terça-feira, 12 de julho de 2011

Capítulo 110 – Amar a 628 Km de distância também é amar (Parte V)


(David)
As chaves de casa que eu tinha dado para ela estavam pousadas em cima de um envelope branco. Fiquei confuso, mas segurei ele e abri, mas mal comecei lendo, as lágrimas se precipitaram pelo meu rosto.

“Meu amor,
Grandes pessoas, têm grandes sonhos.
Grandes pessoas, seres humildes, maravilhosos… Grandes pessoas como tu!
Nasceste com um propósito, uma razão… Para seres campeão, fazeres felizes as pessoas que te vêm jogar e mais do que um clube, representares uma nação. Para saíres do pequeno clube na tua cidade natal e fazeres voos mais altos…
O Benfica acolheu-te no seio de uma grande família e levou-te alto, meu pequeno grande campeão nacional! Mas agora que deste mais um passo é tempo de crescer, voar mais alto e obter maior projecção profissional. E acredita que ninguém merece tanto isso como tu, David… E há quem diga que jogadores como tu há muitos, eu digo: jogadores há muitos, como tu não há nenhum!
Nunca deixaste que o sucesso e a fama apagassem a tua humildade e simplicidade que tão bem herdaste dos dois seres maravilhosos que Deus te deu como pais.
Até agora ainda não deves ter percebido nada, mas dá-me tempo… Só mais algumas linhas! Só para eu me puder explicar correctamente, sem te magoar a ti nem a mim, mas principalmente a ti…
As especulações sobre a tua venda têm aumentado e eu fico muito feliz por ti, muito orgulhosa do meu mulecão! Mas como disse, grandes pessoas têm grandes sonhos e precisam de grandes pessoas do seu lado para os concretizar… E eu apercebi-me que talvez não seja uma pessoa grande o suficiente para o teu sonho. É como o teu pai disse uma vez: a mulher certa para ti tem de estar disposta a trilhar o caminho contigo, e talvez eu não esteja… Não desta maneira… E tu mereces a mulher certa e não podes, nem deves, contentar-te com menos que isso!
Sei que vais achar que sou egoísta, mas a verdade é que eu também tenho sonhos, grandes sonhos… E não sei se estou disposta a trocá-los pelos teus.
Agora deves estar a achar que não te amo porque não sou capaz de me sacrificar a mim e aos meus sonhos, mas a verdade é que te amo muito, às vezes até mais do que aquilo que eu julgava possível para uma pessoa só… Mas os meus sonhos estão aqui, a minha vida é aqui. E eu não te posso pedir que fiques, nem o irei fazer pois é injusto. Sei que estás a considerar ficar e até falaste com o presidente expressando essa vontade, mas não vou deixar que o faças, pelo menos não por mim… Oportunidades como esta só surgem uma vez na vida e tu tens de a aproveitar! Arrisca e atira-te de cabeça, amor!
Eu acredito que vais conseguir… Consegues sempre…
Isto é só mais um desafio e tu és o meu furacão, a minha força da natureza!
Sei o que isto significa para ti… É a concretização de mais um sonho de menino e não acho correcto desistir ou adiá-lo por mim. Prefiro privar-me do teu amor, do que privar-te da tua oportunidade de ser feliz.
É por te amar tanto que tomo esta decisão…
Antes que sejas vendido e fiques a odiar-me por não ir contigo, antes que a distância atire a nossa relação para a rotina, antes de nos odiarmos e apagarmos a nossa história e o nosso amor… Antes de tudo isso eu tomo esta decisão e afasto-me…
Liberto-te assim para viveres os teus sonhos, mas preservo o nosso sentimento, ainda que não possa ser vivido.
Por isso não me odeies, não me procures ou venhas atrás de mim para dificultar uma decisão que por si só já se tornou difícil…
Vai simplesmente atrás do teu sonho e guarda sempre aí, num cantinho especial do teu coração, todas as memórias de nós…
Lamento que as coisas acabem assim porque noutras circunstâncias teríamos sido perfeitos um para o outro.
Não imaginas como me custa escrever esta carta sabendo que em breve vais deixar de ser meu… Já tenho saudades e ainda nem te foste embora!
Espero que algum dia me possas perdoar por ter acabado as coisas assim, pois eu jamais serei capaz de me perdoar a mim mesma por o ter feito, especialmente por o estar a fazer desta maneira, por carta… Mas a tua voz ter-me-ia feito mudar de ideias e mais tarde ou mais cedo chegaríamos na mesma a um fim… Ao nosso fim! Ambos magoados, ambos a odiarmo-nos… E já que tem de chegar a um fim, ao menos que acabe da melhor forma possível, com as melhores recordações, as mais felizes…
O meu coração irá sempre pertencer-te e eu serei para sempre só tua… Mesmo que não estejamos juntos!

Sê feliz, meu anjo!

Até sempre,
Adriana“


Nesse instante minhas pernas perderam a força, meu coração parou de bater e meus olhos ficaram vermelhos de tanta raiva que estava sentindo.
Fui correndo no quarto, abri o armário e as coisas dela tinham sumido. Suas roupas não estava mais lá, a camisola que deixava sempre no fundo da cama tinha desaparecido, sua escova de dentes não ocupava mais espaço no copo do banheiro…

- Não, não, não… - fui dizendo enquanto verificava que ela não tinha deixado nada

Nada! Nada que me pudesse provar que ela tinha sido real na minha vida… Nada que me pudesse provar o quanto havia sido feliz em seus braços… Regressei à sala e me sentei no sofá, esfregando freneticamente meus cabelos, não acreditava que aquilo estava mesmo acontecendo.

- Meu filho, que é isso? Tá bem? – minha mãe me tocou no rosto levemente

- Odeio ela, odeio ela, odeio ela… - ciciei para mim próprio e me ergui do sofá num laivo de raiva enorme

- Calma, meu filho… Que tá acontecendo? – minha mãe procurou me acalmar e entender a razão de tanta revolta

- TERMINOU COMIGO! ELA TERMINOU COMIGO! – gritei fortemente enquanto as lágrimas caíam por minhas faces

- Se acalma, Davi, por favor… - pediu o meu pai, completamente transtornado por me ver daquele jeito

- ODEIO ELA, ODEIOOO! – num impulso, derrubei tudo o que havia sob o móvel aparador junto da parede da sala e meus pais estremeceram com o barulho

Me encostei na parede e fiquei olhando tudo o que estava jogado no chão. Ela tinha acabado comigo, porque havia a possibilidade de eu abandonar o clube, hipótese essa que eu tinha excluído faz tempo para puder ficar com ela em Portugal. Me senti lixo, senti que não valia nada e que o que havíamos vivido era somente um sonho, que agora se tornara pesadelo…

- David, fala para a gente, meu filho… - minha mãe se aproximou calmamente, meio a medo, como se eu fosse algum monstro

- Acabou, mamãe… Acabou… Ela terminou comigo! – joguei a carta nas mãos da minha mãe, provando aquilo que eu acabara de falar

Meu pai se aproximou dela e, meio a custo, leu juntamente com minha mãe cada palavra que Adriana escrevera naquela maldita carta. Ao fim de alguns minutos, durante os quais chorei silenciosamente contendo a minha revolta, eles me olharam, com um enorme sofrimento.

