terça-feira, 19 de julho de 2011

Capítulo 111 - A vida segue... (Parte III)



Engoli as lágrimas que ainda queriam cair, desviei o olhar noutra direcção e coloquei as mãos nos bolsos. Estava determinada a passar por eles como senão tivesse visto os seus sinais e rumar directa a casa. Ao aproximar-me da mesa coloquei o meu olhar no chão e avancei rapidamente, para acelerar o momento. Já tinha ultrapassado a mesa e festejava sozinha com os meus pensamentos. “Yes, desta já me livrei! Obrigada meu Deus!”, pensava eu quando fui surpreendida.
- Ei garota! – ouvi a voz do Gustavo, que me chamou a pedido da Dona Regina, mas nem isso me fez parar ou abrandar o passo acelerado – Ei, Adriana!
- Bolas! – vociferei entre dentes devido à insistência dele e fui obrigada a parar, olhando para trás de forma a vê-los
- Não viu eu te fazendo sinal, minha filha? – questionou a Dona Regina, enquanto em passadas curtas e receosas, eu me aproximava da mesa deles
- Não vi, Dona Regina… Desculpe! Boa tarde a todos! – cumprimentei assim que alcancei a cabeceira da mesa, ficando mesmo frente a frente com David, que se encontrava sentado na outra ponta – Precisa de alguma coisa? – retirei os óculos e arrastei-os para o topo da minha cabeça
- Não… Só queria convidar você pra sentar aqui com a gente! – ela sorriu educadamente
Posso dizer que fiquei surpreendida com o convite, pois só demonstrava que ela não estava magoada comigo, não guardava qualquer rancor e devia ser das poucas pessoas que compreendia a minha intenção quando o deixei. Só o queria proteger, só lhe queria dar a hipótese de voar mais alto, mas não valia a pena pensar nisso naquele momento, afinal o passado é de pedra e já ninguém o podia mudar.
- O quê?! – o David não demorou nada a reagir e eu limitei-me a baixar o olhar assim que ouvi a sua voz – Só pode ‘tar brincando… - murmurou em surdina e soltando um sorriso cínico para Ruben e Gustavo, que o encararam com  um olhar repreendedor
- Olha aí, puto… - alertou Ruben, dando-lhe sinal para acalmar um pouco
- Obrigada pelo convite, mas não vou puder aceitar… Estou com um bocadinho de pressa, tenho mesmo de ir… - agradeci num tom de voz cordial e educado, que se fez acompanhar de um terno sorriso àquela pessoa que eu já tinha em conta como uma figura maternal
- Oh, que pena… Não pode mesmo ficar? Só uns minutinhos…
- Mãe, se ela falou que não pode, deixa ela ir! – o David falou de forma agressiva e quando a mãe o ia repreender, surpreendentemente foi o Sr. Ladislau a fazê-lo
- Filho, cala a boca… A conversa não é com você e está passando os limites!
- Desculpem, eu não quero provocar desconforto a ninguém… Eu vou mesmo indo! – esbocei um último sorriso
- É, vai mesmo! Já vai tarde, segue e some, não aparece mais nas nossas vidas! – desejou o David, retaliando-me
- Davi’, tá abusando… - sussurrou-lhe Gustavo, olhando-me com uma enorme pena
- Minha filha, senta por favor… - implorou a mãe dele, como se quisesse usar aquele lanche para se desculpar da atitude que David estava a ter
Nesse momento surgiu nas minhas costas a única pessoa que naquele momento me poderia trazer problemas, ou melhor, ainda mais problemas! O Diogo… Este saía do restaurante de sushi com uma pequena encomenda nas mãos e caminhava, enquanto fechava a carteira.
- Obrigado, até à próxima! – disse educadamente ao senhor do restaurante e o seu tom de voz, habitualmente animado, fez despertar o olhar das pessoas que estavam sentadas na mesa à minha frente
Também parei a conversa para o olhar, ele viu-me, mas não se aproximou, seguiu como senão me tivesse visto. Ao menos assim, poupava-me qualquer constrangimento, poupava-me um novo olhar de censura de David, pelo menos pensava assim, até este ter aberto a boca, para me apunhalar com as suas palavras.
- Vai… Vai lá deitar na cama dele! – jogou assim para o ar e desta vez não se coibiu de o fazer de forma suficientemente audível
Tive de fazer um esforço enorme para que nenhuma das lágrimas, que pendiam nos limites dos meus olhos, caísse e denunciasse o meu lastimável estado. Cada palavra que ele proferira naquela tarde tinha sido um novo soco no estômago, uma nova facada nas costas e nem sei dizer qual delas doeu mais, mas sem dúvida que aquela espécie de acusação entrou no meu coração para nunca mais sair. Todos olharam David tão surpresos quanto eu, vi que a Dona Regina acabara de atingir o seu limite de paciência com ele e antes que pudesse trazer alguma desavença àquela família, resolvi afastar-me.
- Estou mesmo com pressa, peço desculpa a todos! – acenei educadamente com a cabeça, coloquei os óculos na cara, porque já sentia as lágrimas a quererem sair e comecei a afastar-me
- Adriana! Adriana! Espere, minha filha! – nem a voz da Dona Regina me barrou, segui o meu caminho em direcção às garagens e não olhei mais para trás

***

Agarrei no meu telemóvel porque me sentia incapaz de conduzir naquele estado de nervos e a pessoa a quem ligar foi mais do que óbvio... Para a única pessoa que havia estado presente nos últimos tempos, para a única pessoa que eu sabia que jamais me iria falhar e que jamais me deixaria cair: a minha Paulinha.
- Alô Alô, gatita! – assim que ouvi a voz dela do outro lado da chamada, o meu choro tornou-se mais compulsivo – Amor, que tens? Que aconteceu? – perguntou imediatamente
- Vem-me buscar… Tira-me daqui, não aguento mais isto! – supliquei completamente perdida nas garagens
- Tem calma, meu amor… Que aconteceu? Onde estás?
- Estou nas garagens do Colombo… Não encontro o meu carro, o David está cá, quero sair daqui! Quero sair…! – gritei ao mesmo tempo que a minha mão, de punho cerrado, voo para soquear um poste
- Tem calma, sim? Respira fundo, olha com calma até encontrares o teu carro e eu vou tentar chegar aí o mais depressa possível!
- Obrigada, Paulinha, obrigada! – agradeci em total desespero e a chorar de forma descontrolada
- Não me agradeças e por favor, vê se te acalmas, shim? Para me puderes ajudar a encontrar-te aí, amor…
- Sim… Sim… Isto já passa… - disse entre soluços
- Até já, vou voar para ao pé de ti, princesa! Amo-te! – jurou na sua voz sempre doce e meiga
- Até já… Também te amo, Paulinha! – solucei e desliguei a chamada, porque finalmente avistei o meu carro
Tive a certeza que era o meu pela matrícula, era a única forma de o distinguir do de David, que se encontrava uns metros mais à frente. Deixei-me escorregar parede abaixo e foi sentada no chão, que lavada em lágrimas, esperei que alguém me viesse buscar.
- Adriana… - uma voz familiar interrompeu os meus pensamentos
- Diogo? – ergui a face e vi-o na minha frente, bem ali na minha frente…
Não mudara em nada as suas expressões faciais, se bem que o seu corpo tinha tomado contornos mais de homem e agora estava perfeitamente esculpido pelos dezanove, quase vinte anos, de que era dono.
- Ei, estás a chorar? – ele olhou-me com uma vivacidade no olhar, uma vivacidade que lhe desconhecia e que por momentos confundi com preocupação  
- Não é nada, Diogo… - enxuguei as lágrimas e rapidamente me levantei do chão
- Como não é nada? Estás a chorar, miúda… - ele tocou-me suavemente e a minha cabeça viajou até outros tempos, àqueles em que ainda namorava com ele – Foi alguma coisa com o David?
- Sim… Nós acabámos… - revelei por entre soluços e os meus olhos voltaram a ficar rasos de lágrimas
- Oh miúda, não fiques assim… - o seu tom de voz foi estranhamente carinhoso, nunca poderia esperar aquela atitude de Diogo, muito menos depois de tudo o que já se havia passado entre nós
- Eu amo-o… Ainda o amo… - sussurrei chorando silenciosamente, mas sem ter coragem suficiente de fixar o meu olhar no dele
- Ai pequenina, vem cá…
E pela primeira vez desde que o conhecia, Diogo foi humano… Sim, humano, porque se consciencializou do meu estado de fraqueza e no entanto não teve qualquer intenção de se aproveitar disso. Abraçou-me… Um abraço de amigo, não um abraço de quem procurava mais alguma coisa, de quem esperava colher qualquer fruto de todo aquele sofrimento. Um simples e longo abraço de amigo… Senti-me muito bem, porque além de estar surpresa por ver o velho Diogo na minha frente, estava a receber um aconchego quando mais precisava dele.
- Ai… - ciciei, soltando uma respiração bafejada contra o peito dele
- Calma, não fiques assim… Por favor, mata-me ver-te assim… - ele apertou-me mais contra si e foi passando os dedos pelos meus cabelos
Não sei explicar, mas aquilo de alguma forma surtiu um efeito relaxante em mim, pelo menos fez-me parar de chorar tão intensamente. Não sabia o porquê dele estar a fazer aquilo, mas li em cada gesto de ternura por parte dele, uma extrema vontade de me ver sorrir… Era só isso que ele pretendia.
- Epá miúda, não sei que raio de efeito é esse que tens, mas ficas ainda mais encantadora com esses olhinhos de choro… - ele passou o seu indicador na ponta do meu nariz e inevitavelmente soltei uma pequena gargalhada
- E não sei que raio de efeito é esse que tens, mas sorrir era a última coisa que esperava vir a conseguir fazer hoje… - confessei desviando uma madeixa dos meus cabelos para trás da orelha
- Também não te sei dizer, mas ainda bem que funciona, pois prefiro mil vezes ver esse sorriso lindo na tua carinha, piolha! – ambos sorrimos e olhámo-nos
Desde que namorava com David que nunca mais ficara tão próxima de Diogo e logo com aquela paz toda pelo meio. Talvez fosse alguma espécie de sinal… De que David fora um meio para eu chegar àquele fim, que surpreendentemente um dia, havia sido o início de tudo. Tive vontade de bater em mim própria por equacionar tamanha estupidez, mas eu não podia negar que Diogo estava diferente… Amava-o? Não, nem por sombras! Gostava dele? Nem tão pouco mais ou menos, mas como ser humano capacitado de sentimentos e emoções, não podia negar que aquele golpe de misericórdia era no mínimo tocante. Contudo a minha felicidade adivinha-se tão longe daqueles braços, daquele coração, daquele homem… A minha felicidade estava com David e essa havia-nos sido roubada no mesmo instante em que eu selei aquela carta e saí por aquela porta, deixando para trás somente um turbilhão de palavras...

