domingo, 17 de abril de 2011

Capítulo 107 – Finalmente nos 18 (Parte I)

Tinha-se passado um mês desde a morte do meu avô e eu nunca mais tinha ido ao cemitério desde o funeral, custava-me acreditar que tivesse acontecido e ir lá era a confirmação que eu não queria ter, talvez um dia… Quem sabe! Desde a sua morte que eu nunca mais tocara num piano uma vez que tinha sido ele a ensinar-me e sem saber explicar muito bem porquê, de repente já nada me fazia sentido sem ele. Mais do que nunca eu e o David estávamos unidos. Eram mais as noites em que dormíamos juntos na casa dele do que aquelas que eu passava na casa que dividia com Bianca, a namorada de Salvio. O meu aniversário estava quase a chegar e há duas semanas que eu tinha feito o exame de código e estava a um passo de ter a minha carta na mão. O David andava comigo a ver carros, mas eu já tinha mais ou menos em mente aquilo que queria.


- Quando cê vai comprar seu carro, meu amô? – perguntou-me ao pousar a mão na minha perna enquanto ia a conduzir na direcção de sua casa, era mais uma noite que iria dormir lá


- Não sei… Acho que para o mês que vem! Aproveito e fica a minha prenda de Natal e de aniversário pra mim mesma! Junto o útil ao agradável! – sorri levemente e acariciei a sua mão na minha perna


- Mas cê faz anos esse mês, amô! Não tem graça só comprar pro mês que vem…


- Oh, não é pra ter graça, amor! É pra usar e pronto, para o mês que vem vou a um Stand, compro-o e pronto! Nem me irei lembrar que foi prenda de aniversário, é completamente irrelevante! – falei de forma despreocupada


- Tudo bem… Cê que sabe… - senti David esmorecer e tirou a mão da minha perna, parecia que o tinha desiludido ou entristecido


- Estás bem? Disse alguma coisa errada? – a minha testa enrugou-se automaticamente


- Não, nada não… Tou só aqui pensando num négocio!


- No quê?


- Coisas minhas, não se preocupa, não! – ele sorriu-me e automaticamente fiquei mais aliviada



***



Era o dia dos meus anos, há dois dias tinha ido ao exame de condução e graças a Deus fui aprovado. Acabei por passar a noite em casa do David e foi uma noite “daquelas”. Acordei com uns lábios húmidos na minha face e muito lentamente abri os olhos.


- Parabéns, dorminhoca! – desejou imediatamente assim que o encarei, o sorriso enorme que inundava os seus lábios inundou o meu coração


- Obrigada, amor! – sorri-lhe e ele roubou-me um beijo leve nos lábios – É muito tarde? – elevei-me levemente da cama, na esperança de conseguir ver as horas


- Não, nem por isso… É cedo ainda, mais pra mais é sábado, logo nem tem que se preocupar com as horas! – o ar espevitado dele deu-me tamanha energia que sem pensar muito lhe espetei um beijão enorme – Obá! Sempre que cê fizer anos vai ser assim, é?


- Vai! – respondi num sorriso traquina


- Ué, vou querer você fazendo anos todo santo dia!


- Até parece, zuca… Quem te ouvir falar pensa que não te dou beijões destes em dias normais! – falei com desdém, mas apenas para me meter com ele


- Dá, mas assim do nada, sem eu falar nada bonito pra você não é muito comum…


- Olha passa a ser! – respondi de forma espevitada e ele riu-se levemente


- Tá lindo isso, tá… Tou vendo que esses 18 anos, tão afectando essa cabecinha…


- Tché! Olha aí o respeito, ó! – dei-lhe uma suave chapada na farta cabeleira


- Ai, amô! Me machuchou… - ele fez um beicinho de criança completamente delicioso


- Não vem que não tem, zuca! Foi devagarinho, deixa de ser mariquinhas!


- Mariquinhas um escambau! Tá doendo, amô… - disse esfregando os caracóis num jeito muito aflito e pela primeira vez considerei que ele estava a falar a sério


- Oh amor, desculpa… - sentei-me na cama, agarrei a cabeça dele com jeitinho e enchi-o de beijinhos no sítio onde lhe tinha batido – Tá melhor assim? – perguntei carinhosamente e rapidamente o ouvi gargalhar desalmadamente


- Fala a sério! Não tou nem acreditando que cê caiu nessa, amô! – gozou entre riso agarrado à barriga


- Ai por esta tu vais pagar, David Luiz! - fiz um ar muito sério e chateado


- Vai encarar, é? – ele despojou o peito pra fora e fez um ar de luta


- Vou! Vou mesmo! Vou-te bater, zuca feio! Vais apanhar tantas! – disse erguendo-me na cama com a mão no ar já pronta a bater-lhe


- Amor, espera aí só cinco minutinhos! – disse e levantou-se da cama


- Que foi agora, ó? – perguntei num falso amuo


- É só pra dar tempo pra eu fugir! – assim que o disse desatou a rir e fugiu do quarto numa correria danada


Não evitei rir-me que nem uma louca, mas rapidamente saltei da cama e saí a correr atrás dele pela casa fora.


- David Luiz, volta aqui já! – gritava correndo atrás dele


Aquela pequena brincadeira acabou no banho onde fizemos amor, mais uma das muitas entregas àquele homem que eu tinha a certeza ser o da minha vida e que podia chamar de meu.



****


- Come qualquer coisa, amô… Cê não anda comendo nada! – refilou ao puxar-me para o seu colo, enquanto estava sentado à mesa da cozinha


- Amor, já comi, uma torrada… Um iogurte! Chega bem!


- Chega nada, muleca! Come mais!


- Mas tu deves achar que eu me chamo David Luiz, não? Que come este mundo e o que há-de vir se for preciso!


- Ah ah ah, olha a gracinha, moça! – ele apertou-me contra si e roubou-me um beijo leve – Come, amô… Pra sossegar esse grandalhão!


- Hum, lá grandalhão tu és, não és é grande coisa… - brinquei por entre carícias


- Ai, cê hoje tirou o dia pra me sacanear, é? – disse num sorriso travesso


- É pra aprenderes a não repetires a gracinha lá do quarto… - voltei a dar-lhe uma chapada nos cabelos


- Ai amô, machucou! – disse num ar muito sério


- David, nessa não caio! – informei sem o olhar


- Amô, tou falando sério… Me machucou! – ele coçava os caracóis, como se tentasse acalmar a dor


- David, não acredito! Podes parar… - falei, mas olhei-o pelo canto do olho preocupada


- Tou falando sério, tá doendo muito, amô lindo… - falou num jeitinho de criança pequena que me enterneceu


Não resisti, agarrei novamente na cabeça dele e observei-a desviando todos os caracóis até chegar ao seu couro cabeludo. Esfreguei a zona carinhosamente e selei com um beijinho. Olhei para a cara dele e muito rapidamente o seu beicinho foi substituído por um sorriso gozão.


- David, eu mato-te! – ameacei por entre dentes


- Davi’ – 2, Adriana- 0! – afirmou sorridente, marcando o numerador com as mãos


- Vais apanhar tantas, David Marinho! – levantei a mão no ar e comecei a bater-lhe nos ombros e no peito


- Isso me machuca! Me bate! Quanto mais cê me bate mais eu te amo! – dizia num tom super gozão


- Aiiii! – barafustei muito irritada e aumentei a força das chapadas


- Isso, me bate, amô! Me bate que é gostoso! – dizia rindo-se como se a força das minhas chapas não o afectasse em nada


- Ai, odeio-te David! – rendi-me e levantei-me furiosamente até ficar junto da bancada do lava-loiças


- Cê me ama, tá, garota? – ele fez um ar gozão e roubou-me um beijo atrevido


- Odeio-te! – afirmei sisuda


- Tem certeza? – ele elevou a sobrancelha e enterrou a sua cabeça no meu pescoço, que cobriu de beijos até me deixar totalmente arrepiada


- Odeio… - disse de olhos fechados tentando manter-me concentrada


- Tem certeza, amô? – perguntou passando a língua no meu lábio inferior


- Certezinha, absoluta… - sussurrei de olhos fechados e senti-o entalar o meu lábio inferior nos seus dentes


- Certeza? Absoluta, absolutinha? – a voz dele arrastou-se para me provocar e as suas mãos apertaram os meus glúteos


- Absolutinha… - a muito custo imitei o sotaque dele e tremi a cada toque seu


- Ainda bem, porque eu tenho treino! – quando eu já estava quase a ceder, louca para ser dele, fugiu daquela maneira


- Ai, odeio-te mesmo, David! – barafustei irritada


- Isso amô! Me continua odiando assim, que um dia então a gente casa, tem filhos lindos e se odeia pra sempre! – disse num tom gozão – Fui! – roubou-me um beijo e desapareceu pela porta da cozinha


- Bom treino! – gritei rindo-me sozinha


- Brigado! – ainda o ouvi gritar já depois de fechar a porta de casa



****



Era sábado, ia mesmo ficar por casa dele e passar o meu dia de anos com ele, uma vez que este ano não fazia tenções de o celebrar. Recebi um telefonema da minha mãe e do meu pai, da minha avó, e dos meus restantes familiares e amigos. Todos compreenderam a minha decisão de não comemorar os meus 18 anos, depois da perda tão recente do meu avô.

Estava já de volta do meu almoço e de David quando o meu telemóvel deu sinal de uma nova mensagem, calmamente li-a.


“De: Diogo

Olá, pequenina! Antes de mais quero desejar-te um feliz dia de aniversário, finalmente atinges a maioridade, mas não vou dizer que apenas agora te tornas mulher, porque isso já o és há demasiado tempo, só eu não conseguia enxergar. Depois quero aproveitar para te relembrar que de uma forma ou de outra, aqueles que partem ficam sempre do nosso lado, nos dias mais importantes da nossa vida e tenho a certeza que o teu avô não será excepção, assim como eu… Há demasiado tempo que me mantenho afastado, que te dou paz como me pediste, mas não consigo ignorar o que sinto… Não consigo, nem quero! Amo-te, com todas as certezas que tenho, com todas as forças deste mundo. Sei que nem sempre te dei o teu devido valor e foi preciso perder-te para ver o quão importante és na minha vida, mas uma coisa te garanto! Não vais sair de mim nunca, vou estar sempre à tua espera! Quando já não fores mais feliz aí, com ele, procura-me e eu estarei no lugar onde me deixaste, com o coração nas mãos pronto a entregar-to! Parabéns, pequenina! :) “


Tremi de cima abaixo ao ler aquela mensagem, senti as pernas falharem-me, as lágrimas turvarem-me a vista e tive de me sentar na cadeira de cozinha. Ouvi o David virar a chave na fechadura e apressei-me a enxugar as faces onde as lágrimas já corriam. Diogo ainda não me tinha esquecido, isto é se eu considerar acreditar que ele alguma vez me amou, e não sabia porquê, mas saber disso, doía. Doía de todas as maneiras possíveis, em cada parte de mim. Os meus olhos percorreram uma última vez o texto que tinha na minha frente e apaguei-o, assim como já tinha apagado Diogo da minha vida.


