quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Capítulo 112 - Novos rumos (Parte I)


Dias depois comecei a fazer as malas… Na minha casa surgiu uma lista de países, que me chegou por fax, e que indicava todos aqueles por onde iria passar durante a minha digressão. A agenda estava cheia e prometia ser um Verão agitado e noutra altura qualquer isso ter-me-ia deixado ao rubro, só com a simples ideia de viajar pelo mundo, mas novas prioridades se tinha levantado e de um jeito ou de outro, com uma ou outra recordação, a saudade de David acabava sempre por chegar… Era nesses momentos que me ia abaixo, que perdia a vontade de sair, de conviver, de saborear cada instante da vida, mas tinha obrigações… Um contrato assinado com a editora e uma data de concertos agendados um pouco por todo o lado. Deixei a Quimera aos cuidados da minha mãe e do meu pai, que como era habitual iriam passar o Verão na casa de família… Naquela onde eu não era capaz de entrar desde a morte do meu avô e nem sei quando o conseguiria fazer de novo.
Ao fim de duas semanas na estrada, já tinha conhecido e estado em sítios incríveis, como Nova Iorque, Canadá, México e seguia-se o Brasil, para encerrar a primeira fornalha de trabalho e burocracia antes dos concertos na Europa.

- Tem cuidado… Já sabes como no Brasil existem bastantes roubos e criminalidade! – advertiu-me a minha agente, enquanto percorríamos o principal aeroporto de Minas Gerais

De repente tudo se tornou muito familiar e recuar um ano no tempo foi fácil. Naquela altura estava feliz do lado de David e pela primeira vez pisava solo brasileiro para umas férias que prometiam e se revelaram de sonho.
- Podes ficar sossegada, Alice… Ninguém me vai fazer mal, além disso com quatro seguranças atrás de mim tipo cães deve ser difícil… - não consegui conter a ironia e o sarcasmo, que facilmente me corromperam a voz
- Não te metas com brincadeiras, Adriana… Lembra-te que a estadia aqui é curta, está tudo organizado ao pormenor e tens apenas 2 dias para concluir a gravação da música com a banda…
- Sim, eu sei, podes ficar sossegada… - com um simples aceno de cabeça tranquilizei-a, pois estava muito certa que apesar de estar num sitio que me trazia tantas recordações, não iria dispersar do verdadeiro motivo que me trouxe ali
Pelo menos à saída do aeroporto não havia grande frenesim de jornalistas, apenas os necessários para umas quantas perguntas, que depois de respondidas, me permitiram seguir rumo ao hotel onde iria ficar hospedada somente aquela noite, pois no dia seguinte tinha voo agendado ao fechar da noite, para regressar a Lisboa.

***

- Adriana despacha-te! – ordenou-me uma voz feminina e aguda, que de uma forma ou de outra me acabou por arrancar da casa de banho, logo pela manhã
- Ainda me vais dizer onde arranjas tanta energia para berrar dessa forma às sete da manhã, ainda por cima depois de um voo longo como o de ontem…
Deixei o meu corpo combalido voltar a tombar sobre a cama, deixando de fora as minhas nádegas descobertas pela pequena t-shirt largueirona que envergava para dormir, mas a Alice fez questão das esbofetear uma única vez e segurar o meu pé, de forma a puxar-me violentamente pra fora do colchão.
- Adriana, levanta-te… Tens de estar daqui a 2 horas no estúdio! – ordenou agitadamente, sem nunca largar a minha perna
- Que chata, Alice! – acabei por ficar sentada na cama e pela primeira vez desde que a conheci, tomei contacto com cada traço físico da minha agente
Podia não a conhecer há muito tempo, mas já tínhamos uma relação de proximidade muito grande. Alice era uma mulher bonita, baixa, mas no entanto um pouco mais alta do que eu, facto que salientava com o uso de saltos vertiginosos que às vezes nem ela sabia como se aguentava em cima deles de tão altos que eram. Apesar dos seus 46 anos, tinha uma forma física invejável para muitas jovens e era muito meiga e calma, chegando por vezes a relembrar-me a minha mãe e era isso que me conferia algum conforto ao fim de uma semana longe de casa.
- Levanta-te, que o pequeno-almoço deve estar quase a chegar… Toma um banho rápido, veste uma roupinha apresentável, come e desce, porque tens exactamente uma hora e dez minutos para o fazeres! – informou-me sem sequer me dar tempo de resposta, pois a sua imagem desvaneceu-se rapidamente por entre a porta dupla de carvalho, que servia de entrada à suite onde estava hospedada
- Ai, Alice, Alice… Que Deus me ajude! – supliquei, enquanto movimentava o meu corpo no sentido da casa de banho


