sábado, 9 de julho de 2011

Capítulo 110 – Amar a 628 Km de distância também é amar (Parte IV)



Os dias que sucederam a conquista do título foram de autêntica loucura. David andou envolto numa parafernália de entrevistas, conferências de imprensa e jantares de comemoração, dos quais eu me auto-excluí pois não tinha grande paciência para aquela amálgama de gente e estava a entrar numa fase de exames da faculdade. Naquela manhã ele iria ter o último treino antes das férias e o primeiro depois da conquista do título, e iria encerrar o dia com uma entrevista ao Daniel Oliveira para o programa “Alta Definição”, o que significava que iria vê-lo somente à noite, na melhor das hipóteses. Acordei cedo pois tinha um longo dia pela frente, tão ou mais longo ainda, que o de David. Tomei o meu habitual duche, desta vez de água quase fria tendo em conta a época do ano e o calor ameno que já se fazia sentir, e eram oito horas da manhã quando fiquei pronta para sair de casa.



Como sempre, e como não podia deixar de ser uma vez que se tornara hábito desde sempre, a primeira paragem do dia deu-se no Starbucks dos armazéns do Chiado, onde comi o meu brownie com toda a calma do mundo e levei um café duplo para beber pelo caminho. Apanhei o autocarro no sentido à faculdade e fui dando leves goles no café de travo amargo, mas que eu fazia questão de tomar sem qualquer açúcar. Assim que avistei a minha paragem, carreguei no stop e saí, rumo à faculdade. Mas foi no caminho, ao passar pelo quiosque do Sr. Zé, que a capa de um jornal desportivo me fez abrandar o passo.
“David Luiz, a 24 horas do Real Madrid!” – li em letras bem gordas na capa
- Bom dia, menina! Está à procura de alguma coisa? – o Sr. Zé reconheceu-me, mas como senti os meus olhos inundarem-se de lágrimas, desci os óculos de sol para que ele não pudesse ver
- Bom dia, Sr. Zé… Sim, estava aqui à procura de uma revista… - menti tentando ler as letras mais pequenas na capa, mas que falavam acerca do assunto
- Posso ajudá-la? – questionou-me, sempre dono da sua excelente educação
- Sim, quero a Happy e a Activa deste mês por favor… - pedi-as somente para camuflar a minha compra do jornal desportivo – E pode ser isto também… - passei-lhe o jornal para a mão discretamente
- Ah, vai levar A BOLA, sim senhora! Olhe que o seu David hoje faz capa… Vem aí um excelente negócio para o Benfica! – elucidou-me, ao mesmo tempo que passava os códigos de barra das revistas e do jornal no respectivo leitor – São sete euros e setenta e cinco, por favor!
- Aqui tem… - tentei falar o menos possível, pois as lágrimas estavam a um passo pequenino de me escorrerem pela face e se assim fosse, mesmo com os óculos, o Sr. Zé acabaria por ver
- Aqui tem o seu troco, menina… - ele deu-me os jornal e as revistas para a mão e sorriu como sempre
Nunca me tinha sentido não humilhada em toda a minha vida e a sensação só se agravou, quando metros mais à frente do quiosque, comecei a ler o corpo da notícia…
“O jogador de 24 anos, David Luiz, está a 24 horas da transferência para o Real Madrid. O defesa-central benfiquista, está a ser negociado há mais de quatro dias e o empresário deste já se encontra envolvido, uma vez que o negócio está quase a ser fechado. Há uma semana atrás David, afirmou em declarações ao jornal, que a conquista do título “é um sonho de menino, tô muito feliz no Benfica e eu vou ficar!”, mas ao que parece novos ventos o arrastam para terras espanholas. Fonte próxima do jogador afirmam que este se “encontra calmo e crente de que terá de ser o que Deus quiser, e está pronto para novos desafios”. É de relembrar que o jovem defesa tem uma cláusula de rescisão de 50 milhões de euros, mas o clube madrileno tem em cima da mesa uma proposta de 23 milhões de euros, que até ao momento parece ter agradado aos cofres da Luz. Certo que é que o mercado abriu há somente uns dias, mas David já tem um pé na capital espanhola.”
A revolta do que li estendeu-se a cada parte do meu íntimo, não por ele se puder ir embora… Não por haver uma proposta, mas sim porque provavelmente havia e no entanto ele não me tinha dito nada. Fechei o jornal e guardei-o na minha mala juntamente com as revistas que tinha comprado. Olhei para o enorme edifício da faculdade que estava bem na minha frente, perdi toda a coragem de lá entrar e o caminho que fiz mostrou-se inverso ao que devia. Apanhei novamente o metro até chegar à minha casa, enfiei-me no carro e este levou-me para o único sítio possível… A praia do Baleal, a mesma onde beijara David pela primeira vez, a mesmo que já ouvira muitos dos meus mais íntimos suspiros da alma e a mesma onde um dia tive vontade de me perder… E esse foi o dia. Tive uma vontade louca e incontrolável de me jogar naquele mar imenso e rezar para que este me levasse… Me levasse para um lugar seguro, para um lugar onde nada na minha vida fosse igual àquilo que vivia, um lugar onde pudesse ser eu e o David… Eu, ele e mais ninguém!

“De: Paulinha ♥
Amor, pego-te às 13h na facul, para irmos dar uma volta e comer qualquer coisa! Tenho muitas saudades tuas, beijão, amo-te!” – o meu telemóvel vibrou e pela primeira vez naquele dia consegui sorrir

“Para: Paulinha ♥
Oh amor, desculpa estragar-te os planos, mas não estou na facul, hoje não fui às aulas! Também estou cheia de saudades! :c   Beijozão, amo-te”

“De: Paulinha ♥
Então diz-me onde te posso pegar, temos mesmo de fazer uma farra de raparigas! :b”

“Para: Paulinha ♥
Estou um bocadinho longe, mas se quiseres esperar, posso encontrar-me contigo às 13h30 naquela esplanada em Belém e comemos qualquer coisa por lá! Que me dizes, gata? :)”

“De: Paulinha ♥
Digo que sim, claro, amor! :)
Lá estarei às 13h30 e ainda me hás de explicar que história é essa de não ires às aulas, minha baldas! Até logo, beijozão, Amo-te muito! ♥”

“Para: Paulinha ♥
Não comeces já a dar-me nas orelhas, tens o almoço todo! :b
Lá estarei também, amor! Até logo, beijo enorme! Amo-te muito!♥”

Coloquei o telemóvel na mala, pois sabia que tinha uma hora de condução rumo à capital portuguesa, que já me era tão familiar.

