sábado, 5 de fevereiro de 2011

Capítulo 102 – Não faças isto, por favor! (Parte I)

Na manhã seguinte acordei tarde, usei o resto do dia para ir à praia com a Débora mas a hora de almoço reservava-me uma surpresa pouco agradável que eu mal adivinhava.
- Boa tarde, é a Caras e A Bola se faz favor… - pedi estendendo uma nota ao senhor do quiosque

- Aqui tem… - ele estendeu-me o pedido e o troco – Um resto de um bom dia, volte sempre!

- Obrigada! – sorri e virei costas
- Então? Dá-me aí A Bola, quero ver quais as novidades do meu Benfas! – pediu a Débora tirando-me o jornal da mão

Dei-lho para a mão e fiquei com a minha revista na mão, olhei para a capa.
“Fogo, esta gente não deve ter mais anda de interessante para fazer do que falar da vida dos outros” – pensei ao ler a manchete do jornal que falava sobre um assunto privado de uma figura pública, para não variar

Mas o meu corpo congelou quando reparei numa das chamadas de atenção para uma notícia no interior da revista.

“Descoberto o novo amor do menino de ouro do Benfica” - clareei os olhos, aquele não podia ser David, nem tão pouco eu, era impossível.

Parei de andar, abri a revista rapidamente até encontrar as duas páginas que falavam da notícia.

- Não, não pode ser! – falei baixinho tentando acalmar-me

- Que foi? – Débora que já ia ligeiramente avançada, fechou o jornal e aproximou-se de mim

- Isto não pode estar a acontecer! – eu e David tínhamos sido descobertos

“Descoberto o novo amor do menino de ouro do Benfica” – lia-se em letras gordas no topo da primeira folha

Fotografias minhas a despedir-me de David no aeroporto enchiam as páginas. Comecei a ler o texto que preenchia as páginas.

“O menino de ouro do Benfica, que há mais de um ano terminou um relacionamento duradouro com Carolina, uma estudante brasileira de enfermagem, reencontrou o amor. A nova namorada do jogador, é Adriana Vale, uma estudante portuguesa de artes performativas. O casal conhece-se há quase um ano e estão juntos há mais de meio. A jovem de 17 anos, já teve alguns aparecimentos no mundo da tertúlia cor-de-rosa, devido à sua entrada na escola de Juilliard, vaga essa que veio a recusar mais tarde aquando da sua estadia nos Estados Unidos. Além disso já foi notícia pelo contracto que assinou com o empresário e músico P.Diddy, e pelo CD que irá gravar em breve. O jovem central e a bela rapariga mantiveram a relação “discreta e no anonimato por questões de privacidade, o David quis salvaguardar a identidade da namorada” afirmaram fontes próximas do casal. O casal parece muito feliz, apesar da relação recente, “eles conheceram-se há um ano através do melhor amigo que têm em comum, Ruben Amorim, e a empatia foi imediata. Depois de se conhecerem melhor, descobriram várias afinidades e de uma bela amizade, acabou por surgir um amor, o namoro iniciou-se” contou a mesma fonte. Os jovens pareciam felizes, apesar de terem sido flagrados pela primeira vez numa despedida do jovem que partiu em trabalho para os Estados Unidos, acompanhando o plantel encarnado num estágio pré-época. Nas fotos podemos ver uma cena de despedida bastante emotiva o que comprova que “eles têm uma cumplicidade muito bonita e um laço forte que os une, é um amor sólido e maduro que irá durar por muito tempo com toda a certeza” rematou a fonte do casal. Quanto a isso não há certezas, mas é certo que pode estar descoberto o casal sensação deste verão!”

E a cada linha um novo arrepio, uma nova mentira, um novo sentimento de revolta. Como é que era possível? Eu não tinha reparado em nenhum fotógrafo, fui descuidada e deixei que aquele amor e a necessidade de despedida me cegassem e por isso fomos apanhados.
Li e reli aquela manchete vezes sem conta, olhei e reapreciei aquelas fotografias, eu ainda não estava em mim.

- Oh meu Deus! – a voz incrédula de Débora, por cima do meu ombro, despertou-me – Vocês foram descobertos…

- Eu não acredito, eu não acredito que isto me está a acontecer! – eu estava revoltada, muito revoltada, haviam mentiras naquela revista, mas o que mais me chateava era que alguém próximo de mim e de David havia prestado declarações, talvez um amigo quem sabe, e a minha cabeça volveu-se numa imensa confusão

- Tem calma, mais tarde ou mais cedo isto ia acabar por acontecer, vocês sabiam disso…
- Eu sei, mas não pensei que fosse tão cedo…

- Ele fez o que pode para proteger a vossa privacidade, mas olha aconteceu! Agora é seguirem em frente e ignorar essas merdinhas!

- Eu sei, mas agora todos vão saber de nós, vão meter-se… Até parece que não conheces estas revistas… - iniciei a caminhada até à praia fechando finalmente a revista

- Deixa-os falar, tu e o David confiam um no outro, vai correr tudo bem! – ela correu para me apanhar e tomou lugar a meu lado

Chegámos à praia, deitámo-nos na areia e imediatamente tirei o telemóvel da mala. Ainda devia ser madrugada nos Estados Unidos, mas eu precisava ouvir a voz de David.
Acalmei-me e guardei novamente o telemóvel.

- Tem calma, sim? Vai tudo correr bem… - a mão de Débora acariciou a minha
Sorri-lhe levemente e deixei-me estar ao sol durante algum tempo, aquela notícia deu voltas e mais voltas na minha cabeça, mas fui interrompida pelo som do meu telemóvel.

- Bom dia, gatinha… - ouvi a voz ainda ensonada de David assim que atendi
- Bom dia, amor…

- E aí, tudo bom? – perguntou-me

- Sim, tudo…E contigo? – tentei parecer o melhor possível

- Comigo tudo óptimo, mas essa sua resposta não me convenceu minimamente…Passa algo?
- Não, amor… Está tudo óptimo – menti, o melhor que pude e pelos vistos não foi suficiente

- Não ‘tou acreditando não…Cê mente mal p’ra mim!
- A sério, Dê não se passa nada… Devem ser só saudades tuas

- Cê não me engana, mas já vi que não quer falar sobre o assunto, não…

- Não, nem por isso! Nada mesmo… - eu não queria aborrecê-lo com coisas sem qualquer importância – Então e o estágio, como está a correr?

- Bem, morrendo de saudades suas, mas bem… O Mister fala muito com a gente sobre o inicio de época, novas tácticas, positivismo, esse ano o titulo é nosso. Tá todo mundo confiante p’ra caramba! – ele estava visivelmente entusiasmado

- Graças a Deus, faz anos que não vejo o meu Benfas campeão! – sorri feliz por ver que ele estava entusiasmado

- Se Deus quiser esse ano vai ver, vai ver!

- Espero bem que sim, mas ainda fico mais feliz por te ver realizar um sonho de menino…

- É por isso que eu te amo, se preocupa comigo em tudo e se lembra de tudo o que eu falo p’ra você, com maior carinho… Te amo!

- Olha aí o mel! – ouvi o Ruben refilar do outro lado do telefone

- Olha pergunta aí a esse cabeça de amendoim se ele não tem mais nada que fazer do que nos atazanar a vida, a namorada fartou-se dele foi? Pudera com um chato desses… - David
desmanchou-se a rir do outro lado do telefone

- Isso gozem, gozem à vontade, quando voltarmos depois ajustamos contas! – findou Ruben e ouvi uma porta bater, percebi que ele tinha saído de onde eles estavam

- Amô… - a voz dele molengava

- Sim… - um sorriso surgiu nos meus lábios
- Tou louco p’ra repetir aquela noite com você… E aquela manhã… Nossa! Que saudade de você, do seu beijo, do seu gosto, do seu toque, do seu cheiro…

- David, não digas essas coisas, fico sem jeito… - ele riu-se num jeito travesso de menino, o que já era hábito nele – E agora ris-te… Muito bem!

- Adoro ver você sem jeito… Fica tão engraçadinha! Essa sua vozinha… Nossa! – ele suspirou fortemente do outro lado do telefone

- Engraçadinha uma ova! – reclamei fingindo-me amuada

- Por falar em engraçadinha, esses meninos daí não tão fazendo olho grosso p’ra você não, né?
- Não, amor… Não te preocupes, está tudo controlado! – respondi prontamente
- É, controlado… Imagino! Devem ficar olhando p’ra você de biquíni, babando que nem uns tarados… - eu ri-me com as expressões dele – Tá achando graça?

- Tou! – respondi por entre gargalhadas

- Pois eu não tou achando graça nenhuma! – os ciúmes dele eram óbvios

- Bem não posso negar que eles olham e que alguns até são bem gatos… - provoquei-o e a última palavra acabou por sair com um sotaque igual ao do David, sem querer

- Gatos? Eu pensava que eu era gato, tá bom então. Fica com esses gatos daí que esse vai p’ros treinos!

- Hey, deixa de ser totó! Só tenho olhos e coração p’ra um gato, pena estar tão longe… Mas quando voltares mato essas saudades todas! – a minha voz arrastou-se sugerindo outra coisa

- Nossa, eu vou cobrar mesmo! Se prepara porque quando eu chegar em Lisboa vou raptar você durante uma semana em minha casa!

- Óptimo, quem vai cobrar sou eu! – respondi de trejeito

- Meu amô, por mim ficava aqui o dia todo falando com você, mas o Mister tá chamando…
- Não faz mal, amor. Eu entendo, vai lá! Amanhã falamos… Beijos, amo-te muitão! – um sorriso parvo marcou-me o rosto

- Até amanhã, mil beijos. E fique sabendo que eu te amo mais! – ele deu enfâse às últimas
palavras e antes que prolongássemos a discussão de quem amava mais quem ele desligou
- Vocês são mesmo fofinhos! – afirmou Débora com um sorriso deitada na toalha ao meu lado
- Oh, um fofura doida! – brinquei guardando o telemóvel

- Porque é que não lhe contaste?

- Porque ele está lá, concentrado no estágio e na nova época, quando ele voltar tem tempo de saber… - eu estava mais calma agora e encarava a situação com outros olhos

***
Ruben

David, falava todo o santo dia com Adriana, e quando não falava com ela, falava sobre ela o que fazia com que o tema fosse sempre repetitivo, mas eu não me importava de o ouvir pois sabia que tanto um como o outro estavam desmedidamente felizes e isso era a única coisa que me importava.
Ele não falava com ela desde a manhã do dia anterior, chateou-me todo o santo dia dizendo que ela estava estranha, algo se passava, mas que não quis falar. Eu desvalorizei a situação, não devia ser nada senão o seu “magnifico” bom humor matinal.
Acordei cedo, não tinha sono e por isso resolvi dar uma espreitadela pelas capas dos jornais desportivos portugueses on-line, saber o que se passava por terras lusas.
A Bola falava da pré-época do Porto, o Record falava sobre a do Benfica e quando dei por mim estava em sites daquelas revistas cor-de-rosa, com muita página e pouco conteúdo. Mas uma em especial chamou-me à atenção, agora eu sabia o porquê da estranheza de Adriana no dia anterior. Ela não quis contar a David, mas a imprensa cor-de-rosa tinha-os descoberto. Quando dei por mim senti o David nas minhas costas, espreitava por cima do meu ombro o que eu tanto lia no portátil.

