David
Apesar de a minha menininha ter acordado sobressaltada com aquele maldito pesadelo, ela acabou por se acalmar e a viagem até à casa de família dela foi feita num envolto de serenidade.
Ela seguiu todo o caminho calada, escutando a música que passava na rádio mas sem nunca tirar a mão da minha perna, acho que porque o medo de aquele pesadelo ter sido verdade ainda a assaltava.
Já avistava o acesso da pequena estrada para a casa da família dela quando me apercebi do quão longe ela tava e resolvi quebrar o silêncio.
- Princesa? – eu chamei por ela e finalmente ela me encarou – Tá se sentindo bem?
- Sim, estava só para aqui a pensar… - respondeu com um falso sorriso tranquilo nos lábios
- A pensar no que não deve, certo? – elevei as sobrancelhas ao mesmo tempo que a censurei
- A pensar no meu avô… No sonho de ontem à noite… - revelou encolhendo-se mais no seu lugar
- Meu amô, não quero cê pensando nessas coisas não, viu? Foi só um sonho, desliga disso vai! Não vai acontecer nada não, eu tou aqui…
- Eu sei David mas aquele maldito sonho não me sai da cabeça! - ela parecia realmente incomodada com tudo aquilo
- Meu amô, esquece vai! Foi isso mesmo! Só sonho! – eu fui desviando o olhar da estrada p’ra tentar desvendar as expressões dela e a única coisa que encontrei foi um olhar completamente vidrado e desesperado
- Mas foi tão real… E a possibilidade de te perder assustou-me! Assustou-me como nunca nada me tinha assustado na vida… - o choro começou a ser evidente na sua voz
- Oi, cê não vai chorar não! Não quero ver você assim… Você tava vivendo muito o momento do seu avô e a possibilidade de o perder. E como tem muito medo que isso aconteça …
- … acabei por arrastar esse medo de perda para outra pessoa que amo e sem a qual não sei viver! – ela me interrompeu e completou o que eu ia dizer, não com as mesmas palavras que eu usaria mas com a mesma ideia que eu tinha
- Eu não vou deixar você e me mata ver você nessa angústia toda, meu anjo… - eu mantinha o olhar atento na estrada
- Ó David foi só um sonho mas podia ter sido realidade… E aí tu tinhas morrido sem sequer saberes o quanto eu te amo, sem te ter dado um último beijo… Sem me ter despedido! – o corpo dela tremeu quando pronunciou a última frase
- Eu sei o quanto você me ama e em relação a despedir, entre nós nunca poderá haver um adeus. Qualquer separação será sempre um até sempre… Estamos ligados de um modo que já não existe distância possível que nos separe… - ela me olhou profundamente nos olhos e sorriu, eu percebi que a tinha acalmado com as minhas palavras - E quanto ao seu avô vai com calma, como você mesma me disse ele não sabe da gravidade da situação e a sua mãe pediu p’ra você aproveitar o momento em família e esquecer essa doença… - eu tentei tranquilizar ela
- Sim, tens razão… Eu tenho de me tentar abstrair disto tudo. Aproveitar o momento em família... Matar saudades de quem já não vejo há imenso tempo e apresentar-te a todos… - ela sorriu e senti todo o seu copo relaxar
- Viu? Essa sim é minha menina falando… - desviei o olhar da estrada momentaneamente e vi-a sorrir – Viu? Esse sorriso… - ela escondeu-o – Ué? Cada o sorriso? Eu tava gostando… ela permaneceu escondendo o seu sorriso tão característico – Pô faz aì um sorrisinho p’ra mim vai… É o seu namorado que tá pedindo… - pedinchei
Ela fez um sorriso visivelmente forçado e feio que me deu uma vontade incontrolável de rir. Me fez lembrar aquelas menininhas pequenas fazendo birra e quando os papais lhes pedem um sorriso elas fazem um que mais parece careta.
- Caraca, que bicho feio! – brinquei com ela
- Não gostas, não olhas! – respondeu sorrindo agora perfeitinha
- Assim eu gosto mais! – sorrimos ambos um para o outro e quando dei conta a gente tava chegando na Quinta da família dela, com o carro do Manz mesmo atrás de nós – Chegámo! – informei tirando a chave da ignição
Ela parou, olhou cada recanto que nos envolvia e sorriu timidamente. Depois de admirar tudo, ao mesmo tempo que eu a admirava a ela, ela fixou o seu olhar meigo em mim e me deu a mão com força.