***

O sol estava surpreendentemente agradável e estranhamente a Paulinha estava atrasada. Enquanto esperava e não esperava, entretive-me a ler novamente o artigo do jornal acerca de David. Talvez na esperança de ele ter desaparecido da página oito… Talvez na esperança de estar errado… Fechei-o rapidamente assim que a vi caminhar na direcção da minha mesa, que se encontrava coberta por um guarda-sol enorme.
- Olá, amor! – ela deu-me um beijinho carinhoso na testa – Desculpa o atraso, mas precisei de ir à secretaria da faculdade resolver um problema…
- Olá, amorzinho! – sorri levemente, mas muito feliz por a ver – Não faz mal, também estava aqui entretida…
- Hum, o jornal é de hoje?
- Sim, é… Comprei-o esta manhã!
- Hum, deixa-me ver, por favor! – pediu estendendo a mão para o apanhar
- Não, não tem nada de jeito! – rapidamente tomei uma posição de defesa, não queria que ela me olhasse com piedade, nem que tocasse naquele assunto
- Estás armada em mona, amor? Deixa-me lá ver isso… - ela esticou-se facilmente e com alguma agilidade e facilidade tirou-mo da mão, pousando-o na parte da mesa que lhe pertencia
- Pronto, força! – acabei por ceder e fiquei a observar a reacção dela, quando o seu olhar percorreu as letras gordas da capa
- Mas… - murmurou, mas nem lhe dei tempo de acabar
- O circo continua na página oito! – alertei em tom de sarcasmo, mas rapidamente os dedos pequeninos dela fizeram as páginas voar até alcançar a que ela pretendia
- Não, isto não é verdade… - disse descontraidamente, fechando o jornal
- Não?!
- Não, claro que não… Não me digas que acreditas nisto?
- Senão soubesse o que sei, claro que não acreditava, mas sabendo…
- O que é que sabes, Adriana?
- Não posso falar sobre isso, Paulinha…
- Mas Adriana, eu sou tu… - a chegada da empregada interrompeu-a
- Boa tarde, o que é que as senhoras vão desejar?
- Para mim pode ser uma massa carbonara e um sumo natural de manga… - solicitei com um sorriso – E tu, Paulinha?
- Para mim pode ser o mesmo, mas prefiro uma coca-cola, por favor…
- Com certeza, trago já o pedido… Com licença… - a senhora retirou-se com extrema educação
- Adriana, diz-me lá…
- Paulinha, isto não pode sair daqui… - afirmei suspirando – Só o Ruben é que sabe!
- Diz-me, eu juro que não vai sair daqui…
- Nem para o Roberto!
- Nem para o Roberto, amor… Podes ficar descansada! – ela sorriu para me tranquilizar
- Naquela noite, em que eles voltaram do Porto sem o título, quando subiste e me deixaste sozinha, ouvi uma conversa entre o presidente e o Rui, acerca da venda dos jogadores, e o David era um deles, é por isso que tenho tantas certezas…
- Então era por isso que estavas a chorar e depois desapareceste e agiste daquela maneira com ele! – concluiu assim que as pecinhas se juntaram todas na sua cabeça
- Sim, foi isso, amor… - confirmei de olhar baixo
- Oh amor, tu sabias que podia ser assim…
- Sim, eu sabia, mas não pensei que fosse já, e que se fosse, ele pelo menos me ia dizer, mas nada!
- Provavelmente não há certezas, por isso é que ele não disse…
- Mas existem propostas e só por isso ele devia falar comigo! E depois foi o que o Ruben me disse…
- O que é que esse parvo te disse?
- Disse-me que ele era capaz de ficar por mim, que quer ficar por minha causa e isso eu não posso aceitar, Paulinha!
- Se ele quiser, só tens de aceitar!
- Não, eu não posso aceitar! Aliás… Nunca me irei perdoar se ele perder o sonho dele por minha causa! É uma excelente proposta… Ele vai sair a ganhar e o clube também…
- E tu?
- E eu? No meio disto tudo, perco o meu coração… - respondi de forma sincera e depois disto, nem eu nem ela, tocámos mais no assunto até ao final da refeição

***

Nos dias seguintes as notícias intensificaram-se, dizendo que o negócio ainda não tinha sido fechado, por meras questões burocráticas. O David tentou falar sobre o assunto comigo, mas sempre que o fazia, eu fugia pois não sabia como agir, nem o que dizer. De certa forma eu sentia que era eu que estava a atrapalhar aquela venda e uma conversa com Ruben, veio confirmar isso mesmo.
- Não gosto de te ver assim tão em baixo, Adriana… - disse, servindo-me um café na sala de estar na sua casa
- Também não gosto de estar assim, podes ter a certeza…
- Então anima-te!
- As notícias não param, Ruben, e sinto que estou a empatá-lo! – confessei dando o primeiro gole no café
- Adriana, ele disse-me que tentou falar contigo várias vezes, mas que foges sempre ao assunto…
- Fujo, porque não sei como agir! O que é que eu lhe vou dizer, que prefiro que fique? Claro que prefiro, mas não lhe posso pedir isso!
- Não tens de pedir… Eles estão à espera da decisão dele e ele não sabe o que fazer por tua causa… Ele está seriamente a pensar recusar a proposta!
- Não, ele não pode fazer isso!
- É a decisão dele… Ambos os clubes a irão respeitar!
- É o sonho de uma vida, Ruben… E tu sabes disso!
- Eu sei e ele também, Adriana, mas ele ama-te e acho que ele reestabeleceu prioridades, só isso…
- Tudo bem, ele reestabeleceu prioridades, mas não quero que o faça por minha causa… A vida dele não se pode reger pela minha!
- Quando amamos alguém de verdade, naturalmente as coisas passam a ser assim, Adriana… Não conseguias ir com ele?!
- Oh Ruben, não conheces o meu pai? Ele não me deixava ir sem acabar o curso e eu já estou a acabar um ano, não quero ter de repetir tudo de novo!
- Ele faz o esforço de ficar por ti, tu podias fazer esse…
- Pois, mas eu e o David, somos muito diferentes…


***


Naquela noite segui até casa dele, no intuito de matar saudades, pois dentro de uma semana e meia ele seguia finalmente de viagem para o Brasil mais os pais que ainda se encontravam em Portugal, e eu ficava, devido à faculdade.
- Ai, que saudaji, amô! – ele apertou-me para si assim que me viu e beijou-me calmamente
- Também tinha muitas saudades, mas se me continuas a apertar dessa maneira, falta-me o ar… - brinquei, rindo-me
- Desculpa, mô! – ele também se riu e deu-me um beijinho na testa – Entra…
Passei na frente dele, livrei-me do casaco que trazia vestido e beijei-o calmamente.
- Tô assistindo um filme, quer assistir comigo?
- Claro, amor! – sorri-lhe alegremente
Ficámos os dois na sala a ver o filme, mas ainda este ia no início e já nós nos tínhamos distraído numa troca de carícias intensas.
- Dorme aqui essa noite… - pediu sussurrando
- Durmo, amor… - prolonguei o beijo que dávamos segundos antes
Numa enxurrada de beijos apaixonados, ele acabou por me levar para o quarto, deixando pelo corredor um rasto com as nossas roupas. Caí debaixo do corpo quente e forte dele e as suas mãos percorreram cada recanto de mim com o maior carinho do mundo. Amámo-nos naquela noite, sem qualquer pressa, com um enorme desejo, uma enorme vontade e um grande amor. Para ele foi mais uma das nossas noites, mas para mim, foi o culminar de uma decisão…


***


(David)
Acordei cedo para ir na padaria buscar café da manhã pra mim e pra ela, mas acabei passando na casa dos meus pais e me deixei ficar na conversa algumas horas.
- Tenho de ir que deixei a Adriana dormindo… - me levantei do sofá
- Vai lá, meu filho… Manda beijo pra ela! – pediu minha mãe
- Não querem vir tomar o pequeno-almoço com a gente?
- Não queremos incomodar meu filho…
- Não incomodam, mamãe… Venham, a Adriana vai gostar! – esbocei um enorme sorriso e eles acabaram cedendo
Conduzi até casa, no meu carro e sempre mantendo uma conversa com eles, que estavam animados por os incluir num pequeno ritual da minha vida de casal com Adriana. Vi uma enorme luminosidade vinda do quarto, que tinha a porta aberta, ao contrário de como eu a tinha deixado.
- AMÔ! – chamei fechando a porta e pousando o pão fresco e as chaves de casa no móvel do hall – Trouxe pão fresquinho! – anunciei sorrindo, mas ninguém me respondeu, nem mesmo a Quimera, que eu acabei concluindo que não estava em casa
Percorri todas as divisões da casa, deixando meus pais na sala e nem um sinal dela, o que achei estranho pois ela nunca saía sem deixar recado.
- Ué, não tá… - exclamei entrando na sala
- Vai ver e saiu pra comprar pão também… Talvez passear a cachorra! - minha mãe riu levemente
- É, vai ver e foi isso mesmo… - me juntei a ele por momentos
Sentei no sofá da sala e quando me estiquei para alcançar o telefone e ligar pra ela, vi algo em cima do pequeno móvel…





Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem!
Não se esqueçam de comentar, pois é muito importante saber o vosso feedback! :)
Beijinhos
Drii


 

P.S - Quero também pedir desculpas à leitora CAROLINA, que me solicitou que lhe dedicasse um capítulo porque fazia anos e não, não ficou esquecido, minha linda! Mas o último capítulo foi publicado "aos trambolhões" e preferi dedicar-to agora com mais calma, sei que já vai tarde, mas conta a intenção! Aqui está ele!
Parabéns (atrasados!) e beijinhos, que sejas muitos feliz! ♥

 

terça-feira, 5 de julho de 2011

Capítulo 110 – Amar a 628 Km de distância também é amar (Parte III)



Depois da enorme desilusão acerca da minha suposta, mas não confirmada, gravidez, o David andou em baixo, mas com algum custo consegui animá-lo e isso era extremamente necessário, pois no final da semana teria o último jogo da época… Aquele que lhe dava a hipótese de virar o campeonato e sagrar-se campeão no melhor clube do mundo. Sabia que ele estava muito nervoso, queria ao máximo minimizar esse sentimento, mas já não sabia como agir, ele parecia um piolho saltitante, que não parava quieto um segundo.