- Já de pé, manz? – perguntou esfregando os olhos
- Sim, não tinha sono, já tu… - eu adorava picá-lo
- Tá vendo o quê aí nesse troço?

- Olha nem queiras saber… Merda, merda, merda e mais merda! Sabes como são as revistas

- Alguma coisa de interessante? – perguntou indo na direcção da casa de banho

- O motivo da estranheza da Adriana… É interessante o suficiente? – automaticamente ele contornou o caminho para a casa de banho e dobrou-se sob a mesa onde estava o computador

- Tem a ver com alguma revista? – ele estava visivelmente confuso

- Vê aí… - abri na sua frente as duas páginas da revista onde aparecia o texto (muito pouco) informativo e as fotos deles a despedirem-se no aeroporto

-Agora sim, tudo explicado! – ele coçou os caracóis por si só despenteados de uma noite de sono

- Ela não te quis contar…- comecei a desligar o portátil

- Não entendo porquê, achou o quê? Que ia ficar chateado com ela? – ele sentou-se na cama com o telemóvel em punho pronto a marcar o número dela

- Não te quis preocupar, sabes que ela provavelmente se foi abaixo com isto…
- Por isso mesmo, devia ter falado p’ra mim! – ele já tinha posto o telemóvel a chamar
- Ela é teimosa, quis proteger-te, mesmo que para isso se magoe a ela própria! – eu conhecia-a tão bem

- Oi amô… - a voz dele ficou serena, eu percebi que ele não estava irritado com ela, mas sim preocupado

***

Adriana
Acordei com o meu telemóvel a vibrar sob a mesinha de cabeceira. Vi que era David e estranhei estar a ligar tão cedo, mas constatei que eu é que me tinha deixado dormir demais e Débora já não estava no quarto.

- Olá, amor… - a minha voz estava ensonada, eu tinha acabado de acordar
- Oi amô… Acordei você?

- Sim, mas não faz mal… Deixei-me dormir demais. Tá tudo bem? – sentei-me na cama
- Tá tudo e com você? - a voz dele estava estranha, adivinhava uma conversa séria
- Comigo está tudo bem também…
- Cê continua estranha… Tem certeza que não se passa nada?
- Não, David! Está tudo normal… - menti, mas eu não podia mesmo preocupá-lo, não agora que estava em principio de época
Fez-se silêncio, senti-me culpada por mentir e deixei-me ficar a ouvir a respiração pesada dele quebrada por um suspiro pesaroso.
- Eu vi a revista na internet… Porquê cê não contou p’ra mim? – tive a plena noção que tinha sido apanhada a mentir
- Não te queria preocupar, eu aguentava isto sozinha…- sentei-me na cama e encostei-me às costas da mesma
- Não, cê não tem nada de aguentar nada sozinha. Nós somos um casal, p’ro bem e p’ro mal…- um sorriso iluminou o meu rosto assim que David proferiu “Nós somos um casal…”
- Eu sei, amor, mas a minha intenção foi apenas proteger-te. Eu estou bem e nós sabíamos que mais tarde ou mais cedo isto se ia descobrir e peço desculpa por ter sido tão inconsciente no aeroporto…- eu julguei a culpa ser minha, afinal eu é que devia ter pensado nisso quando me fui despedir dele ao aeroporto
- O quê? Cê nem fala isso, nem pede desculpa! Não foi culpa sua, a gente é um casal normal e se despedir do namorado no aeroporto é uma coisa normal… Temos o direito de viver a nossa vida agora vamos ter é de nos habituar com essas noticias a toda a hora. Infelizmente é isso que vende, gata…
- Eu sei, eu sei… - apesar de saber tudo aquilo, toda a situação me incomodava muito
- Como cê tá? – ele conhecia-me bem
- Mais ou menos, eu sei disso tudo que me dizes, mas custa-me saber que agora vamos ter as nossas caras estampadas pelas revistas e maior parte das vezes por coisas sem sentido, aposto!
- Não liga, isso vai passar… - adivinhei-lhe um sorriso calmo no rosto
- Obrigada por não teres ficado chateado…
- Chateado, que nada! A culpa não foi sua, a gente agiu como um casal normal e se esqueceu
desse pormenor, esquece isso, vai?
- Já esqueci!
- Mas para a próxima cê fala p’ra mim, cê sabe que pode falar comigo sobre tudo, pô! – ele prolongou a palavra “tudo”, intensificando-a
- Eu sei, amor… Só não te quis preocupar!
- Tá bom, mas fica prometido! Olha, gatinha vou me preparar que vamo’ ter treino. A gente se fala. Te amo, beijão!
- Vai lá amor… Amo-te, beijos! – desliguei com um sorriso no rosto e agradecida por ele não ter ficado chateado com a notícia

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Capítulo 101 – Partiste e eu fiquei… (Parte III)

Débora que estava de frente para a pessoa que surgira nas minhas costas, quase se engasgou com aquela voz e eu necessitei de olhar pelo canto do olho para confirmar que não estava a sonhar.

- Diogo? – eu gaguejei com o medo que estava

- Não vos imaginava por aqui… - ele tomou lugar na lateral da mesa juntamente com mais três amigos da nossa turma

- Pois nem eu a ti… a vocês aliás! – eu respondi o mais friamente possível

- Estamos de férias, chegámos hoje e vocês? – ele falava muito sorridente comigo e teimava em parecer simpático enquanto eu o queria longe de mim

- Também chegámos hoje… - informei sem lhe dando muita importância

- Que bom! – ele esboçou um sorriso rasgado – Nós hoje vamos a uma discoteca aqui perto, não querem vir?

- Ah, nós estamos cansadas, fica para outro dia… - menti, mas a verdade é que eu não queria

- Oh vá lá, estão de férias, amanhã dormem até mais tarde! – insistiu

- Não vai mesmo dar, fica para outro dia… - respondi educadamente
- Tudo bem, então a gente vê-se por aí… - sorriu

- Sim, vemo-nos por aí… - respondi forçosamente
Ele seguiu caminho com os nossos colegas atrás dele e sentaram-se numa mesa ao fundo do restaurante.

- Era só o que me faltava! – desabafei entre dentes – Nem de férias me livro deste…
- Tem calma… Vocês até se dão bem agora…
- Eu sei que sim, mas não vamos ignorar que o Diogo ainda anda atrás de mim, ele próprio assumiu isso!

- Mas tu não queres nada com ele por isso, ignora-o! Simplesmente ignora-o… Concentra-te nas nossas férias, vamos rebentar com isto! – ela tentava animar-me mas não estava a funcionar minimamente

- Claro, vamos rebentar com isto! – afirmei pouco convicta, mas mal eu sonhava da maneira como aquilo ia "rebentar"

***

- Estou estafada! – disse Débora atirando-se para cima da cama já em pijama

- Fraquinha! – acusei enfiando-me dentro da cama de casal que iriamos dividir e pousei o telemóvel na mesinha de cabeceira do meu lado

- Fraquinha nada, a mudança de ambiente quebra imenso o corpo… Estou toda partidinha! – espreguiçou-se com uma expressão preguiçosa

- É, agora culpa a mudança de ambiente… - o meu telemóvel vibrou sob a mesinha de cabeceira e apressei-me a atender a chamada que era de David

- Tou? – sentei-me na cara, esperançosa de rapidamente ouvir a voz dele do outro lado do telefone

- Meu amô… - aquele timbre doce e que eu já tão bem conhecia fez com que um arrepio percorre-se o meu corpo

- David… - sussurrei emocionado por ouvir a voz dele

- Como cê tá, meu anjo? Já chegou no Algarve? – era bom ouvir a voz dele, acalmava a saudade
- Estou bem… Cheguei há umas horas, já fui um bocadinho à praia, já jantei, dei umas voltas por aí e agora estou no apartamento com a Débora…

- Que bom, aproveita para se divertir e relaxar, sim meu amor?

- Vou fazê-lo… - um sorriso parvo iluminou a minha cara – E tu? Como estás? – perguntei preocupada

- Cheguei há pouquinho, a viagem correu bem! – ele parecia bem

– Já comeste alguma coisa de jeito, amor? É que não podes descuidar a alimentação só porque estás fora do país, não quero ver-te mais magro quando voltares – avisei e ele riu-se do outro lado do telefone

- Tá preocupadinha, né? – ele estava nitidamente a gozar comigo

- Claro que estou… - afirmei envergonhada

- Já comi, sim! Não se preocupa que aqui todo o mundo cuida de nós direitinho… - sorri mais aliviada

- Ainda bem, amor…

- Tenho saudade… - a voz dele arrastou-se e enfraqueceu
Fui incapaz de lhe responder e ficámos alguns segundos assim, sem dizer nada, apenas escutando a respiração um do outro. O compasso regular e calmo que costumava dominar a respiração dele havia sido substituído por um irregular e ofegante. As palavras dele tinham deixado o meu coração apertadinho, queria muito dizer-lhe que tinha saudade mas já sabia que se o fizesse começaria a chorar no mesmo instante.

- Desculpa… - pediu David ao perceber que me tinha incomodado com o que dissera

- Não faz mal… Só que custa estar assim, tão longe…
- Tem razão e assim só dificultei as coisas… - disse constrangido

- Nada disso, sei que não fizeste por mal e eu tenho muitas saudades também… - a minha voz arrastou-se mas não derramei nenhuma lágrima

- Eu sei, mas vai passar rapidinho, eu prometo, sim? – senti um leve ânimo na voz dele e isso deu-me forças

- Vou esperar-te ao aeroporto, quando chegares, sim? – prometi

- Não vejo a hora desse dia chegar! – pelo seu tom de voz adivinhei-lhe um sorriso do tamanho do mundo, e que já tão bem o caracterizava

- Vai chegar rápido, rápido!

- Meu amô, o Mister tá chamando, vamo dar uma volta pelo centro de estágio… Depois eu te ligo, sim?

- Claro, vai lá, aproveita para relaxar que eu vou dormir…
- Durma bem, moleca! – a voz dele fazia lembrar a de um menino pequeno
- Tu também… Bem só daqui a umas horas – corrigi ao relembrar a diferença horária

- Beijos! Te amo muito! – a voz dele era doce como nunca

- Beijos! Também te amo muito! – jurei num sorriso

- Eu não se esqueça a distância impede que eu te veja… - eu interrompi e completei o que ele ia dizer

- … mas não impede que me ames!