- Oh, meu filho… - minha mãe largou a carta e me abraçou, tal e qual como eu precisava de ser abraçado num momento como aquele – Não chora não, meu amô… Não chora…

- Me deixou, mãe… Eu amo ela e ela me deixou… - desatei chorando como se fosse um menino pequeno e minha mãe me arrastou nos seus braços, até ficarmos os dois sentados no sofá

Chorei… Chorei muito durante algumas horas e sempre no conforto dos braços de uma das mulheres que eu mais amava no mundo. Eu tinha a certeza que podia amar Adriana, até mesmo por toda a vida, mas naquele momento, a estava odiando com todas as minhas forças…



***


(Adriana)

Acordei numa cama vazia, do meu lado esquerdo um bilhete dele dizendo que iria comprar pão para o pequeno-almoço. Rapidamente me levantei e de sangue frio, consegui arrumar tudo aquilo que era meu e se encontrava espalhado pela casa. Na minha cabeça estava muito certa de uma coisa: eu não ia ser impedimento para o sonho de David.
Depois de guardar tudo numa mala, prendi a Quimera pela trela e levei-a até à sala. Foi aí, que em frente a uma folha de papel e uma caneta, sentada na mesa, iniciei a despedida mais dolorosa da minha vida.
Assim que comecei a escrever, senti as lágrimas molharem-me a face e imediatamente um nó formar-se no meu coração, imaginando-o a ler aquilo. À medida que caminhava para as últimas palavras, o choro foi progredindo levando-me ao desespero, que culminou quando duas lágrimas fartas, embateram contra o papel, borrando a tinta da minha assinatura.
Não havia mais nada a fazer, nem outra decisão a tomar… Coloquei a carta dentro de um envelope, pousei-a em cima da mesinha do telefone e sobre ela, as chaves de casa dele que me tinha dado.
Segurei a Quimera pela trela, agarrei na minha mala e saí.
Eu sabia que por muito que aquilo doesse, era a decisão certa a ser tomada e somente o fazia pelo bem dele, porque o amava mais do que à minha própria vida e sabia como ele queria ver aquele sonho realizado. Demorei muito tempo a chegar até ali, até alcançar o topo… A conquistar David, a admitir o que sentia por ele, a aceitar que ele me amasse… Demorei tempo até me entregar de novo e aprender a amar ainda de coração magoado, mas naquele momento tudo se destruiu e se Deus criou o mundo em sete dias, eu em sete minutos destruí o meu…


***


Naquele dia, não recebi nenhuma notícia de David, o que já era de esperar, pois ele devia estar muito magoado comigo. Tinha a sua razão, mas eu tinha a minha… Apenas o fizera, para o puder libertar para o seu maior sonho, e só esperava não ter errado… Só esperava não ter feito nenhum disparate.
Passei a manhã do dia seguinte deitada na cama, e como na noite anterior tinha chorado tanto, já não me restavam nem forças, nem lágrimas para chorar mais o que fosse.
Olhei para a mesa-de-cabeceira e vi uma moldura com uma foto minha e dele. Segurei-a e atirei-a para dentro da gaveta superior, pois ser confrontada a toda a hora com aquelas memórias, estava a matar-me por dentro.
Os meus mais profundos pensamentos foram interrompidos pelo barulho da campainha a tocar incessantemente e de forma descontrolada. Tive de me levantar e ir abrir, pois Bianca não estava, tinha passado mais uma noite em casa de Salvio.

- JÁ VAI, JÁ VAI! – gritei tentando acalmar, quem do lado de fora continuava a tocar sem parar

Espreitei pelo óculo da porta e vi a Paulinha, sempre muito bem arranjada, com um vestidinho leve e fresco, típico do Verão e com os longos cabelos amarrados. Com um sorriso abri a porta na esperança de encontrar conforto nos braços de uma amiga, uma das mais importantes e especiais, mas a reacção foi bem diferente do que estava à espera.

- Bom dia, amor! – cumprimentei com um sorriso rasgado nos lábios

- O que raio te passou pela cabeça? – ela entrou pela casa a dentro disparada e falando num tom alterado

- Ei, ei! Calma… Que raio se está a passar? – fechei a porta e segui-a até à minha sala de estar

- O que é que se está a passar? Eu não sei, mas enquanto estás aqui no teu mundinho perfeito, lá fora há uma pessoa de rastos, porque foi deixado!

- Estás a falar de quem?

- Do David, Adriana! Quem mais havia de ser? Deixá-lo e ainda por cima com uma carta? Não conseguias ser mais cobarde que isso? – gritou-me em forma de censura

- Não fales assim comigo, Paula… Ninguém tem o direito de me julgar, muito menos tu!

- Eu tenho! Eu tenho, porque vim agora de casa do David e vi o estado em que ele está! Diz-me só onde é que estavas com a cabeça!

- Ele ia ficar por minha causa, amor! Eu não podia deixar… - falei de forma compreensiva, rezando para que ela compreende-se

- Desculpa lá, Adriana, mas não consigo compreender… Ainda por cima, uma carta? O David não merecia mais do que isso? Tens a noção do que ele sofreu quando chegou a casa e encontrou a carta? Quando procurou as tuas coisas e não encontrou nada? E ainda por cima a vergonha que passou porque os pais estavam com ele? Imaginas a dor que ele sente por se sentir abandonado? Imaginas como ele se sente mal, por te amar tanto, mas ao mesmo tempo odiar-te? – cada palavra que proferiu, fê-lo com o intuito de me magoar, para me chamar à razão, pois já me conhecia bem demais e sabia que aquela era a única maneira

- Desculpa… Desculpa… - os meus olhos ficara rasos de lágrimas e um desespero enorme apoderou-se de mim – Eu só queria que ele seguisse o sonho dele…

- O sonho dele neste momento eras tu, por isso é que ele ia ficar, Adriana… Não imaginas como ele está a sofrer! Eu vi e não acredito que aquele é o David que todos conhecemos!

- Amor, eu não o queria magoar… A sério que não, mas eu não ia conseguir fazê-lo cara a cara com ele, foi a única maneira que arranjei! Achas que queria deixá-lo? Achas que queria acabar com a nossa relação? Claro que não! Se estou arrependida? Muito! Se queres saber estou muito arrependida, mas sei que não posso voltar atrás, ele tem de seguir o caminho dele…

- Adriana, eu não duvido que estejas a sofrer, mas a decisão foi tua… De alguma forma estavas mentalizada, agora ele foi apanhado de surpresa… Ele achava que estava tudo bem, sai de casa, deixa-te a dormir, quando regressa encontra uma carta tua e nem sinal de ti…

- Eu sei que errei, eu sei… Mas fi-lo para bem dele, tenho plena consciência disso!

- Sabes que ele não te vai perdoar isto…

- Sei, eu sei… - o meu coração migou e as lágrimas rolaram pelas maças do meu rosto

- Vem cá… - ela abriu os braços e eu não hesitei, deixando-me abraçar – Não fiques assim, agora o mal já está feito, vamos encontrar uma solução…

- Não há solução… Está na hora dele seguir com a vida dele… - solucei brevemente, mas enchei o peito de ar para acabar de falar - … sem mim!

Naquele dia, ela ficou comigo até ser noite e me deixar a dormir na minha cama, um pouco mais calma e conformada com as circunstâncias, mas se o arrependimento já dominava, isso estava prestes a agravar-se…


***


No dia seguinte o Luisão deu um almoço na casa dele para os amigos mais próximos. A Paulinha garantiu-me que o David não iria lá estar e acabou por me convencer a ir, pois estar com a minha afilhada, a pequena Sofia, iria fazer-me bem. Estava um calor infernal, mas como andava sem grande pachorra para me arranjar, pelos motivos óbvios, resolvi vestir uma coisa simples e nem sequer me maquilhei.



Fiz o percurso no meu carro, ou melhor, naquele que David me tinha oferecido no aniversário, e como combinado, encontrei-me com Paulinha e Roberto junto do portão da casa de Brenda e Luisão.

- Então, amor? Vieste a pé? – a Paulinha aproximou-se imediatamente de mim, afagando-me o rosto

- Não, mas como não havia lugares tive de deixar o carro estacionado na rua detrás…

- Oh, podias ter mandado mensagem que eu tinha-te ido lá buscar, escusavas de ter vindo este bocadinho a pé e sozinha…

- Fez-me bem, sempre deu para passear um bocadinho! – sorri levemente, era o máximo que o meu coração fragilizado permitia

- Que carinha é essa, amor? – questionou quando já nos encaminhávamos na direcção da casa de Luisão

- É a minha, Paulinha… A única que eu tenho! – um forte suspirou quebrou a minha respiração regular e limitei-me a segui-la
- Mad’inha! – a pequena Sofia correu para os meus braços assim que me viu e ficou colada a mim que nem uma pequena lapa

- Como estás coisa linda da madrinha? – enchi-a de beijinhos por todo o rosto e esta correspondeu rindo-se muito, talvez porque lhe estivesse a fazer cócegas

- Agora que chegaste, muito bem, mad’inha! – a pequena menina esboçou um sorriso angelical e aqueles pequeninos olhos definiram o meu mundo numa questão de segundos

- Então e conta-me lá como vai a tua vidinha, pequerrucha?

