domingo, 26 de junho de 2011

Capítulo 109 - Quando o amor não é loucura, não é amor... (Parte V)


Na manhã seguinte acordei com a luz difusa que penetrava a penumbra em que a suite estava envolta. Do meu lado ele ainda dormia profundamente e totalmente colado a mim. Relembrei como um sorriso no rosto a noite passada e guardei-a na minha memória como tendo sido uma das melhores da minha vida, mas do lado de David, quase todas eram classificadas dessa forma, pois ele era a melhor coisa da minha vida.
Tive pena de o acordar, pois o seu estado de dormência era profundo. A respiração era pesada, o corpo estava plenamente relaxado e em repouso sobre o colchão. Levantei-me devagarinho e como ainda estava despida, alcancei a parte debaixo da minha roupa interior e a camisola dele, e vesti-me. Ele movimentou-se um pouco na cama e abriu ligeiramente os olhos. Coloquei-me de joelhos do seu lado e comecei a beijar-lhe as costas despidas.

- Hum, amô… - a voz dele molengou assim como o seu corpo, que não movimentou um único músculo

- Bom dia, bom dia… - sussurrei junto do seu ouvido

- O melhor dia do mundo… - murmurou David com um sorriso lindo nos lábios

- Vou pedir o pequeno-almoço para nós… Queres o quê, mor?

- O que cê comer, amô…

- Vou pedir então, descansa mais um bocadinho… - desviei os caracóis que lhe cobriam a nuca e beijei-a, até o deixar todo arrepiado

Não demorou nada até David voltar a pegar no sono, estava realmente estafado. Conhecendo-o como conhecia, aquela devia ser das primeiras noites que ele dormia em condições em dois meses, ou seja, desde que eu partira que ele nunca mais descansara o suficiente.

- Bom dia… Quero o menu completo de pequeno-almoço para duas pessoas, por favor… - solicitei à camareira que me atendeu o telefonema – Sim, quarto 23… Ok, muito obrigada! Até já…

Olhei em meu redor, não tinha nada que fazer até o pequeno-almoço chegar e ele continuava ferrado a dormir. Aproximei-me da varanda, corri a porta e saí para me apoiar no beiral. Não sei quanto tempo ali estive, mas tenho a ideia que pedi o pequeno-almoço, vinte minutos antes e até lá, nem sinal dele. Senti um corpo muito quente, abraçar-me por trás e amarrar-me para si.

- Bom dia, gata linda! – a sua voz soou pertinho do meu ouvido e pude adivinhar-lhe um sorriso no rosto

- Bom dia, dorminhoco lindo! – ambos nos rimos levemente

- Tá fazendo o quê na varanda em vez de tar deitada do lado do seu gatão?

- Olha, estava a ver se o pequeno-almoço vinha… Pedi-o há mais de 20 minutos!

- Calma, a gente não tem pressa! Só tenho treino no final do dia, meu amô…

- Eu sei, mas tenho fome… - confessei sem jeito

- Ué, continua comilona?

- Claro, aprendi com o melhor namorado comilão do mundo! – virei-me para ele e roubei-lhe um beijo – Olha lá, que poucas vergonhas são estas? – inquiri ao vê-lo somente com um lençol em torno da cintura

- Então, só tá a gente no quarto, amô…

- Mas estás na varanda e há mais pessoas no hotel…

- Cê também está de calcinha e com a minha camisola, mô! – ele riu-se descaradamente e tive de lhe dar uma palmada no peito

- Respondão!

- Cê gosta! – ele deitou-me a língua de fora em jeito de desafio

- Vai masé vestir-te, ó!

- Ah, cê quer que eu me vista? E eu pensando que tava gostando de me ver assim só pra você… Só pra lembrar melhor do que andou perdendo esses dois meses…

- Hum, que convencidos que estamos!

- Realista, mô! Vai dizer que não gosta?

- Ah… Já nem me lembro bem, como é que posso saber se gosto?!

- Eu te mostro então! – ele preparou-se para abrir o lençol, mas rapidamente o travei

- Ei, estamos na varanda, David Marinho!

- Então vem comigo lá dentro e eu te mostro… - ele aproximou-se de mim e beijou-me no pescoço, o que me levou aos arrepios

Coloquei as minhas mãos no seu peito, o que me facilitou a tarefa de o empurrar até dentro da suite. Os nossos lábios uniram-se apaixonadamente e acabei por ser eu a livrar-me do lençol que envolvia o seu corpo. Caí debaixo dele em cima da cama e livrei-me da camisola dele que estava colada ao meu tronco. A sua boca foi directa ao meu pescoço e desceu até ao meu peito, que acariciou entre beijinhos e doces mordidelas, mas fomos interrompidos por alguém a bater à porta do quarto.

- Pô, não abre, amô… - ele continuou a acariciar-me

- Amor, tenho de abrir… Deve ser o pequeno-almoço!

- Não importa, já arranjei outro pequeno-almoço, não preciso mais desse não!

- Deixa de ser tolo, amor! – ri-me levemente e fiz força para que ele saísse de cima de mim

- Tolo nada, apaixonadão! – voltou a enrolar-se no lençol e roubou-me um beijo rápido

- É, é… Apaixonadão! – caminhei até à porta, vestindo a camisola de David

- Bom dia, está aqui o pequeno-almoço para dois… - foi um senhor que veio trazer o pedido, e pela expressão de David compreendi que isso o levou à loucura

- Obrigada, espere dois segundos… - enquanto o senhor empurrou o carrinho para dentro do quarto, eu fui buscar a minha carteira para lhe dar uma gorjeta – Aqui tem! – sorri entregando-lhe uma nota

- Muito obrigado, qualquer coisa é só chamar… - acenei cordialmente com a cabeça e fechei a porta – Vamos ao ataque! – anunciei enquanto o meu corpo preambulava na direcção do meu David

- Que é isso, pô? – encontrei o David sentando num divã da suite e com umas trombas do tamanho do mundo

- Isso o quê? – questionei, pois não compreendi onde ele queria chegar

- Isso! – ele observou o meu corpo de alto abaixo e apontou na minha direcção

- Que tem?

- Que tem? Que tem? Ainda pergunta? Pô, foi abrir a porta desse jeito pro cara!

- Eu não sabia que era um homem, David… E além disso não estou despida que eu saiba! – eu já adivinhava que os ânimos se iam exaltar, por isso preferi ignorá-lo e comecei a distribuir a comida pela mesa da suite

- Mesmo assim, se eu fosse abrir a porta desse jeito pra uma garota, cê já tava aí fritando!

- Oh David, são empregados de hotel… Estamos hospedados, eles estão aqui para nos servir, logo é perfeitamente normal que eu queira andar à minha vontade!

- Desculpe lá, mas não é normal eu ter que ver a minha namorada ir abrir a porta de calcinha e camisola, pra um cara qualquer!

- Mas o que raio se está a passar contigo, David? Estás a fazer um drama por uma coisa simples…

- Ele te olhou toda! De cima abaixo, mirou cada pedacinho de você!

- Oh David, estás a exagerar… O senhor foi super educado!

- Foi educado, mas se pudesse tinha feito bem mais do que olhar!

- Olha David, já chega desta conversa! – sentei-me à mesa, comecei a comer e ele fez exactamente o mesmo, ficando os dois em silêncio

- Cê sabe que os homens te olham e mesmo assim facilita qu… - não o deixei sequer acabar de falar

- Acabou, David! Já chega… - ordenei dando um gole na chávena de café

O resto da refeição foi tida em completo silêncio, ele percebeu que me tinha magoado com a expressão utilizada, “mesmo assim facilita…”, devia ser a única coisa no mundo que eu fazia era não facilitar, uma vez que era comprometida e tinha a completa e perfeita noção disso.

- Amô… - foi a voz dele a arrancar-me dos mais remotos pensamentos

- Sim… - ripostei de forma fria, pois o meu pensamento adivinhou uma discussão descabida a caminho

- Desculpa… - a expressão de desalento que preencheu o seu rosto e vinculou os seus traços, deixou-me de coração mingado

- Estás desculpado, só não sabia que tinhas assim tão pouca confiança em mim…

- Não é em você, é neles…

- Típica desculpa de um típico ciumento! – revirei os olhos e limpei a boca com o guardanapo

- Se sou ciumento é com razão! – falou rapidamente acabando de mastigar um pouco do seu croissant simples

- Não, não é! Que eu saiba nunca te dei motivos para tal, nem para estares a agir dessa forma comigo!

- Você não, mas eles dão… Eles te olham, pô! Cê não enxerga isso?

