quinta-feira, 21 de julho de 2011

Capítulo 111 - A vida segue... (Parte IV)


- Paulinha? – perguntei com os olhos rasos, pois julgava que quem me ia interceptar era David
- Oh amor… - ela tocou-me delicadamente na maçã do rosto e isso foi o bastante para despoletar em mim um turbilhão de comoções
Quebrei num choro sentido e totalmente soluçante, que acabou por ser abafado no conforto do abraço da Paulinha. Joguei-me nos braços dela sem olhar a meios, sem olhar a fins para pôr termo àquele sofrimento… Mas não havia maneira deste cessar. A cada segundo, um rasgo de dor, que me havia preenchido desde aquela fatídica noite nas garagens, em que tinha ouvido mais do que aquilo que devia, aumentava e aumentava. O pesar era tanto que chegava a sentir-me estraçalhar… Como se o meu coração sofridamente latejante fosse explodir em meu peito, para se projectar no seu exterior. Talvez se isso acontece-se a dor fosse menor, ou talvez até nenhuma! E então era isso que eu precisava fazer? Livrar-me do meu coração para todo aquele sofrimento desaparecer? Mas como havia eu de fazer isso, se precisava tanto dele para viver, para sentir, para perspectivar a minha condição de humana, para amar aos que me eram próximos e sim(!), para amar David… Por muito que eu o quisesse esquecer, haviam coisas das quais eu tinha a plena consciência! Namorei David mais de um ano, mais exactamente um ano e três meses… Quatrocentos e cinquenta e sete dias da minha vida. Quatrocentos e cinquenta e sete longos dias da minha vida… Tinha sido muito feliz! Tinha visitado locais que nunca pensara sequer vir a conhecer, tinha conhecido pessoas que me surpreenderam pela sua simplicidade apesar do estatuto social, tinha experimentado pela primeira vez aquilo a que o verdadeiro amor sabe… E confesso, amar e ser amado é a melhor sensação do mundo, mas amar com a intensidade que eu e ele amámos, teve um gosto diferente… Um gosto de amor para a vida, um gosto de entrega, um gosto de beijo, de abraço, de carinho, de protecção, um gosto de paixão…
“A paixão acabou!”, disse-me ele naquele dia… O que seria de nós sem isso? O que seria de mim sem o amor dele? Sem aquela paixão, que fazia o meu coração acelerar só de o ver e que me embargava no desejo de sentir os seus lábios húmidos junto aos meus a toda a hora, a todo o minuto, a todo o segundo… “A paixão acabou!”, proferiu ele naquele maldito dia… Então era hora de seguir em frente, erguer o rosto e percorrer o caminho rumo à meta. Mostrava-se uma caminhada longa, morosa e repleta de dor, mas nada impossível… Nada que eu não pudesse encarar, nem que para isso tivesse de esboçar nos meus lábios o sorriso mais forçado, só para parecer bem. E então foi exactamente isso que tive de fazer naquele momento…

- Bah… Já chega! – pedi a mim mesma, ao mesmo tempo que me libertei do abraço reconfortante de Paula
- Isto vai tudo passar… - jurou-me ela, naquela voz calma e equilibrada
- Sim, eu sei que vai…! – afirmei muito segura de mim, ou pelo menos fingi muito bem e acabei por a apanhar de surpresa
- Para mim não tens que fingir… - sussurrou-me, quando os seus lábios soltaram a minha testa, que há segundos beijara
Limitámo-nos a trocar um sorriso cúmplice. Não eram necessárias palavras, nem tão pouco uma explicação… Bastava ler no meu olhar, e quem me conhecia bem como ela conseguia-o fazer, que eu queria estar sozinha, viver a minha dor uma última vez… Queria não falar mais no assunto, queria esquecê-lo a ele e àquele ano e meio… Queria, eu queria, queria, queria… Queria tudo e ainda não tinha nada, mas com algum esforço, com quedas e derrotas, eu ia acabar por ter. Porque como ele próprio me dizia tantas vezes “Nada é impossível, não pudemos é jogar a toalha ao chão sem antes tentarmos!”. Então era isso mesmo que eu ia fazer… Ia agarrar na toalha, encher-me de força e dar luta. Não ia afirmar que não o conseguia esquecer, não ia dizer que não sabia ser feliz sem o ter, não ia render-me àquela dor evidente da sua ausência. Não ia… Não ia pelo menos fazê-lo, sem tentar! Sem tentar uma única vez que fosse e só aí, depois de batalhar com todas as minhas forças, me poderia dar por vencida.
- Vamos pra casa… - pedi-lhe ao mesmo tempo que procurava novamente na minha mala as chaves do carro
- Vamos… - ela colocou-se do meu lado, ajudou-me finalmente a encontrá-las e assim que o fiz, passei-lhas para as mãos
Apesar da minha decisão de lutar, não estava em condições de conduzir… Muito menos um carro que me havia sido oferecido por ele, era preferível que fosse ela a fazê-lo. Olhei uma última vez na direcção dele e vi que não movera um músculo, que não acedera em nada ao pedido da mãe, que do seu lado o olhava com uma tremenda mágoa, tentando reconhecer o menino educado e humano que um dia criara. Troquei um sorriso triste com eles e com Ruben e rodeei o meu carro, para tomar o “lugar do morto”.
Era irónico, de certa forma até era assim que me sentia sem ele… Morta! Era hora de dar vida àquele lugar, trazer cor aos meus dias, calor ao meu coração... Era hora de viver, de amar e ser amada, porque por muitos dissabores que possam cruzar os nossos caminhos, a vida segue… Demora, dói, custa, mas a vida segue!

