Engoli as lágrimas que ainda queriam cair, desviei o olhar noutra direcção e coloquei as mãos nos bolsos. Estava determinada a passar por eles como senão tivesse visto os seus sinais e rumar directa a casa. Ao aproximar-me da mesa coloquei o meu olhar no chão e avancei rapidamente, para acelerar o momento. Já tinha ultrapassado a mesa e festejava sozinha com os meus pensamentos. “Yes, desta já me livrei! Obrigada meu Deus!”, pensava eu quando fui surpreendida.
- Ei garota! – ouvi a voz do Gustavo, que me chamou a pedido da Dona Regina, mas nem isso me fez parar ou abrandar o passo acelerado – Ei, Adriana!
- Bolas! – vociferei entre dentes devido à insistência dele e fui obrigada a parar, olhando para trás de forma a vê-los
- Não viu eu te fazendo sinal, minha filha? – questionou a Dona Regina, enquanto em passadas curtas e receosas, eu me aproximava da mesa deles
- Não vi, Dona Regina… Desculpe! Boa tarde a todos! – cumprimentei assim que alcancei a cabeceira da mesa, ficando mesmo frente a frente com David, que se encontrava sentado na outra ponta – Precisa de alguma coisa? – retirei os óculos e arrastei-os para o topo da minha cabeça
- Não… Só queria convidar você pra sentar aqui com a gente! – ela sorriu educadamente
Posso dizer que fiquei surpreendida com o convite, pois só demonstrava que ela não estava magoada comigo, não guardava qualquer rancor e devia ser das poucas pessoas que compreendia a minha intenção quando o deixei. Só o queria proteger, só lhe queria dar a hipótese de voar mais alto, mas não valia a pena pensar nisso naquele momento, afinal o passado é de pedra e já ninguém o podia mudar.
- O quê?! – o David não demorou nada a reagir e eu limitei-me a baixar o olhar assim que ouvi a sua voz – Só pode ‘tar brincando… - murmurou em surdina e soltando um sorriso cínico para Ruben e Gustavo, que o encararam com um olhar repreendedor
- Olha aí, puto… - alertou Ruben, dando-lhe sinal para acalmar um pouco
- Obrigada pelo convite, mas não vou puder aceitar… Estou com um bocadinho de pressa, tenho mesmo de ir… - agradeci num tom de voz cordial e educado, que se fez acompanhar de um terno sorriso àquela pessoa que eu já tinha em conta como uma figura maternal
- Oh, que pena… Não pode mesmo ficar? Só uns minutinhos…
- Mãe, se ela falou que não pode, deixa ela ir! – o David falou de forma agressiva e quando a mãe o ia repreender, surpreendentemente foi o Sr. Ladislau a fazê-lo
- Filho, cala a boca… A conversa não é com você e está passando os limites!
- Desculpem, eu não quero provocar desconforto a ninguém… Eu vou mesmo indo! – esbocei um último sorriso
- É, vai mesmo! Já vai tarde, segue e some, não aparece mais nas nossas vidas! – desejou o David, retaliando-me
- Davi’, tá abusando… - sussurrou-lhe Gustavo, olhando-me com uma enorme pena
- Minha filha, senta por favor… - implorou a mãe dele, como se quisesse usar aquele lanche para se desculpar da atitude que David estava a ter
Nesse momento surgiu nas minhas costas a única pessoa que naquele momento me poderia trazer problemas, ou melhor, ainda mais problemas! O Diogo… Este saía do restaurante de sushi com uma pequena encomenda nas mãos e caminhava, enquanto fechava a carteira.
- Obrigado, até à próxima! – disse educadamente ao senhor do restaurante e o seu tom de voz, habitualmente animado, fez despertar o olhar das pessoas que estavam sentadas na mesa à minha frente
Também parei a conversa para o olhar, ele viu-me, mas não se aproximou, seguiu como senão me tivesse visto. Ao menos assim, poupava-me qualquer constrangimento, poupava-me um novo olhar de censura de David, pelo menos pensava assim, até este ter aberto a boca, para me apunhalar com as suas palavras.