- Isso mesmo! – concordou orgulhoso

- Adeus… - ambos desligámos o telefone ao mesmo tempo e uma sensação de vazio apoderou-se de mim

- Vocês são mesmo fofinhos de se ver, pucha! – afirmou Débora sorrindo

- Oh deixa de ser totó! Já devias era estar a dormir para quem está assim tão partidinha… - impliquei com ela, adorava irritá-la, era sempre engraçado ver como ela ficava irritada com as minhas provocações

- Já nem digo mais nada! – fingiu-se amuada e virou-se para o outro lado – Dorme bem, ó brasileirinha!

- Olha aí o respeito, ó! – dei-lhe uma palmada leve nas costas – Dorme bem que o teu mal é sono! – dei-lhe um beijo na têmpora, virei-me para o meu lado e adormeci mais descansada por finalmente ter falado com David

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Capítulo 101 – Partiste e eu fiquei… (Parte II)

Olá,
desculpem a demora em postar e o facto do capítulo ser tão pequenino, mas é que em tempo de aulas fica difícil postar :/
Espero dar notícias em breve com um novo capítulo, de qualquer das formas espero que gostem deste. Não se esqueçam de deixar a vossa opinião, é sempre importante :)
Beijinhos ^^



Demorámos mais do que o previsto para chegar ao Algarve pois, a Débora não estava habituada a conduzir durante tantas horas e parámos duas vezes nas estações de serviço para ela descansar. Já passava da hora de almoço quando chegámos finalmente a Portimão, fomos directamente para o hotel e retirámo-nos para o apartamento T1 que nos iria pertencer nas duas semanas seguintes.
Ao mesmo tempo que arrumava as minhas coisas ia sempre dando uma olhadela no telemóvel esperando alguma novidade de David, mas eu sabia que ainda era cedo. Depois de arrumarmos tudo, mudámos de roupa e fomos comer qualquer coisa.

- E aí? Estás pronta para estas feriazonas? – o tom de voz de Débora era visivelmente entusiasmado e ao percorrermos a zona junto das piscinas de acesso ao restaurante ela caminhava dando saltinhos e gesticulando ao mesmo tempo que falava

- Sim… Estou! – o meu tom saiu-me mais seco do que o esperado e os meus olhos viajaram novamente até ao visor do meu telemóvel

- Fogo, Adriana! Viemos para aproveitar as férias não para estares aí colada ao telemóvel sempre à espera que o outro diga qualquer coisa! – ela refilou comigo e as palavras dela, se bem que eu sabia que não por maldade, magoaram-me
- Lamento se te estou a incomodar, mas amo-o e preocupo-me com ele, sim? – perguntei amargamente virando-lhe costas

- Desculpa, sim? Mas é que viemos para nos divertirmos, não quer dizer que não o ames, mas ele está lá e tu estás cá. Agora aproveitar e quando ele voltar matam as saudades todas! – a voz dela tornara-se mais terna e compreensiva

- Estás desculpada… E até tens razão, já que estou aqui vou aproveitar… - suspirei e arrumei definitivamente o telemóvel no bolso

- Assim é que é falar! Vamos comer, anda! – ela puxou-me pela mão até ao interior do restaurante

Comemos uma tosta de frango e um sumo natural e seguimos para a nossa primeira tarde de praia.
Estendemos as nossas toalhas muito perto da água e não demorámos muito até irmos experimentá-la.

- Ai, está gelada! – queixou-se Débora ao tocar com os dedos do pé levemente numa onda que rebentava no areal

- Deixa de ser pieguinhas, está aceitável… - entrei até ficar com a água pelos tornozelos e estanquei aí relembrando a noite passada com David

- Oh! Adriana! – a voz de Débora trouxe-me de volta à realidade, ela agitava a sua mão aberta em frente à minha cara para me despertar – Estás a ouvir o que eu te digo?
- Desculpa estava aqui a pensar…

- No David? – chutou logo com um ar de safada
- Sim, nele e na nossa noite… - confessei envergonhada
Os gritos de Débora ensurdeceram-me e os braços dela agarrados a mim sufocaram-me.
- Eu não acredito! Vocês? Vocês… Já? Tu e ele? Oh Meu Deus! – ela estava super entusiasmado, afinal ela já não era virgem há algum tempo

- Hey, calma sim? – pedi quando vi que mais de meio areal nos olhava como se olham aqueles maluquinhos dos hospitais psiquiátricos

- Sim… Eu e ele, na noite em que regressámos do casamento do meu primo… - acrescentei alguns pormenores

- Ahhhh – um grito histérico ensurdeceu-me novamente – E como é que foi? Gostaste? Foi bom? Ele magoou-te? – ela bombardeou-me de perguntas

- Correu tudo bem e ele foi super querido…- sorri ao relembrar-me da sua doce expressão
- Ai mas eu quero mais detalhes, conta tudo! – pediu entusiasmada

Não estava disposta a contar-lhe mais do que aquilo por isso, virei-lhe costas e encaminhei-me para dentro de água.

- Ó! Não me vais contar mais nada? – perguntou-me com uma expressão atónica e ofendida

- Não! – olhei para trás, deitei-lhe a língua de fora e mergulhei


***

A tarde de praia tinha sido óptima e nós só queríamos aproveitar um belo jantar e depois sair pela noite Algarvia aproveitando-a.
- Eu nem acredito que não me vais dizer mais nada! – refilou Débora cortando mais um bocado de bife e comendo

- Claro que não vou! Isto é assunto meu, da minha privacidade e do David.

- Ya, mas eu sou tua melhor amiga! – argumentou
- Então e como minha melhor amiga, eu contei-te que aconteceu e que sim, foi bom. Muito bom! É tudo o que precisas saber! – deitei-lhe a língua de fora e ela continuou com uma expressão amuada
- Hás-de cá vir, hás-de! – deu uma ultima garfada do seu prato

- Vocês por aqui? – uma voz estranhamente familiar que surgiu nas minhas costas fez-me congelar, senti-me dentro do meu pior pesadelo


***

David

- Manz, acorda! – a voz de Ruben me despertou – Estamos a chegar…

- Já? – perguntei ainda meio ensonado e com os olhos meio fechados

- Sim… Dormiste o caminho quase todo…

- Tava cansadão! – me espreguicei

- Ainda me hás-de dizer o que andaste a fazer para estares assim cansadão! – eu tive vontade de rir pois acho que ele não ia gostar de saber o que tinha andando a fazer com a minha menininha
- Nada de especial não… - passei os dedos nos meus caracóis para os alinhar e a luz dos cintos acendeu, dando ordem p’ra os apertar

- Hum, vou fingir que acredito! – riu-se, achei que ele devia saber alguma coisa mas era o mais normal, uma vez que ele me conhecia muito bem assim como a Adriana – Olha lá não te esqueças de ligar à miúda mal possas…

- Ah deixa de ser babaca, acha que é preciso me avisar disso? É claro que eu vou ligar p’ra ela, é a primeira coisa que vou fazer quando chegar… - sem dar conta fiz um sorriso parvo de um completo apaixonado

- Hum, Hum, olha-me para esse sorriso parvo, puto! Não tens vergonha? – ele estava me sacaneando

- Deixa de ser babaca! Eu tou assim porque tou apaixonado por ela! Eu amo ela e não tenho vergonha não! Amar não é crime! – respondi p’ra ele o que eu realmente pensava

- Eu sei, eu sei… E fico feliz por a Adriana estar com um rapaz como tu!

- Obrigada, Manz, isso me deixa feliz! – sorri de felicidade

Mal podia esperar por aterrar p’ra poder ligar p’ra minha namorada.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Capítulo 101 – Partiste e eu fiquei…(Parte I)

Custou-me a adormecer sabendo que o dia seguinte me iria trazer uma realidade diferente daquela que tinha vivido nos últimos dias. Eu sabia que aquele era o trabalho de David e ele tinha obrigações, mas por muito curto que o afastamento dele fosse, provocava sempre saudade. Quando amamos, não é necessário estar sempre por perto de quem amamos, a toda a hora, a todo o segundo, porque isso sufoca ambos e pode acabar por matar o sentimento. Mas quinze dias não eram um par de horas ou de dias, era muito tempo, pelo menos mais do que aquele que eu estava disposta a manter-me afastada.
Ainda antes de adormecer mandei mensagem à Débora e combinámos rumar a Sul antes do almoço e finalmente acabei por adormecer logo após ela me responder à mensagem. Mas o meu descanso não durou muito mais do que um par de horas, o meu telemóvel vibrou sobre a mesinha de cabeceira e eu despertei.

“De: David
Já falei p’ra você que te amo e que vou morrer de saudades suas? :$”

Aquela mensagem, para não fugir à regra e apesar do meu abençoado estado de ensonada, colocou-me um sorriso no rosto. Clarifiquei o olhar e com a mão tapando os olhos para a luz do visor do telemóvel não me ferir a vista, respondi-lhe.

“Para: David
Sim, por acaso já falaste, mas eu adoro ouvir isso, vezes e vezes sem conta :b
Não são horas de já estares a dormir, amor? Amanhã tens voo muito cedo..”

A resposta dele não tardou em chegar.

“De: David
Sim, já devia estar a dormir, mas estou sem vontade nenhuma… Não consigo parar de pensar que eu vou e você fica, não sei como vou aguentar tanto tempo longe de você! :S
Mas tem razão, vou fazer um esforcinho para dormir, beijos, minha gata!
Te um amo um montão, moleca :D ”

Sorri ao ler a última frase da mensagem, aquecia-me o coração e dava-me alento para suportar aquela distância que no dia seguinte ainda se tornaria maior.

“Para: David
Vais aguentar, sim! Se eu aguento tu também, meu anjo…
Dorme bem e boa viagem! Beijinhos ^.^
Amo-te muito, caracolitos :D “

Voltei novamente a adormecer quando o relógio já ia noite dentro, mas não sem antes colocar o despertador para cedo, havia uma coisa que eu tinha mesmo de fazer.


***

Acordei quando o despertador do meu telemóvel tocou irritantemente até me fazer levantar. Corri até à casa de banho do meu quarto, tomei um duche muito rápido, o que não era nada normal e vesti-me a um ritmo alucinante o que também não era nada normal em mim, excepto quando estava atrasada para as aulas, o que raramente acontecia
.
Chamei um táxi e desci até à portaria do meu condomínio, o táxi demorou algum tempo o que só contribuiu para o aumento da minha ansiedade louca.
O meu telemóvel vibrou na minha mão e rapidamente li a mensagem de David.
“De: David
Bom dia, meu amor… Espero não ter acordado você. Mas cheguei agora no estádio p’ra seguimos p’ro aeroporto. Não devo ter possibilidade de falar mais com você até aterrar. Mal possa te ligo. Monte de beijos! Te amo muito ♥”

Não lhe respondi pois vi o táxi que chamara há mais de quinze minutos dobrar a esquina e parar mesmo na minha frente. Com a mesma rapidez que saí de casa, enfiei-me no táxi e informei o condutor do meu destino.
Em meia hora ele deixou-me no aeroporto. Estava quase em cima da hora e se me queria despedir de David só me sobravam quinze minutos para o encontrar e o fazer.
Marquei o número do Ruben e quando ouvi a voz dele do outro lado, iniciei a caminhada para entrar no aeroporto.