- Oi, amô! – a voz sempre animada e doce de David rompeu o ar


- Olá, amor! – senti uma necessidade desmedida de sentir o David por perto e corri na sua direcção para o apertar fortemente para mim


- Ei que é isso, amô? Saudade? – perguntou não me recusando o seu abraço e pousando o saco do treino no chão da cozinha


- Sim, muitas! – sorri levemente e beijei-o por toda a linha do maxilar


- Oh amô… - a voz dele arrastou-se e as nossas bocas foram unidas por vontade de David


- Fiz o almoço para nós… - sorri levemente e apontei com a cabeça na direcção dos tachos que estavam ao lume


- Uau, nossa! Que bem, meu amô… Já tá cheirando a comidinha! – ele fez um sorriso louco, as suas mãos envolveram a minha cintura e viraram-me até ficar com as minhas costas encostadas no seu peito


- Só espero que gostes… É frango com natas e massa! – entrelacei os meus dedos nas mãos dele que estavam sob a minha barriga


- Vou amar, tenho a certeza! – rematou dando-me um beijo no pescoço


Começámos a almoçar entre beijos e carinhos, sentia-me feliz! E a perda deixada pelo meu avô, o enorme buraco no meu coração era preenchido por todo o amor que David me dava.


- Amô, hoje tive um sonho louco! – começou por contar rindo-se que nem um tonto


- Ai sim? Sonhaste com o quê, tontinho? – perguntei, mas continuei a comer


- Sonhei que cê tava grávida, com um barrigão lindo! – afirmou com um sorriso de orelha a orelha


Automaticamente engasguei-me, muito aflita tentei que a comida descesse e tal só aconteceu depois de uns bons goles de água e algumas chapadas de David nas minhas costas.


- Grávida?! – perguntei num tom aflitivo limpando a boca


- Sim, grávida! Nossa tava com um barrigão lindo! – um brilho cresceu nos seus olhos e eu arrepiei-me com a intensidade


- Oh amor, só mesmo em sonho, porque grávida é coisa que eu não estou te garanto… - falei de forma calma e pausada


- Eu sei, amô… Mas sonho com isso! Sonho ter um monte de nenéns seus! Nossa, que felicidade! – a mão dele procurou a minha e uniram-se sobre a mesa


- Oh amor, é um bocadinho cedo para isso… Estamos juntos nem sequer há um ano! – agitei levemente a cabeça e dei uma garfada na comida


- Eu sei, mas já nos conhecemos há mais de um ano, ficámos foi naquele pega-pega, naquele vai-não-vai! Além disso o tempo é relativo e eu não tou falando que quero cê grávida já, mas no meu sonho estava linda! – fez um sorriso babado e eu derreti completamente


Ainda não tinha equacionado a hipótese de ter um filho dele, de engravidar, apesar da ideia de ser mãe sempre me ter agradado muito e as crianças sempre terem sido uma das minhas grandes paixões.


- Vamos ter tempo pra tudo, amor… Um dia vais ver-me com um barrigão enorme!


- Cê jura? – aproximou o seu rosto do meu com um sorriso traquina


- Juro! Vamos ter uma equipa de futebol! – brinquei num sorriso


- 11 nenéns? Fechado! – afirmou sorridente e roubou-me um beijo nos lábios


- Eu amo-te, David… - falei da forma mais sincera que consegui


- Eu te amo mais, meu amô… Muito mais! – afirmou num sussurro juntinho dos meus lábios


- Não… Eu é que te amo! – contra-argumentei rapidamente


- Shiu… Eu que sei! – beijou-me novamente sem me dar hipótese de refutar

- Ganhas sempre, é incrível! – barafustei rindo-me


- Cê é fraquinha, fazer o quê? – ambos nos rimos e unimos novamente os nossos lábios – Tenho uma surpresa pra você! – ele saiu da cozinha e regressou com um pequeno presente vermelho

terça-feira, 12 de abril de 2011

Capítulo 106 - O tempo leva tudo menos a saudade... (Parte V)

Vesti-me de negro, o David acompanhou-me na indumentária e seguimos no carro dele para a capela mortuária, ainda me aguardava uma missa longa e que só iria tornar a hora mais longa e desesperante.




O discurso do padre não me emocionou nem um pouco, era um bloco de gelo que ali estava! No lugar do meu coração não havia mais nada senão uma pedra, uma enorme e fria pedra. Deus tinha-me castigado roubando-me a pessoa que mais amava e eu estava magoada, diria mesmo chateada com ele e não havia outra maneira de agir. A missa chegou ao fim… Era altura da família se despedir. Foi o momento mais arrepiante que alguma vez vivi em toda a minha vida. A nossa família, avó, pai, mãe, tios, tias, primos e primas, reunimo-nos todos em torno do caixão, abraçados formando um circulo e chorámos a sua morte, era a nossa despedida, o nosso “Adeus”. O David entrou nesse círculo, ele era também já parte da minha família. No fim todos se aproximaram ordenadamente para se despedirem individualmente. Fui a última da fila, o David estava do meu lado, como sempre estivera naqueles dois últimos dias. Olhou para mim e incentivou-me a avançar, mas os meus pés não descolaram do chão, especialmente porque todos me olhavam.


- Não consigo, David… - disse sufocada pelas lágrimas, olhando-o no rosto


- Consegue, amô… Eu tou bem aqui do seu lado! – olhei para o caixão, novamente para David que me deu um último olhar de incentivo e depois de novo para o caixão


Finalmente avancei, nem sei bem como, nem onde arranjei forças, mas avancei. As minhas mãos descobriram o rosto do meu avô coberto pelo pequeno pano de seda branca bordado de trocados delicados. Assim que o vi, morto na minha frente, as lágrimas fluíram e embateram na sua pele dura e gélida. Não havia qualquer movimento de respiração, os seus olhos estavam fechados, era o meu avô tal qual o tinha conhecido, mas parecia apenas profundamente adormecido. Esbocei um leve sorriso que foi imediatamente cortado por novas e fluentes lágrimas. Abri o seu casaco levemente e no bolso interior esquerdo, bem junto ao seu peito, que ao tocar apercebi-me estar estagnado no tempo, sem qualquer batimento, coloquei a minha carta de despedida na esperança de que apesar de não a poder ler, de alguma maneira lhe tomasse conhecimento do conteúdo. Acariciei-o na face e os meus órgãos vitais gelaram ao sentir a temperatura baixa do corpo dele, estava mesmo morto… E era tão dura essa realidade! A minha cabeça tombou sobre o seu peito, chorei durante breves minutos e ainda rezei por ouvir qualquer batimento que fosse daquele coraçãozinho, mas nada… Apenas o silêncio e o eterno vazio de uma despedida. Ergui a cabeça, os meus lábios colaram-se à sua bochecha e cerrei as pálpebras de onde as lágrimas teimavam escorrer sem cessar.


- Eu amo-o… Até já… - sussurrei por entre o choro ao ouvido de quem já não me podia ouvir


- Desculpe, mas está na hora… - informou o Senhor da funerária aproximando-se de mim


- Mais um minuto, por favor… - implorei


Entrei em desespero ao aperceber-me que seria a última vez que via e tocava o meu avô, ainda que morto.


- Vai ter mesmo de ser, menina… - pediu-me o senhor


- Por favor… - implorei num choro descontrolado sem largar o meu avô


- Adriana… Por favô, vamo, amô… - o David agarrou-me pela cintura e pediu-me calmamente isso


- David… É o meu avô! – disse tentando que alguém compreendesse o meu desespero


- Eu sei, amô… Mas chegou a hora… - ele disse aquilo de forma calma e serena, com o máximo cuidado possível para não me magoar


Só assim acedi ao pedido que me era feito, toquei a ponta dos meus dedos com os lábios e toquei uma última vez no rosto do meu avô, afastando-me. O David tomou-me nos seus braços e não me deixou assistir ao momento de selagem do caixão. Calmamente, puxando-me pela mão tirou-me dali e levou-me para o carro. Transportaram o caixão até ao carro funerário e o David seguiu-o até ao cemitério. Aquela seria sem dúvida a parte pior… Tiraram o caixão do carro, o padre proferiu mais algumas palavras e quando iam abrir o caixão pela última vez uma chuva torrencial fez-se cair. Olhei imediatamente para a minha mãe como que implorando que não abrissem o caixão.


- David, não deixes… Não quero que o meu avô apanhe chuva! – implorei em choro


- Calma, amô… Eles não vão abrir, eu não vou deixar… - prometeu ao mesmo tempo que me apertava mais contra si, na tentativa de que me molhasse o menos possível


- Não abram… - pediu a minha avó chorando, era uma questão de respeito ao corpo do meu avô


Os senhores atenderam ao pedido dela e abriram o gavetão onde o caixão iria ficar. Não era aquilo que eu tinha imaginado para a última morada do meu avô, mas enterrar as pessoas na terra, estava a ser proibido em maior parte dos cemitérios devido à falta de vagas. Fechei os olhos no momento em que enfiaram o caixão dentro do gavetão, o David apertou-me mais contra si, enterrando a cabeça na minha nuca e senti as suas lágrimas escorrerem pelas minhas costas abaixo. Ele estava a sofrer tanto como eu por me ver assim… O gavetão foi selado, não iria ser mais aberto, depositámos junto dele as inúmeras coroas de flores. A bandeira de Portugal que cobria o caixão, devido ao facto do meu avô ter pertencido às forças militares, foi recolhida e entregue à viúva pelo comandante da ordem onde o meu avô pertencera. Um outro militar atirou dois tiros ao ar e bateram continência junto à campa, a chuva cessou então. Foi totalmente arrepiante e emocionante! A pedido do meu pai todos começaram a abandonar a zona onde o meu avô tinha sido sepultado, apenas eu me quis aproximar.


- Não faz isso, amô… - pediu o David assim que me viu tomar o caminho nessa direcção


Aproximei-me na mesma, coloquei-me de cóqueras e toquei a lápida fria e negra. Era assim que estava a minha alma negra, escura e coberta de uma enorme nuvem de frieza e dor.


- Amô, vem… Cê só tá se machucando mais desse jeito… - o David colocou-se de cóqueras do meu lado e tocou-me no braço


Olhei-o pelo menos uma vez com as lágrimas nos olhos, não queria deixar o meu avô ali, mas tinha de ser, não havia retorno, era aquela a sua última morada.