- Vai… Vai lá deitar na cama dele! – jogou assim para o ar e desta vez não se coibiu de o fazer de forma suficientemente audível
Tive de fazer um esforço enorme para que nenhuma das lágrimas, que pendiam nos limites dos meus olhos, caísse e denunciasse o meu lastimável estado. Cada palavra que ele proferira naquela tarde tinha sido um novo soco no estômago, uma nova facada nas costas e nem sei dizer qual delas doeu mais, mas sem dúvida que aquela espécie de acusação entrou no meu coração para nunca mais sair. Todos olharam David tão surpresos quanto eu, vi que a Dona Regina acabara de atingir o seu limite de paciência com ele e antes que pudesse trazer alguma desavença àquela família, resolvi afastar-me.
- Estou mesmo com pressa, peço desculpa a todos! – acenei educadamente com a cabeça, coloquei os óculos na cara, porque já sentia as lágrimas a quererem sair e comecei a afastar-me
- Adriana! Adriana! Espere, minha filha! – nem a voz da Dona Regina me barrou, segui o meu caminho em direcção às garagens e não olhei mais para trás
***
Agarrei no meu telemóvel porque me sentia incapaz de conduzir naquele estado de nervos e a pessoa a quem ligar foi mais do que óbvio... Para a única pessoa que havia estado presente nos últimos tempos, para a única pessoa que eu sabia que jamais me iria falhar e que jamais me deixaria cair: a minha Paulinha.
- Alô Alô, gatita! – assim que ouvi a voz dela do outro lado da chamada, o meu choro tornou-se mais compulsivo – Amor, que tens? Que aconteceu? – perguntou imediatamente
- Vem-me buscar… Tira-me daqui, não aguento mais isto! – supliquei completamente perdida nas garagens
- Tem calma, meu amor… Que aconteceu? Onde estás?
- Estou nas garagens do Colombo… Não encontro o meu carro, o David está cá, quero sair daqui! Quero sair…! – gritei ao mesmo tempo que a minha mão, de punho cerrado, voo para soquear um poste
- Tem calma, sim? Respira fundo, olha com calma até encontrares o teu carro e eu vou tentar chegar aí o mais depressa possível!
- Obrigada, Paulinha, obrigada! – agradeci em total desespero e a chorar de forma descontrolada
- Não me agradeças e por favor, vê se te acalmas, shim? Para me puderes ajudar a encontrar-te aí, amor…
- Sim… Sim… Isto já passa… - disse entre soluços
- Até já, vou voar para ao pé de ti, princesa! Amo-te! – jurou na sua voz sempre doce e meiga
- Até já… Também te amo, Paulinha! – solucei e desliguei a chamada, porque finalmente avistei o meu carro
Tive a certeza que era o meu pela matrícula, era a única forma de o distinguir do de David, que se encontrava uns metros mais à frente. Deixei-me escorregar parede abaixo e foi sentada no chão, que lavada em lágrimas, esperei que alguém me viesse buscar.
- Adriana… - uma voz familiar interrompeu os meus pensamentos
- Diogo? – ergui a face e vi-o na minha frente, bem ali na minha frente…
Não mudara em nada as suas expressões faciais, se bem que o seu corpo tinha tomado contornos mais de homem e agora estava perfeitamente esculpido pelos dezanove, quase vinte anos, de que era dono.
- Ei, estás a chorar? – ele olhou-me com uma vivacidade no olhar, uma vivacidade que lhe desconhecia e que por momentos confundi com preocupação
- Não é nada, Diogo… - enxuguei as lágrimas e rapidamente me levantei do chão
- Como não é nada? Estás a chorar, miúda… - ele tocou-me suavemente e a minha cabeça viajou até outros tempos, àqueles em que ainda namorava com ele – Foi alguma coisa com o David?
- Sim… Nós acabámos… - revelei por entre soluços e os meus olhos voltaram a ficar rasos de lágrimas
- Oh miúda, não fiques assim… - o seu tom de voz foi estranhamente carinhoso, nunca poderia esperar aquela atitude de Diogo, muito menos depois de tudo o que já se havia passado entre nós
- Eu amo-o… Ainda o amo… - sussurrei chorando silenciosamente, mas sem ter coragem suficiente de fixar o meu olhar no dele
- Ai pequenina, vem cá…
E pela primeira vez desde que o conhecia, Diogo foi humano… Sim, humano, porque se consciencializou do meu estado de fraqueza e no entanto não teve qualquer intenção de se aproveitar disso. Abraçou-me… Um abraço de amigo, não um abraço de quem procurava mais alguma coisa, de quem esperava colher qualquer fruto de todo aquele sofrimento. Um simples e longo abraço de amigo… Senti-me muito bem, porque além de estar surpresa por ver o velho Diogo na minha frente, estava a receber um aconchego quando mais precisava dele.