- Tudo bem, David… Eles olham e daí? Não é contigo que estou, bolas?

- É comigo que cê tá, mas pode deixar de estar… As relações se destroem…

- Se continuares com esse comportamento e a falar dessa maneira, ai destroem-se de certeza! – murmurei e cheguei a minha cadeira para trás a fim de me levantar

- Ei, me compreende! – senti a mão dele puxar-me para ficar sentada de novo

- Não te fazia tão ciumento a sério que não, David…

- Não é ciumento, garota… É inseguro!

- Inseguro? E desde quando te dei razões para essas inseguranças?

- Não foi você, mas sim a distância que nos separou estes dois meses… Me deixou inseguro! Achei que cê podia ter achado um outro alguém! Achei que cê agora é melhor e que por isso merece alguém mais ao seu nível!

- Tu és o meu nível, David! Pensei que já tinhas compreendido isso… Ou achas que eu tinha deixado o sonho que estava a viver em Nova Iorque mais cedo, feito um voo exaustivo de horas, tudo para surpreender uma pessoa que não é o meu nível?

- Desculpa, cê tem razão… Tô sendo um bobo…

- Estás mesmo, Dê…

- Vem cá, vem… - ele abriu espaço no colo dele e eu não resisti a ocupá-lo – Desculpa esse babaca daqui, mas ele te ama muito e só faz borrada!

- Não faz mal, amor… Os ciúmes são saudáveis, mas em excesso destroem uma relação…

- Eu sei, me perdoa… Fui um babaca com cê! – a mão dele percorreu cada traço do meu rosto de forma muito atenta – Te amo muito, meu anjo… Muito!

- Eu sei, eu também, amor! Muito!

- Muito, muito? – perguntou ele com um sorriso doce e lindo

- Muito, muito, muito, muito, muito! – confirmei entre beijos repenicados nos seus lábios

- Muito, é? Então vem me mostrar o quanto! – ele levantou-se e foi-me empurrando até à cama

Acabámos por cair sobre ela e rapidamente ele se livrou da camisola que cobria o meu torso.
- Eu mostro-te, se me mostrares aquilo de há pouco… O que andei a perder durante dois meses!
- É pra já, garota! – os lábios dele enterraram-se no meu pescoço e ambos desatámos a rir, na nossa frente estendia-se um novo momento de entrega


***


Arrumámos as nossas coisas no pequeno saco que eu tinha trazido para aquela noite e descemos até à recepção.

- Está aqui a conta… - a senhora passou um talão com um numerário bastante avultado, para as minhas mãos

- Obrigada! – esbocei um sorriso educado e estendi o meu cartão de crédito

- Me deixa paga, amô… - pediu David baixinho, perto do meu ouvido

- É claro que não, a surpresa é minha, pago eu…

- Oh, me deixa, mô… Por favô!

- Nem por favor, nem meio por favor! Esteja caladinho, oh jeitoso! – rimo-nos suavemente e digitei o código que saldou a dívida

- Muito obrigada e regressem sempre que quiserem ao Cascais Miragem, teremos muito gosto em recebê-los…

- Muito obrigada! – sorrimos educadamente e retirámo-nos em direcção ao meu carro, que nos havia trazido ali na noite anterior

- Conduz você ou conduzo eu, amô? – questionou-me colocando o saco no banco de trás

- Podes conduzir se preferires…

- Eu prefiro, assim cê descansa, dá uma relaxada… - uniu as nossas bocas momentaneamente e entrou para o lugar do condutor

Copiei-lhe o gesto, ocupando o lugar vazio do seu lado e ele seguiu viagem.

- Amei essa noite… - confessou-me com um sorriso e de olhos postos na estrada

- Amaste mesmo, amor?

- Mesmo, mesmo, mesmo! Foi óptima, depois de dois meses longe, essa descarga de romantismo fez bem pra gente! Muito bem! – lançou-me um olhar, mas voltou a concentrar-se muito rapidamente na condução

- Ainda bem que gostaste, Dê… A intenção era mesmo essa! – finalizei com um sorriso e durante alguns quilómetros o silêncio dominou

- Cê acha que deu, amô? – questionou-me, sem seguir qualquer linha de discurso ou tema

- O quê, amor?

- As nossas tentativas de ontem… Acha que vai dar pra engravidar?

- Oh amor, não sei… A gente tentou, agora é esperar para ver. Queres assim tanto ser pai agora?

- Eu quero, mas como te disse… A gente tentou, se der, deu! Senão der é porque não tinha de ser e vamo’ deixar as coisas rolarem!

- É isso mesmo, amor… Somos muito novos, não nos vamos tornar obsessivos em relação ao assunto!

- Sim, isso mesmo! O que importa é a gente e o nosso, amor!

- É, isso mesmo! – confirmei com um sorriso apaixonado nos lábios


***

- Quimi! – assim que entrei em casa do David a minha cadela, ou melhor, a nossa cadela, saltou para cima de mim pedindo por mimos – Olá, pequenina! Estás tão grande… - olhei para David a fim de comunicar com este – Ela cresceu imenso!

- É, isso e se tornou numa destruidora compulsiva! Só esse mês, me roeu mais de três pernas das cadeiras da sala! – ambos nos rimos, enquanto ela continuou a andar à nossa volta alegremente com a cauda a agitar

- Oh doida, acalma-te… Vá, acalma-te! – pedi dando-lhe festinhas e finalmente, conseguindo avançar mais para dentro de casa

Pude constatar que tudo permanecia igual, tal qual como eu conhecera, ao abandonar o espaço há 61 dias atrás. Os meus lábios teimaram em demonstrar a alegria que dominava o meu coração por finalmente estar de regresso a casa, ao lar… Que podia até nem ser totalmente meu, mas de algum jeito já me pertencia, pelo menos já tinha a sua chave.

- Matando a saudade…? – perguntou David ao entrar na sala e abraçar-me por trás

- É, acho que é isso mesmo! Continua tudo perfeito, amor… Tal qual como me lembro!

- Não mudei nada desde que cê foi embora… Nada! – os lábios dele embateram com a pele perfumada do meu pescoço, o que levou as minhas pernas a fraquejarem

- Tá cansada, amô?

- Um bocadinho, a viagem foi longa e a noite não foi propriamente dormida! – ambos nos rimos sorrateiramente, mas permanecíamos felizes

- Anda, vem descansar um pouco… - ele puxou-me pela mão até ao seu quarto, do qual matei saudades simplesmente com um olhar

- Tudo igualzinho, que saudades, meu Deus… - balbuciei tirando os sapatos dos pés

- Vai ter tempo de matar saudades de tudo, amô… Agora descansa um pouco… - aconselhou-me ao dirigir-se para a janela, com o simples propósito de descer a persiana, o que me fez recordar o cenário de fundo da sua paisagem

- Ora aí está uma coisa da qual não tive saudades nenhumas! – comentei apontando para o Estádio José Alvalade XXI, que infelizmente ainda era elemento dominante na paisagem

O David riu-se e acabou de bloquear a entrada de luz no espaço que futuramente iria servir para meu descanso

- Cê não muda, minha benfiquista ferrenha! – beijou-me delicadamente nos lábios, mas com algumas dificuldades, uma vez que teimávamos em rir-nos do momento

- Sinceramente não sei onde estavas com a cabeça, quando vieste jogar para o Benfica e depois compraste esta casa… Foi burrice, mor! Acho que viver com vista para uma lixeira, era igualmente compensador e prazeroso!

- Nossa, cê voltou cruel por demais dos Estados Unidos! Já tô vendo que no próximo jogo com os lagartinhos, cê vai mandar vir, meu bem!

- Podes apostar, aprendi lá uns insultos, espectacular, morzão!

- Bobinha! – ri-me para ele e atirei-me para cima da sua cama, que me pareceu naquele momento extremamente convidativa devido ao meu elevado grau de cansaço

- Ai, que booooom! – disse espreguiçando-se, para logo de seguida formar uma concha com o meu próprio corpo

- Isso, amô… Dorme! Dorme que eu vou ficar aqui do seu lado… - ele deitou-se calmamente do meu lado e abriu lugar para me aninhar no seu corpo

Não neguei o convite e fiz dos seus braços o meu confortável ninho de descanso.

- Obrigada, mor… Até já…

- Até já, anjinho… Te amo! – foram as últimas palavras que ouvi, antes de cair num sono profundo



***


Quando despertei horas depois encontrei somente uma cama tão vazia e fria, como a almofada, que acompanhava a minha lado a lado. Em cima dele um pequeno bilhete de letra trémula, que facilmente reconheci como de David, pois percebia-se que tinha sido escrito à pressa.

