quinta-feira, 21 de julho de 2011

Capítulo 111 - A vida segue... (Parte IV)


- Paulinha? – perguntei com os olhos rasos, pois julgava que quem me ia interceptar era David
- Oh amor… - ela tocou-me delicadamente na maçã do rosto e isso foi o bastante para despoletar em mim um turbilhão de comoções
Quebrei num choro sentido e totalmente soluçante, que acabou por ser abafado no conforto do abraço da Paulinha. Joguei-me nos braços dela sem olhar a meios, sem olhar a fins para pôr termo àquele sofrimento… Mas não havia maneira deste cessar. A cada segundo, um rasgo de dor, que me havia preenchido desde aquela fatídica noite nas garagens, em que tinha ouvido mais do que aquilo que devia, aumentava e aumentava. O pesar era tanto que chegava a sentir-me estraçalhar… Como se o meu coração sofridamente latejante fosse explodir em meu peito, para se projectar no seu exterior. Talvez se isso acontece-se a dor fosse menor, ou talvez até nenhuma! E então era isso que eu precisava fazer? Livrar-me do meu coração para todo aquele sofrimento desaparecer? Mas como havia eu de fazer isso, se precisava tanto dele para viver, para sentir, para perspectivar a minha condição de humana, para amar aos que me eram próximos e sim(!), para amar David… Por muito que eu o quisesse esquecer, haviam coisas das quais eu tinha a plena consciência! Namorei David mais de um ano, mais exactamente um ano e três meses… Quatrocentos e cinquenta e sete dias da minha vida. Quatrocentos e cinquenta e sete longos dias da minha vida… Tinha sido muito feliz! Tinha visitado locais que nunca pensara sequer vir a conhecer, tinha conhecido pessoas que me surpreenderam pela sua simplicidade apesar do estatuto social, tinha experimentado pela primeira vez aquilo a que o verdadeiro amor sabe… E confesso, amar e ser amado é a melhor sensação do mundo, mas amar com a intensidade que eu e ele amámos, teve um gosto diferente… Um gosto de amor para a vida, um gosto de entrega, um gosto de beijo, de abraço, de carinho, de protecção, um gosto de paixão…
“A paixão acabou!”, disse-me ele naquele dia… O que seria de nós sem isso? O que seria de mim sem o amor dele? Sem aquela paixão, que fazia o meu coração acelerar só de o ver e que me embargava no desejo de sentir os seus lábios húmidos junto aos meus a toda a hora, a todo o minuto, a todo o segundo… “A paixão acabou!”, proferiu ele naquele maldito dia… Então era hora de seguir em frente, erguer o rosto e percorrer o caminho rumo à meta. Mostrava-se uma caminhada longa, morosa e repleta de dor, mas nada impossível… Nada que eu não pudesse encarar, nem que para isso tivesse de esboçar nos meus lábios o sorriso mais forçado, só para parecer bem. E então foi exactamente isso que tive de fazer naquele momento…

- Bah… Já chega! – pedi a mim mesma, ao mesmo tempo que me libertei do abraço reconfortante de Paula
- Isto vai tudo passar… - jurou-me ela, naquela voz calma e equilibrada
- Sim, eu sei que vai…! – afirmei muito segura de mim, ou pelo menos fingi muito bem e acabei por a apanhar de surpresa
- Para mim não tens que fingir… - sussurrou-me, quando os seus lábios soltaram a minha testa, que há segundos beijara
Limitámo-nos a trocar um sorriso cúmplice. Não eram necessárias palavras, nem tão pouco uma explicação… Bastava ler no meu olhar, e quem me conhecia bem como ela conseguia-o fazer, que eu queria estar sozinha, viver a minha dor uma última vez… Queria não falar mais no assunto, queria esquecê-lo a ele e àquele ano e meio… Queria, eu queria, queria, queria… Queria tudo e ainda não tinha nada, mas com algum esforço, com quedas e derrotas, eu ia acabar por ter. Porque como ele próprio me dizia tantas vezes “Nada é impossível, não pudemos é jogar a toalha ao chão sem antes tentarmos!”. Então era isso mesmo que eu ia fazer… Ia agarrar na toalha, encher-me de força e dar luta. Não ia afirmar que não o conseguia esquecer, não ia dizer que não sabia ser feliz sem o ter, não ia render-me àquela dor evidente da sua ausência. Não ia… Não ia pelo menos fazê-lo, sem tentar! Sem tentar uma única vez que fosse e só aí, depois de batalhar com todas as minhas forças, me poderia dar por vencida.
- Vamos pra casa… - pedi-lhe ao mesmo tempo que procurava novamente na minha mala as chaves do carro
- Vamos… - ela colocou-se do meu lado, ajudou-me finalmente a encontrá-las e assim que o fiz, passei-lhas para as mãos
Apesar da minha decisão de lutar, não estava em condições de conduzir… Muito menos um carro que me havia sido oferecido por ele, era preferível que fosse ela a fazê-lo. Olhei uma última vez na direcção dele e vi que não movera um músculo, que não acedera em nada ao pedido da mãe, que do seu lado o olhava com uma tremenda mágoa, tentando reconhecer o menino educado e humano que um dia criara. Troquei um sorriso triste com eles e com Ruben e rodeei o meu carro, para tomar o “lugar do morto”.
Era irónico, de certa forma até era assim que me sentia sem ele… Morta! Era hora de dar vida àquele lugar, trazer cor aos meus dias, calor ao meu coração... Era hora de viver, de amar e ser amada, porque por muitos dissabores que possam cruzar os nossos caminhos, a vida segue… Demora, dói, custa, mas a vida segue!

