quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Capítulo 103 – Que saudade… (Parte III)

O meu coração amoleceu, agarrei no meu telemóvel e liguei-lhe, mas estava desligado. Eu tinha de lhe desejar “Boa sorte” desse por onde desse, nem que fosse ao longe, de fugida.
Agarrei nas minhas coisas e como já conhecia os cantos à casa e as pessoas, não me foi difícil chegar até junto dos balneários. Vi-os sair e os olhos de David arregalaram-se ao ver-me.

- É para lutar, rapazes! – a voz do mister que já ia a mascar a sua chiclete comandou o plutão

Não precisei de fazer qualquer sinal a David para ele se aproximar, eu estava ali e só podia ser para ele.
Aproximou-se e os colegas seguiram atrás do mister.

- Tá fazendo o quê aqui? – perguntou já próximo de mim

- Boa sorte! – desejei num suspiro seguido de um sorriso genuíno

Ficámos em silêncio, por vezes as palavras estragam momentos e nós preferimos assim, permanecermos calados absorvendo tudo aquilo que o outro dizia… em silêncio.

- Obrigada, tava precisando muito de ouvir isso! – vi pela sua expressão que estava mais relaxado, tanto que até soltou um breve sorriso ao mesmo tempo que me olhava nos olhos

- Eu percebi… Vê se te concentras, quero-te inteiro no fim deste jogo! – uma confissão da alma saiu-me pelos lábios antes que eu pudesse sequer pensar em controlá-la, ele sorriu de satisfação

- Vou sair, não se preocupa! – o seu sorriso carregado de carinho fez o meu coração derreter imediatamente

- Então, Boa sorte! – afirmei novamente com as pernas bambas de o ter tão perto e virei costas, mas a mão dele puxou-me pelo braço interceptando o meu movimento

- Se cuida! – percebi que ele se referia ao facto de ir ver o jogo nas bancadas junto dos NN

- Não te preocupes comigo… - instintivamente roubei-lhe um beijo rápido apenas nos lábios – Arrasa com eles! – saí dali o mais depressa que pude deixando-o para trás sem ver qual a sua reacção ao beijo

***
Quando regressei às bancadas, junto dos NN, Paula ocupava o lugar ao lado do meu.

- O que é que estás aqui a fazer? – sentei-me do lado dela

- Não te ia deixar sozinha, não é? E além disso daqui vejo melhor o meu espanhol! – riu-se

- Oh, obrigada, meu anjo! – dei-lhe um beijo no rosto e ela deu-me a mão quando David entrou em campo, mas os nossos olhares não se desviaram do relvado onde eles tomavam posições

- Paulinha… - queria que ela olhasse para mim e ela assim o fez – Fui desejar-lhe boa sorte… - acabei por desabafar

- Fizeste bem, amor… Ele não ia conseguir jogar sem isso! – sorriu-me calmamente e o nervosismo dentro de mim acalmou

Eu ainda estava indecisa se o facto de ter ido lá desejar-lhe boa sorte e ter-lhe dado um beijo era a decisão certa a tomar.

- Beijei-o… - acrescentei meio a medo

- Isso é bom! Vocês vão superar isto, senão seria estar a fazer a vontade ao Diogo…

- Mas ele disse que não confiava em mim, Paula. Como é que uma relação aguenta sem confiança?

- Com toda a certeza que o disse boca fora! Ele ama-te… - ela foi convicta naquilo que disse

- Já tive mais certezas disso… - murmurei por entre dentes

- Hã? – ela não percebeu o que eu disse

- O jogo vai começar! – alterei o que havia dito e ela nem deu pela diferença

Apesar de não ser um jogo oficial, mas apenas um amigável era importante obterem um resultado positivo e mostrarem o novo Benfica, o qual todos ansiavam ver campeão nesta época. O jogo começou bem para o Benfica e ao intervalo estavam empatados 1-1 no marcador, todos os jogadores estavam a fazer uma óptima prestação inclusive David.