“Amô, cê tava dormindo tão bem que não tive coragem de acordar! Saí pro treino, mas deixei no forno o seu almoço, pro caso da fome bater! Se sinta em casa, meu anjo, não é já nem preciso dizer!
Nos vemos quando voltar a casa! :)
Beijo
Te amo muitão!
Do seu, David ♥“

Levantei-me, tomei um duche frio e servi-me de umas roupas que tinha em casa de David, para quando ficava lá a dormir. Ainda meio adormecida, apesar dos jactos de água fria, dirigi-me à cozinha e encontrei no forno o meu almoço. Um maravilho tabuleiro de lasanha, mesmo ao estilo do meu namorado, e que devorei com a maior das vontades pois já eram quatro e meia da tarde. Sentei-me no sofá, esperando a chegada dele e fazendo zapping na televisão. Assim que o vi cruzar aquela porta, com o saco de treino ao ombro e um enorme sorriso no rosto, tive a certeza que nada iria compensar o tempo que passei longe e que era bom… Muito bom, estar de volta!





Obrigada a todos aqueles que não desistiram da fic!
Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem!
Não se esqueçam de comentar, pois é muito importante saber o vosso feedback! :)
Beijinhos
Drii

terça-feira, 21 de junho de 2011

Capítulo 109 - Quando o amor não é loucura, não é amor (Parte IV)


O momento começou a transpor barreiras perigosas, barreiras que rapidamente seriam possíveis de acuar e que nos deixariam numa situação pouco confortável.

- Dê, não quero fazer nada aqui… - desabafei com medo de o magoar, mas achava que aquele, precisava ser um momento só nosso

- Não tem saudadji minha?

- Tenho, muita, mas aqui...? – torci o nariz

- Ainda falta pra festa acabar… E pelo menos quero dar uns beijos em você, mas respeito se preferir guardar esse momento só pra gente e nossa privacidade… - o sorriso dele foi totalmente tranquilizante

- Prefiro, amor… Desculpa, mas acho que tanto tempo longe um do outro merece uma coisa mais especial e nossa…

- Ei, ei! Não pede desculpa, bobinha! Me beija só e assim me faz o homem mais feliz do mundo! – ele esboçou um sorriso completamente babado e luminoso

- É só isso que eu quero… Fazer-te feliz! – as nossas bocas uniram-se e a troca de beijos foi muito intensa durante mais alguns minutos, pelo menos até retomarmos à festa


***


- Oh pequenina, estás com um ar tão maternal… - Ruben não resistiu a meter-se comigo, enquanto eu trocava mais uns beijos com David a um canto da sala

- Mas qual é a tua, ó?

- Epá, não sei… Estás com ar de mamã! – na sua boca um sorriso sereno delineou-se

- Ruben, eu não sei qual é a tua, mas se queres assim tanto bebés, tens aí a tua futura mulher do lado, pede-lhe e ela dá-tos!

- Ei, ei! Tinha que sobrar para mim, não?! – Inês resolveu dar o ar da sua graça e num trejeito cómico e muito próprio da personalidade dela, empinou o nariz

- Oh, não estou com vontade de ser papá, mas tio ou padrinho, já não me importava!

- Pois então escolhe outro alvo, porque se há coisa que eu garanto que não estou é grávida! – afirmei muito certa e senti o David gesticular qualquer coisa a Ruben – Ei, que foi isso? Eu vi! – ele fizera-lhe sinal para estar calado

- Nada não, amô… Só para esse babaca largar você de vez!

- David, David! Eu conheço-te, esqueces-te? Não vale a pena mentires-me… Podes começar a chutar! Vamos lá! – ele estava sentado numa cadeira e eu fiz do colo dele a minha, por sinal bem mais confortável

- Pô, cê só me arranja negócios desses, cara!

- Desculpa aí, mano!

- É, agora é “desculpa aí, mano!” – o David forçou uma voz de alguém que aparentava ter um problema mental e foi somente o bastante, para todos se rirem que nem uns perdidos

- Deixem-se lá de coisas, porque eu não tenciono esquecer! Vamos lá, Senhor David, comece a disparar! – ordenei sentada no seu colo

- Oh, eu que comentei com esse daí que gosto de nenéns…

- Oh mor, mas isso todos nós sabemos! Tu amas crianças, é um facto e daí?

- E daí, que eu andei pensando nisso enquanto cê teve fora…

- Correcção: ele andou pensando muuuuito nisso! – o Ruben teve de se meter na conversa, mas rapidamente eu e Inês o calámos, ela com um puxão de orelhas e eu com um olhar fuzilante

- Andaste a pensar em bebés? Agora é que não estou a perceber nada, David Marinho!

- Oh amô, pô! Andei pensando e quero muito ser pai… Agora!

- O quê?! Pai, agora? Mas está tudo louco?

- Oh amô, não fica brava comigo… Cê sabe que eu quero ter filhos!

- Sei, claro que sei! Eu também quero muito, mas quando tiver casada, o meu curso tirado e um emprego estável, não nestas circunstâncias!

- Tá, mas eu queria agora… - a sua expressão triste mirrou-me o coração, quase como se o tivesse a segurar bem apertadinho na palma da minha mão

- Oh amor… - encostei o meu narizinho ao dele e esperei que os seus olhos fitassem os meus – Eu sei que queres muito construir a tua família, mas vamos com calma… Ainda temos muito pra viver!

- Eu sei, mas sonhar não custa… - sussurrou sorrindo - A gente podia tentar… Uma vez que fosse! Só uma…

- Amor… Mais um bocadinho! Dá-me só mais um bocadinho e depois começamos a tentar, sim?

- Começamos mesmo? – perguntou super entusiasmado e com um sorriso que exprimia essa condição

- Mesmo, mesmo! – rematei beijando-o nos lábios

- Essa noite… - sussurrou de encontro aos meus lábios

- Um tempo, amor… Depois tentamos…

- Só uma vez… Senão der não deu, é porque não tinha de ser! Mas vamo’ tentar! Vamo’…

- Só esta vez, amor… Só esta… - sorri, pois de facto, aquilo fazia-me tão feliz como a ele

Tinha somente 18 anos, era verdade, mas tinha aquilo que muita gente não tinha: uma relação saudável e sólida, maturidade e uma pessoa do meu lado que também a possui, e amor, muito amor… Era só isso que necessitávamos para construir a nossa família.


***

- … para o menino David, uma salva de palmas! Ehhhh! – todos cantaram em uníssono e ele soprou as velas do bolo que eu tinha na mão

Pousei-o e beijei os lábios de David, quando este ainda tinha os olhos fechados para pedir um desejo.

- Pedi um filho… - confessou num murmúrio vagamundo, mas capaz de fazer acelerar o mais frio dos corações

- Vamos ver se se realiza… - completei sorrindo – Tenho uma prenda para ti…

- Uma prenda? Não precisa de mais nada, tendo você e o meu desejo realizado, não preciso de mais nada!

- Pois, mas eu preparei isto com carinho… Não queres?

- Quero, claro que eu quero, meu amô! Quero tudo o que é seu!

- Então dá-me cinco minutos!

- Dou! Te dou tudo o que cê quiser… Mas volta rápido!

- Volto! – beijei para me afastar, mas ele fez questão de prolongar o beijo ao máximo e da forma mais apaixonada possível

Quando regressei já trazia na mão aquilo que me interessava, um novo DVD. Só eu sabia o seu conteúdo, pois fora montado com a ajuda de um dos senhores do estúdio de Nova Iorque. Do meu lado vinha um colega de profissão, guitarrista, que me ia acompanhar naquela surpresa. Tomei o meu lugar no palco e coloquei o filme a passar. Este continha fotos nossas, minhas e de David, e a tradução da música que eu ia cantar, sobre ele e para ele.

- Slowly stars go out each night, Dark meets light, kiss the sun goodnight, New day comes as though life's just begun, You're now mine… And everytime you hold my hand, There's an understanding of who I am, New life is born, unlike before I'm now yours… - iniciei a música um pouco nervosa como sempre, ficava assim sempre que pisava um palco, por mais pequeno que fosse, como era o caso


Era uma música da minha autoria, que compus enquanto me encontrava nos Estados Unidos e foi talvez uma das que me deu mais gozo gravar. O David não percebia Inglês, daí eu ter preparado aquele vídeo, que passou atrás de mim, enquanto eu cantava a sua banda sonora ao vivo. Fi-lo de plena alma e com todo o coração. Cada palavra entoada foi sincera, cada frase composta veio do coração e por isso foi fácil imprimir-lhe a minha essência e o sentimento que nutria, sobre quem cantava. No final todos aplaudiram e encontrei David com um sorriso totalmente divinal bem na minha frente. Eram momentos assim que valiam a pena, tudo para puder ver naquela face angelical um sorriso, bem merecido.