***
Entrei no meu apartamento ladeada por Paula e o silêncio entre nós nunca soara tão mórbido, tão assustador… Ela não sabia o que me dizer, depois de no carro lhe ter contado a atitude de David, e eu não sabia o que precisava ouvir. Talvez porque não precisasse de ouvir nada, senão os pequenos estilhaços do meu coração a lutarem para sobreviver, a lutarem para se aglutinarem de novo e aprenderem a bater num ritmo meu… Agora, só meu!
- Mais calminha, amor? – perguntou ao ver-me sentar sofá
- Sim, mais calminha… - respondi num tom conformista, porque na verdade era apenas isso que me restava: conformar-me
- Precisas que te prepare alguma coisa? Uma torrada, um cházinho, uma tosta, um sumo? – ela esboçou um leve sorriso e deu-me um beijo no topo da cabeça, para logo de seguida ocupar o lugar vago do meu lado
- Não, obrigada… Acho que isso ainda não cura corações partidos!
- Sim, isso não cura… - ela fez uma breve pausa e olhou-me piedosamente – Mas tens de te alimentar, também não é a deixares de comer, que resolves os teus problemas…
- Sim, eu sei… Tenho a plena noção disso, mas neste momento não desce nada! Lá para a hora do jantar eu faço qualquer coisa… - sorri para a tranquilizar e segurei a sua mão carinhosamente – Obrigada por me teres ido buscar, mas não tinha forças para pegar no carro…
- Não faz mal, pequenina… Sabes que podes contar comigo pra tudo! – ela sorriu e deu-me um beijo na face
- Sei… Acho que é dos poucos consolos que me restam!
- Não digas isso! Tens montes de amigos, tens a tua família que te ama… Tens os teus fãs e dentro em breve começas a tua digressão!
- Sim, acho que não podia ter vindo em melhor altura… Vai fazer-me bem, viajar, conhecer pessoas e países novos, dedicar-me a cem por cento ao meu trabalho. Sim… Acho que me vai mesmo fazer bem!
- Gosto mais de te ver assim, um bocadinho animadinha! – ela sorriu e eu fi-lo também, só para a deixar mais sossegada, pois conhecia perfeitamente o estado inquietante em que ficava quando aqueles que amava não estavam bem
- A partir de agora é esta Adriana que vais ver… Só preciso de tempo e tudo se há-de recompor! – forcei um enorme sorriso e tive de engolir as lágrimas, que me atabalhoavam a respiração
Ela lançou-me um sorriso sincero e num gesto muito natural olhou em seu redor, percorrendo cada canto da minha sala, que estava um pouco desorganizada na zona das estantes, devido ao estudo da recta final do primeiro ano de faculdade. Havia lacunas, espaços vazios sob os móveis de apoio ao sofá e à televisão, eu sabia o que ela estava a pensar, mas quando começou a falar, inteirei-me da questão.
- O que é fizeste às coisas? – perguntou, referindo-se às recordações de David, que eu guardara num caixote bem fundo, debaixo da cama do quarto de hóspedes
- Tirei-as daqui… Olhar para aquelas coisas, a toda a hora, não me fazia nada bem… - torci os lábios e encolhi os ombros, em jeito de que não havia mais nada a fazer, a não ser deixar o tempo passar e consigo arrastar novos e melhores ventos, pelo menos um pouco mais felizes
- Deitaste fora?
- Não, para já isso ainda não consigo… São pedacinhos de mim que não quero apagar já, com o tempo penso nisso, para já estão numa caixa bem guardada! – afirmei com um sorriso leve nos lábios
- Não tens a tentação de ir ver as coisas?
- Não… Sei que é provável que a tenha, mas depois da mágoa de hoje, dificilmente o irei fazer, porque já não consigo olhar para trás e recordar de forma doce a história que eu e ele vivemos… Sim, foi bom, mas com aquela atitude, ele borrou um bocadinho o quadro que demorou um ano e três meses a pintar…
- Ele está magoado… Muito magoado, Adriana…
- Eu sei disso, Paulinha, mas ninguém me pode censurar por estar magoada com o comportamento de hoje! Aquele não era o David que conheci…
- Ele também precisa de tempo para acertar aquelas ideias na cabecinha… É como tu! Vai demorar pra aceitar, vai doer e vão ter de fazer um esforço danado, mas sei que determinados e teimosos como são vão acabar por conseguir seguir em frente, mas de outra coisa estou certa… Vocês em frente seguem, mas um ao outro, não se esquecem!
Não dissemos mais nada, ficámos em silêncio… Olhando-nos, vendo cada expressão despojada de vergonha ou preconceito, uma da outra. Com ela não havia “Mas…”, “Se…”, com ela tudo era simples, tudo terminava num ponto, sem espaço pra dúvidas, sem espaço pra hipóteses. Ela sabia bem o que estava a sentir, isso era um facto, mas também sabia que não devia tocar mais naquele assunto comigo, pois ele morria ali.
- Eu tenho de ir… Combinei de ir jantar com o Roberto, mas não sabia que isto te ia acontecer! – desculpou-se depois de constatar as horas no relógio de pulso
- Não tem mal, podes ir que eu fico bem… Vou mudar de roupa, comer qualquer coisa e cama! Só quero esquecer que este dia aconteceu…
- Se precisares de alguma coisa liga-me… - disse imediatamente assim que a sua preocupação ordenou – Venho a correr!
- Podes ir, relaxa, amor… Eu fico bem!
- Pronto, mas pelo sim, pelo não o meu telemóvel está ligado e se precisares, não hesites! – ela levantou-se do sofá com um sorrisinho nos lábios
- Sim, se eu precisar de alguma coisa ligo-te… Obrigada por tudo! – ergui-me também do meu lugar e abracei-a com gratidão
- Não tens de me agradecer, não fiz nada que não fizesses por mim…
- Sim, faria igual, sabes muito bem disso…
- Então, não tens nada que agradecer! Fiz de coração, só te quero ver bem… - Paulinha fez-me uma festinha na maçã do rosto e automaticamente sorri
- Eu vou ficar bem e olha que conto com a tua presença no meu concerto em Madrid, tua e do espanholito! – ambas soltámos uma gargalhada contida, mas sincera
- Claro, lá estaremos com todo o gosto, pequenina… Vou indo, sim? Já sabes… - ela ia começar a falar novamente, mas interrompi-a
- Sim, já sei, podes ir! – ela riu-se e deu-me dois beijinhos
– Cuida de ti…
- Sim, tu também e manda beijos ao Roberto… - caminhámos lado a lado e abraçadas uma à outra, até à porta do meu apartamento
- Mando sim, juízo e vai dando notícias! – pediu-me, quando já se encontrava do lado de fora da porta
- Sim, eu vou… Adoro-te! – abracei-a uma última vez em forma de agradecimento
- Também te adoro… Podes ter a certeza!
Foi com um sorriso nos lábios que me despedi dela e fechei a porta. Agora era só eu no meu mundinho, podia chorar, espernear, berrar, que ninguém teria pena, ninguém me olharia misericordiosamente.
Sentei-me no sofá e olhei o meu telemóvel com uma vontade enorme de regressar aos velhos tempos e mandar-lhe uma mensagem só pra dizer que o amava. Como é óbvio não o fiz, limitei-me a deitar no sofá, bem enrolada sobre o meu próprio corpo e liguei a televisão. Não dava nada de jeito… Apenas aqueles programas que as mais velhas têm por hábito ver, em que o aparato é muito e o conteúdo nenhum. Estive mais de três minutos a fazer zapping com o comando, mas pelo meio uma coisa deteve-me…

“ – … Eu sou feliz no Benfica, me acolheram nessa casa faz anos e sinto que ainda posso crescer mais como profissional nesse clube… O Benfica vai entrar nesse ano muito confiante, com vontade de revalidar o título nacional e depois das férias eu me apresentarei junto da equipe cheio de força de vontade e empenho para realizar uma época tão boa ou melhor ainda que essa que passou!” – a imagem de David surgiu tão confiante na minha frente que senti o meu pequeno, frágil e quebrado coração estremecer de forma eufórica  
As lágrimas desarmaram os meus olhos assim que ouvi a voz dele e vi a sua figura na televisão. Apanhei somente o fim da peça jornalística, mas foi o suficiente para me fazer ter saudades. Chorei… Chorei muito naquela tarde, como provavelmente iria chorar nos dias seguintes, mas eu precisava aprender a ser uma nova Adriana. Aquela que sabia, podia e queria viver sem David, mas para isso eram necessárias diversas fases… Começaria com passinhos de bebé, excluindo-o dos mais pequenos rituais da minha vida e só depois… Talvez um dia, possa afirmar que finalmente… o esqueci!



***


(David)
- Cê não tem emenda, meu filho… - assim que o carro de Adriana abandonou as garagens, minha mãe não se coibiu de me atacar
- Pára com isso, mãe… Pô, eu ia lá, mas aí a Paulinha chegou!
- Não importa, cê tinha ido lá na mesma! Saber como ela ‘tá, pedir desculpas pela sua atitude de moleque de há pouco!
- Quer saber, mãe? Tô nem aí pro qu… - a chegada do Gustavo nos interrompeu
- E aí, gente? O estacionamento ‘tá pago, vamo nessa? – ele passou um braço em torno dos meus ombros
Não disse mais nada, olhei minha mãe com alguma raiva por ‘tar defendendo ela daquela maneira, quando havia sido Adriana a fazer a borrada. Entrei no carro e fechei a porta com muita força, coloquei a chave na ignição, passei o cinto na minha frente e fiquei esperando eles. Vieram todos comigo à excepção de Ruben, que seguiu no seu próprio carro pra casa.
- Vai mais devagar, Davi’! – pediu a minha mãe que ia no banco de trás com meu pai
- Tô indo devagar… - ciciei entre dentes, pra não perder o controle
- Não ‘tá não… Quer se arrebentar se arrebenta sozinho, mas toma cuidado com quem vai no carro com você!
- Mãe, pelo amor de Deus, pára de me encher o saco! – a palma da minha mão aberta embateu no centro do volante fazendo a buzina activar
Nenhum deles disse mais nada, pelo menos não a mim e eu até achei preferível assim, pois era muito mais fácil ouvir, mas não ter de me controlar inexoravelmente, pra não dizer borrada da grossa para uma das pessoas que mais amava no mundo e que de algum jeito ‘tava tentando ajudar, eu só não compreendia como.
- Acho que antes de irmos embora vou ligar pra ela, marcar qualquer coisa pra pedir desculpa do jeito grosso do Davi’… - ouvi minha mãe conversar com meu pai, mas fiquei na minha e subi um pouco o volume da música pra não ter que escutar o nome dela
- A Adriana ‘tá em baixo, sabe que fez borrada, mas não me parece que ela vá querer ver você, Rê… Ela não quer pôr você contra o Davi’!
- Ela não me vai pôr contra ninguém… Eu não sou contra o Davi’, sou contra a falta de educação e nosso filho nunca tinha sido assim!
Tentei controlar, tinha o coração bem apertado, as lágrimas quase correndo pela minha face e uma vontade enorme de explodir, de gritar com todo o mundo, de os acusar da minha infelicidade.
- Isso é porque eu nunca tinha amado assim! – respondi de uma só vez, num tom de voz frio e indiferente
Pra piorar a situação, o Gustavo que andava brincando com os botões da rádio do meu carro, sintonizou numa estação bacana, mas alguns minutos depois do silêncio que se instalou devido à minha confissão, quando passávamos junto da 2ª circular, a voz dela invadiu meu carro. Sua música ‘tava passando na rádio. Ai meu Deus, fiquei mal… Muito mal! As lágrimas que estavam quase caindo, acabaram por o fazer, ainda que de forma discreta. Todos ficaram em silêncio me olhando, mas não quis dizer nada. Estendi a mão e desliguei a rádio. Foi naquela ausência de palavras, que finalmente chegámos em casa. Segui na frente deles em tudo, só pra não ter que falar, só pra não ter que ouvi.
- Davi’, que cê vai querer pro jantar? – perguntou minha mãe, enquanto todo o mundo pendurava os seus pertences no bengaleiro
Não respondi, fui directo no meu quarto e fechei a porta. Deitei na cama de barriga pra cima e foi inevitável não relembrar todas as vezes que o fazia, para depois acabar sentindo o peso daquela cabecinha sob o meu peito, enquanto suas mãos percorriam carinhosamente meu tronco nu.