***
Entrei no meu apartamento ladeada por Paula e o silêncio entre nós nunca soara tão mórbido, tão assustador… Ela não sabia o que me dizer, depois de no carro lhe ter contado a atitude de David, e eu não sabia o que precisava ouvir. Talvez porque não precisasse de ouvir nada, senão os pequenos estilhaços do meu coração a lutarem para sobreviver, a lutarem para se aglutinarem de novo e aprenderem a bater num ritmo meu… Agora, só meu!
- Mais calminha, amor? – perguntou ao ver-me sentar sofá
- Sim, mais calminha… - respondi num tom conformista, porque na verdade era apenas isso que me restava: conformar-me
- Precisas que te prepare alguma coisa? Uma torrada, um cházinho, uma tosta, um sumo? – ela esboçou um leve sorriso e deu-me um beijo no topo da cabeça, para logo de seguida ocupar o lugar vago do meu lado
- Não, obrigada… Acho que isso ainda não cura corações partidos!
- Sim, isso não cura… - ela fez uma breve pausa e olhou-me piedosamente – Mas tens de te alimentar, também não é a deixares de comer, que resolves os teus problemas…
- Sim, eu sei… Tenho a plena noção disso, mas neste momento não desce nada! Lá para a hora do jantar eu faço qualquer coisa… - sorri para a tranquilizar e segurei a sua mão carinhosamente – Obrigada por me teres ido buscar, mas não tinha forças para pegar no carro…
- Não faz mal, pequenina… Sabes que podes contar comigo pra tudo! – ela sorriu e deu-me um beijo na face
- Sei… Acho que é dos poucos consolos que me restam!
- Não digas isso! Tens montes de amigos, tens a tua família que te ama… Tens os teus fãs e dentro em breve começas a tua digressão!
- Sim, acho que não podia ter vindo em melhor altura… Vai fazer-me bem, viajar, conhecer pessoas e países novos, dedicar-me a cem por cento ao meu trabalho. Sim… Acho que me vai mesmo fazer bem!
- Gosto mais de te ver assim, um bocadinho animadinha! – ela sorriu e eu fi-lo também, só para a deixar mais sossegada, pois conhecia perfeitamente o estado inquietante em que ficava quando aqueles que amava não estavam bem
- A partir de agora é esta Adriana que vais ver… Só preciso de tempo e tudo se há-de recompor! – forcei um enorme sorriso e tive de engolir as lágrimas, que me atabalhoavam a respiração
Ela lançou-me um sorriso sincero e num gesto muito natural olhou em seu redor, percorrendo cada canto da minha sala, que estava um pouco desorganizada na zona das estantes, devido ao estudo da recta final do primeiro ano de faculdade. Havia lacunas, espaços vazios sob os móveis de apoio ao sofá e à televisão, eu sabia o que ela estava a pensar, mas quando começou a falar, inteirei-me da questão.
- O que é fizeste às coisas? – perguntou, referindo-se às recordações de David, que eu guardara num caixote bem fundo, debaixo da cama do quarto de hóspedes
- Tirei-as daqui… Olhar para aquelas coisas, a toda a hora, não me fazia nada bem… - torci os lábios e encolhi os ombros, em jeito de que não havia mais nada a fazer, a não ser deixar o tempo passar e consigo arrastar novos e melhores ventos, pelo menos um pouco mais felizes
- Deitaste fora?
- Não, para já isso ainda não consigo… São pedacinhos de mim que não quero apagar já, com o tempo penso nisso, para já estão numa caixa bem guardada! – afirmei com um sorriso leve nos lábios
- Não tens a tentação de ir ver as coisas?