- Amô… Por favô! Sou eu que tou pedindo… - ele colou os seus lábios à minha orelha direita e a sua voz soou embargada pelas lágrimas que lhe corriam pelo seu rosto


Ele levantou-se, estendeu uma das suas mãos e esperou que eu a tomasse. Assim acabei por fazê-lo, ainda que contra minha vontade e sabendo que ali deixava metade do meu coração. Caminhei com o braço do David em torno dos meus ombros até ao portão do cemitério, mas o nosso percurso foi travado por uma voz que me era estranhamente familiar.


- Adriana…


Olhei para trás e vi Diogo, todo vestido de negro, num ar calmo e pacífico, eu compreendi que ele vinha em paz desta vez. Pedi permissão a David com o olhar e aproximei-me.


- Lamento, lamento muito… - disse-me assim que me juntei a ele


- Eu sei, obrigada… - respondi educadamente


- Era um senhor o teu avô! – o Diogo conhecera bem o meu avô, apesar deste não gostar nada dele devido ao que ele me fizera


- Sim, era um senhor! – afirmei orgulhosa


- Ele vai sempre orgulhar-se de ti… Tu sabes disso!


- Sim, eu sei… Ele disse-mo e não duvido sequer!


- Ainda bem… - ele sorriu-me levemente, mas não consegui corresponder sabendo que tinha David impaciente e nervoso, aguardando por mim e com medo de me perder para Diogo


- Eu vou indo senão te importas… - respondi educadamente


- Sim, vai… Deves estar a precisar de descansar! Se precisares de alguma coisa liga, manda mensagem, é só avisares…


- Obrigada, mas creio que não será preciso! Fico bem, Diogo! E obrigada por teres vindo!


- Não tens que agradecer! – trocámos um breve sorriso sem qualquer sentimento, pelo menos da minha parte e regressei para junto de David que imediatamente me acolheu em seus braços


- Algum problema? – perguntou David visivelmente nervoso


- Não, ele veio em paz… - respondi impávida e serena


- Graças a Deus, é o que todo o mundo aqui tá precisando… De paz!


Já fora do portão fui tomada nos braços de Débora, de Paula que fizera questão de estar presente mais o Roberto, da Brenda e do Luisão que trouxeram a minha pequena afilhada Sofia e o Ruben que veio com Inês. Foi um período longo, sofrido, em que me rendi nos braços de todos os presentes, mas a verdadeira rendição chegaria mais tarde, em casa, nos braços do homem que amava…



***



- Amô, come qualquer coisinha, sim? – estávamos os dois sentados à mesa, um prato cheio na minha frente, mas nada entrava, nada queria entrar


- Não tenho fome, amor… - torci o nariz ao prato e coloquei os talheres em posição de já ter findado a refeição, quando na verdade ainda nem a tinha começado


- Tá assim tão ruim meu macarrão? – perguntou numa expressão triste e eu acariciei-o no rosto


- Nada disso, amor… Está bom, mas eu é que não tenho muita fome, desculpa…


- Oh amô, cê tem de comer! – pela sua expressão abatida era fácil compreender que ele estava visivelmente preocupado


- Eu sei, mas não entra nada… Vai ser pior se eu empurrar, sem querer comer!


- Tudo bem, não vou obrigar você… - levantei-me e coloquei o prato em cima da bancada da minha cozinha – Amor, desde que chegaste ainda não foste a casa…


- Não se preocupa com isso, ainda tenho roupa aí da viagem…


- Mas devias ir, não podes ficar aqui para sempre a tomar conta de mim, tens a tua vida, as tuas prioridades… - falei calmamente ao entrar novamente na sala


- Posso, é claro que eu posso… - falou clara e calmamente – Minha prioridade é você, amô!


- Não, tens a tua vida para além destas quatro paredes e de mim! – afirmei muito convicta


- Me deixa, amô… Tou pedindo, me deixa ficar e tomar conta de você, não me manda embora… - implorou no seu jeito de menino e com os olhos já manchados de vermelho denunciando novas lágrimas


- Não te ia mandar embora, amor… - tentei sorrir levemente e colei o meu corpo ao dele – Não ia… Claro, que eu não ia…


A minha face enterrou-se no pescoço dele, e os meus lábios percorreram com beijos toda a sua pele perfumada, com o maior dos carinhos e doçura.


- Oh meu Deus… Essa é minha Adriana, essa doçura… - a voz dele arrastou-se e quando alcancei a visão do seu rosto, vi o mais belo sorriso esboçado por aquela boca linda


- É? – perguntei num sorriso louco


- É… Essa sua doçura toda… É minha menininha… - ele apertou-me mais contra si e encheu-me de beijinhos no rosto


- Então toma conta da tua menininha… Por favor… - pedi com as lágrimas nos olhos – Preciso muito de ti…


- Vem, eu cuido de você… - as mãos quentes dele uniram-se às minhas e muito calmamente, num compasso calmo ditado pelos nossos corações caminhámos juntos até ao quarto


Sentei-me na cama, sentia-me morta, completamente a desmoronar, mas tê-lo do meu lado, ainda me dava forçar, para erguer a cabeça e seguir em frente.


- Vamo’ vestir seu pijama, amô!


Ele pousou as minhas coisas junto de mim na cama e muito pacientemente e com todo o carinho do mundo, como já tinha demonstrado naqueles últimos dias, colocou-se na minha frente esperando que erguesse os braços para me despir. Assim o fiz, ergui-os no ar e num movimento rápido, mas nem por isso menos cuidadoso, ele despiu-me a camisola. Logo de seguida, inclinou-se sobre o meu corpo até alcançar o fecho do soutien e desapertou-o, deixando-me semi-nua na sua frente, completamente despojada para ele, o homem que eu amava. Vestiu-me uma t-shirt larga, que pelo cheiro identifiquei rapidamente como sendo dele.


- Levanta um pouquinho, amô… - pediu num sussurro meigo e eu obedeci


As mãos dele percorreram delicadamente os meus quadris e fizeram as minhas calças deslizar até ao chão, acabei por me livrar delas. As mãos dele fizeram o percurso inverso e subiram pelas minhas ancas acima, com um enorme desejo, podia ler no seu toque que esse o consumia totalmente. A minha boca colou-se à dele e senti-o estremecer na surpresa do beijo. As minhas mãos procuraram a camisola dele e muito facilmente a despiram, para novamente as nossas bocas e línguas se fundirem.


- Amô, a gente não tem de… - a voz sempre doce e preocupada dele fez-se ouvir


- Eu quero, amor… - sussurrei ofegante de encontro aos lábios dele


Na carícia leve de um beijo, senti as mãos dele enterrarem-se dentro da sua t-shirt que cobria o meu corpo, e acariciarem-me o peito. Gemi baixinho nos lábios dele, mas ainda assim as nossas línguas uniram-se. Do meu peito, as suas mãos viajaram até às minhas costas, percorreram a minha espinha de cima abaixo e repousaram nos meus glúteos. Tremi que nem uma criança pequena, assustada por um berro, nos braços dele. Não sabia muito bem porquê, mas eu e David namorávamos há oito meses, e ele ainda conseguia mexer comigo como se fosse a primeira vez que me beijasse, a primeira vez que me tocasse… As minhas mãos desceram até ao fecho das calças de David e desapertaram-no assim como ao botão. Num gesto trapalhão, mas completamente enternecedor, ele descalçou-se aos saltinhos fazendo um esforço por manter as nossas bocas unidas, apesar de usar as duas mãos para se livrar dos ténis. Rimo-nos levemente da situação e beijámo-nos mais uma vez. A minha mão enterrou-se no bolso traseiro das suas calças e sacou da sua carteira. Numa divisória pequenina, encontrei um preservativo e tirei-o segurando-o entre os dentes. Atirei a carteira para o chão do quarto e despi-lhe as calças que aterraram direitinhas nos seus pés. Ele desviou os cabelos do meu rosto e eu tirei a bolsinha do preservativo dos dentes, jogando-a sobre a cama. As grandes mãos dele, sempre numa temperatura exageradamente alta, despiram-me a camisola deixando-me novamente exposta para o homem que amava. Ele sorriu, não foi um sorriso depravado, de quem procura meramente prazer. Foi um sorriso terno, genuíno, de alguém que ama e anseia por ser amado. Senti o corpo dele colar-se ao meu e fazer-me cair sobre a cama. A minha língua procurou a dele, mesmo sem as nossas bocas estarem unidas e as minhas mãos viajaram até à linha abaixo da cintura de David, acariciei-o e da parte dele apenas obtive gemidos em surdina. Percebi claramente pela sua intensidade que ele se estava a controlar, em cada gesto seu adivinhava uma nova expressão de carinho e em cada carícia uma nova tentativa de me amar, na calmaria de cada batimento lento dos nossos corações. Senti-o finalmente excitado e despi-lhe os boxers. Ele fez exactamente o mesmo e ainda com o meu corpo debaixo do seu, fez os seus polegares deslizarem pelos meus quadris, livrando-se da única peça de roupa que ainda impedia a união dos nossos corpos. Estremeci quando finalmente vi que estávamos despidos um para o outro e completamente preparados para uma nova noite de entrega mútua e incessante. Dei uma pequena reviravolta ficando sobre o corpo dele e sentei-me nas suas coxas. Procurei o preservativo por entre os lençóis enrodilhados e ao fim de alguns segundos finalmente encontrei-o. Abri-o devagarinho ao mesmo tempo que acariciava cuidadosamente David e ele gemia deliciado. Coloquei-lho lentamente, com muito cuidado para não o magoar, mas com muita adrenalina para o provocar.


- Cê me deixa louco… - disse em timbre de gemido ao mesmo tempo que inclinava a sua cabeça levemente para trás e mordia o lábio inferior


Quando terminei de o colocar, senti uns braços quentes envolverem-me e puxarem-me de volta para os lençóis, ele tinha novamente o controlo. Abri as pernas devagarinho e sem ser preciso qualquer pedido ou concessão ele entrou em mim. Num ritmo lento, mas intenso, naquela noite o David tocou cada recanto de mim, o mais escondido, o mais intimo, e a partir desse momento, o mais seu. Tocou-me o coração, mas mais do que isso, entrou no mais profundo de mim: tocou-me a alma. Teimou em manter um ritmo calmo, doce, mas ambos os corpos pediam mais e nós queríamos mais, mas eu sabia… Sabia tão bem, que ele se estava a controlar. As minhas pernas encolheram-se levemente, cruzaram-se nas costas dele e puxaram-no mais para mim. As minhas mãos ganharam vida própria e percorreram cada traço das suas costas e tronco perfeitamente esculpido pelas horas de treino.