***

(David)
Assim que a Adriana fugiu de nós senti os olhos de todos presos em mim, mas ainda assim continuei a comer, com um enorme peso na consciência pelo que havia dito e feito a ela naquela tarde.
- Oiça bem, David, porque eu só vou dizer uma vez! Que seja a última vez que você age dessa maneira, porque essa não foi a educação que eu e o seu pai demos para você! A gente tem aturado tudo de você nesses dias, mas já chega! Agora cê passou os limites! – minha mãe me dedurou na frente de todo o mundo
- Mas mãe… - tentei ripostar, mas ela nem isso deixou
- Mas mãe nada, Davi’! O que cê fez agora e aqui foi uma tremenda falta de educação! O filho que eu criei não gosta de fazer mal pra ninguém, pelo menos não de propósito! Eu não me tô colocando do lado de nenhum de vocês, porque sim, ela errou… Errou, porque te ama demais e só quis deixar você viver seu sonho, mas o fez da maneira errada, é verdade! E cê tá errando porque tá aí agindo que nem um moleque em vês de correr atrás e esquecer essas bobeiras… Para amar e ser amado! A partir de hoje não se queixa que não é feliz, porque senão é feliz, é porque não quer!
Fiquei olhando minha mãe, ela nunca havia falado comigo daquele jeito, nunca se tinha voltado contra mim daquela forma, pelo menos por causa de uma garota, mas percebi que com Adriana era diferente, porque ela a amava como se fosse uma filha… Não uma filha de sangue, mas uma filha de coração! Não consegui comer mais nada do lanche, mas depois de todos o terem feito, descemos no elevador até às garagens e o cenário que encontrei foi ironicamente perfeito.
- O que é que aquele palhaço pensa que está a fazer? – vociferou Ruben disposto a partir pra cima de Diogo
- Calma, velho… Não tá fazendo nada demais! – foi Gustavo que o acalmou e impediu de atropelar aqueles dois e o seu momento “de amor”
O carro dela estava a poucos metros do meu, talvez dois ou três no máximo, e junto do capô do seu carro, lá se encontrava ela… Nos braços daquele que um dia havia sido seu namorado. Sim, confesso que senti ciúme, muito ciúme! Uma vontade imensa de ir lá, afastar aquele cara da minha menina e a tomar em meus braços. Uma vontade de ir lá, pedir perdão pra ela e dizer que tudo estava esquecido, pois era ela quem eu mais queria, quem mais amava… Mas o orgulho falou mais alto, a estupidez me dominou por total e subiu em mim uma raiva danada, levando todos os remorsos, que guardava, espelho das minhas atitudes naquela tarde, a desaparecer. Minha língua se soltou novamente e meu coração desaprendeu a bater.
- É o que eu estou dizendo… Vai acabar essa noite na cama dele! – disse tão alto quanto me apeteceu
- Agora chega, Davi’, se enfia nesse carro e conduz pra casa! – minha mãe me gritou em surdina
- Não falei nada que não seja verdade… - estava tão enervado, que ainda botei mais acha na fogueira
- Se é verdade ou não, é problema dela… Cê terminou com ela não foi? Então que eu e todo o mundo saiba ela é solteira e livre de dormir com quem quiser, por isso se poupe ao ridículo e guarde esses comentários pra você, Davi’!
- Rê, se acalma… Eles tão olhando, vamo’ embora daqui! – meu pai aconselhou, para manter os ânimos calmos
- Eu vou pagar o parquímetro… - se ofereceu Gustavo, esse não perdia uma pra saltar fora de um possível barraco
Tomou o ticket da minha mão e numa corridinha leve, sumiu por entre os carros em direcção à zona das máquinas de cobrança.
- Se aquele gajo não tira as mãos dela, pah… - ameaçou Ruben, que não ‘tava nem um pouco agradado por ver Diogo tão próximo de Adriana
- E você, Ruben, vê se não provoca… Se calem os dois! – minha mãe ficou fera com minhas atitudes e tomou uma posição durona, que não demonstrava em nada o tipo de pessoa que ela era
- Tô pra ver… Dou um mês pra ela ‘tar namorando esse cara! – murmurei entre dentes, tentando manter uma conversa com Ruben
- Ela que nem pense, se tem alguma cena com aquele gajo, nunca mais me fala!
- David e Ruben, eu tô avisando…
- Ai, mãe, que é? Só tá faltando me dar tapa, que nem em criança! – falei muito irritado e olhando ela
- Olha que nesse momento você até ‘tava precisando de uns bons tapas! – nesse momento Adriana e Diogo se despediram – Tá vendo? Vocês são muito fofoqueiros…
- Só estávamos a constatar factos, Dona Regina! – argumentou Ruben, mantendo o olhar preso na figura dela
- A moça acabou de terminar com você, David! Acha que ela tá em condições de ficar com mais alguém tão cedo?
- Mamãe, se ela tivesse assim tão mal por nossa separação, nem estaria num shopping se divertindo com as amigas!
- David, ah me desculpa, mas você então tá virando burro, meu filho… Cê acha que a Adriana tá bem?
- Acho… Sinceramente acho! – afirmei uma coisa, quando no meu interior considerava outra bem diferente
- Pô, já viu bem como ela está? Não reparou nos olhos dela, quando se aproximou de nós na mesa? Não viu como estavam inchados de chorar e rasos novamente, quando cê a tratou mal?
- Ah, mãe… Tá bom, não me enche o saco! – refilei, sem mais qualquer disposição pra ouvir falar nela
Talvez porque fosse preferível virar a cara pra verdade… Talvez porque doesse menos… Talvez porque se eu não pensasse, a dor acabasse desaparecendo e eu ia rezar todos os dias pra que assim fosse.