- Epá eles têm de virar o jogo, marcar mais um! – disse-me Paula assim que o arbitro apitou para o intervalo e os jogadores saíram de campo

- Tem calma, Paula! Ainda estamos a meio do jogo… - tentei acalmá-la, mas também eu estava nervosa e para tentar relaxar juntei-me aos cantos dos NN

Mal comecei a cantar a Paula desmanchou-se a rir, mas tão rapidamente como o fez juntou-se a mim. A segunda parte começou e eu e ela voltámos a sentar-nos.
O Benfica entrou mais forte, mas o marcador continuava igual e todo o estádio estava perante uma ovação assustadoramente bela.

- Bolas, precisamos tanto de mais um golo! – refilava Paula

- Calma, mi amor… Algum deles há-de marcar um golo, vamos esperar, ainda faltam dez minutos! – eu ainda acreditava na vitória, e como já era hábito meu, até ao último minuto

Foi ao minuto 86’ que em consequência de um canto batido por Aimar, David saltou, os seus caracóis agitaram-se no ar e a bola foi empurrada para o fundo das redes adversárias.
O estádio foi ao rubro, milhares de adeptos gritavam e batiam palmas. Alguns choravam, outros abraçavam-se sem se conhecerem, era toda uma nação benfiquista, uma família, a comemorar a vitória ansiada.
Ruben correu imediatamente para David para o abraçar, mas este fugiu-lhe e correu na direcção da zona ocupada pelos NN no estádio, eu sabia que ele estava à minha procura.
Ele olhou a multidão, não foi difícil encontrar-me. Sorriu, bateu no peito e beijou a mão e apontou na minha direcção. Um arrepio percorreu o meu corpo de um extremo ao outro. A Paula do meu lado, estava maravilhada e eu fiquei inerte no meu lugar, não consegui esboçar qualquer reacção. Os colegas acabaram por o alcançar e numa amálgama de corpos abraçaram-se, jogaram-se uns sobre os outros num monte confuso e comemoraram aquele jogo. O David ainda olhou para mim antes de retomar a sua posição no campo, mas eu fui incapaz de reagir, não esperava que ele me dedicasse um golo depois do que se tinha passado.
Ele seguiu e o meu corpo caiu sobre a cadeira, Paula não me disse nada pois percebeu que eu não estava com vontade de ter nenhuma conversa. Os cinco minutos de jogo que se seguiram foram os mais longos da minha vida e o David não tirava os olhos da bancada onde eu me encontrava. Mal o árbitro apitou para o final da partida eu saí disparada entrando num dos corredores de acesso privados.

- Adriana! Dri! – a Paula corria atrás de mim tentando apanhar-me – Espera aí! – finalmente apanhou-me, mas nem assim parei de andar

- Que foi?

- Vais onde? – ela fazia um esforço para manter o meu ritmo de andamento

- Para casa!

- Mas a Bianca é que te vai levar…

- Vou de metro!

- Deixa de ser assim… Fica, vem comigo até à sala dos jogadores, quem sabe vens connosco ao jantar da equipa agora à noite!

- Onde? Tu não podes estar boa da cabeça… Achas mesmo?!

- Claro, anda lá! Vão lá estar as meninas todas…- ela aliciou-me - por nós! – rematou

Ela era muito convincente quando queria e eu acabei por ceder e acompanhei-a até à sala dos jogadores.

***
- Bolas, são piores que as gajas! C’um caraças! – a Catarina estava em brasa e mesmo assim o Aimar era sempre dos primeiros a sair

- Tem calma, até parece que não os conheces… - acalmei-a

- Ah lá isso tu conheces bem, o teu é sempre o último a sair! – ela disse aquilo sem qualquer intenção de me magoar, mas na verdade eu já não podia chamar o David de meu, e nem queria. A minha cara fez uma expressão de dor que eu disfarcei o melhor que pude – Desculpa, não era isto que queria dizer, Dri…

- Não faz mal, eu percebi bem o que querias dizer!