***

- Bem, não te importas de levar então o Sr. Lau e a Dona Rê a casa, Ru?

Questionei-o, pois havia-me esquecido desse pequeno detalhe, que interferia com a minha surpresa, ou melhor, com aquele plano que em tempos fora uma surpresa e deixou de ser graças à boca de trapos de Ruben

- Não, levo-os numa boa! A menos que eles se importem… - tanto nós os dois, como David, que permanecia atrás de mim amarrando-me contra o seu corpo, os olhámos, esperando uma reacção

- Claro que não, meus filhos… A gente só quer é chegar em casa e dormir, que estamos muito cansados!

- Tem a certeza, Dona Regina? – perguntei, pois queria colocá-los o mais confortavelmente possível

- De certeza, minha filha… Vão sair, se divirtam e aproveitem pra namorar muito!

- Obrigada, mãe… - nesse momento congelei ao dizer aquilo

Mas que raio me tinha passado pela cabeça para chamar a mãe do meu namorado de “mãe”? Aquilo saiu-me tão natural, como inevitavelmente. Todos nos olhámos e eu senti-me pessimamente por o ter feito, tinha abusado, pelo menos a meu ver, mas surpreendentemente a reacção foi contrária à esperada.

- Desculpe, Dona Regina! Desculpe…

- Tenha calma, minha filha… Não há problema nenhum! Eu também não te chamo de “minha filha”? Vai dar no mesmo, não esquenta, não!

- Obrigada… - sorri de forma tranquila – Vamos então, amor? Ainda tenho de conduzir um bocadinho…

- Vamo’, mô! Até amanhã, gente! Sua bênção, meus pais…

- Vão com Deus, meus filhos… - respondeu a Dona Regina e tanto ela como o marido, deram-nos dois beijinhos

- Qualquer coisa, liguem! – disse David, já puxando-me pela mão

- Ah, não vamos ligar mesmo, que eu quero esse sobrinho para breve!

- Oh Ruben, cala a boca! – ordenei rindo-me

- Olha, olha! Não me digas que estás com vergonha dos sogrões? Eles querem é netos e depressa! Ponham-se masé a andar e treinem muito! – todos se riram, inclusive os meus “sogrões”, como Ruben lhes chamou

***

Conduzi durante meia hora até ao hotel Cascais Miragem, onde a minha surpresa já estava preparada e à espera de David. Pedi o cartão na recepção e subimos bem juntinhos no elevador.

- Vai me dizer o que nos está esperando?

- Nem pensar, quando chegares logo vês… Já basta o Ruben ter estragado meia surpresa!

- Hum, vindo de você vai ser coisa boa de certeza… E romântica! – acrescentou rindo-se

- Oh, já sabes como sou, por isso não vale gozar!

- Hum, não gozo não, meu anjo! Só te quero do meu lado, com ou sem romantismos! – beijámo-nos calmamente, mas durante pouco tempo, pois o elevador deu sinal de termos chegado ao nosso andar

- É aqui… - anunciei quando chegámos à porta do quarto 23

- Bom número! – brincou, abraçando-me por trás

- Até dizia que foi coincidência, mas estaria a ser desleal para contigo! Foi um dos meus pedidos extravagantes, que com uma notinha extra fez com que um casal de ingleses fosse desalojado! – ambos gargalhamos, mas quando percebemos que era tarde e nos encontrávamos no corredor, fizemo-lo em surdina

- Cê é doida, amô!

- Por ti, só se for… - beijei-o rapidamente – Vá, fecha os olhos!

- Vou fechar! – anunciou e de facto fê-lo, mas quando eu ia para abrir a porta ele espreitou sorrateiramente

- Ei, eu vi isso! Batota não vale, fecha bem!

- Pronto, pronto! – ele cerrou os olhos e eu comecei a fazer caretas na frente dele para confirmar que não estava de facto a ver nada – Então, amô? Ainda demora? – tapei a minha boca com a mão para que ele não ouvisse o riso

- Não, vamos já! – acenei uma última vez na frente da sua cara e abri a porta – Anda…

Fui eu que o guiei até ao interior da luxuosa e agradável suite. Tudo estava do jeito que eu pedira… Haviam pétalas sobre a cama, uma garrafa de champanhe e dois flutes preenchiam o espacinho vazio em cima do aparador da pequena sala, uma taça com morangos, no ar pairava um aroma abaunilhado de incenso e o espaço estava quase às escuras.

- Posso abrir? – perguntou David dominado pela impaciência

- Não, dá-me mais dois segundos! – corri para acender as velas com o isqueiro e apagar as poucas luzes artificiais que restavam acesas na suite

- Amô… Me deixa abrir, pô! Não aguento mais!

- Pronto, já está… - tomei lugar do lado dele, conferindo uma última vez aquele cenário incrível, completado pela enorme janela envidraçada que dava a perfeita visão sob a paisagem marítima que cobria o horizonte

- Já posso?

- Podes, amor…!

Ele abriu os olhos, adormecidos pela escuridão, muito devagarinho, acho que por momentos ele julgou estar a ver mal, tamanha era a beleza do cenário.

- Tá brincando…

- Não, muito a sério! É tudo nosso por esta noite… - dei um beijo no braço dele, pois devido à diferença de alturas, era a única coisa que conseguia alcançar

- Pô, amô… Te amo! – ele uniu rapidamente as nossas bocas, para esconder a emoção que estava a dilacerá-lo de forma indulgente

- Também te amo, muito! – afirmei sorrindo

- Vem, amô… - ele puxou-me até junto do aparador e fez a pressão da garrafa de champanhe libertar-se, para seguidamente o servir nos flutes

Demos um pequeno toque com os copos, sem nunca desviar o olhar um do outro, e o dele, quase que parecia queimar. Percorreu a minha figura com uma intensidade e uma paixão avassaladoramente assustadoras. Bebemos ambos um pouco do champanhe e o travo amargo, combinado com a temperatura cálida do mesmo, fizeram-me arrepiar a espinha.

- Toma, amor… - retirei um dos morangos da taça e dei-lhe metade à boca, para o restante ficar para mim

- Nossa, que gostoso, amô… - ele colou os nossos corpos e beijou-me – Quero ficar assim para sempre…

- Vamos ficar assim para sempre…! – jurei-lhe sussurrando sorridente

Ele deu-me um leve beijo e deu-me um morango para comer.

- Au, me mordeu, amô! – ele riu-se e comeu o pouco que sobrou do meu morango

- Desculpa… - sorri e dei-lhe um beijinho carinhoso no dedo

- Parece um sonho… - murmurou mexendo no meu rosto e afastando os cabelos, que o rodeavam

- Não é, amor… Estou de volta de Nova Iorque e bem aqui na tua frente!

- Não é isso, mô… Parece um sonho cê ter aparecido assim na minha vida e ter tornado ela tão perfeita! Cê é um sonho…

- Sou o teu sonho e juntos estamos a viver o mais belo sonho de amor… - segredei com um sorriso tonto nos lábios

- O melhor sonho do mundo… - ele beijou-me calmamente

Aquilo que começou por ser somente um beijo sereno, acabou por se transformar no impulsionador da intensidade do momento que se seguia. Tínhamos estado dois meses longe um do outro, onde qualquer contacto físico tinha sido nulo, mas nem era isso que nos fazia falta. Não era uma questão de sexo, ou puro prazer… Era uma questão de amar e ser amado, de dar tudo e receber muito mais. Era uma questão de nos entregarmos e nós estávamos dispostos a isso… Cambaleando sobre os seus pés, ele agarrou em mim, até tirar os meus do chão, e levou-me ao colo até à cama. Todo o percurso foi feito, por entre um beijo desmedidamente apaixonado, mas sereno. Queríamos amar-nos, mas sem qualquer urgência ou noção de tempo. Ele pousou-me delicadamente sobre o manto de pétalas que cobria o colchão e sorriu-me carinhosamente.

- Te quero muito, Adriana… - a intensidade com que ele proferiu o meu nome, fez-me estremecer sobre a cama e fez meu coração disparar quase até me sair pela boca

- Eu também, amor… Muito! – confessei já meio ofegante

Apoiado num dos braços, para não me magoar com o seu peso, voltou a fazer dos meus lábios, seus. A minha mão esquerda, desceu da nuca dele, percorrendo toda a espinha, até encontrar a bainha da camisola, e aí a transpor para entrar em contacto com o corpo dele. Ficou somente em contacto com a pele das suas costas, mas ajudou-me a puxar a camisola para cima. Separando momentaneamente os nossos lábios, ele permitiu tirar-lha e atirá-la para o chão do quarto. De forma igualmente delicada, livrámo-nos de todas as peças de roupa que cobriam os nossos corpos e ficámos despojados um para o outro, e finalmente prontos para aquele acto de rendição.

