sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Capítulo 96 – Hoje é um grande dia! (Parte I)

David

Acordei cedo e ela ainda tava dormindo serena junto de mim. Me separei dos braços dela, levantei-me e fui à casa de banho.
Escovei os dentes, calcei uns chinelos e fui até a cozinha preparar qualquer coisa p’ra gente comer.
Abri o frigorífico, cortei algumas frutas para uma taça, tirei um café fresquinho e coloquei pão na torradeira p’ra fazer torradas.
Senti uns passos descalços no corredor, ela já devia estar de pé e a minha suspeita se confirmou quando a vi cruzando a ombreira da porta da cozinha esfregando os olhos incomodados pela luz.
- Bom dia, meu amô! – cumprimentei-a com um sorriso ao mesmo tempo que o pão saltou na torradeira

- Bom dia! – disse numa voz preguiçosa ao mesmo tempo que se espreguiçava

- Ui, que preguiçinha, meu amor! – brinquei com ela e ambos nos rimos

Ela chegou junto de mim, colocando-se em bicos de pés o que lhe permitiu dar-me um beijo rápido nos lábios.

- Hum, que cheirinho! – comentou ela, em bicos de pés espreitando por cima do meu ombro enquanto eu colocava as torradas num prato

- É p’ra gente! Espero que esteja morrendo de fome!

- Hum, tenho alguma! – disse rindo-se

Eu agarrei no prato das torradas e num copo de sumo de laranja e ela agarrou no outro e dirigimo-nos ambos à sala.
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- Hum, isto está com óptimo aspecto! – confirmou ela enquanto eu passava doce de morango numa das torradas p’ra lhe dar

- O que vale é que você não é esquisitinha! – brinquei e coloquei-lhe a torrada no seu prato
- Não sou mesmo! Gosto de quase tudo! – deu uma dentada no pão e foi visível o seu contentamento

- Tá bom? – perguntei dando também uma dentada na minha torrada
- Tá óptimo! – confirmou acabando de mastigar colocando a mão à frente da boca num gesto delicado

- Ainda bem que gostou! – disse-lhe feliz por ela ter gostado
- Obrigada amor! – agradeceu-me com um sorriso nos lábios
Ela colocou a sua mão esquerda na minha nuca, e me puxou contra sí. Roubou-me um beijo rápido mas ainda deu tempo p’ra ela fazer uma caricia mais atrevida com a sua língua nos meus lábios.

- Hoje vai ver o jogo? – perguntei-lhe

- Sim, vou… Talvez chegue um bocadinho depois do início do jogo mas tenho de passar no colombo para ir buscar uma encomenda que fiz, amor… - respondeu-me dando um golo no sumo de laranja
- Hum tá bom, mas cê sabe que pode entrar p’ros camarotes e qualquer problema liga p’ra uma das meninas que elas vão buscar você na entrada…
- Não te preocupes que eu já faço parte da mobília daquele estádio! – respondeu-me perspicazmente num sorriso travesso

Eu adorava aquele jeitinho dela, aquele sorriso travesso, que despertava em mim o instinto de menininho. Eu via nela uma mulher mas aqueles pequenos gestos lembravam-me uma menininha pequena e era isso que tinha tanto encanto nela, aquilo que me fazia amá-la mais e mais.

- Ah, e hoje vou passar na esquadra para ir apresentar queixa – informou serena pousando o copo sobre a mesa, o que me apanhou um pouco desprevenido

- Vai, meu amô?

- Sim, vou… - ela foi curta na resposta e eu percebi que ela não se queria alongar muito mais sobre aquele assunto por isso resolvi mudar o tema de conversa

- E agora? Quer fazer o quê? Tou livre até às quatro da tarde! Quer aproveitar p’ra tarmos juntos? – perguntei-lhe entusiasmado

- Hum… - Adriana levantou-se e sentou-se no meu colo passando os braços em torno do meu pescoço – Aproveita para passares esse tempinho com os teus pais… Eles merecem! Estão cá agora e eu vou cá estar sempre por isso aproveita! Vai almoçar com eles! – incentivou ao mesmo tempo que brincava com os meus caracóis

- Hum, cê podia vir com a gente… - disse-lhe num tom de voz preguiçoso deixando a minha cabeça tombar para trás

- Podia não era? – me perguntou e eu afirmei positivamente com a cabeça convicto de que ela iria aceitar – Mas não era a mesma coisa! – finalizou

- Pucha vida, que maldade! Vem lá… Só hoje… - pedinchei num beicinho perfeito

- É! Só hoje o jantar, só hoje o almoço… Agora não faço outra coisa a não ser travar conhecimento com os sogrinhos… - ela brincou

- Hum, mas cê vai p’ra tar comigo! – argumentei tentando convencê-la

- Vá lá David! Aproveita para estares só com os teus pais que eles entretanto vão-se embora e tu só os vais ver nas férias…

- Pronto, cê ganhou mas o jantar ainda tá de pé certo?
- Sim, claro que está! – ela me roubou um beijo apaixonado
- Assim cê me mata! – confessei ofegante

- Desculpa… - ela ficou envergonhada

- Me mata num bom sentido! – corrigi e me ri
- Bem amor, tenho de ir…

- Ué, já? – senti o meu rosto esmorecer de saudade e ela ainda nem tinha indo embora
- Sim… Quero ir resolver aquele assunto, passar por casa, ver se está tudo pronto para as minhas aulas de amanhã, comer qualquer coisa, e seguir para o jogo…
- Hum, já tou morrendo de saudade!

- Hum, já tá morrendo de saudade! – ela imitou o meu sotaque brincando comigo

- Cê fica uma gracinha falando assim!

- Hum, uma gracinha! – ela fez de novo o sorriso travesso que tanto a caracterizava – Agora tem mesmo de ser amor… - ela se levantou do meu colo e agarrou nos pratos em cima da mesa

- Deixa isso, que eu cuido! – ordenei levantando-me também

- Na na ni na não! Tu cozinhaste, eu lavo! – rematou e saiu na direcção da cozinha

Eu segui ela levando os copos de sumo, agora vazios na mão.
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Ela estava no lava loiças, com a água correndo ia passando a loiça por água e detergente.
A figura perfeita dela era embelezada pela minha t-shirt que disfarçava as curvas sinuosas dela. Me aproximei dela e coloquei as minhas mãos em torno dos seus quadris e a minha cabeça sobre o seu ombro.

- Sabe que eu amo você,né? – perguntei sorrindo

- Sei! – respondeu-me encolhendo os ombros e sorrindo

- E sabe que fica uma graçinha lavando a loiça com a minha camisola vestida? – brinquei com ela e ambos nos desfizemos numa gargalhada profunda

- Tu não existes, caracolinhos! – afirmou passando suavemente a mão meio húmida pela minha maçã do rosto

Ela desligou a torneira e secou as mãos num pano que estava em cima da bancada.
- Bem, vou-me vestir… - disse saindo na direcção do quarto mas eu travei o movimento dela puxando-a pelo braço

Encostei o seu corpo a mim e me curvei deixando os nossos rostos colados, provocando-a.

- Amor… - foi a única coisa que ela conseguiu chamar antes de eu a beijar ~

As nossas línguas se envolveram numa dança ritmada, seguindo o compasso terno dos nossos corações que batiam um contra o outro, peito com peito.

- Eu tenho de ir, vá lá! – ela me pediu mas eu voltei a calá-la com outro beijo fugaz

- Cê só vai se esperar eu me vestir e levar você até casa! – impus

- Isso é chantagem! Não é justo! – reclamou sisuda

- Ninguém disse que o amor é justo! – rematei roubando-lhe um outro beijo rápido e puxando-a até o quarto pela mão
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- Cê vai levar essa roupa?

- Vou sim… Não vale a pena estar a levar uma roupa tua se vou para casa…

- Hum, mas pode levar se quiser… - ofereci sincero

- Acho que não vou recusar um casaco por está fresquinho… - disse passando as mãos pelos braços tentando se aquecer

- Tá bom! Vai no armário e escolhe o que você quiser! – deixei ela á vontade enquanto me sentei na beira da cama atando os meus ténis

- Vou levar este! – ela tinha uma sweet da Hurley verde e branca vestida

- Fica linda! – constatei ao mesmo tempo que me levantei da cama e a beijei suavemente nos lábios

- Obrigada! – ela agradeceu com um sorriso nos lábios - Estás pronto?