- Tens de ir, amor… - anunciei assim que vi os jogadores recolherem-se ao balneário

- Eu sei, fica torcendo por mim… - ele esboçou uma expressão triste e confusa

- Claro que fico, por ti e pelo meu grande Benfas! – ri-me levemente, para tentar fazer com que ele descontraísse, mas nem isso surtiu efeito

- Mais por mim, amô… - na união dos seus lábios esculpiu-se um beicinho perfeito

- Claro, meu amor… Mais pelo meu campeão! – dei-lhe um selinho nos lábios e sorri meigamente - Agora vai, arrasa com eles…

- Vou… Me espera no fim!

- Claro que espero, não vais a lado nenhum sem mim para comemorar! – dei-lhe um beijo calmo e apaixonado, e finalmente senti-o relaxar um pouco

- Te amo muito… - declarou baixinho, com os seus lábios ainda colados aos meus

- Eu também, muito, meu amor! Vai tudo correr bem, boa sorte! – desejei com um sorriso tranquilizador

- Obrigado, até já! – rapidamente ele desapareceu no corredor de acesso ao balneário e o meu coração ficou mais leve


***


“E Aimar, avança prá bola, finta, e passa e vai e é golo, é golo, não! Extraordinário a bola na trave, não entra! Recarga de Luisão, guarda-redes soqueia a bola, finalização para David Luiz, é agora… Não! Bola no poste mais uma vez! Este jogo não está aconselhável para cardíacos!” – relatou o comentador da rádio, provindo do pequeno aparelho do senhor que se encontrava do meu lado e das meninas nos camarotes

- O raio da bola não entra! – reclamou Paula, já extremamente enervada

- Tenham calma, vamos ter calma… - pedi ao mesmo tempo que enchia os meus pulmões de ar para logo de seguida o expelir

“E VAI VAI VAI, RUBEN AMORIM… É GOLOOOOOOO! GOLOOOOOO DO BENFICA!” – de repente a rádio deu sinal ao mesmo tempo que uma ovação se iniciou no estádio

A partir daí foi como o comentador disse “foi um saque dos antigos”, foram golos e golos sucessivos, que agitaram os corações dos adeptos encarnados. O marcador fechou 7-2, bastante inesperado tendo em conta que era o jogo que decidia o campeonato e apesar de David não ter marcado nenhum, esteve envolvido em 4 das jogadas que deram golo e procurou sempre fazê-lo, mas infelizmente o sucesso não alinhou do lado dele naquela noite.
Aquele estádio entrou em delírio, jogadores corriam pelo campo, mandavam beijos, abraçavam-se, erguiam a taça entre inúmeras palhaçadas, mas foi o gesto de David aquele que mais me impressionou. Assim que o apito final se deu, ajoelhou-se no campo, ergueu as mãos para o céu e rezou… Era de esperar que ele o fizesse, mas nunca pensei que seria feito sem antes uma comemoração de euforia. Sem dúvida tinha um homem excelente do meu lado, afinal que tipo de pessoa num momento de glória e conquista se lembrava de agradecer, sem antes bater no peito e dizer “Eu sou o maior… Ganhei!”. Muito poucas, na melhor das hipóteses nenhuma… Nenhuma sem ser o meu doce David. Assim que os jogadores recolheram aos balneários, eu e as meninas apressámo-nos a sair na direcção da sala dos jogadores e familiares, mas fui surpreendida por um retrato deprimente.

- Era mesmo isto que precisávamos! – congratulou-se Luís Filipe Vieira apertando a mão do empresário de David

- As hipóteses vão aumentar! – acrescentou Rui Costa

- Sim, vai ser muito bom pra ele! – finalizou o empresário

Senti uma revolta enorme, o clube acabara de se sagrar campeão e eles já estavam preocupados com a venda de um dos jogadores que tinha contribuído em larga escala para aquela vitória.

- Adriana, minha filha, não vem? – a voz da Dona Regina puxou-me para a realidade

- Claro, estou a ir, estou a ir… - respondi descontraidamente e dei uma pequena corrida para os alcançar

Quando chegámos à sala, ainda só haviam amigos e familiares, caras bastantes conhecidas pelo menos para mim que era presença habitual por aqueles lados, mas assim que a porta se abriu para os primeiros jogadores passarem, entrou tudo em euforia.

- Amô! – a voz de David rompeu o ar e um sorriso luminoso foi a primeira coisa que vi, quando olhei seu rosto

- Parabéns! – felicitei-o e senti os seus braços envolverem-me, até ficar com os pés fora do chão

- Te amo, te amo! – ele foi repetindo vezes sem conta o mesmo, enquanto me dava beijos por todo o rosto e pescoço

- Eu também! – rematei com um beijo longo e vagaroso, que acabou por marcar um momento só nosso

A sala agitou-se, pois os outros jogadores deram entrada e eu acabei por perder-me no meio daquela gente toda. Fui caminhando até à porta de saída e deixei David lá no meio com os pais.

- Se fosse a ti não fazia isso… - uma voz surgiu atrás de mim, assim que coloquei a mão na maçaneta

- Ai, que susto, Ruben! – dei um leve pulinho

- Desculpa, não te queria assustar…

- Não faz mal, parabéns! – abracei-o com força e fiz um enorme esforço para sorrir, pois por dentro sentia-me totalmente esmagada

- Obrigado, pequenina! – ele deu-me um beijinho na testa – Esses olhos, tens de disfarçar melhor, percebe-se… - revelou ao observá-los, pois estavam a um pequeno passo de ficarem rasos

- Não te preocupes! – passei os dedos sobre as pálpebras e sorri

- Não vais ficar para as comemorações? – questionou vendo novamente a minha mão pousada no manípulo e foi o bastante para as lágrimas que até então controlara, me invadirem os olhos turvando-os – Então, que se passa?

- Nada, eu é que sou uma parva… Vou-me embora, mas divirtam-se e aproveitem a festa!

- Vais embora sem lhe dizer nada? – o olhar dele recaiu sobre David que tirava fotos com os pais e a taça na mão

- Vou, é melhor assim… Ao menos não tenho de dar justificações, que sei que não posso dar…

- Se de facto se confirmar, ele vai acabar por saber…

- Eu sei disso, mas se souber, nunca será por mim, Ruben!

- Ele vai ficar magoado se te fores embora assim sem sequer avisar ou despedir…

- Não te preocupes, depois eu falo com ele e digo que não estava muito bem… Portem-se bem, meninos!

- Então e não nos portamos sempre? – ele riu-se e forçosamente acompanhei-o

- Sim, uma coisa doida! Tenho de ir, cuidem-se e aproveitem o momento!

- Vamos aproveitar! – trocámos um último sorriso e finalmente abandonei a sala

Andei uns quantos metros, sempre mantendo a pose de forte, mas não deu mais para segurar e o choro rompeu no meu peito de forma descontrolada. Tive de entrar na primeira casa de banho que me apareceu à frente e tranquei-me num dos compartimentos. Sentada no tampo fechado da sanita, chorei silenciosamente, sem vontade de vacilar mais, sem vontade de estar mais ali e desejando que o Benfica nunca se tivesse sagrado campeão, pois isso deixava o David um passo mais perto da distância… E um passo mais longe de mim.


***


(David)

- Pera moço, falta tirar uma foto com a minha namorada… - afirmei com um sorrisão na cara, mas assim que olhei em redor não a vi

Não estava em nenhum canto daquela sala, nem num mais escondidinho. Não havia sinal seu, nem de estar falando com ninguém.

- Ué, ela tava aqui agorinha mesmo, meu filho… - confirmou a minha mãe, tão confusa quanto eu

- Manz, Manz! – chamei o Ruben e este se aproximou relaxado como sempre – Cê viu a Adriana?

- A Adriana? – notei que ele ficou ligeiramente atrapalhado

- Sim, Adriana… Baixinha, moreninha, caracóis, minha namorada, sua melhor amiga…

- Sim, eu sei quem é, ó! – ele fez uma breve pausa - Ela foi embora…

- Embora como? Embora pra onde?

- Pra casa, penso eu…

- Cê só pode ‘tar brincando! – não acreditei como ela foi capaz de me fazer uma coisa daquelas, sem me avisar e num dia tão importante como aquele

- Não, encontrei-a junto à porta…

- Não tô acredito! – uma enorme mágoa se apoderou de mim e me senti traído, me senti abandonado

- Calma, meu filho… Se calhar ela não se estava sentindo bem…

- Mas avisava, mãe! Foi embora assim…

- Oh meu filho, vai atrás dela, pode ser que ainda a apanhe na garagem…

- Sim, vou fazer isso! Venho já, já, mamãe! – dei um beijo na testa dela e saí correndo em direcção às garagens

E se antes estava magoado, quando lá cheguei, fiquei confuso e magoado. Seu carro permanecia do lado do meu, por isso só podia significar duas coisas: ou ela continuava ali, ou tinha ido embora de outro jeito. Não soube o que fazer, pra que lado me virar, ou até mesmo onde procurar ela num estádio tão grande. Segurei meu celular e marquei o número dela, mas após dois toques de espera ela rejeitou a chamada. Fiquei ainda mais magoado com sua atitude, mas de certo modo um pouco preocupado, afinal não sabia nada dela e não dava sinais de vida. Resolvi então mandar um torpedo.