- Olá, minha feiosa. Acordada a estas horas? – ele parecia demasiado bem disposto para quem tinha acordado tão cedo

- Olá, feio! Sim, acordada a estas horas e já há algum tempinho…

- Então e ligaste-me para quê? – perguntou visivelmente curioso
- Para ouvir a tua linda voz… - gozei

- Oh, ligaste para te despedires de mim? Oh estás feita uma fofinha, o brasuca anda-te a fazer bem… - gozou comigo

- Não digas disparates, sim? É claro que não liguei para me despedir de ti, mas sim para te pedir um favorzão! - o meu tom de voz alterou-se à medida que a frase avançou

- Eu sabia que este telefonema trazia água no bico! Só me ligas quando precisas de favores… - fingiu-se amuado mas eu conseguia já distinguir muito bem os seus amuos dos seus falsos amuos, mesmo por telefone

- Não sejas assim, preciso mesmo que me ajudes! – fui firme e sucinta naquilo que disse, pelo menos o suficiente para ele entender que falava muito a sério

- Vá diz lá o que queres… É que não sei se sabes mas estou a quinze minutos de apanhar um avião para os Estados Unidos…

- Sei, claro que sei! O problema é mesmo esse… Preciso que me digas onde estão e que me arranjes maneira de chegar aí... Por favor! – implorei

- Ó linda, não me podias ter pedido isso antes, agora é muito em cima da hora… - a voz dele estava receosa

- Por favor, Ruben. Quero despedir-me do Dê e quero que seja surpresa!

- É assim, nós já estamos na sala privada à espera de embarcar, o máximo que posso fazer é pedir a alguém que te vá buscar, mas já não tens muito tempo…

- Então faz isso! – pedi imediatamente
Ele deu-me as instruções onde me iriam buscar mas quem acabou por aparecer foi ele.

- Finalmente! – praguejei assim que o vi

- Calma, sim? Tive de pedir a Mister se podias entrar lá…

- Mas não disseste nada ao David, pois não?

- Descansa que não disse nada, nem o Mister, avisei-o que era surpresa. Eu não sei o que é que fizeste ao homem mas ele adora-te!

- Deixa de ser parvo e leva-me lá de uma vez por todas! – pedi desesperada
Ele agarrou-me na mão puxando-me e entrámos nuns corredores de acesso que estavam vazios, ao fim de alguns cruzamentos avistei uma porta ladeada por dois polícias. Não foi difícil adivinhar que estava próxima do plantel encarnado.

- Ele está uma pilha de nervos porque não lhe respondes-te à sms, aviso já… - alertou-me antes de abrir a porta na nossa frente

Aquela sala estava numa perfeita barafunda. Ouvia-se um burburinho de fundo dominado pela voz da senhora que comunicava os embarques e fazia a chamada para os voos.
Ouvi umas gargalhadas prazerosas percorrerem a zona da entrada da sala, eram Aimar e Javi que falavam descontraidamente. Do lado direito da sala estavam o Mister e Rui Costa que numa postura formal mas mais descontraída trocavam dois dedos de conversa. E para cada canto que olhava tentava ver David, mas nada dele. Reconhecera todos os seus colegas mas dele nem sinal. Foi Ruben que me deu uma suave cotovelada no braço e fazendo um trejeito com a cabeça indicou-me uma direcção. O meu olhar seguiu-a e dei de caras com David, no fundo da sala, sozinho e sentado num banco sem largar o telemóvel.

- Eu disse-te que ele estava uma pilha… - relembrou-me Ruben ao meu ouvido
- Se calhar não devia ter vindo, só vou fazer pior… - eu queria dar-lhe um beijo antes de ele partir mas não queria dificultar uma despedida que por si só já o era

- Não digas disparates, acho que ele vai preferir uma despedida à séria do que uma mensagem… - o sorriso familiar de Ruben deu-me segurança

Agarrei no meu telemóvel e enviei uma mensagem a David.

“Para: David
Sabes que nervoso, ficas uma gracinha? :b Pensei em despedir-me de ti em condições, e que maneira melhor de o fazer do que ao vivo e a cores? Que me dizes? ”


Um sorriso iluminou-me o rosto assim que enviei a mensagem e o vi agarrar no telemóvel. As mãos tremiam-lhe e muito a custo vi-o finalmente ler o corpo da mensagem. Primeiramente ele ficou meio atónico a olhar para o visor do telemóvel, acho que a mensagem não lhe foi logo perceptível, vi que ele a releu novamente e aí levantou a cabeça a olhou em todas as direcções em seu redor. Arrumou o telemóvel no bolso do casaco e continuou a sua busca pela sala que estava relativamente cheia.
Os movimentos rotativos da sua cabeça pararam assim que o seu olhar cruzou o meu, ele abriu e fechou novamente os olhos, deve ter achado que não estava a ver bem, que não era eu. Mas assim que voltou a abrir novamente os olhos, eu acenei-lhe ternamente e vi um sorriso do tamanho do mundo iluminar-lhe o rosto. Avancei na direcção dele num passo calmo mas ansioso e ele levantou-se do banco caminhando também na minha direcção. Ele estava muito bonito. Os seus caracóis rebeldes perfeitamente alinhados, os seus olhos mais claros que nunca, devido ao Verão e o fato do clube que lhe assentava perfeitamente e realçava a sua boa forma física.
O meu sorriso foi-se intensificando à medida que me aproximava dele, assim como o brilho no olhar dele também foi crescendo assim que a distância que nos separava diminui-a. Finalmente encontrámo-nos quase perto dos bancos onde ele estava sentado. Abraçámo-nos sem dizer uma única palavra. Eu pus-me em pontas de pés, os braços dele envolveram a minha cintura e os meus a sua cabeça e pescoço, e enterrámos as cabeças nos pescoços um do outro. Aquela era a última recordação que eu queria ter de David para aqueles quinze dias que se seguiam: o seu cheiro.

- Não tou acreditanto… - a voz dele era abafada contra a minha pela

- Podes acreditar, podes acreditar… - sussurrei e finalmente ele deixou-me encarar o seu rosto
- Cê é louca! Como cê entrou aqui? Porque não me disse que vinha? – ele bombardeou-me com perguntas enquanto me segurava contra si e eu permanecia em pontas de pés

- Tem calma, sim? Eu quis fazer-te uma surpresa e além disso decidi à última da hora, amor… Foi o Ruben que me ajudou a entrar aqui, foi-me buscar à entrada. – sorri-lhe ternamente
- Aquela babaca sabia e não me disse nada. Disse que tava falando com a mãe no telefone e que ia no banheiro. Ah depois eu mato ele! – ri-me com a expressão de David

- Não podia deixar-te ir, sem um beijo decente… - passei-lhe a mão levemente no rosto
- Então me dá esse beijo, vai! – pediu num sorriso safado

Aproximei a minha boca da dele e uni-a à dele muito calmamente. As nossas bocas exploraram momentaneamente a boca um do outro mas fomos interrompidos pela voz da senhora. “Primeira chamada para o voo Lisboa – Nova Iorque, na pista 4. Primeira chamada para o voo Lisboa- Nova Iorque, na pista 4”
Quebrámos imediatamente o beijo e o meu rosto desfez-se. Era ali que ia ter de me despedir dele.

- Não fica assim, volto logo, logo… - prometeu agarrando-me no rosto

À nossa volta todos começavam a agarrar nos seus pertences mais pessoais e a rumar à porta de embarque, senti um enorme nó formar-se na minha garganta e achei que não devia ter vindo, estava a piorar aquele momento.

- Eu sei, eu vou estar à tua espera, aqui, daqui a quinze dias… - falei pausadamente

Senti a saudade apoderar-se de mim e ele ainda nem tinha partido, controlei as minhas lágrimas pois não queria que ele se sentisse pior por partir e por me deixar ali. Mas muito calmamente a água rasou os meus olhos e estes preencheram- se de uma vermelhidão discreta.

- Pô, não chora… Assim não vou ser capaz de deixar você aqui…- a voz dele arrastou-se
- Desculpa…- sussurrei baixinho com as lágrimas a travarem-me a voz, sufocando-me

“Bora lá pessoal!” – a voz de Jorge Jesus fez-me ouvir por toda a sala, ele chamava os rapazes que ainda não tinham entrado
Senti-me ir abaixo com a chamada do treinador e David pressentiu isso, abraçando-me contra si, com força.
O corpo quente dele aqueceu o meu e deixei-me chorar durante segundos contra o seu peito.
- Vou ter saudades tuas… - disse por entre o choro
- Eu também… Muitas! – afirmou convicto mas a sua voz falhou na última palavra

Quando o encarei, os seus olhos castanhos claros, raiados de verde, estavam circundados por pequenos veios vermelhos, percebi que ele se controlava por não chorar.
- Não, chora não… - pediu-me ao mesmo tempo que me enxugava as lágrimas com os seus polegares e eu assenti-lhe positivamente com a cabeça

Abracei-o mas fomos novamente interrompidos pela voz da última chamada para o voo que foi reforçada pela voz do treinador adjunto – “David, temos de ir!”
Permanecemos abraçados mais alguns segundos, beijei-o no pescoço, nos ombros, no maxilar e por fim nos lábios. O meu choro já estava controlado.

- Promete que não te esqueces de mim… - pedi quando os nossos rostos ficaram frente e frente
- Impossível, mesmo que eu quisesse… – esboçou um sorriso sincero

Senti-me mais calma e serena, estava mais segura daquela separação e de que por ser a primeira por motivos profissionais é que estava a custar tanto.

- E você promete que espera por mim… - pediu segurando-me no rosto

- Prometo! – sorri ao mesmo tempo que enxugava as lágrimas que me cruzavam o rosto e me delineavam os traços perfeitamente – Vá, agora vai! – ordenei puxando-o pela mão para junto da porta de embarque – Quando chegares, diz qualquer coisa, mesmo que já seja tarde, só para eu ficar descansada… - pedi já frente a frente com ele

- Eu digo! – afirmou seguro e roubou-me vários beijos rápidos nos lábios – Vou levar você no coração…

- Tu nunca vais sair do meu… - murmurei com o meu rosto colado ao dele

- E não se esqueça: a distância impede que eu te veja, mas não impede que eu te ame, viu? – aquelas palavras acertaram em cheio no meu coração, estava preparada para o deixar ir
Beijei-o rapidamente até ouvir o treinador adjunto chamar uma última vez por ele. Ele sorriu-me, agarrou nos seus pertences pessoais, roubou-me um último beijo e entrou pela porta de embarque lado a lado com o treinador adjunto. Ele ainda se virou para trás procurando-me, eu acenei-lhe uma última vez com um sorriso no rosto e virei costas. Não olhei mais para trás e percorri o caminho que Ruben usara para me trazer até ali. Saí daquele aeroporto mais vazia, menos eu… Mas nem por isso menos amada e disso eu tinha a certeza.
Apanhei um autocarro que me levou a casa, coloquei as minhas coisas junto à porta e esperei que Débora me mandasse mensagem para que descesse.

