domingo, 27 de fevereiro de 2011

Capítulo 104 – Não sei o que pensar (Parte II)

Depois do jantar sambei tanto quanto pude, soube-me bem, libertei tensões e aliviou a alma, mas David não tirou os olhos de mim um segundo. Queria ir para casa, estava cansada, tinha sido um dia longo e eu precisava de descansar.

- David, quero ir… - aproximei-me dele e sussurrei-lhe ao ouvido, só assim era possível ouvirmo-nos

- Já? – olhou para mim claramente desiludido

- Sim, estou cansada… Mas se quiseres fica, eu chamo um táxi e vou!

- Nada disso, eu prometi a você, eu vou cumprir! – e deu um pulo da cadeira, tão determinado quanto a sua palavra

- Não precisas…

- Eu quero! – olhou-me nos olhos e eu perdi todos e quaisquer argumentos

- Então vou só despedir-me do pessoal… - disse com um sorriso leve

- Tá bom, faz isso que eu vou fazer o mesmo! – sorriu-me e seguimos em direcções diferentes, eu despedi-me primeiro dos rapazes e depois das meninas, ele fez o reverso

***

- Está entregue! – diz ao mesmo tempo que estacionou o carro na frente do portão do meu condomínio

- Obrigada, pelo jantar… Pela boleia… Pela companhia! – sorri levemente

- Não agradeça aquilo que fiz do coração! – olhou-me nos olhos

- Boa noite, David… - agarrei o rosto dele, para não lhe dar hipótese de a virar e fazer-me beijá-lo nos lábios e dei-lhe um beijo na face direita

- Boa noite, Adriana… - sorriu-me desiludido

Tirei o cinto e abri a porta para sair do carro, mas o David esticou-se e fechou-a.

- Adriana… - a sua voz soou turbulenta, presa num mar de revolta e dúvidas

Olhei para ele, retomou o seu lugar no banco do condutor e colocou-se ligeiramente de lado.

- Quando é que a gente vai esquecer o que aconteceu e ficar bem? – ele foi directo ao assunto apesar da sua voz estar fraca

- David, a sério… É tarde, preciso dormir e tu devias fazer o mesmo!

- Adriana, não aguento ficar de mal com você, me mata! – ele olhou nos meus olhos e eu tive de desviar o olhar – Me olha nos olhos, pelo amor de Deus, e me responde!

- Queres que te diga o quê? – finalmente encarei-o e os seus olhos verdes estavam translúcidos e tive medo que derramassem novas lágrimas, mas esperava que desta vez ele fosse mais forte – Tu não confias em mim! Tu próprio o disseste!

- Falei sem pensar… Foi da boca p’ra fora!

- Mas foi dito e eu não esqueço… - relembrei

- Também não vou esquecer aquelas fotos, aquela revista…

- Óptimo! Então eu fico com as minhas memórias e tu com as tuas! – abri a porta do carro e saí sem o deixar dizer fosse o que fosse

- Adriana volta aqui! – ele saiu do carro e começou a andar atrás de mim até me agarrar pelo braço, antes de eu entrar pelo portão do condomínio

- Larga-me! – ordenei olhando-o

- Se eu largar, você vai fugir!

- Larga-me! Estou a mandar-te! – ordenei séria

- Só vou largar se você prometer que não vai fugir… - revirei os olhos e ele acabou por me soltar – Vamo, falar, por favor!

- Esquece, David! Não tenho mais nada a dizer-te! Sem confiança não há amor, a relação não existe!

- Não questiona o que eu sinto por você! – a voz dele tremeu e eu tremi também

- Não preciso, tu próprio esclareceste… “… fica impossível confiar em você!” – citei as palavras que tinha usado na nossa discussão

- Já falei que foi da boca fora, caraca! Você nem me deixou falar mais nada, arrumou suas coisas e foi embora!

- Ia ficar lá a fazer o quê? A humilhar-me?!

- Se humilhar? Cê acha que se humilha comigo? A gente ia conversar, ia tentar entender o que aconteceu, que fotos eram aquela que bateram de você com ele naquela maldita festa…

- Não adiantava, tu não ias ouvir nada do que eu ia dizer, porque simplesmente não confias! Não confias, são palavras tuas que resumem facilmente o porquê de estarmos assim…

- Se você me deixar explicar… Eu tava furioso com aquelas fotografias, na hora nem pensei!

- Olha fica aí a tua lição, para a próxima pensa antes de falares… - virei-lhe costas e abri o portão marcando o código de segurança, parei e olhei para trás – Boa noite, David! – fechei o portão, para não dar asno a mais nenhuma discussão




***


Eram duas e tal da manhã quando ouvi Bianca entrar em casa, pousou as chaves no móvel e espreitou p’ra dentro do meu quarto, julgando-me a dormir.

- Entra, princesa! – ergui a cabeça da cama e acendi o candeeiro de mesa

- Ainda estás acordada…- entrou no quarto

- Sim, não consigo dormir…

- Insónias? – perguntou aproximando-se da cama

- David! – sintetizei tudo numa só palavra

- Posso? – pediu-me permissão para se deitar do meu lado

- Claro! – sorri-lhe e ela deitou-se do meu lado debaixo dos lençóis

- O que é que aconteceu?

- Oh não viste? Aquele maldito golo no estádio… Mexeu comigo de uma maneira, que depois nos balneários não lhe pude, nem lhe quis resistir…

- Oh princesa, tu ama-lo!

- Sim, mas amar não chega! É preciso confiança e isso ele não tem em mim, ele próprio o admitiu!

- As pessoas dizem coisas da boca fora e a confiança numa relação deve ser trabalhada passo a passo, devagar, até atingir a solidez do sentimento - aconcelhou-me

- Mas nós sempre confiámos um num outro, nunca houve a coisa dos ciúmes! Não desta maneira…

- Alguma vez havia de ser a primeira… Mas a falar é que as pessoas se resolvem, não a discutir!

- E nós falámos! Quando ele me veio trazer falámos, mas depressa as palavras se tornaram acesas, as acusações afiadas e eu entrei p’ra casa antes que me arrepende-se…

- Teimosos! Dois casmurros, é o que é! – ela aconchegou-se

- Talvez seja por isso que não resultamos…

- O vosso problema é que não sabem dialogar, passa logo à discussão!

- Mas esse problema acabou, não existe porque já nem relação há!

- A ver vamos… - ela levantou-se e assomou à porta do quarto – Boa noite, princesa!

- Boa noite! Dorme bem! – sorri-lhe e ela saiu na direcção do seu quarto

A noite seguiu-se e foi passada em branco, por entre páginas vazias e simples, onde David era, e só ele poderia ser, o único protagonista da história.



***

Quando acordei ainda era de madrugada e apesar das curtas horas que tinha conseguido dormir, já não tinha sono. O relógio marcava as 6.30h da manhã e eu não sabia o que fazer. Mas a enorme tensão que estava acumulada no meu corpo precisava de sair, decidi que ia correr.



Escrevi um bilhete a Bianca e deixei-o sob a mesinha de cabeceira desta.

“Bom dia, Bianca
Quando vires isto já saí de casa e não devo ter voltado. Fui correr por aí a ver se alivio a cabeça e espaireço as ideias. Não esperes por mim para o pequeno-almoço.
Beijinhos
Adriana”

Não sei durante quantos horas corri, mas era só eu e aquele asfalto escaldante que me incendiava a pele, num trilho sem fim, num caminho que me levava a lado nenhum…

***



Bianca

Acordei às 10h28 e deparei-me com um pequeno bilhete de Adriana sob a mesinha de cabeceira. Aquela miúda era louca, ir correr para a rua com o calor que estava e tão cedo.
Levantei-me e tomei um banho, mas primeiro recebi uma SMS de Salvio que me perguntava se podíamos tomar o pequeno-almoço juntos. Óbvio que fiquei logo louca de felicidade e apressei-me a vestir. A campainha tocou e eu corri p’ra abri-la.

- Bom dia, amor! – dei-lhe um beijo longo nos lábios

- Hola, cariño! – fez um sorriso encantador e foi aí que vi quem vinha atrás de si e aguardava ainda do lado de fora

- David?! – até julguei estar a ver mal

- Oi, Bianca… O Salvio me convidou, espero que não tenha problema! – fez um sorriso nervoso, eu sabia bem porque é que ele estava ali

- Não tem problema nenhum, entra… - dei-lhe dois beijos no rosto e fechei a porta de casa – O pequeno-almoço já está pronto! – apontei para a mesa que eu tinha posto com tudo o que os pudesse satisfazer

- Suena como una fiesta! – os olhos de Salvio brilharam ao ver o que eu tinha preparado para ele

- Nossa, mas é só p’ra quatro pessoas ou vem aí um batalhão e ninguém avisou de nada? – o David estava também surpreendido com a quantidade de comida que eu tinha preparado

- Não, somos mesmo só nós os três… - e acabei por corrigi-lo

- Três? – ele olhou p’ra mim aguardando uma resposta

- Y Adriana, mi amor? – Salvio também me olhou de forma estranha

- Ela saiu bem cedo p’ra ir correr, mas ainda não voltou… - o meu coração ficou apertado de preocupação, eu sabia que ela não estava bem

- Saiu? P’ra correr? – o David deve ter achado que lhe estava a mentir, mas aquela era a verdade e percebi que também ele ficou inevitavelmente preocupado

- Sim, saiu p’ra correr, deixou-me um bilhetinho e foi, mas ainda não voltou… - informei ao mesmo tempo que nos sentávamos todos para tomar o pequeno-almoço

- Y he tratado de llamar? – olhei imediatamente para a mesinha onde ela deixava sempre o telemóvel e constatei que ela não o tinha levado consigo

- Boa, deixou-o em casa! – nesse exacto momento o telemóvel começou a tocar, aproximei-me e vi que era Diogo que lhe telefonava

Aquele rapaz já lhe estava a trazer demasiados problemas, mais do que eu queria que ela tivesse. Ela já me tinha contado tudo sobre o passado deles e sempre que ele surgia novamente na sua vida era para trazer um sofrimento igual, ou ainda maior, ao já vivido. Desliguei a chamada e disfarcei uma vez que David estava naquela sala e eu não lhe queria trazer mais problemas com ele.

- Quién es, cariño? – o Salvio deu um gole de sumo e olhou p’ra mim aguardando uma resposta

- Ah… - não pude evitar gaguejar, era péssima a mentir e também o David me olhava fixamente esperando uma resposta – Ah… Era a mãe dela!

- Porque não atendeu, então? – pela pergunta de David percebi logo que não estava a ser convincente

- Porque não… O telemóvel é dela e quando ela chegar logo liga à mãe! – sentei-me na mesa e comecei a comer, na esperança de que não me fizessem mais perguntas e graças a Deus não as fizeram

***



Adriana

Não sei precisar durante quantas horas corri em torno do quarteirão da minha casa.
Eu não fazia a mínima ideia para onde ia, na verdade tão pouco sabia o que fazia e porque o fazia. Apenas seguia em frente destinada a procurar algo que me pertencia. Não sabia como, quando ou por que, tal coisa havia desaparecido, mas seguia inteiramente consciente de que uma parte importantíssima dentro de mim, tinha de ser recuperada.
Num dos percursos em torno do quarteirão fiz um desvio pelo parque, onde crianças brincavam com os seus pais ou avós, onde famílias tomavam o pequeno-almoço na esplanada e onde casais enamorados caminhavam lado a lado, fazendo juras silenciosas de amor. Senti uma revolta enorme de não ter o que eles tinham: amor. Esse sentimento inundou o meu coração, e drenado pelas minhas veias atingiu os extremos do meu corpo fazendo-me correr mais e mais, e cada vez mais velozmente. O meu corpo reclamava a condição a que o estava a impor, e eu sentia-me a passar limites, a quebrar barreiras e o meu corpo cedia, mas a razão impulsionava-me a correr mais e mais. Apesar de não saber quantas horas corri, sei dizer que o meu Ipod teve tempo de passar mais de 12 pastas de músicas, o que me levou a crer que estava naquilo há um bom par de horas. Quando alcancei novamente o quarteirão da minha casa, senti o meu coração num ritmo alucinante, batia acelerado e incessante, mas parava durante um segundo, para logo de seguida imitir novamente uma carga explosiva de batimentos. Eu transpirava e o cansaço era palavra de ordem, mas nem isso me fez abrandar o ritmo alucinante que tomara desde o parque. O meu corpo cedia, as minhas pernas já não tinham tanta força, a minha respiração já estava completamente descontrolada e pedia-me que parasse, mas eu não tinha qualquer intenção de o fazer.
Alcancei o portão do condomínio, um carro ia a sair e eu aproveitei, e ainda em passo de corrida, entrei. Abri a porta do prédio e no momento de escolher entre as escadas ou o elevador não hesitei. Seria a minha última descarga de energia, a pouca que já sobrava no meu corpo. Subi os onze lances de escadas numa correria doida, o meu coração bombeava o meu sangue a um ritmo alucinante e a minha respiração estava tão descontrolada que chegava a falhar. Finalmente atingi o meu andar, tirei as chaves do bolso e entrei. Deixei-me escorregar pela porta abaixo de olhos cerrados, até o meu corpo atingir o chão e eu ficar sentada. Tentei acalmar a minha respiração, abri os olhos e vi na minha frente tudo aquilo que eu não queria ver naquele momento.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Capítulo 104 – Não sei o que pensar! (Parte I)

O meu corpo estava sem forças, sentia-me destroçada. Eu já não amava Diogo, mas amei durante três anos e o primeiro amor, sim era isso que ele tinha sido na minha vida, ocuparia sempre um lugar especial. Soqueei levemente o capô do carro e encostei a minha testa ao tejadilho, até sentir uns braços quentes envolverem-me.