*****
Lembraça:

Tínhamos acabado de transar e meu Deus (!), havia sido uma entrega totalmente diferente… Totalmente sentida, totalmente vivida, totalmente repleta de paixão. Me deitei do seu lado, completamente estoirado e não tardou nada até sentir seus cabelos no meu peito.
- Amo-te… - ouvi a voz dela sussurrando naquele portuguesinho perfeito
- Também amo você… Também amo muito você! – beijei sua testa com cuidadinho, pois pra mim ela era meu pequeno tesouro e todo o cuidado era pouco pra não machucar ela
- Eu sei que amas e isso faz-me a mulher mais feliz do mundo… - senti os cálidos lábios dela embaterem contra a pele do meu peito e me arrepiei total
- Te faço mesmo feliz, meu amô? - a insegurança me domou e isso naturalmente que transpareceu na minha voz
Ela deu um jeitinho se puxando mais pra cima, ergueu a cabeça até essa ficar junto da minha e me olhou nos olhos profundamente.
- Mais ainda tens dúvidas? – sorri pra ela totalmente babado, mas esperando as suas restantes palavras – Nunca fui tão feliz, porque nunca tinha provado o amor assim, com esta intensidade e com uma pessoa tão maravilhosa como tu…
Não quis falar mais nada, segurei ela nos meus braços, a coloquei ligeiramente por baixo do meu corpo e a beijei. Beijei com muito sentimento, com todo o meu amor e pela forma como ela me correspondeu, meu coração ficou cheio… Nossa, meu coração ficou muito cheio, tão cheio que eu julguei que fosse explodir ali mesmo, na frente dela, mas não… A cada prolongamento daquela carícia, mais ela conseguia acalmar meu ser, mais ela se conseguia aproximar da minha alma.
- Fui feliz contigo em seis meses, o que não fui numa vida inteira! – jurou num sussurro pertinho dos meus lábios
- Prometo que te vou fazer feliz por toda a nossa vida…
Ambos esboçamos sorrisos lindos, sinceros e apaixonados. Quando nossas bocas se uniram tivemos a certeza que iriamos ser um do outro mais uma vez naquela noite e era só isso que a gente precisava: amar e ser amado!
*****


Fui violentamente arrastado para a minha nova realidade, num mundo onde ela não existia, onde ela não me pertencia mais. Me contorci de culpa ao relembrar o jeito que a havia tratado no shopping, minha mãe ‘tava certa: aquele não era eu! Pensei ligar pra ela, pedir perdão, pedir ela de volta, mas mesmo que o meu orgulho me tivesse deixado fazê-lo, agora era ela que não me ia querer… Me devia ‘tar odiando por tudo! Olhei em redor e vi em cada cantinho daquele quarto uma recordação dela. Tudo me fazia querer chorar, tudo me entristecia e tudo provocava em mim uma saudade danada. Na mesinha-de-cabeceira ainda estava a garrafinha de água que ela costumava trazer pro quarto de noite, na gaveta do meu lado eu tinha a certeza que ainda podia encontrar a pequena escova que ela passava nos cabelos antes de se deitar e como esses pequenos detalhes, uma parafernália que tantos outros, que continuavam quebrando meu coração e impedindo ele de bater direito.
 
- Volto logo! – ouvi a voz do meu pai e a porta da rua batendo, provavelmente minha mãe tinha pedido algum favor pra ele, mas não liguei
Levantei a cabeça da cama, me sentando na mesma e meu olhar alcançou o computador portátil pousado em cima do móvel. Provavelmente ela devia ter sido a última pessoa a usar ele. Me ergui da cama, alcancei e o liguei. Pra entrar tive de colocar a pass que era exactamente a data do início do nosso namoro: 23deFevereiro. Por muito que eu quisesse, não dava pra apagar o rasto que ela deixara na minha vida. Sentei de novo na cama e comecei passando pelas pastas existentes na esperança de me distrair lendo algo, mas encontrei uma que me chamou a atenção “Nós ♥”. Claro que entrei e me deparei com outro monte de pastinhas, que continham fotos nossas. Fiquei ali perdido, observando em cada fotografia um novo capítulo da nossa história sendo escrito por uma simples imagem. Meus olhos ficaram rasos de lágrimas e inevitavelmente, apesar de muito custo, comecei chorando… De tristeza, de frustração, de ódio e de saudade!
- Meu filho… - a voz da minha mãe entrando no meu quarto me despertou para a realidade e me foquei então na sua imagem
Ela me viu chorando e perdeu o interesse pra falar o que ia falar. Soltou a maçaneta da porta, se sentou do meu lado na cama e olhou o ecrã do computador.
- Que cê tá vendo, meu chochinho? – ela passou carinhosamente sua mão de mamãe no meu rosto
- Fotos nossas… Recordações… - respondi com um sorriso triste no rosto e senti uma lágrima escorrer pela minha cara
- Não fica assim triste, meu filho… Cês ainda são novos, se gostam! Ainda tem uma chance pra vocês…
- Não tem, mamãe… Hoje eu tratei ela muito mal, por essa altura me deve ‘tar no mínimo odiando! Eu vou esquecer ela… Tocar minha vida!
- Tem certeza que é isso que cê quer, meu Davi’?
- Não quero, mãe, mas tem que ser… Tudo se vai compor na minha vida, só preciso de tempo e essas férias que vêm aí no Brasil, me vão fazer muito bem!
- Pronto, cê que sabe… - ela me sorriu e tentei corresponder, mas meus lábios não obedeceram à minha cabeça
- O pior é que eu nem sei… - sussurrei só pra mim e voltei a chorar, olhando as nossas fotografias
- Tão lindos… - ela sorriu e me deu a mão, como sinal de força e carinho
- É… A gente foi feliz! – ri levemente ao passar umas fotos onde juntos fazíamos uma sucessão de caretas
- Nossa, cês sempre foram o casal campeão de caretas, todo o mundo fala isso! Olha pra isso gentxi, que bobagem! – ela ria enquanto via as fotos passando e por momentos consegui acompanhar ela
Cheguei então num vídeo, um que havíamos gravado num passeio à beira rio em Belém.
“ - Boa tarde a todos, aqui estou eu e o meu namorado feioso! Nós acabám… - eu interrompi ela
- Oh garota, tá chamando feioso a quem, pô? – surgi nas costas dela, abraçando-a
- Como eu estava a dizer… Nós acabámos de fazer uma aposta, em como eu consigo aguentar mais tempo a fazer o pino do que ele!
- E essa tola daqui quer deixar registado em vídeo a sua derrota!
- Nada disso, eu vou ganhar e vais ter de me levar a Paris!
- Não, cê vai perder e vai ter de limpar minha casa durante 6 meses!
- Não liguem! – ela pousou a câmara no chão de cimento – Estás pronto?
- Tô e cê?
- Também… Em 1, 2, 3!
Ambos subimos para manter o pino, ficámos assim algum tempo, sem trocar uma palavra e apenas se ouvia o barulho da leve ondulação do rio embatendo no cais.
- Ai, ai… - me queixei e acabei saindo do pino pra logo de seguida ela também o fazer
- GANHEI! EU GANHEI! PARIS AQUI VOU EU! – ela começou a gritar que nem uma doida e dando pulinhos de contente
- E essa daqui é a doida da minha namorada… - me ri, enquanto com a câmara na mão a filmava comemorando a vitória
- É a doida que vai a Paris às custas do caracolinhos! – ela me deitou a língua de fora – Quando posso começar a fazer as malas? – ela se aproximou da câmara e foquei bem ela, com aquele sorrisinho lindo
- Levo você lá esse Verão, tá prometido!
- Prometido, prometido, meu amor?
- Prometidíssimo!
Afastei a câmara e a puxei pra mim, me servindo disso pra filmar um beijo nosso. Ficámos lindos… Espelhando um quadro de felicidade e muito amor!
- Te amoooooo! – jurei com um sorriso enorme
- Eu amo-teeee! – ela soltou uma gargalhadinha suave
- Ouviram bem? Registem isso! Essa mulher me amaaaa! – disse olhando para a câmara, que ainda estava na minha mão”
Não fui capaz de assistir mais e fechei o vídeo. Um total desespero me havia dominado e por instantes quis destruir todas aquelas recordações. Seleccionei a pasta e carreguei em “delete”.
- Meu filho… Não faz isso! – o toque da minha mãe, me impediu de carregar o “enter”
- Só quero ver isso desaparecer, mamãe…
- Cê pode destruir as provas de que isso foi real, mas não vai conseguir apagar as memórias daqui… - ela tocou o lado esquerdo do meu peito muito cuidadosamente - … e daqui! – finalizou pousando a ponta do seu indicador sob a minha têmpora
Desisti daquela ideia, minha mãe estava certa, como toda a mãe quase sempre ‘tá… Larguei as pastas, encerrei o computador e joguei ele sobre a cama. Senti um vazio enorme dentro do meu peito e acabei me perdendo em nada… Meu olhar fixou um ponto distante do chão e fiquei assim, pensando… Pensando nela, em mim, em nós, em tudo, em nada…
- Não fica assim, meu amô…
- Ai, mamãe… Dói tanto!
- Vem cá, meu neném… - os braços dela me envolveram no seu abraço reconfortante e maternal
Foi desse jeito que me desarmou por completo, acabei chorando tudo o que aqueles estigmas de que “homem não chora”, me haviam feito aprisionar. Só ali tomei consciência que havia perdido a mulher que mais amava no mundo e que com toda a certeza, iria continuar amando até ao resto da minha vida, ainda que tivesse de o fazer em silêncio…