- Posso, amô? – perguntou num tom de respiração acelerada e intranquila

- Podes, amor… Relaxa! – acariciei-o na face direita, pois senti que uma ponta de nervosismo o consumia por dentro

- Desculpa, tô nervoso… - confessou-me com um sorriso desajeitado e envergonhado no rosto

- Não é a primeira vez que estamos juntos, amor… Não tens de estar nervoso! – dei-lhe um beijinho no lábio inferior e senti-o estremecer

- Mas é a primeira vez que estamos juntos em dois meses…

- Nada mudou, o nosso sentimento é o mesmo e a vontade de ser tua só aumenta a cada minuto que te tenho por perto… - ele uniu as nossas bocas e eu não resisti a morder-lhe o lábio inferior carinhosamente – Relaxa, amor… Somos só nós!

- Obrigada, amô… Te amo muito! - voltámos a beijar-nos tranquilamente e senti-o então descontrair

- Eu também… - rematei com um sorriso calmante no rosto

Assim que ele uniu os dois corpos, senti-me novamente a mulher mais amada do mundo e pude ler no seu olhar, que estava igualmente feliz. Fizemos então amor, durante toda a noite, ou pelo menos o que restava dela, e sempre com um enorme sorriso no rosto. Quando os nossos corpos exaustos vacilaram, adormecemos lado a lado, com a certeza de que nos pertencíamos mutuamente, independentemente da distância que o destino nos pudesse impor… e essa era maior do que aquilo que imaginávamos.



 

Obrigada a todos aqueles que não desistiram da fic!
Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem!
Não se esqueçam de comentar, pois é muito importante saber o vosso feedback! :)
Beijinhos
Drii

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Capítulo 109 - Quando o amor não é loucura, não é amor... (Parte III)



Olhei para a pequena Sofia e toda a gente, que me olhavam admiradíssimos, uma vez que me julgavam do lado de lá do Atlântico e com regresso previsto apenas dentro de três dias.

- Quem é? Gente já chega de brincadeira! – refilou o David impaciente

Com as minhas mãos consegui sentir que os olhos dele estavam húmidos e que se tinha emocionado muito com o vídeo e ainda mal ele sabia o que estava para vir. Ele tentou soltar-se, mas como não conseguiu começou a tocar-me muito cuidadosamente e de repente parou todos os seus movimentos, ficando exactamente onde estava, com as mãos sobre as minhas.

- Parabéns, meu amor… - sussurrei junto do ouvido dele até o sentir arrepiado

Rapidamente ele se soltou das minhas mãos, levantou-se bruscamente e acabou dois metros afastado de mim. Os seus olhos verdes estavam esbugalhados e todo ele tremia, como se fosse um menino pequenino acabado de levar um berro. Os seus olhos, que por si só já estavam vermelhos, ficaram completamente rasos de lágrimas e vidrados em mim. Ao vê-lo assim não tive como resistir e acabei por deixar que as lágrimas invadissem também os meus olhos grandes e muito castanhos. Fiquei a olhá-lo, esperando vê-lo tomar uma reacção e apesar de tudo aquilo ter sido uma questão de segundos, a mim pareceu-me uma eternidade, porque sempre que eu e o David estávamos juntos era assim… O relógio abrandava, parava e entrava no tempo, no nosso tempo… Finalmente, dirigiu-se na minha direcção e apenas com duas passadas uniu os nossos corpos, abraçando-me até ficar com os pés fora do chão. Os seus braços envolveram fortemente a minha cintura e os meus o seu pescoço, onde enterrei a cabeça para chorar. Calmamente, os nossos choros acabaram por se misturar, completamente embalados pelo rodopiar leve e singelo dos nossos corpos, imposto por David.
Olhámo-nos, aquilo parecia demasiado irreal e tive de lhe tocar para ter a certeza de que não estava a sonhar. Quando a espera não dava mais para aguentar e a urgência se tornou maior, as nossas bocas uniram-se e as nossas línguas fundiram-se tranquilamente, sem sequer nos importarmos com quem estava à nossa volta. Não sei quanto tempo nos beijámos, mas ele aguentou-me com os pés fora do chão esse tempo todo e quando o beijo findou, regressámos ao abraço apertado, enterrando os rostos no pescoço um do outro.

- Que saudadji, amô… Que saudadji… - sussurrou ele apertando-me para si

- Já passou, amor… Já passou, eu estou aqui! – dei-lhe um beijinho no pescoço e senti-o estremecer completamente

Finalmente os meus pés tocaram novamente o chão e as mãos dele tocaram a minha cara, para confirmarem que era mesmo eu.

- Não tô nem acreditando que é você! Não consigo acreditar! – ele foi abanando a cabeça negativamente e rematou enchendo-me os lábios de beijinhos doces e repenicados

- Podes acreditar… Sou eu, mor! – ele acariciou-me a face direita muito calmamente e com um enorme brilho nos olhos, ainda húmidos do choro

- Porque cê não falou nada? Cê disse que vinha em três dias! E aquele vídeo? E como cê me ligou desejando os parabéns se devia tar viajando para agora conseguir tar aqui? E como cê veio se tá gravando o CD? – ele bombardeou uma série de perguntas, percebi então que estava muito confuso

- Calma, amor… - afaguei-lhe o rosto e muito carinhosamente com os meus polegares enxuguei-lhe as lágrimas – Eu sei que falei que vinha daqui a três dias, mas era porque te queria fazer esta surpresa hoje… Andei a dar no duro para despachar o CD e conseguir chegar a tempo, e quando te liguei estava mesmo, mesmo, quase a embarcar!

- Ai, eu não tô acreditando! – ela esboçou um sorriso lindo de verdadeira felicidade – É mesmo você, muleca! – ele beijou-me vezes e vezes sem fim nos lábios

- Sou, sou eu… - suspirei de encontro aos lábios dele uma última vez antes de nos beijarmos

- Oh casal maravilha! – a voz irritante e sempre, muito pouco oportuna de Ruben, quebrou o momento

- Que quer, ó? – David não me soltou e olhou por cima do meu ombro para ele

- Queria um abraço da minha melhor amiga! Eu sei que és o aniversariante, mas não precisas de te transformar num puto egoísta! – refilou Ruben, forçando um beicinho

- Oh o muleque! Tô feito com você, pô! A namorada é minha, se enxerga, babaca!

- Ei, se a tua namorada está aqui, agradece-me a mim, que a ideia foi minha! – ripostou prontamente e tive vontade de o esganar

- Olha, e se as pessoas hoje vão ter um jantar decente, podem agradecer-me a mim, que do outro lado de lá do oceano tratei de tudo, sim Senhor Ruben Filipe?

Todos os presentes se riram e eu e David aproveitámos para trocar mais um beijo e apreciar o sabor um do outro com toda a calma do mundo. No final compartilhámos um sorriso sincero de verdadeira felicidade.

- Oh meninos, agora vou concordar! Já chega aí do mel, há pessoas que também querem um carinho da pequenita! – refilou a minha doce Paulinha sorrindo

- Paulinha! – soltei imediatamente David e corri para a abraçar fortemente – Que saudades, amor!

- Podes crer! Nem falando contigo quase todos os dias dava para matá-las!

- Não mesmo! – soltámo-nos calmamente e permanecemos de mãos unidas – Mas diz-me, como estás? E o Ro?

- Estou bem… O espanholito anda por aí! – ambas nos rimos e dum canto da sala vi Roberto acenar-me sorrindo, era a maneira de ser dele, sempre discreto e simples – Mas diz-me tu! Porque não disseste que vinhas? Achei que só te podíamos esperar dentro de três dias, enganaste-nos bem!

- A ideia era essa! Quanto mais gente soubesse, mais depressa este menino aqui descobria!