- Tem calma, tem calma! – reconheci-lhe imediatamente a voz, era Catarina

Não quis nem consegui dizer mais nada, deixei que ela me abraçasse e apertei-a procurando conforto. O meu choro não cessou, ela já não sabia o que me fazer, mas pouco a pouco, o meu peito serenou, as lágrimas pararam e o soluçar desapareceu.

- Mais calma? – enxugou-me as lágrimas que ainda me humedeciam o rosto

- Sim… - sorri-lhe levemente – Obrigada!

- Não me agradeças, estás bem?

- Sim… - hesitei, ainda me faltava uma coisa para ficar bem

- Precisas de alguma coisa?

- Não, preciso apenas de ir para casa e ter uma noite de paz… - suspirei

Catarina sorriu-me, desviei o meu olhar para o outro extremo do parque de estacionamento e vi o grupinho de sempre todo reunido, entre eles estava David e nesse momento não pude evitar que o meu sangue congelasse, olhei para Catarina procurando uma resposta.

- Sim, ele viu… - não precisei sequer de perguntar para obter uma resposta dela

- Bolas!

- Vimos todos… Veio tudo atrás dele para ver o que se estava a passar com vocês e quando chegámos aqui… Quando chegámos aqui…

- Viram-me a ter aquela conversa com o Diogo! Nem quero imaginar o que o David não deve estar a pensar… Os dois a chorar daquela maneira ainda vai achar que sinto coisas pelo Diogo, quando na verdade não sinto!

- Então senão sentes, se estás de consciência tranquila, não te preocupes… - ela sorriu e colocou-me um caracol desobediente atrás da orelha

- Obrigada -sorri-lhe – Acho que vou indo…

- Não, fica! Temos o jantar deles, fica, por favor…

- Não posso… A sério que não! – dei-lhe um beijo no rosto, acenei aos outros no fundo do parque de estacionamento, todos acenaram para se despedir e eu segui caminho rumo à paragem de autocarro mais próxima


***

David

A Catarina se aproximou dela que tava chorando de forma descontrolada, a acalmou e quando dei por isso ela tava acenando a todo o mundo e foi embora.
Quis correr atrás dela, perguntar porque tava daquele jeito se finalmente Diogo tinha saído da sua vida, quis poder abraçá-la, lhe dar um beijo, mas meus pés não conseguiram desgrudar do chão.

-David, vamos então?! – a voz de Ruben me despertou – Tá tudo com fome…

- Sim, vamo… A gente se encontra no restaurante! – todo o mundo entrou nos seus carros com as respectivas namoradas e só eu tava sozinho, bateu uma saudade danada da minha muleca

Conduzi na direcção do restaurante, íamos no restaurante de sempre onde já tava tudo nos esperando e preparado para mais uma das nossas comemorações.
Minha vontade não era muita, bem, na verdade nenhuma! Ia estar todo o mundo com as suas mulheres, filhos e namoradas, e eu ali sozinho, sem a minha menina. Parei num semáforo, no próximo cruzamento eu podia virar para casa dela, instintivamente minhas mãos tomaram posição no volante com intenção de o fazer metros mais à frente.
O semáforo se coloriu de verde e eu acelerei, mas quando ia virar para a direita na direcção do seu apartamento, vi ela bem no passeio do meu lado direito. Caminhava sozinha e estava escuro, me contorci de preocupação. Fui abrandado o carro e abri o vidro para a puder ver.

- Adriana… - minha voz saiu suave, mas ainda assim ela deu um pulo, me olhou, mas continua a andar me obrigando a deixar o carro em andamento leve para acompanhar as suas passadas - Não sai por aí sozinha, entra no carro que eu te deixo em casa!

Ela me ignorou, não me respondeu e acelerou o passo. Entendi que ia ter de recorrer a uma abordagem mais bruta, acelerei o carro, p’ra ganhar avanço dela e estacionei na beira do passeio. Saí correndo atrás dela e ainda a apanhei.

***

Adriana

Ao vê-lo acelerar percebi imediatamente que a sua intenção era ganhar avanço e interceptar-me o caminho. Tentei andar mais depressa, mas o meu coração arrefeceu-me os músculos e não me permitiu fazê-lo.

- Pelo amor de Deus, espera! – ele puxou-me pelo braço direito e quando dei por mim estava de frente para ele, e com aqueles dois grandes olhos esverdeados cravados em mim

- O que é que queres? – fi-lo soltar o meu braço e afastei-me, aquela proximidade era maior do que aquela que eu podia suportar

- Quero levar você em casa, é de noite, tá escuro, não vai ficar andando sozinha por aí…

- Eu já estou habituada a andar sozinha…

- Mas eu não tou habituado a ver você sozinha por aí, por isso me deixa levar você! – ele implorava, podia lê-la na sua voz

- Tu tens o jantar, deve estar tudo à tua espera… - tentei dar uma desculpa plausível, mas infelizmente David tem sempre resposta para tudo

- Eles esperam, ou então você vem comigo… - um leve sorriso surgiu na sua boca

- Não, isso não! – respondi pronta e calmamente

- Então eu vou levar você, não tem discussão! – li-lhe a determinação na voz e em todos os gestos do seu corpo, perfeitamente delineado e esculpido pela sua profissão

- David, deixa-me ir sozinha! Já não estou tão longe como isso e ninguém me vai fazer mal!

- Esquece, eu vou mesmo levar você! Entra no carro! – tirou as chaves do bolso, mas eu nem me movi – Adriana, falei p’ra você entrar no carro!

- Não vou deixar que chegues atrasado ao jantar para me ires levar, lamento, mas não! – rematei certa daquilo que dizia

- Então vem comigo no jantar e depois eu te deixo em casa! – as palavras dele começaram a persuadir-me, a dar-me vontade de aceitar aquela proposta – Além disso todo mundo lá é seu amigo, faz parte da família e as meninas vão lá estar… - ele sabia bem como me convencer e atacou todos os meus pontos fracos

- Não quero ir… É tarde, estou cansada! – ainda assim tentei convencer-me a mim mesma a não aceitar

- É só um jantar, vem cedo e eu te deixo em casa, juro! – vi que estava a ser sincero e iria honrar a promessa se assim fosse minha vontade

- Tudo bem, eu vou… - afirmei sem qualquer sorriso, mas com um brilho nos olhos que me foi difícil de esconder

Já ele não se coibiu de fazer um sorriso lindo e que eu tão bem caracterizava de seu.

- Entra no carro, vai… - a sua voz tornou-se ainda mais meiga e eu fiz o que ele me mandou, não tinha eu senão outro remédio

***

Quando saímos do carro, David tomou lugar do meu lado e quase à porta do restaurante uniu a sua mão à minha com intenção de caminharmos lado a lado.

- David… - olhei para as nossas mãos unidas e ele repetiu-me o gesto – Não… - separei-as tão rapidamente como ele as uniu

- Não posso mais pegar sua mão? – vi que a minha atitude o tinha entristecido

- Não, não podes…- não o consegui olhar nos olhos e continuei o caminho recto até ao restaurante

- Porquê? – ele acompanhava a minha caminhada, mas ainda assim não desistia de obter as respostas que queria

- Porque não! – na verdade não tinha nenhuma razão especifica

- Porque não, não é resposta! – ele fez uma expressão chateada

- Olha, porque eu decidi assim… - mantive a calma, apesar da situação me incomodar

- Você decidiu assim, porquê? – finalmente alcançámos a porta do restaurante – Não me ama mais?

Estanquei com aquela pergunta, naquele momento não devia haver pergunta mais parva e sem nexo do que aquela. A minha vida podia estar virada do avesso, ser um mar de incertezas, mas uma certeza permanecia tão certa como o ar que respiro, eu amava-o e muito! Não precisei de responder, olhei-o nos olhos e entrei no restaurante.

- Adriana! – Bianca correu imediatamente para me abraçar e quase me derrubou

- Hey, calma que ainda me mandas ó chão! – não contive o riso e separámos o abraço

- O que é que estás aqui a fazer? – perguntou com um sorriso

- Vim ao jantar, o David não me deixou opção! – barafustei, mas na verdade estava feliz por ali estar

- Hum, gosto mesmo do David! – riu-se e eu ri-me com ela

- Se a situação fosse outra, dizia-te para teres calminha que o homem é meu!

- A situação só não é outra porque tu não queres! – pela minha expressão ela compreendeu que não queria mais falar – E então onde é que está esse belo rapaz que te convenceu a vir?

- Vinha mesmo atrás de mim… - olhei para a porta, mas não o vi, achei estranho pois já tinha dado mais do que tempo de entrar no restaurante

- Eu não vejo nada! – uma linha formou-se na sua testa

- Eu vou ver dele… Se calhar foi ao carro buscar alguma coisa, dois minutos! – pedi e saí do restaurante

Infelizmente a cena que encontrei foi tudo menos a que eu esperava.
Um aperto formou-se no meu peito ao ver David ali, sentando num banco, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça entre as mãos. Vi uma gota de água cair no chão e apesar de não lhe conseguir ver o rosto deduzi imediatamente que tivesse a chorar. Tive remorsos, mas por outro lado fiquei confusa imaginando mil e um motivos para aquele choro e no mais íntimo de mim, rezei para que não fosse eu.

- David… - aproximei-me levemente dele e ele apressou-se a limpar as lágrimas que ainda humedeciam o seu rosto

- Fala, precisa de alguma coisa? – a sua voz conotou-se de uma frieza que me magoou profundamente

- Nunca mais entravas, vim ver de ti… - sentei-me no banco do lado dele, mas ele afastou-se – Já não me posso sentar perto de ti?

- Não! – foi seco e incapaz de me olhar nos olhos

- Porquê? – perguntei imediatamente

- Porque eu decidi assim! – usou as minhas próprias palavras para me atacar

- David, não hajas assim comigo, por favor… - pedi com as lágrimas a travarem-me a voz, mas totalmente determinada a não deixá-las cair

- Quer que haja como? Que te encha de mimo quando você me trata desse jeito?

- De que jeito? De que jeito é que te tratei? – apesar de as lágrimas teimarem em inundar os meus olhos eu não temi encará-lo

- Desse jeito, essa frieza… Nem me olha mais com carinho, nem me toca mais com aquele seu jeitinho… - hesitou e finalmente encarou-me - … não me diz mais que me ama…
- Tu sabes que eu t… - interrompeu-me

- Eu sei, eu sei… Mas queria ouvir da sua boca e você não me respondeu! – agitou a cabeça em jeito de desilusão

- Para quê tentar expressar por palavras coisas sobre as quais, só o coração se pode pronunciar? – um espasmo percorreu o meu corpo e arrepiei-me ao aperceber-me da profundidade das minhas palavras

Ele ficou emocionado com o que eu disse, fitou-me durante um período de tempo e eu não lhe neguei isso. Cada traço seu, podia até nem ser perfeito, mas aos meus olhos era muito mais do que isso, tive vontade de sorrir, mas a sua falta de reacção deixou-me assustada.

- Me beija… - sussurrou-me aquele pedido

- David…

- Por favor, me beija… É a única coisa que te peço! – olhei para o seu rosto ainda húmido do seu choro

Aproximei-me dele levemente, as minhas mãos agarraram o seu rosto e os meus lábios secaram a humidade que ainda permanecia nas suas bochechas. Ao primeiro toque dos meus lábios no seu rosto ele fechou os olhos e eu sorri ao ver aquele homem com jeito de menino pequeno bem na minha frente, tive uma vontade louca de o agarrar e nunca mais o largar.