***

(Adriana)
- É o que eu estou dizendo… Vai acabar essa noite na cama dele! – foram as primeiras palavras a quebrar o silêncio daquele meu abraço a Diogo
Movimentei-me ligeiramente nos braços dele, assim que reconheci aquela voz e quando os meus olhos alcançaram a figura de David, confirmaram as minhas suspeitas.
- Foda-se, mas o que é que este gajo acabou de dizer? – o Diogo soltou-me no intuito de se dirigir a David e tirar satisfações
- Não ligues, Diogo… Desculpa, eu sei que é uma tremenda falta de educação, mas fui eu que o deixei e ele não está a aceitar bem as coisas… - não tive outro remédio a não ser desculpar-me pela péssima atitude de David
- Não tens de pedir desculpa, aquele gajo é que está a precisar de um abre-olhos!
- Não, deixa-o estar, peço-te… Não quero confusões!
- Não vou fazer nada, mas é por ti… Porque já percebi que não estás em condições!
- Não… Obrigada, pela compreensão! Aquilo são ciúmes, passam-lhe… - esbocei um sorriso triste e por fim ele libertou-me daquela abraço, que já durava há minutos
- Ciúmes de mim? Está com medo que voltes pra mim, é?
- Não sei, mas ele sabe do nosso passado, é normal…
- Ele pode ficar descansado, tenho namorada! – o Diogo sorriu de orelha a orelha e fui completamente apanhada de surpresa naquele mesmo momento
- Ah… Namorada? – clareei um pouco a voz para conseguir acabar de discursar – Parabéns, miúdo! – esbocei um sorriso sincero e toquei-lhe no ombro
- Obrigado!
- Estás feliz?
- Sim, estou… Afinal, começo a minha digressão este Verão, tenho um relacionamento firme com uma rapariga porreira e a faculdade corre sobre rodas, por isso…
- Hum, muito bem! Parabéns, Di… Tu mereces!
- Eu tenho de ir, a minha namorada está à espera do jantar! – ele riu-se levemente, assim como eu – Ficas bem?
- Claro que fico… Uma amiga vem buscar-me daqui a pouco!
- Pronto, sendo assim fico mais sossegado!
- Podes ir e obrigada por tudo!
- Se me queres mesmo agradecer, pequenina… - ele acariciou-me a bochecha esquerda desde a maçã, até à linha do maxilar – Coloca um sorriso lindo nessa carinha e sê feliz!
- Vou tentar fazer isso… Vá, vai lá agora aproveitar com a tua namorada! – sorri em forma de incentivo
- Sim, vou… Qualquer coisa que precises, já sabes… O meu número continua o mesmo! – ele deu-me um beijinho muito carinhoso na testa – Cuida de ti, miúda…
- Tu também… - murmurei quando ele já se havia afastado
Fiquei ali sozinha, na linha de fogo, sob os olhares cruzados de David e da mãe, que eu percebi claramente que estavam a discutir, somente pelas expressões. A Paulinha nunca mais chegava e eu precisava sair dali o mais depressa possível, antes que enlouquece-se… Antes que perdesse a total sanidade e ela já não era muita, que ainda me sobrava. Pousei a minha mala no capô e revirei-a em busca das minhas chaves do carro, mas não sei dizer se por estar nervosa, ou demasiado ansiosa por encontrá-las, estas não me apareciam à frente. Quanto mais remexia, mais longe parecia das alcançar e isso estava sim, a levar-me à total loucura, à total insanidade mental…
- Vai ver se ela precisa de ajuda… - ouvi a mãe do David incentivá-lo e isso só me fez acelerar ainda mais a procura
- Mãe, não enche o saco…
- Vai, Davi’, tô mandando! – quando a Dona Regina falava daquela maneira, nada feito, não havia volta a dar a não ser obedecer-lhe
- Pô…! – ouvi-o bufar, porque era mais que óbvio que não estava interessado em ajudar-me, muito menos em ter-me por perto
As minhas pernas começaram a ficar trémulas no instante em que percebi que ele viria ajudar-me, as minhas mãos acompanharam-nas e aumentaram ao máximo possível a velocidade com que procurava dentro da mala as malditas chaves do carro. As lágrimas começaram a escorrer-me pelas faces desesperadamente, procurando um porto para perecerem, tal como eu procurava um para me abrigar.
- Adriana… - reconheci aquela voz e senti uma mão pousar no meu ombro
Toda eu estremeci e o desespero aumentou. Foi o ponto de ruptura… Senti-me desmoronar com um simples toque! Aquela presença fez-me sentir que estava vencida, que na minha vida o meu final seria sempre o de eterna derrotada e nada que eu fizesse, ou quisesse fazer, poderia mudar isso. Não havia mais nada a fazer, respirei fundo, tanto quanto o soluçar me permitiu e rodei sobre os meus próprios pés, ficando então de frente para a pessoa que me guardava as costas e o coração…


Obrigada a todas pelos vossos comentários, é muito gratificante e só me incentiva mais e mais!
Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem e não se esqueçam de comentar!
Beijinhos
Drii

P.s - Não se esqueçam de comentar a minha fic e da Paulinha! :)
http://halfofmyheartfic.blogspot.com/


segunda-feira, 18 de julho de 2011

Capítulo 111 - A vida segue... (Parte II)



Foi quando vi essa rapariga embater os seus lábios de encontro aos do amigo de David, aquele que eu recordava somente de vista, que um flash veio à minha cabeça e relembrei a recente festa de aniversário de David, era de lá que os conhecia… Mariana e Pedro (!), era assim que se chamavam, eram somente um casal de namorados, o que levou a que os meus ciúmes se desfizessem rapidamente. O David porém não se coibiu de me lançar olhares provocadoramente altivos apesar de termos duas pistas a separar-nos, que se encontravam vazias, o que acabava por facilitar a visibilidade, infelizmente.

- Ele não tira os olhos daqui… - constatou Kika, olhando também na direcção deles

- Deixa-o olhar… Não tem problema! – apesar de ter os olhos rasos de lágrimas, os meus lábios revelaram um pequeno e tímido sorriso

Assim que elas retomaram as jogadas, eu perdi-me olhando-os discretamente. O David estava muito animado e se na verdade não estava, representava plenamente o papel, que confesso, me destroçou o coração! Ele estava ali, feliz (!), como se a nossa relação de um ano e a proximidade de ainda mais tempo, não tivesse conhecido o seu fim há coisa de uns dias. Gargalhava fortemente, sorria em abundância e falava alto, como se eu fosse o motivo da chacota geral, como se eu não importasse mais… Senti-me pequenina, tão pequenina que foi essa posição que assumi no meu lugarzinho. Descalcei os sapatos de jogo e coloquei os meus, permitindo-me então levar os joelhos ao peito e aí repousar a minha cabeça.

- Adriana, é a tua vez! – recordou Catarina sorrindo e arrancando-me da minha observação atenta

- Não me apetece mais jogar, meninas… A Kika joga por mim, não é? – quase que lhe implorei com o olhar que o fizesse e como boa amiga que era, acabou por ceder

- Sim, eu jogo por ela… - consentiu calçando os sapatos que até há bem pouco tempo atrás se encontravam nos meus pés

“Obrigada” - agradeci gesticulando com os lábios e ela limitou-se a sorrir e a tomar o meu lugar no jogo, o que não a podia ter deixado mais feliz, pois encontrava-me na segunda posição da tabela e tendo em conta o seu fraco e desmoralizador desempenho a nível do bowling, era razão para felicidade.

