A médica falou comigo, procurou acalmar-me e deixou-me na enfermaria, para ir dar a trágica notícia à minha família. Eu preferi não estar presente e nem estava em condições para tal. Quando saí da enfermaria deparei-me com a minha família chorosa por já saber da notícia. A primeira pessoa de quem me aproximei foi a minha avó, ela estava muito em baixo. Coloquei-me de cóqueras na sua frente e dei-lhe as mãos.
- O teu avô deixou-me, neta… - sussurrou num choro descontrolado
- Oh avó, não fiques assim… - pedi também com lágrimas nos olhos – O avô ia ficar cá a sofrer, estava na hora de ele partir… - eu tinha de ser forte pelas pessoas que eu amava e que eu sabia que também estavam a sofrer
A minha avó não me respondeu mais, deixou-se chorar e eu tive de me afastar para não ir abaixo novamente. O Ruben apanhou-me no corredor e puxou-me contra si, ali eu sabia que estava em porto seguro para chorar o que quisesse e eu precisava muito de fazê-lo.
- Devias ir para casa, Adriana… - aconselhou calmamente assim que me desembaracei do seu abraço
- Não quero deixar a minha família! – afirmei num tom que me saiu mais fraco do que o que tinha programado
- Adriana, não há mais nada que possas fazer aqui… - o Ruben tentou ser calmo no discurso para não me magoar mais do que o momento por si só já o fazia
- Oh Ruben, não posso deixar o meu avô aqui… - solucei levemente, mas não deixei que as lágrimas voltassem a cair
- Adriana… Vá lá, tu sabes que agora não há mais nada a fazer aqui, são burocracias que só os teus pais podem resolver…
Eu sabia que ele tinha razão, mas como é que eu deixava para trás, ali, sozinha naquele hospital, uma das pessoas que mais amei na minha vida?
- Tudo bem… Eu vou para casa… - disse derrotada, contra o Ruben não valia a pena lutar
- Eu levo-te… E pelo caminho ligo ao David a avisar… - disse passando o braço sobre os meus ombros e iniciando ambos um percurso
- Não, isso não! Ele volta amanhã de manhã, não há necessidade de o avisares antes…
- Adriana, tu vais precisar do David agora e ele vai ficar magoado contigo se tu o privares de estar contigo num momento como este… - eu sabia que o Ruben estava correcto no seu discurso, mas eu não estava disposta a ceder, não podia obrigar o David a falhar um dos sonhos dele por minha causa
Eu sabia que lhe tinha mentido aqueles quatros dias, quando em cada telefonema ele me perguntava se estava tudo bem e eu lhe respondia que sim, que estava tudo óptimo, quando na verdade estava tudo menos óptimo e o meu avô estava em estado terminal no hospital, mas eu esperava que ele me pudesse perdoar ao ver que apenas o tinha feito para próprio bem dele e dos seus sonhos.
- Ruben, esquece… Ele vem amanhã, não há necessidade de sobressaltá-lo com esta situação! Promete-me que não lhe vais dizer nada! – só assim eu poderia ter certezas de que ele não iria fazer nenhum disparate
- Adriana…
- Ruben, promete! – pedi travando a nossa marcha lenta e colocando-me na frente dele
- Tudo bem, eu prometo… - disse completamente derrotado
- Obrigada! – suspirei de alívio e retomei o meu caminho lado a lado com ele. ***
(David)
O estágio correu melhor do que nunca, toda a gente era muito simpática e eu me adaptei ao grupo de trabalho muito facilmente. O mister tava contente com o meu desempenho e com as capacidades que eu mostrava em campo o que me deixou super aliviado e com vontade de dar ainda mais de mim no primeiro jogo pela selecção que seria um amigável, dali a um mês. Mas por outro lado me sentia estranho, sempre que ligava a Adriana algo parecia não bater certo, ela estava sempre esquisita e ou muito me enganava com voz de choro, mas sempre que eu perguntava se estava tudo bem, ela me respondia que melhor era impossível. Partir no dia seguinte bem cedo para Lisboa e estava no quarto descansando, ia ligar para ela quando alguém bateu na porta do meu quarto.
- Quem é? – perguntei me dirigindo à mesma
- Sou eu, Davi! – era a voz do mister, o Ramirez e o Luisão me fizeram sinal para que abrisse e tomaram posição do meu lado
- Oi, mister! – dissemos em uníssono
- Oi, meninos! – ele entrou no quarto e eu fechei a porta
- Algum problema? – perguntou o Luisão calmamente
- Só queria falar com vocês… - disse com um breve sorriso nos lábios
- Fale, mister, somos todos ouvidos! – falei prontamente
- Primeiro quero agradecer o vosso empenho pela camisola da selecção brasileiro durante esses 5 dias de estágio.