- Não… Sei que é provável que a tenha, mas depois da mágoa de hoje, dificilmente o irei fazer, porque já não consigo olhar para trás e recordar de forma doce a história que eu e ele vivemos… Sim, foi bom, mas com aquela atitude, ele borrou um bocadinho o quadro que demorou um ano e três meses a pintar…
- Ele está magoado… Muito magoado, Adriana…
- Eu sei disso, Paulinha, mas ninguém me pode censurar por estar magoada com o comportamento de hoje! Aquele não era o David que conheci…
- Ele também precisa de tempo para acertar aquelas ideias na cabecinha… É como tu! Vai demorar pra aceitar, vai doer e vão ter de fazer um esforço danado, mas sei que determinados e teimosos como são vão acabar por conseguir seguir em frente, mas de outra coisa estou certa… Vocês em frente seguem, mas um ao outro, não se esquecem!
Não dissemos mais nada, ficámos em silêncio… Olhando-nos, vendo cada expressão despojada de vergonha ou preconceito, uma da outra. Com ela não havia “Mas…”, “Se…”, com ela tudo era simples, tudo terminava num ponto, sem espaço pra dúvidas, sem espaço pra hipóteses. Ela sabia bem o que estava a sentir, isso era um facto, mas também sabia que não devia tocar mais naquele assunto comigo, pois ele morria ali.
- Eu tenho de ir… Combinei de ir jantar com o Roberto, mas não sabia que isto te ia acontecer! – desculpou-se depois de constatar as horas no relógio de pulso
- Não tem mal, podes ir que eu fico bem… Vou mudar de roupa, comer qualquer coisa e cama! Só quero esquecer que este dia aconteceu…
- Se precisares de alguma coisa liga-me… - disse imediatamente assim que a sua preocupação ordenou – Venho a correr!
- Podes ir, relaxa, amor… Eu fico bem!
- Pronto, mas pelo sim, pelo não o meu telemóvel está ligado e se precisares, não hesites! – ela levantou-se do sofá com um sorrisinho nos lábios
- Sim, se eu precisar de alguma coisa ligo-te… Obrigada por tudo! – ergui-me também do meu lugar e abracei-a com gratidão
- Não tens de me agradecer, não fiz nada que não fizesses por mim…
- Sim, faria igual, sabes muito bem disso…
- Então, não tens nada que agradecer! Fiz de coração, só te quero ver bem… - Paulinha fez-me uma festinha na maçã do rosto e automaticamente sorri
- Eu vou ficar bem e olha que conto com a tua presença no meu concerto em Madrid, tua e do espanholito! – ambas soltámos uma gargalhada contida, mas sincera
- Claro, lá estaremos com todo o gosto, pequenina… Vou indo, sim? Já sabes… - ela ia começar a falar novamente, mas interrompi-a
- Sim, já sei, podes ir! – ela riu-se e deu-me dois beijinhos
– Cuida de ti…
- Sim, tu também e manda beijos ao Roberto… - caminhámos lado a lado e abraçadas uma à outra, até à porta do meu apartamento
- Mando sim, juízo e vai dando notícias! – pediu-me, quando já se encontrava do lado de fora da porta
- Sim, eu vou… Adoro-te! – abracei-a uma última vez em forma de agradecimento
- Também te adoro… Podes ter a certeza!
Foi com um sorriso nos lábios que me despedi dela e fechei a porta. Agora era só eu no meu mundinho, podia chorar, espernear, berrar, que ninguém teria pena, ninguém me olharia misericordiosamente.
Sentei-me no sofá e olhei o meu telemóvel com uma vontade enorme de regressar aos velhos tempos e mandar-lhe uma mensagem só pra dizer que o amava. Como é óbvio não o fiz, limitei-me a deitar no sofá, bem enrolada sobre o meu próprio corpo e liguei a televisão. Não dava nada de jeito… Apenas aqueles programas que as mais velhas têm por hábito ver, em que o aparato é muito e o conteúdo nenhum. Estive mais de três minutos a fazer zapping com o comando, mas pelo meio uma coisa deteve-me…