Inevitavelmente e apesar de ter lutado muito contra isso, os meus olhos voltaram a procurar aquelas figuras todas que me eram tão familiares. Vi então Inês, futura mulher de Ruben, que antes não observara porque se encontrava recolhida num cantinho e alheia ao jogo, visto que este também não era de todo o seu forte. O David não resistiu a sorrir-me cinicamente e a avançar para a pista do jogo com uma confiança no corpo e em cada movimento, que chegava a ser confundida com arrogância. Pareceu-me ver ali um David diferente do normal, pelo menos daquele a que eu estava a acostumada e pela expressão da Dona Regina não era só eu que pensava assim.

- Ah, que fraquinho, velho! – David gozou descaradamente com Gustavo que havia falhado o lançamento

Ele limitou-se a resignar-se e caminhar para um dos lugares livres, mas como reparou no meu olhar sobre si, foi educado e amigo fiel como sempre. Olhou-me com uma extrema ternura e acenou-me, mantendo sempre um sorriso delicado e meigo no rosto. Muito timidamente correspondi, mas a tristeza dominou aquele sorriso, como dominara todos os outros que eu havia dado desde o fim da minha relação com o homem que ainda amava…
Pelo simples facto de ele me ter acenado, os restantes presentes notaram a minha presença, ou melhor, aqueles que ainda não o haviam feito, como era o caso dos pais de David, de Ruben e de Inês. Sorriram-me e acenaram, tal como o Gu fizera e eu tentei retribuir da forma mais carinhosa possível.

- Meninas, vou lá fora fumar um cigarro… - avisei, pois precisava sair dali

- Mas desde quando é que tu voltaste a tocar num cigarro, Adriana? – questionou Catarina muito surpresa e erguendo a sobrancelha esquerda

- Desde agora! – afirmei muito segura e remexi na mala dela, que eu sabia ser fumadora habitual, roubando-lhe um cigarro e levando emprestado um isqueiro – Não demoro…

Afastei-me sem lhes dar tempo de me darem o merecido raspanete.
O percurso que realizei até ao exterior do Funcenter, por uma porta de acesso lateral, teve de se consumar pela passagem na pista 1. Todos me olharam, mas eu levava o cigarro bem escondido na palma da minha mão cerrada e o isqueiro na outra.
Saí sem olhar para trás e assim que alcancei a liberdade de um espaço livre, pelo menos de David, senti o ar quente de Verão preencher-me os pulmões e queimar-me as veias. Recostei-me lateralmente a uma parede de pedra, estava fria o que nem era de todo desconfortável tendo em conta dos 40º que se faziam sentir naquela tarde abafada e tipicamente lisboeta. Preparei-me para colocar o cigarro na boca e acendê-lo, há muito que não tocava num e não era que quisesse fazê-lo, mas precisava de tentar pelo menos tirar aquela tensão e frustração do meu corpo, mas não me pareceu que fosse surtir qualquer efeito. Ainda assim fiz uso dele até ao fim e pelo menos fiquei um pouco mais relaxada, um pouco mais livre de pensamentos e conformada para retomar àquele espaço com a ideia fixa de o abandonar. Enchi os meus pulmões de ar puro numa só inspiração e rodei sobre os calcanhares disposta a fazê-lo.

- Ah, era aqui que cê tava! – vi-o bem na minha frente, sem perceber muito bem quais eram as suas intenções, mas ainda assim detive-me na frente dele


***


(David) 

Vi ela saindo, sabia que tava magoada, mas a dor que ela sentia não devia ser nada, nem de perto, comparada com a minha. Tentei parecer muito animado, como se já a tivesse esquecido e por momentos acabei esquecendo mesmo, mas sempre que olhava pro lado, na direcção da pista 4… Meu mundo se voltava a centrar nela, me relembrando todas as razões porque meu coração ainda batia.

- David, é sua voz de jogar, pô! – reclamou o Gustavo vendo que me encontrava perdido nos pensamentos mais sórdidos

- Ah, claro… Sou eu! – rapidamente me livrei daquelas duas jogadas, que saíram miseráveis, mas nem com isso me importei mais e saí na direcção da mesma porta por onde ela havia saído há minutos atrás

- David, vais onde? – perguntou o Ruben, exercendo pressão com a sua mão no meu ombro

- Vou resolver uma questão… - me virei pra ele, disposto a enxergar seu rosto e vi que um tanto quanto de consternação o dominava e óbvio que concluí porquê assim que ele começou falando

- David, não piores mais as coisas… Não a magoes mais, por favor! – suplicou num tom piedoso, mas que a mim não me comoveu em nada

- Não vou piorar nada, vou só conversar… - esbocei um sorriso delicioso assim que minha memória me avivou do que eu planeava fazer

- Não, eu conheço-te… Sabes tão bem quanto eu o que planeias fazer e só te tenho a dizer uma coisa: não vais ganhar nada com isso!

- Eu não planeio fazer nada, Ruben… Me deixa ir, por favor!

- Não vou deixar, vais magoá-la de propósito, vejo isso na tua cara, David…

- E se for, manz?

- Se fores? Ainda perguntas? Ela pode ter errado, David, e sim, com toda a certeza o fez e nisso dou-te toda a razão do mundo, mas ela também é humana, também tem sentimentos e por muito que penses o contrário ela ama-te… Além disso, o David que eu conheço não gosta de fazer mal às pessoas e vais magoá-la, vais acabar por destruir o muito pouco que sobra daquele coraçãozinho…

- Manz, fala a sério! Porque é que eu me hei-de importar com alguém e com os sentimentos de alguém que tá nem aí pros meus? – dei uma resposta muito rápida, soltei um breve sorriso e segui o meu caminho

Dei bem de caras com ela tentando retomar o caminho pra dentro do recinto. Nossos corpos ficaram colados e isso nos primeiros segundos balançou comigo, mas rapidamente vesti minha armadura de ferro, bloqueei meus sentimentos e me preparei para a mais doce vingança.

- Ah, era aqui que cê tava… - murmurei com um sorriso triunfal nos lábios

Ela me olhou nos olhos, senti seu olhar trilhar meu rosto e morrer nos meus lábios, que jamais deixaria ela voltar a beijar de livre vontade e sem meu consentimento. Ao fim de alguns segundos, vi a Adriana baixar a cabeça e tentar se escapar para sair daquele espaço ao ar livre, que era somente frequentado por nós naquele instante.

- Tá pensando que vai onde? – a segurei firme pelo braço e voltei a colar os nossos corpos

- David, deixa-me ir, por favor… Não preciso de ouvir mais nada, eu estou já de saída! – ela tentou voltar a fugir, mas eu não permiti isso, mantendo a mesma posição

- Não vai embora sem primeiro a gente resolver nosso lance! – pela primeira vez soltei o braço dela, que tava começando a ficar vermelho de eu o estar apertado pra ela não fugir

- Mas o que há para resolver?

- Ué, não me diz que não quer ficar de bem comigo… - sorri de forma carinhosa e passei meus dedos nas bochechas dela

- Quero, claro que quero… Tu sabes disso!

- Então vamo’ ficar bem! – meus lábios tocaram o seu rosto e minhas mãos afastaram seus cabelos, abrindo passagem para aquela pele perfumada e irresistível que acabei polvilhando de beijinhos

- Vamos? Assim do nada? – questionou confusa, afinal de contas ela me conhecia bem demais

- Sim, a vida é demasiado curta pra gente perder tempo longe de quem amamos… - proferi cada uma daquelas palavras quase num sussurrou e sempre olhando aquelas dois olhos, que durante um ano se resumiram ao meu mundo

Não dei mais tempo para ela dizer o que fosse e deixei meus lábios roubarem um beijo aos dela. Depois da sua resistência passiva, minha língua abriu caminho e acabou tocando a dela num bailado harmonioso. Confesso que a minha ideia era me vingar, mas aquele beijo estava detonando o que restava do meu frágil autocontrolo. Nossos lábios se descolaram e selaram o momento com dois toques rápidos. Ela sorriu de uma felicidade extrema e eu a acompanhei porque estava feliz por sentir de novo seus lábios, mas queria fazer ela sofrer do mesmo jeito que havia feito comigo.

- Ai, amo-te tanto… - sussurrou e me tentou dar mais um beijo, mas fugi e desatei rindo que nem um bobo possuído de uma crueldade, que não era de todo minha – Estás a rir-te do quê, amor?