- Ó Adriana, desc… - eu interrompia

- Esquece, que eu já esqueci! – não queria falar mais sobre o assunto

- Estavas na bancada dos NN? – percebi logo onde Bianca queria chegar

- Sim, estava… Com a Paula! – fiz uma pausa e todas as meninas me olharam – E sim, o golo foi para mim! – esclareci-as e um sorriso iluminou-lhes os rostos

- Fogo, estou cheio de fome! – a voz de Ruben inundou o espaço assim como as gargalhadas daqueles que o acompanhavam

- Nem me diga nada, acho que morro de fome! – aquele sotaque brasileiro eu distingui mesmo sem olhar e não era o de David, era o Luisão

- Pronto, lá vêm eles já a reclamarem que têm fome! – Catarina tomou lugar do lado de Aimar e beijou-o de uma forma apaixonada, de facto eles faziam um casal lindo e entendiam-se muito bem, acho que nunca lhes tinha conhecido uma discussão séria

- Ainda aqui? – a voz de Ruben surgiu por detrás do meu ouvido

- Sim, fui arrastada… - olhei para Paula que me sorriu levemente

- Bem arrastada, portanto! Queremos-te no jantar, ó… - o Ruben queria sempre ter-me por perto, como tinha sido sempre desde que éramos crianças

- Não, eu vim mesmo só aqui e porque, porque…A Paula sabe bem porquê!

- E queres que diga o motivo verdadeiro ou o que eu inventei para puderes vir sem dizer o verdadeiro? – ela estava claramente a provocar-me e eu dei-lhe um ligeiro toque com o cotovelo

- Não digas disparates, Paula Marie! – ordenei

- Eu não, Drica Lipa! Nunca! – era a alcunha que ela me dava e eu até achava graça porque era nome de chupa chupa ou outro doce qualquer

- Bem, sendo assim vou indo para casa… Primeiro tenho é de ir à casa de banho!

- Já sabes o caminho, certo? – perguntou Ruben

- Claro, que sim! – não me relembrava muito bem, mas havia de dar pelo caminho

Entrei pela porta por onde Ruben saíra e acabei por me confundir entre tanta porta. Entrei devagarinho e quando dei por mim estava no balneário do Benfica. Tentei voltar atrás, mas ouvi vozes no corredor e como estava realmente aflita entrei numa das divisórias, até porque não havia ninguém no balneário. Quando saí fiz um caminho recto e directo aos lavabos ladeados de vários espelhos. Os meus olhos fixaram-se na água que corria em rojo e me lavava as mãos, coloquei sabão e enxaguei. Quando ergui a cabeça para procurar papel para secar as mãos vi pelo espelho, um vulto encostado numa das portas das divisórias atrás de mim.
Assustei-me, dei um leve pulo e virei-me de frente para a pessoa, o meu coração a mil serenou assim que viu que era David, mas quando me apercebi que era David, que era mesmo David, o sangue voltou a bombeá-lo violentamente e as minhas pernas enfraqueceram.

- Tá fazendo o quê aqui? – tive de encará-lo

- Vim à casa de banho, mas acho que me enganei na porta… - estava sem jeito com aquela situação – Mas vou já embora! – coloquei o papel do lixo e agarrei a minha mala em cima da bancada determinada a sair dali