- Não fizemos mais do que era nossa obrigação, mister! – falou o Ramirez sorrindo
- Segundo, quero dizer que estou muito feliz com as minhas escolhas… Vocês os dois – ele se dirigiu ao Lu e ao Ramirez – já conhecia o trabalho e sempre me surpreenderam pela positiva, já você Davi, foi a primeira vez que foi chamada á selecção!
- E fiquei muito feliz, Mister! – interrompi com um sorriso sincero
- Eu sei, e devo dizer que você me surpreendeu pela positiva, é um menino cheio de garra, com vontade de aprender e melhorar e tem tudo pra chegar lá por isso vai puder contar com o seu nome nas próximas convocatórias!
Meu coração me ia saltando pela boca de tanta felicidade, tive uma vontade louca de ter a minha muleca do meu lado, contar a novidade pra ela e lhe dar um beijo naquela boca da qual eu não provava o sabor há já cinco dias.
- Obrigado, pelo voto de confiança, mister! Eu vou tentar não desiludir o senhor…
- Eu sei que não vai, muleque! Faz como tem feito até agora e não irá desiludir! – o sorriso do mister me tranquilizou
- Obrigado! – sorri educadamente
- Bem e tá faltando uma coisa! Tenho uma boa notícia para vocês! Vão poder apanhar o avião mais cedo pra casa o que significa em que em vez de chegarem no fim da manhã em Portugal, vão chegar de madrugada, bem cedinho! – informou sorridente
- Que bom! – afirmei, imaginando que iria regressar mais cedo pros braços da minha mulequinha
- Ah vou ver mais cedo minha mulher e minha filha! – falou o Luisão deliciado
- Façam boa viagem, garotos! A gente se vê daqui a um mês! – nos despedimos todos com um aperto de mão e um abraço e me preparei para ligar pra minha boneca contando as novidades
***
(Adriana)
Cheguei a casa, tomei um duche e limpei todos os vestígios de maquilhagem. Sequei o cabelo, vesti o pijama e deitei-me no sofá a chorar silenciosamente. Não tinha vontade de me mexer sequer do meu lugar, nem de ver televisão ou falar com alguém, mas foi exactamente nesse instante, quando esse pensamento se cruzou na minha cabeça, que o meu telemóvel tocou e a imagem do David inundou o visor.
- Olá, amor… - disse baixinho enxugando as lágrimas e recompondo-me
- Oi, amô… - ele fez uma breve pausa e eu sustive a respiração com medo que ele se apercebesse de alguma coisa – Tá chorando…?
- Não, estou com uma das minhas alergias, amor…
- Adriana, não me mente! – percebi que dificilmente o enganaria
- Amor, é sério… É só uma alergia… - funguei e limpei as novas lágrimas que caiam
- Cê não me engana, Adriana! Pára de me mentir, cê anda estranha desde o início da semana, desde que eu fui embora! – o tom de voz dele começava a soar desesperada
- Amor, não se passa nada…
- Foi alguma coisa que eu fiz? Foi por eu ter vindo embora? Cê me odeia por te ter deixado aí sozinha, não é…? – a desilusão travou a sua voz e eu sabia que ele estava a ficar magoado com o meu silêncio
- Amor, não é nada disso! Não fizeste nada de mal e eu estou muito feliz por estares aí, nem imaginas quanto! – um sorriso leve traçou os meus lábios
- Então porquê cê tá assim desse jeito? – ele suspirou pesadamente
- Amor, eu estou bem, a sério…
- Adriana, cê sabe que eu te conheço…
- Amor, confia em mim! Está tudo bem! A sério! – eu não queria contar-lhe aquilo por telefone sabendo que o iria deixar num estado de impotência sem igual
- Não fiquei convencido, mas não vou insistir mais não… - um silêncio aterrador instalou-se e dominou a nossa conversa – O mister veio conversar com a gente…
- Então, amor? Problemas? – o meu coração palpitou mais forte ao imaginar que ele não tinha gostado do desempenho do David
- Nada disso, ele veio dizer que tinha gostado muito do meu desempenho e que podia contar com o meu nome nas próximas convocatórias e para o primeiro jogo amigável daqui a um mês! – ele estava visivelmente entusiasmado e só de imaginar a sua expressão de menino com um enorme sorriso nos lábios, fiquei deliciada
- Oh amor, que bom! Parabéns! – tentei parecer o mais animada possível, mas devido á situação não consegui dar o melhor de mim e não pareci tão feliz como realmente estava por ele
- Obrigada… - o agradecimento dele saiu seco e eu percebi que o tinha desiludido, mas quando ele regressasse talvez pudesse compreender e perdoar-me
- Amanhã de manhã estou lá no aeroporto à tua espera… - informei para quebrar o mau momento
- Não vou chegar mais amanhã ao final da manhã…
- Não? – perguntei com estranheza
- Não… O mister nos dispensou mais cedo, e vou chegar às cinco da manhã a Lisboa…
- Eu vou buscar-te então! – prontifiquei-me, precisava tanto vê-lo
- Não precisa, amô…
- Claro que precisa! Eu quero ir, a menos que não queiras que eu vá!