- Obrigada por estares aqui, amor…
- Não me agradeça, tou aqui de coração! – e era verdade, eu tava ali porque queria tar do lado dela agora e nos meus planos, por toda a vida, mas isso ela ainda desconhecia…
- Amo-te! – ela se inclinou p’ra me beijar, saiu do carro e eu a segui tomando posição junto dela na bagageira
- Cê ultimamente anda maior gata! – afirmei reparando na roupa que ela trazia vestida
- Eish, que exagero! Estou normal, amor… - ela agiu naturalmente abrindo a bagageira p’ra retirar as nossas coisas
- Não tou exagerando… Eu tou namorando a mulher mais bonita desse mundo! – o meu orgulho era evidente nas minhas palavras e no meu sorriso
Ela me beijou sem sobre aviso e eu adorei que ela tivesse tomado a iniciativa, os beijos dela me deixavam sem jeito e cada vez mais apaixonado por ela, sempre que eu julgava que mais apaixonado do que aquilo era impossível. Entendi então que ela me beijou porque tava sem jeito e me quis calar.
- Boba! – acusei num sorriso dando-lhe um leve beijo na nuca assim que me virou costas
- Cala-te que tu gostas! – ordenou e roubou-me um outro beijo
E cada beijo nosso era assim, carregado de entrega, de emoção, de sentimento. As nossas línguas bailavam ordenadas na união de nossas bocas e o gosto natural do seu beijo, e inesquecível p’ra mim, era notável e me agradava. Um gosto doce e só dela, um gosto que eu nunca havia provado mas que me fascinava.
- Hum, Hum – uma tossidela visivelmente forçada invadiu o ar quebrando o silêncio, era o Manz
Quebramos o beijo e vimo-lo especado na nossa frente com Inês do seu lado escondendo uma gargalhada
- Desculpem interromper o casalinho mas os índices de mel atingiram valores altíssimos e a as abelhas estão em crise de produção! – antes de eu puder dizer o que fosse Adriana pregou um valente tapa na cabeça de Ruben – Autch! Aleijaste-me ó besta!
- Desculpa lá interromper o parvalhão mas os índices de estupidez atingiram valores altíssimos e a sua presença tornou-se insuportável ó príncipe! – ela atirou aquela piada que visivelmente aborreceu Ruben mas que provocou em nós e em Inês uma risota geral
- Isso, riam-se de mim! Riam-se! – Ruben estava visivelmente indignado – Isso Inês! Junta-te a eles também!
- Ò amor, desculpa lá mas ela teve graça… - Inês segurava a barriga de tanto rir
- Inha! – um grito doce foi audível vindo da porta de casa
Com a tamanha rapidez com que ouvimos o grito de criança vimos um pequeno bebê surgir e correr na direcção de Adriana e se jogar em seus braços.
- Meu bichinho! – ela agarrou ele ao colo e o abraçou com força
- Inha, eu tinha saudades… - a maneira trapalhona de falar revelava que aquele pequeno ser não passava de um bebê de tenra idade
- Também eu, meu amor! Muitas! – ela sorriu, um sorriso genuíno, um sorriso de verdadeira felicidade enquanto apertou mais aquele menino pequeno, de sorriso travesso e caracóis loiros espevitados contra si
- Ruben! – o menino voltou a gritar enquanto se jogou nos braços de Ruben e brincou com Inês
- Quem é? – perguntei num sussurro a ela
- É o meu afilhado… - respondeu com um sorriso e passando a sua mão no meu rosto
- Ó Inha? Quem é esse rapaz gande? - o pequeno erguia uma sobrancelha no ar tentando adivinhar quem eu era
- Anda cá! – o menino passou novamente para os braços dela – Este é o namorado da madrinha, o David!
- Ó madinha és mesmo mentirosa! Este não é o teu namorado, é o macarrão do Benfica que jogo ao lado do carecão! – todos nos rimos perante tamanha perspicácia do menino
- Ó amor é ele sim mas é meu namorado… - ela respondeu-lhe com toda a ternura possível
- Mas eu não quero! A madinha é minha e eu num quero! – o menino amuou e eu tive medo que ele não gostasse de mim
- Não queres porque amor?
- Porque ele também tem calacoles como eu e depois vais gostar mais dele do que de mim! – foi inevitável não nos rirmos novamente
- Ó meu amor, são amores diferentes… Tu vais ser sempre o meu bichinho e ele vai ser sempre o meu namorado mas não quer dizer que eu goste mais dele do que de ti… Muito menos porque ele tem caracóis! – explicou compreensiva
- Não mintas à criança, Adriana! – Ruben se meteu na conversa
- Tá calado, ó! – ela voltou a dar-lhe um tapa na cabeça – Não ligues ao que ele diz, bichinho… - fez-lhe uma leve festa no rosto
O pequeno se inclinou p’ra mim e agarrou num caracol meu puxando por ele, sorriu sozinho.