- Espere! – a voz dele travou-me, assim como a pressão da sua mão no meu braço

Numa fracção de segundos estava completamente colada a David, tanto que sentia a respiração profunda dele nos meus lábios e quase de certeza que ele sentia a minha nos seus.
A mala caiu-me das mãos e ele aproveitou para me segurar pela cintura contra si, nesse exacto momento as minhas pernas perderam a força.
Porque é que ele estava a fazer aquilo? Se estava assim tão magoado e eu assim tão errada, porque é que ele não me deixava ir embora? Subi o olhar e vi aqueles dois olhos verdes cravados em mim. Li-lhe a alma com um simples olhar e observei cada traço seu durante largos segundos. Acho que nunca me tinha apercebido da perfeição de cada defeito seu e nem nunca o tinha achado tão belo como naquele momento. O seu olhar estava inundado de um brilho profundo e arrepiante e nos seus lábios entreabertos eu podia ler uma vontade nítida de sorrir. O sangue começou a fervilhar nas minhas veias, os palpites do meu coração descompassaram-se e toda eu tremi nos braços dele. A distância entre nós foi anulada por David e os lábios dele foram de encontro aos meus. Não pediram sequer licença e beijaram-me de uma forma que eu não lhes conhecia. David procurou os meus lábios com uma avidez encantadora. Lentamente a sua língua invadiu a minha boca e eu senti-me como se de o nosso primeiro beijo se tratasse, um misto de sentimentos confundiu-me. Quando as nossas línguas se tocaram um arrepio emergiu desde o topo da minha espinha, percorreu as minhas costas e dissipou-se nos limites do meu corpo.
As mãos dele ocorreram ao colete que tinha vestido, empurrou-o levemente e este acabou por cair ao chão. As minhas mãos foram imediatamente de encontro à sua camisola, despi-lha e por momentos as nossas bocas separaram-se. Vim um sorriso delinear-lhe levemente a boca, mas beijei-o antes que se rasgasse numa demonstração de felicidade maior.
As mãos dele arrepanhavam a pele do fundo das minhas costas ao mesmo tempo que os seus lábios abarcavam os meus incessantemente. Arrastou-me consigo e só parámos quando ele embateu com as costas na parede posterior. Parámos de nos beijar devido à força do embate, eu estava completamente descontrolada e de respiração ofegante.
E ele não estava muito diferente porque pela mão que tinha pousada sobre o lado esquerdo do seu peito pude sentir o batimento indomável do coração de David, a sua caixa torácica encher e esvaziar incessantemente de forma acelerada e o calor que me transmitia e que irradiava desde as cinco pontas dos meus dedos, em contacto com o seu peito despido, e que eriçava todos os pêlos dos meus braços. A cabeça dele enterrou-se no meu pescoço e começou uma nova troca de carícias com os seus lábios contra minha pele.

- Eu te amo… - um sussurro vagabundo, vindo directo da sua alma, abandonou os seus lábios

As mãos dele pousaram nos meus omoplatas procurando o fecho para desapertar o top que ainda tinha vestido. Não lho permiti e acabei por o fazer sentar-se num dos bancos do balneário, mesmo em frente à divisória que lhe correspondia e adornada com o número 23. Sentei-me no seu colo, com as pernas abertas e de frente para ele. Não hesitei em beijá-lo e ele puxou-me mais para si, com toda a força que lhe conhecia. As minhas mãos cruzaram-se na sua nuca e os meus lábios beijavam os dele com um novo fulgor. O momento estava a aquecer e o desejo estava no auge, queria-o, desejava-o de todas as maneiras possíveis. A minha boca desceu até ao seu rosto, beijei-o por toda a parte, nas bochechas, no nariz, nas orelhas e no queixo. Percebi que o estava a endoidecer, puxou-me para si, agarrou-me pelo rosto e beijou-me sem dó nem piedade, naquele momento tive noção que não havia volta a dar, ele ia ter-me. A sua mão livre ocorreu de novo ao fecho do meu top, tremi ao saber que ia ser dele.

- David! – uma voz forte e masculina quebrou todo o momento

O meu coração deu um pulo e uma descarga de adrenalina bombeou o sangue por todo o meu corpo de uma maneira descontrolada. Afastei-me imediatamente dele procurando o meu colete para vestir. Vesti-o tão rápido quanto pude e agarrei na minha mala que estava no chão. O David vestiu a camisola de forma muito atrapalhada e acabou por vesti-la do avesso. Foi nesse exacto momento que o mister Jorge Jesus cruzou a porta de entrada do balneário. Dizer que nesse momento queria um buraco para me enfiar era pouco. Ele olhávamos e o sangue aflorou-me às faces.

- Mister… - a voz de David ainda lhe denunciava a condição de ofegante

- O que é que estão aqui a fazer, ainda? – o mister olhou para mim e para David alternadamente

- Eu… Eu já estava de saída! – ajeitei o colete e passei a mão nos cabelos ligeiramente desalinhados

- Ela veio só me dizer uma coisa mister… - o David rematou de forma atrapalhada e foi o bastante para nos entregar

- Veio agradecer-te o golo, foi? – o Mister mascava a sua pastilha com menor intensidade e estava com vontade de se rir

- Foi, foi isso mesmo! – David ajeitou a t-shirt que estava enrodilhada e do avesso

- Belo golo que o rapaz te dedicou! – o Mister falava agora para mim e eu senti-me mal, não era suposto David saber que eu tinha percebido que o golo era para mim

- Sim, foi um belo golo… - não permiti a mim mesma dizer mais nada

- Tens aqui um rapaz de ouro! – o David olhou-me nesse momento e um sorriso vitorioso dominava o seu rosto, eu sabia que JJ tinha razão – Ó David, eu vinha mesmo só dizer-te que estão dispensados do treino de segunda de manhã, porque há um problema na caixa, mas há tarde já irá haver!