- Vai munto bem, A’iana, mas tu e o caroleta estão a dever-me um dia de farra… - a pequenina relembrou-me a promessa que David lhe fizera na festa surpresa que eu lhe tinha organizado meses antes

- Pois, sabes, isso vais ter de falar com ele…

- Oh, mas tu namolhas com ele, quase vivem juntos, logo podes falhalhe tu!

- Sabes, amor… - eu ia iniciar um discurso sem saber muito bem como e tentar explicar à menina que eu e David não estávamos mais juntos, mas isso ia acabar por confundi-la a ela e magoar-me a mim

- Olha, a mamã está a chamar-te, Sofiazinha… - a Paula interrompeu a conversa, pois percebeu que eu ia entrar em solo instável

- Eu vou lhá, mad’inha, mas volto já! – ela arregalou aqueles dois pequenos olhos ligeiramente esverdeados e sorriu-me, deixando-me com aquela imagem antes de desaparecer, correndo jardim fora

- Estás bem, amor? – a Paulinha passou-me a mão delicadamente no rosto, provavelmente porque reparou nas lágrimas que me turvavam os olhos, mas que eu fazia um enorme esforço para conter

- Estou, está tudo bem… - menti o melhor que pude, mas para uma pessoa que me conhecia tão bem como ela, isso não era de todo suficiente

- Eu conheço-te, bocharro… - ela fez-me rir durante breves instantes e as lágrimas acabaram por percorrer tenebrosos caminhos nas minhas faces - Oh amor…

- Esquece, Paulinha… Eu estou bem! – montei o sorriso mais fingido e sofrido que alguma vez consegui e foi assim que permaneci para encarar todos os outros

Juntámo-nos aos restantes jogadores e ao grupo das nossas meninas, que já se encontravam lá, e por sinal bem animadas. Senti os olhos de todos os rapazes prenderem em mim, num certo ar de censura, menos os de Ruben. Ele conhecia-me, sabia que estava a sofrer e que naquele momento não queria falar mais sobre o assunto. Senti-me encurralada entre o olhar dele e o de Paulinha, duas das pessoas que já me conheciam melhor do que ninguém…
Contudo ela não pressionou mais, não forçou mais qualquer tema de conversa ou tocou no assunto proibido, pois percebeu que era por esses motivos que eu estava naquele estado. Já estava um pouco mais conformada com a ideia, mas sabia que mais tarde ou mais cedo ia acabar por ter de enfrentar David e esse seria o derradeiro confronto, do tudo ou nada, e infelizmente, estava bem mais perto do que eu esperava…



Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem!
Não se esqueçam de comentar, pois é muito importante saber o vosso feedback! :)
Beijinhos
Drii

sábado, 9 de julho de 2011

Capítulo 110 – Amar a 628 Km de distância também é amar (Parte IV)



Os dias que sucederam a conquista do título foram de autêntica loucura. David andou envolto numa parafernália de entrevistas, conferências de imprensa e jantares de comemoração, dos quais eu me auto-excluí pois não tinha grande paciência para aquela amálgama de gente e estava a entrar numa fase de exames da faculdade. Naquela manhã ele iria ter o último treino antes das férias e o primeiro depois da conquista do título, e iria encerrar o dia com uma entrevista ao Daniel Oliveira para o programa “Alta Definição”, o que significava que iria vê-lo somente à noite, na melhor das hipóteses. Acordei cedo pois tinha um longo dia pela frente, tão ou mais longo ainda, que o de David. Tomei o meu habitual duche, desta vez de água quase fria tendo em conta a época do ano e o calor ameno que já se fazia sentir, e eram oito horas da manhã quando fiquei pronta para sair de casa.



Como sempre, e como não podia deixar de ser uma vez que se tornara hábito desde sempre, a primeira paragem do dia deu-se no Starbucks dos armazéns do Chiado, onde comi o meu brownie com toda a calma do mundo e levei um café duplo para beber pelo caminho. Apanhei o autocarro no sentido à faculdade e fui dando leves goles no café de travo amargo, mas que eu fazia questão de tomar sem qualquer açúcar. Assim que avistei a minha paragem, carreguei no stop e saí, rumo à faculdade. Mas foi no caminho, ao passar pelo quiosque do Sr. Zé, que a capa de um jornal desportivo me fez abrandar o passo.
“David Luiz, a 24 horas do Real Madrid!” – li em letras bem gordas na capa
- Bom dia, menina! Está à procura de alguma coisa? – o Sr. Zé reconheceu-me, mas como senti os meus olhos inundarem-se de lágrimas, desci os óculos de sol para que ele não pudesse ver
- Bom dia, Sr. Zé… Sim, estava aqui à procura de uma revista… - menti tentando ler as letras mais pequenas na capa, mas que falavam acerca do assunto
- Posso ajudá-la? – questionou-me, sempre dono da sua excelente educação
- Sim, quero a Happy e a Activa deste mês por favor… - pedi-as somente para camuflar a minha compra do jornal desportivo – E pode ser isto também… - passei-lhe o jornal para a mão discretamente
- Ah, vai levar A BOLA, sim senhora! Olhe que o seu David hoje faz capa… Vem aí um excelente negócio para o Benfica! – elucidou-me, ao mesmo tempo que passava os códigos de barra das revistas e do jornal no respectivo leitor – São sete euros e setenta e cinco, por favor!
- Aqui tem… - tentei falar o menos possível, pois as lágrimas estavam a um passo pequenino de me escorrerem pela face e se assim fosse, mesmo com os óculos, o Sr. Zé acabaria por ver
- Aqui tem o seu troco, menina… - ele deu-me os jornal e as revistas para a mão e sorriu como sempre
Nunca me tinha sentido não humilhada em toda a minha vida e a sensação só se agravou, quando metros mais à frente do quiosque, comecei a ler o corpo da notícia…
“O jogador de 24 anos, David Luiz, está a 24 horas da transferência para o Real Madrid. O defesa-central benfiquista, está a ser negociado há mais de quatro dias e o empresário deste já se encontra envolvido, uma vez que o negócio está quase a ser fechado. Há uma semana atrás David, afirmou em declarações ao jornal, que a conquista do título “é um sonho de menino, tô muito feliz no Benfica e eu vou ficar!”, mas ao que parece novos ventos o arrastam para terras espanholas. Fonte próxima do jogador afirmam que este se “encontra calmo e crente de que terá de ser o que Deus quiser, e está pronto para novos desafios”. É de relembrar que o jovem defesa tem uma cláusula de rescisão de 50 milhões de euros, mas o clube madrileno tem em cima da mesa uma proposta de 23 milhões de euros, que até ao momento parece ter agradado aos cofres da Luz. Certo que é que o mercado abriu há somente uns dias, mas David já tem um pé na capital espanhola.”
A revolta do que li estendeu-se a cada parte do meu íntimo, não por ele se puder ir embora… Não por haver uma proposta, mas sim porque provavelmente havia e no entanto ele não me tinha dito nada. Fechei o jornal e guardei-o na minha mala juntamente com as revistas que tinha comprado. Olhei para o enorme edifício da faculdade que estava bem na minha frente, perdi toda a coragem de lá entrar e o caminho que fiz mostrou-se inverso ao que devia. Apanhei novamente o metro até chegar à minha casa, enfiei-me no carro e este levou-me para o único sítio possível… A praia do Baleal, a mesma onde beijara David pela primeira vez, a mesmo que já ouvira muitos dos meus mais íntimos suspiros da alma e a mesma onde um dia tive vontade de me perder… E esse foi o dia. Tive uma vontade louca e incontrolável de me jogar naquele mar imenso e rezar para que este me levasse… Me levasse para um lugar seguro, para um lugar onde nada na minha vida fosse igual àquilo que vivia, um lugar onde pudesse ser eu e o David… Eu, ele e mais ninguém!

