


- Ai por esta tu vais pagar, David Luiz! - fiz um ar muito sério e chateado


- Vai encarar, é? – ele despojou o peito pra fora e fez um ar de luta


- Vou! Vou mesmo! Vou-te bater, zuca feio! Vais apanhar tantas! – disse erguendo-me na cama com a mão no ar já pronta a bater-lhe


- Amor, espera aí só cinco minutinhos! – disse e levantou-se da cama


- Que foi agora, ó? – perguntei num falso amuo


- É só pra dar tempo pra eu fugir! – assim que o disse desatou a rir e fugiu do quarto numa correria danada


Não evitei rir-me que nem uma louca, mas rapidamente saltei da cama e saí a correr atrás dele pela casa fora.


- David Luiz, volta aqui já! – gritava correndo atrás dele


Aquela pequena brincadeira acabou no banho onde fizemos amor, mais uma das muitas entregas àquele homem que eu tinha a certeza ser o da minha vida e que podia chamar de meu.



****


- Come qualquer coisa, amô… Cê não anda comendo nada! – refilou ao puxar-me para o seu colo, enquanto estava sentado à mesa da cozinha


- Amor, já comi, uma torrada… Um iogurte! Chega bem!


- Chega nada, muleca! Come mais!


- Mas tu deves achar que eu me chamo David Luiz, não? Que come este mundo e o que há-de vir se for preciso!


- Ah ah ah, olha a gracinha, moça! – ele apertou-me contra si e roubou-me um beijo leve – Come, amô… Pra sossegar esse grandalhão!


- Hum, lá grandalhão tu és, não és é grande coisa… - brinquei por entre carícias


- Ai, cê hoje tirou o dia pra me sacanear, é? – disse num sorriso travesso


- É pra aprenderes a não repetires a gracinha lá do quarto… - voltei a dar-lhe uma chapada nos cabelos


- Ai amô, machucou! – disse num ar muito sério


- David, nessa não caio! – informei sem o olhar


- Amô, tou falando sério… Me machucou! – ele coçava os caracóis, como se tentasse acalmar a dor


- David, não acredito! Podes parar… - falei, mas olhei-o pelo canto do olho preocupada


- Tou falando sério, tá doendo muito, amô lindo… - falou num jeitinho de criança pequena que me enterneceu


Não resisti, agarrei novamente na cabeça dele e observei-a desviando todos os caracóis até chegar ao seu couro cabeludo. Esfreguei a zona carinhosamente e selei com um beijinho. Olhei para a cara dele e muito rapidamente o seu beicinho foi substituído por um sorriso gozão.


- David, eu mato-te! – ameacei por entre dentes


- Davi’ – 2, Adriana- 0! – afirmou sorridente, marcando o numerador com as mãos


- Vais apanhar tantas, David Marinho! – levantei a mão no ar e comecei a bater-lhe nos ombros e no peito


- Isso me machuca! Me bate! Quanto mais cê me bate mais eu te amo! – dizia num tom super gozão


- Aiiii! – barafustei muito irritada e aumentei a força das chapadas


- Isso, me bate, amô! Me bate que é gostoso! – dizia rindo-se como se a força das minhas chapas não o afectasse em nada


- Ai, odeio-te David! – rendi-me e levantei-me furiosamente até ficar junto da bancada do lava-loiças


- Cê me ama, tá, garota? – ele fez um ar gozão e roubou-me um beijo atrevido


- Odeio-te! – afirmei sisuda


- Tem certeza? – ele elevou a sobrancelha e enterrou a sua cabeça no meu pescoço, que cobriu de beijos até me deixar totalmente arrepiada


- Odeio… - disse de olhos fechados tentando manter-me concentrada


- Tem certeza, amô? – perguntou passando a língua no meu lábio inferior


- Certezinha, absoluta… - sussurrei de olhos fechados e senti-o entalar o meu lábio inferior nos seus dentes


- Certeza? Absoluta, absolutinha? – a voz dele arrastou-se para me provocar e as suas mãos apertaram os meus glúteos


- Absolutinha… - a muito custo imitei o sotaque dele e tremi a cada toque seu


- Ainda bem, porque eu tenho treino! – quando eu já estava quase a ceder, louca para ser dele, fugiu daquela maneira


- Ai, odeio-te mesmo, David! – barafustei irritada


- Isso amô! Me continua odiando assim, que um dia então a gente casa, tem filhos lindos e se odeia pra sempre! – disse num tom gozão – Fui! – roubou-me um beijo e desapareceu pela porta da cozinha


- Bom treino! – gritei rindo-me sozinha


- Brigado! – ainda o ouvi gritar já depois de fechar a porta de casa



****



Era sábado, ia mesmo ficar por casa dele e passar o meu dia de anos com ele, uma vez que este ano não fazia tenções de o celebrar. Recebi um telefonema da minha mãe e do meu pai, da minha avó, e dos meus restantes familiares e amigos. Todos compreenderam a minha decisão de não comemorar os meus 18 anos, depois da perda tão recente do meu avô.

Estava já de volta do meu almoço e de David quando o meu telemóvel deu sinal de uma nova mensagem, calmamente li-a.