- Do quê? Nossa, cê ainda pergunta? – continuei gargalhando ao mesmo tempo que segurava minha barriga e ela me ficou olhando ali, no mesmo sitio, sem se mover um milímetro e aguardando uma explicação – Como cê é boba mesmo…

- Hã? Que queres dizer com isso? – as pernas dela tremeram e devido a esse erro vacilante se segurou na parede, usando uma mão contra a mesma

- Cê achou o quê, bobinha? Que eu te beijava, cê dizia que me ama muito e tava tudo bem? Foi fácil demais essa! – continuei rindo, mas meu coração tava ficando quebrado ao ver os olhos dela ficarem rasos de lágrimas

- Não acredito que estás mesmo a fazer isto… - duas lágrimas percorreram verticalmente seu rosto de candura imensurável e pereceram em seus lábios

- Foi fácil fácil enganar você! – me glorifiquei acompanhando o momento com um sorriso triunfantemente delicioso no rosto

- Tu fizeste isto de propósito para me magoar…? Tu não podes estar a falar a sério! – ela enxugou friamente as lágrimas que ainda lhe molhavam as faces rosadas e me encarou – Eu tenho sentimentos, estás a magoar-me, David!

- Chegou a dor? Sentiu? Viu como dói ser deixado? Viu como machuca ver a felicidade escapando entre os dedos? – falei com uma enorme raiva

- Tu não és assim… O David que eu conheço por muito que tivesse magoado jamais, mas jamais se serviria de uma vingança! Tu sabes que vais acabar por sair tão ou mais magoado do que eu desta situação!

- Eu, machucado? Não devemos estar falando da mesma pessoa… - voltei a me aproximar dela e roubei um selinho dos seus lábios – Não sinto mais nada por você!

- Não mintas, David! Sabes muito bem, que por muito que desejes não me amar, infelizmente ainda o fazes e é provável que os vás fazer por mais algum tempo… - ela falou friamente, mas isso não era impedimento para as lágrimas continuarem a cair a pique dos seus olhos

- Aí é que cê se engana… - beijei ela apaixonadamente

Nossas línguas se envolveram de uma maneira que até aquela data nunca o haviam feito, nem nas noites em que nos tínhamos entregado um ao outro intensamente.

- Cadê a paixão dos nossos beijos? – questionei com um sorrisinho cínico na cara

Havia sentido todo o sentimento daquele beijo, tanto da minha parte como da dela, mas aquilo fazia parte do meu plano e só ia parar quando a visse humilhantemente inconsolável na minha frente.

- Cadê o carinho de cada carícia? – meus dedos trilharam a maçã do seu rosto com um extremo cuidado

Ela estremeceu, fechou seus olhos e as lágrimas se intensificaram quase sem eu dar conta. Seu choro baixinho, se havia tornado descontrolado e ela estava a beira de soluçar que nem uma menina pequena. Puxei ela forte contra mim, pousando as minhas mãos nas suas nádegas e as apertando com desejo.

- Cadê a tesão de cada toque? – sussurrei bem pertinho dos seus lábios fazendo-a acreditar que ia unir as nossas bocas, mas fugindo no último segundo – Sumiu… Sumiu tudo! – gritei afastando os nossos corpos o mais possível

Ela nada fez, se limitou a chorar de olhos postos no chão, que servia de berço para todas as lágrimas que rojavam de seus lindos olhos. Nunca a havia visto naquele estado, chorando com todo aquele desespero, nem mesmo quando seu avô havia falecido. Meu coração mirrou, ficou tão apertado no lado esquerdo do meu peito, que já não estava nem capacitado de sentir meus batimentos, que se haviam tornado fracos e irregulares.

- Isso… Sofre! Sente essa dor! – desejei, mas porém sentindo essa mesma dor, porque quem ama de verdade e machuca, acaba saindo também machucado – Aproveitou bem os beijos? São os únicos que irá ter de mim até ao resto da vida…

- Tornaste-te um monstro! Um monstro! – ela finalmente quebrou o silêncio e fê-lo com um berro estridente

- O que é que cê me chamou?

- Monstro! És um monstro! – vociferou de olhos cerrados e chorando desalmadamente

Aquela palavra despoletou em mim um turbilhão de emoções e me joguei pra cima dela. Me havia chamado monstro? Como era possível? Eu que amava tanto ela… Que lhe queria tanto bem… Segurei seus braços, e se quisesse teria retirado seus pés do chão tamanha a força com que o fazia. Encostei ela com possança contra a parede até se ouvir um estrondo forte e encarei seus olhos. Ela só chorava e me olhava assustada, como se visse um… monstro! Sim, era isso mesmo que eu me havia tornado naquele momento, um monstro!
Quis remediar um pouco a situação e meus lábios automaticamente quiseram provar os lábios dela, mas ela desviou o rosto com uma mágoa imensa no olhar. Tentei fazê-lo outra tantas vezes, mas com ela sempre fugindo e por uma vez tentou fugir dos meus braços. Aí nem pensei mais, puxei ela pelo braço esquerdo, voltando a encostá-la contra a parede e uni as nossas bocas incessantemente. Foi um beijo longo, totalmente louco e muito sentido. Acho que senão estivéssemos em plena rua teríamos feito amor ali mesmo, sem pensar mais no assunto… Mas na minha cabeça aquela carta se avivou… Cada palavra, cada linha, cada despedida e com elas, uma enorme revolta se voltou a apoderar de mim.

- Nossa, como seu gosto tá mau desde que deixei você! – debochei da cara dela, assim que senti um sabor a tabaco na sua boca

Foi a humilhação final, ela não conseguiu dizer mais nada, me empurrou pra longe de seu corpo e desatou chorando. Seu corpo deslizou pela parede fora e aterrou no chão, onde ficou chorando… Sozinha! Porque eu a mirei uma última vez e voltei pra dentro, na promessa de nunca mais a desejar beijar, nunca mais a desejar querer, mas eu sabia que ia ser sempre assim, aquele amor não tinha jeito…



****


(Adriana)

Nunca tinha visto o David assim, tão vingativo… Tinha-me roubado um beijo, feito acreditar que tudo estava bem e iria ficar ainda melhor, para logo de seguida me humilhar, atirar o meu coração ao chão e pontapeá-lo como foi sua vontade. Não estava mais disposta a suportar nada daquilo! Assim que ele se foi embora, com um sorriso glorioso no rosto, igual ao que esbanjava sempre que vencia um jogo, levantei-me e procurei a porta de entrada. Enxuguei as lágrimas e fui directa à pista 4 chorando ainda silenciosamente.

- Adriana… - murmurou Kika baixinho vindo logo na minha direcção

- O resto das meninas? – perguntei confusa, quando vi a pista vazia

- A Catarina foi comprar mais um jogo para todas e a Ana e a Débora foram comprar sumos! – enquanto ela falava eu fui enfiando na minha mala o telemóvel, os óculos de sol e a carteira – Mas vais embora?

- Sim, vou… Não consigo mais estar aqui! – levantei a cabeça para a olhar nos olhos

- Adriana, que aconteceu? Porque estás nesse estado? – ela tocou as minhas faces eliminando algumas das lágrimas que aí tinham encontrado o seu abrigo

- Não quero mais falar nisso, só me quero ir embora… - pedi chorando e tremendo por todo o lado

- Vamo’ embora, gente… Esse sitio ainda ficando muito mal frequentado! – o David e os que o acompanhavam passaram por nós nesse momento em direcção à saída

Assim que fiquei em porto seguro, longe dele e dos que me eram conhecidos, o meu corpo tombou sobre a cadeira e o meu peito rebentou num soluçar aflitivo. Senti os braços da Kika envolverem-me e embalarem-me até ficar calminha. Ou melhor, até deixar de chorar e conseguir levantar-me para ir embora.


***


- Não vás já… - pediu a Catarina com uma expressão de tristeza no rosto

- Desculpem, meninas, mas não consigo ficar e divertir-me mais hoje…

- Oh, pequenina… - ela abraçou-me – Vais como? Queres que te dê boleia?

- Não precisas, amor… Estou de carro, está lá em baixo nas garagens!