- Me beija…. – voltou a pedir num sussurro e ainda de olhos fechados – Por favor…

Aproximei a minha boca da dele e ele abriu os olhos quando sentiu a minha respiração acelerada ir de encontro aos seus lábios.
As minhas mãos deslizaram das suas faces, agora secas, para a sua nuca, toquei levemente com a ponta do meu nariz na sua bochecha e senti-o sorrir ainda que de olhos fechados novamente.
Lentamente fui traçando um leve caminho desde a sua bochecha até à sua boca com leves beijos. Quando a minha boca encontrou a dele, rapidamente o seu doce sabor inundou a minha boca, assim como a sua língua que levemente envolveu a minha num bailado calmo. Não havia qualquer pressa naquele beijo. A mão direita dele ocorreu à minha nuca, arrepanhando-me alguns cabelos de forma embrenhada e a outra pousou na minha cintura e puxou-me fortemente para si. Terminámos o beijo com uns quantos toques de lábios leves.

- Te amo… - sussurrou ainda com os seus lábios juntos aos meus

- Eu também… - sorri-lhe e afastei-me

- Meninos, vamos jant… - o Ruben calou-se assim que percebeu que nos tinha interrompido – Desculpem, mas é que o pessoal quer todo jantar!

- Sim, nós vamos já! – respondeu David com um sorriso leve no rosto

Ergui-me do banco, ele percebeu que era minha intenção entrar, tentou dar-me a mão novamente, mas ao aproximarmo-nos dos nossos amigos soltei-lha. A minha cabeça estava num tormento, o meu estômago de pernas para o ar com aquele beijo, mas o meu coração batia lento e compassado no lado esquerdo do meu peito, governado pela única certeza que tinha, a de amar aquele homem acima de tudo e de todos, mais do que eu própria julgava possível.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Capítulo 103 – Que saudade… (Parte III)

O meu coração amoleceu, agarrei no meu telemóvel e liguei-lhe, mas estava desligado. Eu tinha de lhe desejar “Boa sorte” desse por onde desse, nem que fosse ao longe, de fugida.
Agarrei nas minhas coisas e como já conhecia os cantos à casa e as pessoas, não me foi difícil chegar até junto dos balneários. Vi-os sair e os olhos de David arregalaram-se ao ver-me.

- É para lutar, rapazes! – a voz do mister que já ia a mascar a sua chiclete comandou o plutão

Não precisei de fazer qualquer sinal a David para ele se aproximar, eu estava ali e só podia ser para ele.
Aproximou-se e os colegas seguiram atrás do mister.

- Tá fazendo o quê aqui? – perguntou já próximo de mim

- Boa sorte! – desejei num suspiro seguido de um sorriso genuíno

Ficámos em silêncio, por vezes as palavras estragam momentos e nós preferimos assim, permanecermos calados absorvendo tudo aquilo que o outro dizia… em silêncio.

- Obrigada, tava precisando muito de ouvir isso! – vi pela sua expressão que estava mais relaxado, tanto que até soltou um breve sorriso ao mesmo tempo que me olhava nos olhos

- Eu percebi… Vê se te concentras, quero-te inteiro no fim deste jogo! – uma confissão da alma saiu-me pelos lábios antes que eu pudesse sequer pensar em controlá-la, ele sorriu de satisfação

- Vou sair, não se preocupa! – o seu sorriso carregado de carinho fez o meu coração derreter imediatamente

- Então, Boa sorte! – afirmei novamente com as pernas bambas de o ter tão perto e virei costas, mas a mão dele puxou-me pelo braço interceptando o meu movimento

- Se cuida! – percebi que ele se referia ao facto de ir ver o jogo nas bancadas junto dos NN

- Não te preocupes comigo… - instintivamente roubei-lhe um beijo rápido apenas nos lábios – Arrasa com eles! – saí dali o mais depressa que pude deixando-o para trás sem ver qual a sua reacção ao beijo

***
Quando regressei às bancadas, junto dos NN, Paula ocupava o lugar ao lado do meu.

- O que é que estás aqui a fazer? – sentei-me do lado dela

- Não te ia deixar sozinha, não é? E além disso daqui vejo melhor o meu espanhol! – riu-se

- Oh, obrigada, meu anjo! – dei-lhe um beijo no rosto e ela deu-me a mão quando David entrou em campo, mas os nossos olhares não se desviaram do relvado onde eles tomavam posições

- Paulinha… - queria que ela olhasse para mim e ela assim o fez – Fui desejar-lhe boa sorte… - acabei por desabafar

- Fizeste bem, amor… Ele não ia conseguir jogar sem isso! – sorriu-me calmamente e o nervosismo dentro de mim acalmou

Eu ainda estava indecisa se o facto de ter ido lá desejar-lhe boa sorte e ter-lhe dado um beijo era a decisão certa a tomar.

- Beijei-o… - acrescentei meio a medo

- Isso é bom! Vocês vão superar isto, senão seria estar a fazer a vontade ao Diogo…

- Mas ele disse que não confiava em mim, Paula. Como é que uma relação aguenta sem confiança?

- Com toda a certeza que o disse boca fora! Ele ama-te… - ela foi convicta naquilo que disse

- Já tive mais certezas disso… - murmurei por entre dentes

- Hã? – ela não percebeu o que eu disse

- O jogo vai começar! – alterei o que havia dito e ela nem deu pela diferença

Apesar de não ser um jogo oficial, mas apenas um amigável era importante obterem um resultado positivo e mostrarem o novo Benfica, o qual todos ansiavam ver campeão nesta época. O jogo começou bem para o Benfica e ao intervalo estavam empatados 1-1 no marcador, todos os jogadores estavam a fazer uma óptima prestação inclusive David.

- Epá eles têm de virar o jogo, marcar mais um! – disse-me Paula assim que o arbitro apitou para o intervalo e os jogadores saíram de campo

- Tem calma, Paula! Ainda estamos a meio do jogo… - tentei acalmá-la, mas também eu estava nervosa e para tentar relaxar juntei-me aos cantos dos NN

Mal comecei a cantar a Paula desmanchou-se a rir, mas tão rapidamente como o fez juntou-se a mim. A segunda parte começou e eu e ela voltámos a sentar-nos.
O Benfica entrou mais forte, mas o marcador continuava igual e todo o estádio estava perante uma ovação assustadoramente bela.

- Bolas, precisamos tanto de mais um golo! – refilava Paula

- Calma, mi amor… Algum deles há-de marcar um golo, vamos esperar, ainda faltam dez minutos! – eu ainda acreditava na vitória, e como já era hábito meu, até ao último minuto

Foi ao minuto 86’ que em consequência de um canto batido por Aimar, David saltou, os seus caracóis agitaram-se no ar e a bola foi empurrada para o fundo das redes adversárias.
O estádio foi ao rubro, milhares de adeptos gritavam e batiam palmas. Alguns choravam, outros abraçavam-se sem se conhecerem, era toda uma nação benfiquista, uma família, a comemorar a vitória ansiada.
Ruben correu imediatamente para David para o abraçar, mas este fugiu-lhe e correu na direcção da zona ocupada pelos NN no estádio, eu sabia que ele estava à minha procura.
Ele olhou a multidão, não foi difícil encontrar-me. Sorriu, bateu no peito e beijou a mão e apontou na minha direcção. Um arrepio percorreu o meu corpo de um extremo ao outro. A Paula do meu lado, estava maravilhada e eu fiquei inerte no meu lugar, não consegui esboçar qualquer reacção. Os colegas acabaram por o alcançar e numa amálgama de corpos abraçaram-se, jogaram-se uns sobre os outros num monte confuso e comemoraram aquele jogo. O David ainda olhou para mim antes de retomar a sua posição no campo, mas eu fui incapaz de reagir, não esperava que ele me dedicasse um golo depois do que se tinha passado.
Ele seguiu e o meu corpo caiu sobre a cadeira, Paula não me disse nada pois percebeu que eu não estava com vontade de ter nenhuma conversa. Os cinco minutos de jogo que se seguiram foram os mais longos da minha vida e o David não tirava os olhos da bancada onde eu me encontrava. Mal o árbitro apitou para o final da partida eu saí disparada entrando num dos corredores de acesso privados.

- Adriana! Dri! – a Paula corria atrás de mim tentando apanhar-me – Espera aí! – finalmente apanhou-me, mas nem assim parei de andar

- Que foi?

- Vais onde? – ela fazia um esforço para manter o meu ritmo de andamento

- Para casa!

- Mas a Bianca é que te vai levar…

- Vou de metro!

- Deixa de ser assim… Fica, vem comigo até à sala dos jogadores, quem sabe vens connosco ao jantar da equipa agora à noite!

- Onde? Tu não podes estar boa da cabeça… Achas mesmo?!

- Claro, anda lá! Vão lá estar as meninas todas…- ela aliciou-me - por nós! – rematou

Ela era muito convincente quando queria e eu acabei por ceder e acompanhei-a até à sala dos jogadores.

***
- Bolas, são piores que as gajas! C’um caraças! – a Catarina estava em brasa e mesmo assim o Aimar era sempre dos primeiros a sair

- Tem calma, até parece que não os conheces… - acalmei-a

- Ah lá isso tu conheces bem, o teu é sempre o último a sair! – ela disse aquilo sem qualquer intenção de me magoar, mas na verdade eu já não podia chamar o David de meu, e nem queria. A minha cara fez uma expressão de dor que eu disfarcei o melhor que pude – Desculpa, não era isto que queria dizer, Dri…

- Não faz mal, eu percebi bem o que querias dizer!

- Ó Adriana, desc… - eu interrompia

- Esquece, que eu já esqueci! – não queria falar mais sobre o assunto

- Estavas na bancada dos NN? – percebi logo onde Bianca queria chegar

- Sim, estava… Com a Paula! – fiz uma pausa e todas as meninas me olharam – E sim, o golo foi para mim! – esclareci-as e um sorriso iluminou-lhes os rostos

- Fogo, estou cheio de fome! – a voz de Ruben inundou o espaço assim como as gargalhadas daqueles que o acompanhavam

- Nem me diga nada, acho que morro de fome! – aquele sotaque brasileiro eu distingui mesmo sem olhar e não era o de David, era o Luisão

- Pronto, lá vêm eles já a reclamarem que têm fome! – Catarina tomou lugar do lado de Aimar e beijou-o de uma forma apaixonada, de facto eles faziam um casal lindo e entendiam-se muito bem, acho que nunca lhes tinha conhecido uma discussão séria

- Ainda aqui? – a voz de Ruben surgiu por detrás do meu ouvido

- Sim, fui arrastada… - olhei para Paula que me sorriu levemente

- Bem arrastada, portanto! Queremos-te no jantar, ó… - o Ruben queria sempre ter-me por perto, como tinha sido sempre desde que éramos crianças

- Não, eu vim mesmo só aqui e porque, porque…A Paula sabe bem porquê!

- E queres que diga o motivo verdadeiro ou o que eu inventei para puderes vir sem dizer o verdadeiro? – ela estava claramente a provocar-me e eu dei-lhe um ligeiro toque com o cotovelo

- Não digas disparates, Paula Marie! – ordenei

- Eu não, Drica Lipa! Nunca! – era a alcunha que ela me dava e eu até achava graça porque era nome de chupa chupa ou outro doce qualquer

- Bem, sendo assim vou indo para casa… Primeiro tenho é de ir à casa de banho!

- Já sabes o caminho, certo? – perguntou Ruben

- Claro, que sim! – não me relembrava muito bem, mas havia de dar pelo caminho

Entrei pela porta por onde Ruben saíra e acabei por me confundir entre tanta porta. Entrei devagarinho e quando dei por mim estava no balneário do Benfica. Tentei voltar atrás, mas ouvi vozes no corredor e como estava realmente aflita entrei numa das divisórias, até porque não havia ninguém no balneário. Quando saí fiz um caminho recto e directo aos lavabos ladeados de vários espelhos. Os meus olhos fixaram-se na água que corria em rojo e me lavava as mãos, coloquei sabão e enxaguei. Quando ergui a cabeça para procurar papel para secar as mãos vi pelo espelho, um vulto encostado numa das portas das divisórias atrás de mim.
Assustei-me, dei um leve pulo e virei-me de frente para a pessoa, o meu coração a mil serenou assim que viu que era David, mas quando me apercebi que era David, que era mesmo David, o sangue voltou a bombeá-lo violentamente e as minhas pernas enfraqueceram.

