sexta-feira, 18 de março de 2011

Capítulo 105 – Não sei se quero… (Parte III)

O meu corpo contraiu-se, depois de o ter deixado sozinho de manhã e ter trazido o saco eu podia adivinhar que ele não estava propriamente a adorar-me.

- Bem, vamos arranjar-nos… - disse a Paula na sua calma de sempre

- Sim, vamos… - ela estendeu-me a mão para me ajudar a levantar e eu coloquei-me de pé, só aí é que David teve a certeza de que era eu, pois debaixo daquelas meninas todas ele podia desconfiar, mas nunca confirmar até me ver

As meninas subiram às bancadas para beijar os seus respectivos e eu aguardei dentro das quatro linhas o seu regresso e evitando o máximo possível as trocas de olhares com David.

***
Como sempre fui a última a tomar banho, acabei por ficar sozinha para trás a vestir-me enquanto as meninas foram andando para ir ter com os rapazes.

- Tell them all I know now. Shout it from the roof top. Write it on the sky line. All we had is gone now. Tell them I was happy and my heart is broken. All my scars are open. Tell them what I hoped would be. Impossible, impossible, impossible, impossible… - foi a música que escolhi para me pentear ao espelho

- Agora não vai dar p’ra fugir mais não! – a voz do David surgiu nas minhas costas, virei-me instantaneamente e parei de cantar

- És louco? Isto é o balneário das mulheres, vai-te embora! – ordenei começando a arrumar as minhas coisas no saco de desporto

- A única pessoa aqui é você, e em você não há nada que eu já não tenha visto, por isso vou ficar! Pare de fugir, pare, pare! – percebi pela sua voz que começava a ficar desesperado

- Não estou a fugir de nada! – fechei o saco e encarei-o – Simplesmente não quero ter esta conversa contigo, porque não tenho nada para te dizer! Nada que já não saibas e além disso não estou disposta a ouvir novas acusações!

- Pare com isso, pô! Me deixa explicar aquilo que eu falei naquela manhã… Tou de saco cheio de ficar assim de mal com você, sem ter você do meu lado… É ruim de mais…

- David, estou sem tempo para isto… - agarrei no saco

Tentei sair do balneário, mas senti uma força exercer pressão contra mim, encostou-me contra a parede violentamente e os lábios húmidos de David tocaram os meus com uma brutalidade que lhe desconhecia, ele interceptou-me o caminho. O saco caiu-me ao chão e pelo toque bruto dos seus lábios eu percebi que ele estava frustrado com toda a situação. Porém deixei-me levar, ele conduziu a dança ritmada e violenta das nossas línguas e as minhas mãos percorreram descontroladamente o seu corpo, assim como as dele o meu.
Foi uma questão de segundos e de longas carícias provocadoras até estar sentada no colo dele, de frente para si e por sua vez, ele sentado no banco corrido do balneário. As minhas mãos envolviam os seus caracóis e repuxavam-lhos com alguma violência. As mãos dele viajaram debaixo da minha camisola e subiram até ao peito acariciando-o. Envolvi-o então num beijo mais profundo do que aquele que dávamos, ainda as nossas bocas não se tinham juntado de novo e já as nossas línguas se enrolavam e balançavam de um lado para o outro, num compasso frenético da histeria do amor. As mãos dele apertaram os meus glúteos tirando-me fora de mim e eu quebrei o beijo, mordendo-lhe o lábio inferior com um certo fulgor.

- Tenho saudade de fazer amô com você… - sussurrou baixinho perto dos meus lábios e eu roubei-lhe um novo beijo, mas desta vez apenas leves toques de lábios

- Adriana! – a voz da Paula soou no corredor de acesso

- Estou a ir! – levantei-me rapidamente do colo de David e apanhei o meu saco de desporto caído à saída do balneário

- Não me faz isso… - olhei-o, tive remorsos do que estava a fazer, do que ia fazer, mas as palavras ditas naquela manhã ecoavam na minha cabeça e ressentiam-se no meu coração

***
A maior parte do pessoal já se tinha ido embora, apenas eu, David, Ruben, Inês, Paula e Roberto ficámos à conversa no campo de volei.

- Tchi, Adriana! Não te cortes, vá lá! – pediu a Paula agarrada ao seu Roberto

- Não me estou a cortar, simplesmente não estou com pachorra para ir ao cinema!

- Mas tu adoras cinema! – interveio imediatamente o Ruben

- Lá porque adoro, não significa que esteja sempre disponível para ir… - revirei os olhos
- Ó Adriana, deixa de ser cortes! Vais e ponto final! – afirmou Paula segura
- Mas não vou nad… - ela interrompeu-me
- Vais e acabou! – compreendi que teria de ir, mesmo que fosse contrariada
- Tudo bem, eu vou… - suspirei
- E tu, mano? – perguntou o Ruben a David ao mesmo tempo que abraçou Inês por trás
- Eu não tou podendo… Tenho de resolver uns assuntos! – ele só não me queria ver e isso foi claro para mim, tão claro como a água
Eles ainda insistiram, mas o David não cedeu, era de ideias mais fixas do que eu. Seguimos para as garagens num passo ritmado e por entre mais dois dedos de conversa, os dois casais acabaram por ir embora e eu fiquei para trás mais o David.
- Quer boleia?
- Não precisa, Dê! Vou de metro, mas obrigada… - sorri levemente, apenas por educação
- De metro? Se eu te posso levar, me deixa, pô… - acariciou-me levemente as faces
- Vais ter de fazer um desvio, não vale a pena…
- Não me importo de fazer um desvio, desde que possa ficar nem que seja mais cinco minutos com você! – tocou-me novamente, desta vez no pescoço e o momento de há minutos no balneário voltou a repetir-se, estávamos novamente em êxtase um com o outro.
Beijámo-nos repetidamente e de uma maneira louca até eu ficar esborrachada entre ele e o carro. As minhas mãos percorreram o corpo dele, desde o topo do pescoço até ao fim da sua cintura, acariciei-o e por entre a união das nossas bocas ele soltou leves gemidos de prazer e daí até ele ficar excitado não foi preciso muito. Eu queria muito ser dele, tanto como ele queria ser meu. Queria puder esquecer o que tínhamos dito, mas não conseguia, não me saía da cabeça. Ele acabou por me puxar mais para si, colocando as mãos nos meus glúteos e eu senti o seu visível estado de êxtase contra o meu corpo. Fomos novamente interrompidos, desta vez pelo barulho de um carro a entrar nas garagens. Sorri-lhe, roubei-lhe um beijo e saí na direcção da rua.

***
Cheguei a casa e deitei-me no sofá, para o almoço contentei-me com uma salada leve e um sumo natural de laranja. Deitei-me no sofá mentalizando-me para a seca que iria apanhar a segurar a vela dos dois casalinhos, Ruben e Inês, e Paula e Roberto, naquela noite de cinema.
Os meus pensamentos foram atrapalhados pelo sinal de nova mensagem.
“De: Amor ♥
Tou morrendo de saudades suas, pô! Será que custa muito a gente se encontrar, falar e resolver esse assunto? Tou farto de tar de mal com você… =( “
“Para: Amor♥
Como é que estás a morrer de saudades se estivemos juntos nem há três horas atrás? E respondendo á tua pergunta não, não custa… Mas não me apetece ter mais essa conversa! =/ “

“De: Amor♥
Pô, num faz isso, amô! E nois? Como a gente fica? Assim, nesse pega-pega, no vai-não-vai? Te amo tanto! =( “
“Para: Amor♥
David, não entres por aí e não tentes chegar ao meu coração! Em relação ao pega-pega, vai-não-vai, só tenho a dizer que tu é que me beijaste, não eu!”

“De: Amor♥
Não vai dizer mais que me ama? Ainda ama, não ama? :S”

“Para: Amor♥
Amo-te, claro que te amo… Mas tu disseste que a confiança não existe e sem isso o amor não sobrevive, com muita pena minha! Mas pelo menos que fique o respeito um pelo outro! (: “

“De: Amor♥
Não quero só seu respeito! Quero você! Te amo, pucha! Oh meu Deus, cê nunca errou? Nunca falou coisas sem pensar? Todo o mundo erra, Adriana!”

“Para: Amor♥
Ok, erraste em dizer o que disseste, mas para o teres dito é porque a confiança não é assim tanta! Desataste com acusações em vez de me ouvires, de procurares saber o que aconteceu, ou melhor, o que não aconteceu! Mas o que foi dito, foi dito e eu não esqueço!”

“De: Amor♥
Pô, Adriana… Pega leve! Eu fiquei doido de ciúme!”

“Para: Amor♥
Parece que o ciúme te saiu caro! :/ “

“De: Amor♥
Já entendi que você não vai ficar de bem comigo… =(
Podemos pelo menos ser amigos, ou até isso minhas palavras impossibilitam?”

“Para: Amor♥
Sim, amigos podemos ser :) “

“De: Amor♥
Tudo bem… Amigos, seremos… ;(
Fique bem! Se cuida, garota!”

Deitei-me novamente no sofá tentando relaxar, agarrei dezassete vezes no telemóvel com o propósito de trocar “Amor♥” para “David”. De todas as vezes que o fiz, a coragem faltou-me, o meu coração mirrou e eu cancelava a operação. Acabei por adormecer, com a cabeça cheia de pensamentos do que eu não queria, mas iria ser a David… uma amiga.

***



Depois das SMS com David, e se a vontade de sair já não era muita perdi-a por completo, mas tinha dado a minha palavra ao pessoal que ia e não ia desmarcar tudo à última da hora. Arranjei-me, o mais simples que consegui para passar despercebida no meio deles, levei os meus cabelos soltos e naturais e o mínimo de maquilhagem possível.
Há hora combinada encontrei-me com eles à porta do Colombo, fiquei surpreendida quando para além dos dois casais, vi David, o meu “amigo”.

- Boa noite! – esbocei um sorriso simpático a todos – Desculpem o atraso, mas o metro está um caos!

- Não faz mal… Nós também não chegámos assim há tanto tempo – a Inês sorriu-me

- Já comeste alguma coisa? – perguntou a Paula

- Sim, comi uma sandes antes de sair de casa…

- E isso é lá jantar de gente! Tens de te alimentar melhor, Adriana…

- Eu prometo, que vou começar a comer melhor, mas que eu saiba viemos aqui para ir ao cinema e não para discutir o meu plano alimentar!

- Pronto, já vi que o teu bom feitio está activo, isso é que é preciso! – ela foi irónica

- Vamos entrar… Quero muito ir ver aquele filme, amor! – pediu Inês abraçando-se a Ruben
Acabámos por seguir, Ruben e Inês, Paula e Roberto juntos, como casais que eram e eu e o David separados, cada um para seu lado, ladeando os dois casais.

***
No cinema a disposição dos lugares foi, Ruben, Inês, Roberto, Paula, eu e David. Sim, fiquei do lado dele, por muito desagrado que isso me tivesse incomodado, mas não disse nada para não estragar a noite a ninguém. Ainda estavam a passar as publicidades, os rapazes tinham saído para ir comprar pipocas e como era dia da semana e há noite o cinema não estava muito cheio, o que veio mesmo a calhar, assim eles não seriam incomodados pelas fãs.

- Ó Adriana, que cara é essa? – a Paula deu-me um toque no braço e eu olhei para ela

- A minha! – respondi monocórdica voltando a focar-me no ecrã gigante

- Conta outra! Que aconteceu?

- Não vês quem tenho do meu lado? – perguntei irritada, olhando para o lugar vazio e que em breve iria ficar ocupado por David

- Oh, não comeces, Adriana! O David não se sentou do teu lado por mal e ele não está a pressionar nada, está a agir normalmente, como teu amigo, por isso aproveita a noite! – ela sorriu-me e o meu coração amoleceu um pouco

- Pipocas, gente! – a voz animada do David percorreu a fila que era apenas ocupada por nós

Cada rapaz trazia um balde de pipocas e um copo de sumo, claro que o do Ruben era o maior de todos, tamanho “take-away”.

- Tchi, que baldada, Ru! – não me contive e meti-me com ele

- Tá caladinha, ó meia-leca! – o David sentou-se ao meu lado, agarrei numa pipoca e atirei à cabeça do Ruben – Olha aí, ó!

- Bem, não vão começar pois não? – a Inês interveio, esta estava realmente interessada no filme que íamos ver e todos nos desmanchámos a rir

Voltei a ajeitar-me no meu lugar, o David subiu a divisória entre nós e colocou o balde no meio.

- Toma, é ice tea de limão como cê gosta! – esboçou um sorriso que me arrepiou de tão bonito que era e sorri também

- Obrigada, és um querido! – aproximei-me e dei-lhe um beijo no rosto, que o apanhou desprevenido pois ficou sem jeito

As luzes do cinema apagaram-se lentamente, a última publicidade passou e o filme começou, e o David… Bem ali, do meu lado...

domingo, 13 de março de 2011

Capítulo 105 – Não sei se quero… (Parte II)

Acordei com uma luz do corredor a invadir o quarto e a embater-me nas pálpebras ainda fechadas e em descanso, rapidamente me encolhi na cama e dei uma volta para o outro lado, mas a luz não parava de me incomodar.