- Tou sim! É só pegar as chaves do carro e vamo! – confirmei na direcção do hall de entrada – Agora sim podemos ir! – disse agitando a chave no ar

Ela se aproximou de mim, eu passei o meu braço sobre os seus ombros e a gente desceu assim abraçados um ao outro, juntos. Porque essa era a única certeza, independentemente do que acontece-se a gente ia tar sempre assim: junto. E o meu sonho começava a ganhar forma…

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Capítulo 95 - A festa (Parte IX)

Adriana

Entrei no restaurante, o meu coração saltava-me do peito e eu tremia. Não de frio, não de medo, pois o momento de pânico já havia passado mas sim dos nervos.
Da vergonha de ter de enfrentar as pessoas naquela sala.
Sentei-me no primeiro sofá que me apareceu á frente, logo colado à porta, sentei-me nele e deixei a minha cabeça tombar sobre as mãos apoiadas nos joelhos durante breves segundos. A minha respiração acalmou e eu tentei controlar as lágrimas. Levantei-me e ergui a cabeça.
Uma neblina de lágrimas turvava-me a vista, senti-me tonta mas finquei os pés no chão a cada passada que dava na direcção deles.
Senti o olhar de David cravado em mim e o vinco que cruzava a sua testa denotava alguma inquietação.

- Então voltaste? – perguntou imediatamente Ruben muito divertido, mal cheguei ao pé deles

Apenas consegui assentir positivamente com a cabeça. Um nó travava-me a garganta, esforcei algo a sair mas nada. O medo estava-me a sufocar.

- Adriana, estás bem? Estás tão pálida… - disse Bianca num tom visivelmente preocupado

- Estou bem... – finalmente consegui falar – Preciso só que algum de vocês me empreste dinheiro para o táxi, se faz favor – pedi desembaraçada olhando para David e Ruben

- Dinheiro, meu amô? – perguntou David desconfiado

- Mas tu ainda há bocado quando abriste a carteira tinhas uma nota de vinte e outra de cinquenta… - descaiu-se Inês

- Pois mas não tenho mais… - eles olhavam-me esperando uma explicação – Eu tinha mas acabei de ser assaltada ali fora… - a voz falhou-me no fim da frase

Senti os olhos de David arregalarem-se postos em mim.
- Assaltada? Mas quem? Cê tá bem? – David atropelou-me com questões ao mesmo tempo que me agarrava no braço e passou a mão no meu rosto gelado

- Estou bem, David – senti necessidade de o afastar e num gesto brusco obriguei-o a soltar o meu braço – Só preciso de dinheiro para ir para casa… - pedi nervosa
- Nem pense que depois disto cê vai sozinha! – rematou David e eu fuzilei-o com o olhar
- Não penso porque vou mesmo! – contrapus e desta vez foi ele que me censurou com o olhar numa expressão de “Eu bem te avisei!”

- O que é que te levaram? – perguntou Ruben

- Levaram-me o telemóvel, o dinheiro e o cartão de crédito… Preciso de um telemóvel para cancelar o cartão… - Bianca estendeu-me automaticamente o seu e eu sorri-lhe em agradecimento

Tentei concentrar-me mas não me recordava do número do meu gestor de conta, corri até á minha mala, tirei a carteira e encontrei o cartão. David acompanhou-me até junto da mala onde estava a carteira, era visível a sua preocupação e nervosismo. Liguei ao gestor e cancelei o cartão, sem qualquer problema, quando me preparava para colocar o telemóvel no bolso a mão pesada de David interceptou-me o movimento.

- Que é isso? – perguntou horrorizado observando a mancha de sangue que eu tinha na palma da mão esquerda

- Não é nada de especial, relaxa! – pedi-lhe tentando manter-me calma também
A verdade é que no meio daquela confusão eu nem me apercebera que tinha um corte na mão. Mas o toque de David perturbava-me. Eu amava-o mas o toque dele recordava-me aquilo que tinha passado há minutos, e sentia-me tão suja, tão envergonhada que não queria que ninguém me toca-se muito menos David. As lágrimas queriam precipitar-se em meus olhos mas eu controlei-as.

- Não é nada? A gente vai levar você no hospital! – ele nem me deixou responder e saiu furioso em direcção á sua cadeira, vestiu o casaco e agarrou na chaves do carro, eu juntei-me a ele
- Não vou a hospital nenhum! Isto foi só um cortezinho de nada! Um bocado de água, pressão e estou como nova! – eu tentava parecer bem mas eu fazia um esforço imenso por não me desmanchar num choro rompido

- Não diz besteira, vem! – ele insistiu agarrando-me no braço levemente

- Não David! Larga-me! - o toque dele tornou-se insuportável e afastei-o, senti o corte abrir-se mais e senti mais sangue jorrar

- Adriana! – ele ainda chamou por mim seguindo-me
- Deixa-me David! Fica aí! – ordenei sem o olhar

Dirigi-me à casa de banho com as primeiras lágrimas a cortarem-me o rosto.
Liguei a torneira, a pressão da água era forte e corria-me pelo corte. Um fio vermelho misturava-se com a água límpida torvando-a, entrava pelo ralo.
Olhei-me no espelho enquanto a água corria. Tinha os olhos vermelhos e ligeiramente borrados de chorar, passei com a minha mão sã sobre o borrado limpando-o. Senti-a diferente, não via a mesma Adriana, via uma, muito parecida comigo mas muito mais amargurada.
Ouvi a porta da casa de banho abrir-se e não evitei gritar.

- David, baza daqui! – gritei sem ver quem era

- Sou eu, desculpa… Vim só ver como estavas… - perdoou-se Bianca aproximando-se da bancada do lavatório

- Desculpa…

- Isso está mau… - disse ela aproximando-se com a toalha turca e pressionando o golpe que ardeu
- Obrigada mas isto já passa… - fiquei eu a pressionar o golpe e encostei-me numa parede da casa de banho

- Estás bem? – perguntou-me ela
- Sim, estou… - a minha voz falhou-me
- Lembras-te da nossa conversa? Para mim és transparente… Não sei bem como mas és… - disse ela confusa com as próprias palavras

Sorri-lhe e senti-me segura. Duas lágrimas escorreram-me pelo rosto.
- Queres contar mais alguma coisa que se passou? – perguntou-me ela
- Ele tentou… ele tentou… - eu gaguejava – ele tentou violar-me – revelei por fim e rompi num choro
Bianca abraçou-me.
Senti-me reconfortada no seu abraço. Era estranho o facto de a conhecer á duas horas e isso ser o suficiente para me sentir segura.

- Lamento, lamento muito… - disse ela – Tens de contar ao David, precisas de ajuda! De falar! – aconselhou ela e eu quebrei o abraço

- Não! O que é que ele vai ficar a achar de mim? Não sou capaz!

- Claro que és! Ele não vai achar nada! Vai ajudar-te! – assegurou-me num tom de voz firme

- Achas? – perguntei-lhe

- Ele ama-te não? – ela não buscava uma resposta – Então… - abraçámo-nos outra vez mas fomos interrompidas por David

- Posso, gente? – perguntava ele espreitando por uma brecha da porta da casa de banho
- Podes sim - disse Bianca – Eu vou sair… Vocês ficam à vontade… Coragem! – disse esta última frase apenas dirigindo-se a mim e saiu

Quando dei por mim tinha David colado na minha frente pondo-me um penso rápido no corte.

- Não era preciso… - ainda tentei dizer

- Shiu… Não fala nada, minha boba! – pediu-me num sorriso discreto continuando concentrado na sua tarefa

- David, eu preciso de falar contigo… - disse num suspiro e ele olhou-me atentamente – O homem… O assaltante… Ficou chateado com as poucas coisas que tinha e… - comecei a gaguejar – e ele... ele… David, promete-me que ficas calmo! – quis assegurar-me

- Fico calmo? Como assim? Que aconteceu? - perguntava-me cada vez mais confuso

- Ficas calmo ou não? – insisti

- Fico! Agora me conta vai! – exigiu visivelmente nervoso

- Ele tentou violar-me… - disse num único suspiro – Mas ele ouviu barulhos e fugiu antes disso… - rematei

- Ele o quê? – David tinha um tom de voz elevado e estava visivelmente irritado – Eu mato aquele cara! – jurou dando um soco na bancada da casa de banho e eu tremi de medo

- Me desculpa, vai… - pediu abrindo os braços na minha direcção

Ele apercebeu-se que me tinha assustado e tentou abraçar-me mas eu não deixei.