“De: Débora
Gorda, estou cá em baixo no carro à espera, despacha-te que eu não quero chegar muito tarde lá a baixo... Beijinho, até já! :)”

Coloquei a minha mochila às costas, agarrei na troley e desci o meu prédio. Entrei no carro onde a Débora me esperava impaciente, com uma certeza: fosse onde fosse, naquela pequena jornada uma coisa eu teria sempre como certa e sempre no meu coração: o homem da minha vida, David.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Capítulo 100 – A nossa noite (parte III)

Olá, peço desculpa pela demora em postar um capítulo novo mas as aulas deixam pouco tempo livre e o meu Word tem-me dado problemas, espero que compreendam e gostem deste novo capítulo. Beijinhos e comentem! :)
***
David saiu para a cozinha e eu segui-o, havia uma dúvida que me estava a matutar na cabeça.
Entrei, ele estava a começar a arrumar as coisas e quando sentiu a minha presença olhou-me sobre o ombro.

- Não ia tomar banho? – a voz dele acalmava-me

- Ia mas mudei de ideias, faço-te companhia e depois vou…
- Hum… Isso me parece bem mas p’ra ser justo eu depois vou ter de fazer companhia p’ra você no banho... – vi no seu rosto uma expressão clara de safadeza

- Não te preocupes que depois da recompensa de eu te estar a fazer companhia, trato eu, mas não será essa, seu safado! – passei-lhe a mão pelos caracóis e sentei-me na bancada ao lado do lava loiças, onde ele lavava a loiça

Limitei-me a olhá-lo durante largos segundos enquanto ele continuava a passar a loiça por água e a arrumar as coisas.

- Sim… - ele não me olhou

- Sim o quê?

- Pergunta de uma vez o que quer perguntar, já percebi que tá alguma coisa atormentando essa cabecinha! – ele já me começava a conhecer, melhor do que muita gente e isso deixava-me com um certo orgulho, afinal melhor do que termos uma pessoa que amamos do nosso lado e sermos correspondidos, é termos essa pessoa e ela mais do que companheiro ser melhor amigo
- Ontem à noite… Estive muito mal? – perguntei de uma só vez tentando controlar o sangue que me aflorava às maçãs do rosto

- O quê? – ele não tinha percebido a minha pergunta, fechou a torneira e encarou-me

- Ó David tu percebeste… Se te desiludi, se estive bem… Se gostaste… - vi que o rosto dele buscava palavras mais precisas e claras – Se te dei prazer… - e no mesmo instante que disse isso baixei o olhar para as minhas mãos

Pela minha vista periférica vi-o secar as mãos num pano e senti-o aproximar-se mim. Ele pousou as mãos nas minhas coxas despidas e colou o seu corpo ao meu.

- Deixa de ser, boba, sim?

- Não me estás a responder à pergunta, David…

- Olha p’ra mim, por favor? – ele colocou a mão no meu queixo e obrigou-me a olhá-lo nos olhos
– Essa pergunta é muito boba! Cê foi perfeita…Foi maravilhosa! – sorriu-me mas nem assim me tranquilizou – Cê arrasou comigo! – um sorriso safado surgiu-lhe no rosto e fui obrigada a rir
- És muito tonto, tu! – acusei sorrindo

- Ué, isso é um sorriso? Me mostra vai? – ele começou a fixar-se no meu sorriso

Fiz um sorriso que mais se pareceu a uma careta e ambos nos rimos.

- Tens a certeza, David? É que foi a primeira vez que fiz aquilo e tu já és experi… - ele calou-me com um beijo calmo e apaixonado

- Tenho a certeza, moleca! – a voz carinhosa dele fez-me arrepiar
- O que é que me chamas-te? – perguntei num sorriso
- Moleca, minha moleca! – afirmou sorrindo

- Eu amo-te, meu tontinho! – beijei-o carinhosamente – Isto está muito bom mas eu tenho de ir tomar banho Sr. David! – saltei da bancada afastando-o

- Tá bom, mas se despacha tá?

- Juro! – eu sabia que não iria despachar-me pois o banho para mim é um ritual que gosto de levar com calma e prolongar sempre que tenho hipótese disso.

Beijei-o rapidamente nos lábios e saí na direcção da casa de banho. Numa questão de segundos livrei-me da camisa de David e da minha roupa interior e enfiei-me debaixo do chuveiro de água escaldante.
Ouvia-o andar de um lado para o outro, mexia em coisas e isso provocava alguns ruídos que me impediam de tomar o meu banho tranquilizante em silêncio. Lavei o corpo e o cabelo, fechei a torneira e enrolando-me numa toalha saí do banho. Em frente ao espelho penteava-me quando ele bateu à porta.

- Posso entrar, meu amor? – ouvi-a a voz dele abafada devido à separação que nos era imposta pela grossa porta de pinho

- Claro … - olhei durante alguns segundos para a porta e vi-o logo entrar, espreitando com a cabeça pela porta entreaberta – Não precisas de perguntar, ó totó!

- Mas é uma questão de respeito… - ele entrou e fechou a porta, juntando-se do meu lado – Podia estar pelada… - ele estava nitidamente a fazer com que eu me risse

- E tu nem nunca me viste despida, nem nada… - rimo-nos os dois

- Não interessa, podia querer sua privacidade! – rematou agarrando-me pela cintura
- Não tenho desses pudores contigo… Quer dizer, não agora! – concluí

Os lábios quentes dele beijaram a minha têmpora e apertaram-me mais contra si.
- Cê tomou banho muito rápido, caraca! – as expressões de David provocavam-me sempre uma enorme vontade rir, não dele, mas da maneira como ele falava. Agitava os caracóis no ar, abanando a cabeça de um lado para o outro, com um sorriso no rosto que tão bem o caracterizava e um olhar terno e meigo, um olhar de David. É aquele jeitinho de menino dele, que me enlouquece e me deixa completamente derretida mas ao mesmo tempo me faz rir, completando-me

- Então não paravas quieto de um lado para o outro, sempre a fazer barulho e eu não estava a conseguir curtir o banho então apressei-me…- confessei pousando a escova sobre a bancada

- Oh me desculpa, gata, mas estava preparando a roupa para me vestir depois do duche… - desculpou-se

- Não faz mal, eu vou vestir-me… Vê se te despachas, ó vaidoso! – desviei-me dele dando-lhe um beijo suave nos lábios e aproximei-me da porta da casa de banho no intuito de sair em direcção ao quarto

- Gata, minha gata… - senti-o puxar o seu corpo contra o seu e sussurrar estas palavras contra a minha nuca ao mesmo tempo que a beijava – Não quer curtir o duche comigo? – foi-me puxando para perto do polibã novamente

- Não te metas com ideias… Acabei de sair de lá! – refilei tentando aproximar-me novamente da porta mas os braços quentes de David que envolviam a minha cintura por trás, não me deixaram

- Vai de novo… - sussurrou ao meu ouvido na sua voz doce e envolvente

- Para quê, ó Mister Caracóis? – perguntei virando-me de frente para ele
- Para curtir o seu banho com calma… Com o seu namorado lindão! – fez o seu jeitinho de menino, agitando os caracóis no ar

- Lindão e convencidão! – brinquei com ele – Vai mas é tomar banho, sim? – dei-lhe um beijo rápido nos lábios e saí na direcção do quarto

Deixei-o na casa e banho e até ouvir a água do chuveiro começar a correr foi uma questão de segundos. A proposta dele era aliciante mas eu sabia que se me juntasse a ele no banho, iríamos prolongá-lo por entre carinhos e beijos. Não é que a ideia não me agradasse mas se queríamos sair para passear não nos podíamos demorar. Mas acabei por ceder, quando ao regressar à casa de banho para ir buscar o meu creme corporal, me deparei com os contornos perfeitos do corpo de David debaixo da água corrente. Ele enxaguava os cabelos e cantarolava sem nunca dar pela minha presença.

- Entre os soluços do meu choro eu tento te explicar, nos seus braços é o meu lugar, contemplando as estrelas minha solidão, aperta forte o peito é mais que uma emoção, esqueci do meu orgulho p’ra você voltar, permaneço sem amor, sem luz… - ele cantava desafinado
Depressa me desembaracei da toalha que me cobri o corpo e me enfiei devagarinho dentro do chuveiro com ele abraçando-lhe o tronco por trás.

- … sem ar! – ele estremeceu com a minha voz no seu ouvido e virou-se imediatamente para mim anulando a distância entre os nossos corpos

- Ué, mudou de ideia? – vi um sorriso de satisfação no seu rosto

- Mudei… Achei que ias precisar de alguém para te lavar as costas… - menti, brincando com ele

- Ah claro, alguém p’ra me lavar as costas… Conta outra, vai! – ri-me

- A verdade é que resolvi aproveitar o banho com o meu namorado, depois da noite que tivemos…

- Correcção! Depois da noite maravilhosa que tivemos – ele deu ênfase à palavra “maravilhosa” e eu corei

Senti os lábios quentes dele procurarem os meus e eu correspondi completamente àquele beijo cheio de sentimento. Ficámos alguns minutos debaixo de água numa troca de carícias e carinhos, quando senti as mãos de David percorrerem o meu corpo com mais fulgor e desejo. Ele saiu do duche durante breves segundos para ir buscar protecção e regressou num instante.
Apertei-o mais contra mim e rapidamente subi para o colo dele, enlaçando as minhas pernas em torno da cintura dele e beijei-o freneticamente ao mesmo tempo que me agarrava aos braços tonificados dele para não cair. Ele pousou as mãos nas minhas nádegas para me segurar e encostou-me contra a parede de azulejos. Por entre beijos e carícias mais atrevidas, David acabou por unir os nossos corpos. A água percorria os nossos corpos e difundia-se com a fina camada de suor que começava a notar-se sob a pele dos nossos corpos esgotados. As nossas salivas misturavam-se na união das nossas bocas e a elas juntava-se também algumas gotas de água do chuveiro. Atingimos o prazer máximo e gememos em surdina.
Se a primeira vez que tinha estado com ele tinha sido especial e inesquecível, a segunda não era muito diferente. Tirando que o nervosismo e os medos já não estavam tão latentes, que o sentido de entrega tinha sido muito maior e muito mais natural e que desta vez tinha sido muito mais prazeroso.
Sorrimos os dois quando ele se retirou do meu corpo, desta vez a sensação de vazio foi menor pois eu sabia que íamos voltar a ser um do outro dentro de pouco tempo.
Pousou-me no chão, envolveu-me num abraço e deixámo-nos ficar mais alguns momentos debaixo da água que corria pelos nossos corpos.