- Bahhh! – barafustei ao mesmo tempo que tapei a cabeça com a almofada e acho que até esse momento não tive a perfeita noção de onde estava

Apenas quando senti o perfume de David, misturado com o meu, impregnado na almofada e nos lençóis em que estava envolvida, me recordei da noite anterior e de tudo o que tinha acontecido. Uma sequência de flashes invadiu o meu consciente e apenas foi quebrado quando ouvi o interruptor do corredor fazer barulho e a luz desapareceu. Destapei a cabeça esperando que David regressasse, mas ele não apareceu. Sentei-me na cama ainda meio azamboada, estiquei as pernas e os braços, toda a tensão acumulada durante a noite de descanso saiu apenas com aquele gesto. Senti todo o meu corpo relaxado e a minha cabeça leve, não sei há quanto tempo não tinha uma noite assim, tão descansada. Não foi preciso acender o candeeiro na mesinha, pois os primeiros raios de sol já invadiam o quarto. Levantei-me e ainda me espreguicei leve e novamente. Bocejei e avancei, ainda de olhos semicerrados, para o lado de fora do quarto. O corredor estava vazio, a minha cabeça espreitou para a sala que estava sem ninguém, da casa – de-banho não vinha qualquer barulho, por isso concluí, que se ele ainda estava em casa, só podia estar num sítio e aquele cheirinho a torradas denunciou-o.

- Bom dia… - saudei calmamente ao entrar na cozinha, vi-o de costas para a porta e de volta da bancada preparava o pequeno-almoço

- Bom dia, garota! – ele olhou-me de cima abaixo – Ué, já tá de pé?

- Claro! Não é nenhuma assombração que aqui está! – aproximei-me e em bicos de pés e a algum custo, dei-lhe um beijo na bochecha e rapidamente a sua expressão mudou

- Fiz o café da manhã para a gente… - disse de uma maneira fria, não diria indiferente, mas parecia magoado comigo

- Hum, está com óptimo aspecto! – sorri levemente ao ver a mesa, que ele tinha preparado cuidadosamente para o nosso café da manhã

- Espero que você goste! – ele sorriu para quebrar o gelo

- Vou com certeza gostar!

- Se senta, então… - ele afastou a cadeira para que eu tomasse o meu lugar na mesa e assim o fiz

- Obrigada – esbocei um sorriso tímido, o David era um autêntico cavalheiro

- Dormiu bem? – perguntou ao mesmo tempo que se sentava do meu lado

- Sim, muito bem… E tu? – olhei-o nos olhos pela primeira vez desde que entrara naquele espaço

- Melhor seria impossível! – percebi as segundas intenções das suas palavras, mas não me deixei apanhar na armadilha

- Ainda bem! Depois de uma noite de farra dormir bem fica sempre mais fácil, visto que estamos mais “mortos que vivos” – rimo-nos suavemente e foi claro para ambos, que eu acabara de fintar a abordagem à noite anterior

- Café? – perguntou erguendo o bule no ar

- Sim, por favor… - estendi-lhe a minha chávena e ele verteu o café, aquele cheiro era tão forte que ao entranhar-se no meu olfacto me provocou uma dor de cabeça momentânea – Está bem assim, obrigada!

Não posso negar que aquela indiferença que impusemos um ao outro me incomodou, parecíamos dois estranhos ou meros amigos a tomar o pequeno-almoço juntos, por mera casualidade… do destino, quem sabe! A minha vontade foi sair dali o mais depressa possível, nem sequer ficar para acabar a refeição, mas não podia fazer-lhe uma coisa dessas depois de todo o trabalho que tivera a preparar aquilo para nós.
O resto da refeição foi tida em silêncio, não comi grande coisa, os olhares constantes dele estavam a matar-me por dentro. O desejo impresso nos seus dois olhos verdes, começava a apoderar-se de mim à medida que estes me fitavam e era uma questão de segundos até eu ceder. Antes de fazer algum disparate ergui-me do meu lugar e levei comigo a caneca e o pratinho das torradas já vazio.

- Larga isso, Adriana! Deixa que eu arrumo… - ele levantou-se também e seguiu-me até à bancada

- Nada disso, David! – coloquei a loiça em cima do balcão de granito – Eu posso perfeitamente ajud… - rodei a minha cabeça e o meu corpo acompanhou o movimento, não consegui terminar o que ia dizer pois embati em David que estava perfeitamente posicionado atrás de mim

Estávamos colados um ao outro, ele olhava-me nos olhos e por muito que eu tentasse fugir com o meu olhar era como se ele me puxasse para si. A minha boca abriu-se várias vezes no intuito de conseguir dizer alguma coisa, mas não saiu nada. Estava muda e não fui capaz de formular uma única frase com sentido.

- Tava falando o quê? – a sua voz suou perfeitamente inebriante e eu deixei-me hipnotizar pela perfeita sintonia do seu timbre vocal

- Ah… - gaguejei durante alguns segundos, os meus olhos estavam fixos nos seus lábios e quando finalmente me consegui desligar daqueles lábios perfeitos e que eu podia e queria chamar de meus, consegui falar – Estava a dizer que posso perfeitamente ajuda! – tentei parecer o mais segura possível, mas não consegui, a voz falhou-me e tremelicou a meio da frase

Vi-o abafar uma gargalhada e aumentou a profundidade com que me olhava. Segui os olhos dele, que percorreram cada traço do meu rosto, cada limite e cada contorno. Olhou-me nos meus olhos grandes, escuros e pestanudos; seguiu para o meu nariz, desviou-o levemente para as minhas maças do rosto bastante salientes e definidas, depois para o meu queixo e por fim vi que ele se fixava nos meus lábios. Cerrei-os de nervosismo e ele tocou-lhes levemente, a linha tensa desfez-se e relaxei.
Fechei os olhos, ele mexia comigo de maneiras que eu própria desconhecia e que por vezes gostava de conseguir controlar, o que não foi o caso. Senti os seus lábios húmidos tocarem os meus e envolveu-os num beijo calmo, sem qualquer pressa, sem qualquer urgência, apenas nós…a confessarmos o nosso amor, naquele terno e aconchegante toque de lábios.
O beijo foi quebrado e as nossas testas permaneceram unidas. Dois sorrisos leves esboçaram-se nos nossos rostos e o David não hesitou em roubar-me um último beijo, apenas um leve toque de lábios completamente correspondido.
De testas coladas, olhámo-nos longamente nos olhos permanecendo em silêncio, por vezes os nosso olhares viajam entre os olhos e a boca um do outro, mas não ousámos uni-las novamente.

- Quando é que a gente se vai acertar? – ele respirou profundamente ao mesmo tempo que falou e colocou uma madeixa de cabelo atrás da minha orelha, com todo o carinho que lhe conhecia

Foi nesse exacto momento que o meu telemóvel tocou e eu agradeci…Ai! Como agradeci a Paula ter-me ligado nesse exacto momento. Desviei-me dele através do pouco espaço deixado entre mim e a bancada, estava completamente encurralada. O meu telemóvel estava na sala, senti a mão do David no meu braço puxando-me para si, assim que tentei sair da cozinha. Com o seu olhar profundo e meigo implorava-me que não fosse, mas eu tinha de ir, pelo menos até arranjar palavras para a pergunta que ele me tinha feito. Afastei-o levemente e saí na direcção da sala.

- Estou? – atendi com um sorriso

- Bom dia, boneca! – ouvi a voz doce da Paula do outro lado do telefone, parecia-me extremamente animada

- Bom dia, mi amor! – não contive um sorriso e podia adivinhar-lhe outro igual do outro lado do telefone

- Dormiu bem, a princesa?

- Dormi, sim senhora! – respondi num tom pomposo à sua picardia

- Então se já dormiu tudo, faça o favor de se por no estádio em meia hora, porque ou muito me engano ou a senhorita esqueceu-se do jogo de volei com as meninas! – nesse exacto momento caí em mim e recordei-me do combinado

- Eu? Esquecer? Claro que não… Estava acordada, não estava? É porque pus o despertador e não me esqueci do jogo! – menti da melhor maneira que sabia

- Claro, claro! Vou fingir que não te conheço e acreditar nessa história, vê se não te atrasas, que algumas das meninas já lá chegaram e o resto está a caminho, sim?

- Sim, olha fazes-me um favor, Paulinha?

- Claro, diz…

- Leva uns calções e um top que eu esqueci-me de trazer uns…

- Ah, afinal sempre te esqueceste! – fui apanhada na minha própria mentira e não aguentei, desmanchei-me a rir e ela seguiu-me

- Nada disso, simplesmente estou a dormir em casa do David e não tenho cá as minhas coisas!

- Em casa do David? –pelo entusiasmo na sua voz, calculei facilmente que estava a sorrir

- Sim, em casa do David… Ontem fui sair com o pessoal e acabei por encontrar o David, o Ruben, o Gustavo e a Inês. Eles convidaram-me para vir a casa dele jogar na PS, mas eu acabei por adormecer e como era tarde acabei por dormir cá…

- Com o David?

- Sim, com o David! Que eu saiba a casa é dele!

- Na cama dele? – a voz dela foi bastante sugestiva

- Sim, na cama dele…

- E ele? Dormiu onde?

- Olha não achas que já estás a querer saber demais, Dona Paula? – ela riu-se e eu também

- Pronto, já não está cá quem falou!

- Ainda bem! – rematei segura por finalmente aquela conversa ter chegado ao fim, ou pelo menos assim pensava

- Mas não te livras de me contar os pormenores quando chegares aqui ao estádio!

- Claro, claro… Vai sonhando! Olha vai masé dando umas voltinhas ao campo, porque se ficares em pé à espera que eu te conte, vais-te cansar, amor…

- Dizes isso agora, porque quando eu te apanhar à frente vou apertar contigo de uma maneira, que vais contar tudinho!

- Tá bem, veremos! – a minha soou a desafio e eu sabia que tinha acabado de comprar uma pequena guerra com Paula – Não te esqueças de um equipamento então, eu vou já ter aí, mal possa! Beijinhos, mi amor!

- Beijinhos, boneca! Até já! – desligámos a chamada

Rapidamente me dirigi à cozinha, o David já tinha arrumado quase tudo em cima da mesa e atirava com a loiça violentamente para dentro da máquina. Pude ler em cada um dos seus gestos uma intenção de brutalidade, como se descarregasse em tudo o que o envolvia.

- David… - encostei-me à porta da cozinha na esperança que a minha voz o fizesse parar e olhar para mim

- Não precisa falar nada, não. Já percebi que tá de saída! Então, faça o favor! Fica a vontade e quando sair, fecha a porta! – ele interrompeu-me e pronunciou o seu discurso de forma directa, rápida e fria, nem sequer olhou para mim e continuou a levantar a mesa, num ritmo frenético entre esta, a bancada e a máquina da loiça

Engoli em seco, esperei alguns segundos na esperança de que ele me olhasse, nem que fosse durante breves segundos, mas infelizmente ele não o fez. Continuou a arrumar as poucas coisas que sobravam e ignorou a minha presença. Percebi que a minha presença não era mais desejada e dirigi-me ao quarto. No guarda-vestidos dele procurei alguma coisa que eu pudesse identificar como minha e não foi preciso muito, estavam lá duas mudas, eu sabia que as tinha deixado lá para o caso de incidentes como aqueles. Tirei o pequeno saco desportivo para fora, tirei uma muda de roupa e vesti-a tão rápido quanto consegui.
Olhei-me ao espelho preso na parede e tinha vestígios de maquilhagem da noite passada. Retirei um toalhete da minha bolsa e limpei-me rapidamente, queria sair dali o quanto antes. Calcei os ténis, arrumei a roupa da noite anterior, coloquei o saco às costas e avancei determinada na direcção da porta de saída.



- Vai onde com esse saco? – a voz de David interceptou-me o percurso

- Embora, mas não te preocupes que fecho a porta de casa! – abri-a nesse momento, completamente disposta a sair sem sequer olhar para trás, mas uma mão forte de David fechou-a com força e eu tive de fugir para não me entalar

- Não vai a lado nenhum! – os seus olhos encararam-me, estavam ligeiramente avermelhados o que denunciava o seu conturbado estado de alma

- Vou sim! Tenho coisas combinadas! - fiz-lhe frente, não demonstrei medo e enchi o meu peito de ar

- Me diz, onde vai com esse saco?

- Embora! Não percebeste? Espera, queres que soletre? – sem dar conta um rasgo de ironia traçou a minha voz

- Sim, mas isso é seu saco das roupas de quando costuma ficar cá em casa… - ele acalmou-se e a escura neblina que conturbava os seus olhos, foi substituída por uma expressão de clara desilusão

- Pois é, dizes bem… O meu! – reforcei bem a última palavra

- E vai levar?

- Vou… Aqui já não me faz falta! – disse aquilo com uma frieza, sem antes calcular as consequências, foi visível nos seus olhos cristalinos que acabara de fazer disparate

- Não faz? Não tenciona mais passar noites aqui em casa, é isso? – ele soltou finalmente a porta, aos poucos, e tão rapidamente como a desilusão assomava ao seu coração, ele deixava espaço para me ir embora

- David, não vamos e nem podemos ignorar o que foi dito aqui naquela manhã!