“ – … Eu sou feliz no Benfica, me acolheram nessa casa faz anos e sinto que ainda posso crescer mais como profissional nesse clube… O Benfica vai entrar nesse ano muito confiante, com vontade de revalidar o título nacional e depois das férias eu me apresentarei junto da equipe cheio de força de vontade e empenho para realizar uma época tão boa ou melhor ainda que essa que passou!” – a imagem de David surgiu tão confiante na minha frente que senti o meu pequeno, frágil e quebrado coração estremecer de forma eufórica  
As lágrimas desarmaram os meus olhos assim que ouvi a voz dele e vi a sua figura na televisão. Apanhei somente o fim da peça jornalística, mas foi o suficiente para me fazer ter saudades. Chorei… Chorei muito naquela tarde, como provavelmente iria chorar nos dias seguintes, mas eu precisava aprender a ser uma nova Adriana. Aquela que sabia, podia e queria viver sem David, mas para isso eram necessárias diversas fases… Começaria com passinhos de bebé, excluindo-o dos mais pequenos rituais da minha vida e só depois… Talvez um dia, possa afirmar que finalmente… o esqueci!



***


(David)
- Cê não tem emenda, meu filho… - assim que o carro de Adriana abandonou as garagens, minha mãe não se coibiu de me atacar
- Pára com isso, mãe… Pô, eu ia lá, mas aí a Paulinha chegou!
- Não importa, cê tinha ido lá na mesma! Saber como ela ‘tá, pedir desculpas pela sua atitude de moleque de há pouco!
- Quer saber, mãe? Tô nem aí pro qu… - a chegada do Gustavo nos interrompeu
- E aí, gente? O estacionamento ‘tá pago, vamo nessa? – ele passou um braço em torno dos meus ombros
Não disse mais nada, olhei minha mãe com alguma raiva por ‘tar defendendo ela daquela maneira, quando havia sido Adriana a fazer a borrada. Entrei no carro e fechei a porta com muita força, coloquei a chave na ignição, passei o cinto na minha frente e fiquei esperando eles. Vieram todos comigo à excepção de Ruben, que seguiu no seu próprio carro pra casa.
- Vai mais devagar, Davi’! – pediu a minha mãe que ia no banco de trás com meu pai
- Tô indo devagar… - ciciei entre dentes, pra não perder o controle
- Não ‘tá não… Quer se arrebentar se arrebenta sozinho, mas toma cuidado com quem vai no carro com você!
- Mãe, pelo amor de Deus, pára de me encher o saco! – a palma da minha mão aberta embateu no centro do volante fazendo a buzina activar
Nenhum deles disse mais nada, pelo menos não a mim e eu até achei preferível assim, pois era muito mais fácil ouvir, mas não ter de me controlar inexoravelmente, pra não dizer borrada da grossa para uma das pessoas que mais amava no mundo e que de algum jeito ‘tava tentando ajudar, eu só não compreendia como.
- Acho que antes de irmos embora vou ligar pra ela, marcar qualquer coisa pra pedir desculpa do jeito grosso do Davi’… - ouvi minha mãe conversar com meu pai, mas fiquei na minha e subi um pouco o volume da música pra não ter que escutar o nome dela
- A Adriana ‘tá em baixo, sabe que fez borrada, mas não me parece que ela vá querer ver você, Rê… Ela não quer pôr você contra o Davi’!
- Ela não me vai pôr contra ninguém… Eu não sou contra o Davi’, sou contra a falta de educação e nosso filho nunca tinha sido assim!
Tentei controlar, tinha o coração bem apertado, as lágrimas quase correndo pela minha face e uma vontade enorme de explodir, de gritar com todo o mundo, de os acusar da minha infelicidade.
- Isso é porque eu nunca tinha amado assim! – respondi de uma só vez, num tom de voz frio e indiferente
Pra piorar a situação, o Gustavo que andava brincando com os botões da rádio do meu carro, sintonizou numa estação bacana, mas alguns minutos depois do silêncio que se instalou devido à minha confissão, quando passávamos junto da 2ª circular, a voz dela invadiu meu carro. Sua música ‘tava passando na rádio. Ai meu Deus, fiquei mal… Muito mal! As lágrimas que estavam quase caindo, acabaram por o fazer, ainda que de forma discreta. Todos ficaram em silêncio me olhando, mas não quis dizer nada. Estendi a mão e desliguei a rádio. Foi naquela ausência de palavras, que finalmente chegámos em casa. Segui na frente deles em tudo, só pra não ter que falar, só pra não ter que ouvi.
- Davi’, que cê vai querer pro jantar? – perguntou minha mãe, enquanto todo o mundo pendurava os seus pertences no bengaleiro
Não respondi, fui directo no meu quarto e fechei a porta. Deitei na cama de barriga pra cima e foi inevitável não relembrar todas as vezes que o fazia, para depois acabar sentindo o peso daquela cabecinha sob o meu peito, enquanto suas mãos percorriam carinhosamente meu tronco nu.

