- Bem, vamos arranjar-nos… - disse a Paula na sua calma de sempre
- Sim, vamos… - ela estendeu-me a mão para me ajudar a levantar e eu coloquei-me de pé, só aí é que David teve a certeza de que era eu, pois debaixo daquelas meninas todas ele podia desconfiar, mas nunca confirmar até me ver
As meninas subiram às bancadas para beijar os seus respectivos e eu aguardei dentro das quatro linhas o seu regresso e evitando o máximo possível as trocas de olhares com David.
***
- Tell them all I know now. Shout it from the roof top. Write it on the sky line. All we had is gone now. Tell them I was happy and my heart is broken. All my scars are open. Tell them what I hoped would be. Impossible, impossible, impossible, impossible… - foi a música que escolhi para me pentear ao espelho
- Agora não vai dar p’ra fugir mais não! – a voz do David surgiu nas minhas costas, virei-me instantaneamente e parei de cantar
- És louco? Isto é o balneário das mulheres, vai-te embora! – ordenei começando a arrumar as minhas coisas no saco de desporto
- A única pessoa aqui é você, e em você não há nada que eu já não tenha visto, por isso vou ficar! Pare de fugir, pare, pare! – percebi pela sua voz que começava a ficar desesperado
- Não estou a fugir de nada! – fechei o saco e encarei-o – Simplesmente não quero ter esta conversa contigo, porque não tenho nada para te dizer! Nada que já não saibas e além disso não estou disposta a ouvir novas acusações!
- Pare com isso, pô! Me deixa explicar aquilo que eu falei naquela manhã… Tou de saco cheio de ficar assim de mal com você, sem ter você do meu lado… É ruim de mais…
- David, estou sem tempo para isto… - agarrei no saco
Tentei sair do balneário, mas senti uma força exercer pressão contra mim, encostou-me contra a parede violentamente e os lábios húmidos de David tocaram os meus com uma brutalidade que lhe desconhecia, ele interceptou-me o caminho. O saco caiu-me ao chão e pelo toque bruto dos seus lábios eu percebi que ele estava frustrado com toda a situação. Porém deixei-me levar, ele conduziu a dança ritmada e violenta das nossas línguas e as minhas mãos percorreram descontroladamente o seu corpo, assim como as dele o meu.
Foi uma questão de segundos e de longas carícias provocadoras até estar sentada no colo dele, de frente para si e por sua vez, ele sentado no banco corrido do balneário. As minhas mãos envolviam os seus caracóis e repuxavam-lhos com alguma violência. As mãos dele viajaram debaixo da minha camisola e subiram até ao peito acariciando-o. Envolvi-o então num beijo mais profundo do que aquele que dávamos, ainda as nossas bocas não se tinham juntado de novo e já as nossas línguas se enrolavam e balançavam de um lado para o outro, num compasso frenético da histeria do amor. As mãos dele apertaram os meus glúteos tirando-me fora de mim e eu quebrei o beijo, mordendo-lhe o lábio inferior com um certo fulgor.
- Tenho saudade de fazer amô com você… - sussurrou baixinho perto dos meus lábios e eu roubei-lhe um novo beijo, mas desta vez apenas leves toques de lábios
- Adriana! – a voz da Paula soou no corredor de acesso
- Estou a ir! – levantei-me rapidamente do colo de David e apanhei o meu saco de desporto caído à saída do balneário
- Não me faz isso… - olhei-o, tive remorsos do que estava a fazer, do que ia fazer, mas as palavras ditas naquela manhã ecoavam na minha cabeça e ressentiam-se no meu coração
- Tchi, Adriana! Não te cortes, vá lá! – pediu a Paula agarrada ao seu Roberto
- Não me estou a cortar, simplesmente não estou com pachorra para ir ao cinema!
- Mas tu adoras cinema! – interveio imediatamente o Ruben
- Lá porque adoro, não significa que esteja sempre disponível para ir… - revirei os olhos
***
Os meus pensamentos foram atrapalhados pelo sinal de nova mensagem.
Tou morrendo de saudades suas, pô! Será que custa muito a gente se encontrar, falar e resolver esse assunto? Tou farto de tar de mal com você… =( “
Como é que estás a morrer de saudades se estivemos juntos nem há três horas atrás? E respondendo á tua pergunta não, não custa… Mas não me apetece ter mais essa conversa! =/ “
“De: Amor♥
Pô, num faz isso, amô! E nois? Como a gente fica? Assim, nesse pega-pega, no vai-não-vai? Te amo tanto! =( “
David, não entres por aí e não tentes chegar ao meu coração! Em relação ao pega-pega, vai-não-vai, só tenho a dizer que tu é que me beijaste, não eu!”
“De: Amor♥
Não vai dizer mais que me ama? Ainda ama, não ama? :S”
“Para: Amor♥
Amo-te, claro que te amo… Mas tu disseste que a confiança não existe e sem isso o amor não sobrevive, com muita pena minha! Mas pelo menos que fique o respeito um pelo outro! (: “
“De: Amor♥
Não quero só seu respeito! Quero você! Te amo, pucha! Oh meu Deus, cê nunca errou? Nunca falou coisas sem pensar? Todo o mundo erra, Adriana!”