Bem, tenho definitivamente de agradecer os 30 comentários que tive ao capítulo anterior, não imaginam como é gratificante! A todas que lêm e comentam, MIL obrigadas! :)
Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem e não se esqueçam de comentar!
Beijinhos
Dri

terça-feira, 19 de julho de 2011

Capítulo 111 - A vida segue... (Parte III)



Engoli as lágrimas que ainda queriam cair, desviei o olhar noutra direcção e coloquei as mãos nos bolsos. Estava determinada a passar por eles como senão tivesse visto os seus sinais e rumar directa a casa. Ao aproximar-me da mesa coloquei o meu olhar no chão e avancei rapidamente, para acelerar o momento. Já tinha ultrapassado a mesa e festejava sozinha com os meus pensamentos. “Yes, desta já me livrei! Obrigada meu Deus!”, pensava eu quando fui surpreendida.
- Ei garota! – ouvi a voz do Gustavo, que me chamou a pedido da Dona Regina, mas nem isso me fez parar ou abrandar o passo acelerado – Ei, Adriana!
- Bolas! – vociferei entre dentes devido à insistência dele e fui obrigada a parar, olhando para trás de forma a vê-los
- Não viu eu te fazendo sinal, minha filha? – questionou a Dona Regina, enquanto em passadas curtas e receosas, eu me aproximava da mesa deles
- Não vi, Dona Regina… Desculpe! Boa tarde a todos! – cumprimentei assim que alcancei a cabeceira da mesa, ficando mesmo frente a frente com David, que se encontrava sentado na outra ponta – Precisa de alguma coisa? – retirei os óculos e arrastei-os para o topo da minha cabeça
- Não… Só queria convidar você pra sentar aqui com a gente! – ela sorriu educadamente
Posso dizer que fiquei surpreendida com o convite, pois só demonstrava que ela não estava magoada comigo, não guardava qualquer rancor e devia ser das poucas pessoas que compreendia a minha intenção quando o deixei. Só o queria proteger, só lhe queria dar a hipótese de voar mais alto, mas não valia a pena pensar nisso naquele momento, afinal o passado é de pedra e já ninguém o podia mudar.
- O quê?! – o David não demorou nada a reagir e eu limitei-me a baixar o olhar assim que ouvi a sua voz – Só pode ‘tar brincando… - murmurou em surdina e soltando um sorriso cínico para Ruben e Gustavo, que o encararam com  um olhar repreendedor
- Olha aí, puto… - alertou Ruben, dando-lhe sinal para acalmar um pouco
- Obrigada pelo convite, mas não vou puder aceitar… Estou com um bocadinho de pressa, tenho mesmo de ir… - agradeci num tom de voz cordial e educado, que se fez acompanhar de um terno sorriso àquela pessoa que eu já tinha em conta como uma figura maternal
- Oh, que pena… Não pode mesmo ficar? Só uns minutinhos…
- Mãe, se ela falou que não pode, deixa ela ir! – o David falou de forma agressiva e quando a mãe o ia repreender, surpreendentemente foi o Sr. Ladislau a fazê-lo
- Filho, cala a boca… A conversa não é com você e está passando os limites!
- Desculpem, eu não quero provocar desconforto a ninguém… Eu vou mesmo indo! – esbocei um último sorriso
- É, vai mesmo! Já vai tarde, segue e some, não aparece mais nas nossas vidas! – desejou o David, retaliando-me
- Davi’, tá abusando… - sussurrou-lhe Gustavo, olhando-me com uma enorme pena
- Minha filha, senta por favor… - implorou a mãe dele, como se quisesse usar aquele lanche para se desculpar da atitude que David estava a ter
Nesse momento surgiu nas minhas costas a única pessoa que naquele momento me poderia trazer problemas, ou melhor, ainda mais problemas! O Diogo… Este saía do restaurante de sushi com uma pequena encomenda nas mãos e caminhava, enquanto fechava a carteira.
- Obrigado, até à próxima! – disse educadamente ao senhor do restaurante e o seu tom de voz, habitualmente animado, fez despertar o olhar das pessoas que estavam sentadas na mesa à minha frente
Também parei a conversa para o olhar, ele viu-me, mas não se aproximou, seguiu como senão me tivesse visto. Ao menos assim, poupava-me qualquer constrangimento, poupava-me um novo olhar de censura de David, pelo menos pensava assim, até este ter aberto a boca, para me apunhalar com as suas palavras.
- Vai… Vai lá deitar na cama dele! – jogou assim para o ar e desta vez não se coibiu de o fazer de forma suficientemente audível
Tive de fazer um esforço enorme para que nenhuma das lágrimas, que pendiam nos limites dos meus olhos, caísse e denunciasse o meu lastimável estado. Cada palavra que ele proferira naquela tarde tinha sido um novo soco no estômago, uma nova facada nas costas e nem sei dizer qual delas doeu mais, mas sem dúvida que aquela espécie de acusação entrou no meu coração para nunca mais sair. Todos olharam David tão surpresos quanto eu, vi que a Dona Regina acabara de atingir o seu limite de paciência com ele e antes que pudesse trazer alguma desavença àquela família, resolvi afastar-me.
- Estou mesmo com pressa, peço desculpa a todos! – acenei educadamente com a cabeça, coloquei os óculos na cara, porque já sentia as lágrimas a quererem sair e comecei a afastar-me
- Adriana! Adriana! Espere, minha filha! – nem a voz da Dona Regina me barrou, segui o meu caminho em direcção às garagens e não olhei mais para trás