- Ai… - ciciei, soltando uma respiração bafejada contra o peito dele
- Calma, não fiques assim… Por favor, mata-me ver-te assim… - ele apertou-me mais contra si e foi passando os dedos pelos meus cabelos
Não sei explicar, mas aquilo de alguma forma surtiu um efeito relaxante em mim, pelo menos fez-me parar de chorar tão intensamente. Não sabia o porquê dele estar a fazer aquilo, mas li em cada gesto de ternura por parte dele, uma extrema vontade de me ver sorrir… Era só isso que ele pretendia.
- Epá miúda, não sei que raio de efeito é esse que tens, mas ficas ainda mais encantadora com esses olhinhos de choro… - ele passou o seu indicador na ponta do meu nariz e inevitavelmente soltei uma pequena gargalhada
- E não sei que raio de efeito é esse que tens, mas sorrir era a última coisa que esperava vir a conseguir fazer hoje… - confessei desviando uma madeixa dos meus cabelos para trás da orelha
- Também não te sei dizer, mas ainda bem que funciona, pois prefiro mil vezes ver esse sorriso lindo na tua carinha, piolha! – ambos sorrimos e olhámo-nos
Desde que namorava com David que nunca mais ficara tão próxima de Diogo e logo com aquela paz toda pelo meio. Talvez fosse alguma espécie de sinal… De que David fora um meio para eu chegar àquele fim, que surpreendentemente um dia, havia sido o início de tudo. Tive vontade de bater em mim própria por equacionar tamanha estupidez, mas eu não podia negar que Diogo estava diferente… Amava-o? Não, nem por sombras! Gostava dele? Nem tão pouco mais ou menos, mas como ser humano capacitado de sentimentos e emoções, não podia negar que aquele golpe de misericórdia era no mínimo tocante. Contudo a minha felicidade adivinha-se tão longe daqueles braços, daquele coração, daquele homem… A minha felicidade estava com David e essa havia-nos sido roubada no mesmo instante em que eu selei aquela carta e saí por aquela porta, deixando para trás somente um turbilhão de palavras...
***
(David)
Assim que a Adriana fugiu de nós senti os olhos de todos presos em mim, mas ainda assim continuei a comer, com um enorme peso na consciência pelo que havia dito e feito a ela naquela tarde.
- Oiça bem, David, porque eu só vou dizer uma vez! Que seja a última vez que você age dessa maneira, porque essa não foi a educação que eu e o seu pai demos para você! A gente tem aturado tudo de você nesses dias, mas já chega! Agora cê passou os limites! – minha mãe me dedurou na frente de todo o mundo
- Mas mãe… - tentei ripostar, mas ela nem isso deixou
- Mas mãe nada, Davi’! O que cê fez agora e aqui foi uma tremenda falta de educação! O filho que eu criei não gosta de fazer mal pra ninguém, pelo menos não de propósito! Eu não me tô colocando do lado de nenhum de vocês, porque sim, ela errou… Errou, porque te ama demais e só quis deixar você viver seu sonho, mas o fez da maneira errada, é verdade! E cê tá errando porque tá aí agindo que nem um moleque em vês de correr atrás e esquecer essas bobeiras… Para amar e ser amado! A partir de hoje não se queixa que não é feliz, porque senão é feliz, é porque não quer!
Fiquei olhando minha mãe, ela nunca havia falado comigo daquele jeito, nunca se tinha voltado contra mim daquela forma, pelo menos por causa de uma garota, mas percebi que com Adriana era diferente, porque ela a amava como se fosse uma filha… Não uma filha de sangue, mas uma filha de coração! Não consegui comer mais nada do lanche, mas depois de todos o terem feito, descemos no elevador até às garagens e o cenário que encontrei foi ironicamente perfeito.