- Te amo… Te amo… - sussurrou-me ao mesmo tempo que me beijava delicadamente nos lábios

Não precisei dizer-lhe mais nada. Pousei a minha mão sob a sua testa e deixei-a percorrer um trilho perfeitamente seguro, o traço que delineava tão perfeito rosto como o dele. Passei a língua levemente nos seus lábios e abarquei-os na minha boca, delicadamente e apaixonadamente. Ele sabia tão bem quanto eu que nada reflectia melhor o nosso amor e qualquer palavra que usássemos para o demonstrar, do que um beijo. Cada beijo que dávamos era especial, inesquecível e inigualável. Nos nossos beijos colocávamos o sentimento que éramos incapazes de descrever por palavras: o nosso amor, uma vez que nenhuma que usássemos lhe fazia justiça.

- Amo-te cada vez mais, sabes? – encostei a minha testa à dele, colocando-me em pontas de pés uma vez que era a única forma de lhe alcançar o rosto

- Acredito, mas não ama mais do que eu! – afirmou decidido

- Eu é que amo mais!

- Que nada, sou eu moleca! – sorriu e beijou-me para me calar

E éramos capazes de ter ficado horas naquilo se ele não me tivesse calado num beijo. Que importa quem ama mais um ou outro, o que importa é que amamos o suficiente para estarmos juntos e para nos estregarmos um ao outro, como fazemos todos os dias, a todos os segundos, com cada carícia, cada beijo, cada olhar e cada sorriso.

- Vamos vestir-nos? – perguntei afastando o meu rosto do dele e preparando-me para sair do duche

- Para quê? Isso daqui tá tão gostoso… - ele voltou a puxar-me para ele e encostou as minhas costas á tijoleira fria que forra o duche

- Ai! – gemi de dor ao sentir o frio dos azulejos contra a minha pele a escaldar da água e do momento que vivera com David e automaticamente afastei-me deles, aproximando-me consequentemente mais de David

- Desculpa… - pediu sorrindo e agarrando-me pelos quadris

- Não faz mal…- senti ele abraçar-me novamente, sabia que ele queria prolongar aquele momento e ficar assim, durante mais alguns segundos, minutos talvez, quem sabe até horas - David… Vá lá! – enterrei a minha cara no pescoço dele – Já estou a ficar engelhada… - constatei ao ver a minha pele dos dedos toda encarquilhada devido ao prolongado tempo a que estava exposta à água

- Me mostra vai, minha queixinha! – ele agarrou-me na mão julgando que eu apenas dava aquela justificação para sairmos rapidamente do chuveiro – Ué, tá mesmo! Vamo sair daqui senão daqui a nada minha namorada fica congeladona! – gozou comigo
- Acho bem, Senhor David Marinho! – tentei manter um ar sério mas rapidamente me desfiz em gargalhadas

Ele saiu do duche à minha frente, agarrou numa toalha que usou para envolver a sua cintura e agarrou uma outra que usou para me envolver carinhosamente. Em seguida retirou-me de dentro do chuveiro, elevando-me a escassos centímetros do chão e apenas me pousou quando já estava do lado de fora.

- Depois diz que eu não te trato bem… - deitou-me a língua de fora

- Quando queres… Quando queres… - sorri, entrelacei os meus dedos nos dele e dei-lhe um beijo rápido nos lábios antes de seguirmos para o quarto

***

- David, já viste as horas? – perguntei ao agarrar nos meu telemóvel sob a mesinha de cabeceira e ao constatar as horas no mesmo – Já é tarde para irmos passear…

- Tarde que nada, temos o dia todo! – disse ao mesmo tempo que vestia a boxers
- O dia todo não é bem assim… Logo à noite tenho de ir jantar com os meus pais – relembrei-o ao mesmo tempo que abria a primeira mensagem das três que tinha recebido

Sentei-me na cama para ler as mensagens calmamente mas depressa senti o corpo de David atrás de mim, as suas mãos percorrerem-me os omoplatas e os seus lábios percorrerem-me a nuca com beijos.
“De: Mãe
Espero que tenhas chegado bem a casa, adorei ver-te feliz com o David. Adoro ver a minha filhota assim toda contente :) O pai e eu esperamos-te para jantar, traz o David se ele puder vir. Beijinhos. Amo-te muito filhota linda!”

Respondi-lhe.

“Para: Mãe
Sim, mãe, cheguei bem. Desculpa não ter dito nada mas chegámos muito tarde a Lisboa. Ainda bem que gostas de me ver assim feliz, isto há-de durar por muito e muito tempo se Deus quiser! Lá estarei mas duvido que o Dê possa ir, amanhã viaja cedo para o estágio em EUA, mas eu vou! (: Beijinhos também te amo muito, mãe linda! “

- Deus há-de querer… Deus e nós! – rematou David no meu ouvido

- Deus já quis no momento em que cruzou as nossas vidas e traçou o nosso Destino num só! – sorri-lhe e senti-o estremecer com as minhas palavras

Abri a mensagem seguinte.

“De: Bianca
Minha princesa, já comecei a embalar as minhas coisas… Depois das férias mudo-me lá para casa, espero que já esteja tudo bem contigo e com David. Beijinhos, Te Amo un motón! :D “
Respondi-lhe imediatamente, com a cabeça de David, sempre muito atento pousada em meu ombro e com as mãos dele e os lábios dele acariciando-me no pescoço e costas despidas.

“Para: Bianca
Olá princesa, ainda bem que começaste a embalar as tuas coisas, estou louca para dividir casa contigo. Vai ser a loucura :b E sim já está tudo bem comigo e com o David, vou de férias amanhã para o Algarve, mas vou dando noticias, Beijinhos. Amo-te muito, minha princesa! :D ”

Abri a última mensagem, que era da minha melhor amiga.
“De: Débora
Ó gorda da minha vida, desde que te chateaste com o teu zuca no casamento do priminho não me disseste mais nada, estou preocupada contigo :S Vê lá se dás à costa ou então vou ver-me obrigada a rumar a Sul sem a tua maravilhosa companhia, e assumamos que não seria a mesma coisa uma vez que aquilo é demasiado gajo só para mim :b Até porque estás de dieta mas nada te impede de ver o menu! :) Quando puderes liga-me para combinarmos o que falta. Beijão @ Te amo munto! :D “

“Para: Débora
Ó minha feiosa, desculpa não ter dito nada mas sabes como são os casamentos da minha família, uma autêntica agitação! Claro que dou à costa, podes contar comigo para as melhores férias do MUNDO!! Vai ser uma semana de muita farra e diversão mas sabes como é por muito engraçadinhos que os rapazinhos sejam só tenho olhos para o meu caracolinhos. E tu vê lá se ganhas juízo que és comprometida, sim? :b Logo ligo-te para combinarmos melhor o que falta. Beijos ^.^ Amo-te muito! “

- Não tou gostando nada dessa conversa da Débora, tá querendo desviar a minha namorada por maus caminhos… - refilou levantando-se e continuando a vestir-se

- Não sejas assim, ela está na brincadeira, sabes bem como ela é…- defendi-a

- É mas eu acho melhor, cê vir comigo p’ros Estados Unidos, ao menos lá eu tenho olho em você e não fico lá pensando em quantos babacas ficam olhando minha namorada… - eu vi que eles estava a ficar claramente com ciúmes

- Deixa de ser totó, sim? Eles vêm, tu tens! – sorri-lhe

- Tá bom, tá! Se antes eu já ia ficar ligando e mandando torpedos p’ra você a toda a hora, depois desse aliciamento de sua melhor amiga não vou largar você nem um minutinho! – reforçou vestindo a t-shirt

- Já disse que podes ligar e mandar mensagens sempre que quiseres que eu hei-de estar sempre disponível! Além disso mesmo que eu não te diga o que ando a fazer com toda a certeza as revistas irão fazê-lo por mim uma vez que a proposta de gravar o CD nos estados unidos já saiu em todas as revistas. “Talento português brilha nos EUA” – relembrei a manchete de uma revista cor-de-rosa de há um mês atrás, eles conseguiam ser tão enjoativos e mal eles sonhavam que eu era namorada do defesa central brasileiro do Benfica

Mas ainda bem que assim era, se eu ia sair nas revistas que fosse por mérito próprio e não por ser simplesmente a namorada de um jogador de futebol.
No aniversário de David recebi o telefonema do gabinete do Diddy e claro que num país tão pequeno como Portugal, isso era algo em grande, especialmente quando a oferta era feita a uma aluna de 17 anos de uma escola de Artes Portuguesa. Tinham-me dado uma semana para responder à oferta e assim o fiz. Assinei contracto e desde aí que o correspondente da agência em Portugal me tinha lançado em algumas revistas, pequenas actuações e agora preparava a gravação do meu álbum que ainda não tinha data definida. Por isso tive de ver a minha cara, uma vez ou outra, estampada nas revistas cor-de-rosa, recheadas de mentiras e invenções e comigo a história era mais ou menos a mesma coisa. Escreviam coisas sobre mim mas também não se coibiam de publicar algumas mentiras, coisas sem fundamento como uma vez em que publicaram que eu era namorada há cinco anos do meu colega de curso Diogo e que este também tentava ingressar no mundo da música. Já não me importava com aquilo e se não me dissessem que eu lá aparecia eu nem saberia pois não me dava ao trabalho de as comprar.

- Cê sabe que eu prefiro saber as coisas por você… As revistas contam muitas mentiras!

- Sim é verdade, mas nunca se sabe até que ponto essas mentiras podem abalar as nossas vidas mas até agora nunca te dei razões para desconfiar pois não?

- Não, não deu! Cê sabe que eu confio em você senão a gente nem tava junto! – ele relembrou-me um principio que nos era comum, a base de qualquer relação é a confiança

- Ainda bem que pensamos da mesma forma… - sorri-lhe e continuei a vestir-me

Tirei da minha mala de viagem uma roupa simples, uns jeans claros e com uns rasgões, uma t-shirt vermelha do Mickey e uns ténis da mesma cor. Senti-me fresca e simples, aquela era eu e David já se tinha habituado ao meu lado mais de menina.

Aproximei-me dele para lhe dar um beijo, o que me foi difícil devido à diferença de alturas e rapidamente ele se apressou a gozar.

- Oh amô, cê é mesmo meia lecazinha… - ria-se perdidamente

- Meia lecazinha?! – a minha boca abriu-se em sinal de espanto adivinhando um dos meus falsos amuos – Está bem, David Luiz, a conversa fica por aqui! – virei-lhe costas mas senti o corpo dele imediatamente a abraçar-me por trás

- Oh Adrianinha não faz assim não… Te amo tanto, tanto! – ele dava-me graxa, gozava comigo mas eu adorava aquelas brincadeiras de miúdos que tão bem conotavam a nossa relação

- Adrianinha o escambau! Trata-me pelo meu nome decentemente está bem? – afirmei numa expressão séria que não o convenceu minimamente, uma vez que ele se desmanchou a rir e eu juntei-me a ele.