- Ele não desconfiou de nada, que totó! – ambas nos rimos e David teve de intervir

- Amô! Não goza comigo, viu? – um beicinho delineou subtilmente aqueles lábios de perdição

- Ai, não goza comigo, viu? – imitei-o sorrindo e roubei-lhe um beijinho nos lábios, que apagou o pequeno beicinho

- Quer saber? Tô nem aí se cê me goza, desde que esteja aqui comigo! – ele abraçou-se por trás fortemente e rematou com um beijão no pescoço, que me deixou arrepiada desde o topo da espinha até à planta dos pés

- Bem, agora que a princesa de Nova-Iorque aqui está, vamos masé comer que eu vim do treino e para trazer este otário, nem comi nada! – desabafou Ruben esfregando a barriga de forma a consolá-la

- Ruben Filipe, comporta-te! – a Inês deu-lhe uma belinha na cabeça e todos se riram, mas ainda assim seguiram-no até à mesa do jantar

- Oh minha filha, que linda que cê tá! – a Dona Rê que ficou para trás comigo e com David, abraçou-me – Mas tá mais magrinha! Se alimentou direito?

- Sossegue, Dona Regina… Eu estou bem! De volta a casa, sã e salva!

- Mas tá mais magra, se nota na sua cintura, nas suas pernas!

- Um quilo ou dois, nada de especial! Isto é falta de amor do seu filhote! – o David voltou a enlaçar a minha cintura e a puxar-me para o corpo dele

- Sabe como é, mamãe, sem meu amor essa muleca, não é nada! – ele pousou a cabeça no meu ombro direito

- Olha o convencido, hã? Tô feita ao bife contigo, jeitoso! – estiquei a mão e com sorte ainda lhe consegui acertar de raspão nos caracóis

- Realista, meu anjo! Re-a-lis-ta! – ele repenicou-me a face direita, à medida que proferiu as sílabas da palavra

- Vá, meu filho, larga do mel e vamo’ comer que tá todo o mundo esperando…

- Sim, todo o mundo! – reduzi a minha forma de falar à deles os dois e senti o David derreter, pois amava ouvir-me falar assim

- Vamo’! – quando seguíamos os três, ele deixou a mãe tomar avançou e acabou por me puxar atrás

- Olha aí, temos de ir… - resmunguei totalmente arrepiada por sentir a respiração quente dele no meu pescoço

- Tava morrendo de saudade… Sou o homem mais sortudo do mundo por te ter! – confidenciou-me à medida que os seus lábios macios percorreram cada milímetro da pele da minha nuca

- Estás a exagerar… Não fiz nada demais! Simplesmente limitei-me a vir mais cedo, porque me foi possível, fi-lo de coração!

- Eu sei… Diz que me ama, tô louco pra ouvir isso há dois meses!

- Que te amo, é? – sorri, fora do perímetro de visão dele e quando me virei de frente para ele, desfiz o sorriso

- Sim, que me ama… Diz, diz, tô morrendo de saudade!

- Eu… Adriana Vale, amo-te… - sussurrei pertinho do ouvido dele, motivando-o a fechar os olhos para absorver a magia e sinceridade de cada palavra sussurrada perto de si

- Como é bom, meu Deus! – ele permaneceu sem me ver, mas um sorriso majestoso delineou-lhe os lábios e a sua cabeça abanou negativamente de um lado para o outro

- Eu amo-te… Amo-te… Amo-te… Amo-te… - ciciei vezes sem conta adunada ao pescoço dele

- Também te amo, meu amô… Mais que tudo nessa vida!

Encarámo-nos uma vez mais, os nossos lábios encontraram-se e um sorriso totalmente apaixonado, assomou em nossos rostos.

- Davi’, Adriana, venham! – chamou a mãe dele já sentada do lado do Sr. Lau

- Tamo’ indo, mãe! Tamo’ indo… - ele deu-me a mão e um último olhar foi trocado, nós sabíamos o que ele queria dizer…


***


O jantar foi uma animação total, mas reparei que a pequena Sofia, nem sequer tinha tocado na comida e o seu olhar estava tolhido no nada.

- Sofiazinha… - chamei com um sorriso, mas ela não me ligou nenhuma – Sofia…

- Que quelhes?! – o seu tom de voz saiu surpreendentemente ríspido, para uma pequena de somente três anos e que por hábito era sempre extremamente doce

- Oi, tá falando assim porquê, filha? – a Brenda entrevei-o, mas eu achei totalmente desnecessário

- Deixa, Brenda…

- Não deixa nada, Adriana! Essa não foi a educação que a gente lhe deu! Falou assim porquê, minha filha?

- Porque ela não gosta mais de mim! – respondeu com os olhos rasos de lágrimas

- Gosto, meu amor… Claro que gosto!

- Não, não gostas! Chegaste e foi só beijinhos ao Calacolhe, à Pauwinha, ao Ruben e nada pa mim!

- Oh meu doce, anda cá… - ela saltou imediatamente da cadeira e correu para mim, onde a acolhi no meu colo – A madrinha ama-te muito! Tenho miminhos e amor para toda a gente!

- Tens mesmo? – ela ocupou-se a puxar e a torcer as pontas dos meus cabelos cacheados

- Tenho! Olha, um montão! – enchi-a de beijinhos, até ela não aguentar mais e se desmanchar em gargalhadas – Viste? Tenho ou não tenho?

- Tens, Inha, tens… Descu’pa!

- Não faz mal, meu amor…! – demos um selinho rápido nos lábios

- Olha que o Calacolhe fica com ciúmes!

- Não te preocupes, ele já está habituado! – a menina soltou uma gargalhada aguda e sonora, mas completamente deleitosa

- Podes dar miminhos ao David, eu shaio, mas depois quero-te um dia só para mim!

- A gente faz assim, pequenininha! Cê me libera a sua madrinha agora, e depois eu te pego para cê passar um dia connosco, passear, comer sorvete, jogar videogame e dormir lá em casa, tá bom assim? – o David propôs-lhe algo totalmente irrecusável

- Tipo uma festa?! – a menina arregalou os olhinhos – Shiiim! Hoje, calacole! Hoje!

- HOJE?! – o David arregalou também os seus e pela sua cabeça deve ter-lhe passado o mesmo que na minha: era tempo de matar saudades…

- Shim! Shim! Shim! – a pequena bateu palminha toda alegre e satisfeita

- Oh amor, hoje não pode ser… A madrinha está cansada, tem de descansar da viagem! Para a semana, pode ser?

- Oh… Tá bem, pode… - ela fez uma expressão de desalento e regressou ao seu lugar

- Oh Sofia, não fiques assim… Hoje há festa na mesma, só que a festa é outra! – brincou Ruben com um sorriso safado

- Cala a boca, Ruben! – atirei-lhe com um guardanapo de pano à cabeça e o danado, conseguiu escapar-se e ainda gargalhou que nem um perdido

- Oh tia Rê e tio Lau, isto hoje promete! Cheira-me que daqui a nove meses têm um netinho!

- Ruben Filipe, calas-te? – perguntei irritada, mas mais do que isso, envergonhada

- Que é? Vais dizer que ao fim de dois meses separados, vocês vão passar a noite num hotel a contar carneirinhos para adormecer, queres ver?

- Hotel, amô? – o Ruben tinha dado cabo da surpresa e naquele momento, era certo que o ia matar

- Obrigadinha, Ruben! – refilei entre dentes

- Eish, desculpa! Esqueci-me que era surpresa…

- Desbocado d’um raio! – praguejei extremamente chateada, pois agora a surpresa tinha perdido toda a graça

- Não fica assim, amô… Eu finjo que não lembro do que ele falou! – o David tentou animar-me, pois a situação tinha-me levado a ficar com uma expressão clara evidente de desprazer

- Oh! Não vale a pena David, este parvo estragou tudo!

- Eu não sei que hotel é, amô! Nem sei que mais cê preparou pra gente! Esquece isso! Não tem mal, boneca… - ela segurou-me pelo queixo, até ficarmos olhos nos olhos

- Tem mal sim… Era uma coisa nossa! – ele deu-me um selinho curto nos lábios, que estavam unidos num ténue beicinho

- Shiu… Esquece isso, sim? – o toque dele no meu rosto, levou-me rapidamente a formar um sorriso embalado na ternura do meu sentimento por aquele homem

- Sim, mor! – beijámo-nos rapidamente e somente nos lábios, pois tínhamos uma mesa de mais de quarenta pessoas em nosso redor

O restante jantar foi calmo e claro, como não podia deixar de ser foi o pagode do Luisão e da turminha a animar a pista de dança. Desta vez até jogadores como Cardozo, Saviola e Salvio, se agitavam na pista, sob as lições dos brasileiros.