“De: Paulinha ♥
Amor, pego-te às 13h na facul, para irmos dar uma volta e comer qualquer coisa! Tenho muitas saudades tuas, beijão, amo-te!” – o meu telemóvel vibrou e pela primeira vez naquele dia consegui sorrir

“Para: Paulinha ♥
Oh amor, desculpa estragar-te os planos, mas não estou na facul, hoje não fui às aulas! Também estou cheia de saudades! :c   Beijozão, amo-te”

“De: Paulinha ♥
Então diz-me onde te posso pegar, temos mesmo de fazer uma farra de raparigas! :b”

“Para: Paulinha ♥
Estou um bocadinho longe, mas se quiseres esperar, posso encontrar-me contigo às 13h30 naquela esplanada em Belém e comemos qualquer coisa por lá! Que me dizes, gata? :)”

“De: Paulinha ♥
Digo que sim, claro, amor! :)
Lá estarei às 13h30 e ainda me hás de explicar que história é essa de não ires às aulas, minha baldas! Até logo, beijozão, Amo-te muito! ♥”

“Para: Paulinha ♥
Não comeces já a dar-me nas orelhas, tens o almoço todo! :b
Lá estarei também, amor! Até logo, beijo enorme! Amo-te muito!♥”

Coloquei o telemóvel na mala, pois sabia que tinha uma hora de condução rumo à capital portuguesa, que já me era tão familiar.

***

O sol estava surpreendentemente agradável e estranhamente a Paulinha estava atrasada. Enquanto esperava e não esperava, entretive-me a ler novamente o artigo do jornal acerca de David. Talvez na esperança de ele ter desaparecido da página oito… Talvez na esperança de estar errado… Fechei-o rapidamente assim que a vi caminhar na direcção da minha mesa, que se encontrava coberta por um guarda-sol enorme.
- Olá, amor! – ela deu-me um beijinho carinhoso na testa – Desculpa o atraso, mas precisei de ir à secretaria da faculdade resolver um problema…
- Olá, amorzinho! – sorri levemente, mas muito feliz por a ver – Não faz mal, também estava aqui entretida…
- Hum, o jornal é de hoje?
- Sim, é… Comprei-o esta manhã!
- Hum, deixa-me ver, por favor! – pediu estendendo a mão para o apanhar
- Não, não tem nada de jeito! – rapidamente tomei uma posição de defesa, não queria que ela me olhasse com piedade, nem que tocasse naquele assunto
- Estás armada em mona, amor? Deixa-me lá ver isso… - ela esticou-se facilmente e com alguma agilidade e facilidade tirou-mo da mão, pousando-o na parte da mesa que lhe pertencia
- Pronto, força! – acabei por ceder e fiquei a observar a reacção dela, quando o seu olhar percorreu as letras gordas da capa
- Mas… - murmurou, mas nem lhe dei tempo de acabar
- O circo continua na página oito! – alertei em tom de sarcasmo, mas rapidamente os dedos pequeninos dela fizeram as páginas voar até alcançar a que ela pretendia
- Não, isto não é verdade… - disse descontraidamente, fechando o jornal
- Não?!
- Não, claro que não… Não me digas que acreditas nisto?
- Senão soubesse o que sei, claro que não acreditava, mas sabendo…
- O que é que sabes, Adriana?
- Não posso falar sobre isso, Paulinha…
- Mas Adriana, eu sou tu… - a chegada da empregada interrompeu-a
- Boa tarde, o que é que as senhoras vão desejar?
- Para mim pode ser uma massa carbonara e um sumo natural de manga… - solicitei com um sorriso – E tu, Paulinha?
- Para mim pode ser o mesmo, mas prefiro uma coca-cola, por favor…
- Com certeza, trago já o pedido… Com licença… - a senhora retirou-se com extrema educação
- Adriana, diz-me lá…
- Paulinha, isto não pode sair daqui… - afirmei suspirando – Só o Ruben é que sabe!
- Diz-me, eu juro que não vai sair daqui…
- Nem para o Roberto!
- Nem para o Roberto, amor… Podes ficar descansada! – ela sorriu para me tranquilizar
- Naquela noite, em que eles voltaram do Porto sem o título, quando subiste e me deixaste sozinha, ouvi uma conversa entre o presidente e o Rui, acerca da venda dos jogadores, e o David era um deles, é por isso que tenho tantas certezas…
- Então era por isso que estavas a chorar e depois desapareceste e agiste daquela maneira com ele! – concluiu assim que as pecinhas se juntaram todas na sua cabeça
- Sim, foi isso, amor… - confirmei de olhar baixo
- Oh amor, tu sabias que podia ser assim…
- Sim, eu sabia, mas não pensei que fosse já, e que se fosse, ele pelo menos me ia dizer, mas nada!
- Provavelmente não há certezas, por isso é que ele não disse…
- Mas existem propostas e só por isso ele devia falar comigo! E depois foi o que o Ruben me disse…
- O que é que esse parvo te disse?
- Disse-me que ele era capaz de ficar por mim, que quer ficar por minha causa e isso eu não posso aceitar, Paulinha!
- Se ele quiser, só tens de aceitar!
- Não, eu não posso aceitar! Aliás… Nunca me irei perdoar se ele perder o sonho dele por minha causa! É uma excelente proposta… Ele vai sair a ganhar e o clube também…
- E tu?
- E eu? No meio disto tudo, perco o meu coração… - respondi de forma sincera e depois disto, nem eu nem ela, tocámos mais no assunto até ao final da refeição

***

Nos dias seguintes as notícias intensificaram-se, dizendo que o negócio ainda não tinha sido fechado, por meras questões burocráticas. O David tentou falar sobre o assunto comigo, mas sempre que o fazia, eu fugia pois não sabia como agir, nem o que dizer. De certa forma eu sentia que era eu que estava a atrapalhar aquela venda e uma conversa com Ruben, veio confirmar isso mesmo.
- Não gosto de te ver assim tão em baixo, Adriana… - disse, servindo-me um café na sala de estar na sua casa
- Também não gosto de estar assim, podes ter a certeza…
- Então anima-te!
- As notícias não param, Ruben, e sinto que estou a empatá-lo! – confessei dando o primeiro gole no café
- Adriana, ele disse-me que tentou falar contigo várias vezes, mas que foges sempre ao assunto…
- Fujo, porque não sei como agir! O que é que eu lhe vou dizer, que prefiro que fique? Claro que prefiro, mas não lhe posso pedir isso!
- Não tens de pedir… Eles estão à espera da decisão dele e ele não sabe o que fazer por tua causa… Ele está seriamente a pensar recusar a proposta!
- Não, ele não pode fazer isso!
- É a decisão dele… Ambos os clubes a irão respeitar!
- É o sonho de uma vida, Ruben… E tu sabes disso!
- Eu sei e ele também, Adriana, mas ele ama-te e acho que ele reestabeleceu prioridades, só isso…
- Tudo bem, ele reestabeleceu prioridades, mas não quero que o faça por minha causa… A vida dele não se pode reger pela minha!
- Quando amamos alguém de verdade, naturalmente as coisas passam a ser assim, Adriana… Não conseguias ir com ele?!
- Oh Ruben, não conheces o meu pai? Ele não me deixava ir sem acabar o curso e eu já estou a acabar um ano, não quero ter de repetir tudo de novo!
- Ele faz o esforço de ficar por ti, tu podias fazer esse…
- Pois, mas eu e o David, somos muito diferentes…