Saí do banho sem grandes preocupações e deixei o meu cabelo naturalmente encaracolado e volumoso, pois não tinha tempo para mais nada. Passei um lápis preto nos olhos, um pouco de rímel e um batom nude e sem brilho nos lábios. Apesar de ser Verão para mim enquanto portuguesa, a realidade no Brasil era outra e encontravam-se em pleno Inverno. Uma brisa fresca corria no ar e por isso troquei os habituais calções por uns jeans e pelo sim, pelo não, coloquei na minha mala um casaquinho de malha para o caso do tempo arrefecer ainda mais. Contudo, uns raiozinhos de sol teimosos relutavam, rompendo a linha das nuvens e invadindo todos os espaços abertos, como era o caso do meu quarto. Aproximei-me da mesa do pequeno-almoço pra roubar um pequeno croissant simples e fui comê-lo para a varanda. Olhei em meu redor e tudo me fazia recordar os tempos ali passados do lado de David… Os cheiros, os barulhos, as pessoas… Tudo era David, tudo era Brasil e nada… Nada me poderia fazer sentir mais próxima dele naquele momento, porque na realidade, aquilo era o mais próximo que eu poderia estar dali em diante. “Não chores porque acabou, sorri porque aconteceu”, lembro que me disseram um dia e resolvi então fazer uso a conselho tão sábio que um dia havia sido proferido… Nos meus lábios o mais doce dos sorrisos se delineou, coloquei os óculos de sol na cara, segurei a minha mala e abandonei o quarto, muito certa de uma coisa… Eu e ele tínhamos rompido os laços que nos uniam, mas havia uns que mesmo que quiséssemos não poderíamos dar-lhes fim… Os laços do coração.