- Tá fazendo o quê aqui? – tive de encará-lo

- Vim à casa de banho, mas acho que me enganei na porta… - estava sem jeito com aquela situação – Mas vou já embora! – coloquei o papel do lixo e agarrei a minha mala em cima da bancada determinada a sair dali

- Espere! – a voz dele travou-me, assim como a pressão da sua mão no meu braço

Numa fracção de segundos estava completamente colada a David, tanto que sentia a respiração profunda dele nos meus lábios e quase de certeza que ele sentia a minha nos seus.
A mala caiu-me das mãos e ele aproveitou para me segurar pela cintura contra si, nesse exacto momento as minhas pernas perderam a força.
Porque é que ele estava a fazer aquilo? Se estava assim tão magoado e eu assim tão errada, porque é que ele não me deixava ir embora? Subi o olhar e vi aqueles dois olhos verdes cravados em mim. Li-lhe a alma com um simples olhar e observei cada traço seu durante largos segundos. Acho que nunca me tinha apercebido da perfeição de cada defeito seu e nem nunca o tinha achado tão belo como naquele momento. O seu olhar estava inundado de um brilho profundo e arrepiante e nos seus lábios entreabertos eu podia ler uma vontade nítida de sorrir. O sangue começou a fervilhar nas minhas veias, os palpites do meu coração descompassaram-se e toda eu tremi nos braços dele. A distância entre nós foi anulada por David e os lábios dele foram de encontro aos meus. Não pediram sequer licença e beijaram-me de uma forma que eu não lhes conhecia. David procurou os meus lábios com uma avidez encantadora. Lentamente a sua língua invadiu a minha boca e eu senti-me como se de o nosso primeiro beijo se tratasse, um misto de sentimentos confundiu-me. Quando as nossas línguas se tocaram um arrepio emergiu desde o topo da minha espinha, percorreu as minhas costas e dissipou-se nos limites do meu corpo.
As mãos dele ocorreram ao colete que tinha vestido, empurrou-o levemente e este acabou por cair ao chão. As minhas mãos foram imediatamente de encontro à sua camisola, despi-lha e por momentos as nossas bocas separaram-se. Vim um sorriso delinear-lhe levemente a boca, mas beijei-o antes que se rasgasse numa demonstração de felicidade maior.
As mãos dele arrepanhavam a pele do fundo das minhas costas ao mesmo tempo que os seus lábios abarcavam os meus incessantemente. Arrastou-me consigo e só parámos quando ele embateu com as costas na parede posterior. Parámos de nos beijar devido à força do embate, eu estava completamente descontrolada e de respiração ofegante.
E ele não estava muito diferente porque pela mão que tinha pousada sobre o lado esquerdo do seu peito pude sentir o batimento indomável do coração de David, a sua caixa torácica encher e esvaziar incessantemente de forma acelerada e o calor que me transmitia e que irradiava desde as cinco pontas dos meus dedos, em contacto com o seu peito despido, e que eriçava todos os pêlos dos meus braços. A cabeça dele enterrou-se no meu pescoço e começou uma nova troca de carícias com os seus lábios contra minha pele.

- Eu te amo… - um sussurro vagabundo, vindo directo da sua alma, abandonou os seus lábios

As mãos dele pousaram nos meus omoplatas procurando o fecho para desapertar o top que ainda tinha vestido. Não lho permiti e acabei por o fazer sentar-se num dos bancos do balneário, mesmo em frente à divisória que lhe correspondia e adornada com o número 23. Sentei-me no seu colo, com as pernas abertas e de frente para ele. Não hesitei em beijá-lo e ele puxou-me mais para si, com toda a força que lhe conhecia. As minhas mãos cruzaram-se na sua nuca e os meus lábios beijavam os dele com um novo fulgor. O momento estava a aquecer e o desejo estava no auge, queria-o, desejava-o de todas as maneiras possíveis. A minha boca desceu até ao seu rosto, beijei-o por toda a parte, nas bochechas, no nariz, nas orelhas e no queixo. Percebi que o estava a endoidecer, puxou-me para si, agarrou-me pelo rosto e beijou-me sem dó nem piedade, naquele momento tive noção que não havia volta a dar, ele ia ter-me. A sua mão livre ocorreu de novo ao fecho do meu top, tremi ao saber que ia ser dele.

- David! – uma voz forte e masculina quebrou todo o momento

O meu coração deu um pulo e uma descarga de adrenalina bombeou o sangue por todo o meu corpo de uma maneira descontrolada. Afastei-me imediatamente dele procurando o meu colete para vestir. Vesti-o tão rápido quanto pude e agarrei na minha mala que estava no chão. O David vestiu a camisola de forma muito atrapalhada e acabou por vesti-la do avesso. Foi nesse exacto momento que o mister Jorge Jesus cruzou a porta de entrada do balneário. Dizer que nesse momento queria um buraco para me enfiar era pouco. Ele olhávamos e o sangue aflorou-me às faces.

- Mister… - a voz de David ainda lhe denunciava a condição de ofegante

- O que é que estão aqui a fazer, ainda? – o mister olhou para mim e para David alternadamente

- Eu… Eu já estava de saída! – ajeitei o colete e passei a mão nos cabelos ligeiramente desalinhados

- Ela veio só me dizer uma coisa mister… - o David rematou de forma atrapalhada e foi o bastante para nos entregar

- Veio agradecer-te o golo, foi? – o Mister mascava a sua pastilha com menor intensidade e estava com vontade de se rir

- Foi, foi isso mesmo! – David ajeitou a t-shirt que estava enrodilhada e do avesso

- Belo golo que o rapaz te dedicou! – o Mister falava agora para mim e eu senti-me mal, não era suposto David saber que eu tinha percebido que o golo era para mim

- Sim, foi um belo golo… - não permiti a mim mesma dizer mais nada

- Tens aqui um rapaz de ouro! – o David olhou-me nesse momento e um sorriso vitorioso dominava o seu rosto, eu sabia que JJ tinha razão – Ó David, eu vinha mesmo só dizer-te que estão dispensados do treino de segunda de manhã, porque há um problema na caixa, mas há tarde já irá haver!

- Com certeza, mister! Lá estarei! – o David nunca desmanchava a máscara de profissional

- Então vemo-nos lá… Quanto a ti, até breve! – sorriu-me agradavelmente e eu retribuí

- Até breve, mister!

Ele saiu, eu e o David olhámo-nos intensamente, mas fomos interrompidos pelo breve regresso de JJ.

- Só uma coisa, rapaz… Para conversarmos não é preciso vestirmo-nos à pressa! – apontou para a camisola mal vestida de David

Não sei qual dos dois ficou mais envergonhado, se eu ou David, já o mister saiu com um sorriso nos lábios.

- Adriana… - David ia aproximar-se

Antes de ele me alcançar, dizer mais fosse o que fosse, agarrei nas minhas coisas e ainda meio desajeitada do momento saí numa correria frenética dos balneários, tão rápida quanto os saltos altos me permitiram. Entrei na sala dos jogadores ofegante e o grupo de amigos habituais olharam-me.

- Hey, eu sei que estamos no estádio, mas aqui não há maratonas! – ironizou Bianca ao constatar o meu estado de cansaço

- A maratona dela sei eu bem qual é! Tem um metro e oitenta e oito, olhos verdes e uma cabeleira farta em caracóis! – a Catarina era mesmo assim, não deixava nada por dizer e acabava sempre por provocar a risota geral, o que foi o caso, apenas eu não me ri

- Eu vou ter de ir… - informei ainda meio desnorteada – Fiquem bem, adeus e divirtam-se!

- Mas, Adr… - já não consegui ouvir o que Ruben dizia, saí correndo na direcção do parque de estacionamento ao ar livre, precisava de absorver cada detalhe do momento que vivera à momentos no balneário com David

A pressa em sair dali, sem que ele me visse, era tanta que embati contra um jovem de boa aparência.

***
David

A rapidez com que ela abandonou o balneário nem me deu tempo p’ra falar mais nada. Vesti a camiseta correctamente, atei os meus ténis, agarrei no meu saco e saí correndo atrás dela. Ao entrar na sala de convívio dos jogadores todos olhavam estupefactos para a porta de onde eu surgira. Meus olhos procuraram ela, mas não a encontraram como era seu desejo.

- Eh lá, mas isto hoje lembrou-se tudo de correr a maratona nocturna do Estádio da Luz? – ao início não entendi o que a Paula falou, mas depois na minha cabeça um puzzle se formou, ela devia ter passado por ali com tanta ou mais velocidade com que saíra de junto de mim

- Qual maratona qual quê! O que estes dois andara a fazer sei eu bem, e chama-se tudo menos maratona! – a Catarina não perdia nunca seu jeitinho de desbocado, falava o que queria na hora e bem na cara podre

- Cadê, Adriana? – perguntei irritado de tanta conversa que me dizia tudo, menos o paradeiro dela

- Saiu a correr há coisa de dois minutos… - a Paula foi a única que me deu a informação que eu necessitada

Saí correndo na hora atrás dela, mas a voz de Ruben me impediu.

- Vais onde, mano?

- Atrás da Adriana! – tentei reiniciar a corrida

- Para quê? O que é que aconteceu?!

- Vou falar p’ra aquela teimosa o quanto gosto dela! – um sorriso surgiu na minha boca e na do manz também

Saí correndo e ainda vi a reacção dos presentes.

- Ai, esta eu não perco! – a Catarina agarrou na mala, um sorriso no rosto e saiu atrás de mim arrastando Aimar com ela

- Nem eu! – Paula se juntou a ela e arrastou o pobre coitado do Roberto que tava morto de fome

- Hey, esperem por nós então! – refilou Ruben, e todo o mundo me seguiu

Mas quando a encontrei, a imagem não foi a que eu esperava, lá tava ela, bem do lado da única pessoa que eu queria bem longe dela, de mim… de nós! Eles falavam, ele se aproximava e ela o repulsava constantemente. Queria ver onde aquilo ia levar…

***
Adriana

- Desculpe… - perdoei-me imediatamente pelo embate, mas congelei ao ver a pessoa que tinha na minha frente

- Sabia que ia acabar por te encontrar… - a voz de Diogo saiu meiga

- Diogo?! O que é que estás aqui a fazer?

- Vim ver o jogo… Mas não queria ir embora antes de te encontrar e pela dedicatória do golo dele, deduzi que cá estivesses, na bancada ao pé dos NN!

- Ó Diogo e estavas à minha procura para quê? – a arrogância assaltou a minha voz, não me esquecia do motivo que tinha levado à minha zanga com David

- Preciso de falar contigo… Preciso tanto de falar contigo! – a meiguice na sua voz já não me soava a nada senão a cinismo

- Pois, mas eu não tenho mais nada a dizer e tenho pressa! – tentei sair dali, mas ele puxou-me pelo braço de uma maneira que me magoou

- Estás a magoar-me, Diogo! – ele soltou-me apesar de contrariado

- Então ouve-me e assim não serei forçado a agarrar-te! – foi nesse exacto momento, quando ele proferiu essas palavras, que eu vi na minha frente outro Diogo, vi nele um homem que nunca tinha visto antes

- Estou a ouvir, mas sê breve, por favor! – afastei-me dele o mais que pude, mas ele teimou em aproximar-se, tinha um carro atrás de mim e não havia mais por onde fugir

- Desde as férias no Algarve, daquela festa, que eu não paro de pensar em ti… Não me sais da cabeça, seja a que hora do dia for! Penso em ti, em como és perfeita, em como te desejo, em como te quero… - pela sua hesitação adivinhei o que ia dizer - … em como te amo!

Nunca o vi dizer-me aquilo com tamanha convicção e naturalidade e se ele não fosse tão bom actor eu quase teria acreditado em mais uma das suas falsas juras.

- Diogo, por favor… Isto não nos vai levar a lado nenhum!

- Adriana, vá lá! Olha-me nos olhos… Diz-me que te sou indiferente, que já não sentes nada! Diz-me isso e eu vou-me já embora! Nunca mais me vês, diz! – calei-me, ele sabia que por muito que eu amasse David, ele ainda não me era totalmente indiferente, afinal o primeiro amor nunca se esquece – Diz! Olha-me nos olhos e diz! DIZ! – ele gritou-me de uma maneira que eu não admitia a ninguém

A revolta foi tamanha que a minha mão num único movimento juntou-se à cara dele esbofeteando-a. O impacto foi audível e ecoou pelo parque vazio, os cinco dedos ficaram marcados de uma vermelhidão acentuada. Olhei-o incrédula comigo mesma, com o que eu tinha acabado de fazer. As lágrimas surgiram nos seus olhos meio escondidos pela mão que lhe cobria a face esbofeteada. Demorou algum tempo a encarar-me, mas quando o fez percebi que estava magoado.

- ISSO! BATE! VAI! SE QUERES TANTO BATER-ME, BATE! EU DEIXO! – ele começou a gritar em pleno parque de estacionamento – VAI! BATES-TE UMA VEZ, BATE DUAS OU TRÊS!