***


Naquela noite segui até casa dele, no intuito de matar saudades, pois dentro de uma semana e meia ele seguia finalmente de viagem para o Brasil mais os pais que ainda se encontravam em Portugal, e eu ficava, devido à faculdade.
- Ai, que saudaji, amô! – ele apertou-me para si assim que me viu e beijou-me calmamente
- Também tinha muitas saudades, mas se me continuas a apertar dessa maneira, falta-me o ar… - brinquei, rindo-me
- Desculpa, mô! – ele também se riu e deu-me um beijinho na testa – Entra…
Passei na frente dele, livrei-me do casaco que trazia vestido e beijei-o calmamente.
- Tô assistindo um filme, quer assistir comigo?
- Claro, amor! – sorri-lhe alegremente
Ficámos os dois na sala a ver o filme, mas ainda este ia no início e já nós nos tínhamos distraído numa troca de carícias intensas.
- Dorme aqui essa noite… - pediu sussurrando
- Durmo, amor… - prolonguei o beijo que dávamos segundos antes
Numa enxurrada de beijos apaixonados, ele acabou por me levar para o quarto, deixando pelo corredor um rasto com as nossas roupas. Caí debaixo do corpo quente e forte dele e as suas mãos percorreram cada recanto de mim com o maior carinho do mundo. Amámo-nos naquela noite, sem qualquer pressa, com um enorme desejo, uma enorme vontade e um grande amor. Para ele foi mais uma das nossas noites, mas para mim, foi o culminar de uma decisão…


***


(David)
Acordei cedo para ir na padaria buscar café da manhã pra mim e pra ela, mas acabei passando na casa dos meus pais e me deixei ficar na conversa algumas horas.
- Tenho de ir que deixei a Adriana dormindo… - me levantei do sofá
- Vai lá, meu filho… Manda beijo pra ela! – pediu minha mãe
- Não querem vir tomar o pequeno-almoço com a gente?
- Não queremos incomodar meu filho…
- Não incomodam, mamãe… Venham, a Adriana vai gostar! – esbocei um enorme sorriso e eles acabaram cedendo
Conduzi até casa, no meu carro e sempre mantendo uma conversa com eles, que estavam animados por os incluir num pequeno ritual da minha vida de casal com Adriana. Vi uma enorme luminosidade vinda do quarto, que tinha a porta aberta, ao contrário de como eu a tinha deixado.
- AMÔ! – chamei fechando a porta e pousando o pão fresco e as chaves de casa no móvel do hall – Trouxe pão fresquinho! – anunciei sorrindo, mas ninguém me respondeu, nem mesmo a Quimera, que eu acabei concluindo que não estava em casa
Percorri todas as divisões da casa, deixando meus pais na sala e nem um sinal dela, o que achei estranho pois ela nunca saía sem deixar recado.
- Ué, não tá… - exclamei entrando na sala
- Vai ver e saiu pra comprar pão também… Talvez passear a cachorra! - minha mãe riu levemente
- É, vai ver e foi isso mesmo… - me juntei a ele por momentos
Sentei no sofá da sala e quando me estiquei para alcançar o telefone e ligar pra ela, vi algo em cima do pequeno móvel…





Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem!
Não se esqueçam de comentar, pois é muito importante saber o vosso feedback! :)
Beijinhos
Drii


 

P.S - Quero também pedir desculpas à leitora CAROLINA, que me solicitou que lhe dedicasse um capítulo porque fazia anos e não, não ficou esquecido, minha linda! Mas o último capítulo foi publicado "aos trambolhões" e preferi dedicar-to agora com mais calma, sei que já vai tarde, mas conta a intenção! Aqui está ele!
Parabéns (atrasados!) e beijinhos, que sejas muitos feliz! ♥

 

terça-feira, 5 de julho de 2011

Capítulo 110 – Amar a 628 Km de distância também é amar (Parte III)



Depois da enorme desilusão acerca da minha suposta, mas não confirmada, gravidez, o David andou em baixo, mas com algum custo consegui animá-lo e isso era extremamente necessário, pois no final da semana teria o último jogo da época… Aquele que lhe dava a hipótese de virar o campeonato e sagrar-se campeão no melhor clube do mundo. Sabia que ele estava muito nervoso, queria ao máximo minimizar esse sentimento, mas já não sabia como agir, ele parecia um piolho saltitante, que não parava quieto um segundo.

- Tens de ir, amor… - anunciei assim que vi os jogadores recolherem-se ao balneário

- Eu sei, fica torcendo por mim… - ele esboçou uma expressão triste e confusa

- Claro que fico, por ti e pelo meu grande Benfas! – ri-me levemente, para tentar fazer com que ele descontraísse, mas nem isso surtiu efeito

- Mais por mim, amô… - na união dos seus lábios esculpiu-se um beicinho perfeito

- Claro, meu amor… Mais pelo meu campeão! – dei-lhe um selinho nos lábios e sorri meigamente - Agora vai, arrasa com eles…

- Vou… Me espera no fim!

- Claro que espero, não vais a lado nenhum sem mim para comemorar! – dei-lhe um beijo calmo e apaixonado, e finalmente senti-o relaxar um pouco

- Te amo muito… - declarou baixinho, com os seus lábios ainda colados aos meus

- Eu também, muito, meu amor! Vai tudo correr bem, boa sorte! – desejei com um sorriso tranquilizador

- Obrigado, até já! – rapidamente ele desapareceu no corredor de acesso ao balneário e o meu coração ficou mais leve


***


“E Aimar, avança prá bola, finta, e passa e vai e é golo, é golo, não! Extraordinário a bola na trave, não entra! Recarga de Luisão, guarda-redes soqueia a bola, finalização para David Luiz, é agora… Não! Bola no poste mais uma vez! Este jogo não está aconselhável para cardíacos!” – relatou o comentador da rádio, provindo do pequeno aparelho do senhor que se encontrava do meu lado e das meninas nos camarotes

- O raio da bola não entra! – reclamou Paula, já extremamente enervada

- Tenham calma, vamos ter calma… - pedi ao mesmo tempo que enchia os meus pulmões de ar para logo de seguida o expelir

“E VAI VAI VAI, RUBEN AMORIM… É GOLOOOOOOO! GOLOOOOOO DO BENFICA!” – de repente a rádio deu sinal ao mesmo tempo que uma ovação se iniciou no estádio

A partir daí foi como o comentador disse “foi um saque dos antigos”, foram golos e golos sucessivos, que agitaram os corações dos adeptos encarnados. O marcador fechou 7-2, bastante inesperado tendo em conta que era o jogo que decidia o campeonato e apesar de David não ter marcado nenhum, esteve envolvido em 4 das jogadas que deram golo e procurou sempre fazê-lo, mas infelizmente o sucesso não alinhou do lado dele naquela noite.
Aquele estádio entrou em delírio, jogadores corriam pelo campo, mandavam beijos, abraçavam-se, erguiam a taça entre inúmeras palhaçadas, mas foi o gesto de David aquele que mais me impressionou. Assim que o apito final se deu, ajoelhou-se no campo, ergueu as mãos para o céu e rezou… Era de esperar que ele o fizesse, mas nunca pensei que seria feito sem antes uma comemoração de euforia. Sem dúvida tinha um homem excelente do meu lado, afinal que tipo de pessoa num momento de glória e conquista se lembrava de agradecer, sem antes bater no peito e dizer “Eu sou o maior… Ganhei!”. Muito poucas, na melhor das hipóteses nenhuma… Nenhuma sem ser o meu doce David. Assim que os jogadores recolheram aos balneários, eu e as meninas apressámo-nos a sair na direcção da sala dos jogadores e familiares, mas fui surpreendida por um retrato deprimente.

- Era mesmo isto que precisávamos! – congratulou-se Luís Filipe Vieira apertando a mão do empresário de David

- As hipóteses vão aumentar! – acrescentou Rui Costa

- Sim, vai ser muito bom pra ele! – finalizou o empresário

Senti uma revolta enorme, o clube acabara de se sagrar campeão e eles já estavam preocupados com a venda de um dos jogadores que tinha contribuído em larga escala para aquela vitória.

- Adriana, minha filha, não vem? – a voz da Dona Regina puxou-me para a realidade

- Claro, estou a ir, estou a ir… - respondi descontraidamente e dei uma pequena corrida para os alcançar

Quando chegámos à sala, ainda só haviam amigos e familiares, caras bastantes conhecidas pelo menos para mim que era presença habitual por aqueles lados, mas assim que a porta se abriu para os primeiros jogadores passarem, entrou tudo em euforia.