“De: Diogo

Olá, pequenina! Antes de mais quero desejar-te um feliz dia de aniversário, finalmente atinges a maioridade, mas não vou dizer que apenas agora te tornas mulher, porque isso já o és há demasiado tempo, só eu não conseguia enxergar. Depois quero aproveitar para te relembrar que de uma forma ou de outra, aqueles que partem ficam sempre do nosso lado, nos dias mais importantes da nossa vida e tenho a certeza que o teu avô não será excepção, assim como eu… Há demasiado tempo que me mantenho afastado, que te dou paz como me pediste, mas não consigo ignorar o que sinto… Não consigo, nem quero! Amo-te, com todas as certezas que tenho, com todas as forças deste mundo. Sei que nem sempre te dei o teu devido valor e foi preciso perder-te para ver o quão importante és na minha vida, mas uma coisa te garanto! Não vais sair de mim nunca, vou estar sempre à tua espera! Quando já não fores mais feliz aí, com ele, procura-me e eu estarei no lugar onde me deixaste, com o coração nas mãos pronto a entregar-to! Parabéns, pequenina! :) “


Tremi de cima abaixo ao ler aquela mensagem, senti as pernas falharem-me, as lágrimas turvarem-me a vista e tive de me sentar na cadeira de cozinha. Ouvi o David virar a chave na fechadura e apressei-me a enxugar as faces onde as lágrimas já corriam. Diogo ainda não me tinha esquecido, isto é se eu considerar acreditar que ele alguma vez me amou, e não sabia porquê, mas saber disso, doía. Doía de todas as maneiras possíveis, em cada parte de mim. Os meus olhos percorreram uma última vez o texto que tinha na minha frente e apaguei-o, assim como já tinha apagado Diogo da minha vida.


- Oi, amô! – a voz sempre animada e doce de David rompeu o ar


- Olá, amor! – senti uma necessidade desmedida de sentir o David por perto e corri na sua direcção para o apertar fortemente para mim


- Ei que é isso, amô? Saudade? – perguntou não me recusando o seu abraço e pousando o saco do treino no chão da cozinha


- Sim, muitas! – sorri levemente e beijei-o por toda a linha do maxilar


- Oh amô… - a voz dele arrastou-se e as nossas bocas foram unidas por vontade de David


- Fiz o almoço para nós… - sorri levemente e apontei com a cabeça na direcção dos tachos que estavam ao lume


- Uau, nossa! Que bem, meu amô… Já tá cheirando a comidinha! – ele fez um sorriso louco, as suas mãos envolveram a minha cintura e viraram-me até ficar com as minhas costas encostadas no seu peito


- Só espero que gostes… É frango com natas e massa! – entrelacei os meus dedos nas mãos dele que estavam sob a minha barriga


- Vou amar, tenho a certeza! – rematou dando-me um beijo no pescoço


Começámos a almoçar entre beijos e carinhos, sentia-me feliz! E a perda deixada pelo meu avô, o enorme buraco no meu coração era preenchido por todo o amor que David me dava.


- Amô, hoje tive um sonho louco! – começou por contar rindo-se que nem um tonto


- Ai sim? Sonhaste com o quê, tontinho? – perguntei, mas continuei a comer


- Sonhei que cê tava grávida, com um barrigão lindo! – afirmou com um sorriso de orelha a orelha


Automaticamente engasguei-me, muito aflita tentei que a comida descesse e tal só aconteceu depois de uns bons goles de água e algumas chapadas de David nas minhas costas.


- Grávida?! – perguntei num tom aflitivo limpando a boca


- Sim, grávida! Nossa tava com um barrigão lindo! – um brilho cresceu nos seus olhos e eu arrepiei-me com a intensidade


- Oh amor, só mesmo em sonho, porque grávida é coisa que eu não estou te garanto… - falei de forma calma e pausada


- Eu sei, amô… Mas sonho com isso! Sonho ter um monte de nenéns seus! Nossa, que felicidade! – a mão dele procurou a minha e uniram-se sobre a mesa


- Oh amor, é um bocadinho cedo para isso… Estamos juntos nem sequer há um ano! – agitei levemente a cabeça e dei uma garfada na comida


- Eu sei, mas já nos conhecemos há mais de um ano, ficámos foi naquele pega-pega, naquele vai-não-vai! Além disso o tempo é relativo e eu não tou falando que quero cê grávida já, mas no meu sonho estava linda! – fez um sorriso babado e eu derreti completamente


Ainda não tinha equacionado a hipótese de ter um filho dele, de engravidar, apesar da ideia de ser mãe sempre me ter agradado muito e as crianças sempre terem sido uma das minhas grandes paixões.


- Vamos ter tempo pra tudo, amor… Um dia vais ver-me com um barrigão enorme!


- Cê jura? – aproximou o seu rosto do meu com um sorriso traquina


- Juro! Vamos ter uma equipa de futebol! – brinquei num sorriso


- 11 nenéns? Fechado! – afirmou sorridente e roubou-me um beijo nos lábios


- Eu amo-te, David… - falei da forma mais sincera que consegui


- Eu te amo mais, meu amô… Muito mais! – afirmou num sussurro juntinho dos meus lábios


- Não… Eu é que te amo! – contra-argumentei rapidamente


- Shiu… Eu que sei! – beijou-me novamente sem me dar hipótese de refutar

- Ganhas sempre, é incrível! – barafustei rindo-me


- Cê é fraquinha, fazer o quê? – ambos nos rimos e unimos novamente os nossos lábios – Tenho uma surpresa pra você! – ele saiu da cozinha e regressou com um pequeno presente vermelho