- O que é que aquele palhaço pensa que está a fazer? – vociferou Ruben disposto a partir pra cima de Diogo
- Calma, velho… Não tá fazendo nada demais! – foi Gustavo que o acalmou e impediu de atropelar aqueles dois e o seu momento “de amor”
O carro dela estava a poucos metros do meu, talvez dois ou três no máximo, e junto do capô do seu carro, lá se encontrava ela… Nos braços daquele que um dia havia sido seu namorado. Sim, confesso que senti ciúme, muito ciúme! Uma vontade imensa de ir lá, afastar aquele cara da minha menina e a tomar em meus braços. Uma vontade de ir lá, pedir perdão pra ela e dizer que tudo estava esquecido, pois era ela quem eu mais queria, quem mais amava… Mas o orgulho falou mais alto, a estupidez me dominou por total e subiu em mim uma raiva danada, levando todos os remorsos, que guardava, espelho das minhas atitudes naquela tarde, a desaparecer. Minha língua se soltou novamente e meu coração desaprendeu a bater.
- É o que eu estou dizendo… Vai acabar essa noite na cama dele! – disse tão alto quanto me apeteceu
- Agora chega, Davi’, se enfia nesse carro e conduz pra casa! – minha mãe me gritou em surdina
- Não falei nada que não seja verdade… - estava tão enervado, que ainda botei mais acha na fogueira
- Se é verdade ou não, é problema dela… Cê terminou com ela não foi? Então que eu e todo o mundo saiba ela é solteira e livre de dormir com quem quiser, por isso se poupe ao ridículo e guarde esses comentários pra você, Davi’!
- Rê, se acalma… Eles tão olhando, vamo’ embora daqui! – meu pai aconselhou, para manter os ânimos calmos
- Eu vou pagar o parquímetro… - se ofereceu Gustavo, esse não perdia uma pra saltar fora de um possível barraco
Tomou o ticket da minha mão e numa corridinha leve, sumiu por entre os carros em direcção à zona das máquinas de cobrança.
- Se aquele gajo não tira as mãos dela, pah… - ameaçou Ruben, que não ‘tava nem um pouco agradado por ver Diogo tão próximo de Adriana
- E você, Ruben, vê se não provoca… Se calem os dois! – minha mãe ficou fera com minhas atitudes e tomou uma posição durona, que não demonstrava em nada o tipo de pessoa que ela era
- Tô pra ver… Dou um mês pra ela ‘tar namorando esse cara! – murmurei entre dentes, tentando manter uma conversa com Ruben
- Ela que nem pense, se tem alguma cena com aquele gajo, nunca mais me fala!
- David e Ruben, eu tô avisando…
- Ai, mãe, que é? Só tá faltando me dar tapa, que nem em criança! – falei muito irritado e olhando ela
- Olha que nesse momento você até ‘tava precisando de uns bons tapas! – nesse momento Adriana e Diogo se despediram – Tá vendo? Vocês são muito fofoqueiros…
- Só estávamos a constatar factos, Dona Regina! – argumentou Ruben, mantendo o olhar preso na figura dela
- A moça acabou de terminar com você, David! Acha que ela tá em condições de ficar com mais alguém tão cedo?
- Mamãe, se ela tivesse assim tão mal por nossa separação, nem estaria num shopping se divertindo com as amigas!
- David, ah me desculpa, mas você então tá virando burro, meu filho… Cê acha que a Adriana tá bem?
- Acho… Sinceramente acho! – afirmei uma coisa, quando no meu interior considerava outra bem diferente
- Pô, já viu bem como ela está? Não reparou nos olhos dela, quando se aproximou de nós na mesa? Não viu como estavam inchados de chorar e rasos novamente, quando cê a tratou mal?
- Ah, mãe… Tá bom, não me enche o saco! – refilei, sem mais qualquer disposição pra ouvir falar nela
Talvez porque fosse preferível virar a cara pra verdade… Talvez porque doesse menos… Talvez porque se eu não pensasse, a dor acabasse desaparecendo e eu ia rezar todos os dias pra que assim fosse.
***
(Adriana)
- É o que eu estou dizendo… Vai acabar essa noite na cama dele! – foram as primeiras palavras a quebrar o silêncio daquele meu abraço a Diogo
Movimentei-me ligeiramente nos braços dele, assim que reconheci aquela voz e quando os meus olhos alcançaram a figura de David, confirmaram as minhas suspeitas.
- Foda-se, mas o que é que este gajo acabou de dizer? – o Diogo soltou-me no intuito de se dirigir a David e tirar satisfações
- Não ligues, Diogo… Desculpa, eu sei que é uma tremenda falta de educação, mas fui eu que o deixei e ele não está a aceitar bem as coisas… - não tive outro remédio a não ser desculpar-me pela péssima atitude de David
- Não tens de pedir desculpa, aquele gajo é que está a precisar de um abre-olhos!