- Amô! – a voz de David rompeu o ar e um sorriso luminoso foi a primeira coisa que vi, quando olhei seu rosto

- Parabéns! – felicitei-o e senti os seus braços envolverem-me, até ficar com os pés fora do chão

- Te amo, te amo! – ele foi repetindo vezes sem conta o mesmo, enquanto me dava beijos por todo o rosto e pescoço

- Eu também! – rematei com um beijo longo e vagaroso, que acabou por marcar um momento só nosso

A sala agitou-se, pois os outros jogadores deram entrada e eu acabei por perder-me no meio daquela gente toda. Fui caminhando até à porta de saída e deixei David lá no meio com os pais.

- Se fosse a ti não fazia isso… - uma voz surgiu atrás de mim, assim que coloquei a mão na maçaneta

- Ai, que susto, Ruben! – dei um leve pulinho

- Desculpa, não te queria assustar…

- Não faz mal, parabéns! – abracei-o com força e fiz um enorme esforço para sorrir, pois por dentro sentia-me totalmente esmagada

- Obrigado, pequenina! – ele deu-me um beijinho na testa – Esses olhos, tens de disfarçar melhor, percebe-se… - revelou ao observá-los, pois estavam a um pequeno passo de ficarem rasos

- Não te preocupes! – passei os dedos sobre as pálpebras e sorri

- Não vais ficar para as comemorações? – questionou vendo novamente a minha mão pousada no manípulo e foi o bastante para as lágrimas que até então controlara, me invadirem os olhos turvando-os – Então, que se passa?

- Nada, eu é que sou uma parva… Vou-me embora, mas divirtam-se e aproveitem a festa!

- Vais embora sem lhe dizer nada? – o olhar dele recaiu sobre David que tirava fotos com os pais e a taça na mão

- Vou, é melhor assim… Ao menos não tenho de dar justificações, que sei que não posso dar…

- Se de facto se confirmar, ele vai acabar por saber…

- Eu sei disso, mas se souber, nunca será por mim, Ruben!

- Ele vai ficar magoado se te fores embora assim sem sequer avisar ou despedir…

- Não te preocupes, depois eu falo com ele e digo que não estava muito bem… Portem-se bem, meninos!

- Então e não nos portamos sempre? – ele riu-se e forçosamente acompanhei-o

- Sim, uma coisa doida! Tenho de ir, cuidem-se e aproveitem o momento!

- Vamos aproveitar! – trocámos um último sorriso e finalmente abandonei a sala

Andei uns quantos metros, sempre mantendo a pose de forte, mas não deu mais para segurar e o choro rompeu no meu peito de forma descontrolada. Tive de entrar na primeira casa de banho que me apareceu à frente e tranquei-me num dos compartimentos. Sentada no tampo fechado da sanita, chorei silenciosamente, sem vontade de vacilar mais, sem vontade de estar mais ali e desejando que o Benfica nunca se tivesse sagrado campeão, pois isso deixava o David um passo mais perto da distância… E um passo mais longe de mim.


***


(David)

- Pera moço, falta tirar uma foto com a minha namorada… - afirmei com um sorrisão na cara, mas assim que olhei em redor não a vi

Não estava em nenhum canto daquela sala, nem num mais escondidinho. Não havia sinal seu, nem de estar falando com ninguém.

- Ué, ela tava aqui agorinha mesmo, meu filho… - confirmou a minha mãe, tão confusa quanto eu

- Manz, Manz! – chamei o Ruben e este se aproximou relaxado como sempre – Cê viu a Adriana?

- A Adriana? – notei que ele ficou ligeiramente atrapalhado

- Sim, Adriana… Baixinha, moreninha, caracóis, minha namorada, sua melhor amiga…

- Sim, eu sei quem é, ó! – ele fez uma breve pausa - Ela foi embora…

- Embora como? Embora pra onde?

- Pra casa, penso eu…

- Cê só pode ‘tar brincando! – não acreditei como ela foi capaz de me fazer uma coisa daquelas, sem me avisar e num dia tão importante como aquele

- Não, encontrei-a junto à porta…

- Não tô acredito! – uma enorme mágoa se apoderou de mim e me senti traído, me senti abandonado

- Calma, meu filho… Se calhar ela não se estava sentindo bem…

- Mas avisava, mãe! Foi embora assim…

- Oh meu filho, vai atrás dela, pode ser que ainda a apanhe na garagem…

- Sim, vou fazer isso! Venho já, já, mamãe! – dei um beijo na testa dela e saí correndo em direcção às garagens

E se antes estava magoado, quando lá cheguei, fiquei confuso e magoado. Seu carro permanecia do lado do meu, por isso só podia significar duas coisas: ou ela continuava ali, ou tinha ido embora de outro jeito. Não soube o que fazer, pra que lado me virar, ou até mesmo onde procurar ela num estádio tão grande. Segurei meu celular e marquei o número dela, mas após dois toques de espera ela rejeitou a chamada. Fiquei ainda mais magoado com sua atitude, mas de certo modo um pouco preocupado, afinal não sabia nada dela e não dava sinais de vida. Resolvi então mandar um torpedo.

“Para: Amô ♥
Amô, onde cê se enfiou? Me diz alguma coisa, por favô! Tô ficando muito preocupado!
Beijo, Te amo
Davi”

Esperei resposta e tentei ligar de novo, mas ela me recusou novamente a chamada. Tinha desistido e me encaminhava de regresso pra sala de jogadores, onde as comemorações decorriam calmamente, quando a vi cruzar a entrada das garagens. Linda como sempre, mas meio sem cor, com os olhos vermelhos e inchados de chorar, mas assim que me viu, disfarçou perfeitamente.

- Amô, onde cê se enfiou? – questionei imediatamente


***


(Adriana)

O David ligou-me enquanto eu estava trancada na casa de banho, mas eu rejeitei a chamada, pois não conseguia falar com ele naquele momento. Ele insistiu e mandou uma mensagem e fez um novo telefonema, ao qual não fui capaz de corresponder mais uma vez. Tinha de sair dali, pois não me podia confinar a uma casa de banho o resto da noite. Saí da divisória, umas raparigas de provavelmente 14 ou 15 anos, olharam-me de cima abaixo e ao ver-me ao espelho compreendi porquê. Era notório o meu estado de choro, mas ainda assim passei um pouco de água na cara e passei nova maquilhagem, na esperança de disfarçar o melhor possível. Ouvi comentários discretos por parte das pequenas raparigas, mas deixei-me ficar tranquila pois não me incomodaram em nada.

- É a namorada do David Luiz… - disse uma muito baixinho

- Não é nada, ela é mais alta…

- É ela… Tenho a certeza, apareceu na revista com ele!

- É ainda mais bonita ao vivo…

- E é muito simpática, quando no outro dia o David me deu o autógrafo, eles estavam juntos e ela foi super atenciosa!

Passei por elas para sair da casa de banho e soltei um breve sorriso, ao qual elas corresponderam. O meu trajecto a partir dali era directo ao meu carro, para puder ir-me embora o mais depressa possível. Assim que entrei na garagem dei de caras com David e tive de alterar drasticamente a minha expressão para que ele não percebesse que tinha estado a chorar, mas a tentativa foi totalmente em vão.

- Amô, onde cê se enfiou?

- Na casa de banho… - revelei aproximando-me dele

- Na casa de banho? O Ruben falou que cê tinha ido embora…

- Não, fui só à casa de banho…

- Então o que tá fazendo aqui agora? A sala de jogadores não é pra esse lado…

- Vim buscar uma coisa ao carro… - tive de mentir, pois sabia que se lhe dissesse a verdade, acabaria por o magoar mais do que queria, pois na realidade não queria magoá-lo em nada

- Uma coisa…? Cê teve chorando… - os dedos dele percorreram levemente a zona abaixo dos meus olhos

- Não, não estive…

- Esteve sim, te conheço, amô…

- São as minhas alergias…

- Alergias no Verão? – ele ergueu a sobrancelha, era óbvio que não estava convencido daquilo que ouvia o que até era normal, pois eu não estava daquilo que dizia

- Sim, estão cada vez piores… - torci o nariz, abri o carro e tirei do porta-luvas uma caixa de comprimidos

- Comprimidos?