- Não impota! Os meus são melhores que os dele! – todos nos rimos novamente
O menino se atirou no meu colo e eu senti uma enorme vontade de ter um ser daqueles só meu. Só meu e da mulher que eu amava, um enorme instinto paternal desceu sobre mim. Apertei aquele ser contra mim e me juntei às gargalhadas dos restantes.
- Ó madinha isto aqui de cima é muito mais giro do que do teu colo! – afirmou a pequena criança fascinada pelo um metro e oitenta e oito a que estava do chão
- Cê tem razão, sua madrinha é uma fraquinha! – brinquei com o pequenote e ela me repreendeu com o olhar
- Faquinha! A madinha é uma faquinha! – o pequeno saltou do meu colo e num jeito trapalhão foi cantarolando essa frase ao mesmo tempo que se encaminhava para o interior da casa
- Fraquinha hã? – refilou, me fuzilou com o olhar e se aproximou – Com que então fraquinha?
- Ó amorzinho, tava de sacanagem… - me atrapalhei todo
- Tava de sacanagem? Cê tava de sacanagem né? – ela imitou meu sotaque e me deu vontade de rir – Ainda te ris? – ela avançava na minha direcção com um ar muito zangado
- Bem o circo vai pegar fogo e eu vou bazar antes que sobre para mim! – Ruben e Inês desapareceram com uma rapidez inacreditável
- Meu amô, vai com calma…
- Calma o tanas! Hoje estás feito! – ela me virou costas
- Vai onde? – perguntei confuso
- Vou mudar de roupa! – respondeu de forma bruta
- Deixa que eu te ajudo… - sugeri em jeito de safadeza encostando meu corpo nas costas dela
- Não te estiques, menino David! – ela me beliscou a barriga e eu gemi de dor
- Ai, ai, pronto tá bom! Eu nem chego mais perto de você! Me machucou!
- Desculpa, amor… Tava a brincar contigo só não gostei foi que arrastasses o meu menino para essa onda de Davidomaniacos! – ambos nos rimos
- Fazer o quê né? Eu sou uma gracinha… Ninguém me resiste! – fiz o meu charme p’ra cima dela e quando tava prestes a beijá-la ela me escapou
- Ai é? Vamos ver o que a minha família tem a dizer sobre isso, Sr. Irresistível! – ela me puxou por um braço até entrar em casa
***
Adriana
Apresentei o David aos meus familiares ele estava certo no meio de tanta brincadeira, todos simpatizaram com ele e os meus pais ficaram felizes por o rever ao fim de há já algum tempo.
- É um prazer reverte, rapaz! – o meu pai deu-lhe uma leve palmada nas costas
- O prazer é meu, senhor! – David respondeu-lhe educado com um sorriso nos lábios
- Estás com bom aspecto David, mais… mais… – a minha mãe não encontrava a palavra certa
- Mais gordo, mãe? É dos cozinhados da Dona Regina, porque ele cá só come refeições pré-cozinhadas! Solteirões sabes como é…– ambos nos rimos
- Aì, meu anjo, é só você querer mudar essa minha condição que eu topo na hora! – aquilo saiu disparado da boca de David e eu fiquei sem reacção
Ruben, Inês, os meus pais e David ficaram expectantes a olhar na minha direcção mas eu perdi qualquer reacção.
David acabara de me convidar para viver com ele de forma indirecta ou eu estaria a fazer um grande filme na minha cabeça. O toque do meu telemóvel interrompeu-me.
No ecrã identifiquei imediatamente que era uma chamada de Bianca, pedi licença e afastei-me até á varanda para atender a chamada.
- Olá princepesca! – disse num tom de voz animado que já lhe era tão característico
- Olá minha princesa! Tudo bem?
- Sim, tudo e contigo?
- Também… Acho que me salvaste do momento mais esquisito da minha vida!
- Então? - o seu tom de voz era preocupado, a entrega nesta amizade por parte de Bianca era evidente e eu não conseguia arranjar palavras para lhe agradeçer por muito que quisesse
- Acho que o David acabou de me convidar para morar com ele, indirectamente á frente dos meus pais do Ruben e da Inês…
- AHHHHHHH! – ouvi um grito histérico do outro lado do telefone – Mas isso é óptimo minha tonta!