- Com certeza, mister! Lá estarei! – o David nunca desmanchava a máscara de profissional

- Então vemo-nos lá… Quanto a ti, até breve! – sorriu-me agradavelmente e eu retribuí

- Até breve, mister!

Ele saiu, eu e o David olhámo-nos intensamente, mas fomos interrompidos pelo breve regresso de JJ.

- Só uma coisa, rapaz… Para conversarmos não é preciso vestirmo-nos à pressa! – apontou para a camisola mal vestida de David

Não sei qual dos dois ficou mais envergonhado, se eu ou David, já o mister saiu com um sorriso nos lábios.

- Adriana… - David ia aproximar-se

Antes de ele me alcançar, dizer mais fosse o que fosse, agarrei nas minhas coisas e ainda meio desajeitada do momento saí numa correria frenética dos balneários, tão rápida quanto os saltos altos me permitiram. Entrei na sala dos jogadores ofegante e o grupo de amigos habituais olharam-me.

- Hey, eu sei que estamos no estádio, mas aqui não há maratonas! – ironizou Bianca ao constatar o meu estado de cansaço

- A maratona dela sei eu bem qual é! Tem um metro e oitenta e oito, olhos verdes e uma cabeleira farta em caracóis! – a Catarina era mesmo assim, não deixava nada por dizer e acabava sempre por provocar a risota geral, o que foi o caso, apenas eu não me ri

- Eu vou ter de ir… - informei ainda meio desnorteada – Fiquem bem, adeus e divirtam-se!

- Mas, Adr… - já não consegui ouvir o que Ruben dizia, saí correndo na direcção do parque de estacionamento ao ar livre, precisava de absorver cada detalhe do momento que vivera à momentos no balneário com David

A pressa em sair dali, sem que ele me visse, era tanta que embati contra um jovem de boa aparência.

***
David

A rapidez com que ela abandonou o balneário nem me deu tempo p’ra falar mais nada. Vesti a camiseta correctamente, atei os meus ténis, agarrei no meu saco e saí correndo atrás dela. Ao entrar na sala de convívio dos jogadores todos olhavam estupefactos para a porta de onde eu surgira. Meus olhos procuraram ela, mas não a encontraram como era seu desejo.

- Eh lá, mas isto hoje lembrou-se tudo de correr a maratona nocturna do Estádio da Luz? – ao início não entendi o que a Paula falou, mas depois na minha cabeça um puzzle se formou, ela devia ter passado por ali com tanta ou mais velocidade com que saíra de junto de mim

- Qual maratona qual quê! O que estes dois andara a fazer sei eu bem, e chama-se tudo menos maratona! – a Catarina não perdia nunca seu jeitinho de desbocado, falava o que queria na hora e bem na cara podre

- Cadê, Adriana? – perguntei irritado de tanta conversa que me dizia tudo, menos o paradeiro dela

- Saiu a correr há coisa de dois minutos… - a Paula foi a única que me deu a informação que eu necessitada

Saí correndo na hora atrás dela, mas a voz de Ruben me impediu.

- Vais onde, mano?

- Atrás da Adriana! – tentei reiniciar a corrida

- Para quê? O que é que aconteceu?!

- Vou falar p’ra aquela teimosa o quanto gosto dela! – um sorriso surgiu na minha boca e na do manz também

Saí correndo e ainda vi a reacção dos presentes.

- Ai, esta eu não perco! – a Catarina agarrou na mala, um sorriso no rosto e saiu atrás de mim arrastando Aimar com ela

- Nem eu! – Paula se juntou a ela e arrastou o pobre coitado do Roberto que tava morto de fome

- Hey, esperem por nós então! – refilou Ruben, e todo o mundo me seguiu

Mas quando a encontrei, a imagem não foi a que eu esperava, lá tava ela, bem do lado da única pessoa que eu queria bem longe dela, de mim… de nós! Eles falavam, ele se aproximava e ela o repulsava constantemente. Queria ver onde aquilo ia levar…

***
Adriana

- Desculpe… - perdoei-me imediatamente pelo embate, mas congelei ao ver a pessoa que tinha na minha frente

- Sabia que ia acabar por te encontrar… - a voz de Diogo saiu meiga

- Diogo?! O que é que estás aqui a fazer?