- Nós levamos-te lá… - ofereceu-se rapidamente, mas eu queria mais era estar sozinha, sentir-me em porto seguro… no meu porto seguro!

- Desculpem, mas prefiro mesmo ir sozinha… É preferível! – esbocei um sorriso forçado e triste

- Tens a certeza?

- Sim, absoluta! – acenei positivamente com a cabeça somente duas vezes – Obrigada pela tarde, meninas!

- Oh, não tens de agradecer, queríamos era que te tivesses divertido mais…

- Deixem lá isso… Aproveitem vocês o resto do jogo! – dei um beijinho e um abraço em todas

- Vai dando notícias, sim? – a Catarina desviou compreensivamente uma mecha de cabelo, que me caía sobre os olhos

- Sim, tu também! – trocámos um último sorriso e eu segui o meu caminho, desta vez sozinha

Comecei a caminhar para fora do Funcenter com o desejo de chegar a casa o quanto antes, pois sabia que já se adivinhava uma noite longa de choro e sofrimento. Aquela atitude de David tinha-me magoado de todas as maneiras possíveis, ele tinha sido um autêntico monstro e eu sabia que ele não era assim, mas eu estava somente a pagar a factura do que lhe havia feito e por isso, e só por isso, não me sentia capaz de o julgar. Passei novamente pela loja preferida dele, baixei a cabeça e ao contrário do que era normal, não me detive em frente à montra buscando algo para lhe oferecer, algo que fosse “a sua cara”, algo que ele gostasse… Limitei-me a caminhar sempre em frente e só virei à direita, quando cheguei à zona da restauração. Eram quase cinco da tarde, mas não havia quase ninguém nos cafés e restaurantes. Desci os óculos de sol para a cara e automaticamente os meus olhos ficaram rasos, pelo menos assim ninguém os poderia ver. As lágrimas começaram a rolar pelas minhas faces e eu limitei-me a enxugá-las, mas sem nunca travar a minha marcha. Quando passei em frente à casa dos crepes, reconheci os pais de David sentados numa mesa, estes acenaram-me e fizeram sinal para que me aproximasse, mas quando ia fazê-lo vi o David, o Gustavo e o Ruben chegarem com os tabuleiros cheios… Detive-me, sem saber bem o que fazer. E agora?

Antes de mais tenho mesmo de agradecer por todas as palavras que deixaram nos comentários ao último capítulo, estes incentivos são sempre importantes, não se esqueçam disso!
Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem!
Não se esqueçam de comentar! :)
Beijinhos
Drii


sábado, 16 de julho de 2011

Capítulo 111 – A vida segue... (Parte I)


Dois dias depois do confronto com David os ânimos estavam mais calmos. Eu já não chorava a toda a hora, não tinha o maior sorriso do mundo na cara como se pode imaginar, mas estava de pé… Tinha força para seguir em frente, para seguir com a minha vida e para já, isso era o necessário.
A primeira que coisa que fiz foi livrar-me de todas as recordações dolorosas de David e da nossa relação.
Fui à dispensa e trouxe de lá uma caixa de cartão. Caminhei até à sala e coloquei-a no centro da mesa de apoio, pois tinha como destino todas as provas de que o nosso amor havia sido real, mas mais do que isso… Que havia sido vivido!
Comecei por recolher todas as fotografias minhas e dele, quer do quarto, quer da sala ou do hall e coloquei-as bem no fundo da caixa. Por cima acrescentei tantas outras coisas, desde livros, CD’s, flores já secas e terminei arrumando algumas camisolas dele, que estavam entre os meus pertences.
Aquela caixa fez pousio debaixo da cama do quarto de hóspedes e estava determinada a não lhe tocar por tempo indefinido, pelo menos até o meu coração estar recomposto, se é que isso algum dia seria possível…
Fui até à cozinha na esperança de conseguir preparar alguma coisa para o almoço, mas foi totalmente em vão, só de olhar para aquela comida toda fiquei enjoada e cansada, por isso acabei por me jogar no sofá e aí fiquei até o som irritante do meu telemóvel me interromper o descanso.

- Estou sim? – coloquei o telemóvel no ouvido e sentei-me no sofá

- Alô, alô, miúda! – uma voz doce e calma, que me era familiar surgiu do outro lado do telefone

- Catarina? És tu? Oh meu Deus, que saudades! – um rasgo de ternura preencheu todo o meu coração em cacos  e finalmente consegui sorrir – Que é feito de ti, miúda?

- Olha, regressei a Lisboa… Finalmente em bom porto!

A Catarina era uma colega minha dos tempos do secundário, uma sportinguista ferrenha, mas que tinha estado do meu lado em quase todos os momentos amargos que a vida me proporcionara.

- Ai, estás em Lisboa? Que bom, que bom! Temos de marcar qualquer coisa…

- Claro que sim, tenho de aproveitar antes que a tua onda de concertos comece, senhora estrela! – ela riu-se e eu também, por muitos problemas que aquela miúda pudesse ter na sua vida, um sorriso nunca lhe faltava

- É quando tu quiseres, meu amor! – afirmei alegremente, pois achei que talvez me fosse fazer bem conviver com uma pessoa que amava muito e era naturalmente muito bem-disposta

- Então é daqui a duas horas no Colombo! – a sua voz espevitada apanhou-me de surpresa e com o olhar percorri a minha figura, que ainda se encontrava dentro de um pijama

- Daqui a duas horas? Estás doida! – gargalhei levemente, pois não levei a sério a sua proposta visto que era tão em cima da hora

- Não, estou a falar muito a sério… Já me chegou aos ouvidos que andam umas tristezas para esses lados e por isso quero-te muito rapidamente no Colombo, linda e maravilhosa para uma tarde só de mulheres!

- Uma tarde de mulheres? Mas e então a faculdade? Tenho aulas daqui a uma hora e meia…

- Não importa, já passaram os exames e os trabalhos, ias para lá pastelar e além disso as meninas vão todas faltar! Vá lá, vem connosco, vai ser divertido e sempre matamos saudades… - tornou-se difícil e impiedoso resistir àquele pedinchar saudoso de Catarina

- Pronto, topadíssimo! Daqui a duas horas no Colombo então… - sorri levemente

- Ah, assim é que e falar! Encontramo-nos naquele largo principal como sempre, pode ser? – questionou-me e por trás ouvi as comemorações das restantes meninas

- Sim, lá estarei daqui a duas horas!

- Não te atrases!

- Nada disso, relaxa… Beijinho, gatita!

- Beijinhos, princesa! Adoro-te!

- Também te adoro, pequena! Até já… - desliguei o telefone e respirei pesadamente

Era certo que a vida seguia, que era altura de sair, de me divertir, de ver novas caras e conhecer nova gente, mas ainda era tudo muito recente e apesar de eu aparentar estar bem e feliz, pelo menos minimamente, por dentro sentia-me em estilhaços. De qualquer das formas, acabei por levar a cabo um esforço extra e ir encontrar-me com as meninas. Como sempre detestei chegar atrasada onde quer que fosse, corri para o duche, escolhi uma roupa muito rápida e simples e saí de casa, tendo como destino as garagens do Colombo.
Só o simples acto de ter tocado o volante do meu carro e ter rodado a chave na ignição fez com que vacilasse e por consequência disso, todo o percurso foi feito com as lágrimas a correrem-me a fio pelas faces. Dei graças a Deus por ter levado óculos de sol e não ter colocado maquilhagem naquele dia, pois assim sempre dava para disfarçar um bocadinho.


- Ela nunca mais chega… - ao chegar por trás delas ouvi a Catarina lamentar-se num tom de voz dominantemente tristonho

- Se calhar apanhou trânsito, também a avisaram mesmo em cima da hora! – disse Ana, outra das minhas amigas do tempo do secundário

- Estou mesmo aqui! – esbocei um sorriso forçado e coloquei-me na frente delas

- Oh piolha, que saudades! – a Catarina lançou-se na minha direcção e acabou por me abafar num dos seus abraços carregados de ternura

- Podes crer, miúda… Que saudades!