- Que foi?

- Desculpa… Não consigo… - desculpei-me

- Mas eu não sou ele… - ele estava magoado
- Eu sei que não mas isto é tão recente amor… Tira-me só daqui! Por favor! – implorei

Ele virou-me costas e ia abrir a porta quando lhe travei o movimento.

- Ainda me amas certo? – perguntei sem o olhar nos olhos

- O que cê acha? Meu amor por você não muda assim, não! – afirmou ele obrigando-me a olhar nos seus olhos

Beijei-o levemente nos lábios, o máximo de tempo que consegui depois da experiência por que tinha passado.
Ele deu-me a mão e saímos da casa de banho.
- Mãe, Pai, venham eu vou vos deixar em casa e depois vou levar ela… - informou-os dirigindo-se à entrada

- David, não é preciso! – insisti

- Larga de ser cabeça dura! – ele refilou e eu perdi os argumentos.

Saímos do restaurante de mãos dadas, entrámos no carro dele, eu no lugar de pendura, ele a conduzir e os pais atrás. Seguiamos em silencio e eu perdida em pensamentos, não os melhores, os mais recentes.

- Tá pensando em quê? – perguntou ele metendo-se comigo

- Que estraguei o teu dia de anos… Desculpa!

- Ué! Tá boba? Não estragou nada não! Cê não teve culpa! – ele pousou a mão dele sobre a minha que estava na lateral do banco

- Estraguei sim! E além de estragar ainda dou trabalho! – refilei e ele sorriu-me
- A gente depois fala sobre isso! Pai, Mãe, chegámos! – informou estacionando o carro

- Obrigado meu filho! Fiquem com Deus ! – desejou Dona Regina
- Fiquem com Deus! Boa noite! – desejou o Senhor Ladislau

- Sua bênção meus pais! Fiquem com Deus! – despediu-se David e eles saíram do carro
Ele ligou-o novamente e apercebi-me que ele tomava o caminho contrário á minha casa.

- David, a minha casa é naquele sentido… - corrigi-o apontando na direcção correcta
- Eu sei! – disse-me sorrindo

- Ah, sabes e vais para ali? – perguntei

- Sim… Cê vai p’ra minha casa!

- Não, não vou! – disse-lhe segura
- Vai sim! Cê não tá percebendo, eu não tou pedindo tou informando! – fiquei novamente sem argumentos e remeti-me ao silêncio
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Eu tinha uma t-shirt do David vestida e estava a abrir a cama enquanto ele se despia.

- Desculpa mais uma vez ter estragado este dia… - perdoei-me ao mesmo tempo que colocava a almofada na cabeceira da cama

- Já falei p’ra você que não estragou nada! - ele vestiu a t-shirt do pijama
- Estraguei sim! Já viste como acabaste a tua noite de anos? – perguntei desanimada

- Vi sim! Do lado da mulher que amo! – confirmou sorrindo e juntando-se a mim a abrir a cama
- Oh… Só tu! – deitei-me e senti o corpo quente dele deitar-se do meu lado.

Ficámos frente a frente, sem dizer nada. Eu olhava-o nos olhos e ele a mim. Não sei o que leu nos meus olhos mas depois de tanto silêncio ele quebrou-o.

- Não pensa mais nisso não, gatinha… - pediu-me enquanto desviava a franja do meu rosto

- Contigo aqui é impossível… - disse-lhe

Vi-o erguer a mão para colocar na minha cintura mas ele coibiu-se de o fazer.
- Podes tocar-me… - informei-o – Já estou mais calma!

- Me deixa tocar você? – perguntou-me sorrindo discretamente
- Deixo sim… Tu não és ele… - afirmei

Ele pousou a sua mão na minha cintura e puxou-me contra o seu peito onde me aninhei.
- Desculpa se te magoei com aquela atitude…

- Não se preocupa não! Eu compreendi aquilo não deve ter sido fácil e eu devia ter tado do seu lado p’ra te defender! – disse revoltado

- Mas não estavas e nem adianta ficares a pensar nisso! – proibi-o pois não queria que se sentisse culpado de uma coisa que não dependia dele

- Não tava porque você não quis, foi teimosa. Mas já foi! Vamo esquecer isso! Você é a minha minininha e agora está aqui nos meus braços e eu posso proteger você! – apertou-me contra o seu peito

- Sabes, David? Apesar de tudo hoje foi um dos dias mais felizes da minha vida! – confessei contendo as lágrimas

- Porquê? – perguntou espantado
- Porque a tua atitude, o quereres apresentar-me aos teus pais, tudo… Percebi o quanto te amas… - aconcheguei-me no peito dele

Adormeci assim com ele fazendo-me um cafuné nos cabelos, a noite era longa mas o dia seguinte adivinhava ser muito mais.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Capítulo 95 - A festa (Parte VIII )

Adriana

Ele soprou as velas, fechou os olhos e sorriu-me.
Eu sabia que segundo a tradição ele tinha pedido um desejo, fiquei curiosa para saber qual mas esse era um dos meus muitos defeitos, a curiosidade.
Ele ergue-se novamente e sorriu. Enquanto ele cortava o bolo juntei-me às raparigas que se tinham juntado num canto e conversavam alegremente um pouco alheias ao corte do bolo.
- Então, posso juntar-me a vocês? – perguntei num tom recatado ~

- Claro! Achas que é preciso perguntar, Srª. Marinho? – respondeu Andreia perspicazmente
-Olha aí as piadas! – repreendia-a

- Sim, olha aí as piadas que os sogrões estão por perto! - brincou Inês e nenhuma das presentes conteve as gargalhadas inclusive eu

- Só tu Inês! Só tu! – controlámos finalmente os risos e eu dei com duas caras novas no grupo que me tinham despertado a atenção – Quem são elas? – perguntei num tom mais baixo a Andreia e Romanella

- La morena con el pelo más corto e gafas es Paula, la novia de Roberto y la morena de pelo largo es Bianca, la novia de Salvio. Ellas son portuguesas y es la primera vez que vienen a un evento de grupo! – respondeu-me Romanella

- Bianca, esta é a Adriana, a namorada do David. Adriana esta é a Bianca a namorada do Salvio e esta a Paula, a namorada do Roberto – Inês procedeu à apresentação

- Prazer! – Cumprimentei-as com dois beijinhos, elas pareciam-me muito simpáticas e simples, mesmo como eu gostava

- Tu e o David fazem um casal muito bonito! – constatou Bianca

- Oh, obrigada! – agradeci – És portuguesa… Mas será que ninguém resiste aos encantos dos meninos do Benfica? – soltámos estridentes gargalhadas

- Sim sou… Conheci o Salvio aqui em Lisboa, e olha agora estamos juntos… - contou-me sorrindo, ela parecia mesmo feliz

- Oh, o Salvio enganou bem, ali sozinho, a pensarmos que não partia um prato afinal parte logo a loiça toda! – Rimo-nos – Então e tu e o Roberto? – perguntei à Paula

- Conheçemo-nos em trabalho… E olha o que é que posso dizer? Aquele sotaque dele matou-me, cariño! – todas nos rimos mas fomos interrompidas pela chegada de Roberto
- Cariño, no quieres torta? – perguntou Roberto a Paula estendendo-lhe o prato com uma grande fatia de bolo

- Obrigada amor, quero sim! – ela agradeceu-lhe com um beijo nos lábios e ele afastou-se
Eu senti um aperto estranho no peito quando olhei para David, não sou de acreditar em premonições, mas acredito no sexto sentido e o meu estava a querer dizer-me algo.
Ele continuava feliz a distribuir fatias de bolo, ergueu um prato na minha direcção e eu neguei com a cabeça e soltei um “obrigado” tímido com os lábios, ele limitou-se a sorrir e dar a fatia a Ruben, que pelo revirar de olhos de David já devia ir na segunda ou terceira, eu ri-me divertida.