- Vim ver o jogo… Mas não queria ir embora antes de te encontrar e pela dedicatória do golo dele, deduzi que cá estivesses, na bancada ao pé dos NN!

- Ó Diogo e estavas à minha procura para quê? – a arrogância assaltou a minha voz, não me esquecia do motivo que tinha levado à minha zanga com David

- Preciso de falar contigo… Preciso tanto de falar contigo! – a meiguice na sua voz já não me soava a nada senão a cinismo

- Pois, mas eu não tenho mais nada a dizer e tenho pressa! – tentei sair dali, mas ele puxou-me pelo braço de uma maneira que me magoou

- Estás a magoar-me, Diogo! – ele soltou-me apesar de contrariado

- Então ouve-me e assim não serei forçado a agarrar-te! – foi nesse exacto momento, quando ele proferiu essas palavras, que eu vi na minha frente outro Diogo, vi nele um homem que nunca tinha visto antes

- Estou a ouvir, mas sê breve, por favor! – afastei-me dele o mais que pude, mas ele teimou em aproximar-se, tinha um carro atrás de mim e não havia mais por onde fugir

- Desde as férias no Algarve, daquela festa, que eu não paro de pensar em ti… Não me sais da cabeça, seja a que hora do dia for! Penso em ti, em como és perfeita, em como te desejo, em como te quero… - pela sua hesitação adivinhei o que ia dizer - … em como te amo!

Nunca o vi dizer-me aquilo com tamanha convicção e naturalidade e se ele não fosse tão bom actor eu quase teria acreditado em mais uma das suas falsas juras.

- Diogo, por favor… Isto não nos vai levar a lado nenhum!

- Adriana, vá lá! Olha-me nos olhos… Diz-me que te sou indiferente, que já não sentes nada! Diz-me isso e eu vou-me já embora! Nunca mais me vês, diz! – calei-me, ele sabia que por muito que eu amasse David, ele ainda não me era totalmente indiferente, afinal o primeiro amor nunca se esquece – Diz! Olha-me nos olhos e diz! DIZ! – ele gritou-me de uma maneira que eu não admitia a ninguém

A revolta foi tamanha que a minha mão num único movimento juntou-se à cara dele esbofeteando-a. O impacto foi audível e ecoou pelo parque vazio, os cinco dedos ficaram marcados de uma vermelhidão acentuada. Olhei-o incrédula comigo mesma, com o que eu tinha acabado de fazer. As lágrimas surgiram nos seus olhos meio escondidos pela mão que lhe cobria a face esbofeteada. Demorou algum tempo a encarar-me, mas quando o fez percebi que estava magoado.

- ISSO! BATE! VAI! SE QUERES TANTO BATER-ME, BATE! EU DEIXO! – ele começou a gritar em pleno parque de estacionamento – VAI! BATES-TE UMA VEZ, BATE DUAS OU TRÊS!

- Não vou fazê-lo… Não o devia ter feito por isso não repito… – tentei manter a calma, mas as lágrimas já me turvavam a visão

- Odeias-me assim tanto?! – fui incapaz de o olhar nos olhos – Vai, Adriana! Agora vamos ser sinceros, baixar defesas e guardas. Olha-me nos olhos e diz-me se me odeias assim tanto! – em cinco anos que conhecia Diogo aquela foi a primeira vez que o vi chorar e quando aquelas duas lágrimas cruzaram seu rosto o meu coração partiu-se em dois, eu não sabia e detestava fazer as pessoas sofrer, mesmo que elas me tivessem magoado muito, como era o caso de Diogo

Olhei-o nos olhos como ele me pediu, mas permaneci em silêncio.