“Para: Amor♥
Ok, erraste em dizer o que disseste, mas para o teres dito é porque a confiança não é assim tanta! Desataste com acusações em vez de me ouvires, de procurares saber o que aconteceu, ou melhor, o que não aconteceu! Mas o que foi dito, foi dito e eu não esqueço!”
“De: Amor♥
Pô, Adriana… Pega leve! Eu fiquei doido de ciúme!”
“Para: Amor♥
Parece que o ciúme te saiu caro! :/ “
“De: Amor♥
Já entendi que você não vai ficar de bem comigo… =(
Podemos pelo menos ser amigos, ou até isso minhas palavras impossibilitam?”
“Para: Amor♥
Sim, amigos podemos ser :) “
“De: Amor♥
Tudo bem… Amigos, seremos… ;(
Fique bem! Se cuida, garota!”
Deitei-me novamente no sofá tentando relaxar, agarrei dezassete vezes no telemóvel com o propósito de trocar “Amor♥” para “David”. De todas as vezes que o fiz, a coragem faltou-me, o meu coração mirrou e eu cancelava a operação. Acabei por adormecer, com a cabeça cheia de pensamentos do que eu não queria, mas iria ser a David… uma amiga.
***
Depois das SMS com David, e se a vontade de sair já não era muita perdi-a por completo, mas tinha dado a minha palavra ao pessoal que ia e não ia desmarcar tudo à última da hora. Arranjei-me, o mais simples que consegui para passar despercebida no meio deles, levei os meus cabelos soltos e naturais e o mínimo de maquilhagem possível.
Há hora combinada encontrei-me com eles à porta do Colombo, fiquei surpreendida quando para além dos dois casais, vi David, o meu “amigo”.
- Boa noite! – esbocei um sorriso simpático a todos – Desculpem o atraso, mas o metro está um caos!
- Não faz mal… Nós também não chegámos assim há tanto tempo – a Inês sorriu-me
- Já comeste alguma coisa? – perguntou a Paula
- Sim, comi uma sandes antes de sair de casa…
- E isso é lá jantar de gente! Tens de te alimentar melhor, Adriana…
- Eu prometo, que vou começar a comer melhor, mas que eu saiba viemos aqui para ir ao cinema e não para discutir o meu plano alimentar!
- Pronto, já vi que o teu bom feitio está activo, isso é que é preciso! – ela foi irónica
- Vamos entrar… Quero muito ir ver aquele filme, amor! – pediu Inês abraçando-se a Ruben
Acabámos por seguir, Ruben e Inês, Paula e Roberto juntos, como casais que eram e eu e o David separados, cada um para seu lado, ladeando os dois casais.
***
No cinema a disposição dos lugares foi, Ruben, Inês, Roberto, Paula, eu e David. Sim, fiquei do lado dele, por muito desagrado que isso me tivesse incomodado, mas não disse nada para não estragar a noite a ninguém. Ainda estavam a passar as publicidades, os rapazes tinham saído para ir comprar pipocas e como era dia da semana e há noite o cinema não estava muito cheio, o que veio mesmo a calhar, assim eles não seriam incomodados pelas fãs.
- Ó Adriana, que cara é essa? – a Paula deu-me um toque no braço e eu olhei para ela
- A minha! – respondi monocórdica voltando a focar-me no ecrã gigante
- Conta outra! Que aconteceu?
- Não vês quem tenho do meu lado? – perguntei irritada, olhando para o lugar vazio e que em breve iria ficar ocupado por David
- Oh, não comeces, Adriana! O David não se sentou do teu lado por mal e ele não está a pressionar nada, está a agir normalmente, como teu amigo, por isso aproveita a noite! – ela sorriu-me e o meu coração amoleceu um pouco
- Pipocas, gente! – a voz animada do David percorreu a fila que era apenas ocupada por nós
Cada rapaz trazia um balde de pipocas e um copo de sumo, claro que o do Ruben era o maior de todos, tamanho “take-away”.
- Tchi, que baldada, Ru! – não me contive e meti-me com ele
- Tá caladinha, ó meia-leca! – o David sentou-se ao meu lado, agarrei numa pipoca e atirei à cabeça do Ruben – Olha aí, ó!
- Bem, não vão começar pois não? – a Inês interveio, esta estava realmente interessada no filme que íamos ver e todos nos desmanchámos a rir
Voltei a ajeitar-me no meu lugar, o David subiu a divisória entre nós e colocou o balde no meio.
- Toma, é ice tea de limão como cê gosta! – esboçou um sorriso que me arrepiou de tão bonito que era e sorri também
- Obrigada, és um querido! – aproximei-me e dei-lhe um beijo no rosto, que o apanhou desprevenido pois ficou sem jeito
As luzes do cinema apagaram-se lentamente, a última publicidade passou e o filme começou, e o David… Bem ali, do meu lado...