*****
Lembraça:

Tínhamos acabado de transar e meu Deus (!), havia sido uma entrega totalmente diferente… Totalmente sentida, totalmente vivida, totalmente repleta de paixão. Me deitei do seu lado, completamente estoirado e não tardou nada até sentir seus cabelos no meu peito.
- Amo-te… - ouvi a voz dela sussurrando naquele portuguesinho perfeito
- Também amo você… Também amo muito você! – beijei sua testa com cuidadinho, pois pra mim ela era meu pequeno tesouro e todo o cuidado era pouco pra não machucar ela
- Eu sei que amas e isso faz-me a mulher mais feliz do mundo… - senti os cálidos lábios dela embaterem contra a pele do meu peito e me arrepiei total
- Te faço mesmo feliz, meu amô? - a insegurança me domou e isso naturalmente que transpareceu na minha voz
Ela deu um jeitinho se puxando mais pra cima, ergueu a cabeça até essa ficar junto da minha e me olhou nos olhos profundamente.
- Mais ainda tens dúvidas? – sorri pra ela totalmente babado, mas esperando as suas restantes palavras – Nunca fui tão feliz, porque nunca tinha provado o amor assim, com esta intensidade e com uma pessoa tão maravilhosa como tu…
Não quis falar mais nada, segurei ela nos meus braços, a coloquei ligeiramente por baixo do meu corpo e a beijei. Beijei com muito sentimento, com todo o meu amor e pela forma como ela me correspondeu, meu coração ficou cheio… Nossa, meu coração ficou muito cheio, tão cheio que eu julguei que fosse explodir ali mesmo, na frente dela, mas não… A cada prolongamento daquela carícia, mais ela conseguia acalmar meu ser, mais ela se conseguia aproximar da minha alma.
- Fui feliz contigo em seis meses, o que não fui numa vida inteira! – jurou num sussurro pertinho dos meus lábios
- Prometo que te vou fazer feliz por toda a nossa vida…
Ambos esboçamos sorrisos lindos, sinceros e apaixonados. Quando nossas bocas se uniram tivemos a certeza que iriamos ser um do outro mais uma vez naquela noite e era só isso que a gente precisava: amar e ser amado!
*****


Fui violentamente arrastado para a minha nova realidade, num mundo onde ela não existia, onde ela não me pertencia mais. Me contorci de culpa ao relembrar o jeito que a havia tratado no shopping, minha mãe ‘tava certa: aquele não era eu! Pensei ligar pra ela, pedir perdão, pedir ela de volta, mas mesmo que o meu orgulho me tivesse deixado fazê-lo, agora era ela que não me ia querer… Me devia ‘tar odiando por tudo! Olhei em redor e vi em cada cantinho daquele quarto uma recordação dela. Tudo me fazia querer chorar, tudo me entristecia e tudo provocava em mim uma saudade danada. Na mesinha-de-cabeceira ainda estava a garrafinha de água que ela costumava trazer pro quarto de noite, na gaveta do meu lado eu tinha a certeza que ainda podia encontrar a pequena escova que ela passava nos cabelos antes de se deitar e como esses pequenos detalhes, uma parafernália que tantos outros, que continuavam quebrando meu coração e impedindo ele de bater direito.
 
