quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Capítulo 95 - A festa (Parte IX)

Adriana

Entrei no restaurante, o meu coração saltava-me do peito e eu tremia. Não de frio, não de medo, pois o momento de pânico já havia passado mas sim dos nervos.
Da vergonha de ter de enfrentar as pessoas naquela sala.
Sentei-me no primeiro sofá que me apareceu á frente, logo colado à porta, sentei-me nele e deixei a minha cabeça tombar sobre as mãos apoiadas nos joelhos durante breves segundos. A minha respiração acalmou e eu tentei controlar as lágrimas. Levantei-me e ergui a cabeça.
Uma neblina de lágrimas turvava-me a vista, senti-me tonta mas finquei os pés no chão a cada passada que dava na direcção deles.
Senti o olhar de David cravado em mim e o vinco que cruzava a sua testa denotava alguma inquietação.

- Então voltaste? – perguntou imediatamente Ruben muito divertido, mal cheguei ao pé deles

Apenas consegui assentir positivamente com a cabeça. Um nó travava-me a garganta, esforcei algo a sair mas nada. O medo estava-me a sufocar.

- Adriana, estás bem? Estás tão pálida… - disse Bianca num tom visivelmente preocupado

- Estou bem... – finalmente consegui falar – Preciso só que algum de vocês me empreste dinheiro para o táxi, se faz favor – pedi desembaraçada olhando para David e Ruben

- Dinheiro, meu amô? – perguntou David desconfiado

- Mas tu ainda há bocado quando abriste a carteira tinhas uma nota de vinte e outra de cinquenta… - descaiu-se Inês

- Pois mas não tenho mais… - eles olhavam-me esperando uma explicação – Eu tinha mas acabei de ser assaltada ali fora… - a voz falhou-me no fim da frase

Senti os olhos de David arregalarem-se postos em mim.
- Assaltada? Mas quem? Cê tá bem? – David atropelou-me com questões ao mesmo tempo que me agarrava no braço e passou a mão no meu rosto gelado

- Estou bem, David – senti necessidade de o afastar e num gesto brusco obriguei-o a soltar o meu braço – Só preciso de dinheiro para ir para casa… - pedi nervosa
- Nem pense que depois disto cê vai sozinha! – rematou David e eu fuzilei-o com o olhar
- Não penso porque vou mesmo! – contrapus e desta vez foi ele que me censurou com o olhar numa expressão de “Eu bem te avisei!”

- O que é que te levaram? – perguntou Ruben

- Levaram-me o telemóvel, o dinheiro e o cartão de crédito… Preciso de um telemóvel para cancelar o cartão… - Bianca estendeu-me automaticamente o seu e eu sorri-lhe em agradecimento

Tentei concentrar-me mas não me recordava do número do meu gestor de conta, corri até á minha mala, tirei a carteira e encontrei o cartão. David acompanhou-me até junto da mala onde estava a carteira, era visível a sua preocupação e nervosismo. Liguei ao gestor e cancelei o cartão, sem qualquer problema, quando me preparava para colocar o telemóvel no bolso a mão pesada de David interceptou-me o movimento.

- Que é isso? – perguntou horrorizado observando a mancha de sangue que eu tinha na palma da mão esquerda

- Não é nada de especial, relaxa! – pedi-lhe tentando manter-me calma também
A verdade é que no meio daquela confusão eu nem me apercebera que tinha um corte na mão. Mas o toque de David perturbava-me. Eu amava-o mas o toque dele recordava-me aquilo que tinha passado há minutos, e sentia-me tão suja, tão envergonhada que não queria que ninguém me toca-se muito menos David. As lágrimas queriam precipitar-se em meus olhos mas eu controlei-as.

- Não é nada? A gente vai levar você no hospital! – ele nem me deixou responder e saiu furioso em direcção á sua cadeira, vestiu o casaco e agarrou na chaves do carro, eu juntei-me a ele
- Não vou a hospital nenhum! Isto foi só um cortezinho de nada! Um bocado de água, pressão e estou como nova! – eu tentava parecer bem mas eu fazia um esforço imenso por não me desmanchar num choro rompido

- Não diz besteira, vem! – ele insistiu agarrando-me no braço levemente

- Não David! Larga-me! - o toque dele tornou-se insuportável e afastei-o, senti o corte abrir-se mais e senti mais sangue jorrar

- Adriana! – ele ainda chamou por mim seguindo-me
- Deixa-me David! Fica aí! – ordenei sem o olhar

Dirigi-me à casa de banho com as primeiras lágrimas a cortarem-me o rosto.
Liguei a torneira, a pressão da água era forte e corria-me pelo corte. Um fio vermelho misturava-se com a água límpida torvando-a, entrava pelo ralo.
Olhei-me no espelho enquanto a água corria. Tinha os olhos vermelhos e ligeiramente borrados de chorar, passei com a minha mão sã sobre o borrado limpando-o. Senti-a diferente, não via a mesma Adriana, via uma, muito parecida comigo mas muito mais amargurada.
Ouvi a porta da casa de banho abrir-se e não evitei gritar.