- Mais, David… Quero mais… - sussurrei baixinho no ouvido dele


- Não quero magoar você… - falou num tom calmo, parando de unir os nossos corpos, mas permanecendo dentro de mim


- Não magoas… Podes acelerar… - confessei num sorriso, tentando tranquilizá-lo


Eu estava frágil pela morte do meu avô, era verdade, mas mais do que nunca, precisava sentir-me amada. E depois daqueles dias de sufoco e das provas de David, de que estaria do meu lado, nos piores e nos melhores momentos, eu precisava ter a certeza de mais do que os nossos corações, também as nossas almas estavam unidas para sempre. Assim que lhe dei consentimento para tal, senti-o entrar em mim com mais força e mais rápido, não me magoou e deu-me uma sensação de protecção indescritível. Nem que procurasse por cem palavras, mil eufemismos e dez mil charadas eu conseguiria descrever o quanto ele me fez sentir amada e protegida nessa noite. A minha respiração acelerou juntamente com a dele e com os gemidos que abandonaram os nossos lábios. O ritmo não parou de aumentar e só culminou quando nos braços um do outro, gememos o nome de ambos e atingimos o máximo prazer. Senti-o pulsar dentro de mim e sorri-lhe de forma terna e carinhosa.


- Eu amo-te… - sussurrei ainda ofegante


- Eu também te amo, meu anjo… Muito… - disse num sorriso e roubou-me um beijo longo e muito, muito doce...

Resposta :)

Olá leitores,


de forma a aliviar a preocupação dos meus leitores que já de diversas formas revelaram a preocupação na desistência de escrever esta fic, em prol da outra, quero desde já esclarecer, que continuarei a postar nesta com a mesma regularidade que o fazia, sim eu sei que não é muita, mas a escola nem sempre o permite. A nova fic em nada, prejudicará esta, podem ficar descansados. Continuarei a escrever esta fic, com a diferença que em vez de ser autora de apenas esta, passo a dar a cara por outra! Mas nunca me descuidarei desta, podem ficar sossegados.

Obrigada pela vossa atenção e pelos comentários, que são muito importantes para me dar incentivo e continuar.

Sem mais nenhum assunto, espero mais logo presentear-vos com um novo capítulo.



Beijinhos

Drii

domingo, 10 de abril de 2011

Novidade!

Olá leitores,


Antes de mais quero agradecer os comentários e as vossas visitas que são sempre muito importantes para manter o anímo e vontade de postar. Respondendo a quem já me perguntou, eu ainda não sei quando postarei novamente.

Mas não é esse assunto que me trás por cá hoje. Venho informar-vos que iniciarei uma nova fic, em colaboração com a escritora Paula, da fic: http://meandyoujustustoo.blogspot.com/.

É um projecto novo que nada tem a ver com este, mas que eu espero que seja do vosso agrado, e que sigam e comentem! :)


Vamos postar o primeiro capítulo o mais rápido possível!


Beijinhos

Drii <3

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Capítulo 106 - O tempo leva tudo menos a saudade... (Parte IV)

Assim que os braços do David envolveram o meu corpo foi o bastante para me sentir segura, não dissemos mais nada no aeroporto, ele limitou-se a unir a sua boca à minha e muito calmamente demonstrar-me que estava ali para tudo, só para mim, como mais ninguém estava. Descemos até às garagens, entrámos no carro dele e conduziu até à minha casa para me deixar. Já eram quase seis da manhã quando chegámos e uma luz difusa impregnava pelo corredor do hall. Ele pousou as suas coisas no chão da entrada, deu-me a mão e puxou-me até ao sofá da sala. Sentei-me completamente em silêncio, ele tomou o espaço livre do meu lado direito e juntou-se a mim na falta de palavras. O ambiente estava pesado e o silêncio que dominou durante largos minutos incomodou-me e mais do que isso, magoou-me. Precisava de um carinho, de um conforto e ele limitou-se a personificar a mudez.

- David… - a minha voz soluçou levemente, acompanhando as lágrimas que cobriam as minhas faces

- Porquê que você não falou nada pra mim? – a voz dele era de clara desilusão

Olhei-o e apenas o vi com os cotovelos apoiados nos joelhos e o queixo pendente nos puxos cerrados e erguidos no ar. Fitava o nada, fitava um ponto no vazio e era incapaz de me olhar.

- Era o teu sonho… Não te podia fazer isso, amor… - tentei manter a calma, mas as lágrimas continuaram a fluir pelo meu rosto

- Era o meu sonho, mas será que você não entende que eu te amo, pô? Que me preocupo com você e que se você me tivesse falado, eu tinha apanhado o primeiro avião pra tar junto de você?

Foi a primeira vez que me olhou desde que estávamos naquele espaço, os seus olhos verdes estavam raiados de vermelho e foi claro, tão claro para mim, que o tinha magoado ao omitir-lhe aquilo durante aqueles dias, mas se o tinha feito, a minha única preocupação era resguardá-lo e permitir que ele vivesse o seu sonho em plenitude, sem nada nem ninguém para atrapalhar.

- Mas era exactamente isso que eu não queria! Que te viesses embora! – falei mais irritada por estar a ser tão incompreendida

- Por isso me mentiu! – o tom de acusação que ele usou magoou-me e despoletou ainda mais as lágrimas nos meus olhos

- Bolas, David! Será que não entendes que se te menti foi apenas a pensar em ti, no melhor para ti e no teu sonho! Será que não entendes isso? – a minha voz saiu mais alterada, ergui-me do meu lugar e as lágrimas dominaram-me violentamente

O silêncio voltou a imperar, apenas se ouvia o meu soluçar descontrolado, virei-lhe costas e enterrei a cara nas mãos.

- Oh amô… - senti o calor do seu corpo em redor de mim – Me perdoa…

Os braços dele viraram-me para si delicadamente e eu rendi-me, deixei-me repousar nos seus braços e chorei indefinidamente.

- Só queria o melhor para ti… - sussurrei ainda com as lágrimas nos olhos e nas faces

- Shiu, não fala mais nada… Fui um babaca, amô! Me perdoa! – os polegares dele enxugaram carinhosamente as minhas faces e inevitavelmente ao sentir o seu toque as minhas pálpebras fecharam-se

- Beija-me… Preciso sentir-te… - pedi num sussurro e a minha respiração pesada embateu contra os lábios dele

Um sorriso completamente delicioso surgiu-lhe na face, as mãos dele entalaram a minha face entre as mesmas e os seus lábios caminharam vagarosamente até encontrarem os meus. As nossas línguas acabaram por seguir o ritmo dos nossos lábios e envolveram-se num bailado harmonioso e apaixonante. Selámos o beijo com leves carícias apenas nos nossos lábios e senti-me a pessoa mais amada do mundo. Depois dos cinco dias mais difíceis da minha vida sem David aquele momento era de completa rendição e entrega.

- Obrigada, por estares aqui do meu lado… - falei muito baixinho junto da sua boca

- Não tem que agradecer, vou ficar sempre… Não vou deixar você nunca, mas não me exclui nunca mais da sua vida desse jeito… - pediu num olhar meigo

- Não, não voltarei a fazê-lo… - prometi-lhe e tencionava cumprir, especialmente depois de ver como aquela mentira o tinha magoado

- Como estão seus pais, amô? – falou carinhosamente e iniciou uma brincadeira com os meus cabelos

- Como é que achas? A minha mãe está péssima, o meu pai está a apoiá-la, mas perder um pai nunca é fácil… Já pra não falar na minha avó que está um caco! – as lágrimas nos meus olhos já tinham secado, mas a tristeza ainda dominava a minha voz e expressões

- E como cê tá, amô? – a voz dele tremeu, ele sabia bem a resposta à pergunta e era completamente desnecessário tê-la feito

- Como, amor? Tu já me conheces, meu anjo… - passei as mãos pelos doces caracóis de menino que lhe cobriam a cabeça

- Tem razão… Pergunta boba! – ele uniu rapidamente os seus lábios aos meus e as nossas línguas envolveram-se momentaneamente – Eu te amo… Não vou deixar você nunca, agora eu tou aqui…

O meu corpo enterrou-se no dele, as nossas salivas misturaram-se novamente e um beijo calmo

e doce, deu lugar a um mais louco e completamente frenético. Um enorme desejo de amar e ser amada, despoletou em mim.

- Faz-me tua, David… - a minha voz saiu embargada pelo sabor da sua boca – Quero ser tua… - pedi num sussurro que direccionou a minha respiração descompassada de encontro aos lábios entreabertos dele

- Amô… - o tom de voz dele foi receoso, como se tivesse medo de me magoar, de me forçar a algo que eu não queria, mas eu queria, queria tanto e precisava tanto

- David, eu estou a pedir… Faz-me tua… - um leve sorriso delineou os meus lábios e deixei que o corpo dele me guiasse até ao meu quarto

As mãos dele seguraram-me pelos quadris e elevando-me do chão deitou-me suavemente em cima da cama. Não movi um único músculo e deixei que ele me movimentasse como era seu desejo. O seu corpo cobriu o meu e a sua boca abarcou a minha de forma calma e serena, já não o sentia assim tão perto há tanto tempo que não consegui evitar e um arrepio percorreu a minha espinha desde o topo.

- Tem certeza, amô? – perguntou com todo o carinho do mundo ao mesmo tempo que cobria o meu rosto de beijinhos rematando com um na ponta do nariz

- Toda a certeza do mundo… - o meu sussurro vagaroso foi suficiente para o convencer

Ele olhou-me nos olhos e só por isso soube que falava a verdade, eu precisava muito sentir-me amada, aquilo iria diminuir a dor que me inundava a alma. Os lábios dele desceram para o meu pescoço, para a minha barriga, levantou a camisola e acabou por cobrir o meu abdómen de leves beijinhos e por onde passou, no caminho recto que traçou até ao meio dos meus seios, deixou um rasto de saliva. Com todo o carinho e cuidado do mundo despiu-me a camisola e logo de seguida desapertou-me as calças. Ele teve de se levantar e muito calmamente despiu-mas e eu nem me movi da minha posição na cama. Vi-o desembaraçar-se das suas calças e da camisola, para novamente colar o seu corpo ao meu. O seu peso começou a ser desconfortável e ele apercebeu-se disso, pois deslocou levemente o seu corpo para o lado, mas mantendo-se em cima de ti, porém sem exercer a mesma força. Dessa vez foi a minha boca a procurar a dele e ainda mal a tinha encontrado e já as nossas línguas se balançavam harmoniosamente na união dos nossos lábios. As minhas mãos tocaram as suas costas despidas e as minhas unhas ligeiramente acusantes enterraram-se na carne dele, mas parei assim que o ouvi silvar de dor. Por entre beijos e gemidos abafados livrámo-nos das últimas peças de roupa que ainda cobriam os nossos corpos e ali, naquele quarto, despojados um para o outro entregámo-nos como nunca antes o havíamos feito. O corpo dele movimentava-se dentro do meu delicadamente, podia ler em cada gesto seu uma atenção redobrada para não me magoar. Sabia que ele apenas me queria amar, lentamente, num ritmo só nosso e que funcionava perfeitamente bem em sintonia. Foi nesse nosso ritmo que atingimos o prazer máximo e gememos em surdina, selando o momento. E depois daquele dia, um dos piores da minha vida… Consegui finalmente sentir-me amada, completamente desejada pelo homem que eu mais queria.