***

Agarrei no meu telemóvel porque me sentia incapaz de conduzir naquele estado de nervos e a pessoa a quem ligar foi mais do que óbvio... Para a única pessoa que havia estado presente nos últimos tempos, para a única pessoa que eu sabia que jamais me iria falhar e que jamais me deixaria cair: a minha Paulinha.
- Alô Alô, gatita! – assim que ouvi a voz dela do outro lado da chamada, o meu choro tornou-se mais compulsivo – Amor, que tens? Que aconteceu? – perguntou imediatamente
- Vem-me buscar… Tira-me daqui, não aguento mais isto! – supliquei completamente perdida nas garagens
- Tem calma, meu amor… Que aconteceu? Onde estás?
- Estou nas garagens do Colombo… Não encontro o meu carro, o David está cá, quero sair daqui! Quero sair…! – gritei ao mesmo tempo que a minha mão, de punho cerrado, voo para soquear um poste
- Tem calma, sim? Respira fundo, olha com calma até encontrares o teu carro e eu vou tentar chegar aí o mais depressa possível!
- Obrigada, Paulinha, obrigada! – agradeci em total desespero e a chorar de forma descontrolada
- Não me agradeças e por favor, vê se te acalmas, shim? Para me puderes ajudar a encontrar-te aí, amor…
- Sim… Sim… Isto já passa… - disse entre soluços
- Até já, vou voar para ao pé de ti, princesa! Amo-te! – jurou na sua voz sempre doce e meiga
- Até já… Também te amo, Paulinha! – solucei e desliguei a chamada, porque finalmente avistei o meu carro
Tive a certeza que era o meu pela matrícula, era a única forma de o distinguir do de David, que se encontrava uns metros mais à frente. Deixei-me escorregar parede abaixo e foi sentada no chão, que lavada em lágrimas, esperei que alguém me viesse buscar.
- Adriana… - uma voz familiar interrompeu os meus pensamentos
- Diogo? – ergui a face e vi-o na minha frente, bem ali na minha frente…
Não mudara em nada as suas expressões faciais, se bem que o seu corpo tinha tomado contornos mais de homem e agora estava perfeitamente esculpido pelos dezanove, quase vinte anos, de que era dono.
- Ei, estás a chorar? – ele olhou-me com uma vivacidade no olhar, uma vivacidade que lhe desconhecia e que por momentos confundi com preocupação  
- Não é nada, Diogo… - enxuguei as lágrimas e rapidamente me levantei do chão
- Como não é nada? Estás a chorar, miúda… - ele tocou-me suavemente e a minha cabeça viajou até outros tempos, àqueles em que ainda namorava com ele – Foi alguma coisa com o David?
- Sim… Nós acabámos… - revelei por entre soluços e os meus olhos voltaram a ficar rasos de lágrimas
- Oh miúda, não fiques assim… - o seu tom de voz foi estranhamente carinhoso, nunca poderia esperar aquela atitude de Diogo, muito menos depois de tudo o que já se havia passado entre nós
- Eu amo-o… Ainda o amo… - sussurrei chorando silenciosamente, mas sem ter coragem suficiente de fixar o meu olhar no dele
- Ai pequenina, vem cá…
E pela primeira vez desde que o conhecia, Diogo foi humano… Sim, humano, porque se consciencializou do meu estado de fraqueza e no entanto não teve qualquer intenção de se aproveitar disso. Abraçou-me… Um abraço de amigo, não um abraço de quem procurava mais alguma coisa, de quem esperava colher qualquer fruto de todo aquele sofrimento. Um simples e longo abraço de amigo… Senti-me muito bem, porque além de estar surpresa por ver o velho Diogo na minha frente, estava a receber um aconchego quando mais precisava dele.
- Ai… - ciciei, soltando uma respiração bafejada contra o peito dele
- Calma, não fiques assim… Por favor, mata-me ver-te assim… - ele apertou-me mais contra si e foi passando os dedos pelos meus cabelos
Não sei explicar, mas aquilo de alguma forma surtiu um efeito relaxante em mim, pelo menos fez-me parar de chorar tão intensamente. Não sabia o porquê dele estar a fazer aquilo, mas li em cada gesto de ternura por parte dele, uma extrema vontade de me ver sorrir… Era só isso que ele pretendia.
- Epá miúda, não sei que raio de efeito é esse que tens, mas ficas ainda mais encantadora com esses olhinhos de choro… - ele passou o seu indicador na ponta do meu nariz e inevitavelmente soltei uma pequena gargalhada
- E não sei que raio de efeito é esse que tens, mas sorrir era a última coisa que esperava vir a conseguir fazer hoje… - confessei desviando uma madeixa dos meus cabelos para trás da orelha
- Também não te sei dizer, mas ainda bem que funciona, pois prefiro mil vezes ver esse sorriso lindo na tua carinha, piolha! – ambos sorrimos e olhámo-nos
Desde que namorava com David que nunca mais ficara tão próxima de Diogo e logo com aquela paz toda pelo meio. Talvez fosse alguma espécie de sinal… De que David fora um meio para eu chegar àquele fim, que surpreendentemente um dia, havia sido o início de tudo. Tive vontade de bater em mim própria por equacionar tamanha estupidez, mas eu não podia negar que Diogo estava diferente… Amava-o? Não, nem por sombras! Gostava dele? Nem tão pouco mais ou menos, mas como ser humano capacitado de sentimentos e emoções, não podia negar que aquele golpe de misericórdia era no mínimo tocante. Contudo a minha felicidade adivinha-se tão longe daqueles braços, daquele coração, daquele homem… A minha felicidade estava com David e essa havia-nos sido roubada no mesmo instante em que eu selei aquela carta e saí por aquela porta, deixando para trás somente um turbilhão de palavras...

***

(David)
Assim que a Adriana fugiu de nós senti os olhos de todos presos em mim, mas ainda assim continuei a comer, com um enorme peso na consciência pelo que havia dito e feito a ela naquela tarde.
- Oiça bem, David, porque eu só vou dizer uma vez! Que seja a última vez que você age dessa maneira, porque essa não foi a educação que eu e o seu pai demos para você! A gente tem aturado tudo de você nesses dias, mas já chega! Agora cê passou os limites! – minha mãe me dedurou na frente de todo o mundo
- Mas mãe… - tentei ripostar, mas ela nem isso deixou
- Mas mãe nada, Davi’! O que cê fez agora e aqui foi uma tremenda falta de educação! O filho que eu criei não gosta de fazer mal pra ninguém, pelo menos não de propósito! Eu não me tô colocando do lado de nenhum de vocês, porque sim, ela errou… Errou, porque te ama demais e só quis deixar você viver seu sonho, mas o fez da maneira errada, é verdade! E cê tá errando porque tá aí agindo que nem um moleque em vês de correr atrás e esquecer essas bobeiras… Para amar e ser amado! A partir de hoje não se queixa que não é feliz, porque senão é feliz, é porque não quer!
Fiquei olhando minha mãe, ela nunca havia falado comigo daquele jeito, nunca se tinha voltado contra mim daquela forma, pelo menos por causa de uma garota, mas percebi que com Adriana era diferente, porque ela a amava como se fosse uma filha… Não uma filha de sangue, mas uma filha de coração! Não consegui comer mais nada do lanche, mas depois de todos o terem feito, descemos no elevador até às garagens e o cenário que encontrei foi ironicamente perfeito.
- O que é que aquele palhaço pensa que está a fazer? – vociferou Ruben disposto a partir pra cima de Diogo
- Calma, velho… Não tá fazendo nada demais! – foi Gustavo que o acalmou e impediu de atropelar aqueles dois e o seu momento “de amor”
O carro dela estava a poucos metros do meu, talvez dois ou três no máximo, e junto do capô do seu carro, lá se encontrava ela… Nos braços daquele que um dia havia sido seu namorado. Sim, confesso que senti ciúme, muito ciúme! Uma vontade imensa de ir lá, afastar aquele cara da minha menina e a tomar em meus braços. Uma vontade de ir lá, pedir perdão pra ela e dizer que tudo estava esquecido, pois era ela quem eu mais queria, quem mais amava… Mas o orgulho falou mais alto, a estupidez me dominou por total e subiu em mim uma raiva danada, levando todos os remorsos, que guardava, espelho das minhas atitudes naquela tarde, a desaparecer. Minha língua se soltou novamente e meu coração desaprendeu a bater.
- É o que eu estou dizendo… Vai acabar essa noite na cama dele! – disse tão alto quanto me apeteceu
- Agora chega, Davi’, se enfia nesse carro e conduz pra casa! – minha mãe me gritou em surdina
- Não falei nada que não seja verdade… - estava tão enervado, que ainda botei mais acha na fogueira
- Se é verdade ou não, é problema dela… Cê terminou com ela não foi? Então que eu e todo o mundo saiba ela é solteira e livre de dormir com quem quiser, por isso se poupe ao ridículo e guarde esses comentários pra você, Davi’!
- Rê, se acalma… Eles tão olhando, vamo’ embora daqui! – meu pai aconselhou, para manter os ânimos calmos
- Eu vou pagar o parquímetro… - se ofereceu Gustavo, esse não perdia uma pra saltar fora de um possível barraco
Tomou o ticket da minha mão e numa corridinha leve, sumiu por entre os carros em direcção à zona das máquinas de cobrança.
- Se aquele gajo não tira as mãos dela, pah… - ameaçou Ruben, que não ‘tava nem um pouco agradado por ver Diogo tão próximo de Adriana
- E você, Ruben, vê se não provoca… Se calem os dois! – minha mãe ficou fera com minhas atitudes e tomou uma posição durona, que não demonstrava em nada o tipo de pessoa que ela era
- Tô pra ver… Dou um mês pra ela ‘tar namorando esse cara! – murmurei entre dentes, tentando manter uma conversa com Ruben
- Ela que nem pense, se tem alguma cena com aquele gajo, nunca mais me fala!
- David e Ruben, eu tô avisando…
- Ai, mãe, que é? Só tá faltando me dar tapa, que nem em criança! – falei muito irritado e olhando ela
- Olha que nesse momento você até ‘tava precisando de uns bons tapas! – nesse momento Adriana e Diogo se despediram – Tá vendo? Vocês são muito fofoqueiros…
- Só estávamos a constatar factos, Dona Regina! – argumentou Ruben, mantendo o olhar preso na figura dela
- A moça acabou de terminar com você, David! Acha que ela tá em condições de ficar com mais alguém tão cedo?
- Mamãe, se ela tivesse assim tão mal por nossa separação, nem estaria num shopping se divertindo com as amigas!
- David, ah me desculpa, mas você então tá virando burro, meu filho… Cê acha que a Adriana tá bem?
- Acho… Sinceramente acho! – afirmei uma coisa, quando no meu interior considerava outra bem diferente
- Pô, já viu bem como ela está? Não reparou nos olhos dela, quando se aproximou de nós na mesa? Não viu como estavam inchados de chorar e rasos novamente, quando cê a tratou mal?
- Ah, mãe… Tá bom, não me enche o saco! – refilei, sem mais qualquer disposição pra ouvir falar nela
Talvez porque fosse preferível virar a cara pra verdade… Talvez porque doesse menos… Talvez porque se eu não pensasse, a dor acabasse desaparecendo e eu ia rezar todos os dias pra que assim fosse.