- Volto logo! – ouvi a voz do meu pai e a porta da rua batendo, provavelmente minha mãe tinha pedido algum favor pra ele, mas não liguei
Levantei a cabeça da cama, me sentando na mesma e meu olhar alcançou o computador portátil pousado em cima do móvel. Provavelmente ela devia ter sido a última pessoa a usar ele. Me ergui da cama, alcancei e o liguei. Pra entrar tive de colocar a pass que era exactamente a data do início do nosso namoro: 23deFevereiro. Por muito que eu quisesse, não dava pra apagar o rasto que ela deixara na minha vida. Sentei de novo na cama e comecei passando pelas pastas existentes na esperança de me distrair lendo algo, mas encontrei uma que me chamou a atenção “Nós ♥”. Claro que entrei e me deparei com outro monte de pastinhas, que continham fotos nossas. Fiquei ali perdido, observando em cada fotografia um novo capítulo da nossa história sendo escrito por uma simples imagem. Meus olhos ficaram rasos de lágrimas e inevitavelmente, apesar de muito custo, comecei chorando… De tristeza, de frustração, de ódio e de saudade!
- Meu filho… - a voz da minha mãe entrando no meu quarto me despertou para a realidade e me foquei então na sua imagem
Ela me viu chorando e perdeu o interesse pra falar o que ia falar. Soltou a maçaneta da porta, se sentou do meu lado na cama e olhou o ecrã do computador.
- Que cê tá vendo, meu chochinho? – ela passou carinhosamente sua mão de mamãe no meu rosto
- Fotos nossas… Recordações… - respondi com um sorriso triste no rosto e senti uma lágrima escorrer pela minha cara
- Não fica assim triste, meu filho… Cês ainda são novos, se gostam! Ainda tem uma chance pra vocês…
- Não tem, mamãe… Hoje eu tratei ela muito mal, por essa altura me deve ‘tar no mínimo odiando! Eu vou esquecer ela… Tocar minha vida!
- Tem certeza que é isso que cê quer, meu Davi’?
- Não quero, mãe, mas tem que ser… Tudo se vai compor na minha vida, só preciso de tempo e essas férias que vêm aí no Brasil, me vão fazer muito bem!
- Pronto, cê que sabe… - ela me sorriu e tentei corresponder, mas meus lábios não obedeceram à minha cabeça
- O pior é que eu nem sei… - sussurrei só pra mim e voltei a chorar, olhando as nossas fotografias
- Tão lindos… - ela sorriu e me deu a mão, como sinal de força e carinho
- É… A gente foi feliz! – ri levemente ao passar umas fotos onde juntos fazíamos uma sucessão de caretas
- Nossa, cês sempre foram o casal campeão de caretas, todo o mundo fala isso! Olha pra isso gentxi, que bobagem! – ela ria enquanto via as fotos passando e por momentos consegui acompanhar ela
Cheguei então num vídeo, um que havíamos gravado num passeio à beira rio em Belém.
“ - Boa tarde a todos, aqui estou eu e o meu namorado feioso! Nós acabám… - eu interrompi ela
- Oh garota, tá chamando feioso a quem, pô? – surgi nas costas dela, abraçando-a
- Como eu estava a dizer… Nós acabámos de fazer uma aposta, em como eu consigo aguentar mais tempo a fazer o pino do que ele!
- E essa tola daqui quer deixar registado em vídeo a sua derrota!
- Nada disso, eu vou ganhar e vais ter de me levar a Paris!
- Não, cê vai perder e vai ter de limpar minha casa durante 6 meses!
- Não liguem! – ela pousou a câmara no chão de cimento – Estás pronto?
- Tô e cê?
- Também… Em 1, 2, 3!
Ambos subimos para manter o pino, ficámos assim algum tempo, sem trocar uma palavra e apenas se ouvia o barulho da leve ondulação do rio embatendo no cais.
- Ai, ai… - me queixei e acabei saindo do pino pra logo de seguida ela também o fazer
- GANHEI! EU GANHEI! PARIS AQUI VOU EU! – ela começou a gritar que nem uma doida e dando pulinhos de contente
- E essa daqui é a doida da minha namorada… - me ri, enquanto com a câmara na mão a filmava comemorando a vitória
- É a doida que vai a Paris às custas do caracolinhos! – ela me deitou a língua de fora – Quando posso começar a fazer as malas? – ela se aproximou da câmara e foquei bem ela, com aquele sorrisinho lindo
- Levo você lá esse Verão, tá prometido!
- Prometido, prometido, meu amor?
- Prometidíssimo!
Afastei a câmara e a puxei pra mim, me servindo disso pra filmar um beijo nosso. Ficámos lindos… Espelhando um quadro de felicidade e muito amor!
- Te amoooooo! – jurei com um sorriso enorme
- Eu amo-teeee! – ela soltou uma gargalhadinha suave
- Ouviram bem? Registem isso! Essa mulher me amaaaa! – disse olhando para a câmara, que ainda estava na minha mão”
Não fui capaz de assistir mais e fechei o vídeo. Um total desespero me havia dominado e por instantes quis destruir todas aquelas recordações. Seleccionei a pasta e carreguei em “delete”.
- Meu filho… Não faz isso! – o toque da minha mãe, me impediu de carregar o “enter”
- Só quero ver isso desaparecer, mamãe…
- Cê pode destruir as provas de que isso foi real, mas não vai conseguir apagar as memórias daqui… - ela tocou o lado esquerdo do meu peito muito cuidadosamente - … e daqui! – finalizou pousando a ponta do seu indicador sob a minha têmpora
Desisti daquela ideia, minha mãe estava certa, como toda a mãe quase sempre ‘tá… Larguei as pastas, encerrei o computador e joguei ele sobre a cama. Senti um vazio enorme dentro do meu peito e acabei me perdendo em nada… Meu olhar fixou um ponto distante do chão e fiquei assim, pensando… Pensando nela, em mim, em nós, em tudo, em nada…
- Não fica assim, meu amô…
- Ai, mamãe… Dói tanto!
- Vem cá, meu neném… - os braços dela me envolveram no seu abraço reconfortante e maternal
Foi desse jeito que me desarmou por completo, acabei chorando tudo o que aqueles estigmas de que “homem não chora”, me haviam feito aprisionar. Só ali tomei consciência que havia perdido a mulher que mais amava no mundo e que com toda a certeza, iria continuar amando até ao resto da minha vida, ainda que tivesse de o fazer em silêncio…




Bem, tenho definitivamente de agradecer os 30 comentários que tive ao capítulo anterior, não imaginam como é gratificante! A todas que lêm e comentam, MIL obrigadas! :)
Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem e não se esqueçam de comentar!
Beijinhos
Dri

30 comentários:

Patrícia A. disse...