- Vai! Agora diz-me! Odeias-me assim tanto?! Já não me amas? – o choro dominava a sua voz e ainda lhe podia ver os cinco dedos marcados na face esquerda

- Não… Não te amo mais, o meu coração tem outra pessoa! – o choro acabou por me dominar também, aquele era o ponto final na nossa história e se por um lado sentia um alivio inexplicável, por outro sentia pena de ver aquilo que podia ter sido a história de amor perfeita alcançar um fim muito pouco feliz

- Oh, Adriana… Eu não acredito! Não acredito que o ames a ele e a mim não! Não é possível! – ele jogou as mãos à cabeça e começou a andar desnorteado de um lado para o outro

- Diogo, não compliques… Eu amo o David, afasta-te, por favor! Não destruas a nova oportunidade que tenho de ser feliz! É a única coisa que te peço!

- A única coisa que eu te peço é que me ames, como sempre amaste e que me deixes fazer-te feliz, por favor…

- Não posso, Diogo… Não posso!

Ele aproximou-me de mim, lentamente, até onde lhe permiti. Já sentia o seu rosto muito perto do meu e a sua mão ardia sob a pele do meu rosto.

- Diogo, pára! – ordenei num choro descontrolado

- Adriana, faz o que quiseres! Grita comigo, bate-me, ofende-me, mas não me afastes de ti, não me afastes da única coisa que dá sentido à minha vida! – os olhos dele estavam pintados de um azul mais carregado que era claramente consequência das suas lágrimas

- Diogo… - não tinha forças, queria, mas não tinha forças

- Ao menos um último beijo… - sussurrou e senti a respiração nos meus lábios

- Não posso…- fechei os lábios, aquela aproximação fazia tudo o que era humano em mim doer

- Não me negues isso… Pelo menos isso! – implorou e novas lágrimas molharam-lhe a face
Num movimento procurou unir as nossas bocas, mas eu virei a cara e afastei-me.

- Vai-te embora, Diogo! Não te humilhes! – pedi com pena dele, eu detestava sentir pena fosse de quem fosse, é o sentimento mais desonrado que se pode ter por alguém

- Adriana… – o choro dominou-o por completo

- Vai-te embora, Diogo! Pára de destruir a minha vida, pára! – implorei também em choro

- Porquê, se tu acabaste de destruir a minha? – aquelas palavras atacaram directo no meu ponto de culpa, mas que desta vez não era minha, isto era apenas a paga de tudo o que o Diogo um dia me fizera

Empurrei-o suavemente para longe, ele ainda me agarrou no rosto e deu-me um beijo longo na testa, era a nossa despedida. Finalmente ao fim de três anos eu encerrava definitivamente aquele capitulo e não chorava de saudade, nem tão pouco de tristeza, mas de alívio por ter terminado com aquele fardo que preenchia ainda um espaço tão grande no meu coração, deixando-o assim mais livre para amar David.
Ele afastou-se lentamente, fiquei-o a ver desaparecer por entre os carros do parque de estacionamento, minutos depois um carro abandonou o espaço a uma velocidade furiosa, era o dele e eu estremeci quando passou por mim. Mandei um soco no carro que estava atrás de mim e apoie-me nele chorando.
Porque é que tudo tinha de ser assim?

18 comentários:

paula. disse...

primeiro adorei aquela parte em especial aqui para a paula marie ahahha <3

em segundo, ai se eu não soubesse o que se vai passar, drica lipa ;s

em terceiro, já sabes como amo isto! <3<3

te amo también, besos <3

Elsa disse...

Minha linda, não entendo as tuas dúvidas, deste-me o capítulo a ler antes de o publicares, quando ia a meio fiz questão de reforçar o que falei mesmo antes de ter iniciado a leitura e agora que terminei, continuo a afirmar o mesmo.

Está fantástico, maravilhoso, tens um dom para a escrita, aproveita isso ao máximo!!

Linda sabes que estou aqui para o que precisares, abusa sempre que sentires necessidade, mas não deixes de escrever. Sabes que respeito qualquer que seja a tua decisão, mas caramba não me peças para concordar com ela, se decidires mesmo terminar com a FIC!!

Adriana, tu não vives sem a escrita, precisas dela como o ar que respiras, por isso deixa-te de ser teimosa e aceita o que nós leitoras dizemos!!!