“Para: Amô ♥
Amô, onde cê se enfiou? Me diz alguma coisa, por favô! Tô ficando muito preocupado!
Beijo, Te amo
Davi”

Esperei resposta e tentei ligar de novo, mas ela me recusou novamente a chamada. Tinha desistido e me encaminhava de regresso pra sala de jogadores, onde as comemorações decorriam calmamente, quando a vi cruzar a entrada das garagens. Linda como sempre, mas meio sem cor, com os olhos vermelhos e inchados de chorar, mas assim que me viu, disfarçou perfeitamente.

- Amô, onde cê se enfiou? – questionei imediatamente


***


(Adriana)

O David ligou-me enquanto eu estava trancada na casa de banho, mas eu rejeitei a chamada, pois não conseguia falar com ele naquele momento. Ele insistiu e mandou uma mensagem e fez um novo telefonema, ao qual não fui capaz de corresponder mais uma vez. Tinha de sair dali, pois não me podia confinar a uma casa de banho o resto da noite. Saí da divisória, umas raparigas de provavelmente 14 ou 15 anos, olharam-me de cima abaixo e ao ver-me ao espelho compreendi porquê. Era notório o meu estado de choro, mas ainda assim passei um pouco de água na cara e passei nova maquilhagem, na esperança de disfarçar o melhor possível. Ouvi comentários discretos por parte das pequenas raparigas, mas deixei-me ficar tranquila pois não me incomodaram em nada.

- É a namorada do David Luiz… - disse uma muito baixinho

- Não é nada, ela é mais alta…

- É ela… Tenho a certeza, apareceu na revista com ele!

- É ainda mais bonita ao vivo…

- E é muito simpática, quando no outro dia o David me deu o autógrafo, eles estavam juntos e ela foi super atenciosa!

Passei por elas para sair da casa de banho e soltei um breve sorriso, ao qual elas corresponderam. O meu trajecto a partir dali era directo ao meu carro, para puder ir-me embora o mais depressa possível. Assim que entrei na garagem dei de caras com David e tive de alterar drasticamente a minha expressão para que ele não percebesse que tinha estado a chorar, mas a tentativa foi totalmente em vão.

- Amô, onde cê se enfiou?

- Na casa de banho… - revelei aproximando-me dele

- Na casa de banho? O Ruben falou que cê tinha ido embora…

- Não, fui só à casa de banho…

- Então o que tá fazendo aqui agora? A sala de jogadores não é pra esse lado…

- Vim buscar uma coisa ao carro… - tive de mentir, pois sabia que se lhe dissesse a verdade, acabaria por o magoar mais do que queria, pois na realidade não queria magoá-lo em nada

- Uma coisa…? Cê teve chorando… - os dedos dele percorreram levemente a zona abaixo dos meus olhos

- Não, não estive…

- Esteve sim, te conheço, amô…

- São as minhas alergias…

- Alergias no Verão? – ele ergueu a sobrancelha, era óbvio que não estava convencido daquilo que ouvia o que até era normal, pois eu não estava daquilo que dizia

- Sim, estão cada vez piores… - torci o nariz, abri o carro e tirei do porta-luvas uma caixa de comprimidos

- Comprimidos?

- Sim, para as alergias! – confirmei a mentira com um sorriso e tirei um comprimido para tomar

- Não toma isso pra me enganar, que ainda vai fazer mal pra você… - respondeu imediatamente e eu tinha a plena noção de que não valia a pena enganá-lo

- Não é pra te enganar! – coloquei o comprimido na boca e engoliu-o com a ajuda de um golinho de água

- Se são só alergias, sendo assim cê sobe comigo, certo?

- Subo contigo pra onde?

- Para a sala de jogadores, claro!

- Ah… Sim, isso… Subo, subo! – respondi meio desajeitada

- Então vamo’! – ele deu-me a mão e vi-me obrigada a aguentar aquela noite de comemorações, mesmo sem querer


***

Graças a Deus consegui relaxar, esquecer o tema da venda de David e aproveitar o início de uma noite que se adivinhava muito longa. Tirei fotos com David e a taça de campeão, e outras só enquanto casal. Éramos conhecidos como o casal-careta, pois arranjávamos sempre mil e uma caras feias para pousar nas fotografias. Bebemos champanhe, cantámos, beijámo-nos e acarinhámo-nos durante largos minutos, mas chegou a hora de eles abandonarem o estádio e viajarem por Lisboa até ao Marquês, num autocarro de caixa aberta.

- Vai no Marquês, amô? Aquilo é muita confusão…

- Não te preocupes, vou só ver-vos passar e sigo para casa, estou estoirada!

- Tem cuidado, muleca! Te encontro em casa! – ele esboçou um sorriso lindo

- Sim, vou estar à tua espera… Tem juízo, ó mister caracóis! – despenteei-o todo e ele fez cara feia – Estou cheia de medo!

- Não brinca com os caracóis de um homem desse tamanhão que ele vira fera, viu garotinha?

- Sim, sim, deve ser isso! – voltei a despenteá-lo e ele parou-me com um beijo apaixonado

- Te amo… - sussurrou junto dos meus lábios

- Eu também te amo… - a minha respiração embateu nos lábios entreabertos dele – Vou andando, diverte-te!

- Você também! – demos um último beijo e cada um seguiu para seu lado

Segui com os pais do David para o Marquês no meu carro e depois de várias horas a cantar e a percorrer as ruas da cidade, finalmente vimos o autocarro passar. Não sei bem como, mas no meio daquela multidão, o meu homem viu-nos e enviou um beijo pelo ar, o que deixou todos com um sorriso no rosto. Foi nesse espírito de alegria que as comemorações da minha parte chegaram ao fim, por isso fui deixar os pais do David a casa e segui para a minha e dele. Limitei-me a tirar os sapatos, vestir um pijama leve e fresco e deitei-me na cama, adormecendo muito rapidamente.


***


A Quimera saltou pra cima da cama, super agitada e roçando o seu focinho no meu braço, mas o relógio só marcava ainda as cinco e meia da manhã.

- Quimi, vai para a tua caminha! Vai… - ordenei de olhos fechados e aconchegando-me no meu canto da cama

Ela obedeceu-me, pois pelo menos a sua presença deixou de se sentir. Voltei a entrar num sono, mas agora bem mais leve. Senti então uma presença no quarto, ouvi uns sapatos embaterem contra a parede ao fundo da cama e pelo perfume que invadiu o espaço, percebi que era o meu David. Fiquei tranquila naquele estado quase inconsciente, tendo como som ambiente, os barulhos naturais das acções do David. Senti então o lado vazio e frio da cama ser ocupado por um peso, e logo de seguida um calor envolveu-me.

- Amô… - a voz dele preambulou junto da minha orelha

- Hum… - respondi meio adormecida

- Cheguei… - sussurrou calmamente, com uma quanta certeza na voz

- Estás bem?

- Tô cansado…

- Descansa, amor… Descansa… - fechei melhor os olhos e aninhei-me na cama

- Cê também, te amo… - ela apertou-me para si e adormecemos assim, encaixados um no outro na certeza das últimas palavras que ele proferira

Os dados estavam lançados, todas as condições criadas para a partida e se se confirmasse, como seria?




Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem!
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Beijinhos
Drii

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Capítulo 110 – Amar a 628 Km de distância também é amar (Parte II)


Coloquei a chave à porta e nem a Quimera me veio receber, pois já dormia na sua caminha, junto da varanda da cozinha. Na sala ele não estava e a casa estava toda às escuras, com excepção do quarto, de onde uma luz difusa provinha, trespassando a porta encostada.
Descalcei-me, abandonando os sapatos junto do hall de entrada, e pé ante pé, avancei, abrindo a porta, que se prostrava entreaberta. A imagem que encontrei não era de todo a esperada, David de boxers, deitado bem no centro da cama, com metade do corpo do lado que me pertencia, e a outra metade do lado dele e de olhos fixos na televisão, que estava ligada num canal de desporto (para não variar!).

