- David, quero ir… - aproximei-me dele e sussurrei-lhe ao ouvido, só assim era possível ouvirmo-nos
- Já? – olhou para mim claramente desiludido
- Sim, estou cansada… Mas se quiseres fica, eu chamo um táxi e vou!
- Nada disso, eu prometi a você, eu vou cumprir! – e deu um pulo da cadeira, tão determinado quanto a sua palavra
- Não precisas…
- Eu quero! – olhou-me nos olhos e eu perdi todos e quaisquer argumentos
- Então vou só despedir-me do pessoal… - disse com um sorriso leve
- Tá bom, faz isso que eu vou fazer o mesmo! – sorriu-me e seguimos em direcções diferentes, eu despedi-me primeiro dos rapazes e depois das meninas, ele fez o reverso
***
- Está entregue! – diz ao mesmo tempo que estacionou o carro na frente do portão do meu condomínio
- Obrigada, pelo jantar… Pela boleia… Pela companhia! – sorri levemente
- Não agradeça aquilo que fiz do coração! – olhou-me nos olhos
- Boa noite, David… - agarrei o rosto dele, para não lhe dar hipótese de a virar e fazer-me beijá-lo nos lábios e dei-lhe um beijo na face direita
- Boa noite, Adriana… - sorriu-me desiludido
Tirei o cinto e abri a porta para sair do carro, mas o David esticou-se e fechou-a.
- Adriana… - a sua voz soou turbulenta, presa num mar de revolta e dúvidas
Olhei para ele, retomou o seu lugar no banco do condutor e colocou-se ligeiramente de lado.
- Quando é que a gente vai esquecer o que aconteceu e ficar bem? – ele foi directo ao assunto apesar da sua voz estar fraca
- David, a sério… É tarde, preciso dormir e tu devias fazer o mesmo!
- Adriana, não aguento ficar de mal com você, me mata! – ele olhou nos meus olhos e eu tive de desviar o olhar – Me olha nos olhos, pelo amor de Deus, e me responde!
- Queres que te diga o quê? – finalmente encarei-o e os seus olhos verdes estavam translúcidos e tive medo que derramassem novas lágrimas, mas esperava que desta vez ele fosse mais forte – Tu não confias em mim! Tu próprio o disseste!
- Falei sem pensar… Foi da boca p’ra fora!
- Mas foi dito e eu não esqueço… - relembrei
- Também não vou esquecer aquelas fotos, aquela revista…
- Óptimo! Então eu fico com as minhas memórias e tu com as tuas! – abri a porta do carro e saí sem o deixar dizer fosse o que fosse
- Adriana volta aqui! – ele saiu do carro e começou a andar atrás de mim até me agarrar pelo braço, antes de eu entrar pelo portão do condomínio
- Larga-me! – ordenei olhando-o
- Se eu largar, você vai fugir!
- Larga-me! Estou a mandar-te! – ordenei séria
- Só vou largar se você prometer que não vai fugir… - revirei os olhos e ele acabou por me soltar – Vamo, falar, por favor!
- Esquece, David! Não tenho mais nada a dizer-te! Sem confiança não há amor, a relação não existe!
- Não questiona o que eu sinto por você! – a voz dele tremeu e eu tremi também
- Não preciso, tu próprio esclareceste… “… fica impossível confiar em você!” – citei as palavras que tinha usado na nossa discussão
- Já falei que foi da boca fora, caraca! Você nem me deixou falar mais nada, arrumou suas coisas e foi embora!
- Ia ficar lá a fazer o quê? A humilhar-me?!
- Se humilhar? Cê acha que se humilha comigo? A gente ia conversar, ia tentar entender o que aconteceu, que fotos eram aquela que bateram de você com ele naquela maldita festa…
- Não adiantava, tu não ias ouvir nada do que eu ia dizer, porque simplesmente não confias! Não confias, são palavras tuas que resumem facilmente o porquê de estarmos assim…
- Se você me deixar explicar… Eu tava furioso com aquelas fotografias, na hora nem pensei!
- Olha fica aí a tua lição, para a próxima pensa antes de falares… - virei-lhe costas e abri o portão marcando o código de segurança, parei e olhei para trás – Boa noite, David! – fechei o portão, para não dar asno a mais nenhuma discussão
***
Eram duas e tal da manhã quando ouvi Bianca entrar em casa, pousou as chaves no móvel e espreitou p’ra dentro do meu quarto, julgando-me a dormir.
- Entra, princesa! – ergui a cabeça da cama e acendi o candeeiro de mesa
- Ainda estás acordada…- entrou no quarto
- Sim, não consigo dormir…
- Insónias? – perguntou aproximando-se da cama
- David! – sintetizei tudo numa só palavra
- Posso? – pediu-me permissão para se deitar do meu lado
- Claro! – sorri-lhe e ela deitou-se do meu lado debaixo dos lençóis
- O que é que aconteceu?