- Não vou fazê-lo… Não o devia ter feito por isso não repito… – tentei manter a calma, mas as lágrimas já me turvavam a visão

- Odeias-me assim tanto?! – fui incapaz de o olhar nos olhos – Vai, Adriana! Agora vamos ser sinceros, baixar defesas e guardas. Olha-me nos olhos e diz-me se me odeias assim tanto! – em cinco anos que conhecia Diogo aquela foi a primeira vez que o vi chorar e quando aquelas duas lágrimas cruzaram seu rosto o meu coração partiu-se em dois, eu não sabia e detestava fazer as pessoas sofrer, mesmo que elas me tivessem magoado muito, como era o caso de Diogo

Olhei-o nos olhos como ele me pediu, mas permaneci em silêncio.

- Vai! Agora diz-me! Odeias-me assim tanto?! Já não me amas? – o choro dominava a sua voz e ainda lhe podia ver os cinco dedos marcados na face esquerda

- Não… Não te amo mais, o meu coração tem outra pessoa! – o choro acabou por me dominar também, aquele era o ponto final na nossa história e se por um lado sentia um alivio inexplicável, por outro sentia pena de ver aquilo que podia ter sido a história de amor perfeita alcançar um fim muito pouco feliz

- Oh, Adriana… Eu não acredito! Não acredito que o ames a ele e a mim não! Não é possível! – ele jogou as mãos à cabeça e começou a andar desnorteado de um lado para o outro

- Diogo, não compliques… Eu amo o David, afasta-te, por favor! Não destruas a nova oportunidade que tenho de ser feliz! É a única coisa que te peço!

- A única coisa que eu te peço é que me ames, como sempre amaste e que me deixes fazer-te feliz, por favor…

- Não posso, Diogo… Não posso!

Ele aproximou-me de mim, lentamente, até onde lhe permiti. Já sentia o seu rosto muito perto do meu e a sua mão ardia sob a pele do meu rosto.

- Diogo, pára! – ordenei num choro descontrolado

- Adriana, faz o que quiseres! Grita comigo, bate-me, ofende-me, mas não me afastes de ti, não me afastes da única coisa que dá sentido à minha vida! – os olhos dele estavam pintados de um azul mais carregado que era claramente consequência das suas lágrimas

- Diogo… - não tinha forças, queria, mas não tinha forças

- Ao menos um último beijo… - sussurrou e senti a respiração nos meus lábios

- Não posso…- fechei os lábios, aquela aproximação fazia tudo o que era humano em mim doer

- Não me negues isso… Pelo menos isso! – implorou e novas lágrimas molharam-lhe a face
Num movimento procurou unir as nossas bocas, mas eu virei a cara e afastei-me.

- Vai-te embora, Diogo! Não te humilhes! – pedi com pena dele, eu detestava sentir pena fosse de quem fosse, é o sentimento mais desonrado que se pode ter por alguém

- Adriana… – o choro dominou-o por completo

- Vai-te embora, Diogo! Pára de destruir a minha vida, pára! – implorei também em choro

- Porquê, se tu acabaste de destruir a minha? – aquelas palavras atacaram directo no meu ponto de culpa, mas que desta vez não era minha, isto era apenas a paga de tudo o que o Diogo um dia me fizera

Empurrei-o suavemente para longe, ele ainda me agarrou no rosto e deu-me um beijo longo na testa, era a nossa despedida. Finalmente ao fim de três anos eu encerrava definitivamente aquele capitulo e não chorava de saudade, nem tão pouco de tristeza, mas de alívio por ter terminado com aquele fardo que preenchia ainda um espaço tão grande no meu coração, deixando-o assim mais livre para amar David.
Ele afastou-se lentamente, fiquei-o a ver desaparecer por entre os carros do parque de estacionamento, minutos depois um carro abandonou o espaço a uma velocidade furiosa, era o dele e eu estremeci quando passou por mim. Mandei um soco no carro que estava atrás de mim e apoie-me nele chorando.
Porque é que tudo tinha de ser assim?

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Capítulo 103 – Que saudade… (Parte II)

Acalmei-me, decidi que tinha de encontrar um rumo para onde ir, um lugar onde me sentisse segura, onde alguém me compreende-se. O meu telemóvel vibrou no meu bolso e eu atendi recompondo-me primeiro.

- Olá Bi! – o nome de Bianca surgiu no visor e senti um calorzinho no lado esquerdo do meu peito

- Olá, Dri! – adivinhei-lhe um sorriso no rosto – Estás onde?

- Ah… Estou na rua, porquê?

- Tu esqueceste-te?

Nesse momento a memória avivou-se, eu e a Bianca tínhamos combinado que ela se iria mudar lá para casa nesse dia e eu tinha-me esquecido.

- Desculpa, desculpa… Esqueci-me completamente! Estás onde?

- Estou aqui à porta do prédio, toquei, toquei, ninguém atendeu então resolvi ligar-te

- Ó Bi, desculpa… Eu vou já p’ra casa! Espera aí por mim…
- Não te preocupes, tenho tempo… Além disso estou acompanhada, o Salvio está comigo!

- Ok, vou tentar despachar-me. Beijinhos!

- Beijinhos princesa! – desligámos as duas a chamada em simultâneo

***

Tomei o caminho até casa o mais depressa que pude e entrei quase a correr pelo portão do condomínio. Não a via nem a ela nem a Salvio em lado nenhum, aproximei-me da porta do meu lote.

- Adriana! Adriana! – a voz dele surgiu nas minhas costas ~

Olhei para trás e vi-a metendo a cabeça fora do carro de Salvio e resolvi aproximar-se, mas ela encarregou-se de sair do carro para nos cumprimentar-me em condições, afinal já não nos víamos desde o início das férias.

- Princesa! – ela correu na minha direcção e abraçámo-nos prolongadamente

- Que saudades, minha feiosa! – apertei-a mais contra mim, finalmente um pouco de segurança no meio de tudo o que me estava a acontecer

- Também eu, tantas…Tantas! – senti-a sorrir e quebrámos o abraço

- Desculpa, ter-me esquecido, mas fui dormir a casa do David como ele chegou ontem…
- Oh como te compreendo… - olhou de relance para Salvio que estava dentro do carro com um sorriso parvo no rosto a olhar para ela, eles eram felizes e transpareciam isso melhor do que ninguém – Se foi para estares com ele foi por um bom motivo, estás desculpada!
- Bem, vamos levar as tuas coisas, então? – perguntei ajeitando a mochila que tinha às costas

- Sim, vamos! Vai ser a minha primeira noite nesta casa! – ela sorriu visivelmente feliz

***

Bianca já tinha arrumado as suas coisas, estava instalada e pronta para aquela nova fase da sua vida. Depois de um jantar caseiro eu e ela deitámo-nos no sofá já com os pijamas vestidos e pusemo-nos a ver um filme, “Nothing Hill”.

- Ai este filme é lindo, bolas! – a Bianca enfiou mais uma pipoca na boca

Estávamos as duas deitadas no sofá, encostadas numa pilha de almofadas e enroscadas numa manta quente. Um balde de pipocas estava no meio de nós e as gargalhadas eram constantes por parte dela, via-se que estava feliz por estar ali. Mas apesar de eu estar feliz com a sua presença, a discussão com David não me saía da cabeça e o filme pouco me interessava, pois para além de já o ter visto seis vezes, o filme que corria na sua vida era bem pior com aquele e com poucas hipóteses de um “Final feliz!”.

- Princesa, não estás a gostar do filme? – a voz de Bianca fez-me regressar àquele espaço

- Hã? - acabei por dizer, quando o meu pensamento se voltou a focar nela

- Ouviste o que te perguntei?

- Não, desculpa… Estava longe daqui
- Pois, isso eu percebi… Tu estás muito estranha!
- Não, estou apenas cansada…- menti, não estava com a mínima disposição para falar da discussão parva que tinha tido como David e da maneira como tinha saído daquela casa, sem lhe dizer grande coisa
- Foi a revista? – perguntou ela, sem sequer me fazer qualquer introdução, foi directa ao assunto
- Também já viste? – a minha testa enrugou-se tamanha era a minha indignação
- É um bocadinho difícil não ver… Está mesmo na capa… - ela fez uma expressão tristonha
- Pois… Infelizmente está bem na capa para todos verem! – o tom de censura na minha voz foi bastante claro
- É por isso que estás assim? – ela colocou-me cuidadosamente a franja atrás da orelha
- Sim… Não gostei de ver a minha vida exposta! – e antes que eu pudesse dizer mais qualquer coisa o meu telemóvel vibrou em cima do sofá
“David a chamar…” – pude ler no ecrã e automaticamente, pousei o telefone sob o sofá
Era a primeira vez que ele me procurava depois de ter saído naquela manhã de casa dele.
- Não vais atender? – perguntou-me ela
- Não… Depois da discussão que tivemos por causa da revista a vontade de o ouvir não é nenhuma! – ele desistiu pois o telefone deixou de tocar
- A falarem é que as coisas se resolvem…- não precisei de lhe contar mais nada sobre a nossa discussão, ela percebeu imediatamente que não estava à vontade com o assunto
- O David deixou tudo bem claro, não confia em mim… E agora se falássemos seria de cabeça quente e eu ainda ia dizer coisas que estão aqui entaladas e não o quero magoar! – o meu coração estava apertadinho ansiando por uma nova chamada dele que não chegou nessa noite
***
No dia seguinte o Benfica iria ter o primeiro jogo da época, o de apresentação, no estádio da Luz frente ao Mónaco, um jogo particular. Apesar de estar chateada com o David e de ele não me ter ligado mais desde a noite anterior eu estava decidida a ir ao jogo, nem que tivesse de o assistir nas bancadas e era exactamente isso que eu ia fazer.
- Princesa, estou pronta! – ouvi a Bianca gritar da sala, logo depois de ter ouvido os saltos dos seus sapatos percorrerem a tijoleira do corredor.
Estava a acabar de me arranjar, agarrei na minha mala, enfiei as pulseiras no pulso e saí do quarto.

- Já aqui estou! – disse atravessando o corredor até chegar perto dela
- Uau! Estamos todas lindonas, estamos! – soltou um piropo
- Oh deixa-te de coisas, estou normal!
- Se isso é normal… Vai lá, vai!
- Oh deixa de ser totó! Vamos, mas é embora senão depois apanhamos muito trânsito…
Acabámos por sair de casa no carro da Bianca que conduziu até ao estádio e chegámos lá em menos de vinte minutos. Ela entrou com o carro para as garagens, faltava mais de duas horas para o jogo.
- Acho que viemos demasiado cedo… Nem os carros todos deles ainda cá estão! – disse tirando a chave da ignição
- Nunca é cedo demais! Comemos qualquer coisa, bebemos qualquer coisa, vamos à Megastore, vais ver que passa num instante! – saí do carro e nesse instante senti o meu telemóvel vibrar
“De: Paula
Olá, mi amor!
Acabei agora de chegar ao carro com o meu espanhol, vocês já cá estão? Besos!”

Desde que conhecera Paula, namorado do Roberto, na festa de anos de David que um grupo muito restrito de meninas se havia formado: Paula, Bianca, Inês, Andreia, Brenda, eu e Catarina, a namorada de Aimar que eu tinha conhecido há três meses atrás.
Éramos raparigas simples, novas e com prazer em viver, e por isso logo desde início a empatia tinha sido imediata e o grupo formou-se naturalmente.

“Para: Paula
Olá, mi amor :)
Acabei de chegar agora ao estádio mais a Bianca. Estás onde? Besos!”

A resposta dela não tardou em chegar.

“De:Paula
Estou na catedral mais as meninas… Venham ter connosco! :) Até já!”

- Bianca, as meninas estão todas na catedral… - informei com os olhos ainda postos no telemóvel e com ela já do lado de fora do carro trancado

- Então vamos ter com elas… Estou a morrer de saudades! – um sorriso inundou os seus lábios, não iria fazer-lhe aquela desfeita

- Ok, vamos lá!

Seguimos as duas até ao corredor de acesso à Catedral, mas antes de entrar parámos à porta da casa de banho.

- Vou só à casa de banho, vai andando que eu já lá vou ter… - ela assentiu positivamente com a cabeça e seguiu sem mim


***

David

Desde a noite anterior que aquele maldito telefonema que lhe fiz não saía da minha cabeça. Estava a duas horas do jogo, o nervoso miudinho tava batendo e nem sinal dela. Provavelmente não viria nem no jogo e eu tava precisando ouvir a voz dela me desejando “Boa sorte”. Meu coração tava apertadinho e no meu peito batia uma saudade danada daquela muleca, mas eu não podia ligar mais, porque se ela não tinha atendido era porque não queria falar comigo e eu ia esperar as coisas se acalmarem um pouquinho mais para a procurar.
Já quase todos tinham do seu lado a sua namorada, esposa e filhos e eu tava sozinho do lado do manz. A Paula desde que chegara com o Roberto não tinha largado aquele maldito telemóvel e do grupo de amigas, só tava faltando ela e Bianca, o que ainda me dava alguma esperança de a qualquer altura a ver surgir por aquela porta, bem do lado dela.