***


- Cê que é a Adriana? – questionou-me o vocalista da banda de pagode que eu tão bem conhecia da rádio, que David costumava ouvir no carro durante as viagens
- Sim, sou eu mesmo… E o senhor deve ser o Bruno, muito prazer! - o cantor da banda “Sorriso Maroto”, apertou-me a mão educadamente e os nossos rostos partilharam dois beijinhos
- Senhor é que não, me trata por tu, por favor… - solicitou numa breve gargalhada, que revelou o seu espírito afável e acolhedor típico do povo brasileiro
- Vou tentar, Bruno… - sorri-lhe e fomos encaminhados para dentro do estúdio de modo a começarmos a fazer o que nos tinha trazido ali
- Eu comecei a música, escrevi ela em dueto, mas as suas partes ainda estão incompletas e por isso o combinado era de a cantora escolhida pelo meu agente a terminar… Cê sabe disso? – questionou-me tirando uma série de papeladas do interior de uma pasta preta com rebordos em dourado, já gasto pelo tempo e uso
- Sim, sim… Aliás, a letra já me foi entregue na semana passada e eu tomei a liberdade de ir adiantando trabalho e concluí a minha parte, se quiseres dar uma vista de olhos… - nas suas mãos coloquei a letra da música terminada por mim
- Nossa, tá fera, ein?! – olhou-me por cima do ombro e quando os nossos olhares se cruzaram, não hesitámos em trocar um sorriso sincero – Desse jeito vai ser mesmo só ensaiar e começar gravando a faixa!
- Então vamos a isso! Estou ansiosa… - consenti com um enorme sorriso nos lábios, pois ultimamente o trabalho tornara-se o meu escape, para fugir à solidão em que a minha vida se tinha tornado
Passámos horas e horas no estúdio a ensaiar e as primeiras gravações de voz foram feitas. Sentia o meu peito explodir de tanta cansaço e a minha alma latejante, que já me implorava por algumas horas de sono, mas eu ainda não estava disposta a dar-lhas, não tão cedo.
- Muito obrigado! – agradeceu-me Bruno assim que demos por terminada a ordem de trabalhos do dia
- Muito obrigada, eu… Foi um prazer! – um sorriso breve e educado, rasgou a minha boca e demos um pequeno apertar de mãos
- Cê se safou direitinho com o nosso jeito de falar… - o jeito brincalhão como falou foi factor motivador para a conversa amigável que se seguiu
- Sim, já estou familiarizada com o vosso sotaque… - revelei com uma certa naturalidade e do mesmo jeito, o meu coração mingou dentro do meu peito, pois havia-me recordado de David
- Ué, vem muita vez no Brasil, é?
- Não… Vim pela primeira vez o Verão passado, mas o meu último namorado era brasileiro… Acho que peguei o jeito dele! - esclareci com um leve sorriso nos lábios, que consegui manter apenas por uma questão de educação
- Ah, então cê deve conhecer bem o Brasil…
- Nem por isso, Bruno… Conheço um pouco, nada demais! – sorri-lhe de forma educada e finalmente alcançámos a porta da rua
- Então se cê quiser amanhã antes de cê ir embora te mostro um pouquinho da cidade, que lhe parece?
- Sim, parece-me bem… Se entretanto não surgir nenhum contratempo, convite aceite!
Depois de me despedir de todos e marcar uma hora para a manhã do dia seguinte, acabei por sair no meu carro preto, com motorista privado e acompanhada por dois dos meus quatro seguranças, que eu continuava a achar um tremendo exagero.
- Podem deixar-me sozinha? – questionei numa voz célere e somente obtive um olhar repreendedor por cima do encosto do banco do morto, lançado pelo Paulo
Ele tinha o típico ar de segurança. Um corpo forte e enorme, que eu apelidava de “armário” e o cabelo havia sido substituído por uma careca brilhante. Um homem na casa dos trinta e poucos anos, casado e pai de duas meninas, que escondia por detrás daquele figurão de fato preto, o enorme coração de manteiga que possuía.
- Paulo, por favor… Só uma noite, em sossego! Sou uma jovem normal, bolas! – vociferei ligeiramente irritada, pois era ele que comandava todas as acções dos outros três seguranças
- Adriana, se te acontece alguma coisa a culpa será nossa, por isso não temos qualquer ordem pra te abandonar…
- Mas isso não faz sentido nenhum! – tomei uma posição de ataque no banco de trás, algo que evidentemente não intimidou em nada o Paulo – Só estou a pedir um par de horas, não vos custa nada…
- Custa-nos… É claro que nos custa! Nós ficamos contigo e não se fala mais nisso, Adriana! – a sua voz grossa impôs uma medida, que não pude mais contestar, restando-me apenas a resignação e cumprimento da sua ordem
- Ao menos vou puder sair…?
- Claro… Queres ir a algum sítio especial?
- Sim, gostava de ir à praia… Dar um mergulho, uma voltinha no calçadão!
- Então nós levamos-te… - informou num tom cordial e muito sério
- Não vão os quatro, por favor… - implorei de jeito vacilante e nervoso
- Três, então!
- Dois! – contrapus tentando forçar uma negociação, que não se adivinhava fácil
- Adriana, não abuses… - alertou, muito dono da sua pose autoritária e intimidante
- Dois, por favor… Dá menos nas vistas!
- Pronto, dois… Menos do que isso, nem pensar!
- Pronto… - os meus lábios rasgaram-se timidamente num sorriso conformista – Obrigada, Paulinho… - meigamente e num tom brincalhão falei, e a minha mão passou na cabeça desnuda do segurança