- Boa noite… - cumprimentei baixinho ao mesmo tempo que pousava a minha mala no cadeirão do quarto

Ele nem sequer se deu ao trabalho de me responder, mas visto que até era compreensível, livrei-me da roupa que tinha no corpo, ficando somente com uma camisola dele e tentei deitar-me do seu lado, mas ele não abriu espaço para isso, permanecendo bem no meio da cama.

- Dê, quero deitar-me… - anunciei da forma mais calma que me foi possível e acabei por me surpreender com tamanho autocontrole

- Vai deitar na sua casa, no seu quarto, na sua cama, sozinha…! – ripostou de forma fria e clara, sem retirar o olhar do televisor por um milésimo de segundo

Tive vontade de lhe mandar dois berros ali mesmo, perguntar se estava a gozar com a minha cara ou não tinha a mínima noção do que estava a dizer, mas controlei-me. Ou melhor… O enorme orgulho de que sempre fora alvo durante toda a minha vida, controlou-me, e fê-lo da melhor maneira. Assim que senti os meus olhos inundarem-se de lágrimas virei-lhe costas e tão rapidamente como me libertei das minhas roupas, trocando-as somente por uma camisola dele, fiz o contrário. Despi a peça de roupa que lhe pertencia e continha o seu cheiro, e atirei com ela com força para cima da cama. Vesti as minhas calças num pulo e a camisola num ápice, abrindo a porta do quarto bruscamente para me ir embora.

- Vai onde?! – nesse momento ele deu um pulo da cama e elevou a voz, para que eu travasse os meus movimentos

- Fazer o que me mandaste! Deitar-me na minha casa, no meu quarto, na minha cama… Sozinha!

- Não, espera, fui um bobo… - ele segurou-me pelo braço, mas não tive qualquer dificuldade em livrar-me do seu toque.

- A desculpa é sempre a mesma… Larga-me! – apoiando-me na parede do hall fiz um enorme esforço para calçar novamente os meus sapatos, enquanto ele e Quimera, que já havia acordado com os nossos gritos, andavam em torno de mim, descentralizando-me do meu ponto de equilíbrio

- Adriana, fica, vai… Tá sendo bobinha! Te amo, foi uma coisa sem sentido, tudo bem… Vamo dormir juntos…

- Não quero, David… Vou dormir na minha casa e não na tua casa!

- É nossa, amô… Já te falei!

- David, estou-me a borrifar! Esta casa é tua, aquele quarto, a sala, a cozinha… O dinheiro no banco é teu, a fama é tua, o estatuto é teu e sinceramente, só quero distância disso tudo…

- Quer distância de mim, portanto…

- Não é distância de ti, mas simplesmente não aguento mais estas desconfianças! Quando eu digo que estou cansada, é porque eu estou cansada, não faças logo filmes de que não quero estar contigo… Às vezes não posso, enfia isso nessa cabecinha!

- Pronto, cê ganhou…

- Não quero ganhar, queria o mínimo de respeito…

- Cê tem meu respeito!

- Não, não tenho… Tu finges que eu tenho o teu respeito e de vez em quando a coisa até funciona…

- Agora tá sendo injusta, pô!

- Não, não estou a ser injusta… Quantas vezes tu estás cansado e eu te dou o teu espaço para descansares?

- Todas as vezes e de todas essas vezes, o que é que eu te respondo? Que quero dormir com você do meu lado na mesma… Nunca te pus pra correr!

- E eu também não, acho que me interpretaste mal…

- Não, cê sabe que eu interpretei direitinho!

- Pronto, ganhaste! Estou-me a ir embora não é isso que queres? Ficares sozinho, na tua casa, no teu quarto, na tua cama? Vou fazer-te o favor! – virei costas disposta a abrir a porta de casa e desaparecer

- Amô… - ele apertou-me para si, forçando as minhas costas a encostarem-se no seu peito – Não quero discutir com você… Só quero dormir do seu lado, calmamente, sem discussões…

- Então pra quê isto tudo? Não tem sentido nenhum discutir assim…

- Tamo’ sendo bobinhos… Vem, dorme do meu lado, essa noite! – ele guiou-me na sua frente até ao quarto, sem nunca descolar a traseira do meu corpo, à dianteira do seu

- Vamos parar com estas coisas sem motivo… Só estamos a fazer mal a nós próprios!

- Paradinho! Tá prometido! – os lábios dele embateram na minha bochecha esquerda e automaticamente sorri

Enquanto me comecei a despir novamente, para colocar a t-shirt dele, ele ganhou avançou e deitou-se observando-me, de forma muito atenta, mas especialmente à minha barriga.

- Que foi? Estou mais gorda? – questionei, ao mesmo tempo que descia a t-shirt

- Não, mas tá atrasada… - ele esboçou um sorriso radioso

- Sim, estou… Mas é um atraso pequeno, posso simplesmente estar desregulada…

- Ou pode tar grávida! – chutou imediatamente de forma perspicaz

Pelas minhas contas, tendo em conta que na última vez com ele não nos precavemos e que eu estava com um atraso, poderia perfeitamente estar grávida.

- Sim, ou posso estar grávida… - confirmei sorrindo e deitando-me do lado dele

- Quero tanto que seja verdade, que cê teja esperando um neném meu… - a mão dele percorreu carinhosamente a minha barriga

- E eu quero muito dar-to, por isso já nós fizemos… Agora é esperar pra ver! – juntei a minha mão à dele e ficaram ambas assim, pousadas no meu ventre

- Amanhã eu compro um teste na farmácia e cê faz, essa espera me tá deixando louco…

- Tá bem, se queres fazê-lo já, eu faço! – sorri-lhe tranquilamente, pois a ideia de a gravidez se confirmar não me estava a assustar nem um pouco

- Cê tá calminha… Quer mesmo me dar um neném?

- Quero, quero muito dar-te um neném! – imitei o doce sotaque dele, que levou a que ambos gargalhássemos

- Vou ser o homem mais, mais, mais, mais, mais feliz do mundoooo! – beijou-me apaixonadamente, sem me dar hipótese de dizer mais nada

Foi nessa troca de beijos, que acabámos por adormecer lado a lado, prontos para enfrentar o dia que vinha pela frente.


***

Um cheiro enjoativamente doce provinha da cozinha e como do meu lado a cama estava vazia, eu adivinhei que David andava a fazer das suas. Acabei por me rir com os meus pensamentos e concluir que ele estava a fazer as suas maravilhosas panquecas para o nosso pequeno-almoço. Levantei-me da cama e dirigi-me à casa de banho, para lavar os dentes e atender ás minhas necessidades fisiológicas. Pois o baque não poderia ter sido maior, assim que me apercebi que tinha uma mancha de sangue nas cuecas, o que significava que não estava grávida e não passara de um atraso na menstruação. Acabei por me lavar, vestir uma lingerie lavada e pentear-me, para me puder juntar a ele na cozinha.

- Bom dia, flor do dia! – ouvi aquela voz tão doce bem perto dos meus lábios assim que entrei no mesmo espaço que ele

- Bom dia! – tentei parecer tão bem quanto possível e as nossas bocas uniram-se, por vontade própria

- Tô fazendo um café da manhã gostosão, para a melhor namorada do mundo! – um sorriso enorme rasgou-lhe os lábios de forma travessa

David estava extremamente bem-disposto e eu até podia adivinhar qual o motivo, por isso não fui capaz de acabar com aquela felicidade logo ali naquele momento, sabia que era cobarde e injusto, mas preferi esperar pela altura certa.

- Hum, a melhor namorada do mundo está cheia de fome! – esbocei um sorriso leve e por cima do ombro dele espreitei as panquecas que ele tinha ao lume

- Hum, que bom! Isso é que eu quero, você com muita fome é bom sinal! – ele piscou-me o olho por achar que aquele era mais um sintoma da minha possível, mas não existente gravidez – Vamo lá a isso!

Ele colocou as panquecas num grande prato e pousou-o no centro da mesa da cozinha, onde nos sentámos para tomar o pequeno-almoço. Inicialmente conversámos sobre o jogo da noite anterior, mas rapidamente a conversa tomou um rumo que não me deixou qualquer hipótese de fuga.

- Tem calma, não foram campeões hoje, são para a semana na Luz… - incentivei e dei-lhe um beijinho nos lábios

- Acha mesmo? Tô ficando com dúvida…

- Ei, jogador do Benfica nunca duvida!

- Tem razão, se o mister Jesus me ouvisse dizendo isso, me dava um tiro! – ambos nos rimos e ficámos em silêncio comendo – Daqui a pouco vou na farmácia e compro o teste, amô… Quer ir comigo ou prefere ficar e eu trago pra você? – questionou-me de forma descontraída e confiante

- Ah… - comecei a gaguejar o que por si só era um péssimo presságio – Ah…

- Ah… O quê, meu anjo? Tá se sentindo bem?