- David, baza daqui! – gritei sem ver quem era

- Sou eu, desculpa… Vim só ver como estavas… - perdoou-se Bianca aproximando-se da bancada do lavatório

- Desculpa…

- Isso está mau… - disse ela aproximando-se com a toalha turca e pressionando o golpe que ardeu
- Obrigada mas isto já passa… - fiquei eu a pressionar o golpe e encostei-me numa parede da casa de banho

- Estás bem? – perguntou-me ela
- Sim, estou… - a minha voz falhou-me
- Lembras-te da nossa conversa? Para mim és transparente… Não sei bem como mas és… - disse ela confusa com as próprias palavras

Sorri-lhe e senti-me segura. Duas lágrimas escorreram-me pelo rosto.
- Queres contar mais alguma coisa que se passou? – perguntou-me ela
- Ele tentou… ele tentou… - eu gaguejava – ele tentou violar-me – revelei por fim e rompi num choro
Bianca abraçou-me.
Senti-me reconfortada no seu abraço. Era estranho o facto de a conhecer á duas horas e isso ser o suficiente para me sentir segura.

- Lamento, lamento muito… - disse ela – Tens de contar ao David, precisas de ajuda! De falar! – aconselhou ela e eu quebrei o abraço

- Não! O que é que ele vai ficar a achar de mim? Não sou capaz!

- Claro que és! Ele não vai achar nada! Vai ajudar-te! – assegurou-me num tom de voz firme

- Achas? – perguntei-lhe

- Ele ama-te não? – ela não buscava uma resposta – Então… - abraçámo-nos outra vez mas fomos interrompidas por David

- Posso, gente? – perguntava ele espreitando por uma brecha da porta da casa de banho
- Podes sim - disse Bianca – Eu vou sair… Vocês ficam à vontade… Coragem! – disse esta última frase apenas dirigindo-se a mim e saiu

Quando dei por mim tinha David colado na minha frente pondo-me um penso rápido no corte.

- Não era preciso… - ainda tentei dizer

- Shiu… Não fala nada, minha boba! – pediu-me num sorriso discreto continuando concentrado na sua tarefa

- David, eu preciso de falar contigo… - disse num suspiro e ele olhou-me atentamente – O homem… O assaltante… Ficou chateado com as poucas coisas que tinha e… - comecei a gaguejar – e ele... ele… David, promete-me que ficas calmo! – quis assegurar-me

- Fico calmo? Como assim? Que aconteceu? - perguntava-me cada vez mais confuso

- Ficas calmo ou não? – insisti

- Fico! Agora me conta vai! – exigiu visivelmente nervoso

- Ele tentou violar-me… - disse num único suspiro – Mas ele ouviu barulhos e fugiu antes disso… - rematei

- Ele o quê? – David tinha um tom de voz elevado e estava visivelmente irritado – Eu mato aquele cara! – jurou dando um soco na bancada da casa de banho e eu tremi de medo

- Me desculpa, vai… - pediu abrindo os braços na minha direcção

Ele apercebeu-se que me tinha assustado e tentou abraçar-me mas eu não deixei.

- Que foi?

- Desculpa… Não consigo… - desculpei-me

- Mas eu não sou ele… - ele estava magoado
- Eu sei que não mas isto é tão recente amor… Tira-me só daqui! Por favor! – implorei

Ele virou-me costas e ia abrir a porta quando lhe travei o movimento.

- Ainda me amas certo? – perguntei sem o olhar nos olhos

- O que cê acha? Meu amor por você não muda assim, não! – afirmou ele obrigando-me a olhar nos seus olhos

Beijei-o levemente nos lábios, o máximo de tempo que consegui depois da experiência por que tinha passado.
Ele deu-me a mão e saímos da casa de banho.
- Mãe, Pai, venham eu vou vos deixar em casa e depois vou levar ela… - informou-os dirigindo-se à entrada

- David, não é preciso! – insisti

- Larga de ser cabeça dura! – ele refilou e eu perdi os argumentos.

Saímos do restaurante de mãos dadas, entrámos no carro dele, eu no lugar de pendura, ele a conduzir e os pais atrás. Seguiamos em silencio e eu perdida em pensamentos, não os melhores, os mais recentes.

- Tá pensando em quê? – perguntou ele metendo-se comigo

- Que estraguei o teu dia de anos… Desculpa!