***

Naquela noite, depois das longas juras de amor trocadas e de todo o carinho de David, acabámos por adormecer logo após a entrega mútua. Acordei horas depois, não sei precisar ao certo quantas, mas o sol já ia alto e o David já não estava mais do meu lado na cama. Levantei-me sobressaltada, e mesmo descalça e somente enrolada no lençol que cobriu a minha cama na noite anterior, corri pela casa fora tentando encontrar David e não precisei procurar muito. Lá estava ele, sentado no sofá da sala, já vestido com uns jeans de lavagem escura e uma camisola preta. A sua expressão era indecifrável e o seu olhar prendia-se no vácuo, o que me deixou levemente perturbada. Tentei aproximar-me dele em silêncio, mas acabei por esbarrar contra uma mesinha, mas apressei-me para que nada caísse. Apesar do meu esforço, acabei por fazer barulho o que despertou o David do seu transe.

- Ué amô, já tá de pé? – perguntou muito calmamente num breve sorriso

- Sim… Estás acordado há muito tempo?

- Nem por isso, só o tempo de tomar um banho e vestir uma roupa lavada!

- Ainda bem… - não evitei e consegui sorrir momentaneamente – E o meu beijão? – perguntei assim que me acerquei dele

- Tá aqui… Vem cá, vem… - a voz carinhosa dele arrastou-se, ao mesmo tempo que me puxou para me sentar do seu lado no sofá

Uniu as nossas bocas, mas ao contrário do que eu esperava o “beijão”, tinha saído bem mais aquém das expectativas e das minhas necessidades, era-me muito fácil compreender que ele ainda estava magoado pela mentira. Ainda assim esbocei um sorriso educado e iniciei um diálogo.

- Vou tomar um banho… - levantei-me do sofá

- O Ruben ligou, amô! – avisou num tom calmo, mas inquietante

- Sim? O que é que ele queria? – eu sabia bem sobre o que o assunto devia tratar, mas preferia nem sequer saber

- Ele ligou pra avisar que hoje vai haver o velório o dia todo e amanhã de manhã é o funeral… - o meu corpo todo tremeu com aquelas palavras e fui incapaz de me mover ou dizer fosse o que fosse

O David levantou-se, tomou lugar junto de mim e envolveu-me no seu abraço.

- Vais estar do meu lado, não vais, David? – perguntei com medo que ele me abandonasse ainda devido à mentira

- Vou, claro que eu vou, muleca… Vou ficar do seu lado sempre! – o sorriso dele acalmou o meu coração

- Vou tomar banho então, quero ir para o velório logo que possível!

- Eu vou tar esperando você aqui, pedi dois dias ao Benfica por motivos pessoais… - ele disse aquilo de uma forma que eu não pude contestar devido à mentira que já tinha imposto na sua ausência

- Obrigada… - foi a única coisa que eu podia dizer e pelos vistos foi a única que ele queria ouvir, pois a sua boca esboçou um sorriso de alívio

***

Passei o dia todo no velório do lado da minha família, o David não me largou um segundo que fosse, mas eu estava consequentemente a chorar devido aos “pêsames” e “condolências” que me eram dados. Ainda que David mantivesse a mínima distância, a sua mão nunca se separava da minha e o seu olhar nunca abandonava a minha figura sofredora. Foi um dia longo, no fim já nem tinha forças para chorar, queria passar ali a noite, ficar até a última pessoa sair e poder despedir-me do meu avô, mas não me foi permitido isso especialmente por David.

- Amô, isso não vai te fazer bem… Vamo’ pra casa, vamo? – não podia resistir à voz carinhosa dele, mas o meu desejo sobrepunha-se

- É o meu avô, David! Ele está ali sozinho… Vai ficar aqui a noite toda sozinho… Deixa-me fazer-lhe companhia… - pedi com as lágrimas nos olhos

- Amô, isso não vai fazer bem pra você, nem pra sua família, vamo pra casa, por favô… Amanhã cê se despede dele, agora vamo pra casa… - a voz carinhosa dele despedaçou totalmente o meu coração

Não disse mais nada ao ver que não iria sair vencedora, dei um beijo em todos os que amava, um último olhar ao corpo já gélido e cadáver do meu avô, e saí de mãos dadas com o homem da minha vida. Passei a noite nos braços dele, chorando e durante um único momento que fosse, ele nunca se queixou, nunca me pediu silêncio, nunca me pediu que desse tréguas para conseguir descansar. Limitou-se no seu doce acto de altruísmo, a afagar-me os cabelos com todo o cuidado do mundo e noite dentro seguir acordado, embalado pelo cair incessante das minhas lágrimas. A manhã que eu tanto temia acabou por chegar mais cedo do que aquilo que eu precisava, finalmente eu tinha parado de chorar e o David já dormia sereno do meu lado. Levantei-me, fui até à sala, sentei-me no sofá e coloquei no meu colo papel e caneta. Iria escrever uma carta de despedida, sim! Um sabia que o meu avô não a ia ler, mas colocar essa hipótese, sossegava-me o coração. Com as lágrimas na cara, comecei a redigi-la…

“Querido avô,

Hoje é o dia mais triste da minha vida, é o dia em que me despeço de si e nunca pensei fazê-lo tão cedo. Sim, eu sei que não gosta de despedidas, que para si não existem “Adeus”, mas sim “Até já”.

Embora eu queira respeitar e honrar essas suas perseveranças, hoje não é dia para tal. Não quando o perdi, não quando me vejo confrontada com a dura realidade da existência de um “Até já” indefinido, que não me dá qualquer certeza de quando, ou mesmo, se de que algum dia o voltarei a encontrar.

Lembro-me de ser pequena, sonharmos juntos, com um futuro… Fizemos planos, castelos no ar que foram tão facilmente demolidos por isto que chamam de vida, por esta tão grande e injusta incógnita. Eu pergunto-me… Porquê o senhor? Porquê agora, avôzinho? Porquê agora, quando eu ainda tinha tanto pra lhe dar, tanto para lhe provar, tanto para lhe mostrar? Ainda era suposto ver-me acabar a faculdade… A sua primeira neta formada! Era suposto ver-me casar, caminhar até ao altar, na direcção do homem que amo, com tanta certeza como o rio corre para o mar. Era suposto conhecer os seus bisnetos e aí, e só aí, quem sabe, e só porque tem mesmo de ser, morrer velhinho, do lado da avó que sem si está e ficará tão sozinha. Era suposto… Era, era, era! Era, mas nada será assim, infelizmente…

O avô não estará mais aqui para nenhum destes momentos, a avó permanecerá sozinha e o meu mundo mais pobre… Menos alegre, com menos cor, sem sol! Acredito que a esta hora o avô esteja bem melhor, pelo menos não sofre e essa é a única coisa que me faz sentir bem… Se é que podemos chamar bem a isto.

Ao menos sei que não sofre mais, e sim… Ninguém merece sofrer, mas o avô não merecia mesmo! Mas porquê? Porquê o avô? Porquê um castigo tão grande de Deus, terei eu feito assim tanto mal, para receber um castigo assim? Ficar sem o avô… Tão cedo e quando eu ainda precisava tanto de si! Vou cumprir a promessa que fiz no leito da sua morte, quando os seus lábios soltaram o último suspiro e ser feliz! Prometi-lho e irei sê-lo, muito feliz! Mas prometa-me o avô também uma coisa… Nunca se esqueça de mim e um dia… Só um dia… Senão for pedir muito, perdoe-me por não o ter conseguido salvar, mas acho que estava fora do meu alcance…

Hoje despeço-me de si, porque o Destino assim obrigada, mas garanto, de si jamais me esquecerei…! Porque lembrá-lo é fácil, esquecê-lo, nunca mais!

Descanse em paz, eu orarei por si! Com amor, da sua neta Adriana”

Quando acabei de escrever a carta, não sabia o que me doía mais, se alma ou o coração. Sentia-me podre, sentia-me menos eu, mais pobre… Sentia-me sem o meu avô, uma das razões da minha existência. A respiração pesada de David invadiu o ar, as mãos dele pousaram nos meus ombros e limitei-me a tocá-las levemente.

- Já acordada? – ele rodeou o sofá e sentou-se do meu lado

- Não tinha sono… - enxuguei as lágrimas que ao fim de tantas, já não incomodavam como inicialmente David

- Tava escrevendo? – ele olhou para o papel sob o meu colo

- Sim… Uma carta de despedida… Para o meu avô… - o meu coração mirrou, mas dos meus olhos nem uma única lágrima brotou – Queres ler? – estendia-a na sua direcção

- Me deixa? – o David contraiu-se quando lhe estendi o papel, calculei que tivesse medo de invadir o meu espaço, mas esse já era mais do que dele

- Claro… - sorri levemente e ele agarrou o papel meio a medo – Podes ler, sempre problemas… Para ti não há segredos! – tranquilizei-o

Ele sorriu-me e lentamente os seus olhos colaram-se à carta muito atentos. Permanecemos em silêncio, ouvi a respiração de David acelerar pouco a pouco, e ainda ele ia a meio quando duas lágrimas tingiram o papel de carta. Comovi-me… Como é que era possível ele sofrer com uma dor que não era a dele, com uma perda que não era a dele, pelo simples facto de me amar, e de me querer ver bem? Toquei-lhe levemente o rosto enxugando o rasto das lágrimas, mas ele continuou a ler. Quando deu a leitura por terminada, fechou os olhos, dobrou o papel de carta em três e finalmente ganhou coragem para me olhar. Limitei-me a sorrir-lhe levemente e ele aproximou-se muito devagar, para não invadir o meu espaço sem pedir permissão.

