Débora - Vá para casa Isabel... Isto ainda vai demorar e está muito nervorsa... Vá e quando houver novidades eu ligo! Prometo!
Anabela - Sim... Eu e o Virgílio vamos contigo e com o Francisco.
Isabel - Mas eu não quero deixar cá a minha filha...
Francisco (pai de Adriana) - Eles têm razão. Vamos a casa, tens de comer qualquer coisa. Quando houver novidades da nossa filha voltamos. Vá lá! Tu estás muito nervosa!
Isabel - Tudo bem... Mas mal saibas de alguma coisa liga!
Débora - Prometo!
Anabela - Filho, eu e o teu pai vamos com eles para dar uma força. Tu ficas?
Ruben - Claro!(Eles vão embora e os restantes sentam-se em bancos corridos que formavam um quadrado)
Débora - Eu não sei como isto foi acontecer... Se lhe acontecer alguma coisa eu nunca mais me perdoou!
Inês - A culpa não foi tua! (puxa-a para o seu ombro)
Débora - Ela não tem andado bem... Eu não lhe devia ter emprestado o carro...
Ruben - Não te culpes! Tu sabes que a culpa não foi tua!
Débora - Não vamos entrar por aí! Ninguém teve culpa mas muita coisa influênciou (olhou de soslaio para David fazendo uma acusação em surdina que saltou aos olhos de todos os presentes porém David não deu qualquer resposta e deixou-se estar com os olhos postos no chão absorto nos seus pensamentos)
Ruben - Débora! A Adriana se aqui estivesse não gostaria dessa atitude.
Adriana - Não fales dela como se estivesse morta! (enervada)
Inês - Não foi isso que o Ruben quis dizer... Eu acho que devemos acalmar-nos, estão todos muito nervosos e isso não vai ajudar a Adriana em nada.
Débora - Tens razão. Desculpem-me!
Médico - Os familiares de Adriana Vale?
Débora - Somos nós! (todos se levantam) Como é que ela está Senhor Doutor?
Médico - A Adriana teve um acidente que lhe provocou alguns traumatismos internos e algumas escoriações e hematomas no rosto e no corpo. Os pulmões dela entraram em colapso devido á força do embate e por consequência em paragem cardio-respiratória, o estado dela ainda é de cuidado mas está fora de perigo. Amanhã á tarde já deve ter alta...
Débora - Graças a Deus! (todos se abraçam e suspiram aliviados) Quando é que a podemos ver?Médico - Ela já pode receber visitas apesar de ainda ir passar a noite num quarto dos cuidados intermédios mas peço que o façam individualmente pelas razões óbvias.
Débora - Obrigada Senhor Doutor! Muito Obrigada! (Doutor retira-se) Quem quer ir primeiro?Ruben - Vai tu... Diz-lhe que eu estou cá fora e vou vê-la já a seguir.
Débora - Eu digo não te preocupes! (sai numa marcha rápida)
Inês - Vês amor? Eu disse-te que ia tudo correr bem...
Ruben - Ligas aos meus pais?
Inês - Claro!
Ruben - Eu vou falar com o David... Ele pareçe um bocado abalado.
Inês - Vai amor! (beijam-se rapidamente)
Ruben - Então mano? Mais descançado?
David - Sim, claro. Sabe aquilo que dizem é verdade. A gente só dá valor pr'aquilo que tinha quando estamos quase perdendo ou perdemos essa coisa ou pessoa.
Ruben - Referes-te a ela?
David - Sim... Você sabe, durante três meses eu não sabia explicar o que eu estava sentido... Essa menina, uma menininha na verdade, virou meu mundo ponta-cabeceira e eu não sabia o que fazer nem explicar como é que ela era capaz disso. E agora sei. Eu... Eu amo ela! Foi um pouquinho tarde mas eu cheguei lá. Devia ter dito isso pra ela muito antes.
Ruben - Nunca é tarde!