- Tô, tô… Só que já não vai ser preciso ires comprar o teste… - anunciei de olhar baixo e a minha voz perdeu toda e qualquer intensidade

- Como não, meu anjo lindo? Temo de tirar essas duvidas, não dá pra viver, sem saber se tá ou não grávida…

- Não estou, tenho a certeza… - confessei quando finalmente o encarei olhos nos olhos e tudo o que encontrei foi desilusão e consternação

- Como cê pode ter certeza senão fez o teste? Mudou de ideias quanto ao neném? É isso não é? Não quer mais ser mãe de um filho meu…

- Não é nada disso, eu quero muito, mas sei que não estou grávida, porque não passou de um atraso, fui agora à casa de banho e estou menstruada…

- Tá? – vi os olhos dele ficarem turvos por uma forte neblina de lágrimas

- Tô… Desculpa…

- Não faz mal, não pede desculpa… - a voz dele baixou de tom, pois um pouco mais alto do que aquilo e teria se desmanchado em lágrimas ali na minha frente

- Eu sei que querias muito, mas talvez não seja a nossa hora ainda… - afaguei-lhe a pele das faces tão carinhosamente como consegui

- Pensei que já tinha chegado nossa hora, que ia ser pai… Já tinha lido artigos, já andava vendo coisinhas no shopping… Pô! - ele baixou a cabeça e vi as primeiras lágrimas caírem embatendo na superfície da mesa

Dei um pulo urgente do meu lugar e sentei-me no colo dele para que o pudesse consular.

- Não fiques assim, meu amor… Estou aqui, estou aqui… - sussurrei baixinho no embalo do nosso abraço

- Eu queria tanto… - murmurou perdido em lágrimas

- Querias e vais ter… Olha pra mim! Olha pra mim, amor… - pedi e depois de algum esforço ele acabou por fazê-lo – Vamos deixar isto correr normalmente, o que tiver de ser será e quando chegar a nossa hora, Deus vai dar-nos o filho que queremos…

- Te amo… - jurou com os olhos cravados nos meus, mas cheios de lágrimas

- Eu também, eu também… - murmurei e uni calmamente as nossas bocas, enquanto sentia ainda as lágrimas escorrerem-lhe pelas faces e morrerem nas minhas mãos, que faziam um enorme esforço para lhe segurar o rosto – Vai ficar tudo bem…

- Fica do meu lado, pra sempre…

- Fico, meu amor, eu fico…

- Promete, amô… Promete que não me deixa nunca…

- Fica prometido, amor! Fica prometido… - selámos a promessa com um beijo calmo, mas intenso, que demorou para chegar a um fim

A promessa estava feita e seria eu capaz de cumpri-la?





Obrigada a todos aqueles que lêm a minha fic e comentam, pois os comentários são sempre um enorme incentivo!
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Beijinhos
Drii
 
 
 

terça-feira, 28 de junho de 2011

Capítulo 110 – Amar a 628 Km de distância também é amar (Parte I)



O final do campeonato aproximou-se a uma velocidade assustadora, pois eu nem dei pela contagem final até ao jogos e no segundo sábado de Maio, jogou-se a penúltima partida. O Benfica jogou fora e tinha a possibilidade de se sagrar campeão frente ao Futebol Clube do Porto.

- Toma cuidado, amô… Não quero que nada de mal te aconteça! – alertou-me David enquanto percorria o corredor do hotel, onde estavam hospedados, do seu lado

- David, eu sei! Não é o primeiro jogo que vejo nas Antas! Relaxa, vai tudo correr bem…

- Tem certeza?

- Absoluta!

- Pronto, pronto! Não vou dizer mais nada então! – ele sorriu, mas percebi que um inquietante estado de nervosismo se apoderava dele

- Olha pra mim… - segurei o seu rosto entre as minhas mãos e fixei os nossos olhares – Vai tudo correr bem, eu prometo!

- Eu sei, obrigado, meu amô! Vou fazer de tudo pra gente ser campeão!

- Senão forem hoje, serão no próximo jogo… Está escrito assim, é esse o nosso destino! Seremos sempre eternos campeões, é essa a mística encarnada!

- Amô, confessa! Cê anda espiando as palestras do Mister Jesus! – partimo-nos os dois em gargalhadas estridentes no meio do elevador

- É, amor! É isso mesmo! – ele beijou-me calmamente, mas teve de interromper a nossa união, pois o elevador deu sinal e alguns jogadores e respectivas namoradas e esposas, juntaram-se a nós

Uma amálgama de línguas e pronúncias juntaram-se no ar, formando um burburinho exaustivamente confuso de descodificar, mas na verdade nem me dei ao trabalho de o fazer. Aquilo era o plantel benfiquista, puro e genuíno. Não eram os jogadores, os defesas, os avançados, os médios… Eram os homens, os pais, os filhos, os namorados, os esposos, os seres humanos… Nervosos, fracos e muitos deles a um ínfimo passo de realizar um sonho de anos e anos de vida, o que era o caso do meu David. Uni as nossas mãos e apenas as separei, quando na saída do hotel, ele teve de enfrentar uma multidão de adeptos, o que me pareceu bastante incoerente uma vez que nos encontrávamos em pleno centro da cidade invicta. Demos um beijo leve e longe de olhares indiscretos, especialmente dos dos fotógrafos e jornalistas, e ele seguiu o seu caminho no autocarro da comitiva encarnada, rumo ao estádio do dragão.

- Vamos? – perguntou Paulinha, que se aproximou de mim sem eu dar conta e logo após se ter despedido, também de Roberto

- Sim, vamos… - respondi com um sorriso, agora já nervoso

Não quis dar parte fraca na frente de David, mas mais do que naquele estado pelo meu Benfica, estava-o por ele… Porque sabia que naquela noite tinha hipótese de realizar um sonho e que de certa forma iria ficar desiludido se tivesse de o adiar por mais uma semana. Fomos no meu carro, mas sob a condução de Paula, que era sempre muito prudente e cuidadosa. Os nossos lugares estavam assegurados no camarote, pois de outra forma, David e Roberto nunca nos teriam deixado assistir, tendo em conta o elevado grau de risco ao qual o jogo estava submetido.

“Amor, vai com toda a garra, todo o esforço, vais arrasar! No final estarei à tua espera nas garagens da Luz, Amo-te!♥” – enviei-lhe uma última SMS, já depois do aquecimento e sei que ela a viu, apesar de não ter respondido

Mal entrou em campo foi a mim que o seu olhar procurou e rapidamente me encontrou, junto da tribuna presidencial, com Luís Filipe Vieira, Rui Costa e outros dirigentes desportivos de ambos os clubes. Detestava aquele tipo de formalismos, mas David só conseguiu aqueles lugares e como eram os únicos seguros tive de me sujeitar, mas pelo menos tinha a minha Paulinha para conversar e desabafar. O apito inicial foi dado pelo árbitro Olegário Benquerença, o que despoletou em mim, um estado inicial de concentração máxima. O David estava a marcar Hulk, ele era um peso bruto e violento, o que me deixou de coração nas mãos durante os noventa minutos. Infelizmente o Benfica não conseguiu levar para Lisboa o titulo de Campeão Nacional, pois apesar da época mediana, o Porto apresentou-se extremamente forte e organizado naquela noite.
Todos saíram de campo derrotados, apesar de terem alcançado um justo e merecido empate. Antes que a confusão se alargasse eu e a Paulinha, descemos às garagens e entrámos no meu carro, directas para Lisboa. Chegámos lá muito tarde, mas o senhor da portaria tinha ordens específicas para nos deixar aguardar no piso subterrâneo destinado ao estacionamento a chegada do autocarro da comitiva benfiquista.

- Bolas, eles estão a demorar… - reclamou Paulinha, apesar da impaciência não ser um dos seus defeitos

- Calma, já devem estar quase a chegar…

- Disseste isso há uma hora atrás!

- Eu sei… - torci o nariz como que pedindo desculpa, mas infelizmente não tinha o dom do condão e nem David, nem Roberto respondiam às nossas mensagens ou telefonemas

- Vou lá acima perguntar se sabem alguma coisa, ou se se passou algo…

- Vou contigo! – ofereci-me imediatamente, pois vindos da cidade do Porto, eu já tremia de preocupação temendo o pior

- Não… Fica aí para o caso deles chegaram! Eu não demoro nada! – disse com um sorriso

- Ok, tudo bem… Volta rápido! – pedi dando-lhe um beijinho no rosto

- Volto, pequenina… Volto já já! – ela saiu na direcção do elevador e deixou-me ali, à espera de um sinal deles

Ao fim de cinco minutos da sua ausência, um BMW preto deu entrada nas garagens, pelo modelo e depois pelos vidros fumados, vi que era Luís Filipe Vieira e o Rui Costa, que seguiam em amena cavaqueira.