- Era óptimo se eu não tivesse ficado tipo múmia a olhar para ele e tu me tivesses ligado para me salvar… - sentei-me na ponta de uma esteira que havia na varanda
- Olha lá tu não o amas?
- Pergunta parva, Bianca! Claro que amo!
- Então… Não queres poder acordar todos os dias nos braços dele?
- Ó princesa, sei lá! Eu e ele ainda nem sequer…
- Não? Epá isso tá assim tão mau?
- Não é mau… É que eu ainda sou virgem e tenho medo entendes? Mas estava na esperança de finalmente ganhar coragem e me atirar de cabeça!
- Estás a pensar demais… Vocês ama-se, o David jamais te magoaria…
- Eu sei mas se isto entre nós não resultar eu tenho medo de olhar para trás e me arrepender de ter sido com ele…
- Se tu o amas como dizes e for feito por amor, não te vais arrepender. Garanto! – a segurança na voz de Bianca aqueceu-me o coração de uma maneira que há muito uma amizade minha não o fazia
- Obrigada princesa! Muito obrigada! – sorri
- Não me agradeças! Lembras-te do que me dizes sempre? A amizade não se agradece retribui-se? Vai lá ser feliz!
- Vou sim! Beijinho! Te amo princesa!
- Yo te amo un moton, mi princepesca! Besos! – e desligou a chamada
Uns passos na varanda fizeram-me virar a cabeça para ver quem era mas tão certo como a imagem que os meus olhos me davam, o meu coração me dava a certeza que era David, e confirmou-se.
- Era a Bianca…- quebrei o ambiente informando-o apesar de ele não me ter pedido qualquer justificação – Queria saber se estava tudo bem…
Ele não me respondeu e nem tão pouco se moveu do sítio onde estava. Tentei passar para entrar dentro de casa mas ele inicio uma brincadeira e sempre que eu me virava para o caminho livre ele barrava-me.
- Tá fugindo de mim? – ele já me conhecia e se eu era incapaz de o olhar nos olhos algo se passava
Continuei de olhos presos à tijoleira que cobria o pavimento da varanda e em movimento esguios tentando livrar-me dele mas ele insistia e eu sabia que algum de nós teria de ceder. Mas foi a voz da minha mãe que ditou essa cedência.
- Adriana, está na hora do almoço! Vem!
Foi ele a desistir e com a desilusão evidente do meu silêncio estampada no rosto, deixou-me passar sem me olhar sequer nos olhos.
Tomei o caminho para dentro de casa perseguida por ele e pela sua desilusão e pela sombra... Pela minha sombra, carregada de mais um estrago que eu tinha feito com medo da entrega total à vida de David, ao nosso amor mas mais do que isso, com medo da entrega total a David.
Tomei o caminho para dentro de casa perseguida por ele e pela sua desilusão e pela sombra... Pela minha sombra, carregada de mais um estrago que eu tinha feito com medo da entrega total à vida de David, ao nosso amor mas mais do que isso, com medo da entrega total a David.
12 comentários:
AMEEIIIIIIIIIIII !!
"Epá", óh minha princepesca, amei este capítulo !! Isto são quase quase as nossas conversas !!
Amei mesmo, a maneira de como tu escreves, aiiii ^^
Obrigada, Princesa Minha (L)
Parabéns e Continua !!
Beijãooo :D
Ahhh e gosto bastante do novo design da Fic ! ^^
Hum... agora quero o parte II
continua
adoro
bjs
Que lindo *.*
oHhh tava tao bommMM... sabes é natal devias ser mais boazinha com agente e nao nos matar de curiosidade.... ^PP
...agora a serio, os teus capitulos sao um arraso, a maneira como tao escritos, os detalhes que escreves...tudo...torna esta fanfic numa autentica maravilha...
bjoo PArabensS E qeRo maiSS :DDD
Bom NAtAL *))
x.O.X.o
Adorei! :D
Feliz Natal Dri :)
tou sem palavras...
quero mais...
continua... posta a parte II...
Olá,
mais uma vez ADOREI, és fantástica.
Continua por favor...
beijo :)
Lindo!!! Muito bom.
Mas quero mais... agora k tava tão bom tinhas de acabar???
Adoro a tua fic, é msm mt boa.
Continua, tou ansiosa pelo próximo.
Beijinhos
ADOREI DRIII *-*
quero mais pode ser? Assim tipo prenda de natal atrasada XD
by the way adoro o novo style do blog :) muito nice :)
beijinho querida :D
ADRIANAAAAAAAAAAAA! quero o capítulo 100, vá láaaaaaaa.
Estou aqui a morrer
LINDO *.*
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