- Mulherada que dança é essa, que o corpo fica todo mole? Mulherada que dança é essa, que o corpo fica todo mole? É uma dança nova, que bole, bole, bole, bole! É uma dança nova, que bole, bole, bole, bole! – enquanto dançava na pista de dança, junto das meninas, senti uns braços apertarem-me por trás e arrastarem-me para fora dali

- Amor?! – chamei rindo, mas nem assim ele parou para me soltar

- Agora é minha! – ele levou-me até à sala dos cabides, onde os convidados depositavam as suas coisas

- Estamos aqui a fazer o quê, seu doido? – perguntei ao vê-lo fechar a porta

- Viemos dar assim uns beijinhos… - ele segurou-me o rosto com uma mão e a cintura com a outra, para facilitar a tarefa seguinte de unir as nossas bocas

As nossas salivas misturaram-se calmamente e o ritmo do beijo foi ditado por David, que primeiramente se manteve sereno e relaxado, mas depois agiu de forma diferente, tendo a sua língua viajado dentro da minha boca a uma velocidade estonteante e completamente apaixonada.

- Amor, vou ficar sem ar assim… - sussurrei por entre beijinhos

- Deixa ficar, depois te faço respiração boca-a-boca! – não me consegui controlar e acabei por gargalhar perante aquele sorriso traquina de miúdo – Que é? Não vai querer minha respiração boca-a-boca?

- Vou, claro que vou! – segurei-o pelos colarinhos e daquela vez, fui eu que comandei mais um dos beijos, mantive-me calma e pacifica, mas demonstrei o quanto o queria e quanto o amava – Vão dar pela nossa falta, vamos… - tentei passar mas ele puxou-o de encontro a uma parede e barrou-me a passagem

- Ninguém vai dar pela nossa falta… Tá todo o mundo dançando, amô! – a mão dele realizou uma trajectória curva pela minha face esquerda

- Oh mor, claro que vão! Além disso é a tua festa de aniversário, não tem sentido não estares presente… Namoramos lá!

- Oh, lá fica todo mundo mandando boquinhas do nosso mel e não posso te namorar como eu quero!

- Oh mor, podes claro que podes! – sorri levemente

- Não posso, não! Lá não posso te beijar e agarrar do jeito que eu quero!

- Podes, mor! Sou tua namorada, eles sabem disso, logo podes tudo…

- Acha que eu posso fazer disso lá? – ele segurou-me pelos glúteos apertando-os, colou o seu corpo ao meu com um ímpeto alucinante e beijou-me descontroladamente

- Não, isso não podes… - uma respiração ofegante abandonou os meus lábios e abarcou os dele, devido à distância que era imposta às nossas bocas, pelas testas unidas

- Ah então afinal não posso te namorar do jeito que eu quero! – voltou a beijar-me de forma mais calma, mas sem nunca soltar o meu corpo, que mantinha tenso e colado ao seu

- Tens tempo de me namorares assim depois…

- E as saudadjis? Cê aguenta elas? É que eu tô morrendo pelos seus miminhos, amô…

- Olha, quando sairmos daqui, garanto-te que vais ter tudo aquilo a que tens direito e muito mais! Vais namorar-me assim, vais namorar-me como tu quiseres, mas agora temos de voltar…

- Oh, mais cinco minutinhos, por favor…

- Dê, agora é mais cinco, depois mais cinco, depois mais cinco, e entretanto passámos aqui o resto da festa!

- Que importa? Que se dane o mundo, eu só quero você! – voltou a beijar-me e não lhe consegui resistir

Quando dei conta estava totalmente mergulhada no nosso mundo, podia ser pequeno e somente transponível a nós dois, mas era nosso, era especial, e era isso que fazia dele, o melhor mundo para se viver.
Ele encostou-me delicadamente a uma parede e enquanto os nossos lábios permaneceram unidos, as suas mãos devanearam pelo meu corpo energicamente.

- Mor, calma… Pode entrar alguém… - relembrei, quando senti a mão dele escapulir-se para debaixo da minha camisola

- Não vai entrar ninguém, amô… Te garanto! – ele cravou a cabeça no meu pescoço e preencheu-o de leves dentadas

- Ai, Dê… - fiquei absolutamente arrepiada e com algumas cócegas – Vou ficar toda marcada!

- Não importa, amô! Cê é minha, tô só marcando o que é meu! – nem o meu aviso o fez parar e sinceramente, nem eu queria que ele parasse, as saudades eram mais que muitas apesar daquele não ser o sítio indicado para as matar, mas eu tinha uma bela noite reservada para nós…




Obrigada a todos aqueles que não desistiram da fic!
Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem!
Não se esqueçam de comentar, pois é muito importante saber o vosso feedback! :)
Beijinhos
Drii

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Olá, meninas!



Venho agradecer pelo apoio têm dado, pelos comentários de incentivo e opiniões e também para responder a umas quantas perguntitas que me foram feitas!
Primeiro que tudo, devo tentar postar o próximo capítulo logo há noite, uma vez que estou em época de exames e o tempo fica apertadinho, espero que possam compreender! :c
E respondendo à pergunta da Rafaela em relação aos conjuntos de roupa que coloco nos capítulos, a maior parte deles, especialmente todos os mais recentes, são feitos por mim! :)
Em resposta a outra leitora, a música que toca no meu blog é "Someone like you - Adele"
Qualquer coisa que queiram saber mais e que eu possa responder, não hesitem em perguntar!

Até mais logo, pelo menos assim espero!
Beijinhos
Drii

terça-feira, 14 de junho de 2011

Capítulo 109 - Quando o amor não é loucura, não é amor (Parte II)


David

Depois do telefonema da minha boneca na noite anterior, acordei muito bem-disposto e prontíssimo para enfrentar um dia de trabalho, porque eu preferia esquecer que era o meu aniversário, senão tinha do meu lado a pessoa com quem mais queria festejar. Tomei um duche e quando ‘tava pronto pra sair de casa, meus pais me ligaram pra desejar feliz aniversário.
Acabei por falar somente alguns segundos com eles, me pareceram estranhos, mas nem liguei, achei que era somente a nostalgia de estarem longe num dia importante pra mim. Dirigi o meu carro até à caixa e entrei correndo pra me equipar.

- Vejam quem é ele! – o Ruben se dirigiu a mim e me abraçou – Parabéns, mano!

- Obrigado, Manz! – dei uma suave palmada nas costas dele e me soltei do seu abraço

Depois dele, todos me abraçaram e desejaram um dia feliz. Dia feliz… Como se isso fosse ser possível, tão longe da minha menina! O treino foi duro e os rapazes tentaram convencer-me a ir almoçar com eles no Colombo, mas eu tava sem vontade e claro, recusei!

- Oh mano, anda lá… É só almoçar! Tu vais ter de almoçar, por isso mais vale almoçares com companhia… - o Ruben ainda me tentou convencer

- Manz, já disse que não quero… Larga de me encher o saco! – acabei por bufar e coloquei o saco de treino na bagagem do meu carro

- Bolas, David! Deixa de ser teimoso… Anda lá!

-Pô, Ruben! Não quero, me deixa!

- Ok, não vou insistir mais… Mas fica sabendo que logo à noite vais ter a minha companhia para jantar! – tentei abrir a boca pra zincar nele, mas não me deu chance – E não aceito um não como resposta! – sorriu uma última vez e entrou no seu carro seguindo caminho

“Pô, vou ter que levar com esse babaca logo à noite!” – foi o meu primeiro pensamento, enquanto entrava no carro e iniciando a minha condução

Almocei sossegado no meu canto e longe de todo o mundo, não tava com vontade nenhuma pra grandes confusões. Sentado na cozinha, com um prato cheio de comida na frente, olhei em meu redor procurando um sinal que fosse da minha garota.
Tava louco de saudade e essa loucura era tamanha, que a minha única vontade era me enfiar no primeiro voo para os Estados Unidos e ver ela, mas eu sabia que isso era impossível.
Depois do treino da tarde tive de levar com o babaca do Ruben, que depois de tanto me chatear lá me convenceu a ir jantar fora com ele. Passei por casa, me aprontei todo e achei estranho que ele quisesse que eu fosse no carro dele, mas como tava sem a mínima vontade de discutir, acabei topando.



****


- Manz, o que a gente tá fazendo no BBC?

- Viemos jantar! – afirmou com um sorriso tranquilo

- Jantar no BBC? – questionei numa cara feia

- Sim! Ou preferias ir jantar a um sitio qualquer e ser incomodado no teu dia de anos?

- Não, isso não… Tá bom aqui mesmo! – encolhi os ombros, agarrei minha carteira e meu casaco e saí do carro

- Vamos a isso então! – o Ruben fez um sorriso de satisfação

- Tá sorrindo assim porquê, babaca? Não me diz que preparou um jantar romântico pra gente! – por uma das primeiras vezes naquela noite, eu me ri

- Como é que adivinhaste, oh cara de cu? Vamos entrar lá dentro, jantar à luz de velas, com rosas com todo o lado e um homem a tocar violino! – Ruben falseou um ar puramente romântico

- Cê é muito parvo mesmo! – ele desatou rindo da minha cara

Como tava sem vontade de ouvir mais nada, mas morrendo de fome segui na frente dele para entrar no BBC e a surpresa não podia ter sido maior. Num salão enorme vi meus amigos todos e meus pais, gritando “SURPRESA!”.