- Sim, precisamos definitivamente de começar a analisar propostas… - elucidou o presidente

- Claro… Já temos algumas em cima da mesa em relação a esses quatro jogadores… - eles saíram do carro conversando e nem deram pela minha presença

- Sim, mas os dois negócios mais significativos são sem dúvida o do Di Maria e o do David … Vão ajudar bastante nas contas encarnadas!

- Sim, e há clubes que estão só à espera da consagração do campeonato para avançar com propostas também…

- Já contactaste com algum dos empresários deles?

- Sim, contactei com o empresário do David, mostrou-se disponível a negociações e diz que qualquer oportunidade que surja, boa para o David e para o clube será com toda a certeza analisada… - revelou Rui Costa com um ténue sorriso

- Então parece-me que se o Real Madrid mantiver a proposta em cima da mesa e nenhum clube a superar, temos negócio! – concluiu Vieira com uma extrema satisfação na voz e esfregando as mãos, pois podia já adivinhar o dinheiro que David faria render aos cofres da Luz

O meu coração mirrou, o meu pior pesadelo estava diante dos meus olhos e nunca desejei tanto, que o Benfica falhasse a sagração do campeonato. Sem eu dar conta, os meus olhos ficaram rasos de lágrimas, porque eu queria o melhor para David, era mais do que óbvio e certo, mas ele não se podia ir embora naquele momento… Não naquele momento, quando eu ainda não o podia acompanhar, ou pelo menos não tinha capacidade, nem maturidade para isso. Finalmente aqueles dois deram pela minha presença e silenciaram-se imediatamente.

- Boa noite, Adriana… - cumprimentou Rui, sempre bem-disposto

- Boa noite… - correspondi, fazendo um enorme esforço para não deixar nenhuma das minhas lágrimas egoístas cair

O Presidente não se pronunciou como já era hábito e entrou no elevador de acesso ao piso superior acompanhado por Rui. Foi esse mesmo elevador, que um minuto depois me devolveu Paula, radiante e correndo na minha direcção.

- Estão a dar entrada no estádio, vêm aí! – anunciou aos saltinhos, mas a sua expressão rectificou-se ao ver-me de olhos rasos - Que foi, Adriana? Que aconteceu? – perguntou-me com uma extrema preocupação e cuidado

Não lhe consegui responder, pois o autocarro deu entrada no recinto e estacionou bem na nossa frente. Um a um os jogadores começaram a sair e um pouco mais animados apesar da derrota.

- Paula, vou à casa de banho, se o David perguntar por mim diz-lhe isso… - solicitei muito rapidamente

- Mas vais mesmo, ou vais embora? – inquiriu totalmente confusa, pois não era do seu domínio o assunto que me tinha deixado naquele estado

- Vou, vou mesmo… Diz-lhe que se quiser pode ir andando, e depois encontro-me com ele na sua casa…

- Que se passou para estares assim? – perguntou-me arqueando a sobrancelha

- Depois explico-te, agora tenho de ir… - anunciei assim que senti as primeiras lágrimas correrem-me o rosto e David a cruzar a porta do autocarro

Corri até ao elevador, pressionei o botão vezes e vezes sem conta na esperança de que este chegasse mais depressa, mas obviamente que não surtiu efeito.

- Cadê, Adriana? – ouvi a voz de David sumida e assim que as portas se abriram na minha frente, entrei  e dei ordem de subida

Não necessitava de ir à casa de banho, mas somente de estar sozinha e chorar tudo o que tinha a chorar. Sentei-me no chão do W.C, levei os joelhos ao queixo, encolhida sobre mim própria, e deixei que as lágrimas atravessassem o meu rosto de forma silenciosa e sem qualquer preocupação em ser apanhada. Mas quanto mais pensava na ideia de ver David partir para outro clube, mais o meu choro se intensificava, acabando mesmo por se tornar desesperado. Chorei compulsivamente durante alguns minutos até que ouvi passos no corredor.

- Ela disse pra você que vinha à casa de banho? E não especificou qual? Só esse piso e essa área, têm mais de seis! – reconheci imediatamente a voz do meu namorado

- Oh David, não disse… Ela disse só que vinha, mas era rápida! Vamos esperar…

- Não vamo’ nada… Tô sentindo que algo não tá bem! Vai procurar ela…

- EU?! - o tom de voz de Paulinha subiu vertiginosamente

- Claro você, cê é que é a mulher aqui, Paula!

- Eu não vou andar a vasculhar as casas de banho todas do estádio, não tem sentido nenhum!

- Deixa de ser tola, são só essas daqui…

- São “só” seis! – ironizou a minha Paulinha e tive vontade de rir, pois a forma que ela estava a usar para me proteger era comicamente enternecedora

- Bolas, qual é o vosso problema? São casas de banho de gajas ya, e daí? Não há ninguém no estádio sem sermos nós! Não vão vocês procurá-la, vou eu! – a voz determinada de Ruben, fez-me estremecer e dar um pulo muito rápido do chão, para passar água nos olhos

- Tá doido, manz?! É a casa de banho das mulheres… - alertou, o sempre correcto, David

- E daí? Aposto que vou encontrá-la em menos de nad… - ele não precisou acabar de falar, pois a porta da casa de banho abriu-se e ele apanhou-me com os olhos vermelhos de tanto chorar – Adriana… - murmurou baixinho

- E aí, manz… Encontrou? – o David gritou, mas eu fiz sinal a Ruben para que ficasse em silêncio

- Espera, vou procurar… - anunciou sem nunca tirar os olhos de mim e deixou a porta fechar-se – Que se passou? – inquiriu já junto do meu corpo e passando as mãos nos meus cabelos

- Nada, Ru… Estou só com uma daquelas minhas alergias…

- Adriana, não sou parvo! Já te conheço, diz-me lá a verdade… - pediu enxugando os últimos vestígios de lágrimas que ainda residiam na minha face

- Ai, Ruben… Sinto-me tão ridícula por estar assim! – confessei baixando o olhar

- Ei, ridícula porquê? Alguém te fez mal? Foi aqui no estádio? Foi no estádio dos porcos? Tu diz-me que eu resolvo tudo! – ele prontificou-se à minha defesa, mas na verdade não havia nada que ele pudesse fazer, para evitar uma das piores desgraças da minha vida

- Não… Ninguém me fez mal! Ninguém, senão o ganancioso do Presidente do nosso clube! Às vezes até tenho vergonha de lhe chamar isso… - afirmei revoltada

- Que te fez ele? Disse-te alguma coisa por causa dos lugares nos camarotes das Antas?

- Não, antes isso… Mas ouvi uma conversa dele com o Rui acerca da venda dos jogadores agora na abertura do mercado! Acho que eles não me viram, estavam a conversar descontraidamente e infelizmente ouvi o que não quis…

- O que eles disseram?

- Falaram sobre dois casos específicos, um deles o David… Dizem que já têm propostas em cima da mesa, uma delas do Real Madrid… - tentei acabar de falar, mas o Ruben interrompeu-me

- O REAL MADRID? – falou entusiasmado

- Shiuuu! Fala baixo! – ordenei bichanando – Sim, o Real Madrid e até agora é a melhor… Quando se sagrarem campeões as ofertas vão subir de certeza, pelo menos estão ambos plenamente convictos disso!

- O Real Madrid é óptimo, o David vai tripar com a ideia! – revelou com um enorme sorriso

- O David não pode saber, aliás, nem eu devia saber… Se bem que se o empresário dele sabe, o David com certeza já não está “às escuras” em relação ao assunto…

- Se ele soubesse de alguma coisa já tinha comentado comigo pelo menos… Falamos muito acerca do assunto e ele diz que está feliz no Benfica!

- Ele está feliz onde lhe derem mais dinheiro… A ele e ao Presidente!

- Não sejas assim… Sabes muito bem que o David ama a camisola que veste!

- Sim, ama… Mas a vida dele não será para sempre no Benfica! – assumi imediatamente

- Então se sabes isso, porque é que estás nesse estado? Porque é que estiveste a chorar?

- Ruben, queres mesmo que te faça um desenho? Não vês, que se ele se for embora, a nossa relação acaba?