- Sim, para as alergias! – confirmei a mentira com um sorriso e tirei um comprimido para tomar

- Não toma isso pra me enganar, que ainda vai fazer mal pra você… - respondeu imediatamente e eu tinha a plena noção de que não valia a pena enganá-lo

- Não é pra te enganar! – coloquei o comprimido na boca e engoliu-o com a ajuda de um golinho de água

- Se são só alergias, sendo assim cê sobe comigo, certo?

- Subo contigo pra onde?

- Para a sala de jogadores, claro!

- Ah… Sim, isso… Subo, subo! – respondi meio desajeitada

- Então vamo’! – ele deu-me a mão e vi-me obrigada a aguentar aquela noite de comemorações, mesmo sem querer


***

Graças a Deus consegui relaxar, esquecer o tema da venda de David e aproveitar o início de uma noite que se adivinhava muito longa. Tirei fotos com David e a taça de campeão, e outras só enquanto casal. Éramos conhecidos como o casal-careta, pois arranjávamos sempre mil e uma caras feias para pousar nas fotografias. Bebemos champanhe, cantámos, beijámo-nos e acarinhámo-nos durante largos minutos, mas chegou a hora de eles abandonarem o estádio e viajarem por Lisboa até ao Marquês, num autocarro de caixa aberta.

- Vai no Marquês, amô? Aquilo é muita confusão…

- Não te preocupes, vou só ver-vos passar e sigo para casa, estou estoirada!

- Tem cuidado, muleca! Te encontro em casa! – ele esboçou um sorriso lindo

- Sim, vou estar à tua espera… Tem juízo, ó mister caracóis! – despenteei-o todo e ele fez cara feia – Estou cheia de medo!

- Não brinca com os caracóis de um homem desse tamanhão que ele vira fera, viu garotinha?

- Sim, sim, deve ser isso! – voltei a despenteá-lo e ele parou-me com um beijo apaixonado

- Te amo… - sussurrou junto dos meus lábios

- Eu também te amo… - a minha respiração embateu nos lábios entreabertos dele – Vou andando, diverte-te!

- Você também! – demos um último beijo e cada um seguiu para seu lado

Segui com os pais do David para o Marquês no meu carro e depois de várias horas a cantar e a percorrer as ruas da cidade, finalmente vimos o autocarro passar. Não sei bem como, mas no meio daquela multidão, o meu homem viu-nos e enviou um beijo pelo ar, o que deixou todos com um sorriso no rosto. Foi nesse espírito de alegria que as comemorações da minha parte chegaram ao fim, por isso fui deixar os pais do David a casa e segui para a minha e dele. Limitei-me a tirar os sapatos, vestir um pijama leve e fresco e deitei-me na cama, adormecendo muito rapidamente.


***


A Quimera saltou pra cima da cama, super agitada e roçando o seu focinho no meu braço, mas o relógio só marcava ainda as cinco e meia da manhã.

- Quimi, vai para a tua caminha! Vai… - ordenei de olhos fechados e aconchegando-me no meu canto da cama

Ela obedeceu-me, pois pelo menos a sua presença deixou de se sentir. Voltei a entrar num sono, mas agora bem mais leve. Senti então uma presença no quarto, ouvi uns sapatos embaterem contra a parede ao fundo da cama e pelo perfume que invadiu o espaço, percebi que era o meu David. Fiquei tranquila naquele estado quase inconsciente, tendo como som ambiente, os barulhos naturais das acções do David. Senti então o lado vazio e frio da cama ser ocupado por um peso, e logo de seguida um calor envolveu-me.

- Amô… - a voz dele preambulou junto da minha orelha

- Hum… - respondi meio adormecida

- Cheguei… - sussurrou calmamente, com uma quanta certeza na voz

- Estás bem?

- Tô cansado…

- Descansa, amor… Descansa… - fechei melhor os olhos e aninhei-me na cama

- Cê também, te amo… - ela apertou-me para si e adormecemos assim, encaixados um no outro na certeza das últimas palavras que ele proferira

Os dados estavam lançados, todas as condições criadas para a partida e se se confirmasse, como seria?




Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem!
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Beijinhos
Drii

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Capítulo 110 – Amar a 628 Km de distância também é amar (Parte II)


Coloquei a chave à porta e nem a Quimera me veio receber, pois já dormia na sua caminha, junto da varanda da cozinha. Na sala ele não estava e a casa estava toda às escuras, com excepção do quarto, de onde uma luz difusa provinha, trespassando a porta encostada.
Descalcei-me, abandonando os sapatos junto do hall de entrada, e pé ante pé, avancei, abrindo a porta, que se prostrava entreaberta. A imagem que encontrei não era de todo a esperada, David de boxers, deitado bem no centro da cama, com metade do corpo do lado que me pertencia, e a outra metade do lado dele e de olhos fixos na televisão, que estava ligada num canal de desporto (para não variar!).

- Boa noite… - cumprimentei baixinho ao mesmo tempo que pousava a minha mala no cadeirão do quarto

Ele nem sequer se deu ao trabalho de me responder, mas visto que até era compreensível, livrei-me da roupa que tinha no corpo, ficando somente com uma camisola dele e tentei deitar-me do seu lado, mas ele não abriu espaço para isso, permanecendo bem no meio da cama.

- Dê, quero deitar-me… - anunciei da forma mais calma que me foi possível e acabei por me surpreender com tamanho autocontrole

- Vai deitar na sua casa, no seu quarto, na sua cama, sozinha…! – ripostou de forma fria e clara, sem retirar o olhar do televisor por um milésimo de segundo

Tive vontade de lhe mandar dois berros ali mesmo, perguntar se estava a gozar com a minha cara ou não tinha a mínima noção do que estava a dizer, mas controlei-me. Ou melhor… O enorme orgulho de que sempre fora alvo durante toda a minha vida, controlou-me, e fê-lo da melhor maneira. Assim que senti os meus olhos inundarem-se de lágrimas virei-lhe costas e tão rapidamente como me libertei das minhas roupas, trocando-as somente por uma camisola dele, fiz o contrário. Despi a peça de roupa que lhe pertencia e continha o seu cheiro, e atirei com ela com força para cima da cama. Vesti as minhas calças num pulo e a camisola num ápice, abrindo a porta do quarto bruscamente para me ir embora.

- Vai onde?! – nesse momento ele deu um pulo da cama e elevou a voz, para que eu travasse os meus movimentos

- Fazer o que me mandaste! Deitar-me na minha casa, no meu quarto, na minha cama… Sozinha!

- Não, espera, fui um bobo… - ele segurou-me pelo braço, mas não tive qualquer dificuldade em livrar-me do seu toque.

- A desculpa é sempre a mesma… Larga-me! – apoiando-me na parede do hall fiz um enorme esforço para calçar novamente os meus sapatos, enquanto ele e Quimera, que já havia acordado com os nossos gritos, andavam em torno de mim, descentralizando-me do meu ponto de equilíbrio

- Adriana, fica, vai… Tá sendo bobinha! Te amo, foi uma coisa sem sentido, tudo bem… Vamo dormir juntos…

- Não quero, David… Vou dormir na minha casa e não na tua casa!

- É nossa, amô… Já te falei!

- David, estou-me a borrifar! Esta casa é tua, aquele quarto, a sala, a cozinha… O dinheiro no banco é teu, a fama é tua, o estatuto é teu e sinceramente, só quero distância disso tudo…

- Quer distância de mim, portanto…

- Não é distância de ti, mas simplesmente não aguento mais estas desconfianças! Quando eu digo que estou cansada, é porque eu estou cansada, não faças logo filmes de que não quero estar contigo… Às vezes não posso, enfia isso nessa cabecinha!

- Pronto, cê ganhou…

- Não quero ganhar, queria o mínimo de respeito…

- Cê tem meu respeito!

- Não, não tenho… Tu finges que eu tenho o teu respeito e de vez em quando a coisa até funciona…

- Agora tá sendo injusta, pô!

- Não, não estou a ser injusta… Quantas vezes tu estás cansado e eu te dou o teu espaço para descansares?

- Todas as vezes e de todas essas vezes, o que é que eu te respondo? Que quero dormir com você do meu lado na mesma… Nunca te pus pra correr!

- E eu também não, acho que me interpretaste mal…

- Não, cê sabe que eu interpretei direitinho!