Adoro-te minha linda, quero ver ainda muitos mais capítulos nesta FIC!

Tenho o privilégio de muitas vezes ler os capítulos mesmo antes de os postares ou de ler o que irá acontecer no futuro, por isso mesmo digo, não pares!

Ideias não te faltam, talento para a escrita tens para dar e vender, por isso qual a dúvida???

Não te quero ouvir dizer que não estás a gostar... não tens nenhuma razão para o afirmares, por isso CONTÍNUA...

E agora vou terminar por aqui, mas se insistires nesta ideia maluca, já sabes que vais ter-me a dar-te na cabeça

Beijocas

Adoro-te :D

entreamigas disse...

Simplesmente lindo! Adorei Dri, mesmo mesmo mesmo! Gostei da descrição dos sentimentos, toca nos mesmo. E olha, mesmo que não gostes do que escreves, lembra-te que há muita gente que gosta...

E agora, quero mais!

Beijinhos

Guigui

Matiee disse...

Tá lindo meu amô :)
Mas agora quero que o David vá ter com ela e que lhe espete um granda beijo, sfv! :P eheh

Amo-txi meu amô *

Ana Sousa disse...

Dri, já não comentava em alguns capitulos mas também não ia dizer nada do que já não disse. Apenas reforçar.

ESTÁ LINDO! MAGNIFICO! ESTRONDOSO!

Nunca vi ninguém escrever assim, a sério.
Não sabia que querias acabar com a fic, mas não o faças a sério. É das fics que eu não quero deixar de ler tão cedo.

Sempre amei esta fic :D

Beijinho, Ana Sousa»

ElsaNeves disse...

Dri:
tinhas mesmo de acabar agora???? E o David ainda estava lá???
Quero mais, e mais...
Escreves mesmo muito bem, é fantástico.
Estou mortinha pelo próximo.
Beijinhos

entreamigas disse...

E agora?? Tu achas bem terminares assim o cap?? Agora que vinha a parte melhor, da reconciliação é que tu terminas isto... Não acho bem d. adriana...

Ahhh, adorei aquela parte no balneario, não imaginas como eu me desmanchei a rir qd apareceu o mister... Amei...
Vê lá se deixas essas inseguranças, escreves lindamente e eu não sou a única a achar isso...

Bjs

Clara

Nii'i ♥ disse...

Quando acabares a fic acho que já falamos o suficiente sobre isso né doutora? :b

Sobre o capitulo, bem, estou chateada pq fiquei sem saber se o David vai ter com ela ou nao, fiquei sem saber do jantar...

Mas tirando isso está MAGNIFICO, como sempre aliás.

Tens um dom minha linda, nunca te esqueças :D

Beijinhos*

Adoro-te Pequenina (L)

Ana disse...

adorei, maravilhoso...

quero mais...

continua...

monik disse...

MARAVILHOSO!!!
AMEI!!!
QUERO MAIS!!!
RAPIDO, CONTINUA...
BJS
POSTA RAPIDO

Diana Ferreira disse...

como tenho vindo a dizer eu adoro a tua fic! nao me canso de repetir que estou viciada e como tens talento para a escrita! continua e nao desistas de escrever, o teu talento é enorme!!!

estou à espera do proximo!
beijinhos linda**

Anónimo disse...

Fantástico Adriana :D
Parabéns :D

Anónimo disse...

Esta é a melhor fic, é q sem dúvida alguma !
Força Adriana !

Rafaela disse...

Adorei Dri, cada vez melhor :D Continua !
Tens aqui o link da minha fic se quiseres ver: http://olhosdoamor.blogspot.com/
Beijinhos Rafaela*

Carolinaa disse...

Lindo , lindo , lindo :)

Continua a escrever assim e por favor , não acabes com esta história linda que me faz ter força para continuar e acreditar que é possivel

Joana #14 disse...

Adoro...
Continua, sim?

monik disse...

POSTA RAPIDO
QUERO MAIS
BJS

Anónimo disse...

Oh dri escreves tão mas tão bem! Está espectacular, lindo, maravilhoso alias como todos os capitulos que escreves!
Mas nao se acaba assim um capitulo!
Quero mais depressa :)
Beijinhos

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