***




- Ei, Paulo, não abuse! – avisei, assim que o vi caminhar atrás de mim até ao mar da praia que naquele fim de tarde se encontrava quase deserta – Acho que nenhum tubarão me vai assaltar! – gargalhei num tom pejorativo, mesmo só para o irritar
- A menina não tem meio de perder esse jeito gozão, pois não? – questionou-me ajeitando os óculos de sol
- Nunca, meu caro Paulo… Nunca! – assim que acabei de falar e antes que ele insistisse, de novo, em ir comigo, dei uma leve corrida e acabei por mergulhar
Apesar de o tempo não estar propriamente de Verão, nem se fazer aquele típico calor brasileiro, a temperatura estava suficientemente amena para um mergulho e uma horinha de praia e como a minha agenda para aquela estação estava demasiado preenchida, eu tinha de aproveitar cada buraquinho para gozar do meu merecido descanso.
- Não se afaste muito, menina… - escutei imediatamente assim que emergi à superfície da água
- Não se preocupe, Paulo! – acenei-lhe com um sorriso calmo no rosto e deixei-me levar
Tudo naquelas águas me devolvia a paz que eu tanto teimava em procurar, talvez porque me recordassem de uma forma tristemente familiar o quão feliz havia sido ali um dia. Apesar de me encontrar longe de Juiz de Fora, cidade onde se situava a casa do David e dos seus pais, encontrava-me em Minas Gerais e aquela era uma das praias que tinha visitado no Verão passado. Aquela maresia inebriou os meus sentidos de forma solidária, era como se conseguisse sentir de novo cada toque dele, ouvir de novo a sua voz, provar de novo o sabor do seu beijo… Mas uma onda envolveu-me e tão depressa como aquelas memórias me foram devolvidas, foram-me também arrancadas numa questão de segundos. Respirei fundo e olhei em redor… O mundo era tão grande, demasiado grande para alguém como eu e ao constatar essa verdade, apercebi-me de como era realmente assustador não ter ninguém do nosso lado, nos momentos de alegria, de tristeza, nos melhores, nos piores… Para conversar ou simplesmente partilhar o silêncio. É verdade, até isso me inundava de saudades… Agora o silêncio era uma constante, mas ao contrário de antigamente, ninguém em meu redor, queria, sabia ou iria conseguir decifrá-lo.
- Paulo, podem afastar-se, por favor… - solicitei assim que me aproximei da minha toalha num intuito de secar
- Mas menina…
- Paulo, afastem-se, por favor! – não deixei que ele acabasse de falar e ao notar tanta aspereza na minha voz, ele e o outro segurança acataram as minhas ordens, um facto que raramente acontecia
Deitei-me de barriga pra baixo, coloquei os óculos de sol, apesar de este já quase se ter desvanecido no horizonte e o meu olhar prendeu-se no mar. Há demasiado tempo que esperava por uma mudança na minha vida, há demasiado tempo que sonhava com o meu final feliz e agora tinha a certeza, que este dificilmente iria chegar… pelo menos da forma que tinha planeado e do lado da pessoa com quem queria dividi-lo.
- Menina… - a voz de Paulo puxou-me do meu íntimo para a realidade e por cima do ombro, observei-o – Daqui a nada vai escurecer…
- Sim, eu sei… Só mais uns minutos! – o meu tom de voz soou quase como uma súplica e deve ter sido por isso, que ele não forçou mais a minha partida da praia, se bem que por minha vontade própria teria passado ali a noite, simplesmente perdida em pensamentos, recordando os dias incríveis que um dia vivera naquelas terras, naquele país…
Foi aí, que instantaneamente, as lágrimas traçaram a minha face e pereceram nos meus lábios. Se há uma semana atrás no meu peito existia somente dor, essa havia então sido substituída por um grotesco e inexplicável vazio. Sabem aquela sensação de quando perdem o ar? Precisam muito dele para respirar, mas é como se de repente uma coisa que tinham como certa, desaparece-se assim… do nada e sem qualquer explicação. E aquela sensação de sentirem o vosso coração tão morto, tão triste, que já nem um sorriso sincero o reanima? Era assim que me sentia… Queria respirar e no entanto faltava-me o ar, queria sentir, mas não tinha mais coração. Levantei-me da toalha, sacudindo a restante areia que ainda cobria a minha pele e comecei-me a vestir, com as lágrimas ainda a rolarem-me pelas faces frias, devido ao vento cálido que começava a soprar de norte.