- Boa tarde, gente! – Bianca entrou nesse exacto momento pelas portas da catedral

Meu coração parou, meu olhar buscou por ela, mas nada senão o vazio. Aguardei uns segundos, mas Bianca fechou a porta atrás dela, vinha sozinha… Esmoreci ao perceber que Adriana não vinha ao jogo, que pelo menos não ia poder vê-la.
Todas as meninas correram na direcção de Bianca para a cumprimentar, por entre gargalhadas, gritinhos e sorrisos todas mataram as saudades. Durante dois minutos fizeram uma rodinha cochichando sobre algo, coisas de mulher! Deu um beijo nos lábios de Salvio e ficou junto dele. Faltavam apenas menos de duas horas para o jogo e sensação de vazio dentro do meu peito aumentava.

- Olha lá, Bianca, a Adriana vai ver o jogo em casa? – perguntou Ruben agarrando Inês pela cintura

- Não… Até parece que não conheces a Adriana! – Bianca tinha razão, ela era uma benfiquista ferrenha e só faltava aos jogos quando não dava mesmo p’ra vir

- Parece que não… Estou mesmo a ver que ela vai faltar a este jogo!

- Achas mal, Ruben, achas muito mal! – aquela voz, meu Deus! Meu olhar colou na direcção da porta e meu mundo parou de girar, aquele era meu novo ponto gravitacional

***
Adriana

- Eh lá, seja bem aparecida! – disse o Ruben num sorriso matreiro ao ver-me entrar na catedral

- Boa tarde a todos! – a minha voz tentou sair o mais animada possível, mas para quem já me conhecia era óbvio que estava tudo menos animada

As meninas levantaram-se todas e correram na minha direcção para me abraçarem, fui apertada por todos os lados por mil braços diferentes.

- Ai pequenina! – a Paula foi a primeira a alcançar-me e esborrachou-me contra si

- Dri! – reconheci imediatamente a voz de Andreia e Catarina que me abraçaram logo de seguida

Logo de seguida foram os braços de Inês e Brenda que me envolveram naquela amálgama de corpos.

- Pessoal, preciso de respirar! – disse em tom de brincadeira, pois elas apertavam-me em todo o lado, soltaram-me, mas mantiveram-se próximas

- Pensámos que não vinhas… - declarou Catarina muito calmamente

- Eu vim com a Bianca, fui só ali à casa de banho! Ela não vos disse? – olhei para ela que estava abraçada a Salvio

- Sim, mas como nunca mais vinhas pensámos que tinhas fugido! – todas nos rimos levemente

- Bem, a conversa está óptima, mas eu quero ir comer um cachorro e ir á Megastore! Hoje sou simplesmente uma adepta ferrenha!

- Oh não vais ver o jogo aqui connosco? – a cara de Paula era de desilusão

- Não, estou a precisar de distância deste mundo exclusivo, ando a precisar de ser só eu. Simplesmente a miúda normal e anónima de 17 anos… Isso e só isso!

- Tudo bem, compreendemos… - a Catarina era sempre muito compreensiva, todas me sorriram

Nesse instante e ao lançar o meu olhar pelo resto da sala dei de caras com quem menos queria: David. Eu já sabia que o iria encontrar e uma parte de mim ansiava por isso, mas outra parte queria distância, precisava de distância. Os meus pés quiseram recuar, dar meia volta e assistir o jogo em casa. Senti a vista turva, o chão a fugir-me debaixo dos pés e o meu estômago a dar um nó. Mas o que raio se estava a passar comigo?

- Adriana, estás bem? – a voz e o toque de Paula despertaram-me – Estás pálida, amor…

Senti o sangue fugir-me das maçãs do rosto e o meu corpo meio fraco.

- Sim, estou bem! – ergui a cabeça e o mau estar passou, sorri-lhe

Quando olhei para David o seu olhar estava mais cravado em mim do que nunca, rezei para que aquele jogo passasse depressa para eu puder voltar a casa o mais cedo possível.

- De certeza? – ela insistiu, já me conhecia bem

- Sim, tudo bem! – sorri forçosamente

- Olha lá, ó piolhosa! – a voz de Ruben que estava na área dos sofás chamou-me à atenção e eu e o resto das meninas aproximámo-nos

- Diz lá, ó ranhoso! – entrei na brincadeira dele facilmente

- Vais ver o jogo aonde? – perguntou erguendo uma sobrancelha

- Bancadas! Ao pé dos No Name! – sorri, adorava aquela ala, dava-me um gostinho especial viver todos os momentos do jogo ali, no meio daquela gente que incorporava a verdadeira mística

- Que necessidade é que tens disso? Vê aqui com elas, ó… - percebi claramente que aquilo era uma encomenda de David

- Não… Senão fosse conhecer-te, eu era uma adepta normal e era lá que veria os jogos por isso vou agir como adepta normal e vê-lo lá! – sem dar conta acabei por prenunciar certas palavras que magoaram David

Com aquele discurso parvo e irracional eu acabara de cortar qualquer relação que houvesse entre mim e ele, dando a entender que Ruben era o último motivo que me mantinha ali quando na verdade todo o meu centro existencial e emocional era David e o olhar dele revelou tudo naquele momento: eu tinha-o magoado.

- Bolas, és teimosa! Aquilo é perigoso por causa dos petardos!

- Ai, Ruben, qual é a tua? Sempre assisti lá aos jogos e hoje vou assistir, ponto final!

- Teimosa!

- Chato! – deitámos a língua de fora em simultâneo um ao outro e todos se riram, inclusive David que o fez mais timidamente – Bem, vou comer um belo cachorro e seguir para as bancadas…

- Depois vai ter comigo à sala deles, despeço-me do Salvio e vamos juntas! – Bianca tomou lugar do meu lado

- Não é preciso! Eu vou de metro, amor…

- Vais o quê? – Bianca e Ruben fizeram um uníssono perfeito

- De metro? Sabem o que é? – ironizei

- Saber sei, mas tu não deves estar boazinha! – eu sabia que Ruben se preocupava comigo, mas eu já era crescidinha

- Ó miúda não faças uma cena dessas, ainda por cima depois das noticias que saíram, vais ser chacinada! – um silêncio aterrador instalou-se na sala depois daquele comentário do Fábio

Andreia fuzilou-o com o olhar, ele não fez por mal, mas todos já tinham percebido que eu e o David estávamos chateados e que o motivo era a revista. O David foi incapaz de me olhar nos olhos e o clima entre mim e ele ficou pesado.

- Adriana, não vais de metro! – foi Ruben que desviou o assunto

- Adeus, pessoal! Adeus, Rubenzinho! – disse de fugida já tomando o caminho para os corredores internos do estádio

***

Faltava meia hora para o jogo começar, os jogadores estavam em aquecimento e a cerimónia de apresentação já havia sido feita. Eles aqueciam no relvado, notava que David estava meio distraído, longe dali e pouco se esforçava, tão bem como o conhecia e pela maneira como o mister o olhava adivinhava-se uma fraca demonstração.
Tive medo que fosse por minha culpa aquela desconcentração, que fosse pela falta do ritual de “Boa Sorte” quer fosse por telefone ou cara a cara, acompanhado de um beijo.
Relembrei o sabor do seu beijo, o toque dos seus lábios e uma nostalgia invadiu-me.
Tremi de cima a abaixo a ouvir um dos cânticos dos NN que me ensurdeceu durante meio minuto.
Eles retiraram-se para os balneários e senti o meu coração mirrar ao ver o David, que era sempre bem-disposto e alegre, sair cabisbaixo e com o sorriso, que lhe iluminava sempre o rosto, extinguido.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Capítulo 103 – Que saudade… (Parte I)



Na manhã seguinte rumámos para Lisboa, queria chegar lá bem cedo apesar do voo de David só chegar à noite. Falei com ele ao telefone nessa manhã, ele pediu-me que levasse um saco com coisas minhas para sua casa, pois ele queria que eu passasse lá a noite.
É óbvio que não recusei o convite pois estava a morrer de saudades dele. Pedi a chave suplente ao porteiro e subi com o intuito de esperar até ser horas de o ir buscar ao aeroporto.
Coloquei a minha mala no quarto e tirei alguns dos meus pertences para fora. Tinha comprado algumas mercearias para lhe puder preparar alguma coisa p’ra comer caso ele viesse com fome, o que era muito provável.
Enquanto fazia as camadas da lasanha, especialidade da minha avó italiana, ouvi um barulho vindo da porta de casa e sobressaltei-me. Agarrei na primeira coisa que me apareceu à frente, uma frigideira, assim sempre me poderia defender.
O que eu julgava ser um ladrão deixou alguma coisa cair no chão do hall, um som semelhante ao do saco de desporto do David sempre que este o pousava aí ao final do dia quando regressava dos treinos.
Pé ante pé, saí da cozinha e entrei no hall, o que eu pensava ser um desconhecido acendeu a luz e eu congelei com aquela imagem.
Julguei-me maluca, mas ao mesmo tempo a querer explodir de felicidade.
Era David, mas aquilo não era possível, ele só chegava horas depois a Lisboa, tanto que eu ia buscá-lo ao aeroporto.
Pousei a frigideira na mesa do hall e a minha boca abriu-se em admiração.

- Ai, eu estou a ver mal, só pode! – levei a mão à cabeça

- Tá vendo muito bem, minha gata! – ele abriu os braços esperando um abraço e esboçou um sorriso verdadeiro, esperando uma resposta minha

Um sorriso inundou os meus lábios e o meu corpo precipitou-se na direcção dele. Abracei-o e devido à diferença de alturas ele teve de me elevar a alguns centímetros do chão. Rapidamente procurámos a boca um do outro e beijámo-nos. Primeiro levemente, depois com algum ardor. Quando as nossas línguas se encontraram na união das nossas bocas, começaram uma dança ritmada e insaciável, e quanto mais provávamos mais queríamos provar. Selei o beijo com uma série deles repenicados nos lábios dele que mantinham o mesmo sabor de sempre. As nossas testas uniram-se e as nossas bocas permaneceram muito próximas.

- Que saudade… - murmurei esborrachando-o contra mim

- Agora pode matar todas… - ele soltou-se do abraço e deixou escapar um sorriso sincero

- Porque é que não disseste que vinhas mais cedo? Eu tinha-te ido buscar ao aeroporto! – refutei imediatamente

- Eu fiz de propósito, queria te fazer uma surpresa… - fez um sorriso que me derreteu por completo

- És horrível! – iniciei uma falsa agressão que levámos por entre sorriso, fracas chapadas no peito – Odeio-te! Odeio-te!

- Que nada, cê me ama! - parei de lhe bater e abracei-o com força

- Nem acredito que és tu…- murmurei ao seu ouvido

- Pode apalpar p’ra ter certezas! – gracejou

- Isso querias tu! – fiz a minha expressão de menina e ambos nos rimos

- Queria mesmo… Nossa, como custou ficar quinze dias longe de você! – confessou fazendo-me uma carícia delicada no rosto

- A partir de agora será mais fácil… Primeiro estranha-se, depois entranha-se! – tentei ver o lado positivo da situação, mas a verdade é que não havia nenhum, tinha tido saudades dele e não queria voltar a sentir, não daquela maneira e durante tanto tempo

- Fala por você, vou morrer a cada segundo longe! – sorri-lhe deliciada – Nossa, que cheiro é esse?

- Hum, especialidade da Adriana!

- Bacalhau com natas?

- Não… - agitei a cabeça negativamente

- Hum… Lasanha? – enrugou a testa e eu sorri – Obá! Que saudade da comida gostosa da namorada!

- A tua mãe que te oiça dizer isso… - despenteei-o levemente

- Ela não precisa saber não… - fez um ar matreiro e rimo-nos novamente

- Vai tomar um banho, trocar de roupa, que eu vou acabar o jantar p’ra depois ires descansar…

- Tá bom, vou num pé e volto noutro! – beijou-me rapidamente nos lábios e saiu na direcção do quarto


***

- Nossa, como o jantar tava bom… - disse cruzando os talhetes

- Ainda bem que gostaste, Dê… Lá não devias comer nada de jeito! – a minha maneira de ser, preocupada com tudo e com todos, acabava sempre por vir ao de cima

- Cê se preocupa demais, gata. Todo o mundo trata a gente bem! – ele permanecia calmo

- Hum, pareces mais magro… Menos forte… - naquele momento já me estava somente a meter com ele

- Cê acha? Olha que a força continua a mesma! – ele levantou-se da cadeira da mesa da sala, agarrou em mim ao colo como se de um bebé me tratasse – Viu só?