- Não chores, amor… - pedi assim que o envolvi nos meus braços e as lágrimas fluíram nos meus olhos

- Me mata saber que cê tá sofrendo desse jeito… - sussurrou junto do meu ouvido, ainda soluçando

- Shiu… Sofrer faz parte da vida, fica do meu lado e acredita que dói tudo muito menos… - a minha vista alcançou o seu rosto e os seus olhos esverdeados estavam mais límpidos do que nunca

- Não é castigo de Deus, meu amô… É a lei da vida! Não vê isso como um castigo, mas como mais um teste… - percebi facilmente que ele lera atentamente e absorvera cada linha

- Não aguento mais prova nenhuma… São provas demais! – murmurei sentindo as lágrimas travarem-me a voz sonante

- Aguenta, amô! Cê é forte, que nem seu avô ensinou você a ser! – não deu pra controlar um leve sorriso – E… Não havia nada que você pudesse fazer, não se culpa… Não tava ao seu alcance, os médicos não conseguiram porque já não tinha de ser, estava escrito assim, meu anjo…

As palavras dele trouxeram uma paz que reinou sobre mim, deixei-me ficar nos braços dele toda a manhã até chegar a hora de seguir para o tão doloroso momento. Era chegada a hora, ele estava ali do meu lado e quem mais me amava… também não faltaria!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Capítulo 106 - O tempo leva tudo menos a saudade... (Parte III)

A médica falou comigo, procurou acalmar-me e deixou-me na enfermaria, para ir dar a trágica notícia à minha família. Eu preferi não estar presente e nem estava em condições para tal. Quando saí da enfermaria deparei-me com a minha família chorosa por já saber da notícia. A primeira pessoa de quem me aproximei foi a minha avó, ela estava muito em baixo. Coloquei-me de cóqueras na sua frente e dei-lhe as mãos.

- O teu avô deixou-me, neta… - sussurrou num choro descontrolado

- Oh avó, não fiques assim… - pedi também com lágrimas nos olhos – O avô ia ficar cá a sofrer, estava na hora de ele partir… - eu tinha de ser forte pelas pessoas que eu amava e que eu sabia que também estavam a sofrer

A minha avó não me respondeu mais, deixou-se chorar e eu tive de me afastar para não ir abaixo novamente. O Ruben apanhou-me no corredor e puxou-me contra si, ali eu sabia que estava em porto seguro para chorar o que quisesse e eu precisava muito de fazê-lo.

- Devias ir para casa, Adriana… - aconselhou calmamente assim que me desembaracei do seu abraço

- Não quero deixar a minha família! – afirmei num tom que me saiu mais fraco do que o que tinha programado

- Adriana, não há mais nada que possas fazer aqui… - o Ruben tentou ser calmo no discurso para não me magoar mais do que o momento por si só já o fazia

- Oh Ruben, não posso deixar o meu avô aqui… - solucei levemente, mas não deixei que as lágrimas voltassem a cair

- Adriana… Vá lá, tu sabes que agora não há mais nada a fazer aqui, são burocracias que só os teus pais podem resolver…

Eu sabia que ele tinha razão, mas como é que eu deixava para trás, ali, sozinha naquele hospital, uma das pessoas que mais amei na minha vida?

- Tudo bem… Eu vou para casa… - disse derrotada, contra o Ruben não valia a pena lutar

- Eu levo-te… E pelo caminho ligo ao David a avisar… - disse passando o braço sobre os meus ombros e iniciando ambos um percurso

- Não, isso não! Ele volta amanhã de manhã, não há necessidade de o avisares antes…

- Adriana, tu vais precisar do David agora e ele vai ficar magoado contigo se tu o privares de estar contigo num momento como este… - eu sabia que o Ruben estava correcto no seu discurso, mas eu não estava disposta a ceder, não podia obrigar o David a falhar um dos sonhos dele por minha causa

Eu sabia que lhe tinha mentido aqueles quatros dias, quando em cada telefonema ele me perguntava se estava tudo bem e eu lhe respondia que sim, que estava tudo óptimo, quando na verdade estava tudo menos óptimo e o meu avô estava em estado terminal no hospital, mas eu esperava que ele me pudesse perdoar ao ver que apenas o tinha feito para próprio bem dele e dos seus sonhos.

- Ruben, esquece… Ele vem amanhã, não há necessidade de sobressaltá-lo com esta situação! Promete-me que não lhe vais dizer nada! – só assim eu poderia ter certezas de que ele não iria fazer nenhum disparate

- Adriana…

- Ruben, promete! – pedi travando a nossa marcha lenta e colocando-me na frente dele

- Tudo bem, eu prometo… - disse completamente derrotado

- Obrigada! – suspirei de alívio e retomei o meu caminho lado a lado com ele. ***

(David)

O estágio correu melhor do que nunca, toda a gente era muito simpática e eu me adaptei ao grupo de trabalho muito facilmente. O mister tava contente com o meu desempenho e com as capacidades que eu mostrava em campo o que me deixou super aliviado e com vontade de dar ainda mais de mim no primeiro jogo pela selecção que seria um amigável, dali a um mês. Mas por outro lado me sentia estranho, sempre que ligava a Adriana algo parecia não bater certo, ela estava sempre esquisita e ou muito me enganava com voz de choro, mas sempre que eu perguntava se estava tudo bem, ela me respondia que melhor era impossível. Partir no dia seguinte bem cedo para Lisboa e estava no quarto descansando, ia ligar para ela quando alguém bateu na porta do meu quarto.

- Quem é? – perguntei me dirigindo à mesma

- Sou eu, Davi! – era a voz do mister, o Ramirez e o Luisão me fizeram sinal para que abrisse e tomaram posição do meu lado

- Oi, mister! – dissemos em uníssono

- Oi, meninos! – ele entrou no quarto e eu fechei a porta

- Algum problema? – perguntou o Luisão calmamente

- Só queria falar com vocês… - disse com um breve sorriso nos lábios

- Fale, mister, somos todos ouvidos! – falei prontamente

- Primeiro quero agradecer o vosso empenho pela camisola da selecção brasileiro durante esses 5 dias de estágio.

- Não fizemos mais do que era nossa obrigação, mister! – falou o Ramirez sorrindo

- Segundo, quero dizer que estou muito feliz com as minhas escolhas… Vocês os dois – ele se dirigiu ao Lu e ao Ramirez – já conhecia o trabalho e sempre me surpreenderam pela positiva, já você Davi, foi a primeira vez que foi chamada á selecção!

- E fiquei muito feliz, Mister! – interrompi com um sorriso sincero

- Eu sei, e devo dizer que você me surpreendeu pela positiva, é um menino cheio de garra, com vontade de aprender e melhorar e tem tudo pra chegar lá por isso vai puder contar com o seu nome nas próximas convocatórias!

Meu coração me ia saltando pela boca de tanta felicidade, tive uma vontade louca de ter a minha muleca do meu lado, contar a novidade pra ela e lhe dar um beijo naquela boca da qual eu não provava o sabor há já cinco dias.

- Obrigado, pelo voto de confiança, mister! Eu vou tentar não desiludir o senhor…

- Eu sei que não vai, muleque! Faz como tem feito até agora e não irá desiludir! – o sorriso do mister me tranquilizou

- Obrigado! – sorri educadamente

- Bem e tá faltando uma coisa! Tenho uma boa notícia para vocês! Vão poder apanhar o avião mais cedo pra casa o que significa em que em vez de chegarem no fim da manhã em Portugal, vão chegar de madrugada, bem cedinho! – informou sorridente

- Que bom! – afirmei, imaginando que iria regressar mais cedo pros braços da minha mulequinha

- Ah vou ver mais cedo minha mulher e minha filha! – falou o Luisão deliciado

- Façam boa viagem, garotos! A gente se vê daqui a um mês! – nos despedimos todos com um aperto de mão e um abraço e me preparei para ligar pra minha boneca contando as novidades



***


(Adriana)


Cheguei a casa, tomei um duche e limpei todos os vestígios de maquilhagem. Sequei o cabelo, vesti o pijama e deitei-me no sofá a chorar silenciosamente. Não tinha vontade de me mexer sequer do meu lugar, nem de ver televisão ou falar com alguém, mas foi exactamente nesse instante, quando esse pensamento se cruzou na minha cabeça, que o meu telemóvel tocou e a imagem do David inundou o visor.

- Olá, amor… - disse baixinho enxugando as lágrimas e recompondo-me

- Oi, amô… - ele fez uma breve pausa e eu sustive a respiração com medo que ele se apercebesse de alguma coisa – Tá chorando…?

- Não, estou com uma das minhas alergias, amor…

- Adriana, não me mente! – percebi que dificilmente o enganaria

- Amor, é sério… É só uma alergia… - funguei e limpei as novas lágrimas que caiam

- Cê não me engana, Adriana! Pára de me mentir, cê anda estranha desde o início da semana, desde que eu fui embora! – o tom de voz dele começava a soar desesperada

- Amor, não se passa nada…

- Foi alguma coisa que eu fiz? Foi por eu ter vindo embora? Cê me odeia por te ter deixado aí sozinha, não é…? – a desilusão travou a sua voz e eu sabia que ele estava a ficar magoado com o meu silêncio

- Amor, não é nada disso! Não fizeste nada de mal e eu estou muito feliz por estares aí, nem imaginas quanto! – um sorriso leve traçou os meus lábios

- Então porquê cê tá assim desse jeito? – ele suspirou pesadamente

- Amor, eu estou bem, a sério…

- Adriana, cê sabe que eu te conheço…

- Amor, confia em mim! Está tudo bem! A sério! – eu não queria contar-lhe aquilo por telefone sabendo que o iria deixar num estado de impotência sem igual

- Não fiquei convencido, mas não vou insistir mais não… - um silêncio aterrador instalou-se e dominou a nossa conversa – O mister veio conversar com a gente…

- Então, amor? Problemas? – o meu coração palpitou mais forte ao imaginar que ele não tinha gostado do desempenho do David

- Nada disso, ele veio dizer que tinha gostado muito do meu desempenho e que podia contar com o meu nome nas próximas convocatórias e para o primeiro jogo amigável daqui a um mês! – ele estava visivelmente entusiasmado e só de imaginar a sua expressão de menino com um enorme sorriso nos lábios, fiquei deliciada

- Oh amor, que bom! Parabéns! – tentei parecer o mais animada possível, mas devido á situação não consegui dar o melhor de mim e não pareci tão feliz como realmente estava por ele

- Obrigada… - o agradecimento dele saiu seco e eu percebi que o tinha desiludido, mas quando ele regressasse talvez pudesse compreender e perdoar-me

- Amanhã de manhã estou lá no aeroporto à tua espera… - informei para quebrar o mau momento

- Não vou chegar mais amanhã ao final da manhã…

- Não? – perguntei com estranheza

- Não… O mister nos dispensou mais cedo, e vou chegar às cinco da manhã a Lisboa…

- Eu vou buscar-te então! – prontifiquei-me, precisava tanto vê-lo

- Não precisa, amô…

- Claro que precisa! Eu quero ir, a menos que não queiras que eu vá!

- Quero, é claro que eu quero! – ele respondeu imediatamente

- Então às cinco da manhã lá estarei! – respondi calmamente

- Mas vem de táxi, amô!

- Vou, não te preocupes!

- Preocupo sempre, muleca! – o seu tom de voz carinhoso derreteu o meu coraçãozinho

- Não precisas!