- Não? Fala a sério! Você é que tá fugindo, ignorando! Eu tentei falar um montão de vezes com você, pô!

- David, agora não é a altura, tenho de ir…

- Vê? Tá fugindo de novo, caraca! – ele soltou completamente a porta deixando o espaço totalmente aberto para qualquer eventual fuga minha, levou as mãos à cabeça e afagou freneticamente os caracóis

- Não estou a fugir, simplesmente tenho de ir… Noutra altura temos esta conversa! – abri novamente a porta de casa

- Ao menos deixa o saco com as roupas aqui… Ao menos assim tenho a certeza que vai voltar!

- Eu vou voltar! Prometo! – dei-lhe um beijo no rosto e saí, fechando a porta atrás de mim

***

- Fogo, estava a ver que não! – reclamou Paula mal entrei no balneário

- Bom dia, p’ra si também! – esbocei um sorriso aberto e beijei-a no rosto, ela retribuiu

- Bom dia! Estamos há tua espera há um tempão! – ela ergueu-se do banco, já estava equipada e deu-me o meu equipamento

- As outras? – comecei logo a vestir-me



- Foram andando para o campo, aquecer… Estar um bocadinho com os rapazes…

- Com os rapazes? – petrifiquei nesse exacto momento, uma vez que naqueles últimos meses o termo “rapazes” incluía também David

- Sim, os meninos vieram ver-nos! Mi cariño está lá fora! – fez um sorriso apaixonado e eu tentei recompor-me depois do que ela me acabara de dizer

- Quem mais veio? – muito discretamente soltei a pergunta e dirigi-me ao espelho para amarrar o cabelo

- O Aimar, o Salvio, o Luisão, o Fábio, o Ruben e acho que é só… - ela seguiu-me até à zona dos lavabos

- Hum… Está bem… - sorri de alivio e dei o último retoque no cabelo – Estou pronta! – virei-me na direcção dela e um assobio invadiu o ar

- Ó rabo bonito, vê se te despachas que está tudo à tua espera… - vi a Catarina espreitar para dentro do balneário

- Para variar! – a ela juntou-se a Paula e não deu pra conter, ri-me com elas

***
- Vai, é tua, é tua! – gritou a Inês do outro lado da rede, fez um remate certeiro que atravessou para o nosso campo

- É minha, é minha! – elas abriram espaço, levantei a bola de manchete para a Brenda e ela facilmente a colocou do outro lado da rede fazendo ponto para nós

- Fogo, vocês ganham sempre, bolas! – refilou Andreia, que fazia equipa com Bianca, Catarina e Inês – Não quero jogar mais!

- Oh, não tenham mau perder… - pediu Débora rindo-se da expressão amuada de Andreia

- Não estão a perder assim por tanto! – Paula tentou amenizar a situação

- Oh, vamo continuar jogando, gente! – pediu Brenda ao mesmo tempo que batia palmas motivadoras e se colocava na posição-base

Era a minha vez de velar, fiz um serviço por cima e acertei. Tive de fazê-lo mais cinco vezes pois às primeiras a bola nunca foi amortizada por nenhuma delas.

- Vai, vai lá, pá! – gritou a Débora do nosso lado do campo, incentivando o adversário, os seus gritos desconcentraram-nos e porque olhámos para ela, perdemos os pontos

Os festejos exaltaram-se do outro lado da rede, cantavam, pulavam, abraçavam-se. Eu caí no chão de tanto rir e tive de me agarrar à barriga que já começava a doer. A expressão da Brenda era claramente carrancuda, ela detestava perder.

- Mocheeeeeee! – gritou a Débora e todas correram na minha direcção, executando a sua ordem

Algumas de nós já éramos casadas, mães, mas quando queríamos parecíamos umas autênticas crianças.
Pularam todas para cima de mim, ainda pedi que saíssem, mas como se pode adivinhar não me valeu de nada. Quando saíram de cima de mim e dispersaram, levantei-me e um rosto novo ocupava as bancadas: David.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Capítulo 105 – Não sei se quero...(Parte I)

DAVID

Depois daquele momento com ela, meu coração tava explodindo de tanta felicidade e meus lábios esboçavam exactamente isso.
Tínhamos vindo todos no meu carro e assim tencionávamos regressar a casa. O Ruben é que ia conduzindo com Inês do seu lado e eu ia no banco de trás mais o Gustavo.

- Eish, coitada! Ela ainda está à espera de um táxi, não há nenhum na praça… - Inês alertou para Adriana que estava ainda esperando um táxi na praça junto da discoteca

O Ruben parou o carro e eu saí, não ia deixar ela ali, àquelas horas da noite e sozinha.

- Entra no carro, vem com a gente… - pedi olhando-a nos olhos

- Não quero dar trabalho, vão terminar a vossa noite! – ela me sorriu, entendi que não era apenas pelo convite, mas sim porque compartilhava a mesma felicidade do beijo que havíamos dado há minutos atrás

- Não dá trabalho nunca, garota! Por favor… - olhei ela nos olhos e minha boca se abriu novamente num sorriso louco de felicidade

- Tá bom! Mas se eu vir que estou a dar trabalho vou-me embora…

- Não vai dar, vem! – estendi minha mão p’ra ela meio a medo, não tinha certezas se ela a iria aceitar ou não

Obrigada! – ela juntou sua mão à minha, p’ra grande surpresa minha. Seu toque continuava igual e a meiguice dos seus gestos permanecia a mesma, não conhecia menina mais doce do que ela

***

- Ah, é sempre a mesma coisa! Ganhas sempre, caraças! – refilou o manz, atirando o comando da PS p’ro chão

- Deixa de ter mau perder, caraca! – dei uma sacudida na cabeça dele

- Importam-se de não gritar? – olhamos ambos p’ra Inês, Gustavo já tinha ido embora – Ela adormeceu… - aponto para o sofá onde Adriana deitada e encolhida dormia, que nem um anjo perfeito

- E agora? – Ruben fez uma expressão de ralação

- Agora deixa ela aí… É tarde p’ra gente a acordar a fim de ir p’ra casa…

- Ela pode dormir aqui… - sugeriu Inês, tanto ela e Ruben me olharam

- Por mim… Só há um quarto, mas eu deito ela na cama e durmo no sofá!

- Não há problema? – perguntou Ruben se erguendo do chão

- Sem problema! Eu cuido dela! – sorri levemente

- Toma-me bem conta da miúda, puto! – demos um abraço de despedida

- Tomo sempre… - dei dois beijinhos em Inês

- Então a gente vai indo… Não te esqueças que amanhã só temos treino à tarde, mano! – relembrou Ruben

- Sim, eu sei… Escutei o mister!

- Então vá, fica! – se aproximou de Adriana e deu um beijo na sua testa, ela continuou dormindo

Finalmente foram embora, o carro dele tinha ficado na minha garagem quando nos encontrámos antes da noitada. Agora era apenas eu e ela… Me aproximei do sofá, passei as mãos nos cabelos dela, desentrelaçando alguns dos seus cachinhos mais rebeldes. Ela se moveu rapidamente, respirou mais profundamente, mas não despertou. Beijei sua testa, beijei seu rosto com delicadeza e não resisti, toquei levemente nos seus lábios. Um beijo doce e inocente, apenas pra matar as saudades que eram mais que muitas.
Com todo o cuidado do muito, agarrei ela no colo e a levei pro meu quarto…

***


ADRIANA

Lembro-me de chegar a casa de David, os rapazes agarraram-se logo à PS, como já era hábito. Mas pouco a pouco, comecei a ouvir as vozes deles distantes, as imagens foram ficando turvas, a minha respiração mais pesada e por fim as minhas pálpebras cerraram-se deixando-me na escuridão.
É a última memória clara que tenho antes de ter acordado envolta por uns braços quentes.
Mesmo sem abrir os olhos eu sabia que era David que me levava ao colo, o seu cheiro era inconfundível, e aquele toque que ardia sob a minha pele, que me provocava um arrepio na espinha, era dele, e só podia ser dele… Mais ninguém me fazia sentir assim.
A algum custo abri os olhos e vi que ele me transportava nos seus braços, estávamos no corredor e ele dirigia-se ao quarto.

- David? – a luz à minha volta incomodava-me e apenas conseguia abrir um olho

- Oi? – a voz dele saiu mais suave do que aquilo que eu lhe conhecia

- Onde é que vamos? – entrámos no quarto dele – Os outros? – esfreguei os olhos tentando clarear a minha visão

- Eles foram embora, cê adormeceu… Vou pôr você p’ra dormir na minha cama – pousou-me então em cima da sua cama e confesso, estava demasiado cansada para tentar argumentar e sair dali

- Obrigada… - aconcheguei-me na almofada onde o cheiro dele estava embrenhado, respirei fundo e senti aquela essência preencher todos os meus poros

- Vamo arranjar qualquer coisa p’ra você vestir…

- Eu durmo mesmo assim… - disse já de olhos fechados e aconchegando-me

- Dorme, nada… Vai dormir desconfortável! – ele afastou-se até ao seu guarda vestidos e tirou de lá umas calças de fato de treino e uma sweat do Benfica – Vamo lá! – puxou-me levemente até ficar sentada na cama

Baixou-se ficando de cóqueras em frente a mim. Com muito cuidado, e enquanto eu ainda ia tentando despertar, ele tirou-me os sapatos e não posso negar que fiquei arrepiada assim que senti a pele dele contra a minha. Com as pontas dos dedos, e num gesto quase sumido, ele fez as suas mãos deslizarem desde os meus pés, subindo para as minhas pernas, de seguida cintura até finalmente alcançar o meu torso.
As mãos dele percorreram o fecho do vestido e destaparam-me os ombros. Fê-lo com uma delicadeza que fez cada parte de mim estremecer, olhei-o nos olhos e vi que ele fazia o mesmo. Os meus lábios quiseram abrir-se num sorriso, mas contive-me, não conseguia esquecer o que ele me tinha dito no dia em que tinha visto aquela maldita revista. Puxou-me o vestido até à cintura e vestiu-me a sua sweat do Benfica.

- Se levanta, amor… - o meu coração bombeou com força o sangue assim que ele me chamou daquela maneira – Desculpa…

- Não faz mal… - a minha voz saiu meiga e levantei-me como ele pediu, mas ainda tive a sua ajuda para me apoiar

Com um pequeno jeito, das suas mãos grandes nos meus quadris, o vestido deslizou até ao chão. O olhar dele percorreu o meu corpo de cima abaixo e eu não pude evitar sorrir quando percebi que ainda mexia com ele.
Vestiu-me as calças de fato de treino que me estavam grandes, deu umas dobras no fundo das pernas e umas na cintura para que não escorregassem, mas não adiantou de muito.

- Se deita, muleca, vai… - passou com a mão levemente no meu rosto

- Hum, hum… - confirmei positivamente num sussurro e vi um brilho indescritível nos seus olhos

Senti a mão dele na minha cintura, tentava empurrar-me com cuidado para que me deitasse, mas eu agarrei-me ao tronco dele, rodeando a cintura dele com o meu braço direito. A minha mão pousou nas costas dele, a outra que estava livre tocou levemente na sua barriga com a ponta dos dedos, ele olhou para baixo para confirmar que o toque era meu e eu segui-lhe o gesto. Mas quando erguemos as cabeças e nos encarámos, os nossos rostos estavam colados e as nossas bocas a escassos milímetros de distância. Balancei nos meus pés e sem querer os meus lábios deram um leve toque no lábio inferior dele, senti-o tremer e fechou os olhos para se controlar. Aproveitei para sorrir levemente, era a única oportunidade que tinha de mostrar que estava feliz de o ter por perto, apesar de estarmos separados. Iniciei uma brincadeira completamente inconsciente e avancei para o beijar, mas recuei quando ele se preparava para unir as nossas bocas. Os meus lábios entreabriram-se, assim como os dele, prolonguei a brincadeira de há segundos atrás. Fechei os meus olhos, como ele já havia feito, assim que senti os nossos lábios roçarem-se e por consequência senti a respiração quente e descontrolada dele, misturar-se com a minha, mais calma, mas igualmente profunda. Quando os nossos lábios entraram novamente em contacto, a língua de David tocou-me de raspão do lábio inferior, era tempo de acabar com aquela brincadeira. Eu ainda tentei fugir, mas os seus braços puxaram-me para si com uma violência que apesar de o ser, não me magoou. A sua boca procurou a minha e eu não tive como fugir, beijámo-nos novamente. As nossas línguas já conheciam todos os trilhos na boca do outro e cada recanto foi percorrido com calma, mas muita atenção às ínfimas particularidades do ser que tínhamos na nossa frente e que amávamos inegavelmente. Senti a sua língua fugir-me e os lábios dele irem de encontro aos meus para selar o beijo, mas foi aí que aproveitei para prolongá-lo. A minha língua foi contra a dele e envolveu-as novamente em movimentos ritmados e perfeitamente sincronizados. Quebrei o beijo quando estava suficientemente saciada e selei-o com um toque lábios curto. Deixei os meus olhos fechados e deitei-me, não tive coragem para ver a sua reacção à minha acção mais ousada.
Pousei a cabeça na almofada, senti-o afastar-se e apagou a luz do tecto, senti-me em segurança para abrir os olhos. Vi-o pela claridade que invadia o quarto entre as tiras abertas da persiana, uma silhueta difusa, mas facilmente reconhecível para mim. Aquela silhueta despiu a camisa que tinha vestida, logo de seguida a t-shirt e deixou ao descoberto o corpo perfeitamente esculpido e que lhe adivinhei apenas pela sombra. Estendi-me para alcançar o candeeiro na mesinha de cabeceira e acendi-o. O David deu um pulo, pois estava literalmente de “calças na mão”, claro, não pude evitar rir-me discretamente.