- Tu gostas mesmo dele não é? – perguntou-me Bianca aproximando-se mais de mim

- Sou assim tão transparente? – perguntei-lhe

- Não, eu é que sou boa a decifrar as pessoas…

- Hum, costumo ser difícil de decifrar, tens então um privilégio que apenas os que me conhecem muito bem têm… - disse-lhe

- Deve ser algum dom então… E abençoado dom! É lindo ver um amor como o vosso… - disse ela com um sorriso no rosto e eu não pude evitar sorrir-lhe também

- Nem tudo também é o que parece, não somos perfeitos mas amamo-nos e lutamos para fazer tudo resultar! – confessei voltando a por os olhos em David

- E o amor não é isso mesmo? Uma luta a dois? – ela fez uma pergunta retórica há qual tão bem eu como ela sabíamos a resposta, ambas sorrimos

David estava sozinho sentando junto a uma mesa a comer uma fatia de bolo. Não parecia estar sozinho por alguém se esquecer dele, coisa que eu achava difícil, mas sim por escolha própria.

- Eu vou ter com ele se me dás licença! – pedi educadamente

- Claro, vai lá! – incentivou-me ela e recuou juntando-se às restantes meninas

Aproximei-me de David numa passada larga, ele não ouviu as minhas pisadas, meteu uma garfada de bolo na boca e pousou o prato na mesa em sua frente.
Atirei-me no colo dele, no longo espaço que havia entre ele e a mesa. Senti instintivamente as mãos dele pousarem nos meus quadris e uma deslizar para a coxa da perna esquerda, pude ler o desejo nos seus gestos delicados.
Coloquei o meu braço direito em torno do seu pescoço e a minha mão esquerda deslizou pelo seu peito e passei as pernas sobre as dele, ficando de lado contra o seu corpo e aninhei-me. Ele mastigava a última garfada que tinha posto na boca mas ainda assim não evitei e roubei-lhe um beijo leve e rápido nos lábios, ele sorriu.
- Sozinho porquê? – perguntei-lhe formando a minha linha de preocupação na testa
- Porque tou querendo ficar com você, só você! Aproveitar p’ra namorar! – declarou passando com o seu indicador pelo vinco que tão bem se notava entre as minhas sobrancelhas e vincava a testa, esta desfez-se com o seu toque

- Hum, tu andas com uns pensamentos, meu caracolinhos! – brinquei com os seus caracóis e afastei-os do seu rosto

O rosto dele era perfeito, cada traço, cada curva, cada tom, cada pequeno sinal nas suas bochechas.
- Me passa o bolo, amô? – pediu-me ele

Eu virei-me na direcção da mesa, tive de me inclinar bastante para alcançar o prato, mas senti as mãos dele agarrarem-me contra sim assegurando-me de que não iria cair, senti-me segura. Alcancei o prato, pousei-o no meu colo e com a minha mão esquerda roubei uma garfada.

- Hey, pedi o bolo p’ra mim! – resmungou

- Hum, egoísta… - acusei-o em tom de falso amuo

- Egoísta não! O que é que a faz pensar que pode comer do meu bolo assim?

- Olha, sou tua namorada! – gesticulei com o garfo no ar

- Ainda bem, né? Minha namorada! – confirmou com um sorriso a rasgar-lhe os lábios e um brilho a inundar-lhe os olhos

- Tua! Só tua! – acrescentei e ele roubou-me um beijo mais demorado

Quebrámos o beijo e eu dei-lhe uma garfada de bolo à boca.

- Cê tava morrendo de medo dos meus pais, não tava não gata? – perguntou-me divertido acabando de mastigar

- Não, não estava! – afirmei sisuda comendo outro bocado de bolo

- Tava sim! Te conheço! – acusou rindo-se

- Ok, estava mas não era para menos… Afinal são os teus pais e o que eles pensam é importante não? E se eles não gostaram de mim? – perguntei insegura

- Como não gostar de você? Impossível! Mais p’ra mais tecnicamente eles não conheceram você, viram você é diferente! – corrigiu-me

- Oh, sim mas a primeira impressão conta muito!

- Ah então a sua deve ser péssima! Chegou atrasada um montão de tempo! – brincou

- Achas? – perguntei-lhe preocupada ao mesmo tempo que pousei o prato já vazio novamente na mesinha

- Pô, acho né? Meia hora de atraso é muito meu amor! – ele falava num ar muito sério e a minha expressão de nervosismo intensificou-se, ele soltou uma gargalhada estridente e depressa a confusão invadiu o meu rosto e pensamento – Tou de sacanagem com você meu amor! Eles ficaram muito bem impressionados, não se preocupa não!

- Parvo! – dei-lhe uma chapada no ombro e tentei levantar-me do seu colo mas ele não me deixou, fingi-me amuada

- Não fica assim não! – pediu-me passando a mão no meu queixo

- Isto é importante para mim! Vais ver quando for contigo! Vou gozar tanto quando fores conhecer os meus pais mesmo como meu namorado! – refilei

- Você e esse seu mau feitio! – brincou

- Mau feitio mas gostas! – cruzei os braços á frente do peito

- Cê é muito refilona mas te amo assim, tá?

- Hum, hum! – não me mostrei muito convencida e prendi o olhar na saída do restaurante

- Te amo tá? – ele forçou-me a olhar nos seus olhos e eu pude ver sinceridade por isso deixei-me guiar pelo coração e pelo primeira vez naquela noite, não pela razão

- Amanhã os teus pais e tu estão livres para jantar? – perguntei-lhe

- Tamo sim porquê? – perguntou visivelmente confuso
- Arranjas um espaço para apresentares esta namorada parva para eles? – pedi com um sorriso expectante pela sua reacção

- Oba!! – David deixou-se levar pelo entusiasmo e quando dei por nós ele tinha-se levantado repentinamente e gritava elevando os braços no ar, as pessoas olhavam-no

Ele percebeu que se tinha deixado levar pelas emoções e voltou-se a sentar, e eu no colo dele na mesma posição

- És mesmo maluquinho! – acusei-o passando a mão no seu rosto macio

- Tá falando sério? – perguntou-me ainda meio incrédulo

- Mas eu brinco por acaso?

- Cê não sabe o quanto tá me fazendo feliz, meu amô! – ele sorria-me como eu tanto gostava
- Sei, acredita que sim! – pousei a mão no peito dele e senti o seu coração em batimentos acelerados e atabalhoados e limitei-me a deixar os meus lábios expressarem o que me ia no coração.

Os lábios quentes dele afagavam os meus e as nossas línguas exploravam caminhos na boca um do outro. Quebrei o beijo e deixei os meus lábios seguirem para a sua bochecha esquerda e depois para o seu pescoço, aninhei-me mais contra o corpo dele.

- Diz-me que me amas… Sabe tão bem ouvir! – pedi envergonhada com a minha cabeça contra o seu peito

- Sabe? –olhou-me nos olhos e perguntou-me orgulhoso, eu assenti positivamente com a cabeça – Te amo! – jurou-me por entre beijos repenicados e repetidos ternamente nos meus lábios

- Hum… é verdade! Pedis-te um desejo? – perguntei curiosa

- Pedi sim!

- E qual foi? – insisti

- Não digo não! Não posso correr o risco de não se realizar!
- Oh, vá lá!

- Não não! Quero você sempre do meu lado! – ele descaiu-se sem dar conta

- Hum, pediste-me sempre do seu lado? – ele ficou encavacado – Não precisas de desejar isso, eu nunca vou sair do teu lado por isso… - ele beijou-me sem me deixar acabar a frase
- Ai David, assim não me dá vontade de ir embora…

- Então não vá! É simples!

- Oh tenho de ir… E tu também! Amanhã tens jogo!

- Você vai me ver?
-Vou sim, claro! – sorri

- Ainda bem, me deixa mais calmo saber que cê vai lá tar! Vou te ligar antes do jogo tá bom?

- Sim, podes ligar antes do jogo, depois, as vezes que quiseres, meu pequenino!