- Adriana… - ele viu bem as minhas lágrimas, mas antes que tocasse no assunto, eu desviei o assunto
- Um de vocês vá andando na frente pra preparar o carro, vamos regressar ao hotel, que estou cansada… - informei num tom educado e formal, anulando todos os laços que havia construído com aquela equipa que trabalhava comigo
Paulo deu ordem ao outro segurança para que cumprisse o meu pedido e ficou do meu lado até eu ficar pronta para abandonar a praia. Assim que alcancei o calçadão, sentei-me no pequeno muro para sacolejar os pés e calçar os meus sapatos, mas sem ser deixado um único momento que fosse a sós, pois Paulo permanecia ali… A uns escassos dois metros de mim.
- Adriana! – aquela voz melancolicamente conhecida inundou o passeio vazio, enquanto eu apertava o último buraquinho dos meus sapatos
Olhei e vi o pequeno Lucas, um priminho de David na casa dos três anos e que eu havia conhecido há um ano atrás. Não teve qualquer tempo de chegar até mim, pois o Paulo posicionou-se na minha frente e o outro segurança, que acabara de estacionar o carro, saiu imediatamente do mesmo e puxou o menino por um braço.
- Está bem, menina? – questionou Paulo, cumprindo somente o seu dever
- Claro, que estou… - respondi no tom mais óbvio possível – Soltem o menino, está tudo bem… Eu conheço!
Depois de os esclarecer acerca da identidade do pequenino, consegui tirar Paulo da minha frente e calmamente, acerquei-me do pequenito, que me olhava ligeiramente assustado com tudo.
- Que aconteceu? Fiz algo de errado, Adriana? - perguntou um bocadinho confuso e observando os meus dois seguranças de olhos esbugalhados
- Não, meu pequeno, Lucas… Não fizeste nada de errado! – agachei-me junto dele, levando comigo um enorme sorriso terno e abri os meus braços calmamente – E o meu abracinho, pequerrucho?
- Que saudadji, Adriana! – os bracinhos delicados do menino envolveram o meu pescoço e rapidamente senti os seus lábios húmidos, repenicarem um beijinho doce na minha bochecha
- Muitas saudades, mulequinho! – consenti à criança a permanência no meu colo e enchi as suas faces de beijinhos
- Que está fazendo em Minas? O primo Davi disse que esse ano cê não vinha… Que cê terminou com ele, que nem a Carolina fez! – as palavras daquela pobre criança foram piores que vinte facadas em meu coração
- É… Este ano eu não vim com ele, vim em trabalho! Mas diz-me… Como vais? Como vai a escolinha de futebol? – bombardeei aquele ser com uma infinidade de perguntas de modo a abstrair-me do que ele acabara de me falar e assim conseguir evitar as lágrimas que permaneciam iminentes nos meus olhos
- Eu tô bem… A escolinha vai bem, qualquer dia vou ser campeão que nem o Davi’! – um sorriso, movido pelos sonhos daquele menininho, inundou a sua boca e aqueceu-me o coração
- Não tenho a menor dúvida, campeão! – as minhas mãos passearam pelos seus cabelos levemente encaracolados, que de certo modo me relembravam o David quando era mais pequenino – Mas diz-me lá uma coisa… Estás sozinho?
- Não… A galera vinha toda atrás de mim, mas agora não vem mais! – encolheu os seus ombrinhos expressando a confusão, que havia anestesiado a sua mente
- Lucas? Luquinhas? – a voz de Belle, tinha a certeza que era ela, o que acabou por se confirmar quando esta surgiu na nossa frente – Nossa muleque, quase me matou de susto, tá doido, é?
- Desculpa, Belle…
- Mas… - pela primeira vez olhou-me e pareceu surpreendida – Adriana, é você?
- Oi, Belle! – deixei que a minha boca esboçasse um sorriso sincero e verdadeiro
- Ai, que saudadji, há quanto tempo! – partiu na minha direcção no intuito de me abraçar, uma vez que Lucas já se encontrava no chão
- Mesmo, Belle… Há quanto tempo! – um sorriso saudosista marcou presença na boca de ambas e permitimos então aos nossos braços que matassem as saudades do seu jeito
- Cê tá tão diferente, Adriana… Tão mulher! – confessou depois de me soltar daquele abraço e enquanto o seu olhar perscrutava minuciosamente a minha figura
- E tu estás tão… tão… - os meus olhos foram absorvendo a complexidade de cada traço fisionómico da irmã de David e rapidamente vi que algo mudara drasticamente – Tão…