- Me desculpa, mas cê fica uma gracinha assim pequenininha! – fez-me uma caricia na cara e deu-me um leve beijo no canto da boca

- Não tenho a culpa de ter herdado o gene de pequenez da minha mãe… Mas eu gosto de ser assim pequenina!

- Eu também gosto muito, fica maior gracinha! – roubou-me um beijo sem sequer me dar hipótese de refilar novamente com ele

- Isso cala-me com beijos! – refilei
- Calo mesmo! – deu-me uma série de beijos repenicados, mas sentidos, nos lábios e eu estremeci

- Então e depois de tanto mimo, vamos fazer o quê amor? – perguntei sorrindo
- Eu tenho ainda de fazer a minha mala p’ra amanhã viajar ou se esqueceu?

- Hum, é verdade… Deixa que eu ajudo-te! – ofereci-me

- Nada disso, quero aproveitar todos os segundinhos com você depois a gente pensa nisso, tá? – acenei-lhe positivamente com a cabeça e imediatamente o rosto dele formou um sorriso perfeito e escancarado

- E vamos onde, amor?

- Não sei, quer fazer o quê?

- Não sei, mas estamos nas férias de verão e os sítios públicos vão estar cheios, quero evitar confusões e a hipótese de sermos apanhados, amor… Podemos ir dar um passeio por um sítio mais recatado, sei lá!

- Por onde? – perguntou sem qualquer ideia
- Olha, já sei! Podíamos ir a Sintra, à Quinta da Regaleira, aquilo é lindo… - senti a minha voz distanciar-se assim como o meu pensamento

- Não conheço, não!

- Não? Vais adorar, aquilo é lindo… Já lá estive imensas vezes

Eu e o David acabámos por seguir para um passeio prolongado pela Quinta da Regaleira, trocámos mimos, passeámos de mão dada e ainda tirámos algumas fotos, sem que ninguém o abordasse para pedir um autógrafo, um beijinho, ou qualquer outra coisa. Depois do nosso passeio acabámos por nos dirigir a um restaurante muito simpático em Sintra, onde comemos qualquer coisa leve devido às horas a que terminámos o nosso passeio pela Quinta, quer dizer eu comi porque para David nenhuma refeição é leve.
Acabei por conseguir convencê-lo a jantar em casa dos meus pais mas não sem antes passarmos em casa dele para eu o ajudar a fazer a mala. Daí seguimos para casa dos meus pais, claro que o meu pai, e para não variar sempre que se reunia com o David, usou mais de uma hora do jantar para falar de como o futebol português estava e como o lastimável estado do seu Sporting o deixava aborrecido. Quase que subornava o David para o convencer a ir prestar serviço à equipa contrária, claro que isso acabou por ser motivo claro que risada, uma vez que o meu pai estava em desvantagem numérica de três benfiquistas para um lagartão.
Despedimo-nos dos meus pais e pedi a David que me levasse a casa, como já era hábito.
- Tá entregue, gatinha…- roubou-me um beijo rápido apenas nos lábios

- Obrigada, amor e desculpa ter-te dado trabalho, que amanhã tens de acordar cedo… - torci o nariz desculpando-me

- Não se preocupa não… Mas de facto cê podia ter facilitado tudo se tivesse dormido em minha casa… Juntinho de mim… - ele fazia uso da palavra “juntinho” para a situação em que estávamos e cada vez colava mais e mais o seu corpo ao meu

- Podia não podia? – fiz uma breve pausa – Mas não era a mesma coisa! – o sorriso no seu rosto desvaneceu-se – Esta é a minha casa, aquela é a tua casa, por isso não fiques mal habituado, já dormimos juntos umas férias inteiras no Brasil e mais estes dias…

- Hum, tá bom mas não me culpa por ficar mal habituado mas foi tanto tempo que acho que já nem sei dormir sozinho…- ele coçou a cabeça ao mesmo tempo que a sua face expressou o estado de vergonha em que se encontrava

- Claro que sabes, e senão sabes habituas-te outra vez, sim?

- Oh mas era só mais hoje… Antes de eu ir embora, vamos ficar quinze dias sem nos vermos…
- Passam a correr, se aguentámos um mês aguentamos quinze dias… - tentava minimizar a situação mas eu sabia que me ia custar ficar este tempo todo separada dele mesmo que ele estivesse constantemente a mandar mensagens e a ligar-me, nunca daria para compensar a saudade e o vazio que ele deixava com aquela partida

- Fala por você, acho que largo o estágio no meio e venho correndo p’ra cá! – fez um sorriso safado

- Não digas disparates, sim? – passei-lhe a mão levemente no rosto – Agora vai andando, que amanhã tens de estar cedo no aeroporto
- Vou morrer de saudades suas… - afirmou cabisbaixo
- Ó amor, vá lá! Não faças isto… Odeio despedidas – era a verdade, detestava despedidas, traziam um sabor agridoce. Doía saber que ficaria separada dele tanto tempo mas saber que de dentro em breve o teria de novo em meus braços acalmava-me
- Não é despedida, é um até já! A gente se vê daqui a quinze dias, sim? – sorriu-me

- Sim! – suspirei e sorri, tentando parecer o melhor possível pois eu sabia que por si só a situação já era difícil para ele

Sabia que lhe custava tanto a ele partir vendo-me ficar, como me custava a mim ficar, vendo-o partir.
Os lábios dele precipitaram-se na minha direcção no intuito de me roubar um beijo, o último, o último de quinze dias. Quando os lábios dele esborracharam os meus, o meu coração mirrou, ficou pequenininho e reduzido a batimentos leves no canto esquerdo do meu peito. Senti as lágrimas turvarem-me os olhos por debaixo das minhas pálpebras cerradas e controlei-me por não chorar. Para quê dificultar uma situação que por si só já era difícil?

- Vá, vai lá! – senti a voz falhar-me e rezei para que ele não percebe-se
- Me espera… - pediu agarrando-me o rosto com as duas mãos

- Espero… Claro que espero… - sorri e roubei-lhe um último beijo – Vá, agora vai… - ordenei quando senti que estava a chegar ao meu ponto de ruptura e quando o atingisse seria impossível controlar-me

Ele beijou-me novamente e virou-me costas. Por entre a penumbra do corredor da minha casa, pareceu-me ver os seus olhos brilharem devido às lágrimas que eu julgava que ele estava a conter com muito esforço. Ainda chamei por ele, mas tão seguro dos seus passos, permaneceu seguro do seu caminho. Abriu a porta, saiu, olhou uma última vez para trás, acenei-lhe e soprei um beijo, e ele entrou no elevador. Agora só dali a quinze dias…

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Capítulo 100 – A nossa noite (parte II)

Desculpem a demora em postar este capítulo mas agora as aulas começaram e não postarei tão frequentemente como nas férias, espero que compreendam e além disso tenho tido uns problemas com o meu word e já várias vezes perdi o que já tinha escrito.
Espero que gostem, beijinhos ^^
Dri


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Sentia o meu corpo dormente e a respiração pesada de David intensificava essa sensação, ele permanecia profundamente adormecido do meu lado mas eu despertara novamente e não conseguia voltar a adormecer.
Dei voltas e voltas na cama mas nada me fazia pegar no sono outra vez. Resolvi então levantar-me e ir até à cozinha beber um copo de água. Vesti a parte debaixo da minha lingerie e a camisa de David pois era o que estava mais à mão, e mesmo descalça, fui até à cozinha e servi-me dum copo de água. Enquanto o bebia acabei por reparar na vista deslumbrante que se mostrava sob a varanda de David.
Pousei o copo na bancada e abri, devagarinho para não acordar David, a porta da janela de acesso à varanda.
Uma brisa quente, típica de uma noite amena do verão português, envolvia o ar e dava-me uma sensação de leveza. Pousei os meus cotovelos no beiral da varanda e deixei-me ficar, perdida em memórias e perdida naquela vista nocturna. Uma memória bem recente veio à minha memória

***

19 de Julho – Brasil
A mãe de David organizara um pagode para conhecer o resto da família, eram todos muito simpáticos e calorosos, como todo o povo brasileiro mas eu precisava de apanhar ar e vim até ao calçadão da praia. A praia à noite era lindíssima. Senti uns braços amarrarem-me por trás com muito carinho.

- David? – perguntei sem olhar

- Quem mais havia de ser? – apertou-me mais contra si e deu-me um beijo no rosto – Tá fazendo o quê sozinha aqui fora?

- Apanhar ar… Está uma bagunçada lá em casa! – sorri, afastei-me dele e sentei-me no murinho que separava o areal e o calçadão

- A família é grande e as crianças são muitas, cê se habitua… - ele sentou-se do meu lado, colado a mim

- A minha família também é enorme ó esqueces-te? Eu preciso de me habituar é ao que sinto…Ao que sinto aqui nesta casa, é incrível! - suspirei e afastei o meu olhar para o mar quando senti as lágrimas aflorarem-me o rosto

- Tá chorando porquê? Quer voltar p’ra Portugal? Tá com saudade de todo o mundo? – David aproximou-se mais de mim e eu encarei-o vendo no seu rosto uma expressão preocupada

- Não… Estou a chorar porque estou feliz… - confessei entre soluços

- Tá feliz e tá chorando? – ele passou os dedos no meu rosto, o seu tom de voz era compreensivo

- Sim, estou feliz, tão feliz… - senti o sorriso de David rasgar-se à medida que ia falando – Adoro tudo naquela casa…- sorri e olhei para ele – As pessoas… As luzes… Os cheiros… Os barulhos…Tudo me faz sentir estranhamente feliz, estranhamente em casa – David sorria-me descaradamente

- Essa agora também é sua casa! – ele agarrou o meu rosto entre as suas mãos e obrigou-me a encará-lo – Cê agora também é parte dessa família…Da minha família - por entre lágrimas não me contive e sorri

- Obrigada – agradeci olhando-o nos olhos

- Não chora mais não, minha bobinha! – apertou-me contra ele

- Sabes uma coisa, David? – tirei a cabeça do seu peito e encarei-o – Agora, tu és a minha casa!

Ambos sorrimos e beijámo-nos não foi preciso dizer mais nada.

***

Ao relembrar este momento cantarolava sozinha e baixinho a primeira música que compusera a pensar em David.

- Tell them all I know now, shout it from the roof tops , write it on the sky line, All we had is gone now. Tell them I was happy, and my heart is broken, all my scars are open, tell them what I hoped would be…Impossible, impossible, impossible, impossible…

A minha lembrança foi interrompida por uns braços escaldantes em torno do meu corpo. Era David. Ele beijou-me nas bochechas, no pescoço, na nuca e deixou a sua cabeça pousa no meu ombro, permanecendo abraçado a mim.