- Desliga isso, garota! – ordenou-me visivelmente atrapalhado e vestindo umas calças de pijama

Ri-me para dentro, não pude evitar fazê-lo ao constatar tanta atrapalhação.

- Tá rindo é? Pensei que tava dormindo… Tava muito cansada!

- E eu estou a dormir, não vês? – disse de olhos fechados e tentando conter o riso

- Não tou vendo nada, não! – ouvi-o gargalhar levemente

- Mas estou! – continuei de olhos fechados e ouvi-o apagar a luz e afastar-se, voltei a acender o candeeiro – Hey, vais onde? – levantei-me levemente, apoiada no cotovelo

- P’ra sala… Vou dormir e você, vê se faz o mesmo!

- Vais dormir no sofá?

- Vou…

- Isso não está correcto, a casa é tua… Eu posso dormir no sofá!

- Cê dorme aí, sim, muleca? – sorriu-me levemente, mas foi o bastante para o meu coraçãozinho bater forte

- Não! Não vou deixar que durmas no sofá! Ao menos dorme aqui… Juro que nem sequer me aproximo de ti! – beijei os meus dedos, que formaram uma cruz perfeita em frente à minha boca

- E cê tá achando que uma meia lequinha, como você me assusta? – riu-se

- Olha chama-me tudo, agora meia lequinha não! – a minha expressão fechou-se e tornou-se sisuda

- Oi, a meia lequinha amuou, gente! – ele gargalhava alegremente e eu não me contive, alinhei na brincadeira

- Agora a sério, não há necessidade de dormires no sofá, a cama é suficientemente grande para os dois… - cheguei-me para um cantinho e abri o outro lado da cama, oferecendo o espaço livre para ele se deitar

- Tem certeza? – a sua testa enrugou-se, acho que ele não estava muito convencido

Ele sabia que eu estava ainda muito magoada com ele depois das suas duras palavras naquela fatídica manhã que ditou o fim da nossa relação, e portanto, aquela aproximação era-lhe duvidosa, penso que deve ter achado que a qualquer altura desataria aos berros com ele, acusando-o “a torto e a direito” do que fizera, mas surpreendentemente eu estava calma, muito calma…

- Tenho, deita-te! Precisas de descansar… - não me contive e sorri-lhe, mas muito timidamente

Ele deu um jeito nos caracóis, sacudindo-os levemente de um lado para o outro, aproximou-se da cama e acabou por se deitar bastante afastado de mim. Não vou mentir e dizer que aquela distância não me incomodou, mas eu sabia que era o certo, era o que tinha de ser feito e era preferível que pelo menos um de nós tivesse a força suficiente para estabelecer essa distância. Alcançou o candeeiro na mesinha de cabeceira e regulou a intensidade da luz, deixou-a exactamente como eu gostava. Suave, mas que ainda me deixasse ver o que me envolvia.

- Boa noite, Adriana…- desejou calmamente e fechou os olhos

- Boa noite, David… - sussurrei e deixei-me ficar a contemplá-lo

Não demorou muito até o corpo dele se relaxar, a respiração tornou-se mais pesada e a sua expressão serenou. Acho que um sorriso parvo inundou os meus lábios naquele exacto momento, quando me deparei com o mais magnífico retrato da minha vida. As minhas mãos ocorreram à sua face, num gesto completamente irracional e sem calcular as consequências. Toquei-lhe as faces pálidas, os meus dedos arrastaram-se até às suas pálpebras fechadas e depois até ao seu nariz. Percorri a cana levemente com o meu indicador, traçando uma linha imaginária. Quando cheguei ao fim deparei-me com os seus lábios, perfeitos e delineados, tal qual eu me lembrava deles. Contornei-os com o meu indicador gelado, que contra os seus lábios húmidos e quentes, me fez arrepiar.

- Ainda não tá dormindo, muleca? – ele falou sem sequer abrir os olhos, mas a sua boca esboçou um leve sorriso

A voz dele apanhou-me de surpresa uma vez que o julgava a dormir, dei um salto na cama e afastei imediatamente a minha mão do seu rosto, por fim, ele abriu os olhos.

- Precisa de alguma coisa? – intensificou a luz do pequeno candeeiro

- Não… - foi a única coisa que consegui dizer

- Tem certeza? – ele estava com uma clara vontade de se rir, mas graças a Deus não o fez e poupou-me a vergonha

- Sim…

- Então durma bem! – baixou novamente a intensidade da luz do pequeno candeeiro e eu fechei os olhos, aninhada no pequeno cantinho da cama que me pertencia

Senti um arrepio começar nos meus pés e subir até ao topo da minha espinha, os meus membros estavam gelados, especialmente as mãos e rapidamente comecei a tremelicar quando os espasmos percorreram o meu corpo. Uma mão quente pousou nas minhas costas e envolvendo a minha cintura puxou-me até ao centro da cama. Daí até sentir a temperatura quente do corpo de David contra a minha foi uma questão de segundos. Abri os olhos e vi-o na minha frente de olhos fechados, como se nada fosse, mas eu sabia que ele estava acordado. O meu indicador ergueu-se no ar disposto a percorrer novamente a cana do nariz de David em jeito de brincadeira, mas recuei.

- Pode tocar… - ele respirou profundamente e abriu os olhos – Pode tocar à vontade… - o sussurro proferido por aquela boca perfeita embateu de encontro aos meus lábios permitindo-me sentia a sua respiração, uma vez que estávamos muito próximos

Sorri levemente, toquei-lhe na ponta do nariz e voltei a encolher-me sobre mim própria. Fechei os olhos disposta a finalmente deixar o cansaço vencer, mas o David não me permitiu fazê-lo. Puxou-me mais contra si, senti no meu corpo cada contorno perfeito do dele, os seus braços abarcaram-me com carinho e numa questão de segundos senti os seus lábios doces e húmidos tocarem os meus. Não me importei, porque eu queria, tanto ou mais do que ele, aquilo… Permiti a mim mesma ser feliz, nem que fosse por escassos segundos. A língua dele invadiu a minha boca sem permissão e num só arrombo envolveu a minha num beijo quente e ritmado, mas calmo… Muito calmo! Foi com aquele beijo que a paz se impôs na nossa noite, permitindo-nos dormir. Mantive os olhos fechados e por isso não sei dizer se ele também o fez, não descolei o meu corpo do dele, mas rodei sobre mim própria ficando de costas. Os braços dele envolveram-me novamente num abraço, beijou-me a nuca, entrelaçou as suas pernas nas minhas e as nossas mãos. Um sorriso esboçou o meu rosto, e apesar de o ter do meu lado na cama, nessa noite sonhei com ele…

domingo, 6 de março de 2011

Capítulo 104 – Não sei o que pensar (Parte IV)

Se noutra altura teria ficado a explodir de felicidade com aquela declaração de Diogo, naquele momento senti repulsa, depois de tudo o que me fizera sofrer só agora é que enxergava que me amava, ou pelo menos assim o dizia fazer, à sua maneira.

- Não, Diogo! – empurrei-o com força para longe de mim

- Porquê se somos os dois livres? – tentou aproximar-se novamente, mas não deixei

- Eu não sou livre… Tenho namorado! – relembrei-o

- Ele acabou contigo… Eu sei! – falou-me num tom como de quem é dono da razão

- Não, estamos chateados é verdade, mas não acabámos nada!

- Não foi isso que me disseram…- o rosto dele contorceu-se de confusão

- Então informaram-te mal…

- Oh Adriana, não aguento mais… Viver sem ti, ver-te nos braços de outra pessoa, feliz! Quando eu tive tudo e todas as oportunidades do mundo, para te fazer feliz…

- … e desperdiçaste-as! – completei o que ele ia dizer antes de ele acabar de falar

- Sim… Desperdicei-as…Mas amo-te. Amo-te como te amei este tempo todo, mas era um miúdo! Não conseguia ver isso, queria, queria tanto, mas não era capaz de me dar…

- Agora é tarde, Diogo!

- Não, nunca é tarde… Eu ainda te amo, tanto… Tu não podes imaginar como morro por dentro sempre que te vejo feliz, mas depois percebo que eu não sou mais a causa dessa felicidade. Por favor, eu cresci, vejo as coisas de forma diferente… Quero ficar contigo! – ele fitou-me com aqueles dois olhos azuis enormes e pela primeira vez, desde que conheço Diogo, tive a certeza que estava a ser sincero

- Lamento, Diogo… Mas eu sabia que este dia alguma vez ia chegar e parece que veio mais cedo do que eu imaginava… Nós não podemos mais estar juntos, o meu coração está com outra pessoa….

- Por favor, Adriana… Ninguém esquece o primeiro amor assim! – as mãos dele tocaram o meu rosto, senti a minha pele arder sob a suas palmas

- Tens razão… - sorri irónica – O primeiro amor nunca se esquece, e eu vou sempre lembrar-me de ti, de alguma maneira, com algum sentimento… Mas do que nós vivemos, fica só o carinho, nada mais!

- Fiz-te assim tão mal, para me quereres tão longe? – vi uma enorme mágoa no seu olhar que acabou por se traduzir na voz – Carinho? Carinho?! Eu quero e preciso do teu amor…

- Sim, carinho… E por vontade própria nem isso sentiria por ti! Mas no coração não mandamos, e antes de seres o que foste, eras meu amigo, éramos confidentes… Nada voltará a ser o que era, mas também não te desejo mal

- Vês? – ele fez uma pausa - As pessoas tinham razão… És boa demais p’ra mim! Não te mereço… Depois de tudo, de tudo o que eu te fiz, ainda consegues sentir alguma coisa por mim. Esse sentimento de carinho, de amizade… Eu sei que pedir o teu amor é muito, mas eu preciso de ti, mais do que alguma vez julguei possível!

- Um dia também me senti assim em relação a ti, mas os sentimentos mudam, as pessoas mudam, e vais ver que vais encontrar alguém que te ame, como eu um dia amei…

- É… Pode ser que tenhas razão! Mas quando os teus sentimentos por ele mudarem, procura-me, pode ser que os meus sentimentos por ti ainda não tenham mudado, e eu ainda esteja à tua espera… - foram as palavras mais belas que alguma vez Diogo me dissera, tanto que todas as partes de mim se arrepiaram

- Obrigada… - sorri, sabia ter ali sempre um porto seguro, quando o meu barco corre-se o risco de naufragar

- Amigos? – perguntou com um sorriso sincero

- Amigos! – sorri e estendi-lhe a mão para que a apartasse, mas ele puxou-me e abraçou-me, selou o momento com um beijo na minha testa

- Aproveita a noite miúda e sê feliz! – vi-o desaparecer por entre as pessoas naquela discoteca, não sei se se foi embora, se ficou, mas nunca mais o vi nessa noite…

***
David

O manz me ficou azucrinando a cabeça p’ra ir numa festa que ia haver numa discoteca em Lisboa, eu não queria ir, mas como precisava me distrair e o Gustavo também ia acabei por topar.
Chegámos bastante cedo e nos dirigimos para a zona VIP. A noite tava sendo muito agradável, mas vi chegando uma figura que me era conhecida, Débora. Nesse instante meu coração disparou na expectativa de ver Adriana, e a suspeita se confirmou quando ela cruzou a porta logo depois da sua amiga. Tava linda num vestido preto justo e curto, o cabelo natural cheio de cachinhos e que eu tanto gostava. Nenhuma das duas nos viu, mas o Gustavo se apercebeu da chegada delas.

- Olha ali, Davi! A sua namorada! – falou muito animado

- Sim, eu já vi…

- Vamo lá p’ra ela! – ele se levantou, eu ia deixá-lo, mas puxei-o p’ra se sentar quando vi Diogo chegar, aquele cara sempre no meu caminho

- Não, espera! – ele atendeu o meu pedido e se sentou

Ele cumprimentou todo o mundo e depois se aproximou das meninas para as cumprimentar, Débora acabou por deixar a minha muleca sozinha com ele. A conversa entre eles foi normal, parecia conversa de circunstância o que me deixou mais calmo. Ela acabou por se afastar dele no sentido da casa de banho e eu não tirei os olhos dela nem por um segundo. Ele a esperou na porta da casa de banho, a conversa aqueceu e quando eu dei conta ele tava empurrando ela contra a parede e se iam beijar. Meu coração mirrou, apertou forte no meu peito e eu tive a certeza que ia perder ela para ele. Mas fiquei olhando, esperando p’ra ver se ela se ia deixar beijar, mas fiquei quase certo de que não, alguma coisa em mim me dizia que não. Que ela ainda me amava e não me iria machucar daquele jeito. Meu coração falou certo p’ra mim, ela o afastou e por muitas insistências que eu acho que ele fez, ela não cedeu. Acabou deixando ela ali sozinha depois de um abraço e um beijo na testa. Senti ciúme, claro que senti, mas fiquei aliviado, porque afinal a minha confiança nela, se mantinha, como sempre tivera.