- Grávida, é isso que cê quer dizer? – ela não conteve uma gargalhada, assim como eu, que fui forçada a acompanhá-la
- Parabéns, Belle! Que barriguinha linda… - a minha mão ocorreu instantaneamente para a tocar, mas contive-me porque era algo mais pessoal dela e tal acto poderia desagradá-la
- Pode tocar, meu anjo… Pra meu neném conhecer a titia! – automaticamente as lágrimas formaram-se em meus olhos e a minha mão deslizou na barriga dela, do mesmo jeito que estas me percorreram as faces
- É linda, Belle… Espero que corra tudo bem e venha com muita saúde! - encarei-a e vi que também ela estava emocionada com o momento
- Obrigada, Adriana… Se Deus quiser vai correr e vai ser muito abençoado! – a mão dela pousou sobre a minha, que ainda acariciava a sua barriguinha de sensivelmente três meses
- Também acredito que sim… Há quanto tempo descobriste que estavas grávida? – questionei, porque se estivesse grávida de três meses como eu suspeitava, então eu ainda estaria com David na altura
- Não se preocupa… Ele não contou pra você, porque só ficou sabendo quando chegou no Brasil… - como que se tivesse lido os meus pensamentos, respondeu-me àquilo que verdadeiramente queria saber, sem nunca o ter questionado
- Obrigada… - pronunciei-me com o olhar posto no chão
- Lamento muito isso que aconteceu, Adriana… - ela tentou começar a falar, mas rapidamente resolvi intervir
- Belle, não tens de fazer isso… A culpa foi minha!
- Mas não invalida que eu lamente o sucedido e te garanto que ele ainda ama muito você! Cês foram feitos pra ficar juntos, por muitas voltas que o mundo dê…
- Sabes o que se diz em Portugal? “O que é nosso, às nossas mãos acaba por vir parar sempre…” – citei um autor que conhecia, somente da voz popular – Quem sabe um dia… - a minha voz arrastou-se e foi travada por um breve soluçar
- Talvez esse dia esteja mais próximo do que aquilo que você pensa! – um sorriso encorajador inundou a sua boca e senti o meu coração quentinho, dentro do meu peito cheio de ternura, que me chegava ali tão de perto, de uma pessoa que era tão especial pra mim como eu era pra ela
- É… Quem sabe! – um tom conformista assaltou o meu timbre vocal e as lágrimas precipitaram-se pela minha face
- Independentemente do que vá acontecer, Adriana, você vai ser sempre uma irmã pra mim e esse pinguinho de gente, que vai nascer, será sempre seu também, titia!
- Obrigada, Belle… Obrigada! – abraçámo-nos com força, apesar de ter magoado o irmão dela, acho que esta conseguia compreender as minhas razões e de certo modo aceitá-las, pois perdoá-las seria impensável
- Não quer vir ver todo o mundo? Tá tudo indo jantar ali naquele restaurante… - com a cabeça indicou a porta de um estabelecimento, onde na porta se aglomerava um grupo largo de gente
- Não, obrigada… Não me parece que seja uma boa ideia! – o constrangimento e vergonha da minha decisão, ordenaram ao meu olhar que se escondesse
- Ele não vai levar a mal, Adriana… Te garanto! Ele tá um pouco mais calmo, agora…
- É melhor não, Belle… Eu agradeço imenso o convite, mas não quero causar nenhum constrangimento a ninguém… - de jeito de gratidão permiti aos meus lábios que se rasgassem num leve sorriso contido
- Cê que sabe, mas te garanto que tudo está mais calmo… Só demorou pra acalmar aquela dor, para passar aquela mágoa, ele agora está o Davi’ de sempre, meu anjo…. Pode ter a certeza! – falou de forma séria e segura, o que de certo modo me deixou mais descansada por julgar estar a ouvir a verdade e somente a verdade
- Fico mais descansada por saber que ele está mais calmo, mas prefiro mesmo assim não ir… Vou para o hotel descansar, que o dia foi longo…
- Cê que sabe, meu anjo, mas se quiser fica à vontade pra passar lá em casa a qualquer hora enquanto cá tiver… Será sempre bem-vinda!
- Obrigada, Belle, muito obrigada! – trocámos um sorriso cúmplice de que éramos facilmente donas, devido à proximidade com ela, que a relação com David sempre me impôs com o maior dos prazeres
- Não tem nada que agradecer… Eu tenho de ir ter com eles! Não se esqueça, tá à vontade para aparecer, amanhã!