- Meu pequenino? Olha ela! Fala a meia leca! – ambos nos rimos

- Olha tenho de ir amor…

- Hum, não vai não! – pediu apertando-me mais contra o seu corpo
- Tem de ser… Vá lá! – pedi com pouca vontade de o deixar

- Hum, então deixa eu te levar em casa

- Nada disso! – levantei-me imediatamente do seu colo – Tu ficas meu menino! Eu vou! De táxi! Sem qualquer discussão – ele tentou falar mas eu interrompi – Mas nada! Sem discussão
- Hum… Durinha você! – reclamou e roubou-me um beijo – Te vejo amanhã no jogo então… Vou marcar com os meus pais o jantar então…

- Sim, depois falamos… Amo-te! – roubei-lhe um último beijo

Dirigi-me a todos despedindo-me com dois beijinhos. Troquei números de telefone com a Paula e a Bianca e o David acompanhou-me até á entrada.

- Amanhã então no jogo! – confirmou mais uma vez

- Sim, amor! Dá-me um beijo agora! – pedi

Ele deixou os seus lábios tocarem os meus ferozmente, tremi, ele nunca me tinha beijado assim, com tanta paixão, tanto desejo. Passei ligeiramente com a minha língua no seu lábio inferior. Quebrámos o beijo.

- Isso é que era saudade hã!

- Não zoa não! Mas qualquer minuto sem você fica impossível! Te amo! – desculpou-se e sorriu-me uma última vez

Roubei-lhe um beijo rápido nos lábios que ele prolongou em mais três, puxando-me contra ele pela cintura. Era quase como que um amor proibido, e aquela sensação de proibição fazia a adrenalina correr-nos nas veias a mil.
Sorrimos um ao outro, e saí em direcção á praça de táxis mais próxima.
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Não devia estar a mais de dez metros da porta do restaurante quando um individuo que subia a rua na minha direcção me agarrou abruptamente pelo braço ao passar por mim.
Foi tudo tão rápido que nem sei o que relembrar ao certo. Quando dei por mim tinha um homem nas minhas costas e uma faca encostada à minha garganta.

- Por favor não me faça mal! – foi tudo o que consegui dizer

- Dá-me o dinheiro! O telemóvel! – pediu-me quase que gritando e eu estremeci de medo

Tentava manter-me calma mas nas circunstâncias até nem me estava a sair muito mal. Pensei em gritar mas ninguém me iria ouvir.
Enterrei a minha mão na mala procurando a carteira e o telemóvel ao mesmo tempo que sentia a respiração ofegante daquele homem de mãos rudes na minha nuca.
Passei-lhe o telemóvel e a carteira, ele usou a mão livre e tirou a nota de cinquenta euros e a de vinte euros que tinha na carteira e o cartão de crédito enfiando-os no bolso, atirou a carteira para o chão, e colocou também o telemóvel no bolso. Senti a mão dele sufocar-me e projectar-me, agarrando-me pela garganta, contra a parede do prédio.

- Só tens isto? – perguntou-me irritado

Senti-me gelar, as lágrimas formavam-se nos meus olhos e escorreram-me pela cara, eu entrei em desespero.

- Só… - respondi com o choro estrangulando-me a voz

- Só isto? – ele bateu furioso com a mão na parede – Eu devia era dar-te uma lição… - ameaçou passando com a faca mais fortemente na minha garganta, eu fechei os olhos rezando para que ele não me fizesse nada – Mas és uma menina tão bonita, há coisas tão mais interessantes para se fazer… - senti os lábios dele aproximarem-se do meu pescoço, beijarem-no, senti-me enojada

Quanto mais o tentava afastar mais ele se projectava contra mim, sentia a excitação dele na avidez com que os seus lábios beijavam a carne do meu pescoço. Sentia-me a pior pessoa do mundo e tão impotente a ponto de não conseguir mudar essa condição.
Senti as mãos dele descerem dos meus quadris até às minhas coxas e depois até aos meus glúteos, eu tentava resistir mas não conseguia, ele tinha mais força do que eu, senti-o arrepanhar as minhas nádegas a apertá-las puxando-me contra sí. Senti o sexo duro dele contra mim, eu percebi finalmente o que se estava a passar. Foi o pior desespero que alguma vez senti na minha vida, queria gritar mas tinha medo das consequências. Ele puxou-me contra ele e senti-o duro contra o meu corpo, senti-me enojada. Gritei.

- Não! Isso não! – gritei a plenos pulmões chorando
Ele travou-me o grito, tapando-me a boca violentamente fazendo-me bater com a cabeça na parede. Doeu mas nada doía mais do que a maneira como eu me estava a sentir por dentro.
Alguém a passar na rua o fez afastar-se de mim, e ele desapareceu assim na penumbra da noite, tão rapidamente como tinha aparecido.
O medo de ele voltar foi tanto que apanhei a carteira do chão enfiei-a na mala e andei em passo apressado na direcção do restaurante sem conseguir controlar as lágrimas que teimosamente me escorriam pelo rosto
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David

Estávamos sentados tomando café quando ouvimos gritos vindos da rua que fizeram todo mundo parar.
“Não! Isso não!” ouvimos uma voz feminina gritar aflita
- Que é isso, manz? – perguntei preocupado

- Sei lá! Alguma brincadeira de miúdos com certeza! – descansou-me Ruben

- Sim, deve ser coisa de criança, meu filho! Sossega! – minha mãe me descançou
- Então e o jogo de amanhã? É p’ra arrebentar! – Fábio retomou a conversa
- Claro! Tem dúvida? – perguntou Luisão rindo

Uns passos atabalhoados irromperam pelo espaço dentro. Era ela, vinha ofegante e chorando descontroladamente. Ela estava pálida e como que ignorando todo o mundo se sentou num sofá da entrada se acalmando. As lágrimas cessaram em segundos mas a palidez continuava no seu rosto.
Ela se levantou e caminhou na nossa direcção, e sem saber muito bem porquê meu coração ficou apertado.

domingo, 21 de novembro de 2010

Capítulo 95 - A festa (Parte VII - David)

Capítulo dedicado à Bruna Migueis que amanhã celebra o seu aniversário e é uma fã da fanfic e uma benfiquista a 100%! Muitos Parabéns! :D


Eu abracei ela e a elevei ligeiramente no ar, senti ela desviar o olhar na direcção dos meus pais e por consequência os batimentos do seu coração falharam, apertei-a mais contra mim tentando fazê-la entender que fosse qual fosse a opinião deles sobre ela eu iria estar sempre ali para ela.
Pousei-a no chão.

- Vamo dançar? – perguntei-lhe

-Oh David… - disse num tom de voz molengão

- David nada! Vamo e ponto! – puxei-a pela mão até ao centro da pista de dança onde alguns casais e amigos dançavam

Ela colocou o braço esquerdo em redor do meu pescoço e eu coloquei a minha mão direita na sua cintura. Unimos as nossas mãos livres e colámos os corpos ficando ambos os rostos a centímetros de distância. O pessoal tava tocando uma música que a gente já havia ouvido no pagode da casa do Luisão pouco depois da gente se conhecer.

“Promessas- Sorriso Maroto” http://www.youtube.com/watch?v=dh0jydczxWc
Foi inevitável, ambos recordámos essa festa e sorrimos com as lembranças daquele dia, as melhores e as piores mas ambas nos tinham trazido até ali. Encostei mais o meu corpo ao dela, e juntei o meu perfil com o dela, testa com testa, nariz com nariz, e a gente se olhava assim, loucamente.
- Eu já te conheço é fácil de notar, fica transparente ver no seu olhar, o que está passando na sua cabeça… - vi os lábios dela formarem a primeira frase da música ao mesmo tempo que dançávamos, ela sorriu-me envergonhada

- Se eu não! Estivesse com você, estaria sem ninguém e faço promessas p’ra te provar…Te provar! - cantei baixinho também o inicio do refrão e ela me sorriu com um enorme brilho nos olhos
- Prometo ser fiel a você, te amar com o fogo da paixão, não quero mais ninguém, pode crer e deixo tudo em suas mãos – cantámos ambos sem afastar os nossos rostos um do outro

- Avise a quem queira saber que este amor é p’ra durar p’ra sempre! – finalizei eu fazendo-a rodar

- Amo-te! – confessou ela quando voltou a juntar os nossos corpos

A música acabou e eu e ela voltámos a nos aproximar do balcão. Eu me encostei nele e ela ficou na minha frente, virada de costas p’ra mim deixando o seu corpo se encostar no meu. As minhas mãos circundando a sua cintura pousaram na sua barriga e as mãos dela sobre as minhas entrelaçando os nossos dedos.