- Tá bom, teimosinha! Então nos vemos dentro de algumas horas… - suspirou de forma saudosa

- Sim, lá estarei! Até logo… - sorri levemente com a ideia de estar novamente no conforto dos seus braços

- Até logo… Te amo! – disse de forma babada e eu não consegui deixar de sorrir apaixonadamente ao ouvir aquelas duas palavrinhas lindas

- Eu também, Dê, muito! – disse de forma sincera e desliguei logo após ouvir um sussurro breve dele

O tempo até ter de o ir buscar foi passado no sofá, a chorar… Precisava muito do carinho de David, de me sentir amada e já não faltava quase nada para o ter de novo do meu lado. Às quatro da manhã e sem ainda levar uma única hora de sono, vesti uma roupa confortável e que marcava bem o meu luto e dirigi-me ao aeroporto de Lisboa, de táxi.



Olhei o painel de chegadas e o avião dele já tinha aterrado apesar de faltarem dez minutos para as cinco da manhã. Sentei-me num dos bancos do aeroporto que estava quase vazio. Ao fundo do enorme edifício via uma família toda junta tomando provavelmente aquela que seria a sua última refeição antes de embarcar. Nos balcões de informação e check-in apenas os funcionários do aeroporto que àquela hora estavam reduzidos a muito poucos. Duas senhoras serviam no pequeno café do aeroporto e um ou dois seguranças dobravam as esquinas, pelo menos não havia qualquer sinal dos paparazzi o que me deixou mais calma e ciente de que poderia receber David em condições. Deixei a minha cabeça tombar entre as minhas mãos e apoiei os cotovelos nas coxas das minhas pernas, sem quase dar conta e seguindo o que fizera durante toda a tarde, as lágrimas quiseram apoderar-se do meu rosto, dos meus olhos, que estavam claramente vencidos pelo cansaço. Quando ergui a cabeça na direcção da porta de saída dos desembarques vi a única pessoa que precisava ver, o meu coração parou e as lágrimas dissiparam-se.


***


(David)


Depois de falar com ela, se ainda me restavam dúvidas de que algo não estava bem, eu tirei elas. Ela estava estranha, não ficou tão feliz como eu esperava e ainda pareceu que me ia pegar no aeroporto por favor. O avião aterrou dez minutos mais cedo do que o esperado e calmamente me encaminhei para ir pegar minhas bagagens. Quando saí pela porta de embarque, meus olhos acompanharam a vontade do meu coração e procuraram ela e quando a acharam, não podia ter deixado em pior estado meu coração. Ela estava dobrada sobre o seu próprio corpo e quando levantou os seus olhos para me achar, vi sua face cobertas de lágrimas, seu rosto dominado pela dor e estava vestida de negro o que raramente acontecia. Foi como se na minha cabeça um puzzle incompleto se instalasse, nada fazia sentido pra mim e eu precisava encontrar respostas para aquela cena com que me deparava e pro comportamento dela durante a minha ausência. Mal me viu, ela caminhou pra mim num passo acelerado e se jogou nos meus braços, não consegui fazer mais nada sem ser apertar ela forte.


- Amor… - ela continuou chorando e sua voz tremelicou


- Amô, que cê tem? Porque tá chorando? – meus olhos procuraram o rosto dela e assim que nossos olhares se tocaram, as lágrimas fluíram mais e mais dos seus doces olhos


- O meu avô, David… - foi a única coisa que ela falou e foi a única coisa que eu precisei escutar pra juntar todas as pecinhas do meu puzzle

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Capítulo 106 - O tempo leva tudo menos a saudade (Parte II)

Dedicado à Elsa, que hoje faz anos. Parabéns! :D
***

Cheguei a casa e o David ligou-me horas depois, queria apenas ouvir a voz dele e ter a certeza de que estava bem.


- Olá, amor… - atendi calmamente


- Oi, amô! - Como estás? Fizeste boa viagem?


- Calma, eu tou bem, a viagem foi longa, mas eu estou óptimo! – ele tentou acalmar-me, mas era impossível, sempre que ele estava longe o meu coração ficava apertadinho


- Como é que é isso aí? Já conheceste os teus colegas? – sorri nervosa por ele


- Conheci alguns e estou dividindo quarto com o Ramires e o Luisão! – senti-o sorrir por pelo menos ter alguém conhecido por perto, estava então em porto seguro


- Ainda bem, amor! Manda-lhes beijinhos meus depois…


- Eu mando… E você, como está?


- Estou bem… - tentei sorrir, mas sem saber porquê os meus lábios não desenharam a minha vontade


De repente um sentimento estranho consumiu-me, sentia que estava á beira de perder qualquer coisa, de perder alguém… Alguém que me era muito especial, eu sentia-o! Era como se um vazio me consumisse à priori, tremi levemente e os pêlos dos meus braços ficaram eriçados. Alguma coisa estava para acontecer, eu sentia-o…


- Tem certeza? Sua voz está estranha, meio sumida… - o David conhecia-me apenas pelo meu tom de voz e ele tinha razão, aquele momento tinha-me deixado tudo menos bem


- Tenho pois, estou óptima! Isto deve ser só saudade!


- Logo, logo, eu tou aí do seu lado, gata!


- Eu vou esperar, quando chegares vou-te buscar ao aeroporto, sim? – tentei sorrir, mas mais uma vez os meus lábios não acederam ao meu pedido


- Que bom, vou correr pra te abraçar, amô! – o entusiasmo na sua voz era notável


- Podes correr, à vontade, vou-te dar um beijão do tamanho do mundo, vou matar todas as saudades! – disse imaginando o momento, o que me aqueceu momentaneamente o coração irrequieto


- Nossa, essa eu vou cobrar amô, viu? – ele riu-se e eu fi-lo também


- Não precisas de cobrar porque eu vou dar na mesma…!


- Melhor ainda! Amô… Vou ter que ir, vamo dar uma volta pelo centro de estágio!


- Vai lá, amor… Aproveita bem o momento, tu mereces! – e finalmente consegui sorrir de orgulho dele, mas aquela maldita sensação não desaparecia


- Vou aproveitar sim… Não me esquece, tá?


- Nunca, amor, nunca! Amo-te! – declarei calmamente


- Eu também, garota, muito! Qualquer coisa me liga, sim?


- Ligo, claro que ligo! Fica bem, beijo, amo-te!


- Também te amo, muleca, mais do que tudo nessa vida! – sorri genuinamente e por segundos aquela tumultuosa sensação desapareceu, mas somente até eu desligar a chamada com David


Olhei em meu redor, estava sozinha em casa, a Bianca tinha ido passar uns dias a casa do Salvio, senti-me só. Como há muito tempo não me sentia, pelo menos desde que estava com David e nada me entristeceu mais do que essa sensação.

Queria tê-lo ali e a minha vontade era ligar para ele no segundo seguinte, dizer-lhe que não estava bem, que sentia que algo ia acontecer e que o queria ali comigo, mas os meus pensamentos foram interrompidos pelo tocar do meu telemóvel, era a minha mãe.


- Olá, mãe! – engoli as lágrimas que queriam escorrer-me pelo rosto sem eu saber muito bem porquê


- Olá, filha… - a voz dela saiu fraca, meio rouca, como se tivesse estado a chorar


- Ei, mãe… Que vozinha é essa, está tudo bem? – automaticamente o meu coração bombeou mais fortemente e parou durante breves segundos


- Oh amor… Tens de vir ter ao hospital da Luz, o avô deu entrada no hospital, sentiu-se mal… - eu senti imediatamente que havia mais alguma coisa que a minha mãe não me estava a dizer


- Mãe, o que é que aconteceu? A mãe está a esconder-me alguma coisa… Eu sei! – pedi desesperada já com as primeiras lágrimas a quererem cair


- Amor, o avô não está bem e quer ver-te…


- Mãe, mas o avô está… - tive medo que ela me estivesse a ocultar a sua morte e tremi só de pensar nessa possibilidade


- Sim, está vivo, amor… Ele só se sentiu mal, mas quer ver-te…


- Então eu vou já para aí! Dê-me quinze minutos!


- Tudo bem, filha… Mas vem com calma, sim? – a preocupação na voz dela fez-me compreender que algo grave se estava a passar, eu só não sabia o quê, mas algo era


- Sim, não se preocupe! Até já, amo-a! – disse já correndo para apanhar as minhas coisas


- Eu também… - as últimas palavras proferidas pela minha mãe antes de desligar a chamada já foram embaladas pela doce melodia de um choro sincero


Apanhei as minhas chaves de casa, o meu telemóvel, a minha mala e o meu casaco, e corri para o hospital envolta no medo de perder um dos homens da minha vida.

***


Quando lá cheguei deparei-me com um cenário avassalador e só aí, e acho que só aí tive noção da dimensão da gravidade do assunto.

Estavam os meus pais na sala, os meus tios, os meus primos, a minha avó que chorava muito abatida, o Ruben e os seus pais. Olhei com estranheza, Ruben só estava presente nestes momentos quando era necessário dar-me força e se ele ali estava era porque eu iria precisar dela.


- Mãe? – a minha voz soluçou levemente


Quando a minha mãe me olhou vi-lhe o sofrimento nos olhos, algo não estava bem e aparentemente eu era a única que não sabia o quê.


- Oh filha… - a minha mãe tentou falar, eu tentei ouvi-la, mas era não conseguiu proferir o discurso


- Deixe tia, nós falamos com ela… - interveio o Ruben puxando a sua mãe pela mão


Afastaram-me até ao corredor de acesso aos quartos, estava vazio, tanto como a minha alma. Sentia-me completamente á deriva, ali sem David, em território desconhecido e temível, apesar de rodeada de pessoas que me amavam. Pousei as minhas coisas no chão e encarei o Ruben e a Tia Bela.


- Algum de vocês me vai dizer o que o aconteceu? – perguntei tentando manter-me calma


- Adriana, primeiro promete-me que vais manter a calma, por favor… - pediu o Ruben pousando a sua mão carinhosamente no meu ombro


- Ruben, não vou prometer nada até saber o que se passou com o meu avô! – afirmei já amedrontada, mas nem isso me impediu de ser firme nas palavras


- Filho, calma… Eu falo com ela! – a tia Bela assumiu o controlo da situação


- Tia Bela, o que raio se está a passar? Porque é que não dizem de uma vez? – eu estava a desesperar e as primeiras lágrimas começaram a inundar as minhas faces rosadas


- Calma, meu doce… - ela afagou-me o cabelo carinhosamente – Ouve, o teu avô já não estava bem, tu já sabias que o cancro tinha voltado certo?