- Sim, vou pensar nisso… - articulei aquelas palavras somente por uma questão de educação – Fica com Deus, espero que corra tudo bem com o bebé…
- Obrigada, minha irmã… Espero que você fique bem!
- Hei-de ficar… Com o tempo, só com o tempo…!
Despedimo-nos com um último abraço, um sorriso breve, mas terno e depois de nos olharmos uma última vez virámos costas e cada uma seguiu o seu caminho, mas o meu foi interceptado pelos medos do passado.
- Belle! – chamei-a numa voz quase estrangulada pelo pânico e senti um nó imenso e sem fim no fim da minha garganta, quase que me impedido de falar, de dizer o que precisava ser dito
- Sim… - estávamos já a uns três metros uma da outra, mas ainda assim ela parou e virou-se para me escutar com muita atenção
- Não… - as palavras faltaram-me porque a cobardia dominou o discurso que tinha preparado – Não, lhe digas…
- Ao Davi’? – ela sabia a resposta tão bem quanto eu, mas preferiu clarificar
- Não lhe digas que me viste… Que estou cá, por favor! – supliquei em palavras gastas pelo tempo e pela coragem, que havia fugido de mim, abandonando assim o meu corpo e cada uma das mais ínfimas partes do meu ser
- Não se preocupa… Vai ser um segredo só nosso… Nosso e do Luquinhas! – observei a pequena criança, que permanecia entretido brincando com a areia presente nas pedrinhas do calçadão e deduzi que ele não fosse ser um problema
- Não me parece que ele vá dizer nada… - tranquilizei-a num sorriso – Obrigada…
- Não tem nada que agradecer… - mostrou-me um sorriso sincero, segurou o Lucas pela mão e caminhou em direcção ao restaurante sem olhar mais para trás
- Menina, vamos… - a voz do Paulo surgiu nas minhas costas
Precisava estar sozinha… Se por um lado a minha vontade era correr para dentro daquele restaurante, rever a família que de um jeito ou de outro já considerava como “minha” e jogar-me nos braços dele com um sentido pedido de perdão, por outro queria sair dali o mais rápido possível, pois aquele encontro com Belle fez-me encarar a minha nova realidade. Senti as minhas pernas ficarem sem forças, a minha respiração falhar e o meu coração deixar de bater, mas essa sensação foi demovida quando as lágrimas se dissiparam pelas minhas faces rosadas. Respirei fundo, encarando aquela calçadão que agora estava totalmente vazio e virei-lhe costas, caminhando assim até ao carro onde o meu outro segurança se encontrava. Entrei sem dizer nada, na frente o motorista e o segurança, atrás seguia eu e o Paulo, bem do meu lado, mas com um lugar a separar-nos.
- Desligue a música, por favor… - solicitei de forma educada ao motorista do veículo negro, em que seguíamos viagem
Ele acedeu ao meu pedido, deixando então que o carro se envolvesse numa neblina de paz. Recostei-me no meu lugar e sem dar conta foram correndo, com caminho certo até aos meus lábios, outras até ao meu pescoço, mas todas movidas pelo mesmo sentimento: a saudade.
- Adriana… - Paulo quebrou o silêncio que se havia instalado e que somente era acompanhado pelo meu soluçar aflitivo
- Não digas nada, por favor… - pedi em total desespero, pois a saudade parecia que me rasgava por dentro e a cada lágrima que chorava a sensação só piorava
- Não fique assim… Vai ficar tudo bem! – assegurou-me e entre as suas mãos enormes e fortes, que outrora serviram para me proteger, afagou a minha, no maior dos carinhos do mundo, como se de uma filha se tratasse
- Não, não vai, Paulo… Mas vamos fingir que sim! – proclamei e deixei o meu choro fluir até à chegada ao hotel
Nessa noite deitei-me numa cama fria de hotel e a minha mão sentiu a ausência dele na cama. Era estranho sentir que tudo o que em tempos havia sido preenchido por alguém e por um sentimento gigante, agora era somente vazio… Vazio e nada mais! Tentei dormir, mas o relógio teimava em ditar o tempo, mas sem nunca trazer para mim as horas de descanso, que tanto necessitava naquele momento. Somente fiquei ali, de olhos presos no tecto, perdida em pensamentos, relembrando o convite de Belle e tentando perceber se no dia seguinte iria visitar aquela casa verde de portadas brancas que me era tão familiar e onde há um ano atrás havia sido tão feliz…