- Obrigada por estar aqui! – agradeci-lhe

- Não me agradeças! Era a minha obrigação! – respondeu-me na sua voz doce de sempre

- Não, na verdade é muito mais que a sua obrigação que na verdade não é nenhuma! – confessei sincero

- Como não é nenhuma? Claro que é! – disse-me segura – Sou tua namorada! Tinha de estar aqui!

- Obrigado! – só lhe consegui agradecer

Deixei o meu rosto se enterrar na nuca dela, percorri toda a sua espinha com beijos e senti toda ela se arrepiar. Fui subindo pelo pescoço, até passar pelos cabelos e chegar no topo da sua cabeça.
- Te amo, gata! – disse-lhe sorrindo

Ela não me respondeu e senti a mão dela apertar a minha com mais força.

- Promete que nunca me vai deixar, minha perdição? – pedi-lhe sorrindo

O corpo dela retraiu-se e senti o seu peito soluçar. Espreitei por cima do seu ombro tentando alcançar o seu rosto e vi os olhos dela rasos de lágrimas. Virei-a para mim e pude confirmar que ela se controlava por não chorar as lágrimas que tinha em seus olhos húmidos.

- Prometo! Prometo que nunca te deixo, meu meninão! – disse-me ela encarando-me olhos nos olhos

- Tá chorando porquê? – perguntei-lhe enxugando com o meu polegar uma lágrima teimosa que lhe correu pelo rosto

- Porque nunca ninguém me fez sentir assim... Porque te amo… - disse-me ela já com o choro controlado

- Obrigado! – agradeci
- Estás a agradecer-me por te amar? – perguntou-me ela arregalando os seus grandes olhos que tanto me encantam

- Tou sim, meu anjo! – respondi-lhe

- Não me agradeças por te amar, por te fazer feliz ao ser feliz! – ela me sorriu e enterrou a sua cabeça no meu pescoço

- Te amo! Te amo! – sussurrei no ouvido dela ao mesmo tempo que me curvava enfiando a minha cabeça no meio dos seus cabelos, e aquele cheiro tão familiar, aquele aroma tão doce, e que eu já conhecia tão bem como sendo da minha namorada, aquela que eu amo, me trouxe memórias, memórias tão boas de tudo aquilo que a gente já tinha vivido

- Eu nunca me vou fartar de ti! – disse-me ela abafando umas quantas gargalhadas discretas no meu pescoço

- Vai sim! Vai ver só! – respondi-lhe tentando alcançar a vista do seu rosto

- Não vou não! Tu és aquilo que quero… Não me posso fartar! – sorriu-me e tocou com o seu nariz levemente no meu

- Você é que é perfeita! – fui sincero

- Perfeita eu? Nada disso! Tenho um montão de defeitos! Chata, melga, implicativa, maluca, insegura, manienta… - enumerava com as mãos apoiadas no meu peito

- Linda, maravilhosa, simpática, única, sorridente… - interrompia-a sorrindo

- Uma tonta, paranóica, ciumenta… - continuo enumerando e eu voltei a interrompê-la

- Ciumenta? – perguntei intrigado

- Sim, não devo?

- Não, cê sabe que só tenho olhos p’ra você! – confessei e vi um brilho gigante no olhar dela

- Mas eu em ti confio, não confio é nelas! Pensas que eu não vejo que elas olham?

- Ah, deixa de bobagem!

- Bobagem nada! Com um namorado como tu tenho de ter muito cuidado! Um olho no burro e outro no cigano! – informou gesticulando com a cabeça de um lado para o outro

- Só você, meu amô! Até parece, elas tão nem aí!

- Nem aí uma ova! Elas ficam todas malucas quando te vêm passar, quando te vêm jogar, e quando vêm os teus caracóis a saltitarem, por isso quando se tem um namorado gato como tu tem de se ter muita atenção! – ambos soltámos algumas gargalhadas
- Cê com ciúmes fica uma delícia! – soltei um sorriso descarado e ela passou-me com os seus dedos no meu nariz – Boba! – demos um beijo leve nos lábios

- Vamos ali para ao pé do pessoal, temos de cantar os parabéns que daqui a nada o pessoal começa a ir embora amor… - ela puxou-me por uma mão até junto da mesa onde me deixou a falar com a galera enquanto saiu p’ra ir buscar algo

- Vocês ficam lindos juntos! – me confidenciou Andreia

- Obrigado! – foi a única coisa que consegui dizer porque vi Adriana chegar com um bolo de chocolate na mão, com duas velas acesas
- Parabéns a você, nesta data querida… - ela iniciou os parabéns e todos a seguiram

Ela se aproximou de mim com o bolo na mão, o pousou na mesa que estava na nossa frente e continuava cantando e batendo palmas mas me olhava nos olhos. Não consegui resistir e deixei o meu olhar preso nela até chegar a altura de soprar as velas. Fechei os olhos, deitei uma pequena lufada de ar pelos meus lábios apagando as velas que ardiam a minha mente viajou até os momentos que vivi com ela e pedi um desejo, mas esse eu guardo só p’ra mim, não posso correr o risco de não se realizar.

sábado, 20 de novembro de 2010

Capítulo 95 - A festa (Parte VI - Dona Regina)

Depois de tanta coisa que o meu filho e a moça fizeram p’ra manter a relação no anonimato, a pequena Sofia arruinou tudo mas eu tenho de admitir que teve a sua graça.
Se meu filho não tivesse tão preocupado e a moça tão atrapalhada eu tinha me arrebentado de tanto riso, porque a pequena Sofia foi simplesmente espontânea, disse a verdade que eles tanto teimavam esconder, em vão.

- E aí puto qual é a sensação de estares um ano mais velho? – perguntou Ruben divertido ao meu filho

- A sensação é a mesma do que ter um a menos… Sou eu, o David de sempre mas com um aninho a mais! – respondeu descontraidamente

Mas pude reparar que o olhar preocupado do meu filho oscilava entre as pessoas presentes na conversa e entre a sua namorada, Adriana, que estava encostada ao balcão aguardando uma bebida. Ela batia com as unhas no balcão de granito preto e o seu olhar corria a sala.
Ela era de facto muito bonita, tinha uns olhos grandes e castanhos, umas pestanas igualmente compridas e volumosas, um cabelo que lhe passava pelos ombros encaracolado, tal como o do meu David.
Ela parecia uma moça simples e pelo que o meu filho me tinha contado tudo o que ela tinha até agora tinha sido fruto do trabalho esforçado dela.
O meu David não tirava os olhos dela e percebi que a sua vontade era juntar-se a ela.
- Vai ter com ela, meu filho! Ela tá ali sozinha, vai! - sugeri sorrindo-lhe

- Não tem problema, mamãe? – perguntou-me

- Sem problema, meu amor. Vai lá, vai! – ordenei sorrindo-lhe docemente e ele agradeceu-me sorrindo também

Ele afastou-se, eles conversavam. Era notória a cumplicidade entre ambos, eu podia ver que o meu filho estava realmente apaixonado por aquela rapariga.
Ele tentou aproximar-se e ela travou-lhe o movimento.
Trocaram mais dos dedos de conversa e beijaram-se.
Ambos sorriram e como coração de mãe, não pude evitar sorrir também ao ver que o meu filho estava feliz, que era amado por alguém.
Ele abraçou-a elevando-a levemente do chão, o que não era difícil uma vez que ela era muito pequinininha comparada com ele mas de certa forma isso acabava dando um ar ternurento de extrema protecção por parte dele a ela.
Ela olhou para mim e eu sorri-lhe, não pude evitar.
Eu tava louca p’ra conhecer finalmente a moça que deixava o meu filho assim tão feliz.
A voz de meu marido interrompeu os meus pensamentos, e eu tava prestando tanta atenção em David e Adriana que havia esquecido de quem tava ali comigo, e entretanto Ruben, Inês e Gustavo não estavam mais.