***

(Adriana)
- É o que eu estou dizendo… Vai acabar essa noite na cama dele! – foram as primeiras palavras a quebrar o silêncio daquele meu abraço a Diogo
Movimentei-me ligeiramente nos braços dele, assim que reconheci aquela voz e quando os meus olhos alcançaram a figura de David, confirmaram as minhas suspeitas.
- Foda-se, mas o que é que este gajo acabou de dizer? – o Diogo soltou-me no intuito de se dirigir a David e tirar satisfações
- Não ligues, Diogo… Desculpa, eu sei que é uma tremenda falta de educação, mas fui eu que o deixei e ele não está a aceitar bem as coisas… - não tive outro remédio a não ser desculpar-me pela péssima atitude de David
- Não tens de pedir desculpa, aquele gajo é que está a precisar de um abre-olhos!
- Não, deixa-o estar, peço-te… Não quero confusões!
- Não vou fazer nada, mas é por ti… Porque já percebi que não estás em condições!
- Não… Obrigada, pela compreensão! Aquilo são ciúmes, passam-lhe… - esbocei um sorriso triste e por fim ele libertou-me daquela abraço, que já durava há minutos
- Ciúmes de mim? Está com medo que voltes pra mim, é?
- Não sei, mas ele sabe do nosso passado, é normal…
- Ele pode ficar descansado, tenho namorada! – o Diogo sorriu de orelha a orelha e fui completamente apanhada de surpresa naquele mesmo momento
- Ah… Namorada? – clareei um pouco a voz para conseguir acabar de discursar – Parabéns, miúdo! – esbocei um sorriso sincero e toquei-lhe no ombro
- Obrigado!
- Estás feliz?
- Sim, estou… Afinal, começo a minha digressão este Verão, tenho um relacionamento firme com uma rapariga porreira e a faculdade corre sobre rodas, por isso…
- Hum, muito bem! Parabéns, Di… Tu mereces!
- Eu tenho de ir, a minha namorada está à espera do jantar! – ele riu-se levemente, assim como eu – Ficas bem?
- Claro que fico… Uma amiga vem buscar-me daqui a pouco!
- Pronto, sendo assim fico mais sossegado!
- Podes ir e obrigada por tudo!
- Se me queres mesmo agradecer, pequenina… - ele acariciou-me a bochecha esquerda desde a maçã, até à linha do maxilar – Coloca um sorriso lindo nessa carinha e sê feliz!
- Vou tentar fazer isso… Vá, vai lá agora aproveitar com a tua namorada! – sorri em forma de incentivo
- Sim, vou… Qualquer coisa que precises, já sabes… O meu número continua o mesmo! – ele deu-me um beijinho muito carinhoso na testa – Cuida de ti, miúda…
- Tu também… - murmurei quando ele já se havia afastado
Fiquei ali sozinha, na linha de fogo, sob os olhares cruzados de David e da mãe, que eu percebi claramente que estavam a discutir, somente pelas expressões. A Paulinha nunca mais chegava e eu precisava sair dali o mais depressa possível, antes que enlouquece-se… Antes que perdesse a total sanidade e ela já não era muita, que ainda me sobrava. Pousei a minha mala no capô e revirei-a em busca das minhas chaves do carro, mas não sei dizer se por estar nervosa, ou demasiado ansiosa por encontrá-las, estas não me apareciam à frente. Quanto mais remexia, mais longe parecia das alcançar e isso estava sim, a levar-me à total loucura, à total insanidade mental…
- Vai ver se ela precisa de ajuda… - ouvi a mãe do David incentivá-lo e isso só me fez acelerar ainda mais a procura
- Mãe, não enche o saco…
- Vai, Davi’, tô mandando! – quando a Dona Regina falava daquela maneira, nada feito, não havia volta a dar a não ser obedecer-lhe
- Pô…! – ouvi-o bufar, porque era mais que óbvio que não estava interessado em ajudar-me, muito menos em ter-me por perto
As minhas pernas começaram a ficar trémulas no instante em que percebi que ele viria ajudar-me, as minhas mãos acompanharam-nas e aumentaram ao máximo possível a velocidade com que procurava dentro da mala as malditas chaves do carro. As lágrimas começaram a escorrer-me pelas faces desesperadamente, procurando um porto para perecerem, tal como eu procurava um para me abrigar.
- Adriana… - reconheci aquela voz e senti uma mão pousar no meu ombro
Toda eu estremeci e o desespero aumentou. Foi o ponto de ruptura… Senti-me desmoronar com um simples toque! Aquela presença fez-me sentir que estava vencida, que na minha vida o meu final seria sempre o de eterna derrotada e nada que eu fizesse, ou quisesse fazer, poderia mudar isso. Não havia mais nada a fazer, respirei fundo, tanto quanto o soluçar me permitiu e rodei sobre os meus próprios pés, ficando então de frente para a pessoa que me guardava as costas e o coração…


Obrigada a todas pelos vossos comentários, é muito gratificante e só me incentiva mais e mais!
Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem e não se esqueçam de comentar!
Beijinhos
Drii

P.s - Não se esqueçam de comentar a minha fic e da Paulinha! :)
http://halfofmyheartfic.blogspot.com/


segunda-feira, 18 de julho de 2011

Capítulo 111 - A vida segue... (Parte II)



Foi quando vi essa rapariga embater os seus lábios de encontro aos do amigo de David, aquele que eu recordava somente de vista, que um flash veio à minha cabeça e relembrei a recente festa de aniversário de David, era de lá que os conhecia… Mariana e Pedro (!), era assim que se chamavam, eram somente um casal de namorados, o que levou a que os meus ciúmes se desfizessem rapidamente. O David porém não se coibiu de me lançar olhares provocadoramente altivos apesar de termos duas pistas a separar-nos, que se encontravam vazias, o que acabava por facilitar a visibilidade, infelizmente.

- Ele não tira os olhos daqui… - constatou Kika, olhando também na direcção deles

- Deixa-o olhar… Não tem problema! – apesar de ter os olhos rasos de lágrimas, os meus lábios revelaram um pequeno e tímido sorriso

Assim que elas retomaram as jogadas, eu perdi-me olhando-os discretamente. O David estava muito animado e se na verdade não estava, representava plenamente o papel, que confesso, me destroçou o coração! Ele estava ali, feliz (!), como se a nossa relação de um ano e a proximidade de ainda mais tempo, não tivesse conhecido o seu fim há coisa de uns dias. Gargalhava fortemente, sorria em abundância e falava alto, como se eu fosse o motivo da chacota geral, como se eu não importasse mais… Senti-me pequenina, tão pequenina que foi essa posição que assumi no meu lugarzinho. Descalcei os sapatos de jogo e coloquei os meus, permitindo-me então levar os joelhos ao peito e aí repousar a minha cabeça.

- Adriana, é a tua vez! – recordou Catarina sorrindo e arrancando-me da minha observação atenta

- Não me apetece mais jogar, meninas… A Kika joga por mim, não é? – quase que lhe implorei com o olhar que o fizesse e como boa amiga que era, acabou por ceder

- Sim, eu jogo por ela… - consentiu calçando os sapatos que até há bem pouco tempo atrás se encontravam nos meus pés

“Obrigada” - agradeci gesticulando com os lábios e ela limitou-se a sorrir e a tomar o meu lugar no jogo, o que não a podia ter deixado mais feliz, pois encontrava-me na segunda posição da tabela e tendo em conta o seu fraco e desmoralizador desempenho a nível do bowling, era razão para felicidade.

Inevitavelmente e apesar de ter lutado muito contra isso, os meus olhos voltaram a procurar aquelas figuras todas que me eram tão familiares. Vi então Inês, futura mulher de Ruben, que antes não observara porque se encontrava recolhida num cantinho e alheia ao jogo, visto que este também não era de todo o seu forte. O David não resistiu a sorrir-me cinicamente e a avançar para a pista do jogo com uma confiança no corpo e em cada movimento, que chegava a ser confundida com arrogância. Pareceu-me ver ali um David diferente do normal, pelo menos daquele a que eu estava a acostumada e pela expressão da Dona Regina não era só eu que pensava assim.

- Ah, que fraquinho, velho! – David gozou descaradamente com Gustavo que havia falhado o lançamento

Ele limitou-se a resignar-se e caminhar para um dos lugares livres, mas como reparou no meu olhar sobre si, foi educado e amigo fiel como sempre. Olhou-me com uma extrema ternura e acenou-me, mantendo sempre um sorriso delicado e meigo no rosto. Muito timidamente correspondi, mas a tristeza dominou aquele sorriso, como dominara todos os outros que eu havia dado desde o fim da minha relação com o homem que ainda amava…
Pelo simples facto de ele me ter acenado, os restantes presentes notaram a minha presença, ou melhor, aqueles que ainda não o haviam feito, como era o caso dos pais de David, de Ruben e de Inês. Sorriram-me e acenaram, tal como o Gu fizera e eu tentei retribuir da forma mais carinhosa possível.