David - Agora é um bocadinho... Ela já não confia em mim. Tudo por causa de um estúpido mal entendido.
Ruben - Isto passa-lhe. Vais ver. Quando ela te vir assim preocupadissimo com ela ela reconsidera...
David - É assim tão óbvio que eu estou preocupado com ela?
Ruben - É... Um bocadinho (riem-se) Vocês vão acabar por resolver isto...
David - Não me pareçe. Ela acha que somos incompatíveis... Sempre achou. Vivia dizendo que somos de mundos completamente diferentes... Talvez ela esteja certa...
Ruben - Nada disso! Vocês são tão iguais mas tão diferentes! Vocês completam-se são do mesmo mundo, aquele em que se amam. Ela é só casmurra. Não quero que desistas... Afinal quem é o fraquinho?
David - Você! Disso não há nenhuma dúvida! (riem-se)
Quarto:
Débora entra e vê Adriana deitada ligada a algumas máquinas e com uma máscara de oxigénio desmedidamente grande para o seu rosto pequeno e delicado e por isso cobria a maior parte das sequelas fisicas do acidente que marcavam o seu rosto.
Débora - Olá! Como te sentes? (dá-lhe a mão e faz-lhe uma festa no rosto)
Adriana - Como se um camião me tivesse passado por cima... (desvia a máscara para poder falar)Débora - Pregaste-me cá um susto...
Adriana - Perdoa-me, eu não queria...Eu tentei controlar o carro mas saiu-me de controlo...
Débora - Shiu! Não te preocupes com isso. Os teus pais foram a casa porque a tua mãe estava nervosa e os pais do Ruben foram com ele...
Adriana - Os meus pais... O desgosto que eu lhes vou dar... Mais valia ter morrido (diz sem pensar)
Débora - Não digas isso! Isso sim seria um desgosto para os teus pais.
Adriana - Só eles mesmo é que se iriam importar...
Débora - E os teus amigos? E eu? Estão todos lá fora! O Ruben, a Inês, a Andreia, e a Romanella e o Savi vêm a caminho... (Débora hesita) ...O David...
Adriana - Dele eu não quero saber!
Débora - Ele está preocupado...
Adriana - Os remorsos são assim...
Débora - Devias a pensar bem no que andas a fazer... Talvez estejas a ser injusta...
Adriana - Talvez esteja... (respiração falta-lhe) Mas ele é que me fez agir assim. Por culpa dele (inspira fundo porcurando ar para continuar a falar) e do inferno em que a minha vida se transformou por causa dele eu considerei não travar... Tu sabes que eu jamais ponderaria deixar-me morrer.
Débora - Tu não eras capaz... Tu não farias isso pois não?
Adriana - Não o fiz de propósito. Mas por momentos duvidei. A minha vida está uma confusão.
Débora - Mas nada justifica desistir assim...
Adriana - Eu não fiz de propósito!
Débora - Tu podias ter morrido. Tens a noção do desgosto que ias dar aos teus pais? Aos teus amigos? As pessoas que gostam de ti? Por causa dele?
Adriana - Foi um acidente! (falta-lhe a respiração novamente e coloca a máscara durante dois segundos) Eu tinha discutido com ele, ia nervorsa, distraida e aconteceu. Lamento se não sou a menina perfeita e lutadora que todos pensam. Lamento se te desiludi!
Débora - Não sabes o quanto me culpei...
Adriana - A culpa não foi tua...Não foi de ninguém...
Débora - Eu a culpar-me e tudo por culpa dele! E o pior é que isto podia ter sido evitado. Só estás assim porque queres! (censura-a)
Adriana - Afinal estás de que lado?
Débora - Não é uma questão de lados... Tu estás mal porque queres, tens um acidente com o meu carro, e eu a culpar-me. E se te tivesse acontecido alguma coisa? Eu culpar-me-ia até ao resto dos meus dias!
Adriana - Então eu acho que peço desculpa.
Os olhos de Débora enchem-se de lágrimas e ela deixa o quarto.
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