- Oh Adriana, as coisas não são bem assim…

- As coisas são exactamente assim, Ruben!

- Não são… Só são, se vocês os dois entenderem!

- Eu não posso acompanhá-lo, não agora… Tu sabes disso! Também tenho os meus sonhos, as minhas ambições, os meus planos, e eles estão todos em Portugal!

- Tá bem, mas não podes condenar já a relação sem pelo menos tentarem…

- Se tentarmos isto vai acabar da pior maneira e vamos acabar por nos odiar…

- Adriana, há relações há distância! – ele tentou parecer convincente, mas sinceramente não acreditei numa única palavra do que ele disse

- Ya, ya! Primeiro convence-te tu disso e depois aí falamos… - enxuguei as mãos e coloquei o papel no caixote do lixo

- MANZ? – a voz de David ecoou pelo recinto quase em encerramento

- VOU JÁ! – gritou bem na minha frente

- Vamos, ele vai desconfiar…

- Adriana, vais ter de falar com ele… Conversarem…

- Não vou falar com ele, Ruben… Vou magoá-lo, porque estou a ser egoísta!

- Ele é bem capaz de recusar qualquer proposta para ficar no Benfica, ele é feliz aqui: no clube e em Portugal! A sério que sim… Até porque ele nunca te iria deixar ficar para trás, conheço-o e sei que o que sente por ti, nunca sentiu por ninguém com tamanha intensidade…

- Não tenho dúvidas algumas de que é feliz, mas ele aspira a mais e a oportunidade vai bater-lhe à porta, há que aproveitar… Faz-me só o favor de não comentares nada com ele…

- Não, podes confiar, mas pensa bem no que vais fazer, piolha… Não deites tudo a perder antes de uma decisão final, sim?

- Sim, podes ficar sossegado, quando o tempo chegar, logo pensarei nisso, isto foi só o choque inicial…

- Vá, anda cá, minha chocadinha! – ele brincou, aninhou-me nos seus braços e conseguiu animar-me um pouco

Seguimos os dois lado a lado, até encontrarmos David, Paula e Roberto no corredor de acesso às casas de banho, à nossa espera.

- Estava vendo que não! – barafustou David, mas um sorriso delineou-lhe os lábios assim que me viu surgir junto de Ruben

- Calma… Pusemo-nos na conversa e esquecemo-nos que vocês estavam cá fora! – Ruben tranquilizou-o com palavras serenas e eu fi-lo com os meus lábios nos seus

- Tava cheio de saudadji, amô… Não me tava esperando lá em baixo…

- Eu estava, mas necessidades fisiológicas, tenho uma bexiga pequenina! – brinquei rindo

- Cê sabe que isso é um dos sinais de gravidez? – relembrou-me, entusiasmado, um assunto que já estava esquecido na minha memória há semanas, apesar de estar com um atraso

- Sei, David… Sei… - tive de forçar um sorriso, pois de facto poderia estar grávida e a saída dele tornara-se inerente

- Adriana… - a voz de Rui Costa invadiu o nosso espaço

- Sim?

- Posso falar contigo um instantinho?

- Claro…

- A sós…

- Com certeza… - dei um selinho em David, que nos olhou com estranheza e afastei-me o suficiente para que ninguém pudesse ouvir a conversa

- Ouve, não sei se ouviste o que foi dito lá em baixo, mas com toda a certeza o fizeste e preciso de pedir-te que te mantenhas em silêncio, tanto com David, como com qualquer meio de comunicação social… Não pudemos criar buracos de fuga de informação no clube! – tive vontade de me rir, pois se havia coisa que o meu clube tinha em demasia era buracos para fuga de informação, mas aquilo até tinha uma certa ironia

- Não se preocupe, irei manter a maior descrição possível! Qualquer negócio será comunicado em primeira mão a David, pois eu não tenciono dizer nada…

- Obrigado, é importante para a estabilidade dele para o próximo jogo e para a equipa em geral…

- Sim, eu compreendo… - concordei com alguma indiferença

- Bem, é só… Obrigado pelo teu tempo…

- Nada que agradecer, sempre às ordens! – ironizei, dando a entender que tudo naquele clube seguia as ordens de “descrição” do senhor Luís Filipe Vieira, o que era com toda a certeza um desses casos

- Boa noite… - Rui rodou nos seus próprios calcanhares e iniciou um percurso inverso, na direcção do gabinete da presidência

- Rui, desculpe… - chamei à atenção dele, fazendo-o parar a três metros de distância – Vai mesmo acontecer, não vai? – referi-me directamente à venda de David naquele mercado e a expressão dele tornou-se de pesar

- Lamento, Adriana… Tem uma boa noite… - esboçou um sorriso ténue e deixou-me ali no corredor, na tristeza de um “sim” cem por cento certo, que deitou por terra todos os meus sonhos para a nossa relação.

- Amô!

- Diz… - respondi a David, assim que me aproximei deles

- Que queria ele?

- Sabes se a viagem de regresso tinha decorrido sem qualquer incidente… É muito simpático! – forcei um sorriso, que apesar disso, surgiu completamente natural

- Hum, tá bom… Vamo’ embora pra casa então?

- Vamos, mas eu hoje vou dormir a minha casa… - declarei, pois no meu estado não iria conseguir partilhar o mesmo espaço que David, quanto mais a mesma cama

O casal presente e Ruben, perceberam que uma conversa de casal se adivinhava e começaram a andar na direcção do elevador, para nós os seguirmos.

- Como vai dormir na sua casa? – inquiriu com uma confusão inquietante nas expressões

- Vou dormir na minha casa, no meu quarto, na minha cama…

- Hum, isso é um convite, mô? – questionou sorrindo angelicalmente

- Estou cansada, David… - foi uma nega simples e curta, mas de fácil mensagem para David, pelo menos assim penso devido ao rumo que a conversa tomou

- Ah, não se preocupa, tenha uma muito boa noite! – afirmou num falso sorriso de felicidade

- Ei, não hajas assim… Se queres assim tanto eu vou dormir contigo ou vens tu dormir comigo na minha casa…

- Esquece, já entendi que não quer minha companhia!

- Não é não querer a tua companhia, mas estou cansada… Não te ia conseguir dar atenção nenhuma!

- Pô, não te tô nem pedindo pra transar, tô pedindo uma noite dormindo do seu lado, nos seus braços! – ele elevou ligeiramente o tom de voz, o que fez com que Paula, Roberto e Ruben ouvissem, para grande constrangimento de todos

- Fala baixo, por favor…

- Ahhh, agora como é pro seu lado, é “fala baixo, por favor…” Ah, me poupe, Adriana, otário é coisa que eu não sou!

- Bolas, David… Estás a ser infantil agora, o que é que te custa aceitares que preciso de descansar?

- E o que é que custa a você aceitar, que quero descansar do seu lado?

- Pronto, então descansas do meu lado, está decidido… Vais no teu carro, eu no meu e encontramo-nos na tua casa!

- Nossa casa… Nossa!

- Tua, ela é tua!

- É nosso cantinho… Tô muito farto de discutir isso com você!

- Então é fácil, não discutas! Cala-te e não digas mais nada!

- Tá bom…

Descemos os cinco no elevador, num silêncio profundamente arrebatador, especialmente para o meu coração. Quando alcançámos as garagens despedimo-nos todos uns dos outros e cada um seguiu para os respectivos carros. À saída o de Ruben parou do lado do meu e ambos abrimos os vidros.

- Adriana, vai com calma… Ele não sabe de nada e não tem a culpa!

- Eu sei, Ruben… Mas preciso do meu espaço, de estar sozinha e ele não compreende isso, porque não sabe de nada…

- Por isso não o podes culpar…

- E não culpo, mas não me culpes a mim, por estar a tentar digerir isto da melhor maneira que posso e magoando o menor número de pessoas possível…

- Lembra-te só de uma coisa, o essencial é não magoares a pessoa-chave no meio disto tudo…

- Eu sei, dele cuido eu, não te preocupes… Até amanhã…

- Até amanhã… - subi o vidro do meu carro e ele deu-me prioridade para passar na sua frente, rumo à saída

Entrei directa na estrada que ligava o Estádio da Luz a casa de David, mas pelo caminho ainda fiz um desvio parando na bomba de gasolina da 2ª circular, para me deliciar com um CBO, pois não comia nada desde as cinco da tarde e o relógio já marcava as três da manhã. Quando me senti totalmente saciada e de pensamentos mais calmos e claros, retomei o percurso em direcção a casa dele, sem saber bem o que esperar…





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Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem!
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Drii