- Quero, é claro que eu quero! – ele respondeu imediatamente
- Então às cinco da manhã lá estarei! – respondi calmamente
- Mas vem de táxi, amô!
- Vou, não te preocupes!
- Preocupo sempre, muleca! – o seu tom de voz carinhoso derreteu o meu coraçãozinho
- Não precisas!
- Tá bom, teimosinha! Então nos vemos dentro de algumas horas… - suspirou de forma saudosa
- Sim, lá estarei! Até logo… - sorri levemente com a ideia de estar novamente no conforto dos seus braços
- Até logo… Te amo! – disse de forma babada e eu não consegui deixar de sorrir apaixonadamente ao ouvir aquelas duas palavrinhas lindas
- Eu também, Dê, muito! – disse de forma sincera e desliguei logo após ouvir um sussurro breve dele
O tempo até ter de o ir buscar foi passado no sofá, a chorar… Precisava muito do carinho de David, de me sentir amada e já não faltava quase nada para o ter de novo do meu lado. Às quatro da manhã e sem ainda levar uma única hora de sono, vesti uma roupa confortável e que marcava bem o meu luto e dirigi-me ao aeroporto de Lisboa, de táxi.

Olhei o painel de chegadas e o avião dele já tinha aterrado apesar de faltarem dez minutos para as cinco da manhã. Sentei-me num dos bancos do aeroporto que estava quase vazio. Ao fundo do enorme edifício via uma família toda junta tomando provavelmente aquela que seria a sua última refeição antes de embarcar. Nos balcões de informação e check-in apenas os funcionários do aeroporto que àquela hora estavam reduzidos a muito poucos. Duas senhoras serviam no pequeno café do aeroporto e um ou dois seguranças dobravam as esquinas, pelo menos não havia qualquer sinal dos paparazzi o que me deixou mais calma e ciente de que poderia receber David em condições. Deixei a minha cabeça tombar entre as minhas mãos e apoiei os cotovelos nas coxas das minhas pernas, sem quase dar conta e seguindo o que fizera durante toda a tarde, as lágrimas quiseram apoderar-se do meu rosto, dos meus olhos, que estavam claramente vencidos pelo cansaço. Quando ergui a cabeça na direcção da porta de saída dos desembarques vi a única pessoa que precisava ver, o meu coração parou e as lágrimas dissiparam-se.
***
(David)
Depois de falar com ela, se ainda me restavam dúvidas de que algo não estava bem, eu tirei elas. Ela estava estranha, não ficou tão feliz como eu esperava e ainda pareceu que me ia pegar no aeroporto por favor. O avião aterrou dez minutos mais cedo do que o esperado e calmamente me encaminhei para ir pegar minhas bagagens. Quando saí pela porta de embarque, meus olhos acompanharam a vontade do meu coração e procuraram ela e quando a acharam, não podia ter deixado em pior estado meu coração. Ela estava dobrada sobre o seu próprio corpo e quando levantou os seus olhos para me achar, vi sua face cobertas de lágrimas, seu rosto dominado pela dor e estava vestida de negro o que raramente acontecia. Foi como se na minha cabeça um puzzle incompleto se instalasse, nada fazia sentido pra mim e eu precisava encontrar respostas para aquela cena com que me deparava e pro comportamento dela durante a minha ausência. Mal me viu, ela caminhou pra mim num passo acelerado e se jogou nos meus braços, não consegui fazer mais nada sem ser apertar ela forte.