Queria ter sido mais amável, mais carinhosa, mas o meu coração estava tão partido pelos acontecimentos recentes que não consegui. Acho que elas perceberam que algo não estava bem e por isso não disseram mais nada. Cumprimentei todas, uma por uma: Débora, Ana, Catarina e Kika. O grupinho de sempre novamente reunido para uma tarde de animação, pelo menos para elas. Seguimos para a Pizza Hut e ficámos numa mesa redonda de cinco.

- Não sei o que hei-de comer… - rabujou a Ana ao ler a ementa pela centésima vez e já com o empregado de mesa à espera somente do seu pedido

- Oh Ana despacha-te, o senhor está à espera… - relembrou Kika dando um gole no copo de ice tea que entretanto o senhor já trouxera

- Não se preocupem, eu tenho tempo… - respondeu-nos sorridente e calmo

- Olha pode ser uma pizza vegetariana então… De massa fina!

- Pronto, trarei já os pedidos! – o senhor sorriu uma última vez e retirou-se na direcção da cozinha

- Aleluia, estava difícil, Ana! – a Catarina riu-se levemente, pois não perdia uma oportunidade que fosse para provocar alguém

- Oh, sabem como sou… Gosto de pensar bem nas coisas! E não sabia bem o que me apetecia comer!

Nesse exacto momento as restantes meninas, exceptuando a Ana a eu, que estava completamente longe de tudo aquilo, reuniram-se num uníssono perfeito.

- Há coisas que não mudam! – aí todas gargalharam fortemente, tendo mesmo a mesa do lado reparado em nós e rido também, mas eu não fui capaz, limitei-me a sorrir levemente enquanto as minhas unhas brincavam com o papel da mesa

A diferença de animação que se fez sentir no grupo, levou a que elas trocassem olhares entre si, intercalando-os com outros piedosos sobre mim. Elas conheciam-me, sabiam que algo não estava bem, algo não estava certo e não conseguiram conter-se.

- Não vais tirar os óculos de sol? – perguntou Débora meio a medo

- Aqui dentro não está muita claridade… - apontou Ana de forma cautelosa

- Sim, têm razão! – forcei um sorriso e iniciei o movimento para o fazer

Sabia que o meu aspecto não devia ser dos melhores. Encontrava-me sem maquilhagem e com os olhos fatalmente vinculados pelas poucas horas de sono e as muitas de choro. Retirei-os e deixei expostos os meus olhos inchados em consequência de todas as lágrimas que derramara naquelas últimos dias. Elas olharam-me em sinal de admiração, pois já me conheciam há mais de cinco anos e muito dificilmente me tinham visto daquele estado. Forcei um sorriso e coloquei os óculos sobre a mesa, do lado do meu telemóvel.

- Adriana… - Catarina, que se encontrava na minha frente, murmurou muito baixinho

- Que foi? – perguntei com um sorriso na cara, que tinha tanto de grande, como de falso

- A tua cara… - ela proferiu estas palavras quase num sussurro, mas que me foi totalmente perceptível

- Que tem? Estou assim tão feia sem make? – acabei por arrastar o tema para a brincadeira, mas só para não dar parte fraca

- Tu deves estar farta de chorar, tens os olhos num estado lastimável… - confirmou Catarina, olhando-me carregada de preocupação

- Não, deve ser impressão tua! – voltei a falsear um sorriso de orelha a orelha

Quando uma delas ia tentar retomar a conversa fomos interrompidas com a chegada dos pedidos e agradeci por isso

- Ora aqui estão os pedidos… - constatou o senhor posicionando os tabuleiros no centro da mesa – Espero que esteja do vosso agrado, bom apetite!

- Obrigada! – respondemos todas em uníssono

Antes que o tema anterior à chegada da comida se retomasse, servi-me da primeira fatia de pizza e comecei a comer calmamente, sem lhes dar grande bola. Queria simplesmente estar no meu canto, sem ninguém a fazer-me perguntas, sem ninguém a relembrar-me constantemente da presença do David, ou melhor da presença que ele em tempos ocupara na minha vida e que naquele momento era substituida somente pela sua ausência.

- Hum, está deliciosa! – tentei meter conversa, ao reparar nos olhares à deriva sobre mim enquanto comiam

- Tu não vais mesmo falar sobre o que aconteceu para estares assim? – a Catarina não era mulher de desistir por nada, nem mesmo por uma finta como a que eu tinha feito, ou melhor, que tinha tentado fazer

- Não há nada pra falar… E eu não estou assim, não estou de modo nenhum, estou simplesmente eu, a Adriana de sempre…

“… a Adriana de sempre, antes de ter conhecido o David” acabei por completar nos meus mais profundos pensamentos, relembrando assim todos os motivos que me tinham levado àquele deprimente estado de alma, que teimava em se reflectir no meu rosto, estampando-o de consternação e tristeza.

- Não sei quem estás a tentar enganar, mas as tuas amigas de anos e anos, não é de certeza… - relembrou Kika que se prostrava do meu lado direito na mesa

- Meninas, eu estou bem, a sério que sim… - tive de parar de falar um pouco, pois senti os meus olhos a quererem ceder e renderem-se às emoções evidentes e tão recentes – Não tenho nada, que não acabe por passar com o tempo!

Acho que por me verem quase à beira das lágrimas, elas preferiram não insistir mais no assunto, uma vez que foi perceptível, toda a dor que me provocava. Os temas acabaram por derivar, ao fim de alguns minutos de silêncio, e quando retomei à realidade, quando o meu coração permitiu à minha cabeça esquecer o David e as nossas recordações durante alguns minutos, dei com elas a actualizarem-se dos relacionamentos umas das outras e sabia que isso iria ter um preço… pelo menos para mim!

- Então e tu, Adriana… Como vão as coisas com o David? – questionou Débora inocentemente, uma vez que elas nada sabiam do sucedido, mas isso estava prestes a mudar

Automaticamente que ouvi o nome dele vindo da boca de outra pessoa, o nó que eu tanto demorara a desmanchar de dentro do meu coração durante aqueles dias, voltou a surgir e mais apertado do que nunca. Compreendi que eu não amenizara em nada a dor naqueles dias, somente a tinha ignorado, a tinha camuflado de novas sensações e sentimentos, mas naquele momento veio tudo ao de cima. Apesar das lágrimas terem turvado momentaneamente os meus olhos, encarei-as e assumi uma postura de frieza, que não era de todo habitual em mim, mas era minha maneira de me defender da dor que estava a sentir e em parte, uma maneira de permitir que essa mesma dor não se agravasse devido ao facto de estar a falar nele.

- Não vão! – uma resposta curta e breve, mas que ainda assim me fez soluçar de emoção

- Como assim, não vão? – a Catarina olhou muito espantada para mim e aqueles seus olhos azuis esverdeados, ficaram nublados por um cinzento desinquietante

- Muito simples… Não vão! – voltei a firmar a resposta anterior e dei uma dentada na minha fatia de pizza, como se estivesse a falar do assunto mais natural do mundo

- Como assim? Acabou? – questionou a Ana de olhos esbugalhados e boca semiaberta num perfeito “O”

- Sim, acabou…

- Acabou e tu estás assim? Calma... A falar com essa descontracção? – a Débora conhecia-me e sabia que estava somente a montar um personagem que era completamente distante do meu verdadeiro “eu”

- Que querem que diga? Acabou, acabou e agora é seguir em frente…

- Adriana, hello?! Estamos a falar do mesmo David? Do teu David?

- Sim, estamos a falar do que era o meu David… Acabou meninas!

- Como é que estás? – perguntou a Catarina, numa voz oscilante pelo medo e receio de me ver chorar

- Bem, vai dando pra levar… Não há nada que o tempo não cure! – esbocei um ténue e forçado sorriso e continuei a comer

- Adriana, podes falar connosco, somos tuas amigas… Ninguém te quer tanto bem como nós! Podes ser sincera e dizeres o que estás a sentir…

- Querem mesmo saber? – fiz uma breve pausa até todas acenarem positivamente com a cabeça – Estou uma merda, apetece-me chorar e gritar a toda a hora! Sinto-me totalmente desamparada e sem vontade de voltar, mas tirando isso estou bem, muito bem!