- Vai lá falar com ela, mano! – o Gustava se apercebeu de toda a situação

- Ela não quer mais me ver, ou esqueceu o que ela fez p’ra mim essa manhã quando fui na sua casa?

- Ela tava de cabeça cheia, dá um desconto, pô! Vai lá…

As palavras dele me encheram de coragem, mas quando tomei iniciativa de me levantar p’ra ir falar com ela, todo o seu grupo de amigos se lançou na pista de dança arrastando ela. Perdi aquela oportunidade…

***

Adriana

- Anda, Adriana! Vamos dançar… A última da noite! – implorou Débora quando já me puxava para o meio da pista

Não tive qualquer hipótese de refutação, juntei-me a todos dançando aquela que seria a última dança da noite.
- Estou tãaaao morta! – reclamou Débora enquanto saíamos da discoteca

- Então não era a menina que queria vir sair? – perguntou o Rafael, um amigo nosso e namorado da Débora

- Queria, mas é como o ditado diz! “Vais p’ra onde? Vou p’ra festa!” – disse com um ar muito animado – “De onde é que vens? Venho da festa…” – disse num ar pesaroso, todos nos desmanchámos a rir

- És mesmo totó, amor! – ele roubou-lhe um beijo e pousou o braço nos ombros dela

- É totó, é totó, mas não a largas! – atirei e foi a risada geral

- Vês? Meteste comigo e a minha melhor amiga vem logo defender-me!

- Isso não vale, são duas contra um! – barafustou e fingiu-se amuado

Todos se riram, mas continuaram a andar. O meu olhar percorreu o parque de estacionamento e parou em quatro figuras que me eram conhecidas: David, Ruben, Inês e Gustavo.
Vi o Gustavo e o Ruben sorrirem-me. O Gustavo abriu os braços na minha direcção para me abraçar, ainda balancei sob os pés quando vi os olhos de David postos em mim. O Gustavo deu algumas passadas para se afastar deles e me fazer sentir mais segura, acelerei o passo e joguei-me nos braços dele.

- Oh pequenininha, quanto tempo! – não via o Gustavo desde que estivera em Portugal no início das férias de verão, em Junho

- Podes crer, grandalhão! – apertou-me mais contra si e pousou-me no chão

- Como cê tá? – deu-me a mão e fez-me dar uma voltinha – Tá cada vez mais gata!

- Oh, não começes, Gu! – fiquei corada – E tu? Como estás?

- Bem, a vida me corre bem… - fez um sorriso animado que já lhe era característico

- Olha lá, ó jeitosa, e aqui o melhor amigo? – gritou o Ruben um pouco afastado de nós

- Shiii, controla o ciúme, caraca! – o Gustavo picou-o e todos nos rimos

- Continuo à espera do meu abraço! – o Ruben revirou os olhos e fez um ar de que não era nada com ele

Avancei na direcção de Ruben, os olhos de David cravados em mim abalaram a minha fraca existência, abracei Ruben com força e ele elevou-me levemente do chão.
- Satisfeito? – perguntei assim que me pousou no chão

- Sim… Mas não totalmente! Não me avisaste que vinhas sair…- torceu o nariz e aquela atitude desconcertou-me

- E desde quando te presto satisfações? – ergui uma sobrancelha

- Hey, hey, hey! Antes de começarem a discutir o meu beijo, se faz favor! – a Inês interveio e cumprimentei-a com dois beijinhos

- Que saudadonas, baby! – disse-me quando me libertou dos seus braços

- Shii, exagerada, ainda nos vimos no jogo!

- E? Isso já é demasiado tempo… - rimo-nos

Olhei para David, ele baixou o olhar para o chão, entendi que não me queria encarar, que estava a aplicar palavra por palavra aquilo que disse quando o expulsei da minha casa.

- Boa noite, David! – permanecendo na frente da Inês, virei o meu olhar para o lado direito e cumprimentei-o

- Oi! – olhou-me de fugida

- Boa noite a todos! - a Débora surgiu nas minhas costas – Adriana, temos de ir… Estão à nossa espera, o Rafael arranjou entrada noutra disco e o pessoal quer-se ir divertir

- Eish, outra? Nem pensar! Estou cansada…

- Oh deixa então eu também não vou…

- Estás parva? Vai lá, eu cá me arranjo! – sorri-lhe levemente

- De certeza? –olhou-me – Ficas bem? – percebi que se referia a David pois o seu olhar desviou-se levemente para ele

- Sim, fico! – dei-lhe um beijo no rosto e ela seguiu caminho

- Adeus, pessoal! – despediu-se e correu p’ra junto dos nossos colegas

- Então, a perder força para as noitadas? – o Ruben não perdia uma para se meter comigo

- Se corresses o que eu corri esta manhã, nem te aguentavas nas pernas!

- E que pernas! – o Ruben estava definitivamente numa de gozar comigo, olhou-me de cima abaixo e assobiou em jeito de piropo

Em simultâneo, eu e a Inês, demos-lhe um calduço na cabeça, uma de cada lado e a risota instalou-se.

- Hey, que foi isso?

- É p’ra aprenderes a teres respeito, Ruben Filipe! – arregalei-lhe os olhos e a Inês riu-se

- Não disse mentira nenhuma… Estás… Estás…

- Pensa bem no que vais dizer, Ruben Filipe! – avisei-o logo antes que saísse mais algum disparate

- Estás…Boa p’ra caraça… - o David interrompeu-o

- Oh, cala a boca! – vi no David um desejo inconsciente de dizer o que disse, o coração sobrepôs-se à razão

Não pude evitar olhá-lo, tive ali a minha certeza que de alguma forma ele não estava a cumprir, nem iria fazê-lo, com o que prometera em minha casa naquela manha, um sorris esboçou-se no meu interior.

- Eh lá, tocámos na ferida! – o Ruben ria-se satisfeito, ele tinha feito de propósito para provocar David

- Na ferida um escambau, tá falando da menina como se ela fosse uma qualquer, olha o respeito! – o David estava mesmo com um ar de chateadinho que me dava um certo gozo

- Pô gente, se acalmem… A menina é linda sim, mas é minha! – o Gustavo acabou com a brincadeira rodeando os meus ombros com o seu braço

- Tens mesmo uma tendência por zucas tu! – o Ruben não desistia

- Ahahah, olha a gracinha, Sr. Ruben! Já caiu o dentinho? Deixa cá ver… - aproximei-me fingindo que ia ver-lhe os dentes e dei-lhe uma chapada leve no rosto – Pronto, agora já caiu!

- Parva!

- Estúpido!

- Estúpido porquê? Disse as verdades... És boa como tudo e tens uma queda por zucas! Primeiro o manz e depois o Gu, andas fresca andas!

- Pô, cê hoje tá pior que metralhadora de traficante, não acaba a bala nunca! – o David refilou num jeito de menino amuado que eu não lhe conhecia, mas todos nos rimos com a expressão que ele usou

- Não é traficante nada, é mesmo zucas jogadores de futebol! – o Ruben olhou-me em jeito de desafio, estava pronta para o matar

- Tens uma gracinha… - aproximei-me dele e apertei-lhe as bochechas – Depois falamos… - sussurrei e intensifiquei a força com que lhe apertava as bochechas

- Também gosto muito de ti… Ai, ai, ai! – refilou ao sentir a força aumentar

- Deixa de ser maricas, foi sem força! – ri-me, estava a pagá-las pelo que me tinha acabado de fazer

- Foi, foi… - olhou-me, os outros não se aperceberam da nossa troca de olhares, mas riram-se do momento

- Bem, eu acho que isto aqui está muito bom, mas tenho de ir andando… Já é tarde!

- Já? – o David disse aquilo e ficou logo muito atrapalhado, todos olharam para ele e eu fiquei envergonhada

- Podias ficar mais um bocado com a gente, vamos passar em casa do David, jogar na PS, vai ser fixe! – o Ruben queria a todo o custo arrastar-me para junto de David

- Agradeço o convite, mas é tarde, estou sem forças para isso…

- Vai para casa como? – perguntou o Gustavo ainda do meu lado

- Não sei, a esta hora o metro já fechou e só abre daqui a umas horas, autocarros nem pensar, por isso devo chamar um táxi… - sorri e dei-lhe um beijo no rosto para me despedir

- Sozinha, a estas horas? Esquece, podes já começar a por os pezinhos dentro do meu carro! – ordenou Ruben

- O quê? Ouvi mal com certeza… - aproximei-me, dei-lhe um beijo no rosto – Eu vou bem sozinha, olha p’ra mim amigão, tenho quase dezoito aninhos, p’ra mim é canja! – dei um beijo no rosto de Inês

- Não te quero sozinha, ainda te acontece alguma coisa e depois quem houve o tio Francisco sou eu!

- Não te preocupes com o tio Francisco, com esse posso eu bem, com 17 anos de convivência a fera está dominada! – riu-se comigo

- Hum, ao menos esperamos até o táxi vir… - sugeriu Inês

- Tu também? Epá que melgas! Deixam-me ir, sou crescidinha! – sacudi os cabelos e posicionei-me para seguir caminho – Boa noite, pessoal!

O meu olhar correu toda a gente e parou em David, o único de quem não me tinha despedido. Vou ser sincera, naquele momento a minha vontade foi voltar atrás e fazê-lo, mas eu sabia que não podia, era errado, muito errado. O meu estômago estava envolvido num nó forte e apertado, as palavras atropelavam-se na minha garganta e nenhuma saía. Caminhei numa linha recta e direita que cruzava o parque de estacionamento na diagonal, uns metros mais à frente, eu sabia que iria encontrar uma praça de táxis e finalmente iria para casa. Mas a meio do percurso o meu corpo estancou, não sei dizer nem como, nem porquê, mas estancou e rodou sobre si próprio olhando de novo o sítio onde os tinha deixado. Já não olhavam para mim, estavam a conversar e eu sabia que se iriam dirigir para os seus carros. As minhas pernas moveram-se sozinhas e num acto totalmente inconsciente aproximei-me novamente deles.

- Então voltast… - interrompi o Ruben com uma acção completamente inesperada

O David ainda tinha o olhar baixo, posicionei-me na sua frente e os seus olhos procuraram o meu rosto. Mal o alcance me permitiu juntei os nossos lábios e apanhei-o desprevenido, tanto que inicialmente ele nem correspondeu ao beijo. Os nossos lábios apenas exerceram pressão uns contra os outros momentaneamente, porém antes de as duas bocas se separarem a minha língua tocou levemente na dele, quebrei então o beijo. Pela sua expressão facial ele tinha sido apanhado totalmente desprevenido e os outros três olhavam para mim completamente surpreendidos com a minha acção.
Não disse mais nada, virei costas deixando para trás David, com um enorme e perfeito sorriso no rosto.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Capítulo 104 – Não sei o que pensar (Parte III)

Bem na minha frente vi, sentados na minha mesa da sala de jantar tomando o pequeno-almoço, Bianca, Salvio e David. Sim, era mesmo David e eu precisei de uns bons pares de segundos para me convencer que era mesmo ele. Afinal eu tinha corrido durante horas para apagar aquela memória da minha cabeça e afinal, lá estava ele, a voltar tão depressa e velozmente depois de um esforço tão grande que fiz para o esquecer.


- Adriana! – Bianca levantou-se e olhou p’ra mim



O meu coração que finalmente se tinha acalmado, voltou a acelerar assim que David cravou aqueles dois olhos verdes em mim. Senti uma vontade enorme de chorar, de fazer o muro que tinha criado naquelas horas desmoronar e deixar os meus sentimentos virem ao de cima. Mas eu não podia e tinha a clara e precisa noção disso.
Apoiei-me na mesinha ao lado da porta da rua e ergui-me do chão, a minha respiração ainda estava ofegante.

- Estás bem? Estás pálida… - constatou Bianca aproximando-se

- O que é que ele está aqui a fazer? – perguntei entre dentes, era a única coisa que eu queria saber

- O Salvio trouxe-o… Não sabia que ele vinha!

- É a minha casa, Bianca! Não o quero aqui… - senti as lágrimas aflorarem os meus olhos, mas engoli-as, certa de que não iria nunca mais dar parte fraca, o meu orgulho forte jamais me deixaria fazê-lo de novo

- Mas Adriana… - não a deixei terminar de falar

- Não quero! – disse já a caminho do meu quarto, onde de seguida me fechei

Sentei-me na beira da minha cama e soltei as lágrimas que o meu orgulho não permitiu soltar ainda perto dele. Custava-me estar assim longe de David, mas se havia coisa em que eu não acreditava, e ainda não acredito, é numa relação sem confiança, não existe! É impossível amar alguém senão confiamos nessa pessoa. Se não como iremos confiar nas palavras mais simples que nos diz, nas juras mais sinceras que nos faz? E uma vez separados, nada importará quando a falta um do outro se tornar desesperadora ao ponto de desejarmos recuperar o que foi deixado para trás, o mais puro e mais sincero dos sentimentos. E tão pouco importará quando o secreto orgulho ferido for derrotado, fazendo-nos escrever um desabafo inexplicavelmente doloroso, descrevendo o quão claro está, que o fim deste conto de fadas às avessas, não passou de uma mera fatalidade do destino, onde a confiança não reinou. E a falta dessa, e só isso, foi a causadora de um final tão triste. Era assim que David me fazia sentir quando dizia que não confiava em mim e aquelas palavras dele, ecoavam na minha cabeça a um ritmo assustadoramente destruidor do meu sentimento por ele. Mas não, minto! Por muito que ele não confiasse em mim, o meu sentimento permanecia o mesmo, a minha confiança continuava inabalável, quando no mais intimo de mim eu implorava ao meu coração que me deixasse esquecê-lo.
Senti-me tremendamente sozinha ali naquele quarto, deu vontade de ficar mais tempo juntos, deu vontade de levar a nossa história até ao fim… Mas ele já estava encontrado, aquele era o fim!