- Meninas, vou lá fora fumar um cigarro… - avisei, pois precisava sair dali

- Mas desde quando é que tu voltaste a tocar num cigarro, Adriana? – questionou Catarina muito surpresa e erguendo a sobrancelha esquerda

- Desde agora! – afirmei muito segura e remexi na mala dela, que eu sabia ser fumadora habitual, roubando-lhe um cigarro e levando emprestado um isqueiro – Não demoro…

Afastei-me sem lhes dar tempo de me darem o merecido raspanete.
O percurso que realizei até ao exterior do Funcenter, por uma porta de acesso lateral, teve de se consumar pela passagem na pista 1. Todos me olharam, mas eu levava o cigarro bem escondido na palma da minha mão cerrada e o isqueiro na outra.
Saí sem olhar para trás e assim que alcancei a liberdade de um espaço livre, pelo menos de David, senti o ar quente de Verão preencher-me os pulmões e queimar-me as veias. Recostei-me lateralmente a uma parede de pedra, estava fria o que nem era de todo desconfortável tendo em conta dos 40º que se faziam sentir naquela tarde abafada e tipicamente lisboeta. Preparei-me para colocar o cigarro na boca e acendê-lo, há muito que não tocava num e não era que quisesse fazê-lo, mas precisava de tentar pelo menos tirar aquela tensão e frustração do meu corpo, mas não me pareceu que fosse surtir qualquer efeito. Ainda assim fiz uso dele até ao fim e pelo menos fiquei um pouco mais relaxada, um pouco mais livre de pensamentos e conformada para retomar àquele espaço com a ideia fixa de o abandonar. Enchi os meus pulmões de ar puro numa só inspiração e rodei sobre os calcanhares disposta a fazê-lo.

- Ah, era aqui que cê tava! – vi-o bem na minha frente, sem perceber muito bem quais eram as suas intenções, mas ainda assim detive-me na frente dele


***


(David) 

Vi ela saindo, sabia que tava magoada, mas a dor que ela sentia não devia ser nada, nem de perto, comparada com a minha. Tentei parecer muito animado, como se já a tivesse esquecido e por momentos acabei esquecendo mesmo, mas sempre que olhava pro lado, na direcção da pista 4… Meu mundo se voltava a centrar nela, me relembrando todas as razões porque meu coração ainda batia.

- David, é sua voz de jogar, pô! – reclamou o Gustavo vendo que me encontrava perdido nos pensamentos mais sórdidos

- Ah, claro… Sou eu! – rapidamente me livrei daquelas duas jogadas, que saíram miseráveis, mas nem com isso me importei mais e saí na direcção da mesma porta por onde ela havia saído há minutos atrás

- David, vais onde? – perguntou o Ruben, exercendo pressão com a sua mão no meu ombro

- Vou resolver uma questão… - me virei pra ele, disposto a enxergar seu rosto e vi que um tanto quanto de consternação o dominava e óbvio que concluí porquê assim que ele começou falando

- David, não piores mais as coisas… Não a magoes mais, por favor! – suplicou num tom piedoso, mas que a mim não me comoveu em nada

- Não vou piorar nada, vou só conversar… - esbocei um sorriso delicioso assim que minha memória me avivou do que eu planeava fazer

- Não, eu conheço-te… Sabes tão bem quanto eu o que planeias fazer e só te tenho a dizer uma coisa: não vais ganhar nada com isso!

- Eu não planeio fazer nada, Ruben… Me deixa ir, por favor!

- Não vou deixar, vais magoá-la de propósito, vejo isso na tua cara, David…

- E se for, manz?

- Se fores? Ainda perguntas? Ela pode ter errado, David, e sim, com toda a certeza o fez e nisso dou-te toda a razão do mundo, mas ela também é humana, também tem sentimentos e por muito que penses o contrário ela ama-te… Além disso, o David que eu conheço não gosta de fazer mal às pessoas e vais magoá-la, vais acabar por destruir o muito pouco que sobra daquele coraçãozinho…

- Manz, fala a sério! Porque é que eu me hei-de importar com alguém e com os sentimentos de alguém que tá nem aí pros meus? – dei uma resposta muito rápida, soltei um breve sorriso e segui o meu caminho

Dei bem de caras com ela tentando retomar o caminho pra dentro do recinto. Nossos corpos ficaram colados e isso nos primeiros segundos balançou comigo, mas rapidamente vesti minha armadura de ferro, bloqueei meus sentimentos e me preparei para a mais doce vingança.

- Ah, era aqui que cê tava… - murmurei com um sorriso triunfal nos lábios

Ela me olhou nos olhos, senti seu olhar trilhar meu rosto e morrer nos meus lábios, que jamais deixaria ela voltar a beijar de livre vontade e sem meu consentimento. Ao fim de alguns segundos, vi a Adriana baixar a cabeça e tentar se escapar para sair daquele espaço ao ar livre, que era somente frequentado por nós naquele instante.

- Tá pensando que vai onde? – a segurei firme pelo braço e voltei a colar os nossos corpos

- David, deixa-me ir, por favor… Não preciso de ouvir mais nada, eu estou já de saída! – ela tentou voltar a fugir, mas eu não permiti isso, mantendo a mesma posição

- Não vai embora sem primeiro a gente resolver nosso lance! – pela primeira vez soltei o braço dela, que tava começando a ficar vermelho de eu o estar apertado pra ela não fugir

- Mas o que há para resolver?

- Ué, não me diz que não quer ficar de bem comigo… - sorri de forma carinhosa e passei meus dedos nas bochechas dela

- Quero, claro que quero… Tu sabes disso!

- Então vamo’ ficar bem! – meus lábios tocaram o seu rosto e minhas mãos afastaram seus cabelos, abrindo passagem para aquela pele perfumada e irresistível que acabei polvilhando de beijinhos

- Vamos? Assim do nada? – questionou confusa, afinal de contas ela me conhecia bem demais

- Sim, a vida é demasiado curta pra gente perder tempo longe de quem amamos… - proferi cada uma daquelas palavras quase num sussurrou e sempre olhando aquelas dois olhos, que durante um ano se resumiram ao meu mundo

Não dei mais tempo para ela dizer o que fosse e deixei meus lábios roubarem um beijo aos dela. Depois da sua resistência passiva, minha língua abriu caminho e acabou tocando a dela num bailado harmonioso. Confesso que a minha ideia era me vingar, mas aquele beijo estava detonando o que restava do meu frágil autocontrolo. Nossos lábios se descolaram e selaram o momento com dois toques rápidos. Ela sorriu de uma felicidade extrema e eu a acompanhei porque estava feliz por sentir de novo seus lábios, mas queria fazer ela sofrer do mesmo jeito que havia feito comigo.

- Ai, amo-te tanto… - sussurrou e me tentou dar mais um beijo, mas fugi e desatei rindo que nem um bobo possuído de uma crueldade, que não era de todo minha – Estás a rir-te do quê, amor?

- Do quê? Nossa, cê ainda pergunta? – continuei gargalhando ao mesmo tempo que segurava minha barriga e ela me ficou olhando ali, no mesmo sitio, sem se mover um milímetro e aguardando uma explicação – Como cê é boba mesmo…

- Hã? Que queres dizer com isso? – as pernas dela tremeram e devido a esse erro vacilante se segurou na parede, usando uma mão contra a mesma

- Cê achou o quê, bobinha? Que eu te beijava, cê dizia que me ama muito e tava tudo bem? Foi fácil demais essa! – continuei rindo, mas meu coração tava ficando quebrado ao ver os olhos dela ficarem rasos de lágrimas

- Não acredito que estás mesmo a fazer isto… - duas lágrimas percorreram verticalmente seu rosto de candura imensurável e pereceram em seus lábios

- Foi fácil fácil enganar você! – me glorifiquei acompanhando o momento com um sorriso triunfantemente delicioso no rosto

- Tu fizeste isto de propósito para me magoar…? Tu não podes estar a falar a sério! – ela enxugou friamente as lágrimas que ainda lhe molhavam as faces rosadas e me encarou – Eu tenho sentimentos, estás a magoar-me, David!

- Chegou a dor? Sentiu? Viu como dói ser deixado? Viu como machuca ver a felicidade escapando entre os dedos? – falei com uma enorme raiva

- Tu não és assim… O David que eu conheço por muito que tivesse magoado jamais, mas jamais se serviria de uma vingança! Tu sabes que vais acabar por sair tão ou mais magoado do que eu desta situação!

- Eu, machucado? Não devemos estar falando da mesma pessoa… - voltei a me aproximar dela e roubei um selinho dos seus lábios – Não sinto mais nada por você!