- Ué? Cadê eles? – procurei esclarecer-me

- Eles foram beber qualquer coisa – esclareceu Ladislau

- Tá bom! – foi a única coisa que eu disse

- Tá olhando p’ra onde? – perguntou-me ele

- P’ros meninos ali… - indiquei David e ela

- E o que cê acha? – perguntou-me ele visivelmente curioso com a minha opinião
- Eu acho ela muito bonita… - afirmei não me querendo alongar muito

- Eu também , acho ela muito simples, muito doce e discreta. O que eu queria mesmo ver do lado do nosso filho – disse-me o meu marido

- Sim, ela me parece uma moça muito correcta e calma… O David contou p’ra mim que ela já foi aceite numa escola nos estados unidos e tudo com o esforço dela! Me disse também que é uma menina trabalhadora e que apesar de estudar já vive sozinha e ganha o seu próprio dinheiro! – disse-lhe contente por todos os factos que acabara de constactar

- O nosso filho tá tão feliz… Olha só! – meu marido se aproximou mais de mim e estávamos abraçados a ver o nosso filho dançar com Adriana na pista de dança

- Está feliz sim! Agora só espero que a gente possa brevemente partilhar dessa felicidade com ele… - confessei meio que desiludida por ele não apresentar ela p’ra gente

- Com eles… - corrigiu-me Ladislau

- Sim! Com eles! – rematei sorrindo

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Capítulo 95 - A festa (Parte V - Adriana)

Aquele momento constrangedor durante o jantar tinha-me deixado sem jeito. Eu percebi que a pequena Sofia não tinha feito de propósito mas eu não pude deixar de me sentir um pouco aborrecida com a situação apesar de toda a felicidade que senti com o pedido de Sofia, era um privilégio saber que ela gostava de mim até aquele ponto e que o Luisão e Brenda confiavam em mim para desempenhar aquele papel.
Mas aquilo não apagava aquilo que aconteceu.
Acho que os pais dele já tinham percebido claramente que eu era a namorada dele.
Estavam todos os convidados lançados na pista de dança e David estava à conversa com a Inês, Ruben, os seus pais e o Gustavo. Ele estava lado a lado com os pais e ia-me lançando alguns olhares que eu teimei em não corresponder.

- Quero um Malibu-cola por favor! – pedi ao barman e encostei-me ao balcão

Ele demorou alguns segundos a misturar a bebida e eu aproveitei para observar a sala. Alguns casais dançavam, outros conversavam, a pequena Sofia brincava com umas bonecas na companhia da Andreia, que como sempre estava carinhosa, eu desconfiava que ela iria dar uma excelente mãe. Sorri ao ver o quão ternurenta ela era com Sofia.
Os meus pensamentos foram interrompidos pelo barman que pousou a bebida à minha frente.

- Aqui tem! – disse-me sorrindo educadamente

- Obrigada – agradeci forçando um sorriso

Dei um gole na palhinha e senti uma mão quente pousar-me nas costas. Pelo tamanho e pelo toque pude adivinhar que era David.

- Não fica grilada com aquilo não! Os meus pais vão fingir que não ouviram nada… Relaxa! – ouvi a voz dele muito próxima do meu ouvido e virei-me para ele apoiando o cotovelo no balcão

- Mas foi chato… Constragedor… - revelei-lhe aborrecida tentando manter o meu rosto o mais afastado possível dele

- Não fica assim não! Vem cá! – ele puxou-me para perto dele

- David, olha aí… - adverti-o tentando manter-me longe mas não consegui

A sua mão quente desceu desde o topo das minhas costas até ao fundo das mesmas, conseguia sentir a respiração dele nas maças do meu rosto, sorri-lhe. O toque dele acalmava-me sempre.

- Deixa eu viver esse momento com você… Esquece os meus pais. Eles mesmo que vejam a gente juntos não vão falar nada! Deixa eu beijar você! Por favor! – pediu-me ele aproximando o seu rosto do meu fazendo uma caricia leve com o seu nariz na mina bochecha

- Tu és muito mimado! – acusei-o rindo-me, passei-lhe a mão pelo rosto, deixei-a subir até aos seus cabelos desembaraçando alguns caracóis e ele riu-se num trejeito traquina

- Você que me acostumou mal! Culpa sua! – ripostou e eu perdi todos e quaisquer argumentos

- Tens razão! Culpada! Mas não me importo de te mimar assim… Mereces! – passei-lhe a mão pelo rosto e com as pontas dos meus dedos contornei-lhe os lábios

- Desse jeito você acaba comigo! É a minha perdição! – desabafou rindo

- Hum… É uma boa pessoa por quem te perderes! – brinquei e ambos nos rimos, o silêncio instalou-se e fixámos o olhar um no outro

- Só um beijo vai… - implorou num olhar doce e eu abanei a cabeça levemente negando-lho – Por favor… Unzinho… - ele insistiu

Eu cedi, não havia como não ceder àquela carinha de anjo, de olhos arregalados que me imploravam por um carinho que fosse. Eu amava-o e ele tinha razão, eu tinha de permitir a ambos viver aquele momento, lado a lado.

- Tás à espera de quê? – perguntei sorrindo-lhe levemente e ele acompanhou-me

Eu sabia que David era suficientemente grande para me cobrir, e que assim os pais dele pouco veriam do beijo o que me tranquilizava muito mais. Ele estava de costas para eles e tapava a nossa troca de carícias por completo. Suspirei de alívio contra os lábios dele.

- Te amo por demais, minha perdição! – sussurrou contra os meus lábios

Os lábios quentes dele tocaram a minha boca nervosa. Mas bastou-me isso.
Isso, e só isso para os meus lábios, que estavam tensos numa linha perfeita, se desfazerem num sorriso na calmaria dos seus lábios.
As nossas bocas estavam esborrachadas uma contra a outra.
A língua dele passou atrevidamente no meu lábio inferior e eu senti-me corar de vergonha com medo que os pais dele vissem. Ele quebrou o beijo e sorriu perante o meu nervosismo.

- És muito louco, tu! – afirmei ciente do que ele acabara de fazer e afastei-me do balcão virando-me de frente para David, de lado para o sitio onde os pais dele estavam e ele seguiu-me o gesto

- Louco, sim! Por você! – confessou sorrindo

Senti os braços de David enlaçarem a minha cintura, tentei retrair-me mas não deu.
O toque de David já era demasiado natural. ~
Apercebi-me de uma coisa, eu não tinha de me apresentar aos pais do David como namorada dele mas também não tinha de me coibir de trocar caricias com ele, até porque aquilo se estava a tornar uma tortura muito pouco suportável.
Senti os meus pés deixarem o chão, quase sempre que ele me abraçava era necessário fazê-lo devido á nossa diferença acentuada de alturas.
Senti os lábios macios dele contra o meu pescoço, estremeci e ele abafou uma gargalhada no meu pescoço.

- Safado! – acusei-o ao ouvido

- Apaixonado, é o que é! – foi a única resposta que me deu e foi a única que precisei de ouvir

Sorriamos um para o outro, e eu cometi o enorme erro de olhar na direcção dos pais dele, eles olhavam-nos. Eu senti-me congelar, talvez aquela não tivesse sido a melhor decisão. Acho que o David se apercebeu das minhas inseguranças e por isso me apertou mais contra o peito dele.
O meu corpo gelou, os meus ombros contraíram-se e os meus lábios cerraram-se. Tinha entrado num estado de nervosismo tal tentando imaginar o que passava pela cabeça da mãe dele.
Em alguns segundos ela esclareceu as minhas dúvidas. Não tive bem a certeza inicialmente pois ainda estávamos relativamente longe mas pude ver, juro que sim, os cantos da boca da mae dele subirem ligeiramente e seguidamente rasgarem-se num sorriso. Não pude conter sorrir também, não sei se aquilo tinha sido uma aprovação, mas enterrei a minha cabeça no ombro de David com uma certeza. A única que me acompanhou neste último mês: eu amo-o!

domingo, 14 de novembro de 2010

Capítulo 95 - A festa (Parte IV - Sofia)

O jantar passou a correr, estávamos já na sobremesa, bolo de chocolate, quando eu resolvi que estava na hora de contar à Adriana aquilo que tinha combinado com os pais mas primeiro iria começar de uma maneira suave, ia ser subtil.