***



David

Vimos ela chegando e escorregando pela porta abaixo, estava cansada, ofegante e meio sem cor. Fiquei preocupado, meu coração ficou num aperto só e quis me aproximar, mas o medo e o orgulho de um homem, que na noite anterior tinha sido deixado p’ra trás sem ao menos ouvir uma palavra de amor ou respeito, me pediu que ficasse no meu lugar e meu corpo obedeceu. Foi Bianca que se aproximou dela e iniciaram uma conversa que não era perceptível nem a mim, nem a Salvio, no entanto, e pela sua expressão quando abandonou a sala, entendi que a minha presença não era desejada.

- Eu vou embora… - disse mal Bianca se sentou novamente na mesa com a gente

- Não vais nada, David! Ainda nem acabaste de comer…

- Vou sim, já entendi que não sou bem-vindo aqui e não quero causar incómodo a ninguém, nem arranjar problemas p’ra você!

- No digas tonterías, quédate con nosotros! – Salvio se juntou à conversa apoiando Bianca

- Ela não me quer aqui, gente… Deixou isso bem claro!

- Ela não disse nada, David… A sério que não – pelo tom de voz de Bianca eu compreendi logo que ela tava mentindo porque não queria que me sentisse mal

- Fala a sério, Bianca! Eu não sou burro, caraca. Já conheço minha namorada, entendi que não ficou feliz de me ver aqui e que me quer fora! – Bianca se calou e acabou por se denunciar a ela própria, era óbvio que eu tinha razão

- Mas, ela não disse por mal… Ela está só magoada, ela é teimosa, fica David…

- Não vou ficar, não! Sabe uma coisa, Bianca? Cansei de me humilhar, de ser só eu a lutar p’rá gente se acertar… Cansei, pô! Também tenho meu orgulho e não vou fazer mais nada p’ra pedir perdão, ela não quer ouvir e eu cansei de correr atrás de quem não me quer. P’ra mim chega! – fui convicto naquilo que disse, apesar de eu amar ela, meu orgulho me proibia de o fazer

- Ó David… - atropelei Bianca com as minhas palavras

- Nem, David, nem meio David! Cansei! Quer ser uma criança mimada, ficar agindo que nem uma muleca, então haja mas eu cansei! – me levantei da mesa e pousei o guardanapo

- Mas ó David… - Bianca ainda se levantou p’ra me impedir de ir embora, mas antes de eu a calar de novo, uma nova voz o fez

- Deixa-o ir, Bianca! – Adriana surgiu, encostada na parede do corredor e com os braços cruzados na frente do peito

- Adriana, não digas disparat… - Bianca tentou falar, amenizar a situação, mas ela a impediu de novo

- Não são disparates! Não se metam! Se ele quer ir, vá! Vá e encontre uma mulher, porque aqui a criança, já não lhe chega! – ela tinha ouvido a conversa, ou pelo menos o final, mas mais uma vez eu tinha dito aquelas coisas da boca p’ra fora e não sentia nada do que tinha falado

- Adriana, pára com isso! – Bianca queria que a gente se acertasse, mas nenhum dos dois estava mais disposto a isso – Deixem de ser orgulhoso, por favor!

- Deixa ela, Bianca… Eu vou mesmo embora, cansei de correr atrás! Cansei! – eu não de parte fraca apesar de estar morrendo por dentro com as minhas próprias palavras

- Finalmente percebeste que não és aqui desejado, baza! – os seus olhos estavam cobertos de uma camada fina de águas translúcida, mas conhecendo ela como eu conheço, ela não ia chorar, não na minha frente

- Cálmate, por favor!

- Obrigada, pelo pequeno-almoço, Bianca… - dei um beijo no rosto dele e apertei a mão do Salvio – Fiquem com Deus! – me dirigi apenas a eles os dois

- Não te esqueças de levar o teu casaco contigo e nunca mais voltares! – ela reforçou que me queria longe, mas eu compreendi que a sua única intenção era me magoar e conseguiu

- Não volto mais, não. Não se preocupa, tou de saída! – agarrei o meu casaco e bati a porta com força

Nem quis esperar pelo elevador, fui mesmo de escadas e segui caminho p’rá lado nenhum, estava sem cabeça p’ra nada e continuava querendo ela do meu lado, apesar do jeito que ela me tinha magoado.


***


Adriana


Quando ele saiu bateu a porta com uma força desmedida que me fez tremer de cima abaixo, fui para o meu quarto e bati também a porta com força. Não sei do que tive mais vontade, de ir atrás dele e bater-lhe ou de ir atrás dele e espetar-lhe um beijo.

- Adriana, mas o que raio te passou pela cabeça? – a Bianca entrou pelo meu quarto a dentro enquanto eu me despia p’ra tomar um banho

- Bianca, não venhas com discursos moralistas, eu avisei que não o queria na minha casa!

- Primeiro que tudo, a casa é nossa, eu mudei-me p’ra cá. Segundo o David não é nenhum estranho, é meu amigo e teu namorado! Viste bem a maneira como o trataste? As coisas que disseste ao rapaz?

- Disse o que quis! Disse o que tive vontade e já devia ter dito há mais tempo! – comecei a despir a camisola para ir tomar um banho – Ele chamou-me criança!

- Agora estás a agir como tal! – olhei-a com raiva, já me chegava ele ter-me acusado disso, não precisava que também ela o fizesse

- Então junta-te a ele! Unam-se todos contra a criança! – descalcei os ténis e atirei-os com força para o fundo do quarto, Bianca estremeceu

- Ninguém se está a unir contra ti, mas tu estás a ser orgulhosa, ele está a ser orgulhoso, pela merda de uma notícia sem fundamento de uma revista!

- Diz-lhe isso a ele, Bianca. Ele é que não confia em mim! – as lágrimas quiseram transpor os meus olhos e como estava apenas com Bianca permiti que elas escorressem pela minha face

- Ele disse isso sem pensar, tens de o deixar explicar-se! Sem fugires, sem o mandares embora, sem seres impulsiva! As coisas que disseste ali na sala… Mandaste-o embora da tua casa, caramba!

- Esquece, Bianca… Mandei-o embora e ele já foi! Queres saber? Já foi tarde! – entrei na casa de banho do meu quarto e não quis ter mais nenhuma conversa sobre o assunto, estava farta de bater sempre na mesma tecla


***
Há noite recebi um telefonema do pessoal da turma, estava tudo a combinar uma ida ao Lux, ia haver uma grande festa com um dos Dj’s residentes, no estado em que estava nem hesitei e perguntei à Bianca se não queria vir connosco, mas ela já tinha coisas combinadas com o Salvio. Preparei então as minhas coisas e fui p’ra casa da Débora onde me iria arranjar e depois logo seguíamos caminho.



- Estou pronta, Dé! – exclamei dando os últimos retoques nos meus caracóis, naquela altura mais alinhados do que era normal

- Jesus! Isso é tudo p’ra quem? – ela olhou-me de cima abaixo





- É tudo p’ra mim! – ás vezes arranjarmo-nos para nós próprias era óptimo, e antes de o fazermos para as outras pessoas devemos fazê-lo para nós próprias, e por nós próprias

- Hum, hum… Esmeraste-te, sim senhora! – fez um assobio de piropo e desmanchámo-nos a rir


- Deixa-te de coisas e vamos mas é embora – agarrei na minha mala e descemos para as garagens

***
O ambiente estava perfeito, cá fora a fila fazia-se notar, mas um dos nossos amigos era amigo do dono o que nos facilitou a entrada especialmente na zona VIP.
Estavam todos muito animados, as meninas já se tinham lançado na pista de dança e eu e a Débora já contávamos com a primeira bebida da noite, vodka laranja. A noite tinha tudo para ser perfeita, mas vi caminhar na nossa direcção uma figura que me era infelizmente familiar e congelei quando o vi cumprimentar os rapazes com um grande sorriso na cara, mas os olhos postos em mim.






Olhei para a Débora como quem procura uma resposta que ela não me soube dar.

- O que é que o Diogo está aqui a fazer? – sussurrei no ouvido dela, era a única maneira de nos ouvir-mos no meio da discoteca

- Não sei, os rapazes devem tê-lo convidado… - não tive tempo de perguntar mais nada pois ele aproximou-se de nós

- Boa noite, meninas! – lançou um sorriso encantador e olhou-me nos olhos, senti-me tremer por dentro por ter de vê-lo novamente

- Boa noite! – a Débora foi seca e afastou-se, não era segredo nenhum que ela não suportava Diogo, especialmente do que ele fizera à minha relação com David

- Boa noite, Diogo! – sorri levemente apenas por educação

- Tudo bem? – ele não desmanchava aquele sorriso encantador e o brilho que tingia os seus olhos azuis não desaparecia

- Sim, vai-se andando… E tu?

- Também… - uma silêncio instalou-se entre nós, como se o mundo tivesse ficado parado para nós dois, mas em nosso redor tudo o resto se movia e avançava no tempo – Hoje liguei-te…

- Hum… Não vi nada! – na verdade não tinha mesmo visto

- Desligaste-me a chamada… - revelou numa expressão tristonha

- Eu não desliguei chamada nenhuma, tenho a certeza!

- Alguém desligou… - aquelas palavras ecoaram na minha cabeça

- Bianca… - sussurrei p’ra mim mesma

- Desculpa, disseste alguma coisa?

- Não, coisas minhas – esbocei um sorriso forçado – Mas ligaste porquê mesmo?

- Queria saber se não te importavas que viesse esta noite… Os rapazes convidaram-me!

- A discoteca é livre… - o meu olhar percorreu toda a sala e dei um gole da bebida

- Sim, mas não queria ser indesejado no grupo de amigos…

- Por mim não serás, é como tu quiseres, não me faz qualquer confusão! Diverte-te! – lancei um sorriso breve e saí de ao pé dele para ir à casa de banho

Ao sair da casa de banho, senti uma mão quente no meu braço e alguém encostar-me contra a parede que tinha do meu lado. Um corpo quente abafava o meu e fazia pressão para eu não me afastar, era Diogo.

- Precisas de alguma coisa? – a minha voz tremeu, eu sabia que aquilo era demasiado errado

- Preciso… - senti uma lufada de ar proveniente da sua boca embater contra os meus lábios - … de ti!

- Diogo… - tentei afastá-lo, mas ele encostou-me mais à parede e por consequência a si

- Não consigo tirar-te da minha cabeça, quero tanto e não consigo… Foi assim que te sentiste quando acabámos?
- Pior que isso… Brincaste com os meus sentimentos, magoaste-me… - a nossa conversa tornara-se nada mais do que leves sussurros no canto escuro da discoteca

- Então acho que estou a provar o meu próprio veneno… - ele colou um caracol mais desajeitado no seu lugar e esboçou um sorriso sincero – Tu continuas linda… Tão perfeita ou ainda mais do que há três anos atrás.

- Diogo, pára, por favor… - pedi tentando desviar-me dele, mas mais uma vez ele não me permitiu

- Esse teu sorriso, a maneira como olhas as pessoas, a maneira como te consigo ler a alma apenas com um olhar… - engoli a seco e precisei de fechar os meus olhos momentaneamente - … a maneira como amas incondicionalmente e proteges quem amas. A maneira como és perfeita de todas as maneiras que conheço e preciso que sejas. A maneira como sou feliz quando te tenho do meu lado…

- Diogo, pára com isto! – pedi num tom de voz mais desesperado, mas ele prosseguiu

- A maneira como o teu nariz continua arrebitadinho… - riu-se levemente - … o teu cheiro, que não consigo tirar da minha cabeça e por vezes enlouqueço quando o sinto, mas olho em redor e não estás… - ele fez uma breve pausa, eu já não tinha mais forças para lhe pedir que parasse - … os teus lábios… - começou a aproximar-se de mim e estas palavras já foram proferidas a milímetros da minha boca, eu sabia que ele me ia beijar...

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Capítulo 104 – Não sei o que pensar (Parte II)

Depois do jantar sambei tanto quanto pude, soube-me bem, libertei tensões e aliviou a alma, mas David não tirou os olhos de mim um segundo. Queria ir para casa, estava cansada, tinha sido um dia longo e eu precisava de descansar.

- David, quero ir… - aproximei-me dele e sussurrei-lhe ao ouvido, só assim era possível ouvirmo-nos

- Já? – olhou para mim claramente desiludido

- Sim, estou cansada… Mas se quiseres fica, eu chamo um táxi e vou!