- Ué! Tá boba? Não estragou nada não! Cê não teve culpa! – ele pousou a mão dele sobre a minha que estava na lateral do banco

- Estraguei sim! E além de estragar ainda dou trabalho! – refilei e ele sorriu-me
- A gente depois fala sobre isso! Pai, Mãe, chegámos! – informou estacionando o carro

- Obrigado meu filho! Fiquem com Deus ! – desejou Dona Regina
- Fiquem com Deus! Boa noite! – desejou o Senhor Ladislau

- Sua bênção meus pais! Fiquem com Deus! – despediu-se David e eles saíram do carro
Ele ligou-o novamente e apercebi-me que ele tomava o caminho contrário á minha casa.

- David, a minha casa é naquele sentido… - corrigi-o apontando na direcção correcta
- Eu sei! – disse-me sorrindo

- Ah, sabes e vais para ali? – perguntei

- Sim… Cê vai p’ra minha casa!

- Não, não vou! – disse-lhe segura
- Vai sim! Cê não tá percebendo, eu não tou pedindo tou informando! – fiquei novamente sem argumentos e remeti-me ao silêncio
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Eu tinha uma t-shirt do David vestida e estava a abrir a cama enquanto ele se despia.

- Desculpa mais uma vez ter estragado este dia… - perdoei-me ao mesmo tempo que colocava a almofada na cabeceira da cama

- Já falei p’ra você que não estragou nada! - ele vestiu a t-shirt do pijama
- Estraguei sim! Já viste como acabaste a tua noite de anos? – perguntei desanimada

- Vi sim! Do lado da mulher que amo! – confirmou sorrindo e juntando-se a mim a abrir a cama
- Oh… Só tu! – deitei-me e senti o corpo quente dele deitar-se do meu lado.

Ficámos frente a frente, sem dizer nada. Eu olhava-o nos olhos e ele a mim. Não sei o que leu nos meus olhos mas depois de tanto silêncio ele quebrou-o.

- Não pensa mais nisso não, gatinha… - pediu-me enquanto desviava a franja do meu rosto

- Contigo aqui é impossível… - disse-lhe

Vi-o erguer a mão para colocar na minha cintura mas ele coibiu-se de o fazer.
- Podes tocar-me… - informei-o – Já estou mais calma!

- Me deixa tocar você? – perguntou-me sorrindo discretamente
- Deixo sim… Tu não és ele… - afirmei

Ele pousou a sua mão na minha cintura e puxou-me contra o seu peito onde me aninhei.
- Desculpa se te magoei com aquela atitude…

- Não se preocupa não! Eu compreendi aquilo não deve ter sido fácil e eu devia ter tado do seu lado p’ra te defender! – disse revoltado

- Mas não estavas e nem adianta ficares a pensar nisso! – proibi-o pois não queria que se sentisse culpado de uma coisa que não dependia dele

- Não tava porque você não quis, foi teimosa. Mas já foi! Vamo esquecer isso! Você é a minha minininha e agora está aqui nos meus braços e eu posso proteger você! – apertou-me contra o seu peito

- Sabes, David? Apesar de tudo hoje foi um dos dias mais felizes da minha vida! – confessei contendo as lágrimas

- Porquê? – perguntou espantado
- Porque a tua atitude, o quereres apresentar-me aos teus pais, tudo… Percebi o quanto te amas… - aconcheguei-me no peito dele

Adormeci assim com ele fazendo-me um cafuné nos cabelos, a noite era longa mas o dia seguinte adivinhava ser muito mais.

11 comentários:

Catarina disse...

Ai que queres que te diga, já sabes muito bem o que penso e que quero...

Continua...

Beijão

Bianca. disse...

Drii, as tuas descrições, as tuas falas, basicamente tudo, são espectaculares !
Cada vez amo mais a tua fic, a sério, escreves de uma forma que...olha nem há palavras ! +.+
Sinto-me mesmo uma privilegiada, as "minhas deixas", que tu escreves, são lindas, e espero bem que na realidade te sintas assim comigo também...^^ A mim podes-me dizer tudo, Maria Adriana =D
Obrigadãoo (L)
Beijãooo,minha coisinha !! xD

Anónimo disse...

lindo...

quero mais...

posta mais hoje, por favor...

cada vez está melhor a tua fan fic...

continua...

paula. disse...

oooooooh, que lindo amor, já me fizeste chorar outra vez, sua parva!

beijo <3

Annie disse...

Oh meu deus, como eu chorei neste e no outro capítulo.
Sempre lindo, continua

Anónimo disse...

Lindo!!!

Anónimo disse...

Mais um por favor!!!!!!
Adoro a tua fan fic...... :D

Anónimo disse...

Oh my Good, adoro a tua fic DRI...
Continua linda...
Passa pelo o meu blogue e comenta.
LinK: http://xaninha--dl23.blogspot.com/

Anónimo disse...

quando é que vais postar mais??
Adoro a tua fan fic!!
beijo
altamente viciada!!!!

ElsaNeves disse...

Muito bom, só o amor para ajudar nesta situação.
Muito bom
Continua

Beijinhos

sara daniela disse...

mais por favor :D(a)
parabéns, está fantástico!

SLB ♥

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