- Cantando? – perguntou-me

- Não tinha sono… - ele suspirou e sorriu

Eu percebi que ele tinha acordado ao notar a minha ausência na cama, sorri e permanecemos assim alguns segundos.

- Você tá bem, meu amô? – a voz dele era visivelmente preocupada

- Claro que estou bem… Nunca estive tão bem! – sorri

O que acabara de dizer era o mais sincero possível, era o que eu sentia.

- Tem certeza? – insistiu com um rasgo de preocupação a denotar-lhe a voz

- Tenho David, toda a certeza do mundo! – respondi permanecendo de costas para ele, senti então o seu coração disparar com as minhas palavras

- Vamo, dormir… - disse separando o seu corpo do meu

- Vai tu, eu fico aqui… - respondi vagarosamente voltando a apoiar os meus cotovelos no beiral da varanda

Senti David sair da varanda e entrar na cozinha, em direcção ao quarto mas tão rapidamente como o ouvi sair, ouvi-o entrar.
Senti novamente a presença dele a envolver o ar, ouvia a respiração pesada dele e percebi que algo o atormentava.

- Voltas-te? – virei-me para ele e ele aproximou-se de mim com a mesma velocidade em que entrara na varanda novamente

- Cê tá arrependida? – fiquei em silêncio – Cê tá arrependida de o ter feito comigo? – a dúvida e o desespero invadiam o rosto dele

- Não sejas tontinho! – aproximei-me dele e em bicos de pés passei as minhas mãos pelo seu rosto de pele suave – Não me arrependo de nada do que aconteceu naquele quarto! Nada! – sorri-lhe

- Então eu te magoei, foi isso não foi? Cê detestou e eu magoei você! – ele parecia desiludido com ele próprio

- Não é nada disso! Foi óptimo…Não me magoaste nada! - corei com as minhas palavras – Fizeste-me feliz ao sentir que me amavas mesmo…

- E eu te amo mesmo… - sussurrou-me sem me olhar nos olhos

- Eu também, fi-lo porque quis, além disso tu perguntaste-me se era mesmo isso que eu queria e eu garanti-te que sim por isso deixa-te de disparates, sim? – sorri dando-lhe um suave beijo

- Como cê tava aí querendo ficar sozinha pensei que tava arrependida e eu jamais me perdoaria se você se arrepende-se de o ter feito…

- Não me arrependi mesmo! Adorei! – sorri-lhe – E estava aqui sozinha a assimilar tudo, mais um momento nosso e a recordar aquela vez na praia, nas férias no Brasil em que me disseste que eu agora fazia parte da tua família

- E faz! É uma boa memória essa… Mas temos tantas e todas tão maravilhosas! – ele envolveu-me num abraço

Voltei a virar-me de costas para ele, a encarar a vista e ele voltou a abraçar-me por trás.

- Mas sabes, David? E eu sinto que posso admitir isto apesar de correr o risco de fazer figura de parva… - hesitei e ele aguardou pelo que me faltava dizer – Esta será sempre a melhor memória! Por muitas mais que venham… Será sempre a melhor porque foi o momento em que eu apenas deixei de saber que realmente nos amamos e o senti plenamente…

- Eu sempre soube, meu anjo. Sempre soube… - a voz dele arrastou-se e eu bocejei – Ué, parece que o sono tá chegando… - riu-se

- Tá sim… Estou a ficar cansada… - sorri envergonhada

- Vamo nos deitar, vem… - ele deu-me a mão e puxou-me

- David! – chamei-o e ele parou – Já viste o teu estado? – os meus olhos arregalaram-se ao ver as suas costas com alguns arranhões e um chupão discreto no pescoço

- Ué, culpa sua! Não me olha assim não… Você que fez os estragos! – rimo-nos e seguimos para o quarto

Acabámos por adormecer estafados por o momento que se passara horas antes.



***



David

Acordei e olhei p’ro relógio em cima da mesinha de cabeceira, eram 11 horas e 23 minutos e Adriana continuava dormindo do meu lado profundamente.
Reparei em como ela estava linda com a minha camisa vestida e em como a sua expressão se tornava ainda mais angelical quando estava a dormir. As pestanas compridas e escuras selavam os seus olhos adormecidos e saltavam à vista e uns caracóis rebeldes todos desalinhados invadiam a sua testa. Desviei-lhos e ela se mexeu levemente mas não acordou, eu sorri.

- Amô… - chamei dando-lhe suaves beijos na sua clavícula meio despida

- Deixa-me dormir, bolas! – praguejou enterrando a cabeça na almofada, automaticamente eu comecei a me rir

Vi-a desenterrar a cabeça da almofada, ainda com um olho fechado tentando perceber onde tava.

– Estás a rir de quê posso saber? – ela estava claramente mal disposta por ter sido acordada

- Bom dia, meu mau feitio! – apoiei-me no cotovelo para ficar reclinado e dei-lhe um
suave beijo nos lábios – Que bom humor matinal! Vai ser sempre assim?

- Bom dia amor, desculpa mas tenho mau acordar. Odeio que me acordem! – virou-se para o outro lado

- Mas já é tarde, cê não vai querer tomar o café da manhã ou tomar um banho? - enterrei os meus lábios na nuca dela e senti-a tremer com os meus beijos

- Ainda é cedo, podias deixar-me dormir mais um bocadinho…

- Cedo? São onze horas, meu amô.

- Estou cansada! – refilou – Estou sem energias nenhumas! – eu desatei numa risada pegada

- Não tá pior que eu e eu tou aqui acordado! – ela finalmente virou-se para mim

- Bolas, agora espantaste-me o sono. Que chatinho! – resmungou cruzando os braços na frente do peito – Já que me acordas-te agora vou querer o pequeno almoço na cama!

- Na cama? Cê vai ficar mal habituada…- avisei me sentado na cama

- Sim, na cama! É o mínimo que podes fazer depois de me teres acordado… - refilou sorrindo

- Ué, tou vendo que a minha menina além de mau feitio é caprichosa… - ela me deu uma chapada no ombro

- Mau feitio ainda aceito porque sou, agora caprichosa não sou mas acho que mereço um pequeno-almoço na cama… - ela foi aproximando o seu rosto do meu

- Acha que merece café da manhã na cama é ? – eu alinhei no joguinho dela

- Sim… - me roubou um beijo – Mereço… - e outro – Porque te amo…- outro- Muito… - finalizou com um beijo mais apaixonado

- Tá fechado! Café da manhã da cama então! – não resisti e de uma maneira ou outra eu ia acabar cedendo e dando o café da manhã que ela tanto merecia e queria

- Obá! – ela imitou o meu sotaque e ambos nos rimos por entre beijos

- Cê é mesmo muito boba! – dei-lhe um beijo – Minha boba!

- Então e esse café da manhã sai ou não?

- Claro, é já! – me levantei e saí do quarto mas voltei atrás espreitando pela porta – Mas não adormece não!

- Não, não… - me respondeu se enroscado novamente nos lençóis e já de olhos fechados



***


Quando entrei no quarto com o tabuleiro do café da manhã nas mãos ela permanecia imóvel enroscada nos lençóis. Eu ri sozinho e pousei o tabuleiro na mesinha de cabeceira e me aproximei dela. Sentei na beira da cama e a tentei despertar com beijos na nuca.

- Estou acordada, David… - disse sem abrir os olhos e sem se mexer

- Ah claro, tou vendo! – brinquei e ela começou a rir – O café da manhã tá pronto! – Ela deu um pulo e se sentou imediatamente na cama em frente a mim – Ué, isso é tudo fome?

- Não é vontade de comer, é diferente! - rimo-nos – Então e o que é que há no menu para o pequeno almoço, Senhor Marinho?

- Temos croissants com fiambre, torradas, sumo de laranja, café e fruta… Vai desejar mais alguma coisa, princesinha? – passei a minha mão carinhosamente no seu rosto

- Para além deste menu incrível desejo um beijo do namorado mais perfeito do mundo!

- Com todo o prazer! – nos beijámos como tantas outras vezes o tínhamos feito

- Passa-me o sumo de laranja, se faz favor. Tenho sede – passei-lho e coloquei o tabuleiro no meio de nós sobre a cama

- Hoje tens alguma coisa para fazer? – me perguntou dando um morango na minha boca

- Nada de especial, aturar a minha namorada… Fazer um programinha gostoso – falei acabando de mastigar

- Hum, até parece que sou muito difícil de aturar! – comeu a outra metade do morango – Então e se a namorada não puder ficar?

- Não fica, com muita pena minha mas fazer o quê, né?

- Pois…- ela riu-se e revirou os olhos

- Não pode ficar? – eu achava que ela tava de sacanagem mas depressa entendi que tava falando sério

- Posso claro que posso, tonto! Mas mais tarde quero ir jantar a casa dos meus pais… Vens?

- Hum, não posso. Hoje tenho que deitar cedo, amanhã tenho voo cedo para os Estados Unidos…

- Hum, é verdade… - vi na cara dela uma certa tristeza

- Que carinha é essa? – toquei levemente no seu queixo com os meus dedos

- Vais ficar tanto tempo fora… Vou ter saudades!

- Ué, cê também vai passar uns dias de férias ao Algarve por isso não ia aproveitar nada comigo…

- Oh mas se estivesses cá eu não ia, amor…

- Mas vai, se diverte! – dei um gole no suco de laranja e ela uma dentada na torrada sem nada

- Vou mas não vou deixar de pensar em ti! – confidenciou meio envergonhada

- Óptimo porque eu vou ligar você a toda a hora! – prometi sorrindo

- Podes ligar, não vou largar o telemóvel um segundinho que seja! – prometeu também sorrindo

- É bom que não e toma cuidado com os portugas de lá que eu sei que são todos metidos á besta, ficam se achando e metem conversa com qualquer menina! – avisei relembrando a mim mesmo que os moços do Algarve e especialmente nessa altura do ano eram mesmo todos metidos à besta

- Eish, que namorado mais ciumento o meu! – ela se riu e se jogou em meu colo

- Ciumento nada, quem ama cuida e eu não quero perder você… - disse a verdade e a apertei mais contra mim

- E não vais perder, eu só tenho olhos para ti ó! – nos beijámos – Olha e agora já chega de tanto mel, amor…

- Cê gosta! – fiz um sorriso de menino pequeno

- Gosto pois mas não podemos ficar o dia todo nisto! Eu quero ir tomar banho…

- Tá bom, cê vai então tomar banho que eu vou por a loiça toda p’ra lavar, sim?

- Não queres ajuda? - me perguntou com os seus lábios colados aos meus e com segundas intenções

- Não precisa, não! Vai tomar seu banho, sim?

- Tá bem! – demos um beijo e eu sai com o tabuleiro na mão em direcção à cozinha

Comecei a colocar a loiça no lava loiças mas depressa senti a presença dela.