- Nada disso, eu prometi a você, eu vou cumprir! – e deu um pulo da cadeira, tão determinado quanto a sua palavra

- Não precisas…

- Eu quero! – olhou-me nos olhos e eu perdi todos e quaisquer argumentos

- Então vou só despedir-me do pessoal… - disse com um sorriso leve

- Tá bom, faz isso que eu vou fazer o mesmo! – sorriu-me e seguimos em direcções diferentes, eu despedi-me primeiro dos rapazes e depois das meninas, ele fez o reverso

***

- Está entregue! – diz ao mesmo tempo que estacionou o carro na frente do portão do meu condomínio

- Obrigada, pelo jantar… Pela boleia… Pela companhia! – sorri levemente

- Não agradeça aquilo que fiz do coração! – olhou-me nos olhos

- Boa noite, David… - agarrei o rosto dele, para não lhe dar hipótese de a virar e fazer-me beijá-lo nos lábios e dei-lhe um beijo na face direita

- Boa noite, Adriana… - sorriu-me desiludido

Tirei o cinto e abri a porta para sair do carro, mas o David esticou-se e fechou-a.

- Adriana… - a sua voz soou turbulenta, presa num mar de revolta e dúvidas

Olhei para ele, retomou o seu lugar no banco do condutor e colocou-se ligeiramente de lado.

- Quando é que a gente vai esquecer o que aconteceu e ficar bem? – ele foi directo ao assunto apesar da sua voz estar fraca

- David, a sério… É tarde, preciso dormir e tu devias fazer o mesmo!

- Adriana, não aguento ficar de mal com você, me mata! – ele olhou nos meus olhos e eu tive de desviar o olhar – Me olha nos olhos, pelo amor de Deus, e me responde!

- Queres que te diga o quê? – finalmente encarei-o e os seus olhos verdes estavam translúcidos e tive medo que derramassem novas lágrimas, mas esperava que desta vez ele fosse mais forte – Tu não confias em mim! Tu próprio o disseste!

- Falei sem pensar… Foi da boca p’ra fora!

- Mas foi dito e eu não esqueço… - relembrei

- Também não vou esquecer aquelas fotos, aquela revista…

- Óptimo! Então eu fico com as minhas memórias e tu com as tuas! – abri a porta do carro e saí sem o deixar dizer fosse o que fosse

- Adriana volta aqui! – ele saiu do carro e começou a andar atrás de mim até me agarrar pelo braço, antes de eu entrar pelo portão do condomínio

- Larga-me! – ordenei olhando-o

- Se eu largar, você vai fugir!

- Larga-me! Estou a mandar-te! – ordenei séria

- Só vou largar se você prometer que não vai fugir… - revirei os olhos e ele acabou por me soltar – Vamo, falar, por favor!

- Esquece, David! Não tenho mais nada a dizer-te! Sem confiança não há amor, a relação não existe!

- Não questiona o que eu sinto por você! – a voz dele tremeu e eu tremi também

- Não preciso, tu próprio esclareceste… “… fica impossível confiar em você!” – citei as palavras que tinha usado na nossa discussão

- Já falei que foi da boca fora, caraca! Você nem me deixou falar mais nada, arrumou suas coisas e foi embora!

- Ia ficar lá a fazer o quê? A humilhar-me?!

- Se humilhar? Cê acha que se humilha comigo? A gente ia conversar, ia tentar entender o que aconteceu, que fotos eram aquela que bateram de você com ele naquela maldita festa…

- Não adiantava, tu não ias ouvir nada do que eu ia dizer, porque simplesmente não confias! Não confias, são palavras tuas que resumem facilmente o porquê de estarmos assim…

- Se você me deixar explicar… Eu tava furioso com aquelas fotografias, na hora nem pensei!

- Olha fica aí a tua lição, para a próxima pensa antes de falares… - virei-lhe costas e abri o portão marcando o código de segurança, parei e olhei para trás – Boa noite, David! – fechei o portão, para não dar asno a mais nenhuma discussão




***


Eram duas e tal da manhã quando ouvi Bianca entrar em casa, pousou as chaves no móvel e espreitou p’ra dentro do meu quarto, julgando-me a dormir.

- Entra, princesa! – ergui a cabeça da cama e acendi o candeeiro de mesa

- Ainda estás acordada…- entrou no quarto

- Sim, não consigo dormir…

- Insónias? – perguntou aproximando-se da cama

- David! – sintetizei tudo numa só palavra

- Posso? – pediu-me permissão para se deitar do meu lado

- Claro! – sorri-lhe e ela deitou-se do meu lado debaixo dos lençóis

- O que é que aconteceu?

- Oh não viste? Aquele maldito golo no estádio… Mexeu comigo de uma maneira, que depois nos balneários não lhe pude, nem lhe quis resistir…

- Oh princesa, tu ama-lo!

- Sim, mas amar não chega! É preciso confiança e isso ele não tem em mim, ele próprio o admitiu!

- As pessoas dizem coisas da boca fora e a confiança numa relação deve ser trabalhada passo a passo, devagar, até atingir a solidez do sentimento - aconcelhou-me

- Mas nós sempre confiámos um num outro, nunca houve a coisa dos ciúmes! Não desta maneira…

- Alguma vez havia de ser a primeira… Mas a falar é que as pessoas se resolvem, não a discutir!

- E nós falámos! Quando ele me veio trazer falámos, mas depressa as palavras se tornaram acesas, as acusações afiadas e eu entrei p’ra casa antes que me arrepende-se…

- Teimosos! Dois casmurros, é o que é! – ela aconchegou-se

- Talvez seja por isso que não resultamos…

- O vosso problema é que não sabem dialogar, passa logo à discussão!

- Mas esse problema acabou, não existe porque já nem relação há!

- A ver vamos… - ela levantou-se e assomou à porta do quarto – Boa noite, princesa!

- Boa noite! Dorme bem! – sorri-lhe e ela saiu na direcção do seu quarto

A noite seguiu-se e foi passada em branco, por entre páginas vazias e simples, onde David era, e só ele poderia ser, o único protagonista da história.



***

Quando acordei ainda era de madrugada e apesar das curtas horas que tinha conseguido dormir, já não tinha sono. O relógio marcava as 6.30h da manhã e eu não sabia o que fazer. Mas a enorme tensão que estava acumulada no meu corpo precisava de sair, decidi que ia correr.



Escrevi um bilhete a Bianca e deixei-o sob a mesinha de cabeceira desta.

“Bom dia, Bianca
Quando vires isto já saí de casa e não devo ter voltado. Fui correr por aí a ver se alivio a cabeça e espaireço as ideias. Não esperes por mim para o pequeno-almoço.
Beijinhos
Adriana”

Não sei durante quantos horas corri, mas era só eu e aquele asfalto escaldante que me incendiava a pele, num trilho sem fim, num caminho que me levava a lado nenhum…

***



Bianca

Acordei às 10h28 e deparei-me com um pequeno bilhete de Adriana sob a mesinha de cabeceira. Aquela miúda era louca, ir correr para a rua com o calor que estava e tão cedo.
Levantei-me e tomei um banho, mas primeiro recebi uma SMS de Salvio que me perguntava se podíamos tomar o pequeno-almoço juntos. Óbvio que fiquei logo louca de felicidade e apressei-me a vestir. A campainha tocou e eu corri p’ra abri-la.

- Bom dia, amor! – dei-lhe um beijo longo nos lábios

- Hola, cariño! – fez um sorriso encantador e foi aí que vi quem vinha atrás de si e aguardava ainda do lado de fora

- David?! – até julguei estar a ver mal

- Oi, Bianca… O Salvio me convidou, espero que não tenha problema! – fez um sorriso nervoso, eu sabia bem porque é que ele estava ali

- Não tem problema nenhum, entra… - dei-lhe dois beijos no rosto e fechei a porta de casa – O pequeno-almoço já está pronto! – apontei para a mesa que eu tinha posto com tudo o que os pudesse satisfazer

- Suena como una fiesta! – os olhos de Salvio brilharam ao ver o que eu tinha preparado para ele

- Nossa, mas é só p’ra quatro pessoas ou vem aí um batalhão e ninguém avisou de nada? – o David estava também surpreendido com a quantidade de comida que eu tinha preparado

- Não, somos mesmo só nós os três… - e acabei por corrigi-lo

- Três? – ele olhou p’ra mim aguardando uma resposta

- Y Adriana, mi amor? – Salvio também me olhou de forma estranha

- Ela saiu bem cedo p’ra ir correr, mas ainda não voltou… - o meu coração ficou apertado de preocupação, eu sabia que ela não estava bem

- Saiu? P’ra correr? – o David deve ter achado que lhe estava a mentir, mas aquela era a verdade e percebi que também ele ficou inevitavelmente preocupado

- Sim, saiu p’ra correr, deixou-me um bilhetinho e foi, mas ainda não voltou… - informei ao mesmo tempo que nos sentávamos todos para tomar o pequeno-almoço

- Y he tratado de llamar? – olhei imediatamente para a mesinha onde ela deixava sempre o telemóvel e constatei que ela não o tinha levado consigo

- Boa, deixou-o em casa! – nesse exacto momento o telemóvel começou a tocar, aproximei-me e vi que era Diogo que lhe telefonava

Aquele rapaz já lhe estava a trazer demasiados problemas, mais do que eu queria que ela tivesse. Ela já me tinha contado tudo sobre o passado deles e sempre que ele surgia novamente na sua vida era para trazer um sofrimento igual, ou ainda maior, ao já vivido. Desliguei a chamada e disfarcei uma vez que David estava naquela sala e eu não lhe queria trazer mais problemas com ele.

- Quién es, cariño? – o Salvio deu um gole de sumo e olhou p’ra mim aguardando uma resposta

- Ah… - não pude evitar gaguejar, era péssima a mentir e também o David me olhava fixamente esperando uma resposta – Ah… Era a mãe dela!

- Porque não atendeu, então? – pela pergunta de David percebi logo que não estava a ser convincente

- Porque não… O telemóvel é dela e quando ela chegar logo liga à mãe! – sentei-me na mesa e comecei a comer, na esperança de que não me fizessem mais perguntas e graças a Deus não as fizeram

***



Adriana

Não sei precisar durante quantas horas corri em torno do quarteirão da minha casa.
Eu não fazia a mínima ideia para onde ia, na verdade tão pouco sabia o que fazia e porque o fazia. Apenas seguia em frente destinada a procurar algo que me pertencia. Não sabia como, quando ou por que, tal coisa havia desaparecido, mas seguia inteiramente consciente de que uma parte importantíssima dentro de mim, tinha de ser recuperada.
Num dos percursos em torno do quarteirão fiz um desvio pelo parque, onde crianças brincavam com os seus pais ou avós, onde famílias tomavam o pequeno-almoço na esplanada e onde casais enamorados caminhavam lado a lado, fazendo juras silenciosas de amor. Senti uma revolta enorme de não ter o que eles tinham: amor. Esse sentimento inundou o meu coração, e drenado pelas minhas veias atingiu os extremos do meu corpo fazendo-me correr mais e mais, e cada vez mais velozmente. O meu corpo reclamava a condição a que o estava a impor, e eu sentia-me a passar limites, a quebrar barreiras e o meu corpo cedia, mas a razão impulsionava-me a correr mais e mais. Apesar de não saber quantas horas corri, sei dizer que o meu Ipod teve tempo de passar mais de 12 pastas de músicas, o que me levou a crer que estava naquilo há um bom par de horas. Quando alcancei novamente o quarteirão da minha casa, senti o meu coração num ritmo alucinante, batia acelerado e incessante, mas parava durante um segundo, para logo de seguida imitir novamente uma carga explosiva de batimentos. Eu transpirava e o cansaço era palavra de ordem, mas nem isso me fez abrandar o ritmo alucinante que tomara desde o parque. O meu corpo cedia, as minhas pernas já não tinham tanta força, a minha respiração já estava completamente descontrolada e pedia-me que parasse, mas eu não tinha qualquer intenção de o fazer.
Alcancei o portão do condomínio, um carro ia a sair e eu aproveitei, e ainda em passo de corrida, entrei. Abri a porta do prédio e no momento de escolher entre as escadas ou o elevador não hesitei. Seria a minha última descarga de energia, a pouca que já sobrava no meu corpo. Subi os onze lances de escadas numa correria doida, o meu coração bombeava o meu sangue a um ritmo alucinante e a minha respiração estava tão descontrolada que chegava a falhar. Finalmente atingi o meu andar, tirei as chaves do bolso e entrei. Deixei-me escorregar pela porta abaixo de olhos cerrados, até o meu corpo atingir o chão e eu ficar sentada. Tentei acalmar a minha respiração, abri os olhos e vi na minha frente tudo aquilo que eu não queria ver naquele momento.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Capítulo 104 – Não sei o que pensar! (Parte I)

O meu corpo estava sem forças, sentia-me destroçada. Eu já não amava Diogo, mas amei durante três anos e o primeiro amor, sim era isso que ele tinha sido na minha vida, ocuparia sempre um lugar especial. Soqueei levemente o capô do carro e encostei a minha testa ao tejadilho, até sentir uns braços quentes envolverem-me.