- Vi, vi… És um exibicionista é o que é! – agarrei-me ao pescoço dele com medo de cair – Podes pôr-me no chão, Senhor bíceps?

- Não sei se posso… - revirou os olhos fingindo que a conversa não era com ele

- Por favor, amor… - pedi esboçando um sorriso

- Com certeza, princesinha! – colocou-me no chão

Tive uma vontade louca de beijá-lo, ele estava cada dia mais perfeito, apesar de nos últimos quinze não o ter visto, o que só aumentava essa sensação.

- Tá olhando assim porquê?

- Nada, estava só a ver-te… A matar saudades… - aproximei-me dele e abarquei os seus lábios lentamente, com muito carinho e sem qualquer intenção de o magoar

A língua dele invadiu a minha boca momentos depois e enlaçou a minha, calmamente e de uma forma apaixonada. Cada beijo nosso era muito mais do que um simples beijo, era amor, amor e só amor, nada mais.
As minhas mãos enterraram-se nos cabelos dele e as dele por baixo da minha camisola. As saudades de o tocar, de o sentir, de o amar, eram mais que muitas. Apertei-o contra mim e quase instintivamente arrastei-o até ao sofá. Acabámos por cair sobre o mesmo e eu fiquei sobre ele. Senti as suas mãos ardentes percorrerem cuidadosamente cada centímetro da linha ondulante do meu corpo. As minhas mãos ocorreram até debaixo da camisola dele, passei delicadamente os meus dedos pelo seu torso perfeitamente esculpido. Ele arrepiou-se ao sentir as minhas mãos descerem até à parte mais baixa do seu tronco, toquei-o por cima das calças e ele gemeu levemente por entre o beijo que dávamos. Separei as nossas bocas e não controlei um riso leve.

- Cê adora me ver assim… - ele estava completamente descontrolado e a sua voz, inebriada pelo momento, revelava isso

- Pois gosto… - aproximei a minha boca da dele fingindo que o ia beijar, mas fugi antes que ele o conseguisse fazer

- Não faz isso, por favor! – pediu-me num tom desesperado

- Isso o quê? – perguntei em tom de brincadeira, fingi novamente que o ia beijar, mas fugi

- Isso! – ele arregalou os olhos

Ri-me e saí de cima dele.

- Amor, vamos dormir… - ele sentou-se na minha frente, foi visível o seu estado de excitação e eu tive uma vontade louca de me rir

- Nem pensar, cê não me pode deixar aqui assim! – ele apontou para o seu órgão genital e eu desmanchei-me a rir

Comecei a despir a minha camisola, ele olhava-me calado e com o olhar percorria o meu corpo que eu deixava agora descoberto. Fiquei com a camisola na mão e olhei-o.

- Boa noite, amor… - aproximei-me dele, que permanecia sentado no sofá e dei-lhe um beijo nos lábios

Virei costas com o intuito de me dirigir ao quarto dele, mas senti-o puxar-me com força.

- Não faz assim… - a voz dele molengou

Virou-me para si e rapidamente os seus lábios atacaram os meus. Estremeci com a força com que ele me puxava para o seu corpo. Tive vontade de me agarrar mais a ele, mais e mais, mas mais do que aquilo era impossível. Ele foi-me empurrando aos poucos e ao mesmo tempo que me beijava, até eu bater contra a lateral da ombreira da porta.
Ele enterrou a cabeça dele no meu pescoço, abocanhou-o carinhosamente. Eu sentia tanta vontade de ser dele como ele meu e estávamos a minutos de o ser, ao fim de longos e penosos quinze dias. Senti-o usar a sua força bruta para me puxar para cima, pousei então os meus braços em torno do pescoço dele e fiz força para me elevar no colo dele. Não foi preciso muito esforço pois o David fez a maior parte da força, apenas tive de entrelaçar as minhas pernas em torno do tronco dele. Procurei novamente a boca dele, ele pousou a sua mão em torno da minha cintura, impedindo-me de cair, e outra no meu rosto. Sentia o seu polegar arder sob a minha maçã do rosto, mas mantive as pálpebras fechadas e subi uma das minhas mãos para a nuca dele. De corpos colados e bocas sempre unidas acabámos por chegar ao quarto. Ele deixou-me cair sob a cama, muito lentamente. A boca dele desceu desde o meu pescoço até à minha barriga. Percorreu um trajecto recto e carinhoso com a sua língua, desde o topo dos meus seios até ao meu umbigo, que me provocou cocegas e acabei por soltar uma ou duas gargalhadas em surdina. Agarrei-lhe um punhado de caracóis obrigando-o a regressar à minha boca e roubei-lhe um beijo louco, carregado de desejo e excitação. As minhas mãos voltaram a passar pelas costas dele e dessa vez acabei por lhe despir a camisola. Continuava tão ou ainda mais perfeito como tinha partido há quinze dias atrás. Voltou a beijar-me com fulgor, cada toque seu revelava o desejo que tinha por mim e que acumulara durante aquele tempo distante. Senti as mãos dele no botão das minhas calças, puxou-as lentamente até eu ficar apenas em roupa interior debaixo do corpo dele. De pé, em frente à cama, ele esperou que eu o despisse. Sentei-me na cama, a minha cabeça ficou ao nível da barriga dele, beijei-lhe os abdominais e fui descendo até às minhas mãos pousarem no botão das suas calças, desapartei-o. De seguida as minhas mãos percorreram o fecho das suas calças puxando-o para baixo, olhei para cima e vi-o a olhar para mim muito atentamente, tentando decorar cada movimento meu. Sorri-lhe descaradamente e soltei as calças, que caíram a seus pés. Retomei as carícias à sua barriga, desde o umbigo ao pescoço e quando dei por mim estava de pé na sua frente. Agarrei-o pelos ombros e empurrei-o para a cama, caí sobre ele e entreguei-me nos seus braços. Acabámos por tirar a roupa interior que ainda nos sobrava e ficámos nus, de corpos colados e sem qualquer pudor. Por entre carinhos e beijos, ele acabou por posicionar o seu corpo e enterrou-o no meu. Entreguei-me novamente ao homem que tanto amava e atingimos o prazer máximo em simultâneo. As saudades estavam matadas ele estava ali bem do meu lado, adormeci apenas com essas certezas no meu pensamento e com o corpo dele a envolver calorosamente o meu.


***

Na manhã seguinte acordei numa cama vazia, olhei em meu redor e nem sinal dele. Levantei-me ainda meio a cambalear devido ao meu recente estado de acordada e dirigi-me à sala. Percorri todas as divisões da sala, mas ele não estava. Havia um bilhete sob a pequena mesa do hall.

“Meu amô,
Saí p’ra comprar pão fresco p’ro nosso café da manhã, me espera. Beijos, te amo! :) “

Deitei-me no sofá, mas o toque do meu telemóvel impediu-me de voltar a adormecer, era a Débora.

- Bom dia, feiosa! – cumprimentei alegremente

- Bom dia, amor… - a voz dela estava estranha e para mim, que já a conhecia tão bem, foi o bastante para perceber que algo não estava bem

- Aconteceu alguma coisa, amor? A tua voz está estranha… - acomodei-me no sofá disposta a ouvi-la

- Ó Dri, tu ainda não viste pois não? – fiquei confusa, não percebi ao que ela se referia

- Não vi o quê?

- Ó amor, não te quero alarmar, mas saíste numa revista… - congelei, já podia imaginar que pelo tom de voz dela e a calma com que tentou passar-me a notícia, coisa boa não era

- O que é que esses gajos disseram sobre mim e o David agora? – um sentimento de revolta percorria todo o meu corpo

- Não foi bem sobre ti e sobre o David… Foi com o Diogo… - o sangue que me corria nas veias gelou, aquilo não podia estar a acontecer

- O quê? – aquilo era de tal forma absurdo, que julguei ter ouvido mal

- Publicaram fotos vossas, muito próximos na festa do Sasha em Portimão. Fazem capa, “Bombástica Adriana, namorada do craque benfiquista, arrebata corações a sul”
Ouvi alguém por a chave à porta nesse exacto momento, era David.

- Amor, o David chegou, depois ligo-te, sim?

- Tudo bem, até depois… Beijos!

- Beijos! – desliguei e antes que pudesse dizer o que fosse ele gritou pelo meu nome de forma furiosa

- ADRIANA! – a voz dele ecoou pela casa toda e depressa ele invadiu a sala

- Que foi, amor? Estás a gritar assim porquê? – ergui-me do sofá e pus-me na sua frente

- O que é isso? – ele atirou uma revista com força para cima da mesinha em frente ao sofá

Olhei para a capa e depressa me reconheci naquela noite, mas as fotos mostravam coisas que não tinham acontecido, mostravam uma mensagem errada do que realmente se passara com Diogo.

- Uma revista… - respondi fazendo-me de desentendida

- Me explica o que é isso? É que a única explicação que eu encontro é que tou vendo mal… Que essa não é você! – vi que ele estava chateado e acho que dizer isso era pouco

Apenas apanhei a revista da mesa, olhei a capa e só isso me revoltou. Era uma imagem minha e do Diogo muito próximos na festa, do momento em que ele falara comigo e se aproximara quando eu o mandei afastar-se. Ao abrir a revista e ao folhear as páginas, o sentimento de revolta só piorou.

“Bombástica Adriana, namorada do craque benfiquista, arrebata corações a sul” – podia ler em letras gordas no topo das duas páginas
E mais fotos minhas e do Diogo, quando me foi levar a mim e á Débora ao hotel, mas curiosamente (ou não), ela não aparecia em nenhuma delas, apenas publicaram aquilo que lhes convinha para distorcer a história.

“A namorada do craque benfiquista, David Luiz, flagrada há quinze dias a despedir-se do jovem no aeroporto na partida do plantel encarnado para os Estados Unidos, rumou a sul onde passou umas animadas férias na companhia da sua melhor amiga. A jovem de quase 18 anos, cujo namoro com o brasileiro apenas se confirmou há quinze dias atrás no aeroporto num momento captado pelas objectivas, passou os últimos quinze dias em Portimão onde entre sol e muita animação, se divertiu e deu claramente nas vistas. Foi vista em vários espaços In voga da cidade algarvia sempre na companhia da sua amiga Débora. A bela morena foi bastante discreta na sua estadia porém, essa foi quebrada quando no último dia em solo algarvio, se mostrou claramente animada no Sasha Summer Sessions. A bela morena arrastou-se pelo areal numa indumentária muito elegante e tipicamente da época que não deixou nenhum dos presentes indiferentes à beleza da jovem. E um dos presentes que lhe caiu aos pés foi um jovem que também já deu cartas na música, Diogo Amaral, que segundo fontes próximas do casal foi “a grande paixão de Adriana durante três anos, namoraram alguns meses, mas a relação nunca vingou devido à falta de maturidade de Diogo. Apesar de recente relação dela com David, o Diogo nunca a escondeu e a cumplicidade entre ambos ainda é muita” revelou uma fonte próxima de ambos. Certo é que Adriana mantém uma relação de seis meses com o craque benfiquista, mas as imagens falam por si. Estará encontrado um novo triângulo amoroso?”

Achei ridículo tudo aquilo que li naquelas páginas.

- Isto não tem pés nem cabeça, David! – fechei a revista e atirei-a para o sofá

- Não? Essas imagens, meu Deus! – ele jogou as mãos à cabeça e começou a andar de um lado para o outro

- Estas imagens passam a ideia errada! É verdade que ele se tentou aproximar de mim, mas não aconteceu nada, nada de nada! Eu sei o que quero e sou fiel ao que sinto! – afirmei sem sequer deixar que a minha voz treme-se

- Não? Ele tá colado em você! Só faltou foto se beijando! – ironizou gesticulando com as mãos e aquelas palavras magoaram-me

- Olha, David, nem digas mais nada! Pensava que confiavas e mim, que percebias que é a ti que
eu amo!

- Com imagens dessas fica impossível confiar em você! – ele elevou-me a voz e senti as lágrimas molharem-me o rosto, se havia coisa que eu não suportava era falta de confiança

Não disse mais nada, avancei pelo quarto dentro e vesti-me com uma rapidez que não me era de todo familiar. Arrumei ás poucas coisas que tinha trazido para aqueles dias em casa de David na minha mochila de costas.

- Onde cê vai? – ele entrou no quarto e olhava-me desesperado

- Embora… és assim tão parvo que não percebes?

- Não faz isso… Vamo falar!