- Aiana? - chamei por ela

- Sim, minha bichinha? - ela respondeu-me num sussurro na sua voz que me soava sempre doce

- Posso fazer-te uma pegunta? – pedi sorrindo inocentemente

- Claro que podes… - acedeu com um sorriso

- O que é que aconteceu aos teus cachinhos de anjo? – perguntei-lhe muito intrigada pois o seu cabelo era sempre cacheado como o de David e eu não conseguia perceber porquê mas hoje estava lisinho. Ela riu-se juntamente com os outros antes de me responder.

- Isso é porque hoje eu estiquei o cabelo, fofinha… - revelou-me e eu fiquei triste – Porquê? Não gostas? – perguntou-me ao mesmo tempo que me desviava a franja para trás da orelha

- Não! Prefiro os teus caracoles! – disse-lhe muito certa daquilo que dizia

- Ah eu também prefiro, fica muito melhor em você! – interrompeu David a meu favor
Notei que a Adriana o olhou ferozmente e rapidamente ele se calou. Eu achei que estava na hora de lhe perguntar o que tinha a perguntar.

- Tenho um convite para te fazer... – mudei de assunto

- Ah, sim? - ela parecia-me curiosa e toda a mesa parou para ouvir a nossa conversa

- Vá pergunta p'ra ela, meu amor... - a mãe encorajou-me

- Eu quero que sejas minha madinha! - disse-lhe rapidamente

Os traços suaves de Adriana contraíram-se e vi os seus olhos ficarem húmidos. O queixo dela tremia e eu vi que ela fazia um esforço para se controlar e não chorar.

- Cê é muito especial p'ra nossa filha e ela nos fez esse pedido e a gente acedeu. A gente sabe que se acontecer alguma coisa p'ra nós cê vai tratar dela... – acrescentou a mãe

Duas lágrimas gordas caíram dos grandes olhos castanhos da minha madrinha. Ela sorriu, eu pude perceber que ela chorava então de felicidade.

- É claro que quero ser tua madrinha, minha piolha! - disse-me ela soluçando

Ela levantou-se e a minha mãe também, abraçaram-se e ela continuava a chorar.

- Obrigada, a sério! - agradeceu ela com a cabeça enterrada no ombro da mãe

- Obrigada eu! Por amar assim tanto a minha pequenina! - agradeceu-lhe a mãe

- E tu anda cá, minha piolhosa! - ela chamou-me e eu coloquei-me em pé em cima da cadeira, ela agarrou-me ao colo

- Amo-te muito, Inha! - confessei agarrando em dois molhos do seu cabelo

- Eu também bichinha. Eu também! - ela sussurrou-me aos ouvidos

Acabámos a sobremesa e eu achava muito estranho que desde que Adriana tinha chegado o David ainda não lhe tinha dado nem um beijo como era habitual. Não estavam sentados lado a lado e nem estavam de mãos dadas como já era costume. A curiosidade foi maior e eu tinha de satisfazer a minha curiosidade. Tinha era de esperar pela altura certa.

- Muito Obrigado, Ruben e Inês! É linda demais! – agradecia David a camisola que eles lhe ofereceram

Já todos tinham dado as suas prendas faltava apenas Adriana.

- Agora falta a minha! – disse ela com um certo entusiasmo na voz mas que tentava esconder apesar de eu não entender porquê

Ela levantou-se da cadeira, caminhou até junto da sua mala que ficara nos cabides da entrada e agarrou num saco de papel vermelho com um laço azul-escuro muito bonito. Entregou-lho e voltou-se a sentar do meu lado.
David abriu o saco e espreitou lá para dentro, rapidamente um sorriso muito bonito surgiu no seu rosto. Eu ri-me também, o seu sorriso tinha aquela capacidade fazer os outros em redor sorrirem também.
Ele tirou de lá de dentro uma caixa preta com umas letras brancas que eu tive uma certa dificuldade em perceber porque não estavam em português. Adriana sorria-lhe expectante pela sua reacção.
Ele abriu a caixa e lá dentro estava um bonito relógio. David tinha muitos relógios mas aquele era sem dúvida um dos mais bonitos que ele tinha.

- Obrigada, é lindo! – disse David com um brilhos nos olhos

- Não me agradeças! Achei que era mesmo a tua cara! – acrescentou a minha madrinha sorridente

- É mesmo! Brigado! – ele sorriu-lhe como forma de agradecimento e aí eu estranhei a ausência de um beijinho que neles era sempre tão comum ultimamente.

- Então? – reclamei em alto tom

- Então o quê, piquininha? – perguntou David

- Onde é que está o beijinho? – perguntei descaradamente

Olhei para Adriana que instantaneamente se encolheu na cadeira, o seu rosto ficou ligeiramente rosado e ela baixou o olhar. A Dona Regina parecia curiosa e escondia um sorriso carinhoso e David parecia compartilhar do embaraço de Adriana

- Ó amor, não digas disparates… - alertou-me a minha mãe

- Disparates nada! Eles estão sempre a dar beijinhos e hoje ainda não deram nenhum! – confidenciei

A minha madrinha ainda se encolheu mais e com a mão em frente da boca tentou esconder um sorriso. Ela e David olhavam-se cúmplices. Ele levantou-se da cadeira, rodeou a mesa, agachou-se e dirigiu-se á Adriana dando-lhe um breve beijo na bochecha, o que ainda me deixou mais confusa.

- Obrigado pelo presente! – agradeceu ele voltando a erguer-se

- Não é desses beijinhos! É daqueles que vocês dão! Aqueles beijinhos de namorados! - pedi agitando o meu dedo indicador no ar perspicazmente

David ficou constrangido e Adriana segurou-lhe na mão

- Ó minha bichinha isso deve ser o sono a afectar-te o juízo! Vamos mas é pôr-te a dormir! – sugeriu Adriana

- Sono nada! Vocês é que devem estar a dormir! Estão sempre aos beijinhos, aos miminhos e hoje ainda não se beijaram nem chamaram de namorados como costumam fazer! – eu fui sincera

A Dona Regina, o Senhor Ladislau, o Gustavo e o Ruben riram-se. Todo o resto os seguiu menos Adriana e David.

- Ok, vais mesmo dormir! – disse a mãe ao mesmo tempo que me agarrou ao colo – Desculpa amor… - sussurrou ela a Adriana

A mãe levou-me até junto do palco improvisado onde mais tarde o pai iria tocar com os amigos de sempre e agachou-se.

- Ouve meu amor! Os pais do David não sabem que ele namora com a Adriana por isso não podes dizer estas coisas… Estás a deixá-los mal… Percebes? – perguntou-me ela calmamente

- Sim, percebo!

- Então prometes que fazes um favor à madrinha e não dizes mais nada?

- Sim, eu não digo! – prometi-lhe

- Não te esqueças está bem? – a mãe insistiu

- Sim, não esqueço! – confirmei

Ela deu-me a mão e regressámos junto da mesa. Sentei-me ao pé da Adriana que parecia mais calma e o David já estava de novo no seu lugar. Mas eu ainda tinha uma dúvida, queria perguntar-lhes se já não namoravam mas de repente esqueci-me do que a minha mãe me proibira de falar.
Eles dão muitos abraços? Não, não é isso!
Eles estão sempre aos beijinhos? Não, não é isso! Ou é?
Eles são namorados? Já não sei…
Senti-me frustrada por não me lembrar de qual a proibição. Voltei a interromper a conversa e virei-me para Adriana que estava a conversar com Andreia.

- Ó Madinha, o que é que eu não posso dizer? Que tu namoras com o David ou que dão beijinhos? – todos se calaram naquele momento

A madrinha voltou a ficar corada e enterrou a cabeça nas mãos de vergonha. Percebi que tinha metido o pé na argola à grande.

- Bem, vamo começar o pagode! – A voz animada do meu pai quebrou o momento de tensão
Começaram todos a dispersar-se para a pista de dança, a espalharem-se pelo salão menos Adriana que se encostou ao balcão do bar mexendo no telemóvel.