- Amor… - ela continuou chorando e sua voz tremelicou
- Amô, que cê tem? Porque tá chorando? – meus olhos procuraram o rosto dela e assim que nossos olhares se tocaram, as lágrimas fluíram mais e mais dos seus doces olhos
- O meu avô, David… - foi a única coisa que ela falou e foi a única coisa que eu precisei escutar pra juntar todas as pecinhas do meu puzzle
13 comentários:
ai amor t.t
estes teus capítulos, deixam-me louca! louquinha e quero muito mais!
és a escritora mais talentosa que eu conheço, e tenho sorte por seres só minha! amo-te muito, beijão <3<3<3<3<3
Puseste-me com a lágrima no cantinho do olho. Está mesmo perfeito, fantástico!! Nem sei mais que dizer! :D
Tu és um génio, Adriana, um génio da escrita!
Continua!!
Beijãooo <3<3
Não há duvidas
Eu AMO esta fic :D
Fico sempre triste quando um acaba :/
Agora quero o proximo sim?
Beijinhos
A'S
Lindoooo!
Love it *-*
Agora nesta fase a Adriana vai precisar muito do apoio do David ^^
Quero mais Drii :D
Beijão**
Júca*
E aqui estou eu outra vez a chorar... está verdadeiramente real.
Impressionante. É impossivel ficar indiferente a todos os sentimentos que contas e como os descreves.
A tua escrita é especial.
Beijinhos ;)
Ai rapariga, o que dizer disto? Sinceramente sei o que é perder alguém que se ama e tu sabes muito bem disso. Quando em tempos fizeste referência a um acidente de carro recordas-te do que te disse? Pois bem são situações e momentos diferentes mas ainda assim não consegui deixar de relembrar essa altura. Quer dizer para ser correcta relembrar não é o termo certo, pois não posso relembrar algo que nunca esqueci e nem esquecerei, a dor da perda!
Mas não é isso que está aqui em causa, mas sim a tua capacidade, dom, talento (chama-lhe o que quiseres) que tens. Já falei por diversas vezes e não me canso de repetir, o que fazes é algo ÚNICO temos por aí muita gente que auto titulam-se como escritor(as) e que não chegam sequer aos teus calcanhares, sim podem até chamarem-me de ignorante por falar do que não entendo, mas para mim não interessa os prémios que determinado escritor(a) pode ter, mas sim o que sinto quando leio algo escrito. Posto isto, tenho a dizer que tu com a tua escrita, transites-me muito mais do que diversas pessoas que fazem disso profissão conseguem.
Confesso que ao inicio comecei a ler a tua Fic por achar piada ao facto de escreveres sobre alguém que não conheces pessoalmente, mas que admiras de alguma forma como pessoa e jogador. Hoje digo-te que leio pelo simples facto de teres conseguido transformar o que seria uma simples história em algo grandioso (pelo menos para mim é), abordas temas reais e a forma como o fazes é única.
Dri, por muito que posso deixar aqui escrito, nunca conseguirei transmitir-te o que sinto ao ler ALGO TEU (seja a Fic ou textos) por isso vou terminar por aqui, este comentário com um simples pedido.
CONTINUA, QUERO MAIS!!!
Sei que o pedido é simples, mas que nem sempre temos vontade em continuar, mas nunca desistas de escrever. A FIC tem que terminar um dia, como tudo na vida nada é eterno, mas quando esse dia chegar espero sinceramente ter o privilégio de continuar a ler o que escreves!
Sei que entendes o que quero dizer, já sabes pelo menos da minha parte nunca desistirei de te "dar na cabeça" sempre que achar que estás a precisar!
Adoro o que fazes e como fazes, mas acima de tudo adoro-te a ti, minha linda!!!
Beijocas
Catarina Silva
Tadinha da Adriana!! :(
Estes teus capiitulOs matam-me.. QuerO sempre maiis..
COntiinua.. =)
BjnhO
tá lindo como sempre! acho qe fico um pouco repetitiva nos meus comentários á tua fic, pq são sempre maravilhosos e como digo, escreves muitissimo bem!
Beijinhoos e continua, nunca desistas!
Dri Maria, está tão tão bonito este cap! Não tenho palavras mesmo. Estou a ressacar por mais :)
Beijão
Guigui
Aiii só espero que ele nao fique magoado com ela :S
amei como sempre né?
beijinho
está perfeito adriana ! continua , parabéns !
ah , já agora , sera que me podes dizer o nome da música , e quem a canta ? obrigada :)
Dri:
falta aqui a opção GOSTO para eu colocar no comentário da Caty. :) :)
Beijinhos
Amei
Maravilhoso
Quero mais
Bjs Monik
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