- Já disseste tudo, David! – vesti o casaco e coloquei a mochila às costas – Estão aqui as chaves que o porteiro me deu! – atirei-as para cima da cama

- Obrigada pela noite! Boa sorte para o jogo de amanhã! – desejei e saí porta fora

Sai do prédio, desci três ruas e quando me senti finalmente em segurança, entreguei-me ao choro.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Capítulo 102 – Não faças isto, por favor! (Parte II)

As semanas passavam a correr, não havia um único dia que eu não falasse com David e esbarra-se com Diogo em alguma praia ou rua de Portimão, a situação começava a tornar-se insustentável.




- Foda-se, estou farta de ver este gajo à frente! – praguejei ao ver Diogo entrar na esplanada onde eu e Débora comíamos um gelado


- Hey, relaxa… Senão lhe ligares ele também não diz nada!


-Ah sim, claro! É que tudo me acontece! Primeiro a revista, depois algumas pessoas já acharem que me viram em algum lado, mas sonham elas que é da revista e depois este a aparecer em todo o lado, a toda a hora, nas minhas férias!
- Não é por isso que as férias deixam de ser boas…Pena estarem quase no fim, as duas semanas passaram a correr! – ela lamentava-se da fartura, aquelas férias tinham sido óptimas apesar da distância de David e da proximidade indesejada de Diogo


- Estás a reclamar de barriguinha cheia! Estas férias foram óptimas, apesar de tudo… - corrigi relembrando toda a inconveniência de Diogo


- Hum, é verdade… E a noite de despedida hoje é p’ra rebentar, só acaba de manhã!


- Hum, estou mortinha! – fiz um sorriso carregado de entusiasmo e dei outra colherada na taça de gelado




***


Eu e a Débora ficámos prontas bastante cedo, passámos no restaurante do hotel para jantar e seguimos para o Sasha summer sessions, uma festa bastante badalada e conhecida no mundo da tertúlias cor-de-rosa e à qual o acesso me era bastante facilitado.





Mostrei a minha pulseira na entrada e Débora fez o mesmo, entrámos automaticamente e ainda pedíamos as bebidas quando fomos interceptadas pelo maior empecilho da noite.

- Boa noite, belezas! – cumprimentou Diogo num tom pejorativo

“Oh por amor de Deus, só me faltava mais este!” – foi o meu primeiro pensamento
- Boa noite, Diogo… - respondi friamente

- Boa noite – cumprimentou também Débora

- Estás linda… - falou apenas para mim
- Obrigada – fiz um sorriso amarelo

- Estão sozinhas?

- Sim, mas estamos bem assim! – contrapus antes que ele nos convidasse a juntar a si

- Já percebi, mas já sabem se quiseres companhia a malta está na mesa de ali… - apontou para um canto do espaço onde se realizava a festa, mas eu nem desviei o olhar nessa direcção

- Obrigada, mas não será preciso! – esbocei um novo sorriso amarelo, agarrei Débora pela mão e saí da frente dele

- Também não era preciso teres respondido assim… Ele até estava a ser simpático…- sussurrou-me Débora enquanto eu a puxava apressadamente

- Nós sabemos muito bem onde é que esta simpatia dele acaba sempre e sinceramente a minha pachorra para ele, acabou! – eu estava decidida a manter a distância dele naquela noite

A festa avançou noite dentro, dancei e bebi juntamente com Débora, mas ela passou com certeza os seus limites e a meio da noite teve de se sentar, mas nem assim eu estava determinada a acabar com o meu divertimento.
Foi aí que Diogo se aproveitou da minha falta de companhia e me arrastou até um canto com menos confusão no intuito de falar.

- Preciso muito falar contigo…

- Não estou a ver sobre o quê… - tentei virar costas, mas com alguma violência intencional ele puxou-me de novo para si

- Sobre ti… Sobre mim… Sobre nós!

- Poupa-me, Diogo! Não existe mais um nós! Tu não estás bom da cabeça…
- Gostas assim tanto dele? – ele começou a aproximar o seu corpo do meu e eu tremi
- Diogo…
- Diz-me! Gostas assim tanto dele? – ele manteve a proximidade perturbadora
- Sim… Eu amo-o! – afirmei segura
- E a mim? Já não me amas? – quando dei conta os lábios dele estavam mais próximos dos meus,
o meu corpo oscilou de cima abaixo
Diogo sabia tão bem como eu que tinha sido o meu primeiro amor e usou isso a seu favor, ele sabia como me dominar. Qualquer aproximação dele far-me-ia, sempre, e infelizmente sempre, balançar, mas eu tinha esperanças que um dia deixasse de o fazer.
- Não… Tu és passado... – murmurei com a voz trémula
- Não acredito em ti… - senti o hálito dele nos meus lábios
- É a verdade… - refutei com alguma segurança na voz, mas eu estava incomodada com aquela proximidade tão curta das nossas bocas
- E se eu te beijasse agora? Vais dizer que não ias sentir nada? – ele não podia fazer aquilo, eu era fraca e talvez fosse vacilar, e eu não queria, não podia fazê-lo
- Tu não vais fazer isso! – pedi e o desespero notou-se na minha voz
- Não? – a testa dele enrugou-se e olhou-me nos olhos – Tu já me devias conhecer melhor…
- Não o vais saber, porque sabes que sou comprometida, que amo o meu namorado…
- A ele não lhe devo respeito nenhum… - a mão dele rodeou a minha cintura, ele ia mesmo fazê-lo
- Não me faças isto… Por favor! – implorei quase com as lágrimas a cegarem-me

Porque é que eu não era capaz de acabar com aquilo? Porquê, se eu amava tanto o David?
Ele anulou a distância entre nos nossos corpos, mas quando ia fazer o mesmo com as nossas bocas eu afastei-me. Ele olhou-me com estranheza, para variar e desde que ele me conhecera eu tinha resistido à sua manipulação. Tinha-o feito por David, porque o amava, e Diogo era nada mais do que uma lembrança amarga do passado e que infelizmente teimava em atormentar o meu presente.
- Então? Não me vais deixar fazê-lo? Tens medo de quê, de sentir alguma coisa? – questionou-me seguro ainda numa vitória sobre o meu domínio
- Não, só que não precisas de fazê-lo, porque eu sei exactamente aquilo que vou sentir… Amo o David, Diogo. A nossa história, isto é se lhe pudemos chamar história ficou no passado e eu agora sou feliz, por isso permite a ti mesmo um pouco de dignidade nesta história, deixa-me ser feliz e vai à procura da tua felicidade, garanto-te que não é do meu lado.
Ele olhou-me, percebi que tinha ficado magoado, afinal ele amava-me tinha era levado demasiado tempo para o perceber, mais do que o meu coração esteve disposto a esperar.
- Eu não vou desistir… Não vou! – ele parecia decidido
- Diogo, por amor de Deus… Não me faças isto, por favor!
- Vou lutar… Pelo menos tenho esse direito…
- Não o faças, por favor… Se me amas como dizes , não o faças! – pedi desesperadamente
- Tudo bem, mas de esperar por ti não me podes impedir, vou sempre fazê-lo… - os olhos dele brilhavam de uma forma tão intensa que tive medo que essa mesma intensidade corresponde-se à do sentimento que o consumia, dia após dia
- Por favor, Diogo… Não esperes por alguém que não vai querer voltar
- Tu vais! Eu sei que vais… Olha-me nos olhos! – eu desviei a cara nesse exacto momento – Adriana, olha-me nos olhos, estou a pedir-te… - a voz dele era serena e a sua mão obrigou-me a olhá-lo nos olhos
O toque dele fez-me estremecer, há demasiado tempo que ele não me tocava, as nossas peles já nem se recordavam da leveza uma da outra. Olhei-o nos olhos, mas fechei-os seguidamente.
- Por favor… - sussurrou e senti a sua respiração nos meus lábios, tamanha era a proximidade das nossas bocas
Acabei por lhe fazer a vontade e abri os meus olhos, a primeira coisa que vi foram os seus grandes olhos azuis.
- Tu agora não vês essa hipótese, mas acredita que isto vai acabar… Vais querer ter alguém p’ra onde correr e nessa altura, esse alguém serei eu. Por isso prometo-te aqui, a olhar nos teus olhos, que um dia vais querer voltar e eu vou estar aqui, como sempre estive…
Um sopro gélido percorreu-me a espinha e provocou um espasmo nos meus músculos tensos. Assustava-me a hipótese dele ter razão, ele deu-me um beijo leve no rosto, mas muito sentido, virou-me costas não sem antes soltar um sorriso bem delineado e misturou-se na multidão dos festivaleiros que enchiam os recintos.
- Adriana, fofinha! – a voz tola da Débora, que estava bem mais do que alegre, surgiu nas minhas costas assim como o seu peso sob o meu corpo – Estavas aqui!
- Estava, estava, mas já vi que a ti isso ainda não te passou! – refilei com ela puxando-o para junto de mim – Por hoje a festa chega ao fim…
- Não… Mais um bocadinho! – pediu-me com as pernas bambas
- Eu vou-me embora, queres ficar, ficas! – soltei-me dela e avancei por entre a multidão tentando sair do espaço, esbarrei em alguém – Desculpe!
Quando olhei para cima, os grandes olhos de um azul profundo de Diogo estavam novamente cravados em mim. Ele segurou-me levemente na cintura devido à nossa proximidade.
- Adrianinha, espera por mim! – Débora surgiu do nada, dançando e rodopiando de forma tosca por entre a pista de dança
- Vamos embora, Débora… - puxei-a por um braço e o seu estado era claramente lastimável
- O que é que ela tem? – questionou-me ele
- Olha 17 bebidas a mais do que no início da noite! – ironizei
- Shii, que grande pifo! Eu ajudo-te… - ele agarrou em Débora pelo outro braço e enfiou-a no seu carro, disposto a levar-nos ao hotel
- Eu vou tentar chegar lá antes de vocês, mas se não estiver lá ela tem a chaves, deixa-a lá na recepção que eu entretanto devo chegar… - disse do lado de fora do carro lado a lado com Diogo
- Não digas disparates… Eu não mordo, podes vir connosco – ele fez uma pausa e um sorriso atrevido esboçou-lhe a boca – Ou estás com medo de não conseguires aguentar tão próxima de mim?
- Não digas disparates, simplesmente não quero confusões p’ró meu lado…
- Se te portares bem, não haverão confusões, deixa-te de cenas, entra lá no carro! – ele entrou p’ró lugar de condutor e eu segui e sentei-me no de pendura
Não tirei durante um minuto que fosse o olhar do vazio, apesar de sentir os olhos dele, colados em mim. Faziam trajectos cobertos de desejo pelo meu corpo e isso deixava-me incomodada, pois já não imaginava ninguém a fazê-lo sem ser David. E um sorriso leve iluminou a minha boca ao lembrar-me dele e do seu rosto, bem definido no meu pensamento.
- Chegámos, é aqui, certo? – perguntou espreitando pelo vidro aberto
- Sim, é aqui… Obrigada! – sorri forçosamente
Ele ajudou-me a tirar a Débora do carro e esta entrou pelo jardim do hotel a dentro a cantar e a rodopiar feita uma maluquinha, no meio daquilo tudo até tinha a sua graça.
- Mexe o kuduro, balança que é uma loucura, morena vem a meu lado, ninguém vai ficar parado… - a voz dela tornou-se sumida à medida que ela se afastou
- Obrigada por tudo, Diogo… - dei-lhe um beijo rápido no rosto e sem qualquer sentimento, sem ser o de gratidão

- Não me agradeças, eu quando disse que ia estar aqui p’ra tudo não estava brincar! – ele olhou-me profundamente nos olhos e eu tremi novamente, ele arrepiava-me de uma maneira para a qual não encontrava explicação – Boa noite, dorme bem… Vemo-nos por aí… - ele hesitou – … quem sabe!

Deu-me um beijo muito próximo do meu canto da boca, fechei os olhos e tive uma sensação de estar a retroceder no tempo, mas agora era diferente. Enquanto a minha cabeça me vazia viajar pelo passado, o meu coração arrastava-me até aos Estados Unidos, até ao coração do homem que eu amo, David.
Diogo podia balançar comigo, mas com as minhas certezas nunca!
Afastei-me até o ver entrar no carro e seguir o seu caminho, finalmente ele tinha ido embora e eu estava novamente sozinha. Amanhã estava novamente em Lisboa para ir buscar o homem que eu amava ao aeroporto, mas e agora?
Deveria eu contar-lhe o que se passara naquelas férias ou isso iria trazer-me problemas.
Diogo não balançou as minhas certezas, mas arrastou-me para um mar de dúvidas e medos… como sempre o fizera durante três anos.