- Não mintas, David! Sabes muito bem, que por muito que desejes não me amar, infelizmente ainda o fazes e é provável que os vás fazer por mais algum tempo… - ela falou friamente, mas isso não era impedimento para as lágrimas continuarem a cair a pique dos seus olhos

- Aí é que cê se engana… - beijei ela apaixonadamente

Nossas línguas se envolveram de uma maneira que até aquela data nunca o haviam feito, nem nas noites em que nos tínhamos entregado um ao outro intensamente.

- Cadê a paixão dos nossos beijos? – questionei com um sorrisinho cínico na cara

Havia sentido todo o sentimento daquele beijo, tanto da minha parte como da dela, mas aquilo fazia parte do meu plano e só ia parar quando a visse humilhantemente inconsolável na minha frente.

- Cadê o carinho de cada carícia? – meus dedos trilharam a maçã do seu rosto com um extremo cuidado

Ela estremeceu, fechou seus olhos e as lágrimas se intensificaram quase sem eu dar conta. Seu choro baixinho, se havia tornado descontrolado e ela estava a beira de soluçar que nem uma menina pequena. Puxei ela forte contra mim, pousando as minhas mãos nas suas nádegas e as apertando com desejo.

- Cadê a tesão de cada toque? – sussurrei bem pertinho dos seus lábios fazendo-a acreditar que ia unir as nossas bocas, mas fugindo no último segundo – Sumiu… Sumiu tudo! – gritei afastando os nossos corpos o mais possível

Ela nada fez, se limitou a chorar de olhos postos no chão, que servia de berço para todas as lágrimas que rojavam de seus lindos olhos. Nunca a havia visto naquele estado, chorando com todo aquele desespero, nem mesmo quando seu avô havia falecido. Meu coração mirrou, ficou tão apertado no lado esquerdo do meu peito, que já não estava nem capacitado de sentir meus batimentos, que se haviam tornado fracos e irregulares.

- Isso… Sofre! Sente essa dor! – desejei, mas porém sentindo essa mesma dor, porque quem ama de verdade e machuca, acaba saindo também machucado – Aproveitou bem os beijos? São os únicos que irá ter de mim até ao resto da vida…

- Tornaste-te um monstro! Um monstro! – ela finalmente quebrou o silêncio e fê-lo com um berro estridente

- O que é que cê me chamou?

- Monstro! És um monstro! – vociferou de olhos cerrados e chorando desalmadamente

Aquela palavra despoletou em mim um turbilhão de emoções e me joguei pra cima dela. Me havia chamado monstro? Como era possível? Eu que amava tanto ela… Que lhe queria tanto bem… Segurei seus braços, e se quisesse teria retirado seus pés do chão tamanha a força com que o fazia. Encostei ela com possança contra a parede até se ouvir um estrondo forte e encarei seus olhos. Ela só chorava e me olhava assustada, como se visse um… monstro! Sim, era isso mesmo que eu me havia tornado naquele momento, um monstro!
Quis remediar um pouco a situação e meus lábios automaticamente quiseram provar os lábios dela, mas ela desviou o rosto com uma mágoa imensa no olhar. Tentei fazê-lo outra tantas vezes, mas com ela sempre fugindo e por uma vez tentou fugir dos meus braços. Aí nem pensei mais, puxei ela pelo braço esquerdo, voltando a encostá-la contra a parede e uni as nossas bocas incessantemente. Foi um beijo longo, totalmente louco e muito sentido. Acho que senão estivéssemos em plena rua teríamos feito amor ali mesmo, sem pensar mais no assunto… Mas na minha cabeça aquela carta se avivou… Cada palavra, cada linha, cada despedida e com elas, uma enorme revolta se voltou a apoderar de mim.

- Nossa, como seu gosto tá mau desde que deixei você! – debochei da cara dela, assim que senti um sabor a tabaco na sua boca

Foi a humilhação final, ela não conseguiu dizer mais nada, me empurrou pra longe de seu corpo e desatou chorando. Seu corpo deslizou pela parede fora e aterrou no chão, onde ficou chorando… Sozinha! Porque eu a mirei uma última vez e voltei pra dentro, na promessa de nunca mais a desejar beijar, nunca mais a desejar querer, mas eu sabia que ia ser sempre assim, aquele amor não tinha jeito…



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(Adriana)

Nunca tinha visto o David assim, tão vingativo… Tinha-me roubado um beijo, feito acreditar que tudo estava bem e iria ficar ainda melhor, para logo de seguida me humilhar, atirar o meu coração ao chão e pontapeá-lo como foi sua vontade. Não estava mais disposta a suportar nada daquilo! Assim que ele se foi embora, com um sorriso glorioso no rosto, igual ao que esbanjava sempre que vencia um jogo, levantei-me e procurei a porta de entrada. Enxuguei as lágrimas e fui directa à pista 4 chorando ainda silenciosamente.

- Adriana… - murmurou Kika baixinho vindo logo na minha direcção

- O resto das meninas? – perguntei confusa, quando vi a pista vazia

- A Catarina foi comprar mais um jogo para todas e a Ana e a Débora foram comprar sumos! – enquanto ela falava eu fui enfiando na minha mala o telemóvel, os óculos de sol e a carteira – Mas vais embora?

- Sim, vou… Não consigo mais estar aqui! – levantei a cabeça para a olhar nos olhos

- Adriana, que aconteceu? Porque estás nesse estado? – ela tocou as minhas faces eliminando algumas das lágrimas que aí tinham encontrado o seu abrigo

- Não quero mais falar nisso, só me quero ir embora… - pedi chorando e tremendo por todo o lado

- Vamo’ embora, gente… Esse sitio ainda ficando muito mal frequentado! – o David e os que o acompanhavam passaram por nós nesse momento em direcção à saída

Assim que fiquei em porto seguro, longe dele e dos que me eram conhecidos, o meu corpo tombou sobre a cadeira e o meu peito rebentou num soluçar aflitivo. Senti os braços da Kika envolverem-me e embalarem-me até ficar calminha. Ou melhor, até deixar de chorar e conseguir levantar-me para ir embora.


***


- Não vás já… - pediu a Catarina com uma expressão de tristeza no rosto

- Desculpem, meninas, mas não consigo ficar e divertir-me mais hoje…

- Oh, pequenina… - ela abraçou-me – Vais como? Queres que te dê boleia?

- Não precisas, amor… Estou de carro, está lá em baixo nas garagens!

- Nós levamos-te lá… - ofereceu-se rapidamente, mas eu queria mais era estar sozinha, sentir-me em porto seguro… no meu porto seguro!

- Desculpem, mas prefiro mesmo ir sozinha… É preferível! – esbocei um sorriso forçado e triste

- Tens a certeza?

- Sim, absoluta! – acenei positivamente com a cabeça somente duas vezes – Obrigada pela tarde, meninas!

- Oh, não tens de agradecer, queríamos era que te tivesses divertido mais…

- Deixem lá isso… Aproveitem vocês o resto do jogo! – dei um beijinho e um abraço em todas

- Vai dando notícias, sim? – a Catarina desviou compreensivamente uma mecha de cabelo, que me caía sobre os olhos

- Sim, tu também! – trocámos um último sorriso e eu segui o meu caminho, desta vez sozinha

Comecei a caminhar para fora do Funcenter com o desejo de chegar a casa o quanto antes, pois sabia que já se adivinhava uma noite longa de choro e sofrimento. Aquela atitude de David tinha-me magoado de todas as maneiras possíveis, ele tinha sido um autêntico monstro e eu sabia que ele não era assim, mas eu estava somente a pagar a factura do que lhe havia feito e por isso, e só por isso, não me sentia capaz de o julgar. Passei novamente pela loja preferida dele, baixei a cabeça e ao contrário do que era normal, não me detive em frente à montra buscando algo para lhe oferecer, algo que fosse “a sua cara”, algo que ele gostasse… Limitei-me a caminhar sempre em frente e só virei à direita, quando cheguei à zona da restauração. Eram quase cinco da tarde, mas não havia quase ninguém nos cafés e restaurantes. Desci os óculos de sol para a cara e automaticamente os meus olhos ficaram rasos, pelo menos assim ninguém os poderia ver. As lágrimas começaram a rolar pelas minhas faces e eu limitei-me a enxugá-las, mas sem nunca travar a minha marcha. Quando passei em frente à casa dos crepes, reconheci os pais de David sentados numa mesa, estes acenaram-me e fizeram sinal para que me aproximasse, mas quando ia fazê-lo vi o David, o Gustavo e o Ruben chegarem com os tabuleiros cheios… Detive-me, sem saber bem o que fazer. E agora?

Antes de mais tenho mesmo de agradecer por todas as palavras que deixaram nos comentários ao último capítulo, estes incentivos são sempre importantes, não se esqueçam disso!
Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem!
Não se esqueçam de comentar! :)
Beijinhos
Drii