ò meu deus, acabei de ler o capitulo e tou pra aqi a chorar qe pareço uma madalena.
PArabéns, tu tens um dom :D
MAs por favor, acaba com o sofrimento deles sim?
Beijinho*

Anónimo disse...

Oie Oie :)


Adoreiiii , cada vez melhor a tua fic :) !!!! Só agora é que o David viu o quando fez sofrer a Adriana , acho que ele não devia desistir dela , ele têm de ir á luta , um amor tao bonito e tao puro , nao pode acabar assim :)


Quero os dois juntinhos :) :p


Quero mais sim ?


Beijinhos*

Anónimo disse...

Esqueci-me de pedir que vás dar a tua opiniao na minha fic , começei-a a pouco tempo , claro só se quiseres :)


És muito bem-vinda



http://luta-por-um-sonho.blogspot.com


beijinhos*

Anónimo disse...

Tardou, mas não falhou!
Finalmente o David tomou consciência da burrice que fez. Duvido, sinceramente, que a Dri consiga perdoá-lo, pelo menos, por agora. Foi mau demais...
Descreves-te aquela cena do vídeo tão bem, tão ao pormenor... bem parecia que estava a assistir de camarote :b

Mais uma vez parabéns pelo trabalho fantástico!
Estou super ansiosa pelo próximo capítulo :)

BEIJINHO

Raquel

Sofia32 disse...

Adoreiiii... Está simplesmente lindo...

Já te disse, mas volto a repetir, a tua escrita é FANTÁSTICA, escreves mesmo muito bem..

Quero-os juntinhos pode ser?! Vá lá..

Beijinhos e Continua

Anónimo disse...

Definitivamente você tem o dom de despertar em mim vários sentimentos juntos Drii *--*
Quero mais , muito maais ... e não demora a me dá não tá ? hoje eu vim do colégio doida para que voc já tivesse postado rs . Quero esses dois juntinhos tá ? Beijos Beijos !

Gabriela !

Jo disse...

Meu amor,

Eu não sei como ainda tens dúvidas quanto ao teu POWER!! Gog, tu és um estrondo men! :OOO
Olha se tu me voltas a dizer, epah não sei se o hei-de postar está uma m******** bahhhhh!!! Eu vou mesmo fazer o que te prometi, e quando te descubrir.... muahahahhaha :b
Agora muito a sério, minha Dri linda! O capítulozão está o MÁXIMO! Alias, como já nos habituas-te tão bem a como fantásticos eles são! :))
E agora não quero cá nada de inseguranças, viu?! Toca de cabeça erguida, tá bom?! :DD
Beijozãoooooo*
Te adorooo<3<3<3

Castro disse...

;(, bem estas recordações estão fantasticas.
A descrição do video está excelente, parabens! A história é realmente fascinante e ter a tua assinatura torna-a única. E eu sempre tinha razão, bosca = fantastico! :D

Continua a alegras os nossos dias com os teus capitulos, beijinho.

Anónimo disse...

dri adorei nao a palavras so tiu adorei lindo olha eles vao ficar juntos ainda bem bjs mais

monica disse...

Adorei
Posta rapido!!!!
Bjs

Unknown disse...

Minha linda, palavras para quê??? Está brutal como todos que já nos habituaste a ler :)

Continua assim minha linda

Beijocas

Lígia disse...

Mais uma vez deixaste-me sem palavras, o capítulo está fantástico como sempre...
Amei, amei e amei *_*
Fico ansiosamente à espera do próximo capítulo!
Beijo grande :)

ElsaNeves disse...

Como é que tu nos disses: "não sei do meu capitulo, não gostei do que escrevi, tá uma bostinha, etc".
Céus está fantástico, fartei-me de chorar.
Estás proibida de voltar a dizer que não está bom o capitulo.
Tu tens um poder de nos envolver, de nos tocar de maneira impressionante, a mim faz-me recordar situações verdadeiras. É fantástico!!!
Quero mais, tens de publicar rápido. Estou mesmo viciada!!!
Beijinhos minha linda.

Anónimo disse...

Adorei, o David e a Adriana têm de se reconciliar rapidamente :)

Catarina disse...