- Oh não viste? Aquele maldito golo no estádio… Mexeu comigo de uma maneira, que depois nos balneários não lhe pude, nem lhe quis resistir…
- Oh princesa, tu ama-lo!
- Sim, mas amar não chega! É preciso confiança e isso ele não tem em mim, ele próprio o admitiu!
- As pessoas dizem coisas da boca fora e a confiança numa relação deve ser trabalhada passo a passo, devagar, até atingir a solidez do sentimento - aconcelhou-me
- Mas nós sempre confiámos um num outro, nunca houve a coisa dos ciúmes! Não desta maneira…
- Alguma vez havia de ser a primeira… Mas a falar é que as pessoas se resolvem, não a discutir!
- E nós falámos! Quando ele me veio trazer falámos, mas depressa as palavras se tornaram acesas, as acusações afiadas e eu entrei p’ra casa antes que me arrepende-se…
- Teimosos! Dois casmurros, é o que é! – ela aconchegou-se
- Talvez seja por isso que não resultamos…
- O vosso problema é que não sabem dialogar, passa logo à discussão!
- Mas esse problema acabou, não existe porque já nem relação há!
- A ver vamos… - ela levantou-se e assomou à porta do quarto – Boa noite, princesa!
- Boa noite! Dorme bem! – sorri-lhe e ela saiu na direcção do seu quarto
A noite seguiu-se e foi passada em branco, por entre páginas vazias e simples, onde David era, e só ele poderia ser, o único protagonista da história.
***
Escrevi um bilhete a Bianca e deixei-o sob a mesinha de cabeceira desta.
“Bom dia, Bianca
Quando vires isto já saí de casa e não devo ter voltado. Fui correr por aí a ver se alivio a cabeça e espaireço as ideias. Não esperes por mim para o pequeno-almoço.
Beijinhos
Adriana”
Não sei durante quantos horas corri, mas era só eu e aquele asfalto escaldante que me incendiava a pele, num trilho sem fim, num caminho que me levava a lado nenhum…
***
Bianca
Acordei às 10h28 e deparei-me com um pequeno bilhete de Adriana sob a mesinha de cabeceira. Aquela miúda era louca, ir correr para a rua com o calor que estava e tão cedo.
Levantei-me e tomei um banho, mas primeiro recebi uma SMS de Salvio que me perguntava se podíamos tomar o pequeno-almoço juntos. Óbvio que fiquei logo louca de felicidade e apressei-me a vestir. A campainha tocou e eu corri p’ra abri-la.
- Bom dia, amor! – dei-lhe um beijo longo nos lábios
- Hola, cariño! – fez um sorriso encantador e foi aí que vi quem vinha atrás de si e aguardava ainda do lado de fora
- David?! – até julguei estar a ver mal
- Oi, Bianca… O Salvio me convidou, espero que não tenha problema! – fez um sorriso nervoso, eu sabia bem porque é que ele estava ali
- Não tem problema nenhum, entra… - dei-lhe dois beijos no rosto e fechei a porta de casa – O pequeno-almoço já está pronto! – apontei para a mesa que eu tinha posto com tudo o que os pudesse satisfazer
- Suena como una fiesta! – os olhos de Salvio brilharam ao ver o que eu tinha preparado para ele
- Nossa, mas é só p’ra quatro pessoas ou vem aí um batalhão e ninguém avisou de nada? – o David estava também surpreendido com a quantidade de comida que eu tinha preparado
- Não, somos mesmo só nós os três… - e acabei por corrigi-lo
- Três? – ele olhou p’ra mim aguardando uma resposta
- Y Adriana, mi amor? – Salvio também me olhou de forma estranha
- Ela saiu bem cedo p’ra ir correr, mas ainda não voltou… - o meu coração ficou apertado de preocupação, eu sabia que ela não estava bem
- Saiu? P’ra correr? – o David deve ter achado que lhe estava a mentir, mas aquela era a verdade e percebi que também ele ficou inevitavelmente preocupado
- Sim, saiu p’ra correr, deixou-me um bilhetinho e foi, mas ainda não voltou… - informei ao mesmo tempo que nos sentávamos todos para tomar o pequeno-almoço
- Y he tratado de llamar? – olhei imediatamente para a mesinha onde ela deixava sempre o telemóvel e constatei que ela não o tinha levado consigo
- Boa, deixou-o em casa! – nesse exacto momento o telemóvel começou a tocar, aproximei-me e vi que era Diogo que lhe telefonava
Aquele rapaz já lhe estava a trazer demasiados problemas, mais do que eu queria que ela tivesse. Ela já me tinha contado tudo sobre o passado deles e sempre que ele surgia novamente na sua vida era para trazer um sofrimento igual, ou ainda maior, ao já vivido. Desliguei a chamada e disfarcei uma vez que David estava naquela sala e eu não lhe queria trazer mais problemas com ele.