- Tem calma, tem calma! – reconheci-lhe imediatamente a voz, era Catarina

Não quis nem consegui dizer mais nada, deixei que ela me abraçasse e apertei-a procurando conforto. O meu choro não cessou, ela já não sabia o que me fazer, mas pouco a pouco, o meu peito serenou, as lágrimas pararam e o soluçar desapareceu.

- Mais calma? – enxugou-me as lágrimas que ainda me humedeciam o rosto

- Sim… - sorri-lhe levemente – Obrigada!

- Não me agradeças, estás bem?

- Sim… - hesitei, ainda me faltava uma coisa para ficar bem

- Precisas de alguma coisa?

- Não, preciso apenas de ir para casa e ter uma noite de paz… - suspirei

Catarina sorriu-me, desviei o meu olhar para o outro extremo do parque de estacionamento e vi o grupinho de sempre todo reunido, entre eles estava David e nesse momento não pude evitar que o meu sangue congelasse, olhei para Catarina procurando uma resposta.

- Sim, ele viu… - não precisei sequer de perguntar para obter uma resposta dela

- Bolas!

- Vimos todos… Veio tudo atrás dele para ver o que se estava a passar com vocês e quando chegámos aqui… Quando chegámos aqui…

- Viram-me a ter aquela conversa com o Diogo! Nem quero imaginar o que o David não deve estar a pensar… Os dois a chorar daquela maneira ainda vai achar que sinto coisas pelo Diogo, quando na verdade não sinto!

- Então senão sentes, se estás de consciência tranquila, não te preocupes… - ela sorriu e colocou-me um caracol desobediente atrás da orelha

- Obrigada -sorri-lhe – Acho que vou indo…

- Não, fica! Temos o jantar deles, fica, por favor…

- Não posso… A sério que não! – dei-lhe um beijo no rosto, acenei aos outros no fundo do parque de estacionamento, todos acenaram para se despedir e eu segui caminho rumo à paragem de autocarro mais próxima


***

David

A Catarina se aproximou dela que tava chorando de forma descontrolada, a acalmou e quando dei por isso ela tava acenando a todo o mundo e foi embora.
Quis correr atrás dela, perguntar porque tava daquele jeito se finalmente Diogo tinha saído da sua vida, quis poder abraçá-la, lhe dar um beijo, mas meus pés não conseguiram desgrudar do chão.

-David, vamos então?! – a voz de Ruben me despertou – Tá tudo com fome…

- Sim, vamo… A gente se encontra no restaurante! – todo o mundo entrou nos seus carros com as respectivas namoradas e só eu tava sozinho, bateu uma saudade danada da minha muleca

Conduzi na direcção do restaurante, íamos no restaurante de sempre onde já tava tudo nos esperando e preparado para mais uma das nossas comemorações.
Minha vontade não era muita, bem, na verdade nenhuma! Ia estar todo o mundo com as suas mulheres, filhos e namoradas, e eu ali sozinho, sem a minha menina. Parei num semáforo, no próximo cruzamento eu podia virar para casa dela, instintivamente minhas mãos tomaram posição no volante com intenção de o fazer metros mais à frente.
O semáforo se coloriu de verde e eu acelerei, mas quando ia virar para a direita na direcção do seu apartamento, vi ela bem no passeio do meu lado direito. Caminhava sozinha e estava escuro, me contorci de preocupação. Fui abrandado o carro e abri o vidro para a puder ver.

- Adriana… - minha voz saiu suave, mas ainda assim ela deu um pulo, me olhou, mas continua a andar me obrigando a deixar o carro em andamento leve para acompanhar as suas passadas - Não sai por aí sozinha, entra no carro que eu te deixo em casa!

Ela me ignorou, não me respondeu e acelerou o passo. Entendi que ia ter de recorrer a uma abordagem mais bruta, acelerei o carro, p’ra ganhar avanço dela e estacionei na beira do passeio. Saí correndo atrás dela e ainda a apanhei.

***

Adriana

Ao vê-lo acelerar percebi imediatamente que a sua intenção era ganhar avanço e interceptar-me o caminho. Tentei andar mais depressa, mas o meu coração arrefeceu-me os músculos e não me permitiu fazê-lo.

- Pelo amor de Deus, espera! – ele puxou-me pelo braço direito e quando dei por mim estava de frente para ele, e com aqueles dois grandes olhos esverdeados cravados em mim

- O que é que queres? – fi-lo soltar o meu braço e afastei-me, aquela proximidade era maior do que aquela que eu podia suportar

- Quero levar você em casa, é de noite, tá escuro, não vai ficar andando sozinha por aí…

- Eu já estou habituada a andar sozinha…

- Mas eu não tou habituado a ver você sozinha por aí, por isso me deixa levar você! – ele implorava, podia lê-la na sua voz

- Tu tens o jantar, deve estar tudo à tua espera… - tentei dar uma desculpa plausível, mas infelizmente David tem sempre resposta para tudo

- Eles esperam, ou então você vem comigo… - um leve sorriso surgiu na sua boca

- Não, isso não! – respondi pronta e calmamente

- Então eu vou levar você, não tem discussão! – li-lhe a determinação na voz e em todos os gestos do seu corpo, perfeitamente delineado e esculpido pela sua profissão

- David, deixa-me ir sozinha! Já não estou tão longe como isso e ninguém me vai fazer mal!

- Esquece, eu vou mesmo levar você! Entra no carro! – tirou as chaves do bolso, mas eu nem me movi – Adriana, falei p’ra você entrar no carro!

- Não vou deixar que chegues atrasado ao jantar para me ires levar, lamento, mas não! – rematei certa daquilo que dizia

- Então vem comigo no jantar e depois eu te deixo em casa! – as palavras dele começaram a persuadir-me, a dar-me vontade de aceitar aquela proposta – Além disso todo mundo lá é seu amigo, faz parte da família e as meninas vão lá estar… - ele sabia bem como me convencer e atacou todos os meus pontos fracos

- Não quero ir… É tarde, estou cansada! – ainda assim tentei convencer-me a mim mesma a não aceitar

- É só um jantar, vem cedo e eu te deixo em casa, juro! – vi que estava a ser sincero e iria honrar a promessa se assim fosse minha vontade

- Tudo bem, eu vou… - afirmei sem qualquer sorriso, mas com um brilho nos olhos que me foi difícil de esconder

Já ele não se coibiu de fazer um sorriso lindo e que eu tão bem caracterizava de seu.

- Entra no carro, vai… - a sua voz tornou-se ainda mais meiga e eu fiz o que ele me mandou, não tinha eu senão outro remédio

***

Quando saímos do carro, David tomou lugar do meu lado e quase à porta do restaurante uniu a sua mão à minha com intenção de caminharmos lado a lado.

- David… - olhei para as nossas mãos unidas e ele repetiu-me o gesto – Não… - separei-as tão rapidamente como ele as uniu

- Não posso mais pegar sua mão? – vi que a minha atitude o tinha entristecido

- Não, não podes…- não o consegui olhar nos olhos e continuei o caminho recto até ao restaurante

- Porquê? – ele acompanhava a minha caminhada, mas ainda assim não desistia de obter as respostas que queria

- Porque não! – na verdade não tinha nenhuma razão especifica

- Porque não, não é resposta! – ele fez uma expressão chateada

- Olha, porque eu decidi assim… - mantive a calma, apesar da situação me incomodar

- Você decidiu assim, porquê? – finalmente alcançámos a porta do restaurante – Não me ama mais?

Estanquei com aquela pergunta, naquele momento não devia haver pergunta mais parva e sem nexo do que aquela. A minha vida podia estar virada do avesso, ser um mar de incertezas, mas uma certeza permanecia tão certa como o ar que respiro, eu amava-o e muito! Não precisei de responder, olhei-o nos olhos e entrei no restaurante.

- Adriana! – Bianca correu imediatamente para me abraçar e quase me derrubou

- Hey, calma que ainda me mandas ó chão! – não contive o riso e separámos o abraço

- O que é que estás aqui a fazer? – perguntou com um sorriso

- Vim ao jantar, o David não me deixou opção! – barafustei, mas na verdade estava feliz por ali estar

- Hum, gosto mesmo do David! – riu-se e eu ri-me com ela

- Se a situação fosse outra, dizia-te para teres calminha que o homem é meu!

- A situação só não é outra porque tu não queres! – pela minha expressão ela compreendeu que não queria mais falar – E então onde é que está esse belo rapaz que te convenceu a vir?

- Vinha mesmo atrás de mim… - olhei para a porta, mas não o vi, achei estranho pois já tinha dado mais do que tempo de entrar no restaurante

- Eu não vejo nada! – uma linha formou-se na sua testa

- Eu vou ver dele… Se calhar foi ao carro buscar alguma coisa, dois minutos! – pedi e saí do restaurante

Infelizmente a cena que encontrei foi tudo menos a que eu esperava.
Um aperto formou-se no meu peito ao ver David ali, sentando num banco, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça entre as mãos. Vi uma gota de água cair no chão e apesar de não lhe conseguir ver o rosto deduzi imediatamente que tivesse a chorar. Tive remorsos, mas por outro lado fiquei confusa imaginando mil e um motivos para aquele choro e no mais íntimo de mim, rezei para que não fosse eu.

- David… - aproximei-me levemente dele e ele apressou-se a limpar as lágrimas que ainda humedeciam o seu rosto

- Fala, precisa de alguma coisa? – a sua voz conotou-se de uma frieza que me magoou profundamente

- Nunca mais entravas, vim ver de ti… - sentei-me no banco do lado dele, mas ele afastou-se – Já não me posso sentar perto de ti?

- Não! – foi seco e incapaz de me olhar nos olhos

- Porquê? – perguntei imediatamente

- Porque eu decidi assim! – usou as minhas próprias palavras para me atacar

- David, não hajas assim comigo, por favor… - pedi com as lágrimas a travarem-me a voz, mas totalmente determinada a não deixá-las cair

- Quer que haja como? Que te encha de mimo quando você me trata desse jeito?

- De que jeito? De que jeito é que te tratei? – apesar de as lágrimas teimarem em inundar os meus olhos eu não temi encará-lo

- Desse jeito, essa frieza… Nem me olha mais com carinho, nem me toca mais com aquele seu jeitinho… - hesitou e finalmente encarou-me - … não me diz mais que me ama…
- Tu sabes que eu t… - interrompeu-me

- Eu sei, eu sei… Mas queria ouvir da sua boca e você não me respondeu! – agitou a cabeça em jeito de desilusão

- Para quê tentar expressar por palavras coisas sobre as quais, só o coração se pode pronunciar? – um espasmo percorreu o meu corpo e arrepiei-me ao aperceber-me da profundidade das minhas palavras

Ele ficou emocionado com o que eu disse, fitou-me durante um período de tempo e eu não lhe neguei isso. Cada traço seu, podia até nem ser perfeito, mas aos meus olhos era muito mais do que isso, tive vontade de sorrir, mas a sua falta de reacção deixou-me assustada.

- Me beija… - sussurrou-me aquele pedido

- David…

- Por favor, me beija… É a única coisa que te peço! – olhei para o seu rosto ainda húmido do seu choro

Aproximei-me dele levemente, as minhas mãos agarraram o seu rosto e os meus lábios secaram a humidade que ainda permanecia nas suas bochechas. Ao primeiro toque dos meus lábios no seu rosto ele fechou os olhos e eu sorri ao ver aquele homem com jeito de menino pequeno bem na minha frente, tive uma vontade louca de o agarrar e nunca mais o largar.

- Me beija…. – voltou a pedir num sussurro e ainda de olhos fechados – Por favor…

Aproximei a minha boca da dele e ele abriu os olhos quando sentiu a minha respiração acelerada ir de encontro aos seus lábios.
As minhas mãos deslizaram das suas faces, agora secas, para a sua nuca, toquei levemente com a ponta do meu nariz na sua bochecha e senti-o sorrir ainda que de olhos fechados novamente.
Lentamente fui traçando um leve caminho desde a sua bochecha até à sua boca com leves beijos. Quando a minha boca encontrou a dele, rapidamente o seu doce sabor inundou a minha boca, assim como a sua língua que levemente envolveu a minha num bailado calmo. Não havia qualquer pressa naquele beijo. A mão direita dele ocorreu à minha nuca, arrepanhando-me alguns cabelos de forma embrenhada e a outra pousou na minha cintura e puxou-me fortemente para si. Terminámos o beijo com uns quantos toques de lábios leves.

- Te amo… - sussurrou ainda com os seus lábios juntos aos meus

- Eu também… - sorri-lhe e afastei-me

- Meninos, vamos jant… - o Ruben calou-se assim que percebeu que nos tinha interrompido – Desculpem, mas é que o pessoal quer todo jantar!

- Sim, nós vamos já! – respondeu David com um sorriso leve no rosto

Ergui-me do banco, ele percebeu que era minha intenção entrar, tentou dar-me a mão novamente, mas ao aproximarmo-nos dos nossos amigos soltei-lha. A minha cabeça estava num tormento, o meu estômago de pernas para o ar com aquele beijo, mas o meu coração batia lento e compassado no lado esquerdo do meu peito, governado pela única certeza que tinha, a de amar aquele homem acima de tudo e de todos, mais do que eu própria julgava possível.