Bem finalmente la ganhou juizo! Ja nao consigo ver estes dois assim ... Separados
So espero que consigam esquecer estes sucedidos e façam as pazes.
Continua. A cada capitulo que passa me surpreendes mais ;)
Fico à espera do proximo!
Bjs

Alexandra Reis disse...

ai meu deus! eles amam.se! mas ele ta a ter uma atitude meu deus! mas eu percebo, ai estou ansiosa ^^

Anónimo disse...

como sempre fantástico...amei..amei...amei!:D
escreves mesmo muito bem. tou viciada nesta história. fico ansiosa a espera do próximo capítulo...:)

Tania disse...

fantastico...LINDO

Jéssica disse...

Bem, mais uma vez está fantástico!

Agora que o David abriu os olhos e percebeu que estava a ser completamente monstruoso, devia correr para a Adriana o mais depressa possível, embora que ambos tenham jurado esquecer um ao outro. Um amor tão puro não acaba assim. Ao principio (quando a Adriana escreveu a carta) pensei: bem, ela passou das marcas e agora é ela que tem de correr atrás dele. Hoje, já não penso assim, o que ele fez com ela foi pior do que ser deixado por amor. Ele foi um monstro completo!
Desta vez o David terá de correr e lutar muito por ela.

Mas para bem do nosso coração, junta-os. Só te peço que não demores muito tempo a fazê-lo.

Beijinho Drii, mais uma vez parabéns.

Benficaas disse...

Adorei!
Eles os dois têm que ficar juntos, obviamente!
Quero mais!
Continua

Annie disse...

Minha querida Drii, o capítulo está perfeito e não basta esta palavra para o descrever. Está brilhante mesmo.
Desde o momento em que aparece a Paulinha, ao arrependimento do David passando ainda pela maravilhosa descrição do vídeo. Parece mesmo que tenho o vídeo a passar em frente dos meus olhos, acredita.
Tens um talento enorme, não pares.
Beijinhos

p.s: continuo a achar que o nosso querido Rúben não está a ser um grande melhor amigo.

Anónimo disse...

Se arrependimento matasse...o menino David finalmente viu a borrada que fez, mas como se diz na minha terra "sopas depois de almoço".Adorei a cena do video,quem sabe se o David ainda vai pagar a aposta e vão os dois até Paris? eu adorava que eles fossem,pensa nisso.Tá lindo,fantástico,maravilhoso, que mais posso dizer?Amei,mas quero vê-los juntinhos, é que isto já é sofrimento a mais,para eles e para nós.Continua, e nunca duvides do teu talento,a prova disso é a quantidade de comentários que tens tido ultimamente,fora as leem e não comentam.
Beijos

Fernanda

Carolinaa disse...

Adriana, juro que a tua escrita está cada vez melhor!

Gostei mesmo muito deste capitulo :)

Continua a escrever assim, desta maneira que nos transporta para outro mundo como se o que está escrito, se tivesse a passar diante dos nossos olhos!

Parabéns, muitos parabéns por esta fic!

Diana Ferreira disse...

bem este capítulo está de "partir coraçoes"! aquela parte do David a ver o video com a Adriana está tao linda, pode até nao ser nada de especial, mas tocou bem cá dentro só de imaginar por aquilo que o David anda a passar , principalmente o arrependimento!

só espero que estes dois se entendam de uma vez, porque ve-los separados deixa-nos desesperadas! :b

está Fantástico e por isso quero ler a continuaçao rapidinho, sim??

beijinhos

Anónimo disse...

Adriana, isto está fantástico!
Tu tens o dom de conseguir pôr as pessoas que lêem a tua fic no lugar das personagens.
Estes últimos capítulos têm sido fantásticos, mesmo! Por vezes dou por mim a chorar, não por tua culpa (longe disso :b) mas sim, porque me coloco no lugar da "Adriana" e como reagiria às situações.

Espero ansiosamente por mais um capítulo rápido, rapidinho :b ah e desculpa não comentar muito, mas por vezes o tempo não é muito.

Beijinho e continua! :D

Ana Moreira *

Anónimo disse...

F A N T Á S T I C O !
só espero que a digressão da Adriana, não os vá afstar mais !
Muitos parabéns pela fic, é fantástica !

Katyanne disse...

Espero que o David deixe o orgulho de lado e lhe vá pedir desculpas pelo que fez :c
Eles têm de se entender... Mas sinceramente são estes momentos que dão emoção à história :P

Continua :)

Anónimo disse...

Está fantástico como sempre!
Mas isto de eles estarem separados deixa-me muito triste :( eles separados são pessoas muito diferentes!
Acaba com o sofrimento dele, vá lá!
Beijinho
Ritááá xD (http://romanceinesperado.blogspot.com/)

Anónimo disse...

Então quando tem mais ?
Quero mais mais mais ! Beijos !

Anónimo disse...

dri se postares hoje avisa, no blog do david pf . beijinho *

PARABÉNS !

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