- Quién es, cariño? – o Salvio deu um gole de sumo e olhou p’ra mim aguardando uma resposta
- Ah… - não pude evitar gaguejar, era péssima a mentir e também o David me olhava fixamente esperando uma resposta – Ah… Era a mãe dela!
- Porque não atendeu, então? – pela pergunta de David percebi logo que não estava a ser convincente
- Porque não… O telemóvel é dela e quando ela chegar logo liga à mãe! – sentei-me na mesa e comecei a comer, na esperança de que não me fizessem mais perguntas e graças a Deus não as fizeram
***
Adriana
Não sei precisar durante quantas horas corri em torno do quarteirão da minha casa.
Eu não fazia a mínima ideia para onde ia, na verdade tão pouco sabia o que fazia e porque o fazia. Apenas seguia em frente destinada a procurar algo que me pertencia. Não sabia como, quando ou por que, tal coisa havia desaparecido, mas seguia inteiramente consciente de que uma parte importantíssima dentro de mim, tinha de ser recuperada.
Num dos percursos em torno do quarteirão fiz um desvio pelo parque, onde crianças brincavam com os seus pais ou avós, onde famílias tomavam o pequeno-almoço na esplanada e onde casais enamorados caminhavam lado a lado, fazendo juras silenciosas de amor. Senti uma revolta enorme de não ter o que eles tinham: amor. Esse sentimento inundou o meu coração, e drenado pelas minhas veias atingiu os extremos do meu corpo fazendo-me correr mais e mais, e cada vez mais velozmente. O meu corpo reclamava a condição a que o estava a impor, e eu sentia-me a passar limites, a quebrar barreiras e o meu corpo cedia, mas a razão impulsionava-me a correr mais e mais. Apesar de não saber quantas horas corri, sei dizer que o meu Ipod teve tempo de passar mais de 12 pastas de músicas, o que me levou a crer que estava naquilo há um bom par de horas. Quando alcancei novamente o quarteirão da minha casa, senti o meu coração num ritmo alucinante, batia acelerado e incessante, mas parava durante um segundo, para logo de seguida imitir novamente uma carga explosiva de batimentos. Eu transpirava e o cansaço era palavra de ordem, mas nem isso me fez abrandar o ritmo alucinante que tomara desde o parque. O meu corpo cedia, as minhas pernas já não tinham tanta força, a minha respiração já estava completamente descontrolada e pedia-me que parasse, mas eu não tinha qualquer intenção de o fazer.
Alcancei o portão do condomínio, um carro ia a sair e eu aproveitei, e ainda em passo de corrida, entrei. Abri a porta do prédio e no momento de escolher entre as escadas ou o elevador não hesitei. Seria a minha última descarga de energia, a pouca que já sobrava no meu corpo. Subi os onze lances de escadas numa correria doida, o meu coração bombeava o meu sangue a um ritmo alucinante e a minha respiração estava tão descontrolada que chegava a falhar. Finalmente atingi o meu andar, tirei as chaves do bolso e entrei. Deixei-me escorregar pela porta abaixo de olhos cerrados, até o meu corpo atingir o chão e eu ficar sentada. Tentei acalmar a minha respiração, abri os olhos e vi na minha frente tudo aquilo que eu não queria ver naquele momento.

13 comentários:
Os meus olhos até brilharam! *.*
Tá perfeito...Aliás como sempre! Eu amo isto, a maneira de como tu escreves é tipo WOOW !!
E apareço ali =P
Continua, Drii!
Beijão!
Te amo (L)
Estou sem palavras... olha adorei...
continua....
beijocas
Está lindooo ! Quero mais pff, continua Dri :)
Beijinhos Rafaela*
magnifico...
quero mais... como sera que lea vai reagir ao ve-lo ali? tou super curiosa para ver os proximos capitulos...
continua...
Simplesmente Lindooo !
Aii aii, meniina Drii e acabas-me assim O capiitulO?? Aii a miinha viida.. ;)
POsta rapiidO, siim??
BjnhOs
Quero mais e mais...
Fantástico!!!
Beijinhos
Drii Está muy guapo pero porqué acabaste así?
Posha rapariga, postame o resto rapido sim?
Beijinho
AnaSousa
Bem!! Esta ultima parte está alucinante, agora sim eu digo fiqei completamente doente com a tua fic (No bom sentido,claro) Qero mais, please!!
Qando postas o próximo??
Bjokas e continua...
Tatty
Muito bom... eu que não sou nada de seguir estas coisas... tenho a tua FIC nos meus favoritos... Parabéns =) pela história e também pela bela escrita que tens.
ADOREI!!!
MARAVILHOSO
QUERO MAIS E DEPRESSA
POSTA O MAIS RAPIDO POSSIVEL
BJS
MONIK
Quem vai estar ali?! David ou diogo?! aí xD
Adorei como sempre minha linda (;
Quero mais *.*
Beijinho*
http://viveravida-maria.blogspot.com/
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