Antes demais quero pedir imensas desculpas por ter demorado a postar, mas apesar de estar de férias o tempo nem sempre é muito.
Depois quero aproveitar para agradecer o avultado número de comentários que me têm deixado nos últimos capítulos, é muito importante receber todo esse apoio! :)
Por isso aqui vos deixo mais um capítulo, espero que gostem e não se esqueçam de continuar a aumentar o número de comentários à história!
Beijinhos a todas as minhas queridas leitoras! :)
Drii

P.s - Esqueci-me de referir, mas uma série de leitoras perguntou. A música que neste momento se encontra no blog é "Lighters - Eminen ft. Bruno Mars"   :)

30 comentários:

Anónimo disse...

Lindo, os teu capítulos fazem-me chorar.
Quero mais.

Unknown disse...

Hum... cá para mim a Adriana ainda vais esbarrar no David LOOL

Quero mais minha linda, está brutal como sempre

Bjs

Anónimo disse...

Lindo, os teu capítulos fazem-me chorar.
Quero mais.²
Não faz a gente esperar muito não tá Dri ? Beijos !

PS:. AMEEEEI A PARTICIPAÇÃO DO BRUNINHO *--*

Anónimo disse...

lindo, lindo, lindo...
fogo é mesmo fantástico a forma como escreves..não tenho palavras.

continua e por favor :p não leves muito tempo a postar.

fico ansiosa a espera do próximo capitulo.

Anónimo disse...

Hum ... será que a Adriana vai aceitar sair com o Bruninho *-* e depois se esbarra com o David *-* ?

Annie disse...

Oh queria tanto que ela voltasse para o David.
Que reencontro, adorei mesmo.
Mais e mais rápido :D

Anónimo disse...

Oie Oie (:


Adoreiiii :)



A Adriana tem de se entender de vez com o david :)



Beijinhos*

Catarina disse...

Bem nao acho que a Adriana estar no brasil e o David tb seja apenas coincidência XD
A historia esta a ficar cada vez melhor ... Continua
Fico à espera do proximo ;)
Bjs

Anónimo disse...

Ola!!!
Adorei...
Como se chama a musica do blog?
Beijinhos

Anónimo disse...

Acho que a Adriana não se livra de um encontro com o David.
Tá um capitulo ameno, com menos emoções mas muito bonito na mesma

Anónimo disse...

este capitulo fez-me chorar que nem uma bebé ! parabéns drii está lindo, como sempre .
Quando puderes , manda outro capitulo (:

beijinhos !

Katyanne disse...

Cada vez gosto mais!!!
Sabe tão bem ler, que nos perdemos no tempo e só damos conta quando chega ao fim e percebemos que soube a pouco, pois queremos muito maisssss!
Continua :)

Beijinho

Diana Ferreira disse...

LINDO, LINDO, LINDO E LINDOOOOO!!!!
eu estou cá com um presentimento que as vidas de adriana e david ainda se vao cruzar naquela bela terra! :)

quero mais e muito mais, andava eu aqui desesperada para ler um capitulo teu e só hoje é que me apercebi que já tinhas psotado, visto que no meu blog nao apareceu as tuas actualizaçoes!

nao nos faças esperar muito mais, sim linda?´

beijinhos =)

Monik disse...

Adorei
Quero mais, está cada vez melhor.
Posta rapido.
Bjs
=)

Castro disse...

Lindo, estou sem palavras!
Espero mesmo que aquele lugar vazio seja rapidamente preenchido, e acho que eles se vão encontrar no Brasil :D

Bijinho, continua o teu excelente trabalho!

Anónimo disse...

Adoreiiii pff mais *-*


Ass: monica

paula. disse...

:o ontem como tinha acabado de ler como postaste, esqueci-me de comentar :o

Já te disse, mas repito!
TÁ LINDO, MEU AMOOOOOOOOOR *-*

Amo-te mais que tudo, princesa!

Ana disse...

adorei...

quero mais... so espero que ela vá ter a casa dele...

continua...

ElsaNeves disse...

Ok chorei, céus!!!
Lindo!!! Lindo.
A tua escrita deixa-me sem palavras.
Quero mais.
Beijinhos

Bianca. disse...

Lindo, lindo e lindo! :D
Adorei!

Beijo :)

Jéssica disse...

Só o que tenho a pedir é que os juntes.. É melhor para os dois, e para todos aqueles que os rodeia :)

Parabéns pela Fic

Marina Alves disse...

Como sempre AMEI!
Parabéns, continua por favor. :)

Lígia disse...

Amei simplesmente, a história está cada vez melhor *_*
A tua escrita é realmente maravilhosa :)
Continua...
Beijo

Ana Filipa disse...

ADOREI mais uma vez o que li :P


Mas espero que o David e a Adriana fiquem juntos *-*, só assim eles serão felizes :DD

**

Anónimo disse...

Dri quando postas de novo? estamos super ansiosas ! beijinhos . Parabéns menina :D

Anónimo disse...

Quase que choro com isto! oh
Amei o capitulo, como sempre, alias, amo tudo o que escreves!
Quero mais!
Beijinhos

Mary disse...

Está muito bom o capítulo!
Quero mais! Só espero que eles se encontrem e que ele deixe de ser parvo!
Bjs!

Anónimo disse...

Está espetacular, meu deus. Tu põems.me a chorar mulher!!! :)
Quero mais, mais e mt mais e rápido sim??
Fico á espera do próximo capitulo.
Bjinhos e continua...
Tatty.

P.s-Não dá para comentar com a conta do Google :s

Anónimo disse...

lindo..
esta história vicia :p
continua com o excelente trabalho-

Anónimo disse...

lindo. continua

beijinhos

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