- Sim… A minha mãe contou-me, foi em princípios de Agosto que o médico diagnosticou isso, mas sim… - eu já temia o pior, já sabia o que a mãe de Ruben me ia dizer, mas eu só ia acreditar ouvindo


- Pois bem… Ele sentiu-se mal, ele lutou tanto quando pôde, mas os médicos fizeram exames e o teu avô entrou em fase terminal… - a voz da tia falhou ao proferir as últimas palavras e o meu coração parou ao mesmo tempo que o meu corpo congelou


Foi aquela a confirmação que eu precisava, o meu corpo sofreu um enorme abalo e as lágrimas que tinham parado de cair de repente começaram a escorrer novamente.


- Não, deve haver algum erro, só pode! – tentei convencer-me de que aquilo não passava de um engano, mas essa falsa possibilidade só me matava ainda mais por dentro


Olhei para os dois e os meus olhos imploravam que eles me dissessem o que eu queria e precisava ouvir, ainda que fosse mentira, só para eu me sentir melhor, só para doer menos.


- Lamento, Adriana… - o Ruben olhou-me misericordioso e eu senti-me desmoronar naquele momento


- Não, não pode ser… - gesticulei negativamente com a cabeça e só senti os braços de Ruben envolverem-me calmamente


Cerrei os olhos e entreguei o sofrimento nos braços de um dos que mais me amava, ele afagou-me o cabelo e eu acabei por perder a noção de quanto tempo estive assim.

Depois de me ter acalmado e assimilado toda a informação, soltei-me do abraço de Ruben e a tia Bela já não estava mais.


- Vais ter de ser forte miúda… - ele enxugou-me os restos de lágrimas que ainda humedeciam a minha cara num recanto ou outro


Eu sabia que ele me pedia isso porque sabia que a hora da morte do meu avô estava perto, eu não estava preparada, mas não havia maneira de o evitar.


- Eu não consigo… - sussurrei sem forças - Consegues, claro que consegues! Tens-me a mim contigo e eu vou ligar ao David, ele pede dispensa e regressa para ao pé de ti – disse num sorriso muito carinhoso e calmo, que já lhe era super característico


- Nada disso! Não ligues ao David! Não quero atrapalhar o sonho dele, eu fico bem sem ele… - tentei convencer-me a mim mesma disso, quando na verdade sabia que era tudo menos verdade


- Oh Adriana, a mim não me enganas… - Ruben, se avisas o David, nunca mais te falo!


- Adriana, ele não te vai perdoar senão estiver do teu lado numa altura tão difícil como esta! É o sonho dele sim, mas ele ama-te e nada na vida dele é mais importante do que ver-te bem e feliz!


- Ruben, não há nada que ele possa fazer e se me queres ver feliz é deixá-lo lá a viver o sonho dele para me encher de orgulho! – declarei mais calma e mais certa de que isso era verdade, apesar de eu saber que iria precisar dele – Além disso, dentro de 4 dias ele está de volta!


- Tudo bem… Tu é que sabes, mas pelo menos conta-lhe que o teu avô está no hospital…


- Não, Ruben! Até parece que não conheces o David… Ele enfiava-se no primeiro avião para Portugal, nada disso! Eu vou esperar que ele volte e conto-lhe…


O Ruben olhou-me com uma expressão que lhe adivinhei facilmente, ele temia que quando ele chegasse já fosse tarde demais.


- Ruben, eu sei o que faço, promete que não contas ao David!


- Tudo bem, eu prometo… Mas depois não digas que não te avisei, ele vai ficar magoado por saber que não lhe contaste…


- Tudo bem! Isso depois eu resolvo com ele!


- Tu é que sabes, miúda! O melhor por ti, já sabes!


- Obrigada, Ru! – abracei-o com força, ele era o meu único conforto ali


***


Nos quatro dias que se seguiram eu acabei por mal conseguir ver o meu avô, a família era grande e o máximo que eu conseguia estar no quarto nunca eram mais de cinco minutos, mas sempre que o fazia, fazia-o sozinha.


- Então, avô, sente-se melhor? – perguntei num sorriso segurando a sua mão


O meu avô sempre fora um homem charmoso apesar dos seus setenta anos. Um senhor bem-posto, meio calvo, de cabelos lisos curtos e grisalhos, o rosto ainda com traços joviais e muito poucos vincos. Tinha um sorriso delicioso e uma vivacidade alucinante apesar da velhice. Mas como ele dizia “ser velho não é um mal, é um estatuto”, e ele orgulhava-se da idade que tinha e apesar daquela idade ensinara muita coisa aos netos. Mas eu sempre fui a menina dos seus olhos, fui a única neta que ele ajudou a criar bem de perto, que viu crescer, gatinhar, andar, ter o primeiro dentinho, a neta que ensinou a tocar piano e os seus melhores ensinamentos, os mais antigos e mais sábios.


- Sim, estou melhor, minha querida… Não devias preocupar-te tanto! – disse-me com um sorriso leve, mas ele estava mais em baixo naquele dia


- Claro que preocupo avô… Afinal é meu avô, se eu não me preocupar consigo quem o fará? – disse num tom de brincadeira


- Tens razão, minha pequena… Tens razão! – ele bateu levemente com a sua mão livre na minha que segurava a outra dele com muito carinho e cuidado


- Vai ver que em menos de uns tempos o avô está fora daqui, lá na sua casinha a tratar dos animais! – eu sabia que era mentira, mas não podia dizer ao meu avô que sabia que ia morrer, até porque ele desconhecia a gravidade do seu caso


- Oh meu amor, eu tenho dúvidas… Muitas dúvidas, eu nem ao meu dia de anos chegarei! – o meu avô estava a um mês de comemorar o seu aniversário


- Não diga isso, avô! Claro que vai, fazer os seus 71 anos, cheio de orgulho, sim? – beijei-lhe a mão


- Diz-me uma coisa… Quando é que vais buscar o David?


- Amanhã, avô… Ele chega de manhã cedo… - disse num breve sorriso


- Vocês estão bem, não estão? – perguntou visivelmente preocupado


- Estamos avô, claro que estamos… - sorri levemente ao relembrar o meu amor


- Ainda bem… Sabes? – ele colocou um ar muito sério e assertivo – Eu gosto muito daquele rapaz, ele faz-te bem, faz-te feliz!


- Faz, meu avô, lá isso faz… - sorri levemente e ele também


- Sabes como eu gostava de te puder ver casar com ele? Teres filhos dele? Ele é um bom rapaz e sabes o que é que me faz gostar tanto dele? É que quando vejo os olhos dele postos em ti, tenho a certeza, mas a certeza de que ele te ama e de que isso nunca mudará!


- Não sei, mas espero bem que o avô tenha razão!


- Promete-me que não te vais separar do David e vais ser feliz!


- Prometo, claro que prometo! – sorri levemente e o meu coração tremeu


- Quero muito ver-te feliz e sei que o David vai cuidar muito bem de ti, meu amor! – lembro-me do sorriso doce que o meu avô esboçou


- Quando me vir no altar do lado dele logo me diz! – pisquei-lhe o olho em jeito de brincadeira


- Oh minha filha, não lá chegarei… Mas folgo em saber que casarão, fazem um belo casal, não ligues ao que as tuas primas dizem da vossa diferença de alturas! Aquilo é ciúme! – rimo-nos baixinho – Tenho saudades do rapaz!


- Oh avô, ele chega amanhã de manhã e à tarde eu trago-o cá para o ver! – sorri levemente em jeito de promessa


- Oh minha neta, e eu lá sei se chegarei até amanhã! – disse calmamente, ele sempre tivera esse hábito de falar muito naturalmente da morte e nunca a temer, apesar da sua vontade de viver ser muita


- Oh avô, nem diga essas coi… - não consegui acabar de falar pois o meu avô começou a revirar os olhos e a máquina dos batimentos a apitar continuamente – Avô! Avô! – o desespero percorreu o meu corpo quando ele ainda de olhos abertos não me respondia


Corri na direcção do botão vermelho do lado da cama do hospital e continuei a abaná-lo.

A minha mão pousou sobre o coração dele e senti-o bater muito fraquinho, quase imperceptível, tremi de medo e senti bem no fundo de mim, na parte mais pura da minha alma que a hora dele tinha chegado. Os meus olhos derramaram algumas lágrimas e os médicos entraram de rompante pela sala a dentro. Começaram os movimentos de reanimação e devo dizer que não existe experiência mais traumatizante do que assistir a um momento desses quando um ente que nos é querido está envolvido.


- É melhor sair… - aconselhou uma enfermeira mais idosa


- Não, deixe-me ficar… Eu quero ficar! – não tirei os olhos na cama onde o meu avô era reanimado, mas as lágrimas continuavam a correr silenciosamente


Era um sofrimento impiedoso aquele, a cada descarga eléctrica uma nova esperança de ver os batimentos dele no monitor, mas nada!


- Carregar a 400! Afastem-se! – o médico bombeou novamente uma descarga e o corpo inanimado do meu avô deu um leve salto da cama


Entrei em desespero, queria ajudar, mas não havia nada que eu pudesse ou soubesse fazer. Levei as mãos à cara e o meu choro intensificou-se.


- Salvem-no, por favor! – pediu num gesto egoísta sabendo que ele ficaria a sofrer se sobrevivesse


O médico repetiu a carga e uma linha continua e recta percorreu o monitor.


- Hora da morte: 12h34m – declarou a médica bonita de olhos azuis e cabelos loiros


Caí em mim, não havia nada a fazer, o mau presságio estava completo e a tragédia estava consumada. Os médicos afastaram-se e eu aproximei-me levemente. Ele ainda tinha os olhos abertos e eu fiz sinal à enfermeira para que os fechasse. Toquei-lhe, ainda estava quente, a sua pele estava macia, como se ainda estivesse vivo, mas quando lhe toquei no peito não senti nada. Não havia mais nenhum bater, era como se do seu lado esquerdo do tronco não houvesse nada, estivesse oca. E de repente aquele coração que me amava parara de bater, numa questão de segundos. Mas o meu ainda batia tão lentamente, tão calmo e seguro e ainda amando tanto um dos homens da minha vida.

As lágrimas eram uma constante, mas mantinha-me silenciosa, eu sabia que o meu avô não gostava de dramatismos, nem tão pouco de despedidas. O “adeus” era uma palavra que nunca constara no seu dicionário. Inclinei-me sobre o seu corpo, a minha mão agarrou a dele já sem forças.


- Até sempre, avozinho… - sussurrei beijando-lhe a testa ao mesmo tempo que cerrei as pálpebras para deixar as lágrimas caírem dos meus olhos que já ardiam


E foi assim, na leve e doce carícia de um beijo arrastado pela brisa de um vento medonho da vida, que no leito da sua morte me despedi do meu avôzinho, um dos homens da minha vida e lhe abri caminho para a sua partida, e talvez quem sabe, um dia nos encontraríamos, aqui… Lá… Onde? Sei lá! Mas eu sabia… Que de um jeito ou de outro, aqui ou noutro lugar qualquer, ele jamais me abandonaria.