- Não, deixa-o estar, peço-te… Não quero confusões!
- Não vou fazer nada, mas é por ti… Porque já percebi que não estás em condições!
- Não… Obrigada, pela compreensão! Aquilo são ciúmes, passam-lhe… - esbocei um sorriso triste e por fim ele libertou-me daquela abraço, que já durava há minutos
- Ciúmes de mim? Está com medo que voltes pra mim, é?
- Não sei, mas ele sabe do nosso passado, é normal…
- Ele pode ficar descansado, tenho namorada! – o Diogo sorriu de orelha a orelha e fui completamente apanhada de surpresa naquele mesmo momento
- Ah… Namorada? – clareei um pouco a voz para conseguir acabar de discursar – Parabéns, miúdo! – esbocei um sorriso sincero e toquei-lhe no ombro
- Obrigado!
- Estás feliz?
- Sim, estou… Afinal, começo a minha digressão este Verão, tenho um relacionamento firme com uma rapariga porreira e a faculdade corre sobre rodas, por isso…
- Hum, muito bem! Parabéns, Di… Tu mereces!
- Eu tenho de ir, a minha namorada está à espera do jantar! – ele riu-se levemente, assim como eu – Ficas bem?
- Claro que fico… Uma amiga vem buscar-me daqui a pouco!
- Pronto, sendo assim fico mais sossegado!
- Podes ir e obrigada por tudo!
- Se me queres mesmo agradecer, pequenina… - ele acariciou-me a bochecha esquerda desde a maçã, até à linha do maxilar – Coloca um sorriso lindo nessa carinha e sê feliz!
- Vou tentar fazer isso… Vá, vai lá agora aproveitar com a tua namorada! – sorri em forma de incentivo
- Sim, vou… Qualquer coisa que precises, já sabes… O meu número continua o mesmo! – ele deu-me um beijinho muito carinhoso na testa – Cuida de ti, miúda…
- Tu também… - murmurei quando ele já se havia afastado
Fiquei ali sozinha, na linha de fogo, sob os olhares cruzados de David e da mãe, que eu percebi claramente que estavam a discutir, somente pelas expressões. A Paulinha nunca mais chegava e eu precisava sair dali o mais depressa possível, antes que enlouquece-se… Antes que perdesse a total sanidade e ela já não era muita, que ainda me sobrava. Pousei a minha mala no capô e revirei-a em busca das minhas chaves do carro, mas não sei dizer se por estar nervosa, ou demasiado ansiosa por encontrá-las, estas não me apareciam à frente. Quanto mais remexia, mais longe parecia das alcançar e isso estava sim, a levar-me à total loucura, à total insanidade mental…
- Vai ver se ela precisa de ajuda… - ouvi a mãe do David incentivá-lo e isso só me fez acelerar ainda mais a procura
- Mãe, não enche o saco…
- Vai, Davi’, tô mandando! – quando a Dona Regina falava daquela maneira, nada feito, não havia volta a dar a não ser obedecer-lhe
- Pô…! – ouvi-o bufar, porque era mais que óbvio que não estava interessado em ajudar-me, muito menos em ter-me por perto
As minhas pernas começaram a ficar trémulas no instante em que percebi que ele viria ajudar-me, as minhas mãos acompanharam-nas e aumentaram ao máximo possível a velocidade com que procurava dentro da mala as malditas chaves do carro. As lágrimas começaram a escorrer-me pelas faces desesperadamente, procurando um porto para perecerem, tal como eu procurava um para me abrigar.
- Adriana… - reconheci aquela voz e senti uma mão pousar no meu ombro
Toda eu estremeci e o desespero aumentou. Foi o ponto de ruptura… Senti-me desmoronar com um simples toque! Aquela presença fez-me sentir que estava vencida, que na minha vida o meu final seria sempre o de eterna derrotada e nada que eu fizesse, ou quisesse fazer, poderia mudar isso. Não havia mais nada a fazer, respirei fundo, tanto quanto o soluçar me permitiu e rodei sobre os meus próprios pés, ficando então de frente para a pessoa que me guardava as costas e o coração…
Obrigada a todas pelos vossos comentários, é muito gratificante e só me incentiva mais e mais!
Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem e não se esqueçam de comentar!
Beijinhos
Drii
P.s - Não se esqueçam de comentar a minha fic e da Paulinha! :)
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