- Como é que isso aconteceu? – percebi que de todas a Catarina era a mais surpresa ou talvez por ser curiosa, fosse a que procurava mais respostas

- Os jornais… - concluiu Ana, antes mesmo de eu dizer o que fosse

- Sim, isso mesmo… Ele ia recusar a proposta por minha causa e então eu deixei-o, é o melhor para todos!

- Deixaste-o, Adriana? – a Débora mostrou-se muito surpreendida

- Sim, deixei-o e peço desculpa, mas não quero falar mais no assunto meninas… - decidi recolher-me um pouco, expor os meus sentimentos e emoções não era de todo um dos meus actos preferidos, uma vez que era característica própria da minha personalidade resguardar-me sempre que sofria

Elas não insistiram mais no assunto e o almoço prosseguiu acompanhado de uma partilha de histórias do primeiro ano de faculdade, pelo menos da parte delas, pois eu limitei-me a ouvir, ou pelo menos a fingir que ouvia. Quando chegámos ao fim, dividimos a conta em cinco partes iguais e assim procedemos ao pagamento.

- Bem, acho que vou andando para casa… - disse enquanto nos encaminhávamos para fora do restaurante

- Já?

- Sim, tinham pensado em mais alguma coisa?

- Claro, achas que eu vinha a Lisboa, planeava uma farra e limitávamo-nos a almoçar? Estás doidinha, só pode!

- Oh, não ligues… Quais são os planos então?

- Já vais ver! – a Catarina sorriu e puxou-me por um braço

À medida que nos afastávamos da zona de restauração e nos aproximávamos da zona das lojas, comecei a perceber para onde ela nos levava. Por momentos achei que estava louca, que ela não ia fazer uma coisa daquelas e por isso aguardei em silêncio até chegarmos ao destino. Pelo caminho tive de passar em frente a uma das lojas preferidas de David e de onde provinham a maioria das suas roupas. Uma nostalgia invadiu-me ao recordar todas as vezes que o acompanhara nas idas àquela loja para comprar qualquer coisinha nova e que lhe assentava sempre como uma luva. A Catarina sentiu as minhas pernas vacilarem e o ritmo das minhas passadas abrandar quando passámos à porta e por isso mesmo puxou-me com alguma veracidade, não me permitindo cessar o trilho que percorríamos lado a lado, rumo a um dos piores sítios possíveis para eu frequentar naquele momento.

- E aqui vamos nós! – gracejou com um enorme sorriso no rosto

Ela parou no destino, que eu já adivinhava como certo: o Funcenter. Iriamos com toda a certeza jogar bowling e que pior lembrança poderia haver naquele momento, que me atirasse para tão perto de David? Era certo que o momento ia doer, ia machucar e então estava na hora de montar a minha melhor personagem… A mais convincente, a mais segura e a mais certa. Esbocei um sorriso falso e forçado e olhei para todas com uma certa naturalidade, que nada tinha de sincera.

- Boa tarde, jogo para 4 pessoas! – solicitou a Catarina, pois como sempre a Kika estava de fora, não se ajeitava nada com aquilo, então preferia nem sequer gastar dinheiro

- Preferência pela pista? – questionou o empregado

- Ah… - antes que a Catarina falasse, resolvi interrompê-la

- Pista 4, por favor… - solicitei com um sorriso, pois sempre que ia com o David ali havia uma discussão devido à minha preferência pela pista 4 e pela preferência dele pela pista 1

- Com certeza… Sapatos?

- Três 37 e um 38, por favor! – a Catarina segurou a minha mão assim que me sentiu mais nervosa e creio que nervosa não era bem a palavra correcta

Eu estava somente nostálgica, queria por um lado sair dali e livrar-me das recordações que já atabalhoavam os meus pensamentos, sem ainda sequer ter posto a bola a rolar, mas por outro queria ficar, ficar e enfrentar a dor… Deixar de ser cobarde, deixar de me lamentar, deixar de sofrer e enfrentar tudo! Enfrentar este mundo e o outro, enfrentar as incertezas dos rostos desconhecidos, enfrentar o júbilo desinquietante daqueles que me eram tão próximos e estavam tão felizes, completamente alheios à minha dor. A obrigação que tinha para com elas, colou os meus pés ao chão e apenas me permitiu movê-los em direcção à pista… à 4, como havia solicitado.

- Vamos lá a isso, minhas meninas! Cheira-me que hoje vão levar uma daquelas e saem daqui de pernas bambas! – gabou-se Catarina na sua típica expressão animada, que era capaz de entusiasmar qualquer um e em qualquer outro dia isso teria funcionado comigo, senão estivesse onde estava

- Sim, sim, confia nisso, Catarina, mas confia só! – a Débora soltou uma gargalhada estridente enquanto calçava os sapatos de jogo

- Adriana, não te vais calçar? – perguntou Ana, que estava sentada do meu lado desempenhado essa mesma tarefa

- Sim, vou… Claro! – depois de despertar do meu mundo de lembranças, encerrei o enorme álbum do passado, que estava escancarado no meu pensamento e decidi tentar divertir-me um bocadinho, ou pelo menos fazer uso ao dinheiro que tinha gasto para aquelas jogadas

- Catarina, és a primeira! – disse Kika super entusiasmada e enquanto espectadora, quando a listagem da ordem de jogo surgiu no ecrã de jogadas

- Aqui vou eu, caras amigas! – ela segurou uma bola firmemente e lançou-a para um strike quase perfeito, que apenas não se realizou por teimosia de dois pinos, que apesar de terem balançado, não tombaram – Viram? Façam melhor se conseguem! – ela deu um leve toque de anca e todas se riram

Seguiu-se a Débora, que como sempre não melhorara ainda em nada o seu jeito para o bowling e somente conseguiu derrubar dois pinos. Depois veio a Ana que apesar da sua falta de jeito no lançamento da bola, conseguiu derrubar todos os pinos logo à primeira tentativa. Todas comemoraram e seguiu-se a minha vez. Avancei para a pista sem qualquer convicção, mas no entanto não me foi nada difícil derrubar tudo de uma só vez, porém fi-lo sem nenhum sorriso nos lábios.

- Boa, miúda! – ouvi a voz de Catarina nas minhas costas

Falseei um novo sorriso e quando rodei a minha cabeça, acompanhando o meu corpo, de frente para ela, tive uma imagem perceptível do que não queria ver pelo menos nos próximos tempos: David. Ali estava ele, encabeçando a pista onde jogava com as meninas, do lado dele tinha um amigo, que eu conhecia somente de vista. Um sorriso cínico delineava cada traço da sua expressão e a cada movimento seu tinha mais a certeza que estava fixo em mim, nas minhas acções e formas de agir. Nada disse, limitei-me e sorrir para as meninas, entretanto um pouco mais composta, mas nem assim consegui demonstrar ponta de felicidade.

- Nossa, é muito atrevimento… - ouvi o David murmurar junto do amigo, mas ainda assim fingi que não me tinha sido suficientemente audível

Virei costas e sentei-me no meu banco, onde na frente se delineava a sombra dele, que nem por um segundo me deixou de atormentar. Vi que as meninas olharam surpresas para mim, quando o viram ali, mas naturalmente que não se atreveram a tocar no assunto, nem que fosse de raspão, nem que sem intenção de me magoarem.

- Estás bem? – sussurrou Kika juntinho do meu ouvido e limitei-me a rasgar um pequeno sorriso e assentir positivamente com a cabeça

Vi o David juntar-se a um grupo de pessoas na pista 1, como era claro! Distingui rapidamente os seus pais, Ruben, Gustavo e uma rapariga, que era muito sorridente e natural. Um laivo de curiosidade e ao mesmo tempo de ciúmes, despoletou em mim uma roda de sentimentos e emoções. Será que ele teria arranjado alguém? Assim tão rápido? Questionei-me a mim mesma durante alguns segundos, mas após observar melhor os traços da jovem moça percebi que já a vira antes, em qualquer lado… Só não sabia bem onde.



Antes de mais tenho mesmo de agradecer por todas as palavras que deixaram nos comentários ao último capítulo, estes incentivos são sempre importantes e fazem-me escrever ainda com mais prazer!
Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem!
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Beijinhos
Drii