- Pronto, ganhaste! Estou-me a ir embora não é isso que queres? Ficares sozinho, na tua casa, no teu quarto, na tua cama? Vou fazer-te o favor! – virei costas disposta a abrir a porta de casa e desaparecer

- Amô… - ele apertou-me para si, forçando as minhas costas a encostarem-se no seu peito – Não quero discutir com você… Só quero dormir do seu lado, calmamente, sem discussões…

- Então pra quê isto tudo? Não tem sentido nenhum discutir assim…

- Tamo’ sendo bobinhos… Vem, dorme do meu lado, essa noite! – ele guiou-me na sua frente até ao quarto, sem nunca descolar a traseira do meu corpo, à dianteira do seu

- Vamos parar com estas coisas sem motivo… Só estamos a fazer mal a nós próprios!

- Paradinho! Tá prometido! – os lábios dele embateram na minha bochecha esquerda e automaticamente sorri

Enquanto me comecei a despir novamente, para colocar a t-shirt dele, ele ganhou avançou e deitou-se observando-me, de forma muito atenta, mas especialmente à minha barriga.

- Que foi? Estou mais gorda? – questionei, ao mesmo tempo que descia a t-shirt

- Não, mas tá atrasada… - ele esboçou um sorriso radioso

- Sim, estou… Mas é um atraso pequeno, posso simplesmente estar desregulada…

- Ou pode tar grávida! – chutou imediatamente de forma perspicaz

Pelas minhas contas, tendo em conta que na última vez com ele não nos precavemos e que eu estava com um atraso, poderia perfeitamente estar grávida.

- Sim, ou posso estar grávida… - confirmei sorrindo e deitando-me do lado dele

- Quero tanto que seja verdade, que cê teja esperando um neném meu… - a mão dele percorreu carinhosamente a minha barriga

- E eu quero muito dar-to, por isso já nós fizemos… Agora é esperar pra ver! – juntei a minha mão à dele e ficaram ambas assim, pousadas no meu ventre

- Amanhã eu compro um teste na farmácia e cê faz, essa espera me tá deixando louco…

- Tá bem, se queres fazê-lo já, eu faço! – sorri-lhe tranquilamente, pois a ideia de a gravidez se confirmar não me estava a assustar nem um pouco

- Cê tá calminha… Quer mesmo me dar um neném?

- Quero, quero muito dar-te um neném! – imitei o doce sotaque dele, que levou a que ambos gargalhássemos

- Vou ser o homem mais, mais, mais, mais, mais feliz do mundoooo! – beijou-me apaixonadamente, sem me dar hipótese de dizer mais nada

Foi nessa troca de beijos, que acabámos por adormecer lado a lado, prontos para enfrentar o dia que vinha pela frente.


***

Um cheiro enjoativamente doce provinha da cozinha e como do meu lado a cama estava vazia, eu adivinhei que David andava a fazer das suas. Acabei por me rir com os meus pensamentos e concluir que ele estava a fazer as suas maravilhosas panquecas para o nosso pequeno-almoço. Levantei-me da cama e dirigi-me à casa de banho, para lavar os dentes e atender ás minhas necessidades fisiológicas. Pois o baque não poderia ter sido maior, assim que me apercebi que tinha uma mancha de sangue nas cuecas, o que significava que não estava grávida e não passara de um atraso na menstruação. Acabei por me lavar, vestir uma lingerie lavada e pentear-me, para me puder juntar a ele na cozinha.

- Bom dia, flor do dia! – ouvi aquela voz tão doce bem perto dos meus lábios assim que entrei no mesmo espaço que ele

- Bom dia! – tentei parecer tão bem quanto possível e as nossas bocas uniram-se, por vontade própria

- Tô fazendo um café da manhã gostosão, para a melhor namorada do mundo! – um sorriso enorme rasgou-lhe os lábios de forma travessa

David estava extremamente bem-disposto e eu até podia adivinhar qual o motivo, por isso não fui capaz de acabar com aquela felicidade logo ali naquele momento, sabia que era cobarde e injusto, mas preferi esperar pela altura certa.

- Hum, a melhor namorada do mundo está cheia de fome! – esbocei um sorriso leve e por cima do ombro dele espreitei as panquecas que ele tinha ao lume

- Hum, que bom! Isso é que eu quero, você com muita fome é bom sinal! – ele piscou-me o olho por achar que aquele era mais um sintoma da minha possível, mas não existente gravidez – Vamo lá a isso!

Ele colocou as panquecas num grande prato e pousou-o no centro da mesa da cozinha, onde nos sentámos para tomar o pequeno-almoço. Inicialmente conversámos sobre o jogo da noite anterior, mas rapidamente a conversa tomou um rumo que não me deixou qualquer hipótese de fuga.

- Tem calma, não foram campeões hoje, são para a semana na Luz… - incentivei e dei-lhe um beijinho nos lábios

- Acha mesmo? Tô ficando com dúvida…

- Ei, jogador do Benfica nunca duvida!

- Tem razão, se o mister Jesus me ouvisse dizendo isso, me dava um tiro! – ambos nos rimos e ficámos em silêncio comendo – Daqui a pouco vou na farmácia e compro o teste, amô… Quer ir comigo ou prefere ficar e eu trago pra você? – questionou-me de forma descontraída e confiante

- Ah… - comecei a gaguejar o que por si só era um péssimo presságio – Ah…

- Ah… O quê, meu anjo? Tá se sentindo bem?

- Tô, tô… Só que já não vai ser preciso ires comprar o teste… - anunciei de olhar baixo e a minha voz perdeu toda e qualquer intensidade

- Como não, meu anjo lindo? Temo de tirar essas duvidas, não dá pra viver, sem saber se tá ou não grávida…

- Não estou, tenho a certeza… - confessei quando finalmente o encarei olhos nos olhos e tudo o que encontrei foi desilusão e consternação

- Como cê pode ter certeza senão fez o teste? Mudou de ideias quanto ao neném? É isso não é? Não quer mais ser mãe de um filho meu…

- Não é nada disso, eu quero muito, mas sei que não estou grávida, porque não passou de um atraso, fui agora à casa de banho e estou menstruada…

- Tá? – vi os olhos dele ficarem turvos por uma forte neblina de lágrimas

- Tô… Desculpa…

- Não faz mal, não pede desculpa… - a voz dele baixou de tom, pois um pouco mais alto do que aquilo e teria se desmanchado em lágrimas ali na minha frente

- Eu sei que querias muito, mas talvez não seja a nossa hora ainda… - afaguei-lhe a pele das faces tão carinhosamente como consegui

- Pensei que já tinha chegado nossa hora, que ia ser pai… Já tinha lido artigos, já andava vendo coisinhas no shopping… Pô! - ele baixou a cabeça e vi as primeiras lágrimas caírem embatendo na superfície da mesa

Dei um pulo urgente do meu lugar e sentei-me no colo dele para que o pudesse consular.

- Não fiques assim, meu amor… Estou aqui, estou aqui… - sussurrei baixinho no embalo do nosso abraço

- Eu queria tanto… - murmurou perdido em lágrimas

- Querias e vais ter… Olha pra mim! Olha pra mim, amor… - pedi e depois de algum esforço ele acabou por fazê-lo – Vamos deixar isto correr normalmente, o que tiver de ser será e quando chegar a nossa hora, Deus vai dar-nos o filho que queremos…

- Te amo… - jurou com os olhos cravados nos meus, mas cheios de lágrimas

- Eu também, eu também… - murmurei e uni calmamente as nossas bocas, enquanto sentia ainda as lágrimas escorrerem-lhe pelas faces e morrerem nas minhas mãos, que faziam um enorme esforço para lhe segurar o rosto – Vai ficar tudo bem…

- Fica do meu lado, pra sempre…

- Fico, meu amor, eu fico…

- Promete, amô… Promete que não me deixa nunca…

- Fica prometido, amor! Fica prometido… - selámos a promessa com um beijo calmo, mas intenso, que demorou para chegar a um fim

A promessa estava feita e seria eu capaz de cumpri-la?





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Beijinhos
Drii