Noutra altura teria ficado muito feliz, e não é que não tenha gostado da surpresa, mas a ausência da pessoa que eu mais amava ali, era totalmente notória e muito entristecedora.
As primeiras pessoas que eu fiz questão de abraçar foram meus pais, apesar de ter estado com eles no Natal, tava morrendo de saudade.

- Oi, meu filho! Parabéns! – minha mãe sorriu linda como sempre e me deu um beijo no rosto

- Parabéns, muleque! – meu pai me deu um abraço e pela primeira vez desde que Adriana se fora embora, eu me sentia realmente amado por pessoas perto de mim

- Parabéns, Dêzinho! – Paulinha me abraçou, ela devia ser das pessoas mais próximas a Adriana nos últimos tempos

- Obrigada, Paulinha!

- Nada que agradecer! Só espero que sejas muito feliz, miúdo… - ela me apertou mais no seu abraço reconfortante

- Ai, tenho tanta saudade dela… Tanta saudade da minha muleca…

- Calma… Já só faltam três dias, certo? Pelo menos foi a informação que aquela meia-lecazinha me passou! – o jeito engraçado que ela falou, me deu vontade de rir

- Sim, isso mesmo! Três dias… Não tô nem vendo a hora disso chegar, pô!

- Vai chegar e muito depressa vais ver só!

- Tem que chegar, antes que eu morra de tanta saudade! Daqui a três dias, estou plantado no aeroporto esperando o avião dela dar sinal de desembarque na tabela! – afirmei super sorridente

- Calma, Dê… Tanta ansiedade não te faz bem e olha que ela está lá longe, mas sabe tudo sobre ti! Deve ser telepatia ou coisa do género! – ambos nos rimos suavemente

- A gente já se conhece muito bem e basta às vezes a voz um do outro e entendemos se algo se passa… E não escondo de ninguém que tô louco pra que ela chegue! Louco!

- Três dias, três dias! – ela sorriu e passou as mãos nos meus cabelos

- Parabéns, caraca! Cê tá ficando muito velho! Qualquer dia tá que nem eu, careca, carequinha! – o Luisão esfregou a sua cabeça nula em cabelo e todos se riram

- Ué, nem vem! Não posso perder meus cabelos assim!

- Porquê, mano? Tá com medo de perder as fãs ou a namorada?

- A namorada, claro!

- Não se preocupa, Davi’, é dos carecas que elas gostam mais… - disse a Brenda e todo o mundo desatou rindo de forma super animada

- Calacole, palhabens! – a pequena Sofia, a filha do Luisão, saltou rapidamente pro meu colo

- Brigado, garotinha! – dei um beijinho na testa dela e esta sorriu meigamente

- Shabes quando a minha madinha volta, calacole? Tenho saudades dela…

- A sua madrinha tá voltando em três dias!

- Podes dizer-lhe que tenho muntas saudades dela, se faz favolhe?

- Posso, meu anjo… Eu digo pra ela e assim que ela puder te vai ver! Prometo! – sorri de forma carinhosa para a pequena menina

- Ob’igada, calacole! Olha uma coisa! Hoje danshas comigo! Eu p’ometi à minha mad’inha, que enquanto ela tivesse nos Estados ‘nidos, eu tata-va de ti e não deixava nenhuma rapalhinha meter-se contigo!

- Não se preocupa, bobinha! Só tenho olhos para a sua madrinha!

- Fala a sério, ela é uma gata?! – dissemos em uníssono a mesma frase e foi motivo geral de risota

Finalmente se aproximou de mim Ruben, um colega de equipa que me apoio quando eu mais precisei e que considerava meu melhor amigo, mas mais do que isso, um irmão.

- Não acredito que cê fez isso, manz! Te disse que não queria comemorar…

- David, deixa de ser assim… Não ias passar os teus anos fechado em casa, não tem jeito nenhum!

- Mas também não era preciso trazer meus pais!

- Ah, isso não me culpes a mim! Aliás, nada do que está a acontecer aqui é só culpa minha… Tive uma pequena ajudante… - ele fez um sorriso traquina, daqueles típicos dele, como se fosse um muleque acabando de fazer borrada

- Ué, como não? Não me diz que pôs todo o mundo te ajudando para me enganar!

- Não… É melhor que isso! – ele estendeu na minha direcção uma caixa de um CD com um laço vermelho – Toma, é um presente de uma pessoa especial…

- De quem? – perguntei segurando o presente na mão

- Abres, metes a passar e já vês! – ele sorriu tipicamente

Saiu de junto de mim, entregou o CD para um senhor, que o colocou passando projectado numa telinha, e os momentos que se seguiram, foram totalmente emocionantes.

“Olá, amor!!” – a imagem da minha Adriana surgiu na telinha, tava linda como sempre.

Seus cabelos longos e encaracolados soltos caindo pelas costas, seus olhos enormes rematados por aquelas pestanas lindas e fartas, seu sorriso doce e meigo e sua voz… Sua voz profundamente calmamente.

- Não tô acreditando! – falei com um sorriso emocionado e todos ficaram do meu lado assistindo o vídeo

“Hoje é o dia do teu aniversário e eu queria muito estar aí presente, mas infelizmente não é possível. Há dois meses que não te vejo, estou cheia de saudades e hoje perco um dia muito especial na tua vida. Sei que não estou aí, mas trabalhei para que a minha presença fosse notada e pudesses estar rodeado daqueles que amas e se tudo correu como planeei por esta altura, tens aí do teu lado uma encomendazinha directa do Brasil!” – olhei meus pais e eles me acenaram sorrindo, aquilo tinha sido coisa dela, claro

“Quanto à minha ausência aí, tenho-te a dizer que dentro de 3 dias estou de volta, mas ainda assim não podia deixar de fazer qualquer coisa hoje. Este vídeo mais do que para te felicitar pelos teus 24 anos…” – a voz dela começou a se contorcer pelas lágrimas e rapidamente vi seus olhos rasos – “…Serve para homenagear o homem maravilhoso que eu tive a sorte de Deus ter colocado no meu caminho. És um filho exemplar, um profissional dedicado e um ser humano extraordinário. Tenho de te agradecer por fazeres parte de mim e da minha vida, tornando-me na mulher mais feliz do mundo…” – à medida que fui vendo as palavras emergirem da boca dela, meu coração foi ficando acelerado e minhas pernas foram perdendo forças, por isso tive de me sentar numa cadeira para continuar assistindo – “Estamos juntos há já um ano e dois meses e o marco, que deixaste na minha vida e naquilo que sou enquanto pessoa, é muito importante e agora posso afirmar que tu és o homem da minha vida e aquele que espero vir a ser o pai dos meus filhos.
Lamento mesmo muito não puder estar do teu lado hoje, meu anjo…
Vejo-te em breve!” – ela jogou beijos com as mãos, soprando-os no ar – “Amo-te, namoradooooo!”

Quando chegámos no fim, a tela desvaneceu e a imagem dela sumiu.

- Também te amo, namorada... - sussurrei baixinho

A emoção me dominou por completo e tive de pressionar os meus olhos, para não deixar eles jogarem nenhuma lágrima. Minha cabeça tombou inertemente entre minhas mãos e fitei o chão, até as lágrimas se controlarem e não caírem. Ouvia barulho em meu redor, senti alguém perto e uma palmada reconfortante nas costas.

- Então, mano? – era Ruben

Não consegui responder, me deixei ficar naquela posição até meu coração acalmar e ganhar coragem de ligar pra ela agradecendo aquilo tudo, sem morrer de tanta saudade, e eu tava muito perto disso.
Uns passos vieram chegando cada vez mais perto, um burburinho inquietante dominou o espaço e umas mãos taparam meus olhos.

- Quem é? Gente já chega de brincadeiras, pô! – refilei completamente perdido depois daquele momento

Um silêncio profundo se instalou, tentei me soltar, mas não consegui. Fiquei então tocando aquelas mãos, me eram familiares, muito familiares… E uma brisa vinda não sei bem de onde, mas julgo ter sido um sopro do meu coração, que batia descompassado, trouxe para mim um perfume… E aquele perfume não dava pra enganar, mas talvez fosse somente minha mente me embusteando, me levando a